domingo, 30 de outubro de 2022

The New Pope (2019–2020)

[contém spoilers inevitáveis; aconselho a ver primeiro “The Young Pope”]

“The New Pope” é a segunda temporada de “The Young Pope”. Isto é confuso porque as temporadas têm nomes diferentes e a série não tem um título comum a ambas. O realizador Paolo Sorrentino já confirmou que haverá uma terceira, para nossa delícia.
No entanto, tenho de ser franca. Não gostei tanto desta temporada como da primeira, se calhar porque se perdeu o efeito de choque, ou porque os enredos e sub-enredos desenvolvidos não são tão interessantes. E por outra razão, que a princípio me desagradou e que pelo fim já me irritava: Paolo Sorrentino não perde uma oportunidade de mostrar nudez e cenas lascivas gratuitas sem o mínimo interesse para o desenrolar dos acontecimentos. Isto chama-se pornografia, ou soft-porno, e eu não tenho paciência para este tipo de “cinema europeu” a pisar o risco sem razão válida. Reparem que não me queixei da orgia em “The Young Pope” porque fazia muito sentido para a história e para as personagens. Aqui temos uma cena em que Jude Law está nu, de costas para a câmara, dentro de uma fonte vazia, ao ar livre, a contemplar as vestes papais. Não me importei de ver (o senhor está em grande forma para a idade), mas pergunto: porquê? Quem é que leva as vestes papais para uma fonte húmida, de aspecto musgoso? O objectivo foi mostrar o rabo de Jude Law para agradar à audiência feminina, da mesma forma que muitas mulheres são desnudadas para agradar à masculina, e isto é sinceramente mau. Graças a deus não vimos o cardeal Voiello despido, porque não me parece que seja uma visão agradável…
Não é que não tenha havido cenas absurdas e engraçadas. Por exemplo, não gostei da rave das freiras no genérico, que mais pareciam strippers de luxo a dançar à volta de um poste. Curiosamente, não havia freiras feias, nem gordas, nem velhas. Eram todas umas top models. Realismo nenhum. Isto parece-me mesmo um sonho erótico de Sorrentino e nada mais. A cena deveria supostamente salientar um dos sub-enredos da temporada, a revolta das freiras do Vaticano que exigem mais direitos, mas este sub-enredo foi tão mal aproveitado e tão depressa descartado que nem vale a pena falar dele. Não gostei da rave das freiras, verdade, mas foi uma delícia ver a madre-superiora (que é anã) a dançar em cima da secretária, ou o cardeal Assente a saracotear-se com todos os seus tiques de gay assumido.
Aliás, os créditos da série continuam a ser um dos pontos fortes. Quando fazem Jude Law emergir do mar, apenas em bikini-cueca de um branco imaculado que resplandece como uma luz divina a apertar as “jóias papais” e todas as mulheres na praia ficam de boca aberta a apreciar, foi giro. Foi sublime.
A série continua a apostar em efeitos especiais geniais e quase surrealistas, quase à David Lynch, e quanto a isto “The Young Pope” e “The New Pope” são das melhores séries do momento e imperdíveis para quem gosta de boa cinematografia.

O Papa gótico
Mas vamos lá ao novo Papa. Com a ausência de Lenny (Jude Law), foi preciso eleger um novo pontífice, e as maquinações de Voiello (hilariantes) levaram os cardeais a votar no pateta Tommaso, antigo confessor de Lenny.
Tommaso é um franciscano que assume o poder e decide viver na mais abjecta pobreza, dormindo ele próprio no chão, abrindo o Vaticano aos imigrantes muçulmanos, possivelmente sírios (causando problemas inclusive com as autoridades italianas), e tentando doar todo o dinheiro da Igreja aos pobres. Tommaso não dura muito. Morre subitamente de ataque cardíaco e desconfia-se que foi assassinado. Mas terá mesmo sido? A série responde mais tarde.
O próximo elegível é Sir John Brannox (John Malkovich), católico inglês da nobreza britânica (penso que os pais são duques), erudito e dandy, que após uma carreira fulgurante que o levou a converter milhares de anglicanos ao catolicismo se retirou para a propriedade da família onde vive em reclusão, principescamente, na companhia apenas do seu mordomo e da sua cadela. Tal como Lenny, Brannox tem uma tragédia na família. Enquanto esquiavam, o seu irmão gémeo sofreu um acidente e morreu. Os pais de Brannox culpam-no e não lhe falam, chegando a fingir que ele não existe.
Brannox é um choque. Sempre elegantemente vestido, usa rímel e reclina-se languidamente nas chaises longues do seu palácio. Quando fala, mesmo de assuntos teológicos, é sempre com filosofia, poesia e intelecto, o que explica porque é que é admirado. Só os intelectuais o entendem; as pessoas comuns acham que diz coisas bonitas”. Brannox é um homem anacrónico, o poeta solitário e melancólico do século XIX que foge do mundo que o magoa para o refúgio da natureza e da fortuna de família onde vive em contemplação. Quando era adolescente, vimos a saber, teve uma fase punk, mas acho que só faltou um “bocadinho assim” para ser gótico. Perguntamo-nos, o que é que um homem destes, um esteta e um filósofo, está a fazer na Igreja? Porque os pais assim o determinaram, como acontece na realeza britânica. Um dos filhos devia ter sido cardeal, Adam, o filho preferido, o que morreu. Na falta deste ficou John, e a sua extrema passividade levou-o a seguir o caminho traçado pela família. E não é difícil para um homem como Brannox dedicar-se à vida religiosa, se ele próprio é um eremita de natureza. Mas há mais mistério aqui, especialmente a existência de uma certa caixa secreta que ajuda muito a explicar estas opções (ou a falta delas). Esta temporada devia antes chamar-se O Papa Gótico, mas duvido que Sorrentino, pelas execráveis escolhas de soundtrack da série, saiba o que é gótico. Já Brannox, pela ligação ao punk, talvez até curta uns Sisters of Mercy ou uma Siouxsie. Agora fiquei muito curiosa.
Voiello e uma delegação de cardeais vão de propósito a Inglaterra para o convencerem a aceitar o papado, o que ele faz muito relutantemente e, suspeito, só quando lhe dizem que pode conhecer pessoalmente Marilyn Manson e Sharon Stone.
E não é que Marilyn Manson aparece mesmo (sinceramente tive de ir confirmar, mas é mesmo ele)? Manson é lá bicho de recusar aparecer ao pé de um Papa, a quem oferece um dos seus quadros sombrios (de que eu gostei, confesso). Tinha esperança de que oferecesse antes o álbum “Antichrist Superstar”, muito mais apropriado. Não percebo porque não o fez.
A conversa entre Manson e Brannox é hilariante. Manson, que não percebe nada de Papas, pergunta-lhe:
“Desculpe, mas julguei-o mais novo.”
Brannox: “Está a confundir-me com Pio XIII, que viu na televisão.”
Manson: “Ah! Então quem é o senhor?”
Brannox: “Eu sou João Paulo III.”
A conversa é mais longa, mas não quero incluir spoilers.
Sharon Stone (ela mesma) também visitou o novo Papa e pediu-lhe que aceitasse o casamento homossexual. Brannox acha que isso já é demasiado progresso de uma só vez, mas, para tentar evitar os escândalos sexuais com menores, tem a intenção de permitir o casamento dos padres. Infelizmente, e aqui nota-se que a série lançou mais ideias do que realmente concretizou, esta questão nunca foi levada adiante.
Entretanto, um grupo leal ao papa Pio XIII torna-se cada vez mais fundamentalista (e mais papista do que Pio XIII). Ao mesmo tempo, repetem-se ameaças de um califa muçulmano que chama Iblis (diabo) aos cristãos, possivelmente mais uma referência ao Estado Islâmico/Síria/refugiados. Quando acontecem atentados em Lourdes e até na Capela Sistina (matando a cadela de Brannox, o que o deixa inconsolável, um paralelo com o canguru de Lenny) todos julgam os terroristas responsáveis. Mas a verdade é bem mais sórdida.
Aliás, sordidez de todos os tipos é algo que não falta a “The New Pope”. Mas, numa apreciação geral, acho que a série andou muito perdida em vários sub-enredos que não levaram a nada, como se numa exposição de artes várias que não têm forçosamente de fazer sentido, enquanto que “The Young Pope” teve mais cabeça, tronco e membros. Uma excelente série, mesmo assim, que faz mais perguntas do que dá respostas.
Saliento a última homilia do Papa João Paulo III. Acreditem, fez-me chorar. Não apenas de lágrimas nos olhos, mas de lágrimas a correr pela cara abaixo.
Brannox não era realmente homem para ser padre, muito menos Papa, e gostei do fim feliz. Viva o novo Papa, que ninguém acreditará quem é se eu disser. Mas também não digo.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

