O crava é universalmente odiado. Até um crava odeia outro crava, afinal, porque outro crava significa concorrência.
Toda a gente sabe o que é um crava. É aquela pessoa que crava cigarros porque deixou de fumar (dos dele); que pede dinheiro emprestado e "esquece-se" de pagar; que num jantar de grupo, assim que sabe que a conta vai ser dividida, pede logo o prato mais caro; é o colega de curso que está sempre a pedir os teus apontamentos mas nunca tem nada para partilhar contigo.
A única maneira de escapar ao cravanço é ser assertivo e dizer "não". O crava não é um amigo, é uma sanguessuga.
Os especialistas do ofício do cravanço têm todo um leque de competências para manipular a vítima aproveitando-se da sua generosidade, da sua boa educação, da sua compaixão. Consoante o montante a cravar, um crava de categoria apresenta um choradinho de derreter corações: morreu o pai, morreu a mãe, o bebé recém-nascido está no hospital com cancro, o gato precisa de um transplante de rim. O crava é um artista em adaptar o choradinho à vítima. Contra esta táctica, se a pessoa não quiser ser muito bruta, é repetir "não tenho, não tenho" até o crava acreditar ou desistir. Outra solução é "com essas desgraças todas, já se foi informar se tem direito a um apoio?" Deflectir, dizer não, e nunca ceder. Ceder é dar incentivo ao crava para se alapar que nem carraça. Para quem tem dificuldade em dizer não, lembrem-se que é menos doloroso não deixar a carraça pegar-se do que arrancá-la depois.
É claro que o crava vai reagir mal, pode até ser mal-educado ou fazer-te sentir culpado pela tua falta de compaixão ou generosidade. É assim que reconheces o crava.
Não estou com isto a dizer que nunca se deve ajudar. A diferença entre o crava e a pessoa em dificuldades é a lata e a rapidez com que o crava pede. Um crava não tem vergonha na cara. Começa a cravar 5 minutos depois de te conhecer, às vezes até já para te tirar a pinta de tanso. Começas por dar um cigarro, no outro dia já te está a pedir dinheiro. Fazes um favor, pedes outro favor em troca e a pessoa nunca mais te responde. Dizer "não" faz estas pessoas desaparecer como se se tivessem desfeito em fumo, mas quem é que as quer por perto? Um amigo pode pedir-te um favor de ano a ano e começa sempre envergonhado com um "desculpa lá, não pedia se não estivesse mesmo à rasca, e só se não te incomodar". Ou um conhecido pode dizer "desculpe lá, mal o conheço, mas você percebe mais disto do que eu e talvez me possa dar indicações do que fazer ou a quem pedir ajuda". O crava não tem pudor. Pede como quem tem direito a receber. É uma relação predatória, que nunca é consensual nem recíproca.
Quanto mais banana é a vítima, mais descarado o crava. É o caso do célebre
"Emprestas-me 20 euros?"
"Só tenho 10"
"Não faz mal, ficas-me a dever e pagas-me depois"
Este diálogo é anedota mas aconteceu-me uma coisa semelhante. Um crava de grande categoria até pode contestar assim quando a vítima diz que não tem dinheiro: "Tens, tens. Ganhas tanto, tens tanto de despesas, sobra-te tanto". Já te fez a contabilidade toda sobre como gastar o teu dinheiro. É muita lata mesmo.
Um tipo comum de crava é o chamado pendura. Tradicionalmente era o vizinho que batia sempre à porta quando se estava a pôr a mesa, ou a visita que ia tomar chá e ia ficando, ficando, a fazer-se ao piso para o jantar. Este tipo de crava finge que não percebe as dicas para se ir embora. Continua ali sentado com um sorriso idiota, ou "lembra-se" de começar a falar de outro assunto. Desalojar esta criatura do sofá pode requerer uma intervenção física: inventar uma emergência e abrir a porta da rua, pedindo desculpa, mas é preciso ir atender o telefone imediatamente, ou, no caso dos cravas de certa idade, pegar-lhes no braço e "ajudá-los" a percorrer o caminho até saírem porta fora. Lembrem-se sempre: não são vocês que estão a ser mal-educados. Mal-educado é o crava que está a tentar aproveitar-se da vossa bananice. Não são vocês que estão a ser brutos, é o crava que não tem o mínimo respeito por vocês. Quando somos forçados a recorrer a uma posição mais assertiva, o crava ainda é capaz de dizer "eu ia-me já embora". Não, não ia, está é fulo da vida por o esquema não ter resultado. Lembrem-se, isto é gente que não interessa a ninguém, não importa se ficou amuadinho. Quanto mais amuado melhor, para não tentar outra vez.
Outro dos tipos mais detestáveis de crava é o pendura/encostado da equipa. Todos o conhecemos. Começa a praticar na escola, em tenra idade, nos trabalhos de grupo. Nas empresas e instituições, encosta-se/pendura-se no trabalho dos outros e não faz a ponta. Quando alguém o obriga a trabalhar, faz tudo tão mal e porcamente que os outros membros da equipa começam a excluí-lo de propósito para não prejudicar mais o trabalho, ou dão-lhe qualquer tarefa desnecessária porque é desnecessária, e o crava sabe que é desnecessária e também nunca a completa, embora possa fingir que está a fazer alguma coisa. Este é porventura o tipo de crava mais odiado porque não é possível livrarmo-nos dele. Na escola, porque o professor não o vai tirar do grupo; no trabalho, porque a pessoa que age assim tem algum tipo de protecção do chefe ou do patrão. É uma sanguessuga inescapável, é o nosso karma a castigar-nos pelos pecados das vidas passadas. E o crava sabe, e ainda goza o prato e pergunta "de certeza que não querem mais ajuda?" Muitas vezes este tipo de crava é tomado por incompetente ou preguiçoso, mas nada mais errado! Este é o crava profissional, um mestre avançado do ofício do cravanço, proficiente e industrioso na arte de fazer os outros trabalharem por ele.
Se és um crava, toma vergonha na cara e deixa de o ser.
Os cravas odeiam-me tanto como eu os odeio a eles, porque sabem que daqui não levam nada.
Se os cravas são tão fáceis de identificar, perguntarão, porque é que existem tantos? Duas razões. Primeiro, há muitos cravas porque há muitos bananas. Segundo, por causa da categoria da "gente que paga para ter amigos", que fica para a próxima.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
GENTE QUE ODEIO: 1 - o crava
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