domingo, 8 de agosto de 2021

Parzival – “Casta”

Parzival foi mais uma banda que conheci através do Festival Entremuralhas. Confesso, a partir de certa altura, que uma amálgama de preguiça e de falta de tempo me afastou de uma das minhas actividades favoritas: procurar música nova. Durante algum tempo fi-lo ouvindo rádio online (a que hoje chamamos podcasts, mais precisamente) mas acabei por perder o hábito. Isto agora vai mudar com o streaming no Twitch, com DJs ao vivo e chat em tempo real, e a possibilidade de assistir comodamente no smartphone enquanto se faz outras coisas, algo de impensável nos tempos dos podcasts em que era preciso estar ao computador para ouvi-los, e, lá está, nem sempre havia tempo disponível para isso.
Dos Parzival, descobri primeiro o álbum “Urheimat”, talvez mais acessível e dançável. Fui ao Bandcamp deles e ouvi a discografia toda (outro luxo que não havia no meu tempo, em que a gente comprava o disco ou CD a partir de um único tema que passava na rádio e às vezes enfiava um grande barrete). Os álbuns são muito diferentes entre si. Diria que gosto muito de “Urheimat” e “Casta”, mas dos outros nem por isso. Da mesma maneira, pode haver quem tenha uma opinião rigorosamente contrária à minha.
É precisamente de “Casta” que quero falar, um álbum que me surpreendeu pela mistura de influências: música indiana, electrónica, marcial, épica, e direi mesmo operática, tudo isto numa banda dinamarquesa.
Tenho a perfeita consciência de que “Casta” não é para toda a gente. Mas, ao primeiro acorde, eu soube que era mesmo para mim. A música indiana fascina-me, até aquela dos filmes de Bollywood. “Casta” não é exactamente música dançável (embora possa muito bem ser dançada), mas leva o apreciador numa viagem de inúmeras subtilezas que se combinam surpreendentemente bem, uma delícia para o sentido auditivo.
Aconselho a audição imediata e, já agora, a da restante discografia, incluindo o excelente “Urheimat” (esse, sim, para dançar).



domingo, 1 de agosto de 2021

47 Meters Down / 47 Metros de Terror (2017)

Durante umas férias no México, duas irmãs são aliciadas a ir observar tubarões em alto-mar dentro de uma jaula própria para o efeito. Como é típico destas coisas, uma delas hesita, mas a outra insiste. O barco que as leva é velho, o guindaste e a jaula em si encontram-se visivelmente em mau estado e bastante ferrugentos. Mas o preço é especial, uma “atençãozinha” de um amigo que conhece o dono do barco. Antes delas mergulham dois amigos, que alegremente tiram fotografias aos tubarões sem que nada aconteça. Mas quando finalmente as duas irmãs são descidas a uma profundidade de 5 metros, o guindaste parte-se, a jaula vai a pique até ao fundo, o guindaste cai-lhe em cima. As irmãs ficam a 47 metros de profundidade, em águas infestadas de tubarões, com pouco oxigénio nos tanques de mergulho. Mesmo que quisessem correr o risco de nadar para o barco também não podiam, porque àquela profundidade têm de parar para fazer descompressão durante alguns minutos, esperando que os tubarões não dêem por isso. E não são tubarõezinhos, são mesmo monstros de 6 a 8 metros de comprimento, daqueles que abrem a boca e engolem logo uma cabeça.
Uma das melhores cenas do filme é quando elas decidem arriscar e nadar até ao barco com um very light aceso para assustar os tubarões. (Não faço ideia se na realidade resulta, mas na lógica do filme faz todo o sentido, sem querer explicar mais para não incorrer em spoilers.*) A certa altura o very light apaga-se e elas acendem outro. Assim que o acendem, grandes tubarões de bocarra aberta já as rodeiam por todo o lado. É mesmo um imaginário de pesadelo.
Este é um filme que faz o que promete: terror com tubarões no fundo do mar. Não é para esperar mais, embora a conversa entre as irmãs pudesse ser muito melhorada. Os diálogos são do mais cliché que existe: “Vamos morrer aqui”, “Não, não vamos, já vem ajuda a caminho”; “Não chegam a tempo, estamos quase sem oxigénio”, “A culpa foi minha, não devia ter insistido”, etc, etc. Nada de original, numa situação em que vertentes muito mais dramáticas da vida das irmãs podiam ter sido exploradas. Mas este não é desses filmes.
Gostei da reviravolta final, que, embora não sendo previsível, também não caiu do céu aos trambolhões como tantas vezes acontece. Neste caso, foi bem feito.
Excelente filme para ver antes de ir à praia.
 
14 em 20

* Aparentemente, os tubarões não têm medo de very lights.


domingo, 25 de julho de 2021

The Walking Dead (décima temporada, 3ª parte)

Este Covid é tão mau que até os zombies foram afectados. Nada de ajuntamentos, nada de hordas, distanciamento social de 2 metros. Chiça, até depois de morto um zombie tem de levar com o Covid!
Estou a brincar, mas é sabido que as gravações desta azarada temporada foram interrompidas e prejudicadas pela pandemia. A esta parte da terceira temporada de que falo agora até se chama 3C. Tratam-se de 6 episódios “extra”, filmados durante a pandemia, com o menor número de actores e figurantes possível. E não é que os episódios são bons?

"Home Sweet Home"
Neste episódio Maggie regressa (saída de “Whiskey Cavalier”) depois de a comunidade onde ela estava com a Georgie (lembram-se dela, dos 15 minutos que esteve em cena?) ir para o brejo. Não sei o que se passa com estas comunidades na Virginia, sempre famintas e miseráveis. Ali ao lado, no Texas, em “Fear The Walking Dead”, há comida à fartazana, balas que nunca mais acabam e walkie talkies a dar com um pau. Os nossos sobreviventes de Atlanta é que nunca mais saem da cepa torta.
Maggie traz com ela o filho de Glenn, chamado Hershel em homenagem ao avô (finalmente vimos o miúdo, já não era sem tempo!) e depara-se, em Alexandria, com um Negan à solta! Negan, o homem que esmigalhou o crânio de Glenn à cacetada! Não admira que Maggie lhe deite olhos assassinos. Negan, que até gosta de crianças, tinha aqui uma hipótese de se envergonhar do que fez, olhando o filho de Glenn que é a cara do pai (na altura até Maggie, ainda grávida, esteve na mira de Lucille). Mas Negan é irredimível, por estas e por outras, e o melhor que ele fazia era ir recomeçar junto de outra comunidade onde não o conhecessem.
Alexandria está arrasada depois do ataque dos Whisperers e todos os elementos da comunidade são necessários. Se calhar é por isso que Maggie não o mata imediatamente (Maggie, a mesma que enforcou um homem em Hilltop por muito menos), porque desta vez ela pretende ficar.
Gostei de como finalmente este episódio lidou com as consequências das acções de Negan e o confrontou com Maggie, algo que já tardava.

