domingo, 29 de agosto de 2021

Eyes Wide Shut / De Olhos Bem Fechados (1999)


Tinha uma imagem melhor para este post, mas mostrava mamilos. O Blogger está armado em Facebook e censurou.

Estava a ver este filme há meia hora quando comecei a olhar para o relógio. Meia hora depois parei a gravação e percebi, para minha angústia, que não ia sequer a meio. Escusado será dizer que este foi um dos filmes mais chatos, daqueles considerados sérios e candidatos a Óscares e blá blá blá, que tive o desprazer de ver na vida.
A certa altura lembrei-me de que é um filme de Stanley Kubrick, de quem nunca fui fã, e que o nome me lembrava uma experiência ainda mais penosa. É claro, o insuportável “2001 - Odisseia no Espaço”, um filme que tentei ver duas vezes e em ambos os casos comecei a beber e acabei a dormir à mesa. (“2001 - Odisseia no Espaço” é considerado por um vasto número de espectadores, eu incluída, como o filme mais chato alguma vez produzido.) Mas desta vez percebi o motivo das minhas experiências gémeas com “2001”, um filme que eu devia comprar para ver nas noites de insónia. Da mesma forma, ao tentar sobreviver à seca de “Eyes Wide Shut”, pensei em beber qualquer coisinha. Infelizmente não me dava jeito beber na altura, ou teria provavelmente acabado a dormir também. Está explicado o efeito tiro e queda de “2001”.
Isto também explica a grande bezana que eu e alguns amigos apanhámos quando nos reunimos em casa de alguém para ver “The Shining”, e acabámos a rebolar-nos a rir. Mas neste caso foi injusto. “The Shining” é um grande filme.
Sei perfeitamente que todos os fãs do grande Stanley Kubrick me estão a rogar pragas neste momento e a chamar-me de ignorante para baixo, mas consolem-se no facto de que o (mau) gosto não se discute. E sim, notei a cinematografia, o contraste e aproveitamento da iluminação, é tudo muito giro, mas nem só de técnica se faz um filme.
Então vamos lá à história. Ou melhor, à não-história, porque tudo espremido não fica muito. Um casal jovem, rico, que tem tudo, mesmo tudo, está em crise por tédio. Já não sabem o que hão-de fazer para não se aborrecerem. (Isto é o problema de ter dinheiro a mais e imaginação a menos, ou, dá Deus nozes a quem não tem dentes.) Na noite seguinte a um baile de Natal na casa de um cliente rico do marido (médico de profissão), em que a esposa flirta descaradamente com um gajo qualquer que a tenta seduzir e o marido faz o mesmo com duas fulanas que o querem levar para a cama, o casal mata o tédio como pode a fumar ganzas. Com a pedrada, começam a discutir o que se passou no baile, falam de ciúmes e da falta deles, e a esposa acaba por confessar que uma vez teve a fantasia de dormir com um oficial da Marinha (o que nunca aconteceu).
Foi o bastante para o médico ficar roído de ciúmes e aproveitar uma visita ao domicílio que o tirou de casa para andar pela rua a meter-se em sarilhos. Acaba numa orgia privada, para gente muito rica e influente que esconde a cara com máscaras, onde é “detectado” como “intruso” e ameaçado de morte antes de ser expulso. Aqui o filme toma contornos de thriller. Ser ameaçado de morte não é brincadeira. No dia seguinte, o médico tenta visitar o amigo que o informou da festa, e descobre que este foi levado do hotel onde se hospedava por dois “capangas” bem vestidos. Uma mulher da festa aparece morta na morgue. Obcecado, e por esta altura com razão, o médico dirige-se à mansão onde a festa se realizou, só para receber um bilhete num envelope que o ameaça novamente para parar de fazer perguntas ou algo lhe acontece e à sua família.
Não percebi, sinceramente, como é que por esta altura ele não foi directamente à polícia, que é o que uma pessoa faz quando nos ameaçam de morte, especialmente por escrito, e especialmente quando nos ameaçam a família também. Sociedade secreta que se dane, nem que lá estivesse o próprio presidente dos Estados Unidos, isto é grave, e além de ir à polícia o médico devia ter ido também aos jornais se tinha assim tanto medo.
Só que isto não acontece porque o filme não é um thriller. Numa reviravolta muito anti-climática, o tal cliente rico do médico chama-o a sua casa e explica-lhe que tudo o que viu foi a fingir, era tudo teatro, ninguém matou ninguém, tudo o que lhe disseram foi para o assustar. Enfim, não se passa nada. “E a mulher, quem era a mulher da festa?”, pergunta o médico, todo desvairado como se ela fosse muito importante, embora só tenham trocado meia dúzia de palavras. “Era uma prostituta”. (Ai, não me digas! E eu a pensar que todas aquelas gajas boas ali estavam por gostar de ir para a cama com homens de meia-idade carecas e barrigudos!)
Então, foi mesmo tudo a fingir ou era a sério? Nunca saberemos, porque o filme também não se interessa mais pelo assunto. Acaba com o marido a chorar baba e ranho a pedir perdão à mulher, apesar de não ter feito nada. Pois é, durante isto tudo a única coisa que ele fez foi o mesmo que os espectadores: assistir a uma orgia. Se eu fosse a mulher dele tinha-me chateado por ele não me ter levado também. Há quem não saiba mesmo divertir-se a dois.
Quando o filme apareceu, pelas imagens e sinopse, sempre pensei que isto ia ser uma história de swingers com sado-maso levezinho à mistura. Afinal nem isso. É apenas uma história que não é história, um estudo sobre um casal em crise que já não sabe o que fazer para se livrar do tédio.
E as actuações, valha-me Deus! Que direcção de actores mais atroz. Se eu não conhecesse a Nicole Kidman e o Tom Cruise de outros Carnavais teria concluído que são péssimos actores. (Não são.) Até parece que alguém disse à Kidman: fala o mais devagar… que conseguires… para vermos quando é que… os espectadores começam… a sair da sala. O mesmo deve ter sido dito a Tom Cruise, com certeza, que também se esforçou por falar devagar, mas não conseguiu tão “bem” como a Nicole. Se não acreditam, vejam/ouçam por vós próprios.
A grande cena do filme é mesmo a orgia, isso nem discuto, e não estou a ser irónica: aquele segmento do início, com o “sacerdote” e as “bacantes”, em que tanto a coreografia como o som podiam ter saído de um vídeo de uma banda gótica, pode explicar alguns fascínios que tenho encontrado por este filme. Se calhar o que o realizador queria mesmo era fazer um filme todo assim, porno-chique, mas a reputação não o deixou.
 
