Este foi mais um dos filmes repescados durante a pandemia. Por acaso já tinha visto, mas só me lembrei com a cena em que ambos sopram a moeda no casino.
Em “Contágio”, um vírus mesmo muito mortal, um vírus a sério, mata depressa e mata toda a gente: adultos, crianças, velhos.
E mesmo assim, e apesar de tudo, o meu cansaço pandémico é tal que achei o filme uma seca do princípio ao fim e tive de dividir a visualização em três vezes. Já não há pachorra, por muito que ver a Kate Winslet a explicar o que é o R seja muito mais interessante do que a Dona Graça e a Martinha.
O filme não se enganou muito, excepto em alguns aspectos fundamentais. Previam-se motins, pilhagens, um caos descontrolado. Nada disso aconteceu na nossa realidade, mostrando que as pessoas até são civilizadas (tirando o açambarcamento do papel higiénico, que vai ficar para a história). Por outro lado, no filme, os governos foram extremamente lentos a decretar lockdowns, quando o vírus já estava completamente descontrolado.
Outra grande diferença, porque acho que ninguém previa o contrário na altura, é que o pânico e o medo não foram incentivados pelos media tradicionais, mas antes por um blogger solitário na tentativa de vender a sua banha da cobra como cura. No filme, os governos fazem tudo para evitar o pânico. Quem diria que seria exactamente o contrário na realidade, que seriam os media a propagar o medo para criar audiências e os bloggers solitários os únicos a falar para o deserto, porque todas as vozes divergentes foram silenciadas e chamadas “negacionistas” e pior? O pânico aconteceu porque as pessoas são medrosas e os media aproveitam-se disso, ou as pessoas ficaram medrosas porque os media as massacraram (e ainda massacram) com os números de mortos todos os dias? Ao mesmo tempo que os transportes públicos andam à pinha porque toda a gente sabe que nem o Covid quer entrar nos transportes públicos. Aconteceu-me ter ido num autocarro sobrelotado levar a vacina, só para chegar ao pavilhão e ser recebida com tanta mariquice que até me deixei rir. A minha máscara social foi boa para um autocarro onde o distanciamento social era zero, mesmo zero, tudo colado uns aos outros, mas no pavilhão obrigaram-me a usar uma máscara cirúrgica e a manter um distanciamento de 2 metros. Hipocrisia, loucura, surrealismo.
Mas voltemos ao filme, que afinal até não é muito diferente do que acabámos de viver, daí a minha falta de interesse por ele.
Disseram, a certa altura, que o novo vírus tinha evoluído do encontro do “porco errado” com o “morcego errado”, e que ninguém jamais ia saber como. Mas o filme mostra, e foi a minha parte preferida, A crueldade para com os animais puniu os que os maltratam. Gostei.
De resto, não há mais nada a dizer sobre este filme. Apesar do elenco de luxo (Jude Law, Matt Damon, Laurence Fishburne, Gwyneth Paltrow, Kate Winslet, Jennifer Ehle), todas as personagens são bidimensionais e pouco nos importa se morrem ou não. Mais um para alimentar o pânico e nada mais.
12 em 20
domingo, 10 de outubro de 2021
Contagion / Contágio (2011)
domingo, 3 de outubro de 2021
Child of the Prophecy, de Juliet Marillier
[contém alguns spoilers inevitáveis]
“Child of the Prophecy” é o terceiro livro da trilogia Sevenwaters iniciada com “Daughter of the Forest”. Desde o primeiro livro, fui muito crítica com certos problemas da autora, nomeadamente os anacronismos (o piquenique), a falta de massa crítica das personagens (que foi melhorando), e, acima de tudo, os enredos em que a bota não bate com a perdigota, e não há nada que me chateie mais do que este último. Até parece que autora foi lendo as minhas críticas porque os livros foram melhorando de volume para volume, e desta vez até conseguiu arrancar-me um 5 no Goodreads, o que não acontece frequentemente.
Se calhar porque é o último livro e eu já tinha muita bagagem para trás a influenciar-me, o início de “Child of the Prophecy” é um dos melhores primeiros capítulos que já li na vida.
Chiaran sempre se reuniu com Niamh ainda no segundo livro, onde ninguém os conhecesse (apesar de tio e sobrinha), e tiveram uma filha, Fainne, que foi a melhor coisa que lhes aconteceu. Ficamos logo a saber que Niamh, incompreensivelmente, se suicidou quando Fainne era pequenina, atirando-se de um penhasco. Este “suicídio” é suspeito, como assinala Bran (o marido de Liadan, irmã de Niamh, num dos seus poucos momentos de brilhantismo), mas mais tarde acabamos por saber tudo, tudinho. Chiaran acredita no suicídio (julga que Niahm não conseguiu viver com a relação amaldiçoada entre eles) e fica completamente destruído.
Adorei a personagem Chiaran, um homem destroçado que vive para a filha, o que lhe resta de um amor perdido. Fainne tem os mesmos poderes de feitiçaria do pai e este faz questão de lhe ensinar tudo o que sabe conforme esta vai tendo idade. Mas de repente Chiaran fica doente (o que é incomum para um feiticeiro), com todos os sintomas de tuberculose. Até então, Chiaran nunca tinha contado a Fainne os pormenores que esta devia saber sobre a sua mãe, a sua avó e a sua família em Sevenwaters. Subitamente, conta-lhe tudo, e diz-lhe que vai mandar vir a avó (a Lady Oonagh) para lhe ensinar as coisas que uma rapariga deve saber, e que depois disso a vai enviar para Sevenwaters. Fainne não percebe, naquela negação de quem não quer ver que o pai está a despedir-se e a fazer planos para depois da morte dele. Isto é daquelas coisas que me fazem chorar, e chorei copiosamente. Quando Fainne lhe pergunta se está alguma coisa mal, ele responde sarcasticamente: “Há alguma coisa que esteja bem?” Como não amar um personagem destes? Mas Fainne demora a perceber porque não quer acreditar no que os seus olhos vêem, o lento definhar que está a acontecer ao seu pai.
