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domingo, 29 de outubro de 2023

Das Boot / O Submarino [terceira temporada]

Fiquei felicíssima quando vi recentemente a terceira temporada de “Das Boot” (na AMC). Não estava mesmo a contar com ela. Na verdade, estava completamente convencida de que a série tinha acabado, para meu desgosto porque há muito tempo não via uma série dramática, não-sobrenatural e europeia com tanta qualidade. Eu até nem aprecio Dramas de Guerra, mas “Das Boot” é muito mais do que isso.
“Das Boot” foi uma das muitas séries prejudicadas pela pandemia. Convencida como estava de que tinha acabado, até porque o final foi bastante coeso, confesso que esqueci tudo e nunca mais pensei na história. Por exemplo, já não me lembrava mesmo se o comandante Klaus Hoffmann tinha morrido ou não depois de ser baleado nos Estados Unidos (onde ele foi parar na sequência de um motim a bordo). Para ser franca, julguei que tinham morrido todos excepto o agente da Gestapo Hagen Forster. Esse, devido à sua vilania, é difícil de esquecer.
Acabámos a segunda temporada exactamente com Hagen Forster a ter de tomar uma decisão. Devido aos seus serviços exemplares ao Partido Nazi foi-lhe oferecido um posto de direcção num campo de concentração na Polónia, uma daquelas ofertas que “não se podem recusar”. No início da terceira temporada Hagen Forster chega precisamente a Lisboa para investigar o caso de um colega da Gestapo que apareceu morto. Infelizmente, só sabemos o que aconteceu a Forster entre temporadas no último episódio e é bastante importante, portanto não posso revelar o spoiler.
Mas vamos lá ao que nos interessa mais nesta temporada. Acreditem ou não, o submarino vem a Portugal! Mas não sem antes passar por muitas aventuras.
Na Alemanha, dois rapazes menores, um deles órfão de guerra, andam a roubar carteiras. Apanhados, são obrigados a inscrever-se como “voluntários” para os submarinos (a Alemanha já não tinha homens suficientes no exército) para não irem presos (ou pior).
Entretanto, um personagem sobreviveu, afinal, das temporadas anteriores: o engenheiro naval Robert Ehrenberg, que também participou no motim que expulsou Klaus do submarino para o lançar à deriva no oceano. Tudo isto foi muito bem falsificado no diário de bordo, mas o pai de Klaus, o comandante veterano Wilhelm Hoffmann, altamente respeitado como herói de guerra, percebe que o diário de bordo é uma falsificação e exige saber o que aconteceu ao filho.
O que aconteceu ao filho é que foi parar aos Estados Unidos, onde divulga segredos técnicos sobre os submarinos em troca de exílio. Uma vez que foi descoberto, a família Hoffmann está a passar um mau bocado na Alemanha, mas tudo tem sido escondido do comandante reformado (devido, lá está, à sua condição venerada). Todos lhe dizem que o filho morreu no mar, ninguém se atreve a dizer-lhe que o filho é um traidor à pátria.
Ora, daquilo que percebi, são exactamente estes segredos técnicos que estão a inverter a batalha naval no Atlântico. Os U-Boots eram o terror dos mares, mas actualmente os aliados desenvolveram uma tecnologia que os detecta a grande profundidade e os submarinos do Reich têm sido sistematicamente dizimados pela Armada inglesa. É aqui que entra o comandante Jack Swinburne (um dos últimos papéis do falecido Ray Stevenson), um verdadeiro assassino de submarinos, que está a usar a guerra para se vingar da morte do filho, não importa os meios para atingir os fins. O seu filho, empregado na marinha mercante, pertencia a uma frota de navios que deviam ser escoltados por vasos de guerra, mas assim que chegaram os submarinos alemães os navios tiveram ordens para retirar e abandonar os barcos de mercadorias à sua sorte porque os britânicos não podiam dar-se ao luxo de perder mais navios. (Segundo as críticas que li, algo parecido com este episódio aconteceu mesmo na vida real.) Com a nova tecnologia, a dinâmica da batalha naval do Atlântico muda e agora são os navios ingleses que andam à caça de submarinos, o que Swinburne vai aproveitar por falta de outra missão na vida.
