Quem me conhece bem sabe, ou devia saber, que não há nada que eu odeie mais nesta vida do que a mentira e os mentirosos.
Pergunto-me mesmo porque é que "não mentirás" não está nos Dez Mandamentos, em vez de, por exemplo, "não cobiçarás o asno do teu vizinho". "Não mentirás" é o meu grande mandamento.
Acredito que Deus, na sua infinita sabedoria, não quisesse condenar ao apedrejamento quem proferisse uma mentira social. As mentiras sociais são necessárias para nos facilitar a vida. "Agora não posso, estou numa fase complicada" em vez de "escusas de me convidar para as tuas festas chatas". Ou a mentira piedosa: "és um bom amigo mas não estou à procura de uma relação neste momento" em vez de "não andava contigo nem que fosses o último homem do mundo".
Não estou a falar das mentiras piedosas e muito menos das mentiras sociais. Algumas mentiras sociais até acabam por ser piedosas, porque não queremos sobrecarregar a outra pessoa com problemas desnecessários: "hoje não dá, tenho montes de trabalho" em vez de "chegou-me uma conta que não consigo pagar", "tenho uma pessoa da família a morrer no hospital", "vou ter de acabar a minha relação", e coisas chatas deste género.
Também não estou a falar daquelas mentironas de dramalhão: "Filho, o teu pai não era teu pai. O teu pai sou eu."
Estou a falar de mentirosos compulsivos. E nem sequer falo dos sociopatas como certos políticos que debitam uma mentira atrás da outra para não perderem votos, ou dos grandes impostores responsáveis pelos grandes embustes facínoras ao longo da História. Também odeio esses, obviamente, mas não me estou a referir a eles.
Falo daquelas pessoas que adoptaram a mentira como mecanismo de sobrevivência logo na infância, tanto como estratégia de defesa como de ataque, e que mentem mesmo quando dizer a verdade não os prejudicaria em coisa rigorosamente nenhuma, mas a mentira facilita-lhes a vida. Pessoas que mentem entre amigos com quem têm intimidade suficiente para dizerem a verdade. Pessoas que mentem em coisas parvas do tipo: "Não posso ir ver os Iron Maiden porque me dói a cabeça", mas depois um amigo comum encontra-os no mesmo dia, à mesma hora, a ver os Scorpions.
Porque é que isto acontece? Custava muito dizer "desculpa lá, sei que gostas muito dos Iron Maiden, grande banda, sim senhor, mas nesse dia tocam também os Scorpions, e eu sei que vais querer ir aos Iron Maiden mas eu gosto mais dos Scorpions e não vou poder ir contigo"?
Sim, custa. A uma pessoa assertiva não custava dizer isto, mas para um mentiroso compulsivo dizer a verdade é como engolir lava.
Primeiro, por cobardia. Por medo de desagradar ao fã dos Iron Maiden que, se calhar, julgava que eram ambos igualmente os maiores fãs dos Iron Maiden, mas não eram, porque a mentira vem de trás.
Porque o mentiroso compulsivo, ao conhecer o fã dos Iron Maiden, para lhe agradar, lhe disse que também era o maior fã dos Iron Maiden, e assim conseguiu um amigo automático, uma "alma gémea", com base numa mentira. Isto parece muito imaturo, não parece?, e inconsequente, mas depois a mentira começa a avolumar-se.
Agora o fã dos Iron Maiden sabe que lhe mentiram, e começa a tentar perceber porquê. Começa a esgravatar. E descobre que o amigo não foi aos Scorpions sozinho, que foi com uma ex-namorada do fã dos Iron Maiden. E que essa ex-namorada já tinha andado com o amigo antes de andar com ele, mas o amigo sempre disse que não gostava dela e até lhe deu razão em deixá-la, e até esteve lá para o apoiar nessa altura difícil... "Sim, deixa-a, ela não vale nada".
E uma pessoa começa a pensar para trás e uma mentira parva começa a tornar-se num monstro de mentiras com muitos olhos e vários tentáculos, e quanto mais se esgravata pior cheira.
Para além da cobardia, o mentiroso compulsivo também mente para controlar a narrativa e, no pior dos casos, os comportamentos dos que o rodeiam, o que já entra na esfera da sociopatia. Porque é que há-de ser honesto e frontal quando ganha mais em manipular, encobrir, ficar de bem com Deus e o Diabo, fazer-se passar sempre pelo amigo perfeito, até se descobrir a verdade debaixo do castelo de cartas de mentiras?
Este tipo de mentiroso destrói vidas, mina a confiança no outro ser humano, leva pessoas racionais a duvidarem de si próprias, a questionarem o seu discernimento e os seus instintos, obriga-nos, todos os dias, a desconfiar de toda a gente. É assim que uma mentira social, aparentemente inócua, pode significar um grande mentiroso.
"Então porque é que não me disseste que ias aos Scorpions? O Fulano viu-te lá", é o pesadelo do mentiroso compulsivo. Confrontem-no e observem como aquela mente começa imediatamente a fabricar mais mentiras para justificar as anteriores. Quando temos factos irrefutáveis e o mentiroso se sente desmascarado, a conversa e a amizade terminam com uma mentira venenosa: "Não te disse nada porque tive pena de ti. Porque Fulana me disse que te deixou porque [ataque pessoal onde dói mais]."
Hoje em dia não confronto mentirosos. É directamente para o caixote do lixo. Se é possível que já tenha descartado pessoas por causa de uma mentira social sem importância nenhuma porque os apanhei a mentir? Talvez. Se calhar já pagou o justo pelo pecador. Antes isso do que arriscar ter uma pessoa tóxica na minha vida.
Pessoa que me diga "há muitas verdades" é pessoa riscada. Não, não há muitas verdades. Há os factos, há as interpretações e há as diferentes perspectivas. Mas a verdade é só uma. Pessoa que diz "há muitas verdades" é pessoa que gosta de fabricar a "verdade" que mais lhe convém e validá-la com um selo de "subjectividade".
Se és um mentiroso/a compulsivo/a, e se não és um/a sociopata sem consideração nem respeito nem empatia pelos outros, questiona bem as tuas motivações. Estás mesmo a mentir para não magoar os outros, ou para te facilitar a vida? No mínimo dos mínimos, assume e não mintas a ti próprio/a.
Usei os nomes destas bandas porque foram as primeiras que me vieram à cabeça. Longe de mim outra intenção. Muito respeito pelos Iron Maiden e pelos Scorpions, e pelos fãs.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
GENTE QUE ODEIO: 4 - os mentirosos
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