Já sabíamos que a Lady Oonagh é uma megera. Mas este terceiro livro mostra-nos realmente que tipo de megera ela é. Aqui tenho de criticar novamente, porque esperava mais profundidade desta vilã. Marillier ainda não se consegue livrar (neste livro) dos vilões 100% malvados, daqueles que só servem para fazer mal. Lady Oonagh, afinal, é outra destas, uma vilã sem interioridade. Fiquei desapontada, confesso. Desde o primeiro livro que a Lady Oonagh é a vilã “número um”, merecia mais tridimensionalidade do que teve.
Pois esta megera não mudou nada, e assim que se apanha sozinha com Fainne diz-lhe que é ela quem está a fazer o filho adoecer (o próprio filho, Chiaran!). Para quê? Para controlar Fainne. A Lady Oonagh quer que Fainne vá para Sevenwaters acabar o que ela própria não conseguiu: destruir Sevenwaters e impedi-los de recuperar as ilhas sagradas.
Finalmente compreendemos, mais ou menos, porque é que as ilhas sagradas são tão importantes, e porque é que a Lady Oonagh disse, logo no primeiro livro, que ela e a Senhora da Floresta eram “a mesma”. Quanto a isso, a conclusão é satisfatória, embora tenha ficado um mistério a pairar. Parece que os feiticeiros pertenciam aos Fair Folk e foram expulsos porque alguém de entre eles usou o seu poder para lançar ao mundo um grande Mal, Mal este que nunca é explicado. Fiquei com a ideia de que quem fez isso foi também a Lady Oonagh, mas é dito tão depressa que tive dúvidas. Não me surpreendia nada que tivesse sido TUDO ela, porque a Lady Oonagh é má como as cobras e só sabe fazer o Mal.
Por falar em Mal, a Lady Oonagh confessa que nunca pensou que os seis irmãos transformados em cisnes (“Daughter of the Forest”) sobrevivessem. O que não é muito inteligente, especialmente tendo em conta que ela sabia perfeitamente que tinha os Fair Folk contra ela e bastante capazes de intervir, como intervieram. Parece que a autora também “leu” as minhas críticas neste ponto porque a questão das “empadas” é abordada, uma das vezes sem graça nenhuma (a rapariga transformada em peixe que é incautamente comida pela família). A Lady Oonagh também não teve um fim nada glorioso, desculpem lá o spoiler.
Fiquei contente por ver que finalmente os irmãos restantes se tinham preparado para combater a Lady Oonagh, ao contrário do primeiro livro em que depois de “desencantados” regressam a casa sem qualquer plano, mesmo a pedir para serem transformados em empadas.
(Faço aqui um aparte para comentar que é mesmo por causa destas incoerências de lógica que os contos infantis raramente resultam como ficção para adultos. Se a Lady Oonagh quisesse de facto matar os enteados não os transformava em cisnes só para os deixar ir, arriscando que os seus inimigos fornecessem o contra-feitiço para a derrotarem. Não, transformava-os em patos e fazia empadas com eles. Mas aqui acabava-se a história e não havia trilogia, não era? Logo, muita coerência teve de ser sacrificada em prol de existir um enredo.)
Fainne foi a minha personagem preferida nesta saga toda, e nem sequer por ser feiticeira. Aqui ela é apenas uma miúda assustada a tentar salvar o pai e os amigos das ameaças da Lady Oonagh, compreensivelmente receosa de não ser tão poderosa como a avó.
O final deixa algo de tristeza, porque afinal, pelo que me parece, mesmo salvas as ilhas sagradas, aquilo que os Fair Folk e os Old Ones mais temiam acabou por acontecer: perdemos a conexão com a espiritualidade da Terra e da Natureza, um assunto muito melhor abordado em “As Brumas de Avalon” que aqui é simplesmente tocado ao de leve. Ou será que o facto de estarmos a ler esta saga significa exactamente o contrário, que afinal pelo menos alguns de nós nos reconectámos, ao fim destes séculos todos? Mesmo sem ilhas sagradas, pois as ilhas sagradas estão dentro de nós.
Mas agora já sou eu a filosofar.
Adorei esta saga, mesmo com todos os problemas que assinalei, e reparei que a autora foi melhorando de livro para livro. Por exemplo, aqui não pôde recorrer ao “truque” de mostrar o que o personagem não presenciava através do dom da Visão, que era muito conveniente em termos de escrita mas que se tornou até abusivo no segundo livro. (Para isso, mais valia recorrer ao Narrador Omnisciente, e daqui ninguém me tira.) Vou continuar a ler a autora na esperança de que mais coisas boas venham daqui.
Recomendo vivamente, e que comecem pelo princípio, “Daughter of the Forest”, embora este terceiro livro tenha sido de longe o meu favorito.
