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domingo, 27 de setembro de 2026

The Sandman (2022 - 2025)

Sandman é Morfeu, deus dos sonhos, senhor do reino do Sonhar, ou simplesmente Sonho. Sonho é um dos irmãos da Infinidade (the Endless) que igualmente personificam a Morte, o Desejo, o Destino, a Destruição, o Delírio. "The Sandman" é uma série baseada nos comics de Neil Gaiman, contos independentes passados neste universo. 
Tal como nos comics, a série conta histórias distintas em cada dois ou três episódios. De algumas histórias gostei, de outras não, e outras foram uma seca realmente digna de Sandman porque me deram sono. Não penso que tenha sido de propósito, mas esta sucessão de histórias pareceu-me efectivamente um conjunto de sonhos e pesadelos, em que nunca sabia o que ia ver a seguir, mas sem grande conexão entre eles. A conexão foi tentada, penso que artificialmente, introduzindo a família de Sonho como fio condutor, mas se era para fazer uma antologia teria sido melhor separar completamente as histórias sem forçar um enredo principal que muitas vezes se perde a meio.
Também dei por mim a pensar a que público é que isto se destina. O género oscila entre a Dark Fantasy e o Terror, com uma estética gótica a lembrar Tim Burton (quem se inspirou em quem, fica a questão). Há momentos muito infantis (têm um corvo falante, um cão falante, uma gárgula bebé, um pégaso, um dragão, um grifo, um cabeça-de-abóbora) e há outros momentos que parecem Stephen King (um congresso de serial killers, um coleccionador de olhos). Admito que pode haver pessoas que gostem da mistura, mas para mim não resulta. A fantasia e a leveza infantil, tipo Harry Potter, não encaixa com as histórias mais pesadas.
Foi pior ainda na segunda temporada, quando quiseram fazer drama. Delírio (que mais parece uma drogada) procura Destruição, um irmão que abandonou a família, e pede ajuda a Morfeu para o encontrar. Para este objectivo morre muita gente, Morfeu tem de matar o próprio filho (!), e com que resultado? Quando encontram Destruição, este serve um lanche aos irmãos e parte de novo para outra galáxia (juro que não inventei isto, mas com irmãos destes eu também dava de frosques).
E Lúcifer, o que foi aquilo com Lúcifer? (Sim, é exactamente o mesmo Lúcifer que inspirou este "Lucifer".) Lúcifer é o senhor do inferno, naturalmente, mas não tem nada a ver com estes entes da Infinidade. A certa altura Lúcifer abandona o inferno e decide reformar-se, assim sem mais nem ontem, e entrega-o a Sonho, que por sua vez o entrega de volta aos anjos e a Deus. Sim, a Deus, que também entra neste universo mas não percebi como. Contado assim até se supunha cómico, mas é mais de ficar de boca aberta com tanto absurdo.

Gwendoline Christie em "Wednesday"

Deste enredo deplorável salva-se a interpretação de Gwendoline Christie como Lúcifer, a tentar fazer o melhor dos diálogos miseráveis que lhe deram.
Se mesmo assim isto soa familiar, foi porque "Sobrenatural" foi inspirado no universo de Neil Gaiman, só que, na minha opinião, "Sobrenatural" transformou cacos em ouro e acertou no tom, na mitologia, no enredo, nas personagens, no drama, no humor, enfim, em tudo. Não posso avaliar "The Sandman" como adaptação, porque não conheço os comics (nem gosto de banda desenhada), mas como série aproveita-se a estética de encher o olho e pouco mais.
E nem sequer falei da máscara anti-gás que Sonho usa nos primeiros episódios. Para que é que era aquilo afinal? Era para o estilo? Cyber goth cósmico? O vosso palpite é tão bom como o meu, porque nunca foi explicado.
O melhor episódio foi mesmo "Dream of a Thousand Cats", um desenho animado de cerca de 20 minutos e uma história claramente inspirada no clássico "The Cats of Ulthar" de H. P. Lovecraft, mas, na minha opinião, muito mais pesado. Ninguém vai esquecer aquele final. Aconselho a todos os amantes de gatos, mas não me responsabilizo pelo trauma que causar.