Na Alemanha, o engenheiro Robert Ehrenberg, devido às falcatruas com que pactuou no diário de bordo de Klaus, escapou a outro destacamento, mas apercebe-se de que o novo Comandante do submarino U-949 é um jovem imberbe acabado de sair da escola naval que não tem competência para comandar. Ehrenberg também sofreu uma tragédia pessoal: a sua casa foi bombardeada e a mulher e o filho morreram. Agora vive no seu próprio barco, atracado no cais. Uma coisa leva à outra e Ehrenberg voluntaria-se para um novo destacamento no U-949, onde acaba por ser ele a comandar uma tripulação inexperiente e mal preparada. Devido à incompetência do novo comandante, o submarino parte para o mar depois de sofrer um acidente indesculpável que não o deixa nas melhores condições. O leme não funciona muito bem e o U-949 tem tendência a ziguezaguear. É nestas circunstâncias que o U-949 se cruza no oceano com o implacável Swinburne que acaba de afundar uma frota de U-Boots, mas com a sua grande experiência Ehrenberg escapa-lhe por um triz. Swinburne consegue identificar o submarino fugitivo e chama-lhe jocosamente Herr ZigZag, empreendendo de seguida uma perseguição que recorda o capitão Ahab atrás da Moby Dick, o que não passa despercebido ao imediato do navio que o recorda precisamente de Moby Dick e que tenta devolver a razão ao comandante cego de vingança. Aliás, os confrontos entre o submarino U-949 e o navio de Swimburne (vai haver mais) estão muito bem filmados e dão-nos uma perspectiva muito nítida do que está a acontecer. Eu nunca mais olharei para um simples jogo de Batalha Naval da mesma maneira! Aproveito para realçar como “Das Boot”, não se focando em nazis mas nos soldados alemães recrutados para a guerra, nos consegue fazer torcer por ambos os lados. Estes marinheiros não são nazis, a maioria nem queria lá estar, e são igualmente vítimas da guerra, carne para canhão.
Entretanto, em Portugal. Lisboa, com a sua neutralidade, é um antro de espiões e o destino de toda a gente que quer fugir da guerra e obter um visto para a América. Forster chega a Lisboa para investigar um caso aparentemente simples quando descobre uma conspiração para roubar ouro alemão que vem do Japão para Portugal para comprar volfrâmio. Forster é traído e incriminado, e acaba por ter a ajuda da última pessoa no mundo que se esperava que aparecesse em Lisboa, mas não posso mesmo contar mais nada.
Aqui vou fazer outro aparte. Toda a vida ouvi falar com desdém das “fortunas à custa do volfrâmio” que se fizeram em Portugal na altura sem chegar a perceber muito bem a questão, aliás, uma questão de que se fala muito baixinho. Portugal só era neutro porque lhe dava jeito e, sim, colaborou com o regime nazi ao vender volfrâmio necessário à construção dos submarinos. Ah! Então era essa a razão da corrida ao volfrâmio. Sempre se aprende alguma coisa na televisão, até nas séries de ficção.
A série está tão bem feita que quase me enganavam, a uma alfacinha de gema, mas “Lisboa” foi filmada em Malta. A parte que quase me enganou foram umas arcadas que parecem mesmo a Praça do Comércio, mas se repararmos bem as paredes são amareladas e Lisboa resplandece de brancura (embora às vezes não pareça). O que contribui muito para esta “ilusão” de que estamos mesmo em Portugal é a presença de actores portugueses a sério, e não daqueles que aprendem umas linhas em português à pressa antes das filmagens. Aliás, um dos trunfos de “Das Boot” é que a série é falada na língua das personagens: alemão, francês, inglês e, agora, português nativo de Portugal. Gostei, gostei mesmo!
Lamento não poder explicar melhor porque é que esta série merece ser vista mas tudo o resto que podia acrescentar são spoilers. Direi apenas que não acredito no final de Forster, um final à fado, afinal, coincidente com os humores de Lisboa. Mas não penso que Forster fosse do tipo de agir assim. Por falar nisso, também não acredito que o Reich admitisse de volta um traidor, fosse por que motivo fosse. Mas se ajuda a história da próxima temporada...
Outra coisa que me incomodou as “memórias” foi a maneira como as pessoas do povo andavam vestidas em Lisboa em plenos anos 40. Isto é, andavam demasiado bem vestidas. As crianças tinham agasalhos e sapatos e tudo. Não falo dos ricos que frequentavam o casino (cônsules, embaixadores, diplomatas, espiões, empresários, amigos de Salazar, reis de Espanha no exílio…), falo da malta que se via na rua, do “povo que lava no rio”. Ora, a minha memória mais antiga é dos anos 70 e nem nessa altura o povinho andava tão bem vestido. Mas onde a minha memória não chega tenho as fotografias de família. Acho que “Das Boot” subestimou muito a miséria flagrante que se passava em Portugal (até em Lisboa), mas são realizadores alemães, que se pode esperar? Varinas a vender peixe na rua de pés descalços não lhes entra na cabeça, e isto foi 30 anos mais tarde. Mas, enfim, assim a série ficou mais bonitinha.
Piquinhices à parte, obviamente que adoro esta série. Não faço ideia se a história continua ou acaba aqui, mas com esta qualidade que venham mais temporadas.