Desta vez fico-me por aqui para não incorrer em mais spoilers. Direi, como conclusão, que as perguntas por responder dos livros anteriores tiveram uma resposta satisfatória e que Chiaran (mais até do que Fainne) ficará no meu panteão de personagens preferidos de sempre.
domingo, 26 de setembro de 2021
Season of the Witch / Época das Bruxas (2011)
O filme nem começa muito mal e parece uma coisa de época: no século XIV, perante um surto de Peste Negra, algumas mulheres são enforcadas como bruxas (porque as bruxas são sempre as causadoras da Peste Negra, como se sabe). Ao mesmo tempo, dois ex-Cruzados (Cage e Perlman) desertam das Cruzadas, chocados com a ganância e a mortandade a que assistem em nome da fé. Até aqui tudo bem, até parece um filme histórico e sério.
Mas, subitamente, as tais bruxas, não apenas enforcadas como de seguida afogadas (não fosse o Diabo tecê-las) são pescadas do rio pelo padre caça-bruxas, e não é que o Diabo “as teceu” mesmo e ainda estavam vivas? Vivas e com aspecto malévolo. O padre tem de pronunciar uma reza de um livro raro para que morram de vez, mas uma delas é demasiado poderosa e pega fogo ao livro. Só existe um outro exemplar do livro, num mosteiro recôndito, e é aqui que os cavaleiros ex-Cruzados são recrutados para acompanhar o caçador de bruxas e a bruxa (fechada numa carroça de grades, evidentemente) ao tal mosteiro milagroso.
No caminho, a bruxa demonstra mesmo poderes maléficos. Ou seja, lá se vai o filme histórico por água abaixo e começa algo de sobrenatural, uma reviravolta que não cai muito bem.
Mas há pior. Tenho mesmo de contar, para explicar porque é que é tão mau. Não se preocupem com os spoilers, um filme deste calibre nem merece que lhe respeitem os spoilers, e se calhar até é mais humorístico com eles. Todos os clichés aqui acontecem. O mais irritante, para mim, foi quando a bruxa, numa escura floresta (porque estas coisas metem sempre uma floresta escura e sinistra) invoca uma alcateia de lobos para atacarem os seus captores. Mas não contente com os lobos propriamente ditos, transforma-os em lobis-lobos. Não estou a brincar, é preciso ver para acreditar. Se calhar queriam “monstrificar” os lobos para a gente não ter pena quando os matassem? Sei lá, já acredito em tudo.
Mas isto não acaba aqui. Ao chegarem ao tal mosteiro, apercebem-se de que saber onde este ficava foi sempre o objectivo da bruxa também. Para destruir o livro de vez. Porque a bruxa… A bruxa é o Diabo!
A peste chegou antes e os nossos heróis deparam-se com um mosteiro cheio de monges mortos. Mas o Diabo ressuscita-os e temos o quê? Monges zombies por todo o lado! Quando os nossos Cruzados não conseguem descobrir como matar os monges zombies, até temos a frase clássica: “Na cabeça! Atinge-os na cabeça!”.
Finalmente, o padre caçador de bruxas percebe que transportaram o Diabo até ao mosteiro onde está o único livro que… não percebi muito bem… e desata a fazer um exorcismo. A falta que ali faziam Sam e Dean (do “Sobrenatural”, para as almas desorientadas que desconhecem), que sabem o exorcismo de cor, porque o Diabo está-lhe sempre a arrancar o livro das mãos. O fim é à Exorcista, com o sacrifício do costume e a libertação da miudinha das garras do Mal, mas com muita porrada à mistura.
Espero que Nicolas Cage e Ron Perlman tenham conseguido pagar as contas, porque de resto o filme não serve para nada. Péssimo, mau, péssimo. Um daqueles filmes que nunca devia ter visto a luz do dia. Mas temos lobis-lobos, monges zombies, uma bruxa que afinal era só possessa, e muita espadeirada. Talvez alguém se divirta a ver isto. Eu nem isso.
10 em 20 (para não dar negativa)
domingo, 12 de setembro de 2021
“Elysion”, um livro de D. D. Maio, finalmente disponível!
“Elysion”, um livro de D. D. Maio, encontra-se disponível em papel e ebook (formato epub).
Link: www.bubok.pt/livros/266740/Elysion
Sinopse
Quanto tempo pode durar a felicidade?
Ainda é verão, paraíso breve. Reena e o imperador encontram-se no jardim do novo palácio para debaterem filosofia. Depressa a conversa se volta para o passado. Eric, o imperador, sempre pensou que tinha travado uma guerra para sobreviver. Na verdade, o que queria era despeitar o seu pai.
Reena só queria ser uma rapariga como as outras.
Axel só queria ser alguém.
Camilla e Alexander queriam o que não podiam ter.
Gherrard e Sunya já tinham tudo o que queriam.
Hildegaard, sem nada querer, conseguiu esvaziar a sua vida.
Rosa só desejava um lar onde pertencer.
Rurik queria de volta o lar que perdera.
Kelma queria escapar para lá do seu horizonte.
Selma queria poder.
Elena queria vingança.
“Elysion” é um drama no género Low Fantasy, romântico, filosófico e psicológico, com elementos sobrenaturais.
A acção passa-se após “Nepenthos”, “Miasma” e “Solstício”, mas “Elysion” pode ser lido como livro autónomo.
© 2021 D. D. Maio
Formato papel: 170 x 235 mm
Nº de páginas: 456
ISBN: 978-84-685-6114-1
Bubok, print on demand
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Formato ebook em epub
ISBN: 978-84-685-6113-4
Disponível em www.bubok.pt
www.bubok.pt/livros/266740/Elysion
Contacto: d.d.maio.email@gmail.com
Página: ddmaio.blogspot.com
domingo, 5 de setembro de 2021
Das Boot / O Submarino [2018 - 2020]
“Das Boot” é uma série de grande qualidade dramática passada na França ocupada durante a Segunda Guerra Mundial. Ao contrário do habitual, a história é-nos apresentada principalmente através da perspectiva da tripulação dos submarinos alemães, não dos Nazis, porque muitos não o eram, mas do soldado comum que quer cumprir o seu dever para com a pátria tal como jurou fazer ao alistar-se.