 

domingo, 23 de outubro de 2022

The Unfamiliar / A Presença Maligna (2020)


Este é um filme de terror com algumas potencialidades, mas que se perde a meio. Uma militar chega a casa depois de uma missão no Afeganistão, onde é esperada pelo marido e os três filhos. Imediatamente começam a acontecer coisas estranhas, algumas que podem ser resultado de stress pós-traumático, outras que são tipicamente a acção de um poltergeist (objectos a voar, gavetas a abrir e a fechar, etc) ou o início de uma possessão. O marido consegue convencê-la de que todos estes fenómenos são resultados do stress e convence-a a passar umas férias no Havai, onde este estuda os mitos locais.
Até aqui o filme parece pouco original, até que surge uma reviravolta surpreendente a lembrar “The Skeleton Key / A Chave” (2005). Teria sido óptimo que “The Unfamiliar” acabasse aqui, quando estava bom, mas de repente o enredo perde o fio à meada e começa a deixar de fazer sentido. Se calhar mais do que em todos os outros géneros, um filme de terror tem de fazer sentido se nos quer convencer e arrepiar. Quando o espectador deixa de acreditar no que vê, o filme não consegue atingir o objectivo. Foi exactamente o que aconteceu aqui, quando o enredo deitou fora a lógica. Por alguma razão pretendeu-se chocar os espectadores com horror físico, e existe uma cena em que a mãe pede ao filho (criança) que se cubra todo de água a ferver! Esta é uma boa mãe, não uma dessas megeras inqualificáveis, mas acho que nem uma megera inqualificável era capaz de sugerir uma coisa destas ao próprio filho. No que é que esta gente estava a pensar?
Enfim, como disse, um filme com potencialidades que vão por água abaixo (quase literalmente, porque de facto há cenas subaquáticas).

11 em 20


domingo, 16 de outubro de 2022

King Arthur: Legend of the Sword / Rei Artur: A Lenda da Espada (2017)

Eu… Eu… Fiquei sem palavras.
O grande Mago Mordred ataca o reino de Uther e derrota-o. Arthur, príncipe herdeiro da coroa ainda criança, tem de fugir quando o seu pai Uther é morto e acaba a crescer num bordel… Espera! Pára tudo! Onde é que estão os tomates podres para atirar ao écran?!
Mordred não pode derrotar Uther porque quando Mordred nasce Uther já tinha morrido e Arthur já era rei, porque Mordred é o filho incestuoso de Arthur com a sua meia-irmã Morgana. Arrgggh!
Então que história é esta? A história do rei Arthur não é de certeza. Na verdade, tudo isto me pareceu mais uma versão de Spartacus do que outra coisa. As opções de storytelling também são tão extravagantes (para não dizer mesmo rebuscadas) que passei o filme todo a tentar apanhar o fio à meada.
Sinceramente, este foi um filme que me apeteceu apagar a meio, e ponderei mesmo se devia perder tempo a escrever esta crítica. Prometi a mim própria não gastar mais de 5 minutos com ela, e apenas para avisar os desprevenidos: filme mau, muito mau, evitem a todo o custo!
Como é que um actor como Jude Law se meteu nisto? Bem, é a tal coisa das contas para pagar. Coitado, mesmo assim consegue fazer um papelão numa história abaixo do seu nível.
E Morgana? Sim, Morgana, essa figura incontornável das lendas arturianas? Acreditem ou não, Morgana não entra no filme. O único avistamento de “Morgana” foi no início, mas o de outra “Morgana”, a de “Merlin”. Isto é, Katie McGrath, noutro papel (uma tal Elsa, qual Elsa?!) em que a vemos por menos de cinco minutos. Oh, porquê? É a tal coisa das contas para pagar.
O que me irrita solenemente neste tipo de filmes é que se aproveitam de personagens conhecidas e amadas para vender uma história que não tem nada a ver, só para lucrarem com os incautos que vão ao engano, e assim escarram e pisam nas lendas arturianas.
Mais do que evitar, este é um filme para odiar. Só para ver por motivos de estudo do que é um filme mau, mau, mau.
Fim dos 5 minutos.