"Find Me"
Neste episódio, ficamos a saber que entretanto Daryl teve um romance com outra solitária dos bosques como ele, enquanto ele andava à procura do corpo de Rick. Até que enfim! Eles são mesmo feitos um para outro. Leah, é o nome dela, era a dona do cão e foi ela quem lhe chamou Dog. Quando, subitamente, Leah desaparece sem sabermos o que lhe aconteceu, Daryl fica com Dog. E é tudo o que sabemos da relação entre os dois. Simplesmente achei este romance muito apressado. Daryl é um personagem principal, merecia um tratamento mais aprofundado. Mas enfim, talvez ela reapareça.

"One More"
Este é possivelmente o melhor episódio desta série de extras. Basta dizer que envolve Robert Patrick (ex-Terminator) e uma roleta-russa. É preciso mais? O curioso é que os personagens principais são os improváveis Aaron e o padre Gabriel, e que papelão fazem ambos (e Patrick)! Andam ambos à busca de comida (Alexandria está cada vez mais miserável) quando encontram um javali selvagem preso dentro de um escritório. Grande erro, não lhes passa pela cabeça que o javali não se fechou lá sozinho e que tem dono. E quando o dono aparece, armado, a perguntar que tal estava o jantar… estão lixados.
Antes disso, confraternizando, Araon e o padre Gabriel (que aqui adquire uma profundidade que explica a mudança que temos vindo a ver na personagem e que há muito precisava de consistência) têm uma profunda e significativa discussão filosófica como já não se via em “The Walking Dead” há muito tempo. Uma discussão que faz sentido e que vem a propósito!
O episódio podia bem ser um filme, de tão bom é o script e tão independente do resto da série. O final é surpreendente, se não mesmo chocante. Aconselho vivamente.

"Splinter"
Este é o episódio em que descobrimos porque é que a primeira coisa que Princess pergunta aos sobreviventes recém-chegados quando os conhece é: “Vocês são reais?” A pergunta não era retórica. Princess é (ou o estado de coisas tornou-a) uma psicótica que fala com pessoas que não existem para lidar com a solidão. Este é um bom episódio, mas o que mais sofre com os condicionamentos pandémicos. Princess é praticamente a única personagem em cena. Mas a actriz está à altura do desafio e em questão de meia hora conseguimos empatizar com ela como não conseguimos nos episódios anteriores. Assim sim, vale a pena.

"Diverged"
"Diverged" foi de todos estes extras o episódio mais criticado porque aparentemente não acontece nada. Daryl e Carol estão zangados e vai cada um para seu lado. Dog, estupidamente, vai atrás da Carol, que não merece a companhia. Eu gostei deste episódio, próximo da comédia, que mais parece um daqueles filmes europeus de estudo de personagem. Daryl tem de arranjar a mota; Carol tem de fazer uma sopa com o pouco que existe na cozinha. Mas na cozinha anda também uma ratazana. O episódio vale a pena nem que seja pelo grito de Carol a fugir do rato, a grande Carol, a durona Carol. Eu receei que entretanto o Daryl chegasse e a ratazana acabasse na panela da sopa. Mas felizmente a ratazana fugiu antes. Final feliz.

"Here's Negan"
E chegamos finalmente ao episódio da backstory de Negan, antes do apocalipse, quando ele era um homem normal. Com defeitos, mas normal. O que ele fez de bom antes não chega para redimir o mal que fez depois. Sim, eu sei que esteve muito tempo na prisão e isso tudo, e que se calhar até mudou um pouco para melhor, mas a mim nada me convence. Toda a gente sofreu e perdeu gente, toda a gente passou por merdas e humilhações, só poucos se tornaram em sociopatas assassinos. E a mim Negan não convence e nunca convencerá.
No fim do episódio, Carol decide mudar Negan para uma cabana fora de Alexandria, porque “se ficas, a Maggie mata-te”. Mas Negan decide voltar para Alexandria e enfrentar a sua sorte. Maggie continua a deitar-lhe olhos assassinos. “Assim, o teu sangue não está nas minhas mãos”, diz ainda Carol, que lava as mãos como Pilatos, e faz ela muito bem.

Esta colecção de episódios extra foi melhor do que muitas das últimas temporadas e promete grandes confrontos para a décima primeira, que vai ser a última e terá 24 episódios. Venha de lá o final, com a qualidade que esta série já não tinha há anos!
Isto sim, seria um fim digno para uma série que já foi tão grande.