“Das Boot” é uma série de guerra, sem dúvida, mas não se esgota por aí. A história assenta em três temas principais: os dilemas enfrentados pela tripulação do/s submarino/s, a opressão sobre os cidadãos da França ocupada, e a Resistência.
Frank Strasser é um operador de rádio recrutado à última hora para a viagem inaugural do submarino U-612. Strasser não pode recusar um comando directo, mas a verdade é que o jovem tinha outros planos, que incluíam a aquisição de passaportes falsos e a deserção. Pouco antes da partida, chega a La Rochelle a irmã de Frank, Simone Strasser, tradutora de ligação entre a polícia e o agente da Gestapo Hagen Forster. Frank confessa à irmã que tem uma filha com uma francesa judia e é absolutamente necessário retirá-las da França.
Na ausência do irmão, Simone envolve-se assim no submundo da ocupação, onde o inspector da polícia, Pierre Duval, oficialmente colaborador, colabora o menos possível, e a Resistência se movimenta em tentativas de sabotagem. Simone encontra-se numa situação precária quando o agente Forster se interessa por ela com intenções românticas, e esta tenta tirar partido dessa atracção de modo a fornecer informação à Resistência, um jogo perigoso que lhe pode custar a vida.
Pelo segundo episódio de “Das Boot” eu já estava completamente agarrada, a lamentar ter adiado tanto dar uma oportunidade a esta série no género Drama de Guerra. É que, geralmente, os dramas de guerra são insuportavelmente aborrecidos e não passam de momentos de acção uns atrás dos outros (tácticas, mapas, batalhas, sabotagens, explosões, tiroteios, bombardeamentos…) e de conversas entre hierarquias em que cada um puxa dos seus galões. “Das Boot” também é isso, mas é muito mais do que isso. Por exemplo, a primeira cena da série é de cortar à faca, quando vemos um submarino ser afundado e acompanhamos todo o terror da tripulação a perecer no fundo do mar. Não é nada levezinho.
Outra cena espectacular, mas realista, é o confronto de dois submarinos alemães, com ambos os capitães a tentarem infligir o máximo dano um ao outro sem se destruírem também. E mesmo assim...
Mas aqui o que importa são os dramas pessoais, o que leva as pessoas a escolherem de uma maneira e não de outra, muitas vezes em situações em que não existe uma boa escolha.
É preciso não esquecer que é uma série de guerra. A maior parte dos finais não são felizes. Mesmo tendo isto em conta, não gostei da maneira como descartaram Simone no primeiro episódio da segunda temporada, quase como se tivesse sido a actriz a pedir para sair (e se calhar até foi). Simone é uma heroína a sério, uma heroína de guerra, daquelas que recebem medalhas com honras militares. Se era para ser assim, mais valia ter tido um final épico à sua altura na primeira temporada. Sinto que fomos levados em erro, ou o argumento teve de mudar à última da hora.
Na segunda temporada, a enfermeira Margot Bostal junta-se oficialmente à Resistência e tenta salvar uma família judia passando a fronteira para Espanha. O inspector Duval, farto de colaborar, tenta ajudar também. O agente Forster não é nada parvo e desconfia de ambos. Recruta um meliante francês sem escrúpulos e coloca-o a fazer o trabalho sujo que Duval se recusa a fazer. Duval tenta avisar este anti-patriota de que os alemães o vão atirar aos lobos. Resposta: “Eu é que sou o lobo, auuu, auuu!” Sempre houve “espertalhões” (para não lhes chamar pior) que se aproveitam da situação junto do regime opressor pelo estatuto e pelo poder. Este é um destes. Nunca acabam bem.
Esta série foi patrocinada com fundos europeus. Por uma vez, os fundos europeus foram bem aplicados… Apesar de passar na AMC, “Das Boot” é falado em três línguas: alemão, francês e inglês, conforme os personagens, o que se torna muitíssimo realista e raro de encontrar (geralmente todos falam inglês).
Todas as personagens em “Das Boot” são interessantes e complexas, mas, na minha opinião, nenhuma é mais intrigante do que o agente Hagen Forster. Tudo o que ele deseja, como diz a Simone quando andava a tentar cortejá-la, é comprar uma quinta em França (até já a comprou), casar e ter filhos, enfim, levar uma vida pacata que não se coaduna com o facto de andar a perseguir judeus. Mas parece-me que ele ainda não se apercebeu disso. Depois da lavagem cerebral do nazismo, Forster está completamente convencido de que o regime Nazi é a sociedade ideal. Tão bom agente ele é que na segunda temporada um superior do Partido Nazi vem expressamente convidá-lo para comandar um campo de extermínio no Leste. Quando Forster olha para os planos de construção do campo e estranha o local onde vai ficar o crematório, o outro nazi comenta que foi uma solução genial, ou não foi? Aqui, pela primeira vez, pelo instante petrificado no olhar de Forster, compreendemos que ele não sabia ainda da “solução final”, e que fica chocado. Mas não deixa transparecer mais nada, porque o superior lhe diz que não é um convite que se possa recusar, uma vez que Forster está tão bem visto pelas chefias do Partido. Forster está demasiado envolvido na sua carreira ambiciosa para mudar de ideias, ou não estará? O final é ambíguo, pelo que não é um spoiler. O superior diz-lhe que Forster devia andar de uniforme em vez de roupa à civil. No último momento, depois de alguns acontecimentos marcantes, vimos Forster a dobrar e arrumar o uniforme dentro de uma mala bem fechada, indicando que vai partir para algum lado. Decidiu aceitar a posição no campo de extermínio, ou rompeu definitivamente com o Partido Nazi? Do que vimos nos últimos episódios, ambas as hipóteses são possíveis.