8 em 20 (menos 1 ponto pelo insulto e menos outro por usarem as lendas arturianas para fazer dinheiro)


domingo, 9 de outubro de 2022

Black Summer (2019 - ?)

Finalmente percebi porque é que não gosto de super-zombies. Não gosto de zombies que correm mais do que eu. Não gosto de zombies que correm mais depois de mortos. Abomino zombies de idade avançada que correm mais do que gente nova. "Black Summer” foi baseado em “Z Nation” (a série, depreendo, que eu não vi) mas são os mesmos zombies de “World War Z”, de que já falei aqui. Se todo o conceito de zombismo é ridículo, uma idosa zombie de 70 anos a correr que nem uma atleta olímpica exige uma completa anulação da nossa incredulidade.
Mas nem sequer é por isso. Todo o horror do zombie é o cadáver putrefacto, morto e bem morto, cheio de vermes e musgo e lapas (se esteve no mar), a cair aos pedaços, que se arrasta lentamente na direcção dos vivos. O problema não é apenas um zombie (a não ser que esteja “muito fresco”), é uma horda deles a cercar os vivos sem deixar escapatória. Todo esse horror original do melhor filme do género , “A Noite dos Mortos Vivos”, se perde quando temos super-zombies a correr mais do que os vivos.
“Black Summer” sofre disto, mas sofre de mais coisas. Sabemos por uma personagem que passaram pelo menos seis semanas desde que o apocalipse zombie começou e os sobreviventes ainda não descobriram como se mata um zombie. Errado. Sobreviventes que não descobrem logo nos primeiros dias não são de certeza sobreviventes seis semanas depois. E cometem mais erros que já não são desculpáveis por esta altura. Fazem muito barulho, gritam sem motivo, usam armas de fogo a torto e a direito (chamando a atenção), entram em lugares que parecem seguros e deixam a porta escancarada atrás deles mesmo a pedir que os zombies entrem.
O que permite que ainda existam tantos sobreviventes é que há poucos mortos. Mesmo muito poucos mortos. Super-zombies deste tipo, em números semelhantes aos de “The Walking Dead”, já teriam exterminado tudo. É-nos dito que no princípio os militares bombardearam as cidades mais populosas. Também se tentou fazer isso no universo de “The Walking Dead” (a sinistra operação Cobalto) mas o número inexorável de novas transformações não permitiu que tal fosse muito efectivo. Em “Black Summer”, então, em que o zombie se transforma no segundo em que solta o último fôlego, muito menos seria viável. O uso de armas e os tiroteios às cegas, neste caso, sem o precioso tiro na cabeça, só faz com que se transformem mais zombies imediatamente e vindos de todos os lados. Seria impossível sobreviver a um apocalipse zombie assim. A maneira que os criadores usaram para contornar isto, lá está, foi a existência de poucos mortos. Assim, temos uma média de dois zombies para cada três vivos. Comparado com o mais realista “The Walking Dead”, é risível.
Aliás, “Black Summer” é uma boa série, não digo que não, mas jamais seria possível sem as bases que (o universo de) “The Walking Dead” estabeleceu. Por exemplo, aqui não é preciso explicar que toda a gente está infectada e se transforma quando morre. Não é preciso ser mordido nem arranhado, como nos filmes/séries anteriores. Esta foi uma originalidade de “The Walking Dead”, para o bem e para o mal a melhor série de zombies das últimas décadas. Da mesma forma, “Black Summer” não tem de explicar quase nada. Já vimos quase tudo o que se passa aqui em “The Walking Dead”, desde os poucos sobreviventes dos alvores do apocalipse até aos grupos armados em busca de recursos e pilhagens. Por exemplo, a mansão. Há um motivo pelo qual os personagens de “The Walking Dead” procuram abrigo em cabanas e celeiros abandonados, ou mesmo no meio da floresta. A mansão para onde estes sobreviventes foram era um chamariz de salteadores. Obviamente, dois grupos armados em luta para a ocuparem acabam por destruí-la de cima a baixo. Agora não há nada para ninguém. Também já vimos isto.
Queria falar da história, mas receio que a história seja praticamente a mesma com outros personagens. Se calhar mais acelerada e sem tempo para os desenvolver, porque mal temos tempo de lhes saber o nome. Os protagonistas vão morrendo em catadupas porque a série é curta.
Mas vamos então tentar começar pelo princípio, embora o post já vá longo. A série começa com uma família (os pais e uma miúda) a fugir de um bairro suburbano na direcção de camiões militares que estão a evacuar as pessoas para um estádio. Mas o soldado nota algo de estranho no marido e descobre que este está ferido, aparentemente com gravidade. Imediatamente o camião se vai embora com a miúda deixando os pais (e o resto das pessoas à espera de vez) apeados. Mesmo ao lado, uma mulher asiática é igualmente rejeitada pelos militares, quase sem notarmos. Trata-se apenas da “protagonista”, mas para perceber isto é preciso ver a série duas vezes. Já explico melhor. Entretanto, o casal foge para uma das casas evacuadas, onde o marido sucumbe ao ferimento e se transforma. É o primeiro zombie que nós vemos e é de meter medo. Mas ao mesmo tempo perguntamo-nos, seis semanas de apocalipse e Rose (a mulher) ainda não sabia que o mais provável era isto acontecer?
Durante a maior parte da série acompanhamos a viagem de Rose e Anna (a filha), bem como a de Sun (a protagonista coreana de que falei acima e que só sabe dizer duas ou três palavras em inglês, o que foi inteligente porque nos obriga a compreendê-la de outra maneira). Como dizia, é preciso ver a série duas vezes para apanharmos todos os pormenores. Muitos acontecimentos que vemos ao longe, quase a sair do écran, são outros sobreviventes importantes que se vão cruzar com os protagonistas. A série não nos dá tempo de respirar na sua rapidez alucinante. Raramente temos um momento parado ou de diálogo para ficarmos a conhecer as personagens. Quando isto acontece quase podemos encher os pulmões de ar. Mas sabemos que não vai durar muito tempo. “Black Summer” não nos quer deixar adormecer. Talvez até exagere na sua avidez de nos manter agarrados ao écran.
Esta é outra série de zombies que começa quando a sociedade já se desagregou. Até à data, apenas “Fear The Walking Dead” se atreveu a mostrar-nos o início, e muito de raspão antes de passarmos para o caos completo. (Deve ficar caro filmar ruas cheias de gente em pânico, deduzo eu.) Difere do universo Walking Dead pelos zombies e pelo passo acelerado com que se move, sem medo de nos deixar para trás. Talvez por isso nos envolva a outro nível com os personagens. Ou estamos alerta e os acompanhamos, ou ficamos pelo caminho. Quem fica pelo caminho não se safa.
Uma última nota sobre o título. Este Black Summer deve ser no Canadá, onde a maioria das séries são filmadas hoje em dia, porque os personagens queixam-se de muito calor ao mesmo tempo que trazem vestidas três ou quatro camisas, t-shirts e uma parka. Fez-me rir. Eles que viessem para cá que os zombies até derretiam.
Deixo os factos, recomendo aos apreciadores do género. Não vamos ver nada de original mas não é uma série que se deixe escapar.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes (neste caso, é melhor mesmo ser vista duas vezes ou perdemos pormenores importantes)