 

domingo, 18 de julho de 2021

La Vénus à la fourrure / Vénus de vison (2013)

"Vénus de vison" é um daqueles filmes intelectuais que lançam muitas questões mas não tencionam responder a nenhuma. Ou melhor, é daqueles filmes que cada espectador vai interpretar à sua maneira, de acordo com as suas convicções, preconceitos e sensibilidades. O melhor mesmo é não dar respostas.
A complexidade começa logo na sua descrição, um filme que é a adaptação de Roman Polanski da peça de teatro “Venus in Fur” do norte-americano David Ives, que é por sua vez inspirada no livro “A Vénus de Kazabaïka” de Leopold von Sacher-Masoch, esse mesmo a que o termo “masoquismo” deve o nome. É uma interpretação dentro de uma interpretação de uma interpretação.
As voltas que eu dei para encontrar o título do livro em português, “A Vénus de Kazabaïka”! Como se depreende, não é o meu género nem nunca vai ser. Embora, inescapavelmente, conheça o tema “Venus in Fur”, original dos Velvet Undeground, que me causa a mesma indiferença. (E o original dos Velvet Undeground nem é a minha versão preferida, por falar nisso.)
No fim de um dia de audições, o director da peça referida está sozinho no teatro, muito frustrado com todas as actrizes que viu, quando lhe entra pela porta uma candidata que o convence a ficar fora de horas para lhe dar uma oportunidade. Esta actriz parece uma ignorante, ou faz-se passar por isso, mas quando começam a falar das personagens e do livro torna-se cada vez mais notório que ela sabe muito mais do que deu a entender a princípio, que na verdade “domina” o tema (e nestas coisas o termo “dominar é importante), e que ali está para acusar a peça de ser sexista e pornográfica e para humilhar o seu director. A questão é: porquê, e com que objectivo? Ele próprio lhe pergunta directamente algumas vezes: “quem é você?”. Eu tenho a minha interpretação, ou melhor, a resposta que para mim, amante do sobrenatural, seria mais satisfatória: ela é a própria deusa Vénus a dar uma lição do poder da sexualidade feminina a quem não percebe nada do assunto.
Tenho a certeza de que não é esta a interpretação do realizador, nem dos críticos, mas era a que me daria mais gozo. Porque, no fim de contas, embora tenha gostado muito da conversa/confronto entre os dois, e de achar que os temas abordados são interessantes, depois de tudo espremido a verdade é que acabei com um encolher de ombros indiferente. Se calhar estes temas já me interessaram mais, quando ainda estava na idade da curiosidade, mas tudo isto já me parece tão “batido” (outra palavra nada inocente) que já não percebo o que há de novo a dizer. Ou se calhar Polanski não me conseguiu dizer nada de novo.
O que não significa que seja um mau filme. Tendo em conta que a acção se passa toda no palco do teatro, como se fosse mesmo uma peça, em que entram apenas dois actores que têm de fazer tudo sozinhos, surpreendeu-me como é que o filme me conseguiu agarrar tanto sem nunca lhe sentir momentos mortos. Só porque os temas são batidos, não quer dizer que não continuem intelectualmente estimulantes.
Mas o meu gosto pessoal quer acreditar que foi mesmo Vénus quem entrou no teatro. Se não foi, devia ter sido.

14 em 20


domingo, 11 de julho de 2021

Jurassic World: Fallen Kingdom (2018)


Este filme deixou-me deprimida. E nem sequer estou a brincar.
No primeiro “Jurassic Park”, impactante e inesquecível, os cientistas criaram os dinossauros porque os progressos técnicos o permitiram. Havia uma aura de inocência e deslumbramento, de ciência optimista e “miraculosa”. O parque foi criado para partilhar o assombro com toda a gente que pela primeira vez podia ver um dinossauro vivo após uma extinção de milhões de anos. Trinta anos depois, a inocência, o deslumbramento, o orgulho contido neste progresso, tudo isto deu lugar a um cinismo pérfido e capitalista capaz da maior vileza neste “Jurassic World: Fallen Kingdom”. Sinal dos tempos? Sem sombra de dúvida.
Perdi o episódio anterior, “Jurassic World” (2015), de que as críticas falam pessimamente. Parece que tentaram fazer um novo parque temático, desta vez contendo os dinossauros numa ilha de onde não podiam sair, o que é bem pensado. Mesmo assim, os dinossauros deram cabo do projecto, como dão sempre. Os dinossauros foram deixados em paz, até que neste filme o vulcão da pequena ilha entra em erupção e em breve a vai engolir em lava. Todos os dinossauros serão destruídos.
Coloca-se a questão ética: se foi o Homem que os criou, não deveria o Homem impedir a sua segunda extinção?
“Não”, diz o Professor Malcom (interpretado pelo veterano “jurássico” Jeff Goldblum), “devemos deixar extinguir estes magníficos animais. Não devíamos sequer tê-los criado, foi um erro, e agora a Natureza está a corrigir esse erro.”
“É então um acto de Deus?”, perguntam-lhe.
“Com todo o respeito, Deus não é para aqui chamado.”
Pois não, mas foram cientistas como o Professor Malcom que se divertiram bastante a armar-se em Deus. Quando dá para o torto, chutam para canto e responsabilizam a Natureza. Ora, parece-me que a Natureza não fez o vulcão explodir para corrigir os erros humanos. A Natureza está-se nas tintas se destrói humanos ou dinossauros. É, sim, uma incumbência duplamente ética impedir a destruição de animais que só ali estão por culpa da arrogância de cientistas como o Professor Malcom que não pensam nas consequências.
Digo “duplamente” porque é incumbência do ser humano impedir a extinção de fauna e flora que na nossa realidade muito próxima podem desaparecer devido à pressão demográfica e à destruição sistemática dos seus habitats. Os grandes carnívoros, os grandes felinos, os grandes herbívoros como as girafas, os elefantes e os rinocerontes, estão mesmo em risco de desaparecer, o que seria um delito vergonhoso, não da Natureza, mas do Homem. O filme lembrou-me disto e foi o primeiro momento depressivo que me atingiu. Neste estado de coisas, quem é que precisa de recriar animais já extintos para sofrerem de novo igual destino, quando nem os que existem conseguimos salvar? Só mesmo por arrogância, estupidez e insensibilidade.
Algo que este filme conseguiu, e que os anteriores, apresentando os dinossauros como monstros, não conseguiram ou não quiseram, foi fazer-nos empatizar com os dinossauros como os animais que realmente são.
Claire Dearing, a directora do parque da ilha jurássica no filme que eu não vi, encontra-se numa campanha de sensibilização para salvar os dinossauros. Quando tudo parece perdido, é chamada à mansão do milionário Benjamin Lockwood, aparentemente um dos sócios do projecto do primeiro Parque Jurássico, onde o executivo à frente desta grande fortuna a informa de que conseguiram comprar uma ilha que será um santuário para os animais, mas precisam da ajuda dela para capturar alguns espécimes.
Uma equipa parte para a ilha, já pressionada pelo pouco tempo que resta. O vulcão está mesmo prestes a destruir a ilha e os seus habitantes, e quem lá estiver também. É então que a equipa de resgate é traída. O executivo e os seus capangas são maus como a Máfia e dispostos a tudo, até ao homicídio, para levarem dali alguns espécimes de dinossauro (os mais “valiosos”) na intenção de os licitarem pelo melhor preço. Não existe santuário, era tudo um embuste.
Os membros da equipa são deixados para trás, quando a lava já escorre pelo vulcão abaixo. Alguns dinossauros, carnívoros e herbívoros, em desespero, lançam-se de uma falésia abaixo, procurando o mar onde morrem afogados. Mas até aqui a tragédia dos animais ainda não tinha tido tempo de bater a sério, porque os pobres coitados da equipa também se arriscavam a ficar transformados em estátuas de lava como as de Pompeia.
Quando finalmente os humanos estão a salvo, conseguindo entrar no barco que é o último transporte para fora da ilha, olham para trás. Mesmo à pontinha do cais de embarque, um grande dinossauro herbívoro olha-os a afastar-se, e chama-os e chora, nos seus roncos uivantes, enquanto a lava e a nuvem piroclástica se aproxima, devagar, devagar, e os chamamentos se tornam cada vez mais cortantes e aflitivos, até que por fim são apenas queixumes quando o animal compreende o seu fim.