“Das Boot” é inspirado nos livros de Lothar-Günther Buchheim, “Das Boot” e “Die Festung”.
Esta é uma série a não perder e tenciono ver de novo assim que voltar a passar na AMC.”Das Boot” é tão bom que quase compararia a série a “The Terror”, mas sem sobrenatural. Porque, afinal, quem é que precisa de monstros quando temos Nazis?
domingo, 29 de agosto de 2021
Eyes Wide Shut / De Olhos Bem Fechados (1999)

Tinha uma imagem melhor para este post, mas mostrava mamilos. O Blogger está armado em Facebook e censurou.
Estava a ver este filme há meia hora quando comecei a olhar para o relógio. Meia hora depois parei a gravação e percebi, para minha angústia, que não ia sequer a meio. Escusado será dizer que este foi um dos filmes mais chatos, daqueles considerados sérios e candidatos a Óscares e blá blá blá, que tive o desprazer de ver na vida.
A certa altura lembrei-me de que é um filme de Stanley Kubrick, de quem nunca fui fã, e que o nome me lembrava uma experiência ainda mais penosa. É claro, o insuportável “2001 - Odisseia no Espaço”, um filme que tentei ver duas vezes e em ambos os casos comecei a beber e acabei a dormir à mesa. (“2001 - Odisseia no Espaço” é considerado por um vasto número de espectadores, eu incluída, como o filme mais chato alguma vez produzido.) Mas desta vez percebi o motivo das minhas experiências gémeas com “2001”, um filme que eu devia comprar para ver nas noites de insónia. Da mesma forma, ao tentar sobreviver à seca de “Eyes Wide Shut”, pensei em beber qualquer coisinha. Infelizmente não me dava jeito beber na altura, ou teria provavelmente acabado a dormir também. Está explicado o efeito tiro e queda de “2001”.
Isto também explica a grande bezana que eu e alguns amigos apanhámos quando nos reunimos em casa de alguém para ver “The Shining”, e acabámos a rebolar-nos a rir. Mas neste caso foi injusto. “The Shining” é um grande filme.
Sei perfeitamente que todos os fãs do grande Stanley Kubrick me estão a rogar pragas neste momento e a chamar-me de ignorante para baixo, mas consolem-se no facto de que o (mau) gosto não se discute. E sim, notei a cinematografia, o contraste e aproveitamento da iluminação, é tudo muito giro, mas nem só de técnica se faz um filme.
Então vamos lá à história. Ou melhor, à não-história, porque tudo espremido não fica muito. Um casal jovem, rico, que tem tudo, mesmo tudo, está em crise por tédio. Já não sabem o que hão-de fazer para não se aborrecerem. (Isto é o problema de ter dinheiro a mais e imaginação a menos, ou, dá Deus nozes a quem não tem dentes.) Na noite seguinte a um baile de Natal na casa de um cliente rico do marido (médico de profissão), em que a esposa flirta descaradamente com um gajo qualquer que a tenta seduzir e o marido faz o mesmo com duas fulanas que o querem levar para a cama, o casal mata o tédio como pode a fumar ganzas. Com a pedrada, começam a discutir o que se passou no baile, falam de ciúmes e da falta deles, e a esposa acaba por confessar que uma vez teve a fantasia de dormir com um oficial da Marinha (o que nunca aconteceu).
Foi o bastante para o médico ficar roído de ciúmes e aproveitar uma visita ao domicílio que o tirou de casa para andar pela rua a meter-se em sarilhos. Acaba numa orgia privada, para gente muito rica e influente que esconde a cara com máscaras, onde é “detectado” como “intruso” e ameaçado de morte antes de ser expulso. Aqui o filme toma contornos de thriller. Ser ameaçado de morte não é brincadeira. No dia seguinte, o médico tenta visitar o amigo que o informou da festa, e descobre que este foi levado do hotel onde se hospedava por dois “capangas” bem vestidos. Uma mulher da festa aparece morta na morgue. Obcecado, e por esta altura com razão, o médico dirige-se à mansão onde a festa se realizou, só para receber um bilhete num envelope que o ameaça novamente para parar de fazer perguntas ou algo lhe acontece e à sua família.
Não percebi, sinceramente, como é que por esta altura ele não foi directamente à polícia, que é o que uma pessoa faz quando nos ameaçam de morte, especialmente por escrito, e especialmente quando nos ameaçam a família também. Sociedade secreta que se dane, nem que lá estivesse o próprio presidente dos Estados Unidos, isto é grave, e além de ir à polícia o médico devia ter ido também aos jornais se tinha assim tanto medo.
Só que isto não acontece porque o filme não é um thriller. Numa reviravolta muito anti-climática, o tal cliente rico do médico chama-o a sua casa e explica-lhe que tudo o que viu foi a fingir, era tudo teatro, ninguém matou ninguém, tudo o que lhe disseram foi para o assustar. Enfim, não se passa nada. “E a mulher, quem era a mulher da festa?”, pergunta o médico, todo desvairado como se ela fosse muito importante, embora só tenham trocado meia dúzia de palavras. “Era uma prostituta”. (Ai, não me digas! E eu a pensar que todas aquelas gajas boas ali estavam por gostar de ir para a cama com homens de meia-idade carecas e barrigudos!)