PS: Por falar em interpretações, só em "The Sandman" é que percebi que Jacob Anderson, o Louis de "Entrevista Com o Vampiro", também foi Grey Worm em "Guerra dos Tronos"! Isto é um elogio para o actor, que consegue encarnar cada personagem a ponto de ficar irreconhecível.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: ir directamente para "Dream of a Thousand Cats", último episódio da primeira temporada

PARA QUEM GOSTA DE: Dark Fantasy, Neil Gaiman, Tim Burton, Harry Potter, Sobrenatural (série), Lucifer (série)

 

domingo, 25 de setembro de 2022

Heir to Sevenwaters, de Juliet Marillier

Os amantes de sagas, como eu, adoram regressar a um universo familiar e agradável que os encantou. É como encontrar velhos amigos, ou inimigos, conforme o caso. Foi esta a minha sensação ao ler o quarto livro da série Sevenwaters, “Heir to Sevenwaters”, de Juliet Marillier.
Já conheço a família toda. O que me fez muita espécie foi que Ciarán* está lá com eles, embora não na mesma casa porque decidiu retomar os estudos como druida, o que ele já queria ser desde jovem. Pergunto-me por que raio é que um feiticeiro do calibre dele quer ser um druida, mas acho que são sonhos de infância ou uma parvoíce assim. Também me pergunto o que raio faz ele em Sevenwaters depois da velhacaria que Conor, Sean e Red lhe fizeram e a Niamh. Sim, o nosso amado Red, marido de Sorcha e pai de Sean, a quem perdoo mais porque foi o único que foi fazer justiça pela filha com as próprias mãos. (Por alguma razão ele é o nosso amado Red.) Mas, mesmo assim, velhacaria. Conor até tem alguma desculpa, tendo passado tanto tempo com cérebro de pássaro não pode ter ficado muito bem, mas Sean (actual senhor de Sevenwaters) não tem desculpa nenhuma. Logo, o que está Ciarán lá a fazer? A família é uma coisa muito viciante e tóxica, é só o que posso concluir. Eu nunca mais os queria ver, nem que fosse para os transformar em lagartixas. E até tenho a certeza de que Ciarán também teria feito justiça por Niamh se ela o tivesse deixado. Mas o tempo que tiveram juntos foi tão escasso, se calhar não valia a pena desperdiçá-lo. Por outro lado, Fainne, a filha de ambos, também teve para onde ir, e Ciarán ficou mais ou menos sozinho (se exceptuarmos o corvo Fiacha que não me parece grande companhia). Voltar aos planos antigos talvez lhe tenha ocorrido por alguma razão que não é aqui explicada.
Nota-se quem é o meu personagem preferido, não nota? Esta história não é sobre ele, mas de certa forma implica a partida de Fainne para uma ilha sagrada onde será a guardiã de não sei o quê (nunca prestei muita atenção aos aspectos religiosos). Com ela foi, se me lembro correctamente, a Senhora da Floresta e o Senhor dos Cabelos de Fogo. E isto já tem a ver com o quarto livro da série.
Na ausência da Senhora da Floresta (a tal que “ajudou” Sorcha em “A Filha da Floresta”), instala-se na floresta de Sevenwaters (isto é, no Otherworld de Sevenwaters, o reino dos Fair Folk, ou, mais tradicionalmente, das fadas) um príncipe sem escrúpulos chamado Mac Dara. Ora, se os Fair Folk nunca foram muito de fiar, Mac Dará só não é mais violento porque não precisa. Basta-lhe um feitiço e já está. Mas já lá vamos.
O início do livro pode parecer lento e até aborrecido. Nada de interessante acontece. Deirdre, uma das filhas de Sean e Aisling, vai casar-se com um nobre importante. Os guerreiros de Inis Eala, inclusive Johnny (filho de Liadan, irmã gémea de Sean) estão presentes para a boda. A irmã gémea de Deirdre, Clodagh, parece namorar com um destes guerreiros com quem partilha o gosto pela música, e detestar o amigo dele, Cathal, um jovem sardónico que nunca parece ter nada de bom a dizer.
Entretanto, Aisling encontra-se à espera de uma criança, o que na idade dela pode ser muito perigoso. Felizmente, tudo corre bem e nasce um menino, chamado Finbar em homenagem ao tio-avô. Uma vez que Sean não tinha filhos, Johnny, seu sobrinho, seria o herdeiro de Sevenwaters, mas agora há um filho varão.
Até este momento, como eu dizia, pouco acontece. E, de repente, o livro começa a disparar em todos os cilindros. Cathal conta a Clodagh, ao pormenor, a possibilidade de um ataque a uma propriedade de Sean no norte. O pior é que este ataque acontece mesmo. Cathal decide ir-se embora e despedir-se de Clodagh sem dizer nada a mais ninguém. Clodagh estava a tomar conta de Finbar, e, assim que vira costas, num ápice, Finbar desaparece. No lugar dele foi deixado (e agora vai ser difícil explicar isto) um boneco feito de paus, com olhos de pedras e cabelo de musgo. Um changeling.
Não temos palavra em português que equivalha a changeling porque não temos este mito. Quando muito, um “trocado”. Mas na Irlanda e na Escócia, segundo vi em “Outlander”, acreditava-se piamente que as fadas roubavam as crianças e deixavam as delas, os tais changelings.