13 em 20 (menos 1 ponto pela seca, mais 2 pela orgia)



domingo, 22 de agosto de 2021

The Outpost

Devo ter ficado mesmo traumatizada com as minhas experiências “Merlin” e “Atlantis” porque, ao começar a ver “The Outpost”, esperava outra série para dizer mal.
E então não é que a série não só é boa, como, pior um pouco, é viciante? A história é Fantasia Grim Dark, e haveria aqui drama suficiente para um George R. R. Martin escrever 20 livros… se os conseguisse acabar, isto é.
Mas “The Outpost”, embora no Género de “A Guerra dos Tronos", é um Grim Dark light que não tenciona traumatizar ninguém. O ritmo da história é tão alucinante que mal temos tempo de digerir um acontecimento dramático quando já está a acontecer outro. Claro que isto não é bom drama, mas entretém bastante.
“The Outpost” começa com a história de Talon (digo “começa” porque entretanto deixa de ser apenas a história dela para se tornar num universo mais alargado, com um world building bem conseguido que nos conquista de episódio para episódio). Talon é a última sobrevivente da tribo/raça/espécie dos Black Bloods, pessoas como os humanos só que têm sangue negro e orelhas pontiagudas. Os Black Bloods foram massacrados quando Talon era criança, a mando da sinistra Primeira Ordem (há razões, mas não vou contar). Talon foi a única a sobreviver porque um dos assassinos teve pena dela (parece-me). Para passar por humana, Talon cortou as orelhas bicudas que distinguem a raça, o que devia ter sido um momento de ir às lágrimas (mas não foi porque, lá está, isto não é bom drama). Depois de adulta, Talon tem um único objectivo: vingar-se dos homens que mataram todos os Black Bloods.
A partir daqui haveria muito a contar, porque isto é só o início. Confesso que não gostei do primeiro episódio, que teve, sem exagero, umas três ou quatro cenas de porrada. Talon, é óbvio, é a guerreira mais durona lá do sítio. E por falar em lutas, não sei o que raio eles fizeram ou tentaram fazer, que todas as lutas, em vez de realistas, como é desejável, parecem estar em “fast forward”, se é que não foram todas feitas com CGI, o que lhes dá um aspecto de jogo de vídeo que nos tira do sério. Mas o problema maior não foram mesmo as cenas de acção, mas a actriz, Jessica Green (Talon). Eu não costumo criticar actuações porque tenho a sorte de ter apanhado sempre actores e actrizes decentes/competentes, e acredito que com mais experiência (e aulas) Jessica Green até lá chegue, mas em três temporadas de “Outpost” não vi evolução nenhuma e tenho de chegar à conclusão de que foi escolhida por ser gira e credível como guerreira. Há uma cena, por exemplo, em que o objectivo é que ela ficasse triste, e nem com cascas de cebola a rapariga conseguiria arrancar lágrimas daqueles olhos. No primeiro episódio, simpatizei mais com a miudinha que fez de Talon em criança (que esteve em cena menos de 10 minutos) do que com a protagonista, o que é mau, muito mau.
Felizmente, não desisti, pois se a protagonista não é propriamente candidata aos Óscares, a história e os personagens secundários valem bem a série, especialmente os actores mais velhos que forneceram peso e espectáculo onde ele não havia.
Aquele personagem ridículo, Janzo, o que é aquilo? É para nos fazer rir? Eu tive foi pena dele, especialmente quando começaram a dizer-lhe que ele não precisava de mudar porque está muito bem como é. Ora, amigos, o personagem parece sempre à beira de uma apoplexia, como é que pode estar bem como é? Pelo menos que endireite as costas ou fica marreco para sempre. Postura! Não era necessário e não faz rir.
Os Black Bloods são perseguidos porque conseguem invocar demónios através de uma espécie de portal para outra dimensão, ou aquilo a que os humanos chamam demónios e que são afinal outra raça. Aqui notou-se incrivelmente a falta de orçamento desta série, há que dizê-lo. O dinheiro foi todo para o cenário e para o guarda-roupa, porque estes pobres demónios são pessoas vestidas de plástico, e às vezes até se vêem os bigodes de borracha a vibrar. Os olhos, então, notava-se às vezes que eram pintados na cabeça do boneco. Fez-me rir, admito, embora não fosse esse o propósito.
O Outpost é uma espécie de reduto de todos os refugiados do regime agora no poder, a terrível Primeira Ordem, que assassinou o antigo rei, a rainha e toda a sua família, crianças e tudo. Mas a pequena princesa sobreviveu (não vou dizer quem ela é). Vou antes explicar porque é que o drama aqui é muito superficial, tão superficial que não se nota. A princesa sobreviveu porque um nobre falsamente leal à Primeira Ordem, mas leal ao antigo rei, a substituiu pela sua própria filha e a criou como se fosse dele. Isto é, este homem entregou a própria filha e assistiu, impávido e sereno, a vê-la ser decapitada. Rico pai, sim senhor! (Compare-se o dramatismo com o conto de Eça de Queirós, “A Aia”, em que esta também troca o seu filho pelo príncipe herdeiro, suicidando-se de seguida.) Mas este homem até já se esqueceu da filha e afeiçoou-se à jovem que criou como sua, como se a outra menina nunca tivesse existido. Pobre miúda!
Isto significa que existe alguém da família real que tem direito ao trono e decide recuperá-lo, e com a ajuda dos demónios de Talon não será impossível, mas também não será fácil.
Outro momento de dramatismo superficial é quando um dos leais à princesa sofre uma lavagem cerebral (com drogas e magia à mistura) e lhe é ordenado que mate o próprio pai, o que ele faz sem pestanejar. Quando acorda do torpor em que tinha sido lançado, matar o pai é a última coisa de que se lembra. “Ooops, e além de fazer estas coisas todas, matei o meu pai.” Personagens profundíssimos, sem dúvida.
Mas não posso terminar este artigo sem falar da maneira em que a tal princesa, a certa altura, quase foi Daenerysada e transformada num monstro impiedoso. Talvez por terem aprendido com “A Guerra dos Tronos”, os autores da série voltaram atrás antes que acontecesse, ou lá se ia outra personagem empática para o galheiro.
Como numa boa Fantasia Grim Dark, há mortes chocantes (que podiam ter sido mais chocantes, mas esta série não é para adultos) e inesperadas, há objectos e seres mágicos, profecias, e um trono a ser reconquistado. Há muito de interessante para ver, desde que não se perca o fio à meada. Como disse, o ritmo é tão alucinante que por vezes eu tinha de parar e lembrar-me de como se chegou do ponto A ao ponto B, o que nunca é bom sinal. “The Outpost” estreou em 2018, já teve três temporadas e prepara uma quarta (nunca pensei que chegasse tão longe, francamente). Não é nenhuma “Guerra dos Tronos”, mas agradará de certeza à mesma audiência. Recomendo, sem grandes entusiasmos.
Uma última nota para os fantásticos títulos dos episódios, que às vezes nos dão pistas, que outras nos enganam de propósito, e que outras simplesmente nos divertem, como no caso do segundo: “Two Heads Are Better Than None”. Grande verdade! E grandes títulos, parabéns!