Ter de assistir a isto partiu-me o coração e fiquei doente durante alguns dias. Fiz uma pausa no filme, deprimidíssima. Este animal representa todos os outros que foram deixados para trás a uma morte horrível. Isto não é coisa que alguma vez consiga esquecer na minha vida e não aconselho a pessoas sensíveis.
Os animais que foram “salvos” são directamente conduzidos para o leilão de super-ricos na mansão Lockwood, onde os dinossauros são licitados para todos os fins imaginários: farmacêuticos, bélicos, e até porque a filha de um milionário quer ter um dinossauro bebé.
Eu ia dizer que este filme me deprimiu em três momentos, mas acrescento aqui um outro. Estes animais foram “salvos” para serem “desmantelados” em partes à vontade do freguês que pagar mais. Já que os dinossauros não davam lucro como atracção circense, que ao menos rendam alguma coisa como peças de talho. Inqualificável.
Como é apanágio destes filmes, há sempre um vilão idiota que abre uma jaula sem querer, e lá escapa um super-predador. Nunca percebi porque é que estes filmes são supostamente “para crianças” porque sempre os vi como filmes de terror, e este não é excepção. A única diferença entre estes filmes e os de terror é que os maus são comidos e os bons lá conseguem sempre safar-se, para não traumatizar as criancinhas.
Desta vez quem abre todas as jaulas para os dinossauros escaparem livremente para o mundo real não é um adulto (pelo menos não foram assim tão estúpidos), mas uma criança incapaz de ponderar as consequências do seu acto de “compaixão”. E agora os dinossauros estão à solta na natureza, super-predadores que não deveriam existir.
O meu quarto e último momento de depressão foi quando um destes super-carnívoros invade um jardim zoológico e lhe sai ao caminho um orgulhoso leão. Em voz off, ouvimos ainda o depoimento do Professor Malcom: “Os dinossauros estiveram cá antes de nós e podem muito bem vir a estar cá depois de nós”. O leão não tem hipótese, os nossos magníficos animais selvagens não têm defesas contra dinossauros. E deu-me uma melancolia profunda, profunda. Entre os animais que já cá estão e os que não deviam já estar, escolho, de alma rasgada em duas, os que já cá estão.
De quem é a culpa? Não de Deus e muito menos da Natureza. Um bom final, se houvesse justiça, seria atirar aos dinossauros os cientistas que fizeram a merda para encher o ego.

Este filme deprimiu-me deveras, mas não por ser um bom filme. Os personagens são bidimensionais, os vilões são maus como as cobras (Don Corleone seria um santo ao pé deles), o enredo é igual a todos os filmes anteriores da série. Salva-se neste filme uma vertente Terror mais acentuada do que nos anteriores, e talvez uma invasão da Terra pelos dinossauros numa próxima sequela.
 
14 em 20 (porque me atingiu emocionalmente e porque os dinossauros são bastante realistas)
 

 

domingo, 4 de julho de 2021

Gravity (2013)

