"Seven Kings Must Die" pretende ser um filme de epílogo para a série "The Last Kingdom", mas eu considero que isto é mais um último episódio de duas horas.
Sem querer entrar em spoilers, Aethelstan torna-se rei após a morte de Edward e enfrenta a aliança de vários soberanos pagãos e cristãos incitada pelo viking Anlaf. Uhtred é obrigado a intervir, não apenas por uma questão de vassalagem mas por lealdade ao neto de Alfred e ao ideal de uma Inglaterra unificada.
Devo dizer, fui ver "Seven Kings Must Die" com muito receio porque já tinha lido críticas alarmantes. "The Last Kingdom" acaba de modo muito satisfatório, não deixa pontas soltas, e "Seven Kings Must Die" começa logo por ser desnecessário. Quando uma série termina tão bem, com tudo resolvido, não queremos uma má sequela a estragar-nos essa recordação. Não foi exactamente o que aconteceu, mas agora compreendo as críticas.
Ao ver o episódio, a minha maior questão foi: porque é que não fizeram mais uma temporada? É aqui que todas as críticas convergem e eu concordo. Este episódio tem enredo suficiente para uma temporada inteira. Como resultado, a acção é demasiado apressada, as viagens entre localidades acontecem à velocidade da luz (custa acompanhar onde eles estão quando vão de norte a sul e de leste a oeste em 30 segundos), e não há tempo para desenvolver as personagens. Por falar nisso, uma nova temporada permitiria incluir personagens como Stiorra, filha de Uhtred, a rainha Aelswith, a monja Hild e a Lady Eadith, que aqui nem aparecem. Tudo o que era excelente na série é sacrificado ao ritmo frenético da acção porque há muitas batalhas para travar e pouco tempo de filme. Há mortes chocantes mas ninguém tem tempo de fazer o luto, nem eles nem nós. O episódio é uma correria desenfreada para conseguir condensar a história que quer contar em menos de 120 minutos.
E por isso pergunto: porquê? Uma das razões apontadas é a falta de orçamento, mas se houve dinheiro para uma batalha épica de 10 minutos não haveria dinheiro para momentos de desenvolvimento das personagens em cenários mais baratos? E, sendo uma série de sucesso e adorada pelos fãs (e muito mais bem escrita do primeiro ao último episódio do que "A Guerra dos Tronos" e "Vikings"), e se o filme foi aprovado, porque é que uma última temporada escrita pela mesma equipa não seria? Há aqui qualquer coisa que não bate certo em termos comerciais.
Se mesmo assim vale a pena ver? Vale muito a pena ver, e as boas memórias da série não vão ficar beliscadas, mas deixa-nos com uma sensação de desperdício de enredo e de incompreensível qualidade inferior.
A mim chateou principalmente a falta de desenvolvimento das personagens. Quem vir apenas este "filme" (que não é filme porque não é uma história autónoma) vai pensar que as personagens da série também eram bidimensionais como são aqui, a mudar radicalmente de ideias em questão de segundos sem que se perceba muito bem as suas motivações. Aethelstan é um vilão porque está a ser manipulado pelo amante, um monge secretamente ao serviço dos reis pagãos. Uhtred tenta abrir-lhe os olhos e Aethelstan quase o manda matar, mas uns minutos depois Aethelstan percebe o seu erro, tudo isto tão depressa que parece que só passou meia hora na vida dos personagens. Nem há tempo para respirar. Para quem não viu a série, asseguro que "The Last Kingdom" é uma história bem contada. Aliás, aconselho veementemente que não se veja este episódio sem ver a série, porque seria uma injustiça.
O que aborrece mais é que ainda assim "Seven Kings Must Die" consegue incluir, na medida do possível e do tempo do filme, pitadinhas dos elementos que tornaram a série tão boa: romance, humor, drama, a dinâmica entre os personagens principais, e uma batalha espectacular a fechar. Uhtred já não está tão burrinho como no princípio. Aparecem presságios que só percebemos no fim. A certa altura pensamos que Uhtred está a ver valquírias e ficamos gelados, mas vamos ter ainda uma visão de Valhalla, como Uhtred o imagina, mais à frente. Os últimos segundos do episódio emocionaram-me e trouxeram-me lágrimas aos olhos, o que não acontece todos os dias, e que não acontece devido ao enredo mas ao significado da história em si.
"Seven Kings Must Die", pelos defeitos, fez-me dar mais valor à qualidade e ao impacto de "The Last Kingdom". Aconselho aos apreciadores da série que desejem mais aventuras de Uhtred, Finan, Sihtric e Pyrlig, desde que se preparem para um episódio mal aproveitado.