É claro que cai tudo em cima de Clodagh, e que Cathal é altamente suspeito. Para piorar as coisas, e isto também vai ser difícil de explicar, o changeling é uma espécie de criança, e Clodagh é a única que o ouve chorar e pedir comida. Todos a julgam louca. Todos menos Sibeal, a irmã vidente, que acredita em Clodagh. Clodagh acaba por se afeiçoar à criatura e chama-lhe Becan.
Clodagh e Cathal não são os únicos a quem os dedos são apontados. Já não é a primeira vez que noto como esta família de Sevenwaters é disfuncional. As suspeitas até chegam a recair no próprio Johnny, sobrinho de Sean. Não conhecemos assim tanto de Johnny, mas do que conhecemos é-nos bastante difícil de imaginar que fosse capaz de raptar uma criança (matar, até, o próprio primo) para ser ele o herdeiro de Sevenwaters. Esta família devia ir toda ao psiquiatra.
Entretanto, Clodagh decide que há apenas uma coisa a fazer: procurar um portal para o Otherworld e trocar o irmão pelo changeling, custe o que custar. Parte sozinha e à toa, quando subitamente encontra nada mais nada menos do que Cathal, que está a ser perseguido pela floresta pelos homens de armas de Sevenwaters, aparentemente sem saber porque é que o perseguem.
Aqui as coisas tornam-se estranhas. Cathal sabe muito mais do que diz, mas teima em manter-se em silêncio. No entanto, também ele consegue ouvir Becan, e, mais surpreendentemente, garante a Clodagh que consegue encontrar um portal para o Otherworld. Obviamente, Cathal esconde um segredo qualquer.
E em termos da história fico por aqui porque o resto são spoilers.
Já tinha dito de Juliet Marillier que se consegue sempre encontrar um ou outro elemento perturbador nas suas Fantasias Românticas, e se calhar é mesmo por isso que as leio. Em “Heir to Sevenwaters”, a certa altura (não vou dizer quando), desejei mesmo que a história enveredasse completamente pelo género do Terror, o meu preferido. E teve os seus momentos, se calhar porque são géneros que se tocam bastante e podem derivar um no outro a qualquer instante. Claro que não é o género de Marillier e as coisas suavizaram-se logo de seguida. Mas Marillier conseguiu pôr-me lágrimas nos olhos, o que não tinha acontecido em nenhuma das histórias anteriores (é preciso muito para me tocar tanto).
Por outro lado, fiquei muito triste ao ver que Marillier voltou a usar a palavra “piquenique”, como já não acontecia desde o livro de estreia. Isto põe-me os cabelos em pé. Não havia piqueniques no século VIII. Havia merendas e refeições ao ar livre. O que me chateia mais é que não era preciso usar esta palavra anacrónica. Outra palavra que me fez confusão foi “manequim” para descrever Becan. Não conheço o suficiente de inglês antigo (nem que língua falavam na Irlanda neste tempo) para saber se era uma palavra comum à época, mas às vezes o mais importante é a conotação que a palavra tem na compreensão do leitor moderno, e para um leitor moderno a palavra manequim soa estranha no contexto histórico. Mais uma vez, desnecessariamente. “Boneco”, ou mesmo “pequeno espantalho”, servia muito bem e até dava uma ideia mais clara do changeling. Gostaria muito que Marillier prestasse tanta atenção a estes pormenores como presta aos outros.
Por último, ia falar de Mac Dara, mas apercebi-me de que não há nada que possa acrescentar sem incorrer em spoilers. O que posso dizer é que quando tudo parecia perdido quem é que salvou a situação, quem foi? Ora, quem podia ser senão o meu adorado Ciarán (e já agora o corvo Fiacha também ajudou, mas não sei porquê nunca consegui ir à bola com ele). Ciarán conhece o novo príncipe do Otherworld e diz especificamente “ainda não é a minha altura de fazer guerra com Mac Dara”, o que dá a entender que a altura vai chegar. Se eu fosse a Mac Dara não deixava escrever a sequela, porque dava corda aos sapatos e fugia. Ciarán, filho da malvada feiticeira Oonagh, com quem aprendeu “as artes”, é um feiticeiro tão poderoso que causou uma tempestade para os Vikings não invadirem a terra onde ele morava. Ciarán tem com ele a sua filha Fainne, outra feiticeira de meter medo, e são ambos meio-Fair Folk.
Será que, mais uma vez, Marillier está a introduzir um segundo sentido no título, porque o herdeiro de Sevenwaters (ou do mundo oculto de Sevenwaters), por agora, é Mac Dara? Isto levanta hipóteses interessantes, mas não gosto de especular.
Às vezes penso que o único problema dos universos de Marillier é mesmo a Fantasia Romântica que os rege, porque, na minha opinião, muitos destes romances não faziam falta nenhuma à história.
Até admito mais. Disseram-me que os livros seguintes a “Filha da Floresta” não eram tão bons, mas quanto mais a série se embrenha no universo dos Fair Folk mais me interessa. Afinal, quanto mais Dark Fantasy melhor. A Dark Fantasy é a irmã mais “bem-comportada” do Terror. Um ou outro, é mesmo para mim.