Este é daqueles filmes para roer as unhas do princípio ao fim. Três astronautas estão no espaço, fora da nave, numa actualização de rotina ao observatório Hubble, quando começam a ser atingidos por destroços de um satélite russo destruído por um míssil. A princípio estes destroços não deviam atingi-los, mas a trajectória muda e o pior acontece.
Nos primeiros minutos, só sabemos que não morrem todos porque o filme não pode acabar já. Mas esteve perto. E desculpem o spoiler, mas é a essência do filme: no fim a personagem interpretada por Sandra Bullock, engenheira, fica mesmo sozinha no espaço e não sabe como voltar. George Clooney, no papel do astronauta do vai-vém Explorer, diz-lhe claramente: “A doutora é que é o génio, eu só conduzo o autocarro”.
Mas Ryan Stone, a engenheira, não sabe conduzir o autocarro. Ficamos logo muito preocupados quando a vemos pegar nos manuais de bordo para se orientar. Claramente, é alguém que não sabe o que está a fazer. Alguém como nós, se nos víssemos naquela situação. O observatório é destruído, o Explorer é destruído, Stone consegue chegar à Estação Espacial Internacional, que também acaba por ser destruída. O filme é classificado como Drama, Ficção Científica e Thriller, mas não sei até que ponto não é igualmente Terror. Os corpos dos astronautas acumulam-se horrivelmente, congelados, os capacetes partidos, os rostos rachados e metidos para dentro como se o vácuo os tivesse sugado. Não existe um monstro, mas o espaço, ele próprio, é um ”monstro” indiferente que não se apieda da fragilidade da vida humana.
As comunicações com Houston estão cortadas. Seguindo as instruções do astronauta veterano, Stone consegue chegar à estação russa. E este parece ser mesmo o fim para ela, quando se apercebe de que a nave russa não tem combustível.
Desesperada, Stone começa a tentar o rádio, silencioso desde que perderam as comunicações com Houston. Aqui acontece a cena mais comovente e psicológica do filme. Stone consegue estabelecer contacto com alguém, possivelmente um rádio-amadorista em qualquer local remoto na Terra. Ele não fala inglês, não sabe quem está do outro lado e não faz ideia de que pode ser a última vez que Stone fala com alguém. Nesse momento de desespero, Stone apaga as luzes da nave russa. Como ela confessa no princípio do filme, Stone perdeu uma filha de quatro anos. Tudo o que ela conta sobre isso indica alguém que nunca conseguiu lidar com esse luto e em vez disso enfiou a cabeça no trabalho para não enfrentar a perda. Aqui, confrontada com a morte iminente, Stone tem de decidir se quer continuar a viver sem a filha. O radio-amadorista tem um bebé, a quem começa a cantar uma canção de embalar. Stone pede-lhe que não pare de cantar, que a embale até à hipotermia e à morte.
No último momento, Stone pensa numa solução, a única possível e a mais desesperada, e decide viver enquanto conseguir. O que não vai ser fácil. Por causa da chuva de destroços, ainda vamos ver a estação espacial chinesa completamente destruída. Sem querer acumular mais spoilers, até há alguns momentos de humor nervoso quando Stone percebe que tudo na estação chinesa está escrito em chinês e começa a carregar nos botões ao calhas a tentar perceber o que resulta. É o tudo por tudo.
Esta é uma história de sobrevivência filmada com tanta beleza como horror: a Terra, linda e azul como pano de fundo, ali tão perto, mas longínqua e proibitiva na falta dos meios de lá regressar. Stone, a protagonista, tem de vencer ainda outro obstáculo, interior e secreto: será que quer mesmo sobreviver? Não será que aceitou a missão com um desejo de morte? Sem motivação e sem os conhecimentos técnicos bastantes, tem ela alguma hipótese de escapar? E será que quer mesmo escapar?
Eu fiquei agarrada ao filme do princípio ao fim. É um filme curto mas a acção acontece a um ritmo tão vertiginoso que parece ainda mais curto. Só não posso dar 20 em 20 porque me parece que, para além da história de sobrevivência, excelente como ela é, faltava aqui mais qualquer coisa, algo de transcendente que só acontece nos filmes verdadeiramente geniais. “Gravity” é um drama de sobrevivência e de tragédia pessoal, mas eu queria mais.
 
17 em 20



domingo, 27 de junho de 2021

Dawn of the Planet of the Apes (2014)

Vi “Rise of the Planet of the Apes” (2011) e não gostei. É claro que empatizei com Caesar (era preciso ter uma pedra em vez de coração para não empatizar) mas achei aquilo tudo muito apressado. Os chimpanzés passaram de primatas a génios que jogam xadrez e falam inglês muito depressa. E toda aquela cena na ponte, com os primatas armados, a cavalo, a derrotarem o exército e a polícia e até os helicópteros… Não, não me convence.
Não fui a única, porque o filme foi parodiado em “Scary Movie V” (2013), em que desta vez a paródia incide nos filmes “Actividade Paranomal”. Caesar era o primata mais inteligente daquela casa, o que não era difícil. Vi “Scary Movie V” antes de ver “Rise”, e admito que ao ver o original me ri de piadas de “Scary Movie V” que não apanhei antes de ver o filme em que se baseiam. E a verdade é que “Rise” caiu no exagero e mereceu as piadas que lhe fizeram.
Mas para falar de “Dawn” tenho de falar de “Rise”, e outra questão se me colocou. Os primatas tornaram-se mais inteligentes graças a uma droga verdadeiramente miraculosa destinada a curar o Alzheimer. E não só funcionou com os pacientes humanos, como aumentou as capacidades cognitivas dos chimpanzés. Como é que não houve uma alminha normal, saudável, humana, que não tenha pensado em experimentar a droga para aumentar a sua própria inteligência? Custa-me a crer. Na universidade, eu teria tomado tudo e mais alguma coisa para passar à cadeira de Matemática. Assim, só os chimpanzés aproveitaram a droga. Os humanos não a usaram para seu benefício.
Chegamos a “Dawn of the Planet of the Apes”, e logo na narração de abertura nos é dito que o mesmo laboratório que produziu esta droga deixou fugir um vírus a que se chamou Gripe Símia e que dizimou grande parte da população humana. Não afirmam quantos morreram, mas por aquilo que vi no filme eu arriscaria a dizer que matou 90% das pessoas.
Isto serviu para explicar como é que o planeta se tornou um mundo pós-apocalíptico em que os humanos quase não existem. Mal explicado, para mim, e novamente apressado. O realizador estava mortinho para pôr os humanos para trás e focar-se no que era realmente importante: a evolução dos primatas. Vírus, asteróide, o importante era andar para a frente. O resultado foi bom, mas continuo a não gostar da “conveniência” desta hecatombe que facilitou muito a vida aos macacos. No filme original (“Planet of the Apes”, 1968) a ascensão dos primatas foi possibilitada porque os humanos se destruíram uns aos outros na última guerra nuclear. Isto é arrepiante, faz sentido e é um desenvolvimento orgânico. Em “Dawn”, a Gripe Símia é uma muleta para fazer o enredo avançar. O realizador sabe disto muito bem e nunca mais se fala na Gripe Símia. Os sobreviventes são geneticamente imunes, e avançamos.
Passaram-se 10 anos desde a Gripe Símia. Agora os macacos já têm uma pequena civilização nas florestas desertas, onde o orangotango Maurice ensina os macaquinhos a ler e a escrever e o lema é “Macaco não mata macaco”. As fêmeas enfeitam-se com jóias rudimentares de metal e pedras brilhantes. Caesar, o líder, tem uma esposa e dois filhos. Os macacos vivem bem e em paz. Os primatas que se tornaram mais inteligentes devido à droga inicial do laboratório, têm filhos igualmente inteligentes. Muitos deles aprenderam a falar, embora prefiram comunicar por linguagem gestual. Esta civilização primitiva não é descabida. Afinal, ao contrário dos primeiros hominídeos, estes não tiveram de inventar a roda. Aproveitaram o que lhes interessava da civilização humana e abandonaram o resto.
A paz é perturbada quando um grupo de humanos, que mais tarde vimos a saber fazerem parte de um pequeno número de sobreviventes em São Francisco, entra na floresta na intenção de reactivar uma barragem abandonada para terem energia.
O encontro com os macacos dá logo mal resultado, quando um humano em pânico dispara sobre um dos primatas, matando-o.
Caesar, no primeiro filme, foi comparado a um Spartacus que lidera a revolta dos seus irmãos enjaulados e torturados em laboratório. Aqui, Caesar já evoluiu para o papel de estadista, que recusa vingar-se dos humanos porque tal represália conduziria à guerra, e Caesar sabe que essa guerra mataria muitos dos seus súbditos, se é que os humanos, embora poucos e enfraquecidos, não estariam ainda em posição de a vencer. Na povoação dos macacos não há armas e Caesar não as quer ter, e com razão. Mas nem Caesar compreende o perigo que ameaça a sua civilização aparentemente tão fraternal.
Alguns macacos, liderados por Koba, um antigo chimpanzé de laboratório que foi testado e torturado pelos humanos, e que os odeia, discorda de Caesar. Quer a guerra e o extermínio completo dos humanos.
Aqui começa um jogo de dissimulação que eventualmente leva ao assassinato, ao golpe de Estado, aos prisioneiros políticos. Diz Caesar, a um grupo de aliados humanos: “Pensei que os macacos eram muito diferentes dos humanos. Agora percebo que somos muito parecidos.” Pois é, Caesar, e digo-te mesmo mais da minha observação: quanto mais inteligentes, mais perigosos. Pensavas mesmo que podias ter inteligência sem conflito? Pobre Caesar, bem-intencionado, tem uma grande desilusão com o seu próximo. Por último, diz a Koba, tentando justificar as más tendências que vê nele: “Tu não és macaco.” Se Koba não é macaco, tu também não és, Caesar, se te olhares ao espelho. Achas mesmo que ainda és macaco? Há muito tempo que o deixaste de ser, mas continuas em negação.
Mas os humanos não são melhores. Apenas um grupo de pessoas compreende a causa dos macacos e acha que estes têm o direito de viver em paz e liberdade sem que nenhuma das espécies tenha de hostilizar a outra. Infelizmente, a maioria dos humanos também odeia os macacos, especialmente depois das primeiras escaramuças, a juntar à Gripe, e a guerra é inevitável.
Ao contrário de “Rise”, este filme é menos sobre macacos que se tornam geniais e mais sobre dois grupos de seres inteligentes que podiam cooperar para o bem comum, mas preferem antes descer à barbárie e à guerra, embora os prejudique, movidos pelo ódio mais visceral. Alguém observou, numa das críticas, que é difícil dizer quem começou. Houve culpa de parte a parte. O importante é saber quem vai acabar.
“Dawn of the Planet of the Apes” deixou o ridículo para trás e apresenta-nos um filme lúcido e filosófico sobre nós próprios, sobre a guerra e o conflito e a sequência de acontecimentos que tantas vezes fazem o Mal prevalecer sobre o Bem. Na opinião de alguns críticos, esta foi a melhor sequela já produzida depois do filme original de 1968. Não discordo. Gostei e recomendo.