ESTE EPISÓDIO MERECE SER VISTO: 1 vez, mas só depois de ver a série
PARA QUEM GOSTA DE: The Last Kingdom, Vikings, drama histórico
domingo, 23 de novembro de 2025
The Last Kingdom: Seven Kings Must Die (2023)
domingo, 11 de maio de 2025
The Last Kingdom (2015 - 2022) - Destiny is all!
Então, afinal Athelstan existiu mesmo! Eu sempre pensei que fosse uma personagem ficcional de "Vikings", tal foi a falta de verosimilhança com que o retrataram. O mesmo se pode dizer de todas as personagens e até do enredo de "Vikings", algo que oscilava nas ondas da incoerência como um barco viking nas ondas do mar sem rota traçada.
O mesmo não se pode dizer de "The Last Kingdom", uma história com cabeça, tronco e membros. "The Last Kingdom" é a odisseia de Uhtred de Bebbanburg, um nobre nascido saxão e criado por vikings, no objectivo de recuperar o título usurpado pelo seu tio. Apesar de todas as proezas militares ao serviço dos reis de Wessex, Alfred e Edward, isto não foi tarefa fácil porque Bebbanburg se situa no norte da (actual) Inglaterra e os reis de Wessex não arriscavam dar-lhe o apoio necessário numa época em que eram acossados por raides vikings nas suas próprias terras.
Só tenho bem a dizer de "The Last Kingdom", uma história que me viciou desde o princípio. É verdade que o enredo foi "manobrado" para haver sempre uma grande batalha no início e no fim de cada temporada, mas numa série centrada à volta da conquista/invasão viking é natural que assim seja. No ínterim, temos drama, romance, humor, momentos filosóficos e passagens dignas de Shakespeare se Shakespeare tivesse escrito para televisão (só dois exemplos na última temporada: o discurso de Lord Aethelhelm e o pranto de Lady Aelswith). Acredito mesmo que seja esta a maior diferença entre "The Last Kingdom" e "Vikings", duas séries sobre o mesmo tema, a primeira da perspectiva dos saxões, a segunda da perspectiva dos vikings. "The Last Kingdom" é uma série muito mais convencional, com personagens e circunstâncias históricas e religiosas que nos são mais familiares. Se "Vikings" era mitológico, "The Last Kingdom" está bastante mais ancorado na História como esta chegou até nós e focado na construção da futura Inglaterra. Basta dizer, sem querer entrar em muitos spoilers, que a derradeira batalha é entre saxões, embora envolvendo nórdicos instalados há gerações em terras britânicas.
Aproveito para falar já das batalhas propriamente ditas. Costumo queixar-me de batalhas em que não se percebe nada do que está a acontecer, em que não se distingue quem está a fazer o quê e onde. Só tenho a dizer o contrário de "The Last Kingdom". As batalhas estão excepcionalmente bem filmadas, com perspectivas aéreas que nos permitem ver a posição dos adversários, com destaques nos confrontos entre personagens principais sem fazer parecer que a guerra parou toda para se poder ver este ou aquele duelo (outra coisa que acontece muito nos filmes de acção), sem que a importância dada a estes confrontos nunca torne a batalha lenta ou irrealista. Vindo de mim, é um elogio: nunca me senti perdida, percebi sempre o que estavam a fazer, onde se situavam os exércitos, qual era a posição e a força numérica de cada um, qual era a estratégia de defesa e ataque, quem estava a ganhar ou a perder e porquê, e quem eram os protagonistas decisivos. Todos os filmes de acção deviam pôr os olhos nisto. É assim que se filmam batalhas.
A última batalha, no último episódio da última temporada, é a mais épica de todas, uma das coisas mais arrepiantes que já vi numa batalha de espadas, e não pelos horrores habituais que se podem esperar deste tipo de conflito. Recomendo a todos os verdadeiros amantes de acção que não percam isto por motivo nenhum.
Mas o que gostei mais em "The Last Kingdom" foram mesmo as personagens de carne e osso, tridimensionais, com as suas forças e fraquezas, virtudes e defeitos, e motivações bem estabelecidas mesmo quando a personagem muda completamente de ideias. Por exemplo, foi penoso assistir a como Brida, uma rapariga aguerrida mas pragmática, se foi transformando numa fanática religiosa e sanguinária para justificar o seu ódio a Uhtred, quando na verdade era evidente que permanecia em negação quanto aos seus próprios erros. Estas são personagens sólidas, complexas, humanas, que nos despertam a empatia. Quando alguma morria, conseguia mesmo afectar-me, até no caso de alguns vilões.