*Por alguma razão atarantada, parece que passei as críticas aos livros anteriores da série a chamar “Chiaran” ao personagem Ciarán, ainda por cima o meu preferido. Acho que se calhar me “apossei” dele e até lhe mudei o nome. As minhas desculpas.



domingo, 17 de fevereiro de 2019

Daughter of the Forest / A Filha da Floresta, de Juliet Marillier


[contém spoilers!!!]

"Daughter of the Forest" é uma história é inspirada no conto infantil em que a madrasta má transforma os enteados em cisnes, mas este é tudo menos um livro para crianças.
Fiquei com sentimentos contraditórios após ler esta história. Por um lado tem partes brilhantes que me fazem querer gostar muito mais do que gostei, e depois tem inconsistências que simplesmente não me deixam apreciar o enredo e as personagens como teria desejado. De 1 a 5 não lhe daria 3 nem 4 mas 3,5. E é pena porque queria ter gostado mais.

A protagonista é demasiado nova
Primeiro que tudo, esta história teria sido infinitamente melhor se a protagonista fosse uns dois anos mais velha. Sorcha, a irmã mais nova que tem por missão salvar os seis irmãos do encantamento que os transformou em cisnes, tem apenas 12 anos quando a história começa. Apesar disso, é uma curandeira respeitada por toda a gente. A história começa logo aqui a desafiar a credibilidade. Sorcha é uma menina nobre e diz que encontrou livros de medicina esquecidos algures (isto eu aceito), e também se informou junto de mulheres sábias da povoação. Pois bem, se havia mulheres sábias porque é que toda a gente recorre a uma fedelha de 12 anos? Nem é a questão dos conhecimentos que ela pudesse ter, é mesmo a questão da autoridade, e nestas coisas da saúde as pessoas só confiam em quem tem autoridade (mesmo que tenha menos conhecimentos). Mas a autora leva isto ao cúmulo quando após ajudar a um parto Sorcha faz respiração boca-a-boca a um recém-nascido que não respirava. Ora, ainda nos anos 70 a solução para isto era dar uma palmada nas nalgas. Como é que uma fedelha de 12 ou 13 anos, dos confins da floresta céltica irlandesa do século IX, sabe mais do que médicos e parteiras do século XX? (Ou éramos nós assim tão atrasados?) Estas coisas arrancaram-me completamente à Fantasia e fizeram-me revirar os olhos. Teria sido bem diferente se Sorcha fosse mais velha e tivesse mais experiência com partos, ou, noutras circunstâncias, se tivesse crescido com uma familiar que era parteira e tivesse aprendido com ela. Assim, Sorcha é demasiado competente para a experiência e idade que tem. Mais dois anos de idade teriam feito maravilhas pela credibilidade da personagem sem interferir com a história.
Há mais incoerências. Quem costuma ler aqui o blog já sabe que me chateia muito quando a bota não bate com a perdigota. Neste caso, acho que a autora se agarrou demasiado ao conto infantil em pontos em que não devia. Quando contamos uma história às criancinhas sobre uma menina e seis irmãos, as criancinhas não questionam. Quando se conta um conto de fadas aos adultos, as perguntas começam a surgir umas após outras. Que idade tem a mais nova, que idade tem o mais velho? Do que percebi, se Sorcha tem 12 anos o mais velho deve andar pelos 18 ou 19 anos, no mínimo. Logo a princípio, quando ele fica noivo e a noiva o vem visitar, este mancebo casadoiro ainda se mostra tão juvenil que se reúne com os irmãos, todos num círculo de mãos dadas como um grupo de putos wiccans. Mas Liam (o mais velho) não é nada juvenil. Não faz sentido nenhum que em vez de querer estar com a noiva (às escondidas, se preciso fosse) preferisse encontrar-se com meia dúzia de fedelhos. Contraria tudo o que conheço da vida. Rapazes desta idade com uma noiva que lhes interessa já não andam com miúdos pré-púberes a não ser para tomarem conta deles (e a maior parte das vezes a fazer um grande frete obrigados pelos pais). Tive de fazer um grande esforço para fingir que acreditava nestes rituais de infância ainda observados por sete jovens em fases da adolescência tão díspares. Todos eles às vezes parecem muito adultos (Sorcha principalmente, apesar dos 12 anos, quando discursa sobre a unidade que os assemelha aos sete ribeiros que dão nome a Sevenwaters) e às vezes portam-se como criancinhas.
A pior destas incoerências relativas à idade da protagonista é quando Sorcha conhece alguém que se apaixona por ela, Red, e ele próprio não sabe se lhe há-de chamar criança ou rapariguinha. Como é que é, Red? Criança ou rapariga? É que não sou eu que estou a inventar estas coisas. Estão explícitas na história quando ele se refere a ela como “criança”. Não sei a idade dele e quero acreditar que não tenha ainda 20 anos (mas neste caso quanto mais velho pior porque ela só tem 13) mas não me parece que um homem (mesmo jovem) que tenha sentimentos românticos por uma rapariga lhe chame criança em nenhuma circunstância. Se a Sorcha fosse apenas uns dois anos mais velha tudo faria muito mais sentido.