domingo, 15 de agosto de 2021

Night Train to Lisbon / Comboio nocturno para Lisboa (2013)

Um professor suíço, na meia-idade, descobre o livro filosófico de um autor português (fictício) que o traz impulsivamente a Lisboa. Aqui, tenta saber mais sobre o autor e acaba por reconstruir o seu passado dramático.
Durante todo o filme, senti-me confundida. Por um lado, parecia Portugal. Por outro, às vezes não reconhecia a cultura, e os acontecimentos históricos não foram bem retratados. Por exemplo, o funeral, em que os participantes deixam ali o caixão na carreta e vão-se embora. Não. Por cá as pessoas só se vão embora quando os coveiros começam a cobrir a campa. Ou melhor, é quando eu me vou embora porque é a parte que me impressiona. As outras pessoas ficam sempre mais tempo. É costume pegar num punhado de terra e atirar sobre o caixão. (Mas, verdade seja dita, também nunca fui a um funeral de gente fina.)
Este é um pequeno exemplo de discrepância. Outro, mais importante, é a maneira como se referem constantemente à “resistência” ao regime de Salazar. Nunca houve uma “resistência” assim denominada. Aquela cena dos “resistentes” a combinar a senha (canção) do 25 de Abril foi risível. Não foram os civis a recrutar os militares, foram os militares a iniciar a revolta civil. Nunca se mencionou sequer o PCP. Na altura, o PCP era a resistência. Não havia oposição ao regime que não passasse pelo PCP, mesmo que depois as águas se viessem a separar.
O filme é a adaptação do livro homónimo do autor suíço Pascal Mercier. A sensação com que fiquei é que o autor ou o realizador sabem um poucochinho de nós e da nossa história, mas não o suficiente. O que se vê no filme podia passar-se numa qualquer ditadura sul-americana ficcional à mistura com alguns toques à “portuguesa”. A coisa mais portuguesa que se ouviu é quando aquele personagem diz: “Nós aqui não gostamos de falar do passado. Preferimos enterrá-lo”. Será mesmo só nosso, ou é universal?
Mas a luta contra a ditadura é apenas o pano de fundo e acaba por não ter grande importância. Esta é a história de dois amigos e uma mulher, e de como a dor de corno os destruiu.
O filme pode parecer lento, mas o que me encantou, como não podia deixar de ser, foram as ruas familiares de Lisboa. Quase arrancava os cabelos quando as reconhecia e não conseguia lembrar-me dos nomes delas, sabendo que desde sempre as calcorreei para cima e para baixo. Aquele miradouro onde o Jeremy Irons está sentado? Eu podia jurar que era o miradouro da Graça, mas depois de observar melhor já penso que é o jardim de São Pedro de Alcântara (aquele mesmo ao lado do elevador da Glória). Reparando bem, vêem-se os miradouros da Graça e do Monte. É a mesma paisagem, mas do lado oposto. Lisboa é uma cidade lindíssima e merecia este filme. Só por Lisboa vale a pena ver. Pelo resto, nem por isso.

13 em 20


domingo, 8 de agosto de 2021

Parzival – “Casta”

Parzival foi mais uma banda que conheci através do Festival Entremuralhas. Confesso, a partir de certa altura, que uma amálgama de preguiça e de falta de tempo me afastou de uma das minhas actividades favoritas: procurar música nova. Durante algum tempo fi-lo ouvindo rádio online (a que hoje chamamos podcasts, mais precisamente) mas acabei por perder o hábito. Isto agora vai mudar com o streaming no Twitch, com DJs ao vivo e chat em tempo real, e a possibilidade de assistir comodamente no smartphone enquanto se faz outras coisas, algo de impensável nos tempos dos podcasts em que era preciso estar ao computador para ouvi-los, e, lá está, nem sempre havia tempo disponível para isso.
Dos Parzival, descobri primeiro o álbum “Urheimat”, talvez mais acessível e dançável. Fui ao Bandcamp deles e ouvi a discografia toda (outro luxo que não havia no meu tempo, em que a gente comprava o disco ou CD a partir de um único tema que passava na rádio e às vezes enfiava um grande barrete). Os álbuns são muito diferentes entre si. Diria que gosto muito de “Urheimat” e “Casta”, mas dos outros nem por isso. Da mesma maneira, pode haver quem tenha uma opinião rigorosamente contrária à minha.
É precisamente de “Casta” que quero falar, um álbum que me surpreendeu pela mistura de influências: música indiana, electrónica, marcial, épica, e direi mesmo operática, tudo isto numa banda dinamarquesa.
Tenho a perfeita consciência de que “Casta” não é para toda a gente. Mas, ao primeiro acorde, eu soube que era mesmo para mim. A música indiana fascina-me, até aquela dos filmes de Bollywood. “Casta” não é exactamente música dançável (embora possa muito bem ser dançada), mas leva o apreciador numa viagem de inúmeras subtilezas que se combinam surpreendentemente bem, uma delícia para o sentido auditivo.
Aconselho a audição imediata e, já agora, a da restante discografia, incluindo o excelente “Urheimat” (esse, sim, para dançar).