Então, foi mesmo tudo a fingir ou era a sério? Nunca saberemos, porque o filme também não se interessa mais pelo assunto. Acaba com o marido a chorar baba e ranho a pedir perdão à mulher, apesar de não ter feito nada. Pois é, durante isto tudo a única coisa que ele fez foi o mesmo que os espectadores: assistir a uma orgia. Se eu fosse a mulher dele tinha-me chateado por ele não me ter levado também. Há quem não saiba mesmo divertir-se a dois.
Quando o filme apareceu, pelas imagens e sinopse, sempre pensei que isto ia ser uma história de swingers com sado-maso levezinho à mistura. Afinal nem isso. É apenas uma história que não é história, um estudo sobre um casal em crise que já não sabe o que fazer para se livrar do tédio.
E as actuações, valha-me Deus! Que direcção de actores mais atroz. Se eu não conhecesse a Nicole Kidman e o Tom Cruise de outros Carnavais teria concluído que são péssimos actores. (Não são.) Até parece que alguém disse à Kidman: fala o mais devagar… que conseguires… para vermos quando é que… os espectadores começam… a sair da sala. O mesmo deve ter sido dito a Tom Cruise, com certeza, que também se esforçou por falar devagar, mas não conseguiu tão “bem” como a Nicole. Se não acreditam, vejam/ouçam por vós próprios.
A grande cena do filme é mesmo a orgia, isso nem discuto, e não estou a ser irónica: aquele segmento do início, com o “sacerdote” e as “bacantes”, em que tanto a coreografia como o som podiam ter saído de um vídeo de uma banda gótica, pode explicar alguns fascínios que tenho encontrado por este filme. Se calhar o que o realizador queria mesmo era fazer um filme todo assim, porno-chique, mas a reputação não o deixou.
13 em 20 (menos 1 ponto pela seca, mais 2 pela orgia)
domingo, 22 de agosto de 2021
The Outpost
E então não é que a série não só é boa, como, pior um pouco, é viciante? A história é Fantasia Grim Dark, e haveria aqui drama suficiente para um George R. R. Martin escrever 20 livros… se os conseguisse acabar, isto é.
Mas “The Outpost”, embora no Género de “A Guerra dos Tronos", é um Grim Dark light que não tenciona traumatizar ninguém. O ritmo da história é tão alucinante que mal temos tempo de digerir um acontecimento dramático quando já está a acontecer outro. Claro que isto não é bom drama, mas entretém bastante.
“The Outpost” começa com a história de Talon (digo “começa” porque entretanto deixa de ser apenas a história dela para se tornar num universo mais alargado, com um world building bem conseguido que nos conquista de episódio para episódio). Talon é a última sobrevivente da tribo/raça/espécie dos Black Bloods, pessoas como os humanos só que têm sangue negro e orelhas pontiagudas. Os Black Bloods foram massacrados quando Talon era criança, a mando da sinistra Primeira Ordem (há razões, mas não vou contar). Talon foi a única a sobreviver porque um dos assassinos teve pena dela (parece-me). Para passar por humana, Talon cortou as orelhas bicudas que distinguem a raça, o que devia ter sido um momento de ir às lágrimas (mas não foi porque, lá está, isto não é bom drama). Depois de adulta, Talon tem um único objectivo: vingar-se dos homens que mataram todos os Black Bloods.
A partir daqui haveria muito a contar, porque isto é só o início. Confesso que não gostei do primeiro episódio, que teve, sem exagero, umas três ou quatro cenas de porrada. Talon, é óbvio, é a guerreira mais durona lá do sítio. E por falar em lutas, não sei o que raio eles fizeram ou tentaram fazer, que todas as lutas, em vez de realistas, como é desejável, parecem estar em “fast forward”, se é que não foram todas feitas com CGI, o que lhes dá um aspecto de jogo de vídeo que nos tira do sério. Mas o problema maior não foram mesmo as cenas de acção, mas a actriz, Jessica Green (Talon). Eu não costumo criticar actuações porque tenho a sorte de ter apanhado sempre actores e actrizes decentes/competentes, e acredito que com mais experiência (e aulas) Jessica Green até lá chegue, mas em três temporadas de “Outpost” não vi evolução nenhuma e tenho de chegar à conclusão de que foi escolhida por ser gira e credível como guerreira. Há uma cena, por exemplo, em que o objectivo é que ela ficasse triste, e nem com cascas de cebola a rapariga conseguiria arrancar lágrimas daqueles olhos. No primeiro episódio, simpatizei mais com a miudinha que fez de Talon em criança (que esteve em cena menos de 10 minutos) do que com a protagonista, o que é mau, muito mau.
Felizmente, não desisti, pois se a protagonista não é propriamente candidata aos Óscares, a história e os personagens secundários valem bem a série, especialmente os actores mais velhos que forneceram peso e espectáculo onde ele não havia.
Aquele personagem ridículo, Janzo, o que é aquilo? É para nos fazer rir? Eu tive foi pena dele, especialmente quando começaram a dizer-lhe que ele não precisava de mudar porque está muito bem como é. Ora, amigos, o personagem parece sempre à beira de uma apoplexia, como é que pode estar bem como é? Pelo menos que endireite as costas ou fica marreco para sempre. Postura! Não era necessário e não faz rir.