O feitiço
Lady Oonagh, a madrasta má, quer livrar-se dos enteados para que o filho dela herde o domínio de Sevenwaters. Até aqui bate certo. Mas depois transforma-os em cisnes e deixa-os ir à vida deles. Não seria muito mais lógico apanhá-los e fazer empadas? (A ideia não é minha, é de uma tragédia grega.) Foi imediatamente em que pensei ao ler algumas críticas que alertavam que este livro tem muito sofrimento, que é muito pesado, etc. É tudo relativo. Habituada como estou a doses descomunais de porno-tortura, esperava muito mais perversidade. A autora podia ter lá ido, e a certas alturas noto-lhe uma perversidade subtil e até perturbadora (ver Finbar) mas não é tão pesado como podia ser sido.
Sorcha consegue escapar por pouco ao feitiço. Eis quando lhe aparece a figura da fada madrinha na Senhora da Floresta que lhe ensina como reverter o encantamento. Tem de fazer seis camisas de uma planta espinhosa que tem de apanhar, fiar e tecer ela própria, tudo isto sem pronunciar uma única palavra ou sequer um som até terminar a tarefa. As camisas têm de ser vestidas aos irmãos exactamente ao mesmo tempo, quando todas estiverem prontas. Duas noites por ano, no solstício de verão e no solstício de inverno, os irmãos escapam ao encantamento e transformam-se de novo em homens desde o anoitecer ao amanhecer.
Admito que a princípio embirrei com a Sorcha. Ela é mimada, convencida, sabichona e, o pior de tudo, daquelas pessoas muito positivas e optimistas porque nunca passaram por nada. Assim que lhe é pedido que se submeta a esta tarefa excruciante, Sorcha responde imediatamente que é “forte” e que vai conseguir tudo e mais alguma coisa, o que ainda me fez embirrar mais. Só comecei a simpatizar com ela quando admitiu que afinal podia não ser tão forte como pensava e que nem tudo na vida está dentro do nosso controlo. Aí sim, deixou de ser uma menina privilegiada e tornou-se uma personagem com que consegui empatizar.
Mas demorou. Tenho de dar os parabéns à autora por ter escrito tão vividamente o sacrifício que implicou toda esta tarefa com a planta espinhosa. A planta é chamada starwort. Pesquisei mas não consegui encontrar o nome em português nem sei se a planta existe entre nós. [Se alguém souber, deixe nos comentários, por favor.] Mas foi tão bem descrito que imaginei o que conheço, aqueles cactos que deitam uns espinhos fininhos, quase invisíveis, que se espetam debaixo da pele e dentro da carne e têm de ser tirados à pinça. Ao ler tantas vezes como era doloroso fiar esta planta, e como as mãos dela incharam e se deformaram, a certa altura também comecei a sentir picadas nas mãos. Verídico. É preciso escrever muito bem para causar esta impressão no inconsciente do leitor. Este foi um dos momentos brilhantes do livro que nos provam que a autora tem grande talento, se bem que nem sempre os enredos mais bem construídos, mas lá voltaremos de novo.
Não percebi, sinceramente, a necessidade de silêncio. A Sorcha está proibida de falar, mas aparentemente só não pode dizer nada sobre o encantamento e não pode explicar a tarefa. De resto, ela comunica por linguagem gestual e “fala” de tudo e mais alguma coisa e até comunica telepaticamente com alguns dos irmãos. Batota! Isto faz com que a Sorcha tenha a vida muito mais facilitada do que se não pudesse mesmo comunicar de forma nenhuma, o que muito possivelmente a colocaria em situações ainda mais periclitantes do que já acontece. Mas, sendo assim, ela podia muito bem falar normalmente e dizer “sobre isso não me perguntem” em relação ao assunto proibido. A Senhora da Floresta também é uma grande sádica e ainda teve o desplante de lhe dizer “não sou eu que invento estes feitiços”. Então quem é, Senhora da Floresta? Sorcha, porque não lhe perguntaste isto?
Por último, a Lady Oonagh diz aos irmãos que não devem contar com a ajuda da Senhora da Floresta porque ambas são “uma só”. Ora, eu acho que isto devia ser explicado. O encantamento é o enredo principal do livro. E ao chegar ao fim da história também concluí que as Fadas (os Fair Folk, no livro) a que a Senhora da Floresta pertence também não são de fiar. Mais uma razão para esta questão ser explicada. Compreendo que a Lady Oonagh pode estar a querer dizer que a magia negra/má e a magia branca/boa são duas faces da mesma moeda, mas a Lady Oonagh é humana, não é Fada (ou será?).
Algo que me deixou perplexa durante o livro todo é que nunca, nem por um instante, Sorcha ou os irmãos pensam em aprender magia também para derrotar a Lady Oonagh. A certa altura (não direi quando) decidem ir confrontá-la os sete sem terem qualquer plano. Isto não foi inteligente. A mulher já os tinha transformado em cisnes, podia transformá-los noutra coisa qualquer ou fazer muito pior. Não me importa que eles tivessem um bom plano ou um mau plano, desde que o tivessem. Convenientemente, a Lady Oonagh sabe da vinda deles e foge. O que não faz sentido nenhum. Agora ela já tinha conseguido tudo o que queria. É uma mulher poderosa capaz de transformar pessoas em cisnes (e não pode ser a única coisa que é capaz de fazer) e foge? Só há uma “desculpa” para esta resolução insatisfatória, e essa é que a autora planeasse desenvolver esta história noutro livro mais dedicado à Lady Oonagh. Não sei se o fez ou não, mas compreendo que o quisesse fazer. Não considero esta ponta solta muito grave mas irritou-me que os sete irmãos não tivessem um plano.

