E pronto, é a guerra total. Este filme não vai dizer muito a quem não viu os dois anteriores, especialmente o segundo. A guerra entre os macacos e os humanos foi declarada: aqui está ela.
O terceiro filme está repleto de crueldade: de macacos contra macacos, de macacos contra humanos e vice-versa, e de humanos contra humanos. É a guerra, não é um piquenique.
O realizador aproveitou para fazer um homenagem a “Apocalypse Now” na figura do implacável Coronel enviado para comandar o destacamento incumbido de extinguir os macacos da face da terra de uma vez por todas. Este Coronel podia muito bem ser o outro, o mítico Coronel Kurtz. Temido por macacos e humanos, acabam por ser estes últimos (os humanos) que, discordando dos seus métodos, mandam um outro destacamento para o prender, tal como “Apocalypse Now”. Aliás, a homenagem nem pretende ser discreta. A certa altura alguém escreveu numa parede APE-CALYPSE NOW, mas com um personagem a esconder o “E”, o que se lê imediatamente é APOCALYPSE NOW.
Este tal Coronel (nunca sabemos o nome dele), consegue realizar uma investida furtiva na calada da noite para matar Caesar, mas em vez deste mata-lhe a mulher e o filho adolescente, que dormiam nos mesmos aposentos. Para um humano, afinal, todos os macacos são iguais. Caesar ainda tem um filho pequeno, mas entrega-o aos cuidados da noiva do filho mais velho e parte para se vingar, nem que a vingança lhe custe a vida também.
Mas há aqui uma reviravolta de peso. O tal vírus da gripe símia, que dizimou a maioria da população humana, mutou e agora atinge os humanos nas suas funções cognitivas. Mais uma vez, não vai ser a guerra a derrotar a humanidade, mas um vírus. Os humanos sobreviventes perdem inteligência e qualquer capacidade de falar (embora consigam comunicar com uma linguagem gestual rudimentar). É o que vemos no filme “O Planeta dos Macacos” original, e é como os humanos acabam escravizados pelos macacos.
Se me convenceu? Não. Um vírus que afecte as funções cognitivas de modo degenerativo acaba por matar o hospedeiro, não fica a meio caminho. Digamos que este é um vírus “conveniente”. Também não gostei que os macacos tenham sido tão “ajudados” pela gripe símia, no segundo filme, a assumirem uma posição preponderante em relação aos humanos. Foi demasiado fácil. A ascensão dos macacos devia ter sido mais lenta e progressiva, ou na guerra, com uma ajudinha dos humanos a matarem-se uns aos outros. Aqui foi tudo muito rápido.
Também não gostei da personagem Rambesca em que transformaram Caesar, o estadista e o estratega, o grande Spartacus primata, que perde a frieza política e abandona o seu povo para ir vingar a morte do filho e da mulher. Muito cliché de filmes de acção. Caesar merecia um papel mais inteligente na derradeira vitória contra os humanos.
Por estes clichés todos, o terceiro filme não é melhor do que o segundo (“Dawn of the Planet of the Apes”), nem lá perto, mas ainda é de longe melhor do que o primeiro (“Rise of the Planet of the Apes”).
13 em 20
domingo, 19 de dezembro de 2021
War for the Planet of the Apes / Planeta dos Macacos: A Guerra (2017)
domingo, 27 de junho de 2021
Dawn of the Planet of the Apes (2014)
Vi “Rise of the Planet of the Apes” (2011) e não gostei. É claro que empatizei com Caesar (era preciso ter uma pedra em vez de coração para não empatizar) mas achei aquilo tudo muito apressado. Os chimpanzés passaram de primatas a génios que jogam xadrez e falam inglês muito depressa. E toda aquela cena na ponte, com os primatas armados, a cavalo, a derrotarem o exército e a polícia e até os helicópteros… Não, não me convence.
Não fui a única, porque o filme foi parodiado em “Scary Movie V” (2013), em que desta vez a paródia incide nos filmes “Actividade Paranomal”. Caesar era o primata mais inteligente daquela casa, o que não era difícil. Vi “Scary Movie V” antes de ver “Rise”, e admito que ao ver o original me ri de piadas de “Scary Movie V” que não apanhei antes de ver o filme em que se baseiam. E a verdade é que “Rise” caiu no exagero e mereceu as piadas que lhe fizeram.
Mas para falar de “Dawn” tenho de falar de “Rise”, e outra questão se me colocou. Os primatas tornaram-se mais inteligentes graças a uma droga verdadeiramente miraculosa destinada a curar o Alzheimer. E não só funcionou com os pacientes humanos, como aumentou as capacidades cognitivas dos chimpanzés. Como é que não houve uma alminha normal, saudável, humana, que não tenha pensado em experimentar a droga para aumentar a sua própria inteligência? Custa-me a crer. Na universidade, eu teria tomado tudo e mais alguma coisa para passar à cadeira de Matemática. Assim, só os chimpanzés aproveitaram a droga. Os humanos não a usaram para seu benefício.
