Este ódio é recente, muito recente.
Algures em meados de 2025 comecei a encontrar uma série de páginas do Facebook, e aqui no Blogger também, com posts muito bem escritos, muito bem estruturados, em bom português, sem erros ortográficos ou gramaticais, e até com conteúdo opinativo ou humorístico/satírico. Pensei para mim: olha para este talento todo, de onde é que isto saiu que andava escondido?
Acredito que 90% das pessoas, estimativa por baixo, não consiga distinguir um texto escrito por IA de um texto escrito por humanos, que a esmagadora maioria nem imagine que a IA consegue escrever textos, especialmente se forem opinativos ou cómicos, e que só uns 5% saiba o que é uma prompt.
A princípio eu também não sabia, nem me passava pela cabeça que as pessoas pedissem à IA para escrever a opinião delas e fazer um brilharete.
Mas eu ando nisto dos blogues há mesmo muito tempo e comecei a reparar em coisas anómalas. No início, mais do que a qualidade, espantava-me a quantidade. Como alguém que escreve regularmente, tenho a perfeita noção do tempo que as coisas demoram. Algumas destas páginas publicam um bom texto quase todos os dias, um texto que, no mínimo dos mínimos, demora umas duas ou três horas a escrever e corrigir. Pensei, na minha ingenuidade, "esta gente não tem vida". Até não pensei mal, porque nisto dos blogues há sempre alguém, em certas fases da sua vida, a passar por um período de grande criatividade ou, efectivamente, sem