15 em 20

 

domingo, 20 de junho de 2021

NOS4A2 / Nosferatu [segunda temporada]

Nunca pensei que esta série tivesse uma segunda temporada. A primeira pareceu-me uma história finalizada. Vic McQueen venceu, não sem o sacrifício do pai do seu filho, o Wraith (carro-vampiro) ficou sem motor, e Manx acabou comatoso no hospital.
Por outro lado Bing Partridge andava a monte. Bing Partridge é o equivalente para Manx do que Renfield era para Drácula. Ainda na esperança de ser levado para a Christmasland (onde não ia divertir-se tanto como pensava), Partridge consegue localizar o Wraith e pô-lo a funcionar. Após oito anos de coma, Charles Manx morre no hospital, mas assim que o Wraith volta a ter motor, Manx ressuscita.
Durante todo este tempo, Vic McQueen nunca se convenceu de que Manx já não era um perigo. Agora ela mora com o filho e com o namorado e tem uma oficina de motas onde dá largas aos seus talentos criativos pintando capacetes por encomenda. Longe ficaram os sonhos de entrar numa escola de Belas Artes e ser alguém. Mas não se pode dizer que viva mal, ou que seja uma má mãe. Simplesmente desenvolveu o hábito de beber whisky (herdado direitinho do pai) a toda a hora e às escondidas. Em sua defesa, durante estes anos todos Vic continuou a receber telefonemas ameaçadores directamente da Christmasland (é Millie, filha de Manx, quem lhe telefona), que muitas vezes guarda em segredo para si. Estes telefonemas tanto chegam em telefones normais como em telefones de brinquedo, o que é por si só arrepiante.
A notícia da morte de Manx não a convence, e o seu sexto sentido tem razão. Manx é ressuscitado assim que o carro volta à vida. E agora Manx só tem um objectivo; vingar-se e roubar o filho de Vic, levando-o também para a Christmasland.
Enganei-me, na crítica anterior, ao julgar que Manx era velho, mesmo muito velho. Aqui eu estava a pensar em séculos. Afinal não era assim tão velho, e um flashback explica-nos o seu encontro com o maldito Wraith e a criação da Christmasland imaginária. Manx era jovem durante os anos 30, época da Grande Depressão. O Wraith foi comprado barato como tentativa de criar o seu próprio negócio assim que as coisas melhorassem. A mulher de Manx zanga-se com ele por gastar dinheiro inutilmente, dinheiro que ele arranjou empenhando as jóias dela (“Já ninguém tem dinheiro para um chaffeur, Charles”), e ameaça sair de casa e levar com ela a filha de ambos, Millicent. É então que algo aqui acontece e que o Wraith se torna um carro-vampiro e que a Christmasland, imaginada em conjunto por Charles e Millie, se torna uma realidade (embora imaginária). Millie é a sua primeira habitante e a mãe dela, esposa de Manx, a sua primeira vítima.
Deste modo, nos nossos dias Manx tem uns 110/120 anos, e uma aparência jovem alimentada pelas almas dos miúdos raptados. Falhando o Wraith, a força mágica que lhe confere imortalidade, Manx transforma-se num velho da sua idade real. Mas, praticamente imortal, a única maneira de o matar é destruindo o Wraith, o que não é tarefa fácil porque o carro tem vontade própria.
Recuperado da morte e de uma autópsia (matar Manx não é mesmo fácil), este começa de imediato a cercar Wayne McQueen, filho de Vic. O apelo da Christmasland é praticamente irresistível para uma criança, e depois de alguma resistência Manx consegue dar-lhe a volta. Não é um rapto. Mais doloroso ainda para Vic, a certa altura é Wayne quem segue Manx voluntariamente (ou o mais voluntariamente possível nestas circunstâncias, em que o Wraith já lhe comeu a alma). Agora Vic tem de tentar resgatar o seu filho e matar Manx de uma vez por todas.