Os Black Bloods são perseguidos porque conseguem invocar demónios através de uma espécie de portal para outra dimensão, ou aquilo a que os humanos chamam demónios e que são afinal outra raça. Aqui notou-se incrivelmente a falta de orçamento desta série, há que dizê-lo. O dinheiro foi todo para o cenário e para o guarda-roupa, porque estes pobres demónios são pessoas vestidas de plástico, e às vezes até se vêem os bigodes de borracha a vibrar. Os olhos, então, notava-se às vezes que eram pintados na cabeça do boneco. Fez-me rir, admito, embora não fosse esse o propósito.
O Outpost é uma espécie de reduto de todos os refugiados do regime agora no poder, a terrível Primeira Ordem, que assassinou o antigo rei, a rainha e toda a sua família, crianças e tudo. Mas a pequena princesa sobreviveu (não vou dizer quem ela é). Vou antes explicar porque é que o drama aqui é muito superficial, tão superficial que não se nota. A princesa sobreviveu porque um nobre falsamente leal à Primeira Ordem, mas leal ao antigo rei, a substituiu pela sua própria filha e a criou como se fosse dele. Isto é, este homem entregou a própria filha e assistiu, impávido e sereno, a vê-la ser decapitada. Rico pai, sim senhor! (Compare-se o dramatismo com o conto de Eça de Queirós, “A Aia”, em que esta também troca o seu filho pelo príncipe herdeiro, suicidando-se de seguida.) Mas este homem até já se esqueceu da filha e afeiçoou-se à jovem que criou como sua, como se a outra menina nunca tivesse existido. Pobre miúda!
Isto significa que existe alguém da família real que tem direito ao trono e decide recuperá-lo, e com a ajuda dos demónios de Talon não será impossível, mas também não será fácil.
Outro momento de dramatismo superficial é quando um dos leais à princesa sofre uma lavagem cerebral (com drogas e magia à mistura) e lhe é ordenado que mate o próprio pai, o que ele faz sem pestanejar. Quando acorda do torpor em que tinha sido lançado, matar o pai é a última coisa de que se lembra. “Ooops, e além de fazer estas coisas todas, matei o meu pai.” Personagens profundíssimos, sem dúvida.
Mas não posso terminar este artigo sem falar da maneira em que a tal princesa, a certa altura, quase foi Daenerysada e transformada num monstro impiedoso. Talvez por terem aprendido com “A Guerra dos Tronos”, os autores da série voltaram atrás antes que acontecesse, ou lá se ia outra personagem empática para o galheiro.
Como numa boa Fantasia Grim Dark, há mortes chocantes (que podiam ter sido mais chocantes, mas esta série não é para adultos) e inesperadas, há objectos e seres mágicos, profecias, e um trono a ser reconquistado. Há muito de interessante para ver, desde que não se perca o fio à meada. Como disse, o ritmo é tão alucinante que por vezes eu tinha de parar e lembrar-me de como se chegou do ponto A ao ponto B, o que nunca é bom sinal. “The Outpost” estreou em 2018, já teve três temporadas e prepara uma quarta (nunca pensei que chegasse tão longe, francamente). Não é nenhuma “Guerra dos Tronos”, mas agradará de certeza à mesma audiência. Recomendo, sem grandes entusiasmos.
Uma última nota para os fantásticos títulos dos episódios, que às vezes nos dão pistas, que outras nos enganam de propósito, e que outras simplesmente nos divertem, como no caso do segundo: “Two Heads Are Better Than None”. Grande verdade! E grandes títulos, parabéns!
domingo, 15 de agosto de 2021
Night Train to Lisbon / Comboio nocturno para Lisboa (2013)
Um professor suíço, na meia-idade, descobre o livro filosófico de um autor português (fictício) que o traz impulsivamente a Lisboa. Aqui, tenta saber mais sobre o autor e acaba por reconstruir o seu passado dramático.
Durante todo o filme, senti-me confundida. Por um lado, parecia Portugal. Por outro, às vezes não reconhecia a cultura, e os acontecimentos históricos não foram bem retratados. Por exemplo, o funeral, em que os participantes deixam ali o caixão na carreta e vão-se embora. Não. Por cá as pessoas só se vão embora quando os coveiros começam a cobrir a campa. Ou melhor, é quando eu me vou embora porque é a parte que me impressiona. As outras pessoas ficam sempre mais tempo. É costume pegar num punhado de terra e atirar sobre o caixão. (Mas, verdade seja dita, também nunca fui a um funeral de gente fina.)
Este é um pequeno exemplo de discrepância. Outro, mais importante, é a maneira como se referem constantemente à “resistência” ao regime de Salazar. Nunca houve uma “resistência” assim denominada. Aquela cena dos “resistentes” a combinar a senha (canção) do 25 de Abril foi risível. Não foram os civis a recrutar os militares, foram os militares a iniciar a revolta civil. Nunca se mencionou sequer o PCP. Na altura, o PCP era a resistência. Não havia oposição ao regime que não passasse pelo PCP, mesmo que depois as águas se viessem a separar.
O filme é a adaptação do livro homónimo do autor suíço Pascal Mercier. A sensação com que fiquei é que o autor ou o realizador sabem um poucochinho de nós e da nossa história, mas não o suficiente. O que se vê no filme podia passar-se numa qualquer ditadura sul-americana ficcional à mistura com alguns toques à “portuguesa”. A coisa mais portuguesa que se ouviu é quando aquele personagem diz: “Nós aqui não gostamos de falar do passado. Preferimos enterrá-lo”. Será mesmo só nosso, ou é universal?
Mas a luta contra a ditadura é apenas o pano de fundo e acaba por não ter grande importância. Esta é a história de dois amigos e uma mulher, e de como a dor de corno os destruiu.