domingo, 1 de agosto de 2021

47 Meters Down / 47 Metros de Terror (2017)

Durante umas férias no México, duas irmãs são aliciadas a ir observar tubarões em alto-mar dentro de uma jaula própria para o efeito. Como é típico destas coisas, uma delas hesita, mas a outra insiste. O barco que as leva é velho, o guindaste e a jaula em si encontram-se visivelmente em mau estado e bastante ferrugentos. Mas o preço é especial, uma “atençãozinha” de um amigo que conhece o dono do barco. Antes delas mergulham dois amigos, que alegremente tiram fotografias aos tubarões sem que nada aconteça. Mas quando finalmente as duas irmãs são descidas a uma profundidade de 5 metros, o guindaste parte-se, a jaula vai a pique até ao fundo, o guindaste cai-lhe em cima. As irmãs ficam a 47 metros de profundidade, em águas infestadas de tubarões, com pouco oxigénio nos tanques de mergulho. Mesmo que quisessem correr o risco de nadar para o barco também não podiam, porque àquela profundidade têm de parar para fazer descompressão durante alguns minutos, esperando que os tubarões não dêem por isso. E não são tubarõezinhos, são mesmo monstros de 6 a 8 metros de comprimento, daqueles que abrem a boca e engolem logo uma cabeça.
Uma das melhores cenas do filme é quando elas decidem arriscar e nadar até ao barco com um very light aceso para assustar os tubarões. (Não faço ideia se na realidade resulta, mas na lógica do filme faz todo o sentido, sem querer explicar mais para não incorrer em spoilers.*) A certa altura o very light apaga-se e elas acendem outro. Assim que o acendem, grandes tubarões de bocarra aberta já as rodeiam por todo o lado. É mesmo um imaginário de pesadelo.
Este é um filme que faz o que promete: terror com tubarões no fundo do mar. Não é para esperar mais, embora a conversa entre as irmãs pudesse ser muito melhorada. Os diálogos são do mais cliché que existe: “Vamos morrer aqui”, “Não, não vamos, já vem ajuda a caminho”; “Não chegam a tempo, estamos quase sem oxigénio”, “A culpa foi minha, não devia ter insistido”, etc, etc. Nada de original, numa situação em que vertentes muito mais dramáticas da vida das irmãs podiam ter sido exploradas. Mas este não é desses filmes.
Gostei da reviravolta final, que, embora não sendo previsível, também não caiu do céu aos trambolhões como tantas vezes acontece. Neste caso, foi bem feito.
Excelente filme para ver antes de ir à praia.
 
14 em 20

* Aparentemente, os tubarões não têm medo de very lights.


domingo, 25 de julho de 2021

The Walking Dead (décima temporada, 3ª parte)

Este Covid é tão mau que até os zombies foram afectados. Nada de ajuntamentos, nada de hordas, distanciamento social de 2 metros. Chiça, até depois de morto um zombie tem de levar com o Covid!
Estou a brincar, mas é sabido que as gravações desta azarada temporada foram interrompidas e prejudicadas pela pandemia. A esta parte da terceira temporada de que falo agora até se chama 3C. Tratam-se de 6 episódios “extra”, filmados durante a pandemia, com o menor número de actores e figurantes possível. E não é que os episódios são bons?

"Home Sweet Home"
Neste episódio Maggie regressa (saída de “Whiskey Cavalier”) depois de a comunidade onde ela estava com a Georgie (lembram-se dela, dos 15 minutos que esteve em cena?) ir para o brejo. Não sei o que se passa com estas comunidades na Virginia, sempre famintas e miseráveis. Ali ao lado, no Texas, em “Fear The Walking Dead”, há comida à fartazana, balas que nunca mais acabam e walkie talkies a dar com um pau. Os nossos sobreviventes de Atlanta é que nunca mais saem da cepa torta.
Maggie traz com ela o filho de Glenn, chamado Hershel em homenagem ao avô (finalmente vimos o miúdo, já não era sem tempo!) e depara-se, em Alexandria, com um Negan à solta! Negan, o homem que esmigalhou o crânio de Glenn à cacetada! Não admira que Maggie lhe deite olhos assassinos. Negan, que até gosta de crianças, tinha aqui uma hipótese de se envergonhar do que fez, olhando o filho de Glenn que é a cara do pai (na altura até Maggie, ainda grávida, esteve na mira de Lucille). Mas Negan é irredimível, por estas e por outras, e o melhor que ele fazia era ir recomeçar junto de outra comunidade onde não o conhecessem.
Alexandria está arrasada depois do ataque dos Whisperers e todos os elementos da comunidade são necessários. Se calhar é por isso que Maggie não o mata imediatamente (Maggie, a mesma que enforcou um homem em Hilltop por muito menos), porque desta vez ela pretende ficar.
Gostei de como finalmente este episódio lidou com as consequências das acções de Negan e o confrontou com Maggie, algo que já tardava.

"Find Me"
Neste episódio, ficamos a saber que entretanto Daryl teve um romance com outra solitária dos bosques como ele, enquanto ele andava à procura do corpo de Rick. Até que enfim! Eles são mesmo feitos um para outro. Leah, é o nome dela, era a dona do cão e foi ela quem lhe chamou Dog. Quando, subitamente, Leah desaparece sem sabermos o que lhe aconteceu, Daryl fica com Dog. E é tudo o que sabemos da relação entre os dois. Simplesmente achei este romance muito apressado. Daryl é um personagem principal, merecia um tratamento mais aprofundado. Mas enfim, talvez ela reapareça.

"One More"
Este é possivelmente o melhor episódio desta série de extras. Basta dizer que envolve Robert Patrick (ex-Terminator) e uma roleta-russa. É preciso mais? O curioso é que os personagens principais são os improváveis Aaron e o padre Gabriel, e que papelão fazem ambos (e Patrick)! Andam ambos à busca de comida (Alexandria está cada vez mais miserável) quando encontram um javali selvagem preso dentro de um escritório. Grande erro, não lhes passa pela cabeça que o javali não se fechou lá sozinho e que tem dono. E quando o dono aparece, armado, a perguntar que tal estava o jantar… estão lixados.
Antes disso, confraternizando, Araon e o padre Gabriel (que aqui adquire uma profundidade que explica a mudança que temos vindo a ver na personagem e que há muito precisava de consistência) têm uma profunda e significativa discussão filosófica como já não se via em “The Walking Dead” há muito tempo. Uma discussão que faz sentido e que vem a propósito!
O episódio podia bem ser um filme, de tão bom é o script e tão independente do resto da série. O final é surpreendente, se não mesmo chocante. Aconselho vivamente.