domingo, 2 de outubro de 2022

Anacondas: The Hunt for the Blood Orchid / Anacondas: Em Busca da Orquídea Maldita (2004)

Já vos aconteceu estarem a ver um filme muito mau e a certa altura perceberem que já o tinham visto mas não se lembram, porque tão depressa se vê como se esquece? A mim acontece muito. É exactamente o caso deste “Anacondas: Em Busca da Orquídea Maldita” de 2004, ao contrário do que eu disse aqui quando fiz a crítica à sequela “Anaconda - Rasto de Sangue” de 2009. No meio dos dois descobri que há um “Anaconda 3 / Anaconda: Offspring” com o David Hasselhoff, de 2008. Será que vi? Já não digo nada.
Só me lembrei de que já tinha visto “Anacondas: Em Busca da Orquídea Maldita” quando o macaquinho vê a anaconda. Mas não se preocupem, podem ver à vontade, o macaquinho safa-se! Quem não se safa são as personagens mais ou menos concebidas de propósito para serem comidas sem chocar muito o espectador.
Uma equipa de uma companhia farmacêutica dirige-se ao Bornéu em busca da tal orquídea milagrosa que contém o gene da imortalidade. Como costuma acontecer nestas coisas, a maioria das personagens está mais interessada nos lucros do que na imortalidade propriamente dita, o que é bastante conveniente para se tornarem ração de anaconda. Aparentemente, uma vez que a orquídea faz parte da cadeia alimentar, nesta região recôndita as anacondas crescem em proporções gigantescas. Pior um pouco, a equipa chegou ao local exactamente na época de acasalamento das anacondas, o que os lança no meio de uma orgia ofídica. O resto adivinha-se.
Mas “Anacondas: Em Busca da Orquídea Maldita” não é tão mau, nem de longe, como a sua sequela “Anaconda - Rasto de Sangue”. Existem aqui momentos de tensão a sério, e diálogos com piadas que realmente são engraçadas, coisa que “The Witcher” quis fazer e não conseguiu. Não houve grandes esforços para dar mais tridimensionalidade às personagens porque ninguém está a ver este filme por causa delas. Estamos todos a torcer pelo macaquinho que não tem culpa nenhuma de ali estar, e é o que basta. De resto, queremos ver cobras e o filme dá-nos cobras. Não é caso para pedir mais.

