Este ódio é recente, muito recente.
Algures em meados de 2025 comecei a encontrar uma série de páginas do Facebook, e aqui no Blogger também, com posts muito bem escritos, muito bem estruturados, em bom português, sem erros ortográficos ou gramaticais, e até com conteúdo opinativo ou humorístico/satírico. Pensei para mim: olha para este talento todo, de onde é que isto saiu que andava escondido?
Acredito que 90% das pessoas, estimativa por baixo, não consiga distinguir um texto escrito por IA de um texto escrito por humanos, que a esmagadora maioria nem imagine que a IA consegue escrever textos, especialmente se forem opinativos ou cómicos, e que só uns 5% saiba o que é uma prompt.
A princípio eu também não sabia, nem me passava pela cabeça que as pessoas pedissem à IA para escrever a opinião delas e fazer um brilharete.
Mas eu ando nisto dos blogues há mesmo muito tempo e comecei a reparar em coisas anómalas. No início, mais do que a qualidade, espantava-me a quantidade. Como alguém que escreve regularmente, tenho a perfeita noção do tempo que as coisas demoram. Algumas destas páginas publicam um bom texto quase todos os dias, um texto que, no mínimo dos mínimos, demora umas duas ou três horas a escrever e corrigir. Pensei, na minha ingenuidade, "esta gente não tem vida". Até não pensei mal, porque nisto dos blogues há sempre alguém, em certas fases da sua vida, a passar por um período de grande criatividade ou, efectivamente, sem nada que fazer.
Mas já era muita gente sem vida.
E a cultura geral em cada texto? Isto era tudo gente que tinha engolido uma enciclopédia ou feito muita, muita, muita pesquisa para um post de 500 palavras sobre um tema que não precisava dessa pesquisa.
Mesmo assim, saltou-me logo à vista que estes textos de diferentes páginas eram tão parecidos, na estrutura e no desenvolvimento da ideia, que pareciam ter sido TODOS escritos pela mesma pessoa. Novamente, pensei que era moda e que andavam a imitar-se uns aos outros.
Mas reparei com mais atenção na estrutura dos textos.
Frases curtas. Muito curtas.
Uma frase por parágrafo.
Um espaço entre parágrafos, como na regra inglesa.
E o travessão, este — travessão de 2 metros que ninguém usa sem ser a IA.
Comecei a desconfiar e fui investigar. Quando se aprende a reconhecer o padrão já não nos escapa. A maioria destes escrevedores de prompts é tão iniciante na escrita (nunca escreveram nada na vida e não conseguiriam escrever aquele texto sozinhos nem que a vida deles dependesse disso) que nem sabe ir ao Word substituir o travessão. Destes, admito, até tenho alguma pena. Pessoas que têm de ir ao ChatGPT para lhes escrever um comentário (sim, existe). Não é genuíno, mas pelo menos esforçam-se. Nestes casos, sempre que têm de escrever alguma coisa sem a IA, mostram logo o seu real nível de escrita: os erros ortográficos, o "no qual" como muleta, o desconhecimento completo da pontuação, a vírgula, que, aparece, onde, a, pessoa, respira.
Também não me choca que se use a IA para escrever textos informativos ou técnicos que podiam ter sido copiados da Wikipedia: O pinheiro-manso (Pinus pinea) é uma espécie de pinheiro originária da Europa, mais precisamente da região do Mediterrâneo. Ou: X é o terceiro álbum da banda Y, pela editora Z.
É preguiça? Pode ser preguiça ou pode ser falta de tempo ou de jeito. Se é informativo, o importante é a informação. Prefiro mais informação com IA do que menos informação porque a pessoa não conseguiu escrever uma coisa coerente.
O que me leva aos posts do LinkedIn, aquelas aberrações de textos motivacionais "escritos" por pessoas que estão a ganhar a sua vidinha e que não acreditam no que escrevem mas pagam-lhes para isso. Esse é um universo distópico completamente à parte, o universo em que uns fazem de conta que motivam e outros fazem de conta que são motivados. É tudo falso, já era artificial antes da IA, ninguém quer saber daquela fantochada. No lugar deles fazia o mesmo. Até acho que a melhor utilização da IA é no mercado de trabalho: assim já não temos de fingir sinceridade, a IA finge por nós.