"Splinter"
Este é o episódio em que descobrimos porque é que a primeira coisa que Princess pergunta aos sobreviventes recém-chegados quando os conhece é: “Vocês são reais?” A pergunta não era retórica. Princess é (ou o estado de coisas tornou-a) uma psicótica que fala com pessoas que não existem para lidar com a solidão. Este é um bom episódio, mas o que mais sofre com os condicionamentos pandémicos. Princess é praticamente a única personagem em cena. Mas a actriz está à altura do desafio e em questão de meia hora conseguimos empatizar com ela como não conseguimos nos episódios anteriores. Assim sim, vale a pena.

"Diverged"
"Diverged" foi de todos estes extras o episódio mais criticado porque aparentemente não acontece nada. Daryl e Carol estão zangados e vai cada um para seu lado. Dog, estupidamente, vai atrás da Carol, que não merece a companhia. Eu gostei deste episódio, próximo da comédia, que mais parece um daqueles filmes europeus de estudo de personagem. Daryl tem de arranjar a mota; Carol tem de fazer uma sopa com o pouco que existe na cozinha. Mas na cozinha anda também uma ratazana. O episódio vale a pena nem que seja pelo grito de Carol a fugir do rato, a grande Carol, a durona Carol. Eu receei que entretanto o Daryl chegasse e a ratazana acabasse na panela da sopa. Mas felizmente a ratazana fugiu antes. Final feliz.

"Here's Negan"
E chegamos finalmente ao episódio da backstory de Negan, antes do apocalipse, quando ele era um homem normal. Com defeitos, mas normal. O que ele fez de bom antes não chega para redimir o mal que fez depois. Sim, eu sei que esteve muito tempo na prisão e isso tudo, e que se calhar até mudou um pouco para melhor, mas a mim nada me convence. Toda a gente sofreu e perdeu gente, toda a gente passou por merdas e humilhações, só poucos se tornaram em sociopatas assassinos. E a mim Negan não convence e nunca convencerá.
No fim do episódio, Carol decide mudar Negan para uma cabana fora de Alexandria, porque “se ficas, a Maggie mata-te”. Mas Negan decide voltar para Alexandria e enfrentar a sua sorte. Maggie continua a deitar-lhe olhos assassinos. “Assim, o teu sangue não está nas minhas mãos”, diz ainda Carol, que lava as mãos como Pilatos, e faz ela muito bem.

Esta colecção de episódios extra foi melhor do que muitas das últimas temporadas e promete grandes confrontos para a décima primeira, que vai ser a última e terá 24 episódios. Venha de lá o final, com a qualidade que esta série já não tinha há anos!
Isto sim, seria um fim digno para uma série que já foi tão grande.

 

domingo, 18 de julho de 2021

La Vénus à la fourrure / Vénus de vison (2013)

"Vénus de vison" é um daqueles filmes intelectuais que lançam muitas questões mas não tencionam responder a nenhuma. Ou melhor, é daqueles filmes que cada espectador vai interpretar à sua maneira, de acordo com as suas convicções, preconceitos e sensibilidades. O melhor mesmo é não dar respostas.
A complexidade começa logo na sua descrição, um filme que é a adaptação de Roman Polanski da peça de teatro “Venus in Fur” do norte-americano David Ives, que é por sua vez inspirada no livro “A Vénus de Kazabaïka” de Leopold von Sacher-Masoch, esse mesmo a que o termo “masoquismo” deve o nome. É uma interpretação dentro de uma interpretação de uma interpretação.
As voltas que eu dei para encontrar o título do livro em português, “A Vénus de Kazabaïka”! Como se depreende, não é o meu género nem nunca vai ser. Embora, inescapavelmente, conheça o tema “Venus in Fur”, original dos Velvet Undeground, que me causa a mesma indiferença. (E o original dos Velvet Undeground nem é a minha versão preferida, por falar nisso.)
No fim de um dia de audições, o director da peça referida está sozinho no teatro, muito frustrado com todas as actrizes que viu, quando lhe entra pela porta uma candidata que o convence a ficar fora de horas para lhe dar uma oportunidade. Esta actriz parece uma ignorante, ou faz-se passar por isso, mas quando começam a falar das personagens e do livro torna-se cada vez mais notório que ela sabe muito mais do que deu a entender a princípio, que na verdade “domina” o tema (e nestas coisas o termo “dominar é importante), e que ali está para acusar a peça de ser sexista e pornográfica e para humilhar o seu director. A questão é: porquê, e com que objectivo? Ele próprio lhe pergunta directamente algumas vezes: “quem é você?”. Eu tenho a minha interpretação, ou melhor, a resposta que para mim, amante do sobrenatural, seria mais satisfatória: ela é a própria deusa Vénus a dar uma lição do poder da sexualidade feminina a quem não percebe nada do assunto.
Tenho a certeza de que não é esta a interpretação do realizador, nem dos críticos, mas era a que me daria mais gozo. Porque, no fim de contas, embora tenha gostado muito da conversa/confronto entre os dois, e de achar que os temas abordados são interessantes, depois de tudo espremido a verdade é que acabei com um encolher de ombros indiferente. Se calhar estes temas já me interessaram mais, quando ainda estava na idade da curiosidade, mas tudo isto já me parece tão “batido” (outra palavra nada inocente) que já não percebo o que há de novo a dizer. Ou se calhar Polanski não me conseguiu dizer nada de novo.
O que não significa que seja um mau filme. Tendo em conta que a acção se passa toda no palco do teatro, como se fosse mesmo uma peça, em que entram apenas dois actores que têm de fazer tudo sozinhos, surpreendeu-me como é que o filme me conseguiu agarrar tanto sem nunca lhe sentir momentos mortos. Só porque os temas são batidos, não quer dizer que não continuem intelectualmente estimulantes.
Mas o meu gosto pessoal quer acreditar que foi mesmo Vénus quem entrou no teatro. Se não foi, devia ter sido.