Parece ou não parece a Praça do Comércio, assim de repente?


ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes

PARA QUEM GOSTA DE: Das Boot, dramas de guerra, dramas históricos, espionagem, II Guerra Mundial

domingo, 5 de setembro de 2021

Das Boot / O Submarino [2018 - 2020]

“Das Boot” é uma série de grande qualidade dramática passada na França ocupada durante a Segunda Guerra Mundial. Ao contrário do habitual, a história é-nos apresentada principalmente através da perspectiva da tripulação dos submarinos alemães, não dos Nazis, porque muitos não o eram, mas do soldado comum que quer cumprir o seu dever para com a pátria tal como jurou fazer ao alistar-se.
“Das Boot” é uma série de guerra, sem dúvida, mas não se esgota por aí. A história assenta em três temas principais: os dilemas enfrentados pela tripulação do/s submarino/s, a opressão sobre os cidadãos da França ocupada, e a Resistência.
Frank Strasser é um operador de rádio recrutado à última hora para a viagem inaugural do submarino U-612. Strasser não pode recusar um comando directo, mas a verdade é que o jovem tinha outros planos, que incluíam a aquisição de passaportes falsos e a deserção. Pouco antes da partida, chega a La Rochelle a irmã de Frank, Simone Strasser, tradutora de ligação entre a polícia e o agente da Gestapo Hagen Forster. Frank confessa à irmã que tem uma filha com uma francesa judia e é absolutamente necessário retirá-las da França.
Na ausência do irmão, Simone envolve-se assim no submundo da ocupação, onde o inspector da polícia, Pierre Duval, oficialmente colaborador, colabora o menos possível, e a Resistência se movimenta em tentativas de sabotagem. Simone encontra-se numa situação precária quando o agente Forster se interessa por ela com intenções românticas, e esta tenta tirar partido dessa atracção de modo a fornecer informação à Resistência, um jogo perigoso que lhe pode custar a vida.
Pelo segundo episódio de “Das Boot” eu já estava completamente agarrada, a lamentar ter adiado tanto dar uma oportunidade a esta série no género Drama de Guerra. É que, geralmente, os dramas de guerra são insuportavelmente aborrecidos e não passam de momentos de acção uns atrás dos outros (tácticas, mapas, batalhas, sabotagens, explosões, tiroteios, bombardeamentos…) e de conversas entre hierarquias em que cada um puxa dos seus galões. “Das Boot” também é isso, mas é muito mais do que isso. Por exemplo, a primeira cena da série é de cortar à faca, quando vemos um submarino ser afundado e acompanhamos todo o terror da tripulação a perecer no fundo do mar. Não é nada levezinho.
Outra cena espectacular, mas realista, é o confronto de dois submarinos alemães, com ambos os capitães a tentarem infligir o máximo dano um ao outro sem se destruírem também. E mesmo assim...
Mas aqui o que importa são os dramas pessoais, o que leva as pessoas a escolherem de uma maneira e não de outra, muitas vezes em situações em que não existe uma boa escolha.
É preciso não esquecer que é uma série de guerra. A maior parte dos finais não são felizes. Mesmo tendo isto em conta, não gostei da maneira como descartaram Simone no primeiro episódio da segunda temporada, quase como se tivesse sido a actriz a pedir para sair (e se calhar até foi). Simone é uma heroína a sério, uma heroína de guerra, daquelas que recebem medalhas com honras militares. Se era para ser assim, mais valia ter tido um final épico à sua altura na primeira temporada. Sinto que fomos levados em erro, ou o argumento teve de mudar à última da hora.