Não quero dizer quem morre, mas vou dar o exemplo de Haesten, porque sei que desde o início toda a gente vai querer ver Haesten morrer, o mais brevemente possível e o mais lentamente possível. A melhor maneira de descrever Haesten é que é um merdas. Haesten é um guerreiro viking mais cobarde do que guerreiro, sempre mais disposto a fugir do que combater, sempre a pendurar-se nas vitórias dos outros e a gabarolar-se das suas "proezas" inexistentes, um intriguista capaz de trair tudo e todos para satisfazer a cobiça e a ambição, e, pior do que tudo, por várias vezes Haesten tenta tomar mulheres à força, especialmente as prisioneiras de guerra como a princesa Aethelflaed, por quem chega a desenvolver uma obsessão muito para além das práticas normais dos vikings a ponto de arruinar tudo o que já tinha conquistado para a perseguir. Haesten personifica tudo o que há de mais baixo, egoísta, fanfarrão, ganancioso e desleal. Para que a morte dele nos afectasse, uma série menor teria recorrido a um fim agonizante ou a uma redenção-instantânea de um só gesto de compaixão. Mas "The Last Kingdom" começa a preparar a coisa mais cedo. Anos mais velho, Haesten salva a Lady Eadith de uma situação periclitante sem ter nada a ganhar com isso (embora lhe dê a entender que a queria ter como amante, mas nada que garantisse que tal ia acontecer) e tenta mesmo salvar Aelfwynn, filha da própria Aethelflaed, numa circunstância em que podia antes ter-se salvado a si próprio, o que faz dele quase uma pessoa decente. Eu sabia que Haesten tinha os dias contados (melhor gente do que ele morreu por muito menos), mas nunca me passou pela cabeça ter pena deste merdas. Aliás, quem gostou de "A Guerra dos Tronos" vai apreciar as mortes abruptas, muitas delas no momento e da maneira que menos esperávamos. Mas, ao contrário de "A Guerra dos Tronos", muitas destas mortes não valem apenas pelo efeito de choque, algumas fazem-nos mesmo sentir falta do personagem (incluindo alguns vilões, como disse acima).
Resta-me falar dos momentos de humor, alguns muito subtis, como o homem que leva o porco à taberna (quase nem se dá por ele), ou aquela cena em que uma viúva cinquentona, casta como uma monja, acompanhada da neta adolescente e bonita, recebe as atenções indesejadas de um bêbedo que prefere fazer-lhe olhinhos sem ligar nada à rapariga, deixando a senhora bastante incomodada.
E por falar em viúva, foi impressionante como a rainha Aelswith, mulher de Alfred, se transformou de beata fanática em mulher engenhosa e pragmática, exactamente o contrário do percurso de Brida.
Como já salientei antes, "The Last Kingdom" é também uma grande produção em termos de cenários, guarda-roupa, interiores e exteriores da época. Uma delícia para quem é apaixonado por História.
Uhtred, o protagonista, acaba por ser o personagem menos tridimensional, curiosamente. Tornaram-no demasiado "herói de acção" que vence sempre no fim (ou quase sempre), por muito que tenha de passar para lá chegar. Uhtred também tem virtudes e fraquezas (o orgulho e a teimosia são as que o prejudicam mais) e uma mania embirrante de culpar o destino por tudo (o célebre "destiny is all"), afirmando mesmo que nunca teve escolha, para o bem e para o mal, quando nós vemos perfeitamente que teve e que efectivamente escolheu. No entanto, compreendo que tinham de o fazer heróico. Uthred é uma personagem inesquecível e ninguém queria seguir tamanha odisseia para o ver fracassar no fim. Resta saber se consegue recuperar Bebbanburg ou se o destino lhe reserva outras recompensas. Destiny is all!
Uma última palavra para a excelente banda sonora de Eivør e John Lunn, motivo mais do que suficiente para aguardarmos ansiosamente pelo princípio e fim de cada episódio:
https://www.youtube.com/watch?v=WT65X0eBTEA
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes
PARA QUEM GOSTA DE: Vikings, drama histórico
domingo, 16 de fevereiro de 2025
The Last Kingdom (2015 - 2022) [primeira temporada]
Aos 11 anos, Uhtred, filho de um nobre da Northumbria, é raptado por vikings durante um raide e criado como dinamarquês. Earl Ragnar, o seu amo, reconhece-o mais tarde como filho adoptivo. No entanto, quando Ragnar é vítima de traição e toda a família é assassinada, Uhtred regressa ao mundo saxão na tentativa de reconquistar as suas terras e o seu título usurpado pelo tio. Para tal, tem de abandonar os costumes vikings e conquistar o favor do rei Alfred de Wessex. Por esta altura, os vikings (a quem os saxões chamam, indiscriminadamente, dinamarqueses) já tinham invadido toda a Bretanha excepto Wessex, o "último reino".