14 em 20


domingo, 11 de julho de 2021

Jurassic World: Fallen Kingdom (2018)


Este filme deixou-me deprimida. E nem sequer estou a brincar.
No primeiro “Jurassic Park”, impactante e inesquecível, os cientistas criaram os dinossauros porque os progressos técnicos o permitiram. Havia uma aura de inocência e deslumbramento, de ciência optimista e “miraculosa”. O parque foi criado para partilhar o assombro com toda a gente que pela primeira vez podia ver um dinossauro vivo após uma extinção de milhões de anos. Trinta anos depois, a inocência, o deslumbramento, o orgulho contido neste progresso, tudo isto deu lugar a um cinismo pérfido e capitalista capaz da maior vileza neste “Jurassic World: Fallen Kingdom”. Sinal dos tempos? Sem sombra de dúvida.
Perdi o episódio anterior, “Jurassic World” (2015), de que as críticas falam pessimamente. Parece que tentaram fazer um novo parque temático, desta vez contendo os dinossauros numa ilha de onde não podiam sair, o que é bem pensado. Mesmo assim, os dinossauros deram cabo do projecto, como dão sempre. Os dinossauros foram deixados em paz, até que neste filme o vulcão da pequena ilha entra em erupção e em breve a vai engolir em lava. Todos os dinossauros serão destruídos.
Coloca-se a questão ética: se foi o Homem que os criou, não deveria o Homem impedir a sua segunda extinção?
“Não”, diz o Professor Malcom (interpretado pelo veterano “jurássico” Jeff Goldblum), “devemos deixar extinguir estes magníficos animais. Não devíamos sequer tê-los criado, foi um erro, e agora a Natureza está a corrigir esse erro.”
“É então um acto de Deus?”, perguntam-lhe.
“Com todo o respeito, Deus não é para aqui chamado.”
Pois não, mas foram cientistas como o Professor Malcom que se divertiram bastante a armar-se em Deus. Quando dá para o torto, chutam para canto e responsabilizam a Natureza. Ora, parece-me que a Natureza não fez o vulcão explodir para corrigir os erros humanos. A Natureza está-se nas tintas se destrói humanos ou dinossauros. É, sim, uma incumbência duplamente ética impedir a destruição de animais que só ali estão por culpa da arrogância de cientistas como o Professor Malcom que não pensam nas consequências.
Digo “duplamente” porque é incumbência do ser humano impedir a extinção de fauna e flora que na nossa realidade muito próxima podem desaparecer devido à pressão demográfica e à destruição sistemática dos seus habitats. Os grandes carnívoros, os grandes felinos, os grandes herbívoros como as girafas, os elefantes e os rinocerontes, estão mesmo em risco de desaparecer, o que seria um delito vergonhoso, não da Natureza, mas do Homem. O filme lembrou-me disto e foi o primeiro momento depressivo que me atingiu. Neste estado de coisas, quem é que precisa de recriar animais já extintos para sofrerem de novo igual destino, quando nem os que existem conseguimos salvar? Só mesmo por arrogância, estupidez e insensibilidade.
Algo que este filme conseguiu, e que os anteriores, apresentando os dinossauros como monstros, não conseguiram ou não quiseram, foi fazer-nos empatizar com os dinossauros como os animais que realmente são.
Claire Dearing, a directora do parque da ilha jurássica no filme que eu não vi, encontra-se numa campanha de sensibilização para salvar os dinossauros. Quando tudo parece perdido, é chamada à mansão do milionário Benjamin Lockwood, aparentemente um dos sócios do projecto do primeiro Parque Jurássico, onde o executivo à frente desta grande fortuna a informa de que conseguiram comprar uma ilha que será um santuário para os animais, mas precisam da ajuda dela para capturar alguns espécimes.
Uma equipa parte para a ilha, já pressionada pelo pouco tempo que resta. O vulcão está mesmo prestes a destruir a ilha e os seus habitantes, e quem lá estiver também. É então que a equipa de resgate é traída. O executivo e os seus capangas são maus como a Máfia e dispostos a tudo, até ao homicídio, para levarem dali alguns espécimes de dinossauro (os mais “valiosos”) na intenção de os licitarem pelo melhor preço. Não existe santuário, era tudo um embuste.
Os membros da equipa são deixados para trás, quando a lava já escorre pelo vulcão abaixo. Alguns dinossauros, carnívoros e herbívoros, em desespero, lançam-se de uma falésia abaixo, procurando o mar onde morrem afogados. Mas até aqui a tragédia dos animais ainda não tinha tido tempo de bater a sério, porque os pobres coitados da equipa também se arriscavam a ficar transformados em estátuas de lava como as de Pompeia.
Quando finalmente os humanos estão a salvo, conseguindo entrar no barco que é o último transporte para fora da ilha, olham para trás. Mesmo à pontinha do cais de embarque, um grande dinossauro herbívoro olha-os a afastar-se, e chama-os e chora, nos seus roncos uivantes, enquanto a lava e a nuvem piroclástica se aproxima, devagar, devagar, e os chamamentos se tornam cada vez mais cortantes e aflitivos, até que por fim são apenas queixumes quando o animal compreende o seu fim.

Ter de assistir a isto partiu-me o coração e fiquei doente durante alguns dias. Fiz uma pausa no filme, deprimidíssima. Este animal representa todos os outros que foram deixados para trás a uma morte horrível. Isto não é coisa que alguma vez consiga esquecer na minha vida e não aconselho a pessoas sensíveis.
Os animais que foram “salvos” são directamente conduzidos para o leilão de super-ricos na mansão Lockwood, onde os dinossauros são licitados para todos os fins imaginários: farmacêuticos, bélicos, e até porque a filha de um milionário quer ter um dinossauro bebé.
Eu ia dizer que este filme me deprimiu em três momentos, mas acrescento aqui um outro. Estes animais foram “salvos” para serem “desmantelados” em partes à vontade do freguês que pagar mais. Já que os dinossauros não davam lucro como atracção circense, que ao menos rendam alguma coisa como peças de talho. Inqualificável.
Como é apanágio destes filmes, há sempre um vilão idiota que abre uma jaula sem querer, e lá escapa um super-predador. Nunca percebi porque é que estes filmes são supostamente “para crianças” porque sempre os vi como filmes de terror, e este não é excepção. A única diferença entre estes filmes e os de terror é que os maus são comidos e os bons lá conseguem sempre safar-se, para não traumatizar as criancinhas.
Desta vez quem abre todas as jaulas para os dinossauros escaparem livremente para o mundo real não é um adulto (pelo menos não foram assim tão estúpidos), mas uma criança incapaz de ponderar as consequências do seu acto de “compaixão”. E agora os dinossauros estão à solta na natureza, super-predadores que não deveriam existir.
O meu quarto e último momento de depressão foi quando um destes super-carnívoros invade um jardim zoológico e lhe sai ao caminho um orgulhoso leão. Em voz off, ouvimos ainda o depoimento do Professor Malcom: “Os dinossauros estiveram cá antes de nós e podem muito bem vir a estar cá depois de nós”. O leão não tem hipótese, os nossos magníficos animais selvagens não têm defesas contra dinossauros. E deu-me uma melancolia profunda, profunda. Entre os animais que já cá estão e os que não deviam já estar, escolho, de alma rasgada em duas, os que já cá estão.
De quem é a culpa? Não de Deus e muito menos da Natureza. Um bom final, se houvesse justiça, seria atirar aos dinossauros os cientistas que fizeram a merda para encher o ego.