13 em 20


domingo, 25 de setembro de 2022

Heir to Sevenwaters, de Juliet Marillier

Os amantes de sagas, como eu, adoram regressar a um universo familiar e agradável que os encantou. É como encontrar velhos amigos, ou inimigos, conforme o caso. Foi esta a minha sensação ao ler o quarto livro da série Sevenwaters, “Heir to Sevenwaters”, de Juliet Marillier.
Já conheço a família toda. O que me fez muita espécie foi que Ciarán* está lá com eles, embora não na mesma casa porque decidiu retomar os estudos como druida, o que ele já queria ser desde jovem. Pergunto-me por que raio é que um feiticeiro do calibre dele quer ser um druida, mas acho que são sonhos de infância ou uma parvoíce assim. Também me pergunto o que raio faz ele em Sevenwaters depois da velhacaria que Conor, Sean e Red lhe fizeram e a Niamh. Sim, o nosso amado Red, marido de Sorcha e pai de Sean, a quem perdoo mais porque foi o único que foi fazer justiça pela filha com as próprias mãos. (Por alguma razão ele é o nosso amado Red.) Mas, mesmo assim, velhacaria. Conor até tem alguma desculpa, tendo passado tanto tempo com cérebro de pássaro não pode ter ficado muito bem, mas Sean (actual senhor de Sevenwaters) não tem desculpa nenhuma. Logo, o que está Ciarán lá a fazer? A família é uma coisa muito viciante e tóxica, é só o que posso concluir. Eu nunca mais os queria ver, nem que fosse para os transformar em lagartixas. E até tenho a certeza de que Ciarán também teria feito justiça por Niamh se ela o tivesse deixado. Mas o tempo que tiveram juntos foi tão escasso, se calhar não valia a pena desperdiçá-lo. Por outro lado, Fainne, a filha de ambos, também teve para onde ir, e Ciarán ficou mais ou menos sozinho (se exceptuarmos o corvo Fiacha que não me parece grande companhia). Voltar aos planos antigos talvez lhe tenha ocorrido por alguma razão que não é aqui explicada.
Nota-se quem é o meu personagem preferido, não nota? Esta história não é sobre ele, mas de certa forma implica a partida de Fainne para uma ilha sagrada onde será a guardiã de não sei o quê (nunca prestei muita atenção aos aspectos religiosos). Com ela foi, se me lembro correctamente, a Senhora da Floresta e o Senhor dos Cabelos de Fogo. E isto já tem a ver com o quarto livro da série.
Na ausência da Senhora da Floresta (a tal que “ajudou” Sorcha em “A Filha da Floresta”), instala-se na floresta de Sevenwaters (isto é, no Otherworld de Sevenwaters, o reino dos Fair Folk, ou, mais tradicionalmente, das fadas) um príncipe sem escrúpulos chamado Mac Dara. Ora, se os Fair Folk nunca foram muito de fiar, Mac Dará só não é mais violento porque não precisa. Basta-lhe um feitiço e já está. Mas já lá vamos.
O início do livro pode parecer lento e até aborrecido. Nada de interessante acontece. Deirdre, uma das filhas de Sean e Aisling, vai casar-se com um nobre importante. Os guerreiros de Inis Eala, inclusive Johnny (filho de Liadan, irmã gémea de Sean) estão presentes para a boda. A irmã gémea de Deirdre, Clodagh, parece namorar com um destes guerreiros com quem partilha o gosto pela música, e detestar o amigo dele, Cathal, um jovem sardónico que nunca parece ter nada de bom a dizer.
Entretanto, Aisling encontra-se à espera de uma criança, o que na idade dela pode ser muito perigoso. Felizmente, tudo corre bem e nasce um menino, chamado Finbar em homenagem ao tio-avô. Uma vez que Sean não tinha filhos, Johnny, seu sobrinho, seria o herdeiro de Sevenwaters, mas agora há um filho varão.
Até este momento, como eu dizia, pouco acontece. E, de repente, o livro começa a disparar em todos os cilindros. Cathal conta a Clodagh, ao pormenor, a possibilidade de um ataque a uma propriedade de Sean no norte. O pior é que este ataque acontece mesmo. Cathal decide ir-se embora e despedir-se de Clodagh sem dizer nada a mais ninguém. Clodagh estava a tomar conta de Finbar, e, assim que vira costas, num ápice, Finbar desaparece. No lugar dele foi deixado (e agora vai ser difícil explicar isto) um boneco feito de paus, com olhos de pedras e cabelo de musgo. Um changeling.
Não temos palavra em português que equivalha a changeling porque não temos este mito. Quando muito, um “trocado”. Mas na Irlanda e na Escócia, segundo vi em “Outlander”, acreditava-se piamente que as fadas roubavam as crianças e deixavam as delas, os tais changelings.
É claro que cai tudo em cima de Clodagh, e que Cathal é altamente suspeito. Para piorar as coisas, e isto também vai ser difícil de explicar, o changeling é uma espécie de criança, e Clodagh é a única que o ouve chorar e pedir comida. Todos a julgam louca. Todos menos Sibeal, a irmã vidente, que acredita em Clodagh. Clodagh acaba por se afeiçoar à criatura e chama-lhe Becan.
Clodagh e Cathal não são os únicos a quem os dedos são apontados. Já não é a primeira vez que noto como esta família de Sevenwaters é disfuncional. As suspeitas até chegam a recair no próprio Johnny, sobrinho de Sean. Não conhecemos assim tanto de Johnny, mas do que conhecemos é-nos bastante difícil de imaginar que fosse capaz de raptar uma criança (matar, até, o próprio primo) para ser ele o herdeiro de Sevenwaters. Esta família devia ir toda ao psiquiatra.
Entretanto, Clodagh decide que há apenas uma coisa a fazer: procurar um portal para o Otherworld e trocar o irmão pelo changeling, custe o que custar. Parte sozinha e à toa, quando subitamente encontra nada mais nada menos do que Cathal, que está a ser perseguido pela floresta pelos homens de armas de Sevenwaters, aparentemente sem saber porque é que o perseguem.
Aqui as coisas tornam-se estranhas. Cathal sabe muito mais do que diz, mas teima em manter-se em silêncio. No entanto, também ele consegue ouvir Becan, e, mais surpreendentemente, garante a Clodagh que consegue encontrar um portal para o Otherworld. Obviamente, Cathal esconde um segredo qualquer.
E em termos da história fico por aqui porque o resto são spoilers.
Já tinha dito de Juliet Marillier que se consegue sempre encontrar um ou outro elemento perturbador nas suas Fantasias Românticas, e se calhar é mesmo por isso que as leio. Em “Heir to Sevenwaters”, a certa altura (não vou dizer quando), desejei mesmo que a história enveredasse completamente pelo género do Terror, o meu preferido. E teve os seus momentos, se calhar porque são géneros que se tocam bastante e podem derivar um no outro a qualquer instante. Claro que não é o género de Marillier e as coisas suavizaram-se logo de seguida. Mas Marillier conseguiu pôr-me lágrimas nos olhos, o que não tinha acontecido em nenhuma das histórias anteriores (é preciso muito para me tocar tanto).
Por outro lado, fiquei muito triste ao ver que Marillier voltou a usar a palavra “piquenique”, como já não acontecia desde o livro de estreia. Isto põe-me os cabelos em pé. Não havia piqueniques no século VIII. Havia merendas e refeições ao ar livre. O que me chateia mais é que não era preciso usar esta palavra anacrónica. Outra palavra que me fez confusão foi “manequim” para descrever Becan. Não conheço o suficiente de inglês antigo (nem que língua falavam na Irlanda neste tempo) para saber se era uma palavra comum à época, mas às vezes o mais importante é a conotação que a palavra tem na compreensão do leitor moderno, e para um leitor moderno a palavra manequim soa estranha no contexto histórico. Mais uma vez, desnecessariamente. “Boneco”, ou mesmo “pequeno espantalho”, servia muito bem e até dava uma ideia mais clara do changeling. Gostaria muito que Marillier prestasse tanta atenção a estes pormenores como presta aos outros.
Por último, ia falar de Mac Dara, mas apercebi-me de que não há nada que possa acrescentar sem incorrer em spoilers. O que posso dizer é que quando tudo parecia perdido quem é que salvou a situação, quem foi? Ora, quem podia ser senão o meu adorado Ciarán (e já agora o corvo Fiacha também ajudou, mas não sei porquê nunca consegui ir à bola com ele). Ciarán conhece o novo príncipe do Otherworld e diz especificamente “ainda não é a minha altura de fazer guerra com Mac Dara”, o que dá a entender que a altura vai chegar. Se eu fosse a Mac Dara não deixava escrever a sequela, porque dava corda aos sapatos e fugia. Ciarán, filho da malvada feiticeira Oonagh, com quem aprendeu “as artes”, é um feiticeiro tão poderoso que causou uma tempestade para os Vikings não invadirem a terra onde ele morava. Ciarán tem com ele a sua filha Fainne, outra feiticeira de meter medo, e são ambos meio-Fair Folk.
Será que, mais uma vez, Marillier está a introduzir um segundo sentido no título, porque o herdeiro de Sevenwaters (ou do mundo oculto de Sevenwaters), por agora, é Mac Dara? Isto levanta hipóteses interessantes, mas não gosto de especular.
Às vezes penso que o único problema dos universos de Marillier é mesmo a Fantasia Romântica que os rege, porque, na minha opinião, muitos destes romances não faziam falta nenhuma à história.
Até admito mais. Disseram-me que os livros seguintes a “Filha da Floresta” não eram tão bons, mas quanto mais a série se embrenha no universo dos Fair Folk mais me interessa. Afinal, quanto mais Dark Fantasy melhor. A Dark Fantasy é a irmã mais “bem-comportada” do Terror. Um ou outro, é mesmo para mim.