Finbar o Gótico
Finbar é o meu personagem preferido. Um dos irmãos do meio, é o mais próximo de Sorcha e partilha com ela uma ligação telepática. Finbar tem algumas qualidades “vampirescas” que dão logo nas vistas aos “entendidos”. Não só consegue transmitir pensamentos telepáticos (conversas inteiras, com efeito) como consegue transmitir também imagens. Tem dons proféticos. Consegue aproximar-se das pessoas sem fazer barulho como se aparecesse “do ar”. E depois tem alguns traços nitidamente góticos, como o pacifismo, a melancolia e a visão pessimista da vida. E a rebeldia.
Tudo começa com ele, na verdade, quando se revolta contra o pai. Há muito tempo que dura uma guerra com os Bretões (a acção passa-se no século IX, tempo do rei Aethelwulf, mas não o de Vikings em que a série aglutina dois séculos numa única linha temporal). Os três irmãos mais velhos participam na guerra com entusiasmo, mas Finbar prefere aderir à Amnistia Internacional e quando um prisioneiro de guerra é capturado e torturado pelos soldados do pai decide libertá-lo. O que até nos dias de hoje é considerado traição. (Aliás, aquela revolta toda contra o pai caiu ali de pára-quedas. Lord Colum, o pai, é um homem distante dos filhos desde que a esposa que amava morreu de parto quando Sorcha nasceu, mas tirando isso não merecia aquela hostilidade toda em frente dos seus súbditos.) Finbar quer o fim da guerra e o começo de negociações (mas a guerra nunca é algo realmente relevante na história, apenas pano de fundo). Lord Colum e os irmãos mais velhos nem querem ouvir falar do assunto. Novamente a tal inconsistência. Por muito que Sorcha fale de unidade e façam rodinhas wiccans de mãos dadas, não há unidade. A própria Sorcha o diz, que os irmãos mais velhos iam ficar muito zangados se suspeitassem do que Finbar quer fazer. Lá se vai a unidade dos sete ribeiros, não, Sorcha? Direi mesmo mais. A verdadeira unidade entre eles só acontece depois do feitiço que sofrem juntos, não antes.
Finbar recruta Sorcha para lhe preparar uma beberagem que põe os guardas a dormir e lá conseguem libertar o prisioneiro, Simon. Outra grande inconsistência. No decorrer da história percebemos que toda a gente reconhece que Sorcha tem conhecimentos médicos. Que toda a gente recorre a ela quando é necessário. (Passe a falta de credibilidade que isto tem.) E no entanto ninguém desconfia que foi ela quem drogou os guardas? Muito estranho. Seja como for, Finbar e Sorcha conseguem tratar o prisioneiro e dar-lhe uma hipótese de sobreviver e escapar. O começo da história (principalmente toda esta parte em que Sorcha é a enfermeira de Simon) pode ser considerado algo lento para quem gosta de mais acção, mas eu não me importei porque acho que vale a pena esperar pelas partes boas e deixo ao autor a liberdade de me guiar até elas como lhe parecer melhor. Nunca pensei que Simon regressasse, e muito menos que Simon também se tenha apaixonado por Sorcha quando ela ainda era uma miúda. É algo que deve ser de família, gostar delas aos 12 anos, e não digo mais nada.
Finbar personifica um dos momentos mais perturbadores da história. Mais perturbador do que a cena da violação e a morte de alguém que não vou revelar, mais perturbador do que a cena da fogueira. Como cisne, Finbar tem uma “esposa” cisne e dois patinhos. Em forma humana, lembra-se deles e atormenta-o tê-los abandonado. Ora, nem sei o que devo sentir perante isto. Tristeza? Repulsa? Pena? Acabei por decidir-me pela tristeza e foi uma das coisas mais amargas que já li na vida. Entre dois mundos, Finbar não consegue pertencer a nenhum porque está demasiado dividido. O que ele resolve no fim (e desconfio que sei o que é) faz todo o sentido. No final, Finbar é completamente gótico, um espírito atormentado que anseia libertar-se do seu estado humano.