Tal como a primeira temporada, também a segunda vale mais pelo complexo drama familiar do que pela história de terror em si. Vic sempre quis escapar ao mesmo destino dos pais, mas acaba exactamente como eles. Entretanto, Chris McQueen, pai de Vic, já deixou a bebida, mas Vic ainda agora começou. Vic atinge o ponto mais baixo quando pega fogo à sua própria casa, embriagada, tentando livrar-se de todos os telefones de onde recebe chamadas fantasmagóricas. Por causa disto recebe um ultimato do namorado: ou pára de beber ou está tudo terminado entre eles. Vic decide deixar Wayne com o pai adoptivo e sair de casa. Tirando a parte das chamadas fantasmagóricas, este podia ser um drama em que os filhos acabam a repetir os erros dos pais, por falta de condições ou de apoio para os superarem, ou por auto-sabotagem. A família McQueen precisava de muita terapia, com ou sem Manx.
Efectivamente, o drama continua a ser o ponto forte da série à medida que a história de terror se torna cada vez mais rebuscada e a premissa é esticada até um limite em que a corda da credibilidade ameaça partir-se. Para mim, partiu-se mesmo. Por exemplo, qual é o plano deles para destruir a Christmasland? Detoná-la com explosivos. Como é que se faz explodir um espaço imaginário? Com explosivos imaginários? Não, os explosivos até eram bem reais. Isto para mim foi a certeza de que mais valia se terem ficado pela primeira temporada.
Todos os episódios são esticados “demais”, espremendo todas as pinguinhas do drama. Não digo que tenha sido uma temporada chata com episódios de encher chouriços, mas notou-se que as ideias já faltavam quando, em vez de usar explosivos reais (duas vezes, ainda por cima, e em vão), Vic poderia, por exemplo, ter tentado recrutar a ajuda de outros “criativos” como ela, expandindo o universo sobrenatural da série.
Recomendo NOS4A2 a quem gosta de um bom drama familiar com um carro-vampiro à mistura (ou a toda a gente que deteste o Natal tanto quanto eu), mas a segunda temporada não vale tanto como a primeira. O último episódio tentou lançar as bases para uma continuação, mas a série foi cancelada. Já não havia por onde esticar mais.


domingo, 13 de junho de 2021

Godzilla (2014)