O filme pode parecer lento, mas o que me encantou, como não podia deixar de ser, foram as ruas familiares de Lisboa. Quase arrancava os cabelos quando as reconhecia e não conseguia lembrar-me dos nomes delas, sabendo que desde sempre as calcorreei para cima e para baixo. Aquele miradouro onde o Jeremy Irons está sentado? Eu podia jurar que era o miradouro da Graça, mas depois de observar melhor já penso que é o jardim de São Pedro de Alcântara (aquele mesmo ao lado do elevador da Glória). Reparando bem, vêem-se os miradouros da Graça e do Monte. É a mesma paisagem, mas do lado oposto. Lisboa é uma cidade lindíssima e merecia este filme. Só por Lisboa vale a pena ver. Pelo resto, nem por isso.
13 em 20
domingo, 8 de agosto de 2021
Parzival – “Casta”
Parzival foi mais uma banda que conheci através do Festival Entremuralhas. Confesso, a partir de certa altura, que uma amálgama de preguiça e de falta de tempo me afastou de uma das minhas actividades favoritas: procurar música nova. Durante algum tempo fi-lo ouvindo rádio online (a que hoje chamamos podcasts, mais precisamente) mas acabei por perder o hábito. Isto agora vai mudar com o streaming no Twitch, com DJs ao vivo e chat em tempo real, e a possibilidade de assistir comodamente no smartphone enquanto se faz outras coisas, algo de impensável nos tempos dos podcasts em que era preciso estar ao computador para ouvi-los, e, lá está, nem sempre havia tempo disponível para isso.
Dos Parzival, descobri primeiro o álbum “Urheimat”, talvez mais acessível e dançável. Fui ao Bandcamp deles e ouvi a discografia toda (outro luxo que não havia no meu tempo, em que a gente comprava o disco ou CD a partir de um único tema que passava na rádio e às vezes enfiava um grande barrete). Os álbuns são muito diferentes entre si. Diria que gosto muito de “Urheimat” e “Casta”, mas dos outros nem por isso. Da mesma maneira, pode haver quem tenha uma opinião rigorosamente contrária à minha.
É precisamente de “Casta” que quero falar, um álbum que me surpreendeu pela mistura de influências: música indiana, electrónica, marcial, épica, e direi mesmo operática, tudo isto numa banda dinamarquesa.
Tenho a perfeita consciência de que “Casta” não é para toda a gente. Mas, ao primeiro acorde, eu soube que era mesmo para mim. A música indiana fascina-me, até aquela dos filmes de Bollywood. “Casta” não é exactamente música dançável (embora possa muito bem ser dançada), mas leva o apreciador numa viagem de inúmeras subtilezas que se combinam surpreendentemente bem, uma delícia para o sentido auditivo.
Aconselho a audição imediata e, já agora, a da restante discografia, incluindo o excelente “Urheimat” (esse, sim, para dançar).
domingo, 1 de agosto de 2021
47 Meters Down / 47 Metros de Terror (2017)
Durante umas férias no México, duas irmãs são aliciadas a ir observar tubarões em alto-mar dentro de uma jaula própria para o efeito. Como é típico destas coisas, uma delas hesita, mas a outra insiste. O barco que as leva é velho, o guindaste e a jaula em si encontram-se visivelmente em mau estado e bastante ferrugentos. Mas o preço é especial, uma “atençãozinha” de um amigo que conhece o dono do barco. Antes delas mergulham dois amigos, que alegremente tiram fotografias aos tubarões sem que nada aconteça. Mas quando finalmente as duas irmãs são descidas a uma profundidade de 5 metros, o guindaste parte-se, a jaula vai a pique até ao fundo, o guindaste cai-lhe em cima. As irmãs ficam a 47 metros de profundidade, em águas infestadas de tubarões, com pouco oxigénio nos tanques de mergulho. Mesmo que quisessem correr o risco de nadar para o barco também não podiam, porque àquela profundidade têm de parar para fazer descompressão durante alguns minutos, esperando que os tubarões não dêem por isso. E não são tubarõezinhos, são mesmo monstros de 6 a 8 metros de comprimento, daqueles que abrem a boca e engolem logo uma cabeça.
Uma das melhores cenas do filme é quando elas decidem arriscar e nadar até ao barco com um very light aceso para assustar os tubarões. (Não faço ideia se na realidade resulta, mas na lógica do filme faz todo o sentido, sem querer explicar mais para não incorrer em spoilers.*) A certa altura o very light apaga-se e elas acendem outro. Assim que o acendem, grandes tubarões de bocarra aberta já as rodeiam por todo o lado. É mesmo um imaginário de pesadelo.
Este é um filme que faz o que promete: terror com tubarões no fundo do mar. Não é para esperar mais, embora a conversa entre as irmãs pudesse ser muito melhorada. Os diálogos são do mais cliché que existe: “Vamos morrer aqui”, “Não, não vamos, já vem ajuda a caminho”; “Não chegam a tempo, estamos quase sem oxigénio”, “A culpa foi minha, não devia ter insistido”, etc, etc. Nada de original, numa situação em que vertentes muito mais dramáticas da vida das irmãs podiam ter sido exploradas. Mas este não é desses filmes.
Gostei da reviravolta final, que, embora não sendo previsível, também não caiu do céu aos trambolhões como tantas vezes acontece. Neste caso, foi bem feito.
Excelente filme para ver antes de ir à praia.
14 em 20
* Aparentemente, os tubarões não têm medo de very lights.