Os vilões
A história tem dois vilões e ambos são apresentados a preto e branco, o que raramente faz personagens cativantes.
Mesmo assim, Lady Oonagh é uma vilã bem conseguida. Talvez seja até a personagem mais bem conseguida da história toda. Todos nós já conhecemos uma Lady Oonagh, pelo menos. Tive o azar de me cruzar com várias e conheço bem a peça. Marillier também a deve conhecer e nota-se na perfeição com que a retrata. Faz-me ficar em pulgas para ler mais sobre ela. Quem era, de onde veio, para onde foi, onde aprendeu as artes mágicas, quem a ensinou. Se não houver um livro sobre a Lady Oonagh vou ficar muito desapontada.
E depois temos outro vilão, Lord Richard, que já não me convenceu. Lord Richard é execrável em vários sentidos. É o tipo de vilão irredimível que ali está para o odiarmos sem reservas. Prefiro vilões complexos e “cinzentos”, mas no que toca às intenções da autora, foram bem conseguidas. A caracterização da personagem, contudo, não foi tanto. Lord Richard revela-se um homem extremamente sádico quando Sorcha recusa os seus avanços. Cheio de orgulho ferido (e com outras motivações adicionais que não vou revelar) arranja maneira de a condenar à fogueira sob várias acusações, uma delas de feitiçaria. Não contente com isto, durante as semanas em que a mantém aprisionada delicia-se a torturá-la psicologicamente com os pormenores da morte que a espera: a construção da fogueira, o fogo, a dor, tudo com tanto detalhe e malvadez que raramente encontrei um vilão tão sádico. Um nível de sádico acima do Hannibal Lecter, acreditem ou não, que ao menos anestesiava as vítimas. É este nível de sadismo que não me convence. Este nível de sadismo não se desenvolve da noite para o dia e não se consegue esconder das pessoas mais íntimas (que são as principais vítimas). Uma rejeição amorosa também não o explica. Um sádico assim começa na infância, e se for narcisista também (e geralmente são) por esta altura já todos conheceriam a peste que ali estava. Das duas uma, ou já teriam cortado relações ou, se não pudessem, viveriam aterrorizados por ele. Não é nada disto que acontece com a família de Lord Richard, que o acha simplesmente desagradável. Não, um sádico destes não é apenas desagradável. É um terror. A família é a primeira a sofrer. Aqui, Marillier errou ou exagerou. Funciona, mas não me convence.