Entrar no mundo de "The Last Kingdom" pode ser confuso para quem viu (sofreu) "Vikings" até ao fim. Acredito que quem viu "Vikings" primeiro, como eu, passe o primeiro episódio inteiro à procura de Ragnar Lothbrok. E de facto existe um Earl Ragnar, e o seu filho Ragnar Lothbrokson, e existe um Ubba irmão de Ivar (esse, sim, o mesmo Ivar o Sem Ossos de "Vikings" que historicamente morreu na Irlanda, se bem que aqui nem o cheguemos a ver), mas nenhuma destas personagens é o lendário Ragnar Lothbrock ou sequer parente dele (embora Ubba e Ivar fossem, mitologicamente, filhos de Ragnar e parte do Grande Exército Pagão que invadiu a Bretanha para vingar a morte dele num poço de víboras). E também existe um rei Egbert, e um rei Alfred, e um rei Athelred, mas nenhum deles se assemelha aos de "Vikings", apesar de Alfred ser efectivamente o mesmo, Alfredo o Grande.
Ao ler críticas a "Vikings", muitas vezes encontrei comentários a dizer que "The Last Kingdom" é uma série melhor. Na minha opinião não é melhor nem pior, é apenas diferente. Embora ambas as séries se refiram ao mesmo período histórico, a invasão/conquista da Bretanha pelos vikings, "Vikings" centra-se na perspectiva viking enquanto que "The Last Kingdom" se centra na perspectiva saxã. Como tal, uma vez que estes acontecimentos foram registados por cronistas britânicos, The Last Kingdom" é também uma série mais histórica. "Vikings" é a história de Ragnar Lothbrok e seus filhos, todos eles envoltos em mitos e lendas, muitas vezes contraditórios entre si, não obstante serem também mencionados nos registos históricos (como no caso de Ivar na Irlanda, por exemplo). Em suma, o que realmente sabemos de Ragnar e seus filhos é o que se encontra nos registos saxões, pela pena dos seus inimigos, o que também não garante imparcialidade.
Comparando as duas séries, no entanto, "The Last Kingdom" prova que é possível fazer uma série de vikings com cabeça, tronco e membros, com personagens fortes e carismáticas, com a brutalidade e a carnificina que o tema exige (cabeças cortadas, violações, inimigos mortos pregados a estacas, etc), com drama e humor, mas sem a porno-tortura de Michael Hirst que tornava "Vikings" intragável. Não digo que "Vikings" fosse uma série má, digo que a porno-tortura era dispensável. Depois do sadismo de "Vikings", "The Last Kingdom" até parece uma série "levezinha".
Voltando pois a "The Last Kingdom", é significativo que o protagonista se chame Uhtred, um nome portentoso (Uhtred foi o pai do rei Artur). Criado como viking, Uhtred nunca se esqueceu das suas raízes saxãs, mas estará para sempre dividido entre os dois mundos, visto como viking pelos saxões e como saxão pelos vikings. Determinado, impulsivo, impaciente, Uhtred não é completamente simpático como protagonista e às vezes irrita-nos (e às mulheres dele) com as escolhas que toma e que não o beneficiam nada, pelo contrário, só o afastam mais dos seus objectivos, e tudo devido à sua teimosia e orgulho de viking. Por outro lado, Alfred, um rei inteligente, reconhece nele o trunfo de ter ao seu lado um guerreiro que compreende o inimigo, um conhecimento inestimável à altura.
Gostei desta temporada principalmente porque se nota um grande cuidado na caracterização histórica, desde o guarda-roupa à comida e aos interiores. A grande batalha do último episódio é épica, está muito bem coreografada e percebe-se.
Por falar nisso, muita gente comparou esta série, no início, a "Guerra dos Tronos", mas eu notei mais semelhanças com "O Senhor dos Anéis". Ou melhor, dando a volta toda até ao princípio, estes acontecimentos históricos é que inspiraram Tolkien, que por sua vez inspirou George R. R. Martin e todos os autores de Fantasia, assim é que está certo.
"The Last Kingdom" vale mesmo a pena ver por todos os amantes de História e do período viking em particular. Voltarei a esta série quando terminar de vê-la, se se justificar.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: Vikings, drama histórico