*Por alguma razão atarantada, parece que passei as críticas aos livros anteriores da série a chamar “Chiaran” ao personagem Ciarán, ainda por cima o meu preferido. Acho que se calhar me “apossei” dele e até lhe mudei o nome. As minhas desculpas.



domingo, 18 de setembro de 2022

Outlander (2014 - ?)

Comecei a ver esta série por engano, confundindo o título com “Highlander”. Queria ver se era desta que percebia porque é que “só pode haver um”. (Ainda não percebi. Quem quiser explicar, gentilmente deixe em comentários.)
“Outlander” não é nada disso, embora se passe na Escócia (pelo menos a princípio).
No pós-Guerra, uma enfermeira da linha da frente reúne-se enfim com o seu marido, Frank Randall, numa tentativa de reanimar o casamento após a longa separação imposta pela guerra. Decidem visitar a terra dele, a Escócia, onde este tem parentes e conhecidos e onde vivem uma segunda lua-de-mel enquanto visitam as ruínas e paisagens da região. Claire, é o nome dela, assiste acidentalmente a uma dança de druidas em torno de um círculo de pedras durante um festejo pagão. Tomada de curiosidade, ou atraída ao círculo de pedras por motivos misteriosos, regressa no dia seguinte e toca na pedra principal. E puff! É transportada para o século XVIII.
O marido, Frank, procura-a durante anos, embora todos o tentem convencer de que o mais provável é que Claire tenha fugido com outro homem. E aqui há um enorme plot hole que a série nunca resolveu, embora já vá na 6ª temporada (e sabe-se lá quantas mais se seguirão). Frank não sabe que a esposa foi transportada para o passado, mas na véspera, à noite, repara num homem escocês, todo vestido a preceito e à antiga, a olhar para a janela do quarto deles. Inclusivamente, Frank farta-se de falar disto às autoridades, suspeitando que o estranho tenha raptado Claire, o que só convence mais as pessoas de que Claire o deixou por este suposto amante.
Ora, nós sabemos o que acontece no passado e como Claire se apaixona por Jamie, o homem da sua vida, pelo que sempre pensei que este observador seria Jamie, também ele a viajar no tempo, que de alguma forma a foi ver de longe após ela ter voltado ao tempo dela.
Afinal não, nada disto aconteceu, e o tal estranho misterioso nunca mais foi explicado. (Se alguém percebeu isto, já sabem: comentários.)
Entretanto, no século XVIII, e depois de recobrar do choque de se encontrar 200 anos no passado (e que choque deve ter sido), Claire é apanhada no conflito histórico entre ingleses e escoceses que daria lugar à sangrenta batalha de Culloden em que estes últimos são definitivamente derrotados. Claire apaixona-se por um fora-da-lei (porque combate os ingleses), Jamie Fraser, que é implacavelmente perseguido pelo oficial Jack Randall. Jack Randall é um violador e um sádico, mas Claire tem de impedir a todo o custo que alguém o mate precisamente porque este Randall é antepassado de Frank, o seu marido no futuro que Claire ama igualmente, e se Jack morrer Frank nunca chega a nascer. Paradoxos das viagens no tempo.
Tanto Jack como Frank são interpretados por Tobias Menzies. Gostei muito de o ver outra vez, e de o ver inteiro, porque da última vez que o vi só lhe vi uma bota, em “The Terror”...
Menzies é um óptimo actor e a série aproveita-o ao máximo. Em “Outlander”, assisti a cenas chocantes que jamais julguei ver numa história maioritariamente romântica (com todo o erotismo e mais algum) dirigida sobretudo a um público feminino. Aqueles kilts sem nada por baixo, aqueles peitos viris a desafiarem o frio das montanhas…
Mas admito: estou farta deste tipo de heroína, a que alguns chamam Mary Sue, a mulher atraente (todos a querem, mesmo todos), talentosa, forte, boa amante, que faz sempre e diz sempre o mais acertado, que não tem fraquezas, que em alguns casos até possui super-poderes. E até super-poderes Claire possui, porque depois ficamos a saber que não é qualquer pessoa que pode “passar pelas pedras”. Como cereja no topo do bolo, Claire é enfermeira mas acaba por ser também médica e cirurgiã. É a perfeita Mary Sue.
Por outro lado, Jamie Fraser não lhe fica atrás em termos de estereótipos. Jamie é um sonho molhado de heroísmo e masculinidade. Nas primeiras temporadas Fraser é um combatente, pelo que as proezas militares são de esperar, mas numa temporada mais à frente Fraser consegue comandar um navio durante uma tempestade medonha, dando ordens aos marujos como se fosse um experiente capitão de mar e guerra. Ora, tenham dó! Jamie pode ser um bom guerreiro, um bom líder, um bom lavrador, e como tal é perfeitamente possível que tenha jeito para cavalos (muitas vezes trabalha como moço de cavalariça para ocultar a sua identidade), mas um navio durante uma tempestade no oceano é outra fruta. E ainda bem que ele lá estava, ou teríamos Super-Claire a fazer também o papel de Capitã Gancho.
É óbvio que esta série é para senhoras (e alguns senhores) que gostam de aventuras românticas, realidade à parte. Eu continuei a ver quando percebi que Claire ia regressar ao seu tempo, os anos 50, depois de passar por experiências inigualáveis numa Escócia quase medieval. Como premissa, é muito interessante. Penso mesmo que a série deveria supostamente ter acabado aí, mas o sucesso fez com que renovassem. Claire volta ao passado de vez para ficar com Jamie, e é assim que as temporadas se têm estendido interminavelmente. Jamie e Claire têm andado a percorrer o mundo muito à custa de enredos “à medida” para empurrar a história para a frente, e nem sempre são os desenvolvimentos mais orgânicos e naturais. Nota-se a marosca. Ademais, surgem personagens a torto e a direito que tão depressa aparecem como vão à vida delas. Por esta altura já perdi a conta e já não sei quem é quem. (O que também se passa com outra série estendida artificialmente, “The Walking Dead”.)