A autora
Juliet Marillier consegue criar uma Fantasia Romântica com uma leve base histórica que resulta muito bem a esse nível. Mas não se espere daqui um romance histórico porque não o é. Aqui reina a Fantasia. Sorcha, na floresta, ouve as fadas das árvores, o que pode parecer algo infantil. Mas há outros seres sobrenaturais. Não há nada de infantil no momento de Dark Fantasy em que as sereias aliciam Sorcha, desesperada e traumatizada, a juntar-se a elas no mundo aquático “onde não há mais dor”. Por um instante temi que Sorcha cedesse à tentação de as ouvir e pusesse fim à vida. Esta é das tais passagens brilhantes que quase nos fazem esquecer as inconsistências.
Mas os momentos mais impressionantes são a violação (muito gráfica, muito pormenorizada, muito traumática) e a fogueira, que realmente nos arrepia. Toda a relação de Sorcha com a floresta é igualmente bonita e bem descrita.
Só tenho algo a apontar à forma como Sorcha, em primeira pessoa, “justifica” ter de contar a violação como “algo que determina” tudo o que aconteceu depois. Não, não determina nada, nem a autora tem de se justificar. A violação é uma coisa que acontece, independente do enredo, e que tem uma influência marginal nos acontecimentos seguintes. Sorcha vivia escondida numa gruta da floresta enquanto se dedicava à sua terrível tarefa, mas a sua subsistência tinha-se tornado insustentável. Mais tarde ou mais cedo teria de procurar um abrigo mais seguro e confortável. Com ou sem violação. Eu sempre pensei que a violação estaria mais ligada ao enredo mas afinal é algo que acontece à margem.
Não é a primeira vez que através da primeira pessoa a autora nos tenta manipular a concordar com o desenvolvimento da narrativa. Eu dispensava estas manipulações que a certa altura se tornam demasiadas, desnecessárias e justificativas. Especialmente quando Sorcha diz “nos contos tradicionais tudo acaba bem, os vilões são castigados, não há pontas soltas, mas esta é a minha história, etc”. Completamente desnecessário e manipulativo. A autora não tem de pedir desculpa.
Outro pormenor que me irritou, mas parece que os autores anglo-saxónicos não prestam tanta atenção a estas coisas como nós, foi a quantidade de anacronismos linguísticos que fui apanhando na história. O pior, o uso da palavra "piquenique", duas vezes!, pela protagonista. Não, não, não. Nem era necessário. Pergunto-me se não foi uma palavra ali inserida pelos editores, uma vez que a autora até respeita a linguagem da época. Aquele “piquenique” e outras que tais destroem a nossa imersão na Fantasia e tornam o livro desleixado. É uma pena.
Outro ponto negativo é o recurso ao deus ex machina, e por duas vezes! Da primeira, quando Red está mesmo prestes a ser morto na floresta e Sorcha se lembra de pedir ajuda aos Fair Folk. (E porque não pediste também antes e depois, Sorcha?) Da segunda, quando Sorcha já está na fogueira e aparece alguém que estava ausente no preciso instante em que a salva por uma unha negra. Ainda estou para encontrar alguém que goste de deus ex machinas, e eu também não gosto. Na segunda vez nem seria necessário porque os irmãos estavam presentes e podiam tê-la salvo sozinhos.
E por falar nisso, lamento dizer que fomos roubados do verdadeiro clímax da história. A autora não “mostra” o fim do feitiço, antes o descreve pela boca de personagens que ainda por cima são secundárias. Não percebi esta opção (a autora tem talento de sobra para mostrar a cena) e senti-me defraudada. Também não achei graça nenhuma àquela ideia de a camisa voar no vento e ir parar por artes mágicas onde era necessária. Com ou sem influência dos Fair Folk. Não era isto que eu queria ver. E acaba por funcionar como outro deus ex machina, fazendo três, e somando dois na mesma cena.
São estas coisas que me fazem não gostar tanto do livro como podia ter gostado. A todo o momento queria acreditar que não iam aparecer mais coisas destas, que eram só um percalço, mas os “percalços”, mesmo os de menor importância, foram-se avolumando uns em cima dos outros e acabaram a criar uma montanha de percalços. Uma montanha, passe a poesia, cuja sombra obscureceu os momentos brilhantes que o livro efectivamente tem. E é pena. Quando é preciso, a autora tem um tipo de escrita vívida e sensível, às vezes poética, de que gostei muito. Também gostei dos momentos perturbadores e jamais esquecerei Finbar e a sua família de cisnes.
Se é um livro que vou ler duas vezes? Não. Não gostei o suficiente. Mas gostaria de dar outra oportunidade a esta escritora (parece que este é o livro de estreia) e perceber se as inconsistências desaparecem noutras histórias ou se se tornam norma.
Desaconselho este livro a toda a gente que detestar Fantasia e Fadas e encantamentos e enredos românticos em geral. Aconselho vivamente a quem gostou de “As Brumas de Avalon”. Não é tão bom, nem por sombras, mas às vezes parece umas Brumas de Avalon menos pesadas.