O que me chateia mesmo, o que me tira do sério, são as pessoas que publicam textos de IA e fingem que foram elas que os escreveram. Não, não foram. O que elas escreveram foi a prompt. Depois foi fazer copy/paste. Logo aparecem os leitores, coitados, iludidos, a elogiar: "Você escreve tão bem!", "Invejo o seu talento", "Devia escrever um livro", "Que texto tão inspirado!".
Se me dissessem isto eu tinha vergonha na cara e explicava que não tinha sido eu a escrever: "Eu só fiz a prompt, o texto é IA". Se começasse a acontecer muitas vezes, como acontece, colocava o aviso no texto ou na descrição da página: "Texto gerado por IA".
Mas não só não têm vergonha na cara como agradecem aos iludidos, "obrigado, obrigada", e deixam-nos ficar na ilusão. Ultimamente apareceu um tipo de escrevedor de prompt ainda mais embusteiro. O tipo que até sabe escrever quando quer, mas dá trabalho. "Escrevo com a ajuda da IA às vezes" é o máximo que arrancam dele, e a grande maioria dos leitores não sabe o que é que "ajuda" quer dizer. Ajuda é só uma ajudinha, não é? Não, não é, é o texto todo.
Este espertalhão sabe substituir os travessões por parêntesis e vírgulas onde eles são necessários, sabe reorganizar o texto para não parecer IA, sabe fazer uma prompt em que finge ser uma professora real a queixar-se de um problema real, como eu já fiz aqui para servir de abre-olhos.
Até há quem escreva testemunhos, em páginas de perfis fictícios, fazendo-os passar por acontecimentos reais. Às vezes até são histórias com enredo, personagens e diálogo. E o leitor normal pensa: "Mas uma história não pode ser escrita com IA, pois não? Isso já seria literatura. Um texto tão emocional só pode ser escrito por um ser humano, a IA não consegue escrever tão bem." Consegue sim. Histórias, poesia, linguagem emocional, a IA escreve isso tudo. (Muitas vezes a pedir donativos, cuidado com esses choradinhos. Não passam de cravas digitais.)
Perguntei a um destes espertalhões, em comentários: "Isto é tudo escrito com IA?"
Resposta muito rápida: "Não, só uso corrector de texto e dicionário de sinónimos".
Mas de outra vez deixei-lhe uma boca sobre a IA que utilizou, e bloqueou-me. Era só o que faltava, aparecer ali gente inconveniente a desmascarar que é tudo IA, porque ele quer vender aquilo em livro. Obviamente, há que manter os leitores a pensar que a página é mesmo escrita por um humano, porque quem é que quer comprar a última obra do ChatGPT? É vender gato por lebre. E actualmente já há legislação que obriga o autor a divulgar se a obra é feita com IA, resta saber se pode ser aplicada.
Mas não pensem que a praga da IA são só os espertalhões, os oportunistas do donativo, os oradores motivacionais do LinkedIn e os coitados que não conseguem escrever sozinhos. A coisa já chegou à imprensa de referência e já li crónicas de nomes conhecidos que, sem dúvida nenhuma, saíram do Gemini, do ChatGPT ou do Claude, mas tudo muito bem disfarçado. Claro que não vou citar nomes porque não tenho provas e seria difamação, mas direi apenas que a estrutura é a mesma dos tais posts do Facebook, sem tirar nem pôr, e que não fui a única a reparar. O mais curioso é que nestes casos as pessoas sabem escrever e não precisam da IA para nada. Mas às vezes bate a preguiça, não é? Eu sei, e é preciso entregar trabalho. Mas não é lebre, é gato.
Se escreves posts com IA, e se não és uma pessoa desonesta que quer intrujar os leitores ou uma pessoa vaidosa que gosta de elogios que não merece, pelo menos põe um aviso no texto: "gerado por IA". Queres elogios? Deixa que as pessoas elogiem as tuas prompts. Algumas delas devem ter dado mais trabalho do que daria escrever o texto inteiro.
A IA escreve que se farta, mas não passa de uma sopa de palavras. No fim, aquilo tudo espremido não significa nada, é uma casca oca, não tem alma nem profundidade nem cunho humano. É assim que se identifica a IA: é plástico.
Sim, a imagem que ilustra este post foi gerada por IA, mas eu nunca me fiz passar por cartoonista. É só para as pessoas saberem que também sei fazer prompts e que não estou a dizer isto porque não sei usar a IA. Sei usar e uso, mas nunca para enganar as pessoas. Há uma grande diferença.
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
GENTE QUE ODEIO: 5 - escrevedores de prompts de IA que se fazem passar por grandes escritores
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