Na segunda temporada, a enfermeira Margot Bostal junta-se oficialmente à Resistência e tenta salvar uma família judia passando a fronteira para Espanha. O inspector Duval, farto de colaborar, tenta ajudar também. O agente Forster não é nada parvo e desconfia de ambos. Recruta um meliante francês sem escrúpulos e coloca-o a fazer o trabalho sujo que Duval se recusa a fazer. Duval tenta avisar este anti-patriota de que os alemães o vão atirar aos lobos. Resposta: “Eu é que sou o lobo, auuu, auuu!” Sempre houve “espertalhões” (para não lhes chamar pior) que se aproveitam da situação junto do regime opressor pelo estatuto e pelo poder. Este é um destes. Nunca acabam bem.
Esta série foi patrocinada com fundos europeus. Por uma vez, os fundos europeus foram bem aplicados… Apesar de passar na AMC, “Das Boot” é falado em três línguas: alemão, francês e inglês, conforme os personagens, o que se torna muitíssimo realista e raro de encontrar (geralmente todos falam inglês).
Todas as personagens em “Das Boot” são interessantes e complexas, mas, na minha opinião, nenhuma é mais intrigante do que o agente Hagen Forster. Tudo o que ele deseja, como diz a Simone quando andava a tentar cortejá-la, é comprar uma quinta em França (até já a comprou), casar e ter filhos, enfim, levar uma vida pacata que não se coaduna com o facto de andar a perseguir judeus. Mas parece-me que ele ainda não se apercebeu disso. Depois da lavagem cerebral do nazismo, Forster está completamente convencido de que o regime Nazi é a sociedade ideal. Tão bom agente ele é que na segunda temporada um superior do Partido Nazi vem expressamente convidá-lo para comandar um campo de extermínio no Leste. Quando Forster olha para os planos de construção do campo e estranha o local onde vai ficar o crematório, o outro nazi comenta que foi uma solução genial, ou não foi? Aqui, pela primeira vez, pelo instante petrificado no olhar de Forster, compreendemos que ele não sabia ainda da “solução final”, e que fica chocado. Mas não deixa transparecer mais nada, porque o superior lhe diz que não é um convite que se possa recusar, uma vez que Forster está tão bem visto pelas chefias do Partido. Forster está demasiado envolvido na sua carreira ambiciosa para mudar de ideias, ou não estará? O final é ambíguo, pelo que não é um spoiler. O superior diz-lhe que Forster devia andar de uniforme em vez de roupa à civil. No último momento, depois de alguns acontecimentos marcantes, vimos Forster a dobrar e arrumar o uniforme dentro de uma mala bem fechada, indicando que vai partir para algum lado. Decidiu aceitar a posição no campo de extermínio, ou rompeu definitivamente com o Partido Nazi? Do que vimos nos últimos episódios, ambas as hipóteses são possíveis.
“Das Boot” é inspirado nos livros  de Lothar-Günther Buchheim, “Das Boot” e “Die Festung”.
Esta é uma série a não perder e tenciono ver de novo assim que voltar a passar na AMC.”Das Boot” é tão bom que quase compararia a série a “The Terror”, mas sem sobrenatural. Porque, afinal, quem é que precisa de monstros quando temos Nazis?