Chegamos a “Dawn of the Planet of the Apes”, e logo na narração de abertura nos é dito que o mesmo laboratório que produziu esta droga deixou fugir um vírus a que se chamou Gripe Símia e que dizimou grande parte da população humana. Não afirmam quantos morreram, mas por aquilo que vi no filme eu arriscaria a dizer que matou 90% das pessoas.
Isto serviu para explicar como é que o planeta se tornou um mundo pós-apocalíptico em que os humanos quase não existem. Mal explicado, para mim, e novamente apressado. O realizador estava mortinho para pôr os humanos para trás e focar-se no que era realmente importante: a evolução dos primatas. Vírus, asteróide, o importante era andar para a frente. O resultado foi bom, mas continuo a não gostar da “conveniência” desta hecatombe que facilitou muito a vida aos macacos. No filme original (“Planet of the Apes”, 1968) a ascensão dos primatas foi possibilitada porque os humanos se destruíram uns aos outros na última guerra nuclear. Isto é arrepiante, faz sentido e é um desenvolvimento orgânico. Em “Dawn”, a Gripe Símia é uma muleta para fazer o enredo avançar. O realizador sabe disto muito bem e nunca mais se fala na Gripe Símia. Os sobreviventes são geneticamente imunes, e avançamos.
Passaram-se 10 anos desde a Gripe Símia. Agora os macacos já têm uma pequena civilização nas florestas desertas, onde o orangotango Maurice ensina os macaquinhos a ler e a escrever e o lema é “Macaco não mata macaco”. As fêmeas enfeitam-se com jóias rudimentares de metal e pedras brilhantes. Caesar, o líder, tem uma esposa e dois filhos. Os macacos vivem bem e em paz. Os primatas que se tornaram mais inteligentes devido à droga inicial do laboratório, têm filhos igualmente inteligentes. Muitos deles aprenderam a falar, embora prefiram comunicar por linguagem gestual. Esta civilização primitiva não é descabida. Afinal, ao contrário dos primeiros hominídeos, estes não tiveram de inventar a roda. Aproveitaram o que lhes interessava da civilização humana e abandonaram o resto.
A paz é perturbada quando um grupo de humanos, que mais tarde vimos a saber fazerem parte de um pequeno número de sobreviventes em São Francisco, entra na floresta na intenção de reactivar uma barragem abandonada para terem energia.
O encontro com os macacos dá logo mal resultado, quando um humano em pânico dispara sobre um dos primatas, matando-o.
Caesar, no primeiro filme, foi comparado a um Spartacus que lidera a revolta dos seus irmãos enjaulados e torturados em laboratório. Aqui, Caesar já evoluiu para o papel de estadista, que recusa vingar-se dos humanos porque tal represália conduziria à guerra, e Caesar sabe que essa guerra mataria muitos dos seus súbditos, se é que os humanos, embora poucos e enfraquecidos, não estariam ainda em posição de a vencer. Na povoação dos macacos não há armas e Caesar não as quer ter, e com razão. Mas nem Caesar compreende o perigo que ameaça a sua civilização aparentemente tão fraternal.
Alguns macacos, liderados por Koba, um antigo chimpanzé de laboratório que foi testado e torturado pelos humanos, e que os odeia, discorda de Caesar. Quer a guerra e o extermínio completo dos humanos.
Aqui começa um jogo de dissimulação que eventualmente leva ao assassinato, ao golpe de Estado, aos prisioneiros políticos. Diz Caesar, a um grupo de aliados humanos: “Pensei que os macacos eram muito diferentes dos humanos. Agora percebo que somos muito parecidos.” Pois é, Caesar, e digo-te mesmo mais da minha observação: quanto mais inteligentes, mais perigosos. Pensavas mesmo que podias ter inteligência sem conflito? Pobre Caesar, bem-intencionado, tem uma grande desilusão com o seu próximo. Por último, diz a Koba, tentando justificar as más tendências que vê nele: “Tu não és macaco.” Se Koba não é macaco, tu também não és, Caesar, se te olhares ao espelho. Achas mesmo que ainda és macaco? Há muito tempo que o deixaste de ser, mas continuas em negação.
Mas os humanos não são melhores. Apenas um grupo de pessoas compreende a causa dos macacos e acha que estes têm o direito de viver em paz e liberdade sem que nenhuma das espécies tenha de hostilizar a outra. Infelizmente, a maioria dos humanos também odeia os macacos, especialmente depois das primeiras escaramuças, a juntar à Gripe, e a guerra é inevitável.
Ao contrário de “Rise”, este filme é menos sobre macacos que se tornam geniais e mais sobre dois grupos de seres inteligentes que podiam cooperar para o bem comum, mas preferem antes descer à barbárie e à guerra, embora os prejudique, movidos pelo ódio mais visceral. Alguém observou, numa das críticas, que é difícil dizer quem começou. Houve culpa de parte a parte. O importante é saber quem vai acabar.
“Dawn of the Planet of the Apes” deixou o ridículo para trás e apresenta-nos um filme lúcido e filosófico sobre nós próprios, sobre a guerra e o conflito e a sequência de acontecimentos que tantas vezes fazem o Mal prevalecer sobre o Bem. Na opinião de alguns críticos, esta foi a melhor sequela já produzida depois do filme original de 1968. Não discordo. Gostei e recomendo.
15 em 20