Fiquei na dúvida se havia de fazer uma crítica a este filme, ou se fingir que não o vi. Continuo na dúvida, mas cá vai.
Não me lembro do filme de 1998. Vi, mas a única coisa que lembro é que Godzilla era uma fêmea. O que de repente fez todo o sentido. Claro que Godzilla é uma fêmea! Por isso vou-me referir a “ela” como tal. As críticas arrasam o filme de 1998, o que poderá explicar porque é que não me lembro nada dele.
Também demorei a ver este, porque no fim costumam matar o “bichinho”, que não tem culpa de ser grande e destruir arranha-céus e pisar pessoas como quem pisa formigas. Isto ainda me deixa mais nervosa quanto a ver o novo “Godzilla versus Kong” (2021) porque já estou a adivinhar que um dos “bichinhos” (ou mesmo os dois) vai acabar morto. Já me basta o que chorei quando mataram o King Kong original, não me apetece passar por isso outra vez.
“Godzilla” (2014) não começa mal. A primeira meia hora é um drama familiar em que Bryan Cranston (o Walter White de “Breaking Bad”), com aquele arzinho sonso que ele tem de que nem é um actor a sério, faz outro grande papelão com o material que lhe é dado. Cranston é um cientista obcecado com o acidente nas instalações nucleares onde ele e a mulher trabalhavam, que a vitimou. Para ele, não foi um acidente e o governo está a esconder alguma coisa. E está, mas não o que ele pensa. Entretanto, o filho dele, a que eu vou chamar o protagonista porque é uma personagem tão bidimensional que nem merece ir procurar-lhe o nome, é um jovem veterano de guerra que considera o pai um daqueles malucos das conspirações que devia deixar-se disso. Só que não é, e depressa os acontecimentos lhe dão razão.
O que causou o “acidente” foi um monstro gigantesco, alado e pré-pré-histórico, que se alimenta de radiação. Como se não bastasse, esse monstro tem uma fêmea ainda maior que está pronta a pôr ovos.
Nesse primeiro embate com os monstros, Cranston sai de cena. E curiosamente, quando ele sai de cena o filme torna-se chato (para mim, pelo menos) e regride aos clichés de filmes de monstros.
Do mal o menos, sai Cranston, entra Godzilla. Ou Gojira, como lhe chama o cientista japonês que não tem outro papel na história senão este. Mas depressa toda a gente começa a chamar-lhe Godzilla (viram os filmes anteriores, não foi?) e a chamar MUTO ao outro monstro, sem ninguém se dar ao trabalho de explicar o que significa. É que de facto não se percebe se os militares e os cientistas já conheciam Godzilla, e, se conheciam, se sabiam onde ela estava. Pergunta pertinente: onde é que ela estava? Mais importante, porque é que ela aparece agora?
O filme dá uma péssima explicação: porque Godzilla é o predador destes outros monstros. Errado. Godzilla nunca tenciona comê-los. Encontrei uma explicação melhor nas criticas que li, que Godzilla está a proteger o seu território de uma invasão de monstros que ia afectá-la. Ah, isso já faz sentido. Mas o sítio onde se explicar isto é no filme, não é nas críticas.
Quando Cranston saiu, o filme deitou o cérebro fora. Agora são só monstros a destruir arranha-céus e pessoas a fugir ou a ficarem esmagadas. Clichés que eu julgava que já não aconteciam em filmes modernos, acontecem: o protagonista está em todas as tentativas militares de travar os monstros, e morrem sempre todos, e ele é sempre o único sobrevivente. Sorte do caraças.
Uma pessoa já devia saber que isto não é um filme para pensar, muito menos para sentir. É um filme para encher o olho de efeitos especiais, arranha-céus a colapsar, aviões a despenharem-se, explosões a torto e a direito.
Mas enche o olho? Ora, o problema do filme é mesmo esse. Não enche. Muitas coisas estão bem conseguidas, como dar-nos a noção da verdadeira dimensão destes monstros. Mas há mais acção militar, bem filmada, sem dúvida, do que monstro contra monstro. E eu não estou a ver a Godzilla para ver comandos em acção, tenham paciência. Mais monstros, menos militares. Até porque todas as tentativas dos militares de destruir os monstros acabam por ser irrelevantes para a história e só lá estão, francamente, a encher chouriços. Se estas cenas fossem cortadas e aproveitadas num Rambo qualquer, não se perdia nada.
Chegamos então à acção que queremos ver. Os monstros. E aqui os efeitos especiais falharam porque são muito escuros e quase não se consegue ver nada. Eu tive de voltar atrás imensas vezes para tentar acompanhar. Um dos MUTOs comeu uma ogiva nuclear? Segundo as críticas, parece que sim, mas eu não consegui perceber bem. Sim, os militares tinham um plano para destruir os dois MUTOs e a Godzilla, os três de uma vez, com ogivas nucleares, mas os MUTOs comeram as bombas. Isto devia ter sido hilariante, mas o filme não conseguiu sequer isso. Ainda quanto aos efeitos especiais muito escuros, se perguntarem às pessoas que fizeram o filme, vão dizer-vos que foi de propósito, que era de noite e estava muito fumo e havia destroços no ar, que era para ser realista. Qual carapuça! O único efeito pretendido é esconder as imperfeições do CGI, como também fizeram com “Aliens versus Predador 2: Requiem”, outro filme em que quase não se vê nada, literalmente. Se a noite é um problema, que fizessem as batalhas de dia.
Assim, quase não se percebe o que está a acontecer durante os combates entre Godzilla e os outros monstros, das poucas vezes que de facto os vemos “pegarem-se”. Nem sequer percebi como é que um deles morreu, e mais uma vez foi a ler as críticas que tive a certeza do que me pareceu ter visto.
Em suma, não me encheu o olho e, pior do que isso, não me encheu a barriga. Pelo menos gostei do fim, o que já não foi mau de todo.

Este “Godzilla” é outro filme acéfalo que se deve ver tendo isso em conta. Daqui por uns anos também não me vou lembrar dele. Mas vou recordar com carinho a carinha ternurenta de Godzilla quando se julgava que era mesmo o fim do bichinho.

12 em 20 (menos pontos para os efeitos especiais por serem demasiado escuros) 



domingo, 6 de junho de 2021

The Banshee Cries, de Patrícia Morais

Li este conto ainda na versão original, “The Roommate”, o meu primeiro contacto com o universo sobrenatural de Patrícia Morais. Francamente, gostei, tirando alguns pormenores que salientei à autora como beta reader do conto. Esta segunda versão está muito melhor, sem dúvida, e nota-se a evolução na escrita de história para história.
A protagonista de “The Banshee Cries” é Melissa, uma jovem que já traz consigo um passado traumatizante ligado ao sobrenatural. Na tentativa de recomeçar num local novo, muda de escola a meio do primeiro período. Para seu azar, chega precisamente durante as celebrações do Halloween, que Melissa detesta por lhe recordar tudo o que quer esquecer. Pior ainda, têm acontecido estranhos homicídios no campus, e Melissa descobre que vai ocupar a vaga no quarto (e dormir na cama) de uma rapariga assassinada. E não foi assassinada de qualquer maneira. Descobriram-lhe o cérebro todo picado, como se por agulhas, mas sem qualquer lesão exterior que o explicasse. Arrepiante!
À medida que os homicídios se sucedem, Melissa ouve o grito da banshee, criatura mitológica irlandesa conhecida por anunciar uma morte na família. Quem será o próximo? Estará Melissa realmente em perigo ou tudo não passa da sua imaginação, uma sequela do trauma que viveu?
Algo que me agradou bastante no conto foi a contextualização do Haloween como festa de origens pagãs, o que não costuma acontecer neste tipo de histórias mais viradas para os sustos gratuitos. Melissa conhece um entusiasta do Halloween (cá dos meus) que tenta explicar-lhe que o antigo Samhain não é apenas um “carnaval temático” (aqui estou a citar um amigo), e diz algo em que eu ainda não tinha pensado:

“But that’s what makes it so fun! Life is scary. Why wouldn’t we enjoy and make fun of that fear? Life is trying to make us fear it, and on this day we mock its attempts and say,” he puts his hands on my shoulders and shakes me. “No, not today. Today, I’m not scared of anything you throw at me.”

Bem apanhado. Nunca tinha pensado no Halloween nesta perspectiva.
“The Banshee Cries” é um conto Young Adult escrito em inglês que aconselho a quem gosta do Halloween, do sobrenatural, de banshees e de caçadores de bruxas. Infelizmente, é mesmo o aspecto Young Adult que não me permite gostar mais do conto, embora a história e as personagens revelem maior profundidade do que é costume neste Género. Ainda não o bastante para mim, todavia, que não sou o público-alvo. Será sem dúvida uma boa introdução ao universo começado pela autora no livro “Sombras”.

O conto pode ser adquirido em PDF e epub a partir daqui: patricia-morais.com/en/books/the-banshee-cries