Este filme deprimiu-me deveras, mas não por ser um bom filme. Os personagens são bidimensionais, os vilões são maus como as cobras (Don Corleone seria um santo ao pé deles), o enredo é igual a todos os filmes anteriores da série. Salva-se neste filme uma vertente Terror mais acentuada do que nos anteriores, e talvez uma invasão da Terra pelos dinossauros numa próxima sequela.
 
14 em 20 (porque me atingiu emocionalmente e porque os dinossauros são bastante realistas)
 

 

domingo, 4 de julho de 2021

Gravity (2013)

Este é daqueles filmes para roer as unhas do princípio ao fim. Três astronautas estão no espaço, fora da nave, numa actualização de rotina ao observatório Hubble, quando começam a ser atingidos por destroços de um satélite russo destruído por um míssil. A princípio estes destroços não deviam atingi-los, mas a trajectória muda e o pior acontece.
Nos primeiros minutos, só sabemos que não morrem todos porque o filme não pode acabar já. Mas esteve perto. E desculpem o spoiler, mas é a essência do filme: no fim a personagem interpretada por Sandra Bullock, engenheira, fica mesmo sozinha no espaço e não sabe como voltar. George Clooney, no papel do astronauta do vai-vém Explorer, diz-lhe claramente: “A doutora é que é o génio, eu só conduzo o autocarro”.
Mas Ryan Stone, a engenheira, não sabe conduzir o autocarro. Ficamos logo muito preocupados quando a vemos pegar nos manuais de bordo para se orientar. Claramente, é alguém que não sabe o que está a fazer. Alguém como nós, se nos víssemos naquela situação. O observatório é destruído, o Explorer é destruído, Stone consegue chegar à Estação Espacial Internacional, que também acaba por ser destruída. O filme é classificado como Drama, Ficção Científica e Thriller, mas não sei até que ponto não é igualmente Terror. Os corpos dos astronautas acumulam-se horrivelmente, congelados, os capacetes partidos, os rostos rachados e metidos para dentro como se o vácuo os tivesse sugado. Não existe um monstro, mas o espaço, ele próprio, é um ”monstro” indiferente que não se apieda da fragilidade da vida humana.
As comunicações com Houston estão cortadas. Seguindo as instruções do astronauta veterano, Stone consegue chegar à estação russa. E este parece ser mesmo o fim para ela, quando se apercebe de que a nave russa não tem combustível.
Desesperada, Stone começa a tentar o rádio, silencioso desde que perderam as comunicações com Houston. Aqui acontece a cena mais comovente e psicológica do filme. Stone consegue estabelecer contacto com alguém, possivelmente um rádio-amadorista em qualquer local remoto na Terra. Ele não fala inglês, não sabe quem está do outro lado e não faz ideia de que pode ser a última vez que Stone fala com alguém. Nesse momento de desespero, Stone apaga as luzes da nave russa. Como ela confessa no princípio do filme, Stone perdeu uma filha de quatro anos. Tudo o que ela conta sobre isso indica alguém que nunca conseguiu lidar com esse luto e em vez disso enfiou a cabeça no trabalho para não enfrentar a perda. Aqui, confrontada com a morte iminente, Stone tem de decidir se quer continuar a viver sem a filha. O radio-amadorista tem um bebé, a quem começa a cantar uma canção de embalar. Stone pede-lhe que não pare de cantar, que a embale até à hipotermia e à morte.
No último momento, Stone pensa numa solução, a única possível e a mais desesperada, e decide viver enquanto conseguir. O que não vai ser fácil. Por causa da chuva de destroços, ainda vamos ver a estação espacial chinesa completamente destruída. Sem querer acumular mais spoilers, até há alguns momentos de humor nervoso quando Stone percebe que tudo na estação chinesa está escrito em chinês e começa a carregar nos botões ao calhas a tentar perceber o que resulta. É o tudo por tudo.
Esta é uma história de sobrevivência filmada com tanta beleza como horror: a Terra, linda e azul como pano de fundo, ali tão perto, mas longínqua e proibitiva na falta dos meios de lá regressar. Stone, a protagonista, tem de vencer ainda outro obstáculo, interior e secreto: será que quer mesmo sobreviver? Não será que aceitou a missão com um desejo de morte? Sem motivação e sem os conhecimentos técnicos bastantes, tem ela alguma hipótese de escapar? E será que quer mesmo escapar?
Eu fiquei agarrada ao filme do princípio ao fim. É um filme curto mas a acção acontece a um ritmo tão vertiginoso que parece ainda mais curto. Só não posso dar 20 em 20 porque me parece que, para além da história de sobrevivência, excelente como ela é, faltava aqui mais qualquer coisa, algo de transcendente que só acontece nos filmes verdadeiramente geniais. “Gravity” é um drama de sobrevivência e de tragédia pessoal, mas eu queria mais.
 
17 em 20



domingo, 27 de junho de 2021

Dawn of the Planet of the Apes (2014)

Vi “Rise of the Planet of the Apes” (2011) e não gostei. É claro que empatizei com Caesar (era preciso ter uma pedra em vez de coração para não empatizar) mas achei aquilo tudo muito apressado. Os chimpanzés passaram de primatas a génios que jogam xadrez e falam inglês muito depressa. E toda aquela cena na ponte, com os primatas armados, a cavalo, a derrotarem o exército e a polícia e até os helicópteros… Não, não me convence.
Não fui a única, porque o filme foi parodiado em “Scary Movie V” (2013), em que desta vez a paródia incide nos filmes “Actividade Paranomal”. Caesar era o primata mais inteligente daquela casa, o que não era difícil. Vi “Scary Movie V” antes de ver “Rise”, e admito que ao ver o original me ri de piadas de “Scary Movie V” que não apanhei antes de ver o filme em que se baseiam. E a verdade é que “Rise” caiu no exagero e mereceu as piadas que lhe fizeram.
Mas para falar de “Dawn” tenho de falar de “Rise”, e outra questão se me colocou. Os primatas tornaram-se mais inteligentes graças a uma droga verdadeiramente miraculosa destinada a curar o Alzheimer. E não só funcionou com os pacientes humanos, como aumentou as capacidades cognitivas dos chimpanzés. Como é que não houve uma alminha normal, saudável, humana, que não tenha pensado em experimentar a droga para aumentar a sua própria inteligência? Custa-me a crer. Na universidade, eu teria tomado tudo e mais alguma coisa para passar à cadeira de Matemática. Assim, só os chimpanzés aproveitaram a droga. Os humanos não a usaram para seu benefício.
Chegamos a “Dawn of the Planet of the Apes”, e logo na narração de abertura nos é dito que o mesmo laboratório que produziu esta droga deixou fugir um vírus a que se chamou Gripe Símia e que dizimou grande parte da população humana. Não afirmam quantos morreram, mas por aquilo que vi no filme eu arriscaria a dizer que matou 90% das pessoas.
Isto serviu para explicar como é que o planeta se tornou um mundo pós-apocalíptico em que os humanos quase não existem. Mal explicado, para mim, e novamente apressado. O realizador estava mortinho para pôr os humanos para trás e focar-se no que era realmente importante: a evolução dos primatas. Vírus, asteróide, o importante era andar para a frente. O resultado foi bom, mas continuo a não gostar da “conveniência” desta hecatombe que facilitou muito a vida aos macacos. No filme original (“Planet of the Apes”, 1968) a ascensão dos primatas foi possibilitada porque os humanos se destruíram uns aos outros na última guerra nuclear. Isto é arrepiante, faz sentido e é um desenvolvimento orgânico. Em “Dawn”, a Gripe Símia é uma muleta para fazer o enredo avançar. O realizador sabe disto muito bem e nunca mais se fala na Gripe Símia. Os sobreviventes são geneticamente imunes, e avançamos.
Passaram-se 10 anos desde a Gripe Símia. Agora os macacos já têm uma pequena civilização nas florestas desertas, onde o orangotango Maurice ensina os macaquinhos a ler e a escrever e o lema é “Macaco não mata macaco”. As fêmeas enfeitam-se com jóias rudimentares de metal e pedras brilhantes. Caesar, o líder, tem uma esposa e dois filhos. Os macacos vivem bem e em paz. Os primatas que se tornaram mais inteligentes devido à droga inicial do laboratório, têm filhos igualmente inteligentes. Muitos deles aprenderam a falar, embora prefiram comunicar por linguagem gestual. Esta civilização primitiva não é descabida. Afinal, ao contrário dos primeiros hominídeos, estes não tiveram de inventar a roda. Aproveitaram o que lhes interessava da civilização humana e abandonaram o resto.
A paz é perturbada quando um grupo de humanos, que mais tarde vimos a saber fazerem parte de um pequeno número de sobreviventes em São Francisco, entra na floresta na intenção de reactivar uma barragem abandonada para terem energia.
O encontro com os macacos dá logo mal resultado, quando um humano em pânico dispara sobre um dos primatas, matando-o.
Caesar, no primeiro filme, foi comparado a um Spartacus que lidera a revolta dos seus irmãos enjaulados e torturados em laboratório. Aqui, Caesar já evoluiu para o papel de estadista, que recusa vingar-se dos humanos porque tal represália conduziria à guerra, e Caesar sabe que essa guerra mataria muitos dos seus súbditos, se é que os humanos, embora poucos e enfraquecidos, não estariam ainda em posição de a vencer. Na povoação dos macacos não há armas e Caesar não as quer ter, e com razão. Mas nem Caesar compreende o perigo que ameaça a sua civilização aparentemente tão fraternal.
Alguns macacos, liderados por Koba, um antigo chimpanzé de laboratório que foi testado e torturado pelos humanos, e que os odeia, discorda de Caesar. Quer a guerra e o extermínio completo dos humanos.
Aqui começa um jogo de dissimulação que eventualmente leva ao assassinato, ao golpe de Estado, aos prisioneiros políticos. Diz Caesar, a um grupo de aliados humanos: “Pensei que os macacos eram muito diferentes dos humanos. Agora percebo que somos muito parecidos.” Pois é, Caesar, e digo-te mesmo mais da minha observação: quanto mais inteligentes, mais perigosos. Pensavas mesmo que podias ter inteligência sem conflito? Pobre Caesar, bem-intencionado, tem uma grande desilusão com o seu próximo. Por último, diz a Koba, tentando justificar as más tendências que vê nele: “Tu não és macaco.” Se Koba não é macaco, tu também não és, Caesar, se te olhares ao espelho. Achas mesmo que ainda és macaco? Há muito tempo que o deixaste de ser, mas continuas em negação.
Mas os humanos não são melhores. Apenas um grupo de pessoas compreende a causa dos macacos e acha que estes têm o direito de viver em paz e liberdade sem que nenhuma das espécies tenha de hostilizar a outra. Infelizmente, a maioria dos humanos também odeia os macacos, especialmente depois das primeiras escaramuças, a juntar à Gripe, e a guerra é inevitável.
Ao contrário de “Rise”, este filme é menos sobre macacos que se tornam geniais e mais sobre dois grupos de seres inteligentes que podiam cooperar para o bem comum, mas preferem antes descer à barbárie e à guerra, embora os prejudique, movidos pelo ódio mais visceral. Alguém observou, numa das críticas, que é difícil dizer quem começou. Houve culpa de parte a parte. O importante é saber quem vai acabar.
“Dawn of the Planet of the Apes” deixou o ridículo para trás e apresenta-nos um filme lúcido e filosófico sobre nós próprios, sobre a guerra e o conflito e a sequência de acontecimentos que tantas vezes fazem o Mal prevalecer sobre o Bem. Na opinião de alguns críticos, esta foi a melhor sequela já produzida depois do filme original de 1968. Não discordo. Gostei e recomendo.

15 em 20