“Outlander” tinha uma boa premissa: viajantes do futuro que tentam alterar o curso da História e falham inevitavelmente, mas actualmente “Outlander”é uma telenovela. Isso mesmo, uma telenovela erótica e de época, mas uma telenovela.
O pior é que uma pessoa fica viciada nestas coisas e não consegue largar (que é o objectivo de qualquer telenovela). Na última temporada Claire e Jamie estabeleceram-se na América, o que foi interessante porque pudemos ver o início da colonização, mas ambos sabem que vem aí a Revolução e uma vez mais Jamie vai ter de combater os britânicos. Essa parte, pelo menos, é consistente. Tudo o resto dá a entender que alguém vai inventando histórias de episódio para episódio, o que nunca é bom. As séries da Starz (“Spartacus”, “Black Sails”) costumam manter padrões de qualidade muito superiores, tanto em termos de enredo como de personagens. Só compreendo as seis temporadas de “Outlander” (e mais virão) numa lógica comercial. Teve sucesso, continua-se.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

 

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Pumas at the end of the world: Birth

Quando vemos um documentário de vida animal não estamos à espera de poesia. Esta é a história de quatro crias de puma que perdem a mãe numa avalanche traiçoeira. Mas o que põe lágrimas nos olhos é a escrita, os presságios aqui e ali, as verdades que nos tocam a nós também. Transcrevi as partes mais importantes mas aconselho fortemente o visionamento do filme.
Muitos parabéns a quem compôs estas linhas:
Escrito por
Dereck Joubert
National Geographic Wild 2020


There is a place near the end of the world, in the shadow of the ice mountains, where an ancient heartbeat seems to whisper its secrets. Ghostly tails, part seem part imagined, swirl through the snow like cries from the mountains. There are listeners and there are the watchers. A place to confound the senses, lost in the confusion between sky and ice. This is where the South American big cats roam, merging like spirits in and out of the landscape. Those that live here must be highly adapted to the harshness, the wind, the cold, the loneliness that comes from the endless struggle to survive. The wind carries rumours of ambushes waiting to turn your bones into frozen dust. But though the whispered warnings may be imagined, the footprints in the snow are very real, and these cats have a story of their own. They’re pumas at the end of the world.
Ancient legends tell us that here, beneath these eerie Patagonian mountains, the pumas are sacred. (…) The ancients also talk of the messengers to the gods: condors. So many of their stories tell of that connection between heaven and earth. (…)
Torres del Paine, the towering mountains of blue ice. And it’s here that our story begins. A mother puma has brought her kittens out into the world for the first time (…) We’ll call her Solitaria, a solitary mother and an expert huntress. Pumas like her have been wandering these hills for two million years (…) Solitaria is having to find food for five. And the cubs’ incessant energy makes that job so much harder (…) These precious little months as a family make all the difference to a puma’s survival.
But the voices of the ice mountains are not silent for long. Change happens here in a wink of an eye, and all species, especially the more delicate, must be attuned to what’s coming. Solitaria has tucked her cubs away in a cave and watches the change, looking down into the valley for opportunity (…) The wind from the southern ice fields adds to the recipe, as it buffets against the mountains and freezes the air. Everything moves as if on fragile glass and crystallizes everything into immobility. (…)
The condors of Torres del Paine will watch the development of this family from their lofty perch. Down below the puma cubs bundle up, expand their fur to capture heat and steal what they can from Solitaria. Patagonia is not for the weak.
But the full brunt of winter is yet to arrive. (…) The time to take extra care here is in late September, the Patagonian thaw, when the wind chills below freezing and yet the sun starts to melt the snow and ice. It’s misleading. Benign looking ice mutates into the fangs of foreboding. (…) But change is always dangerous and unsettling in a land where even lakes become hidden demons, trapped in time and restless for their freedom (…)
Up in the mountains, there’s a different, more violent process going on. Each drop adds to the warmth, and ever more rapidly raises the temperature of the streams and lakes. (…)
Hunting is a challenge when tumbling scree can give you away. Without the deadening effect of the snow, Solitaria is forced to range further and further down the valley, following the ebb and flow of the guanaco herds.
It’s Spring. (…) The warmer air currents of the mountains lift the condors and increase their range as they glide higher and higher with their 3 metre wing span. But when the wind picks up from the ice fields, quite suddenly all changes, as the bad weather strips the last snow from the mountain tops, lashing the residents, and bringing instability back to the valleys.
It catches the cubs out, down at the lake, where the wind comes hurling through the valley. It’s a nasty surprise but after all these are pumas of the ice mountains. The snow will hide their scent, even from Solitaria, so they’ll have to behave and stay exactly where she left them. She’ll find them, if they don’t stray. (…) Eventually, the storm becoming too much for them, the cubs began drifting away to find cover.
But the problem is bigger than their survival in the late snow storm. They wait, huddled together, listening to the voices in the wind.
Solitaria has moved into the next valley, travelling from crack to crack, searching for food, focused on her hunts, and perhaps unaware of the unstable conditions erupting all around.

[som de avalanche; todas as crias levantam a cabeça]

Melting snow, piled on the ledges, begins a slide that erupts into explosive avalanches. The violence released is a reminder that the ice mountain is almost a living being, a force never to be trusted.
The voice of the blue mountains that day was a roar. But their [the cubs’] only defence if they’re to obey instructions to stay, is to huddle together for warmth and security, as they listen to the exploding ice falls.
And when it’s over, the condors take to the sky to scout the damages. Down valley, they will find a few carcasses that mark the limit of the avalanche, a few battered victims discarded at the end of its run. (…)
Condors are often considered bad omens here. There are moments when they seem to hover, waiting, as if knowing that something has or is about to change. Something in the omen’s clouds.(…)

[as crias esperam]

There are some silences you remember forever. The quiet that fills the void where a mother puma’s call should reverberate off the mountains. (…)
There’s a kind of nothingness when a mother’s scent begins to fade. (…) Nothing to do but fill your days with nothing but time, watching and listening to and for something carried on the wind.
Some say there are ghosts here, their breath coming from their laughter at any sentiment of emotion of loss.

domingo, 11 de setembro de 2022

Almost Famous / Quase Famosos (2000)

Confesso que esperava mais deste filme tão aclamado pela crítica da altura, mas também não fiquei desapontada. “Almost Famous” retrata o famoso “sex, drugs and rock’n’roll” do universo dos anos 70, com as mega-bandas, as groupies e os roadies, e os jornalistas que os podiam destruir ou levar ao estrelato. Por alguma razão os jornalistas são chamados “o Inimigo”.
O filme tem uma grande dose de humor. Um rapaz nos seus precoces 15 anos, William Miller, é contratado, por equívoco, para escrever uma peça sobre a banda (fictícia) Stillwater para a revista Rolling Stone. Como única ajuda, William conta com o editor da revista “Creem”, Lester Bangs (personagem real), o mentor que lhe diz que um jornalista/crítico de música tem de ser “honesto e impiedoso”. Daí o epíteto não muito simpático de “o Inimigo”.
William Miller cai de pára-quedas num mundo demasiado adulto para a sua idade (mas aguenta-se bem) onde se movem grandes monstros da música como os Led Zeppelin, os Black Sabbath, os Deep Purple, Bob Dylan, e até uma breve aparição de David Bowie escondido pelos guarda-costas. Apaixonado pela groupie Penny Lane (nome fictício), William fica chocado pela maneira como o guitarrista da banda Stillwater a usa e deita fora. Se William via os seus heróis musicais como mitos, agora apercebe-se de que são bastante humanos.
Tudo isto desapareceu para não voltar, e por mim ainda bem. Todo este glamour do “sex, drugs and rock’n’roll” não era saudável para as bandas. Os chamados “gate keepers” (revistas, jornais, rádios) escolhiam que bandas vingavam ou desapareciam. Não havia o "Do It Yourself" do tempo do punk. Grandes bandas significavam um manager, uma escolta de roadies, um estúdio de gravações, um contrato. Muito dinheiro também, para os que chegavam ao topo. Muito dinheiro geralmente mal gasto.
Vivemos numa época em que é fácil produzir música e colocá-la directamente à venda ao público, embora com muito menos lucro, mas as bandas fazem-no pela arte e não pelo dinheiro ou pela fama. Já ninguém idolatra ninguém. O público é o único a decidir quem vinga e quem desaparece. É tudo mais sadio e respirável, na minha opinião.
“Almost Famous” é um filme de época que certamente fará as delícias de quem viveu as grandes bandas dos anos 70. Confesso que pessoalmente não me diz muito. Não vivi, não estive lá, nem sequer gosto da música. Mas é interessante visitar e ver de longe.

15 em 20 (pelo documento de época)


quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Crítica ao livro "Nepenthos", de D. D. Maio - por Calhariz (Goodreads)

Directamente do Goodreads:

Já li quase todos os livros deste universo, menos “Vanda”. Quando acabei o “Elysion” senti que não queria abandonar os personagens e este universo, que era altura para reler “Nepenthos”. Que leitura. Uma história intensa com personagens variados, reais e palpáveis, além de reviravoltas e surpresas. O que mais me impressionou foram as personagens e a densidade da psicologia delas. O sofrimento psicológico retratado é real, existe, mesmo que as pessoas nem sempre se dêem a conhecer. Andam por aí muitas pessoas como a Reena, Nannaka, Rurik ou Eric por exemplo. Recomendo fortemente.

Toda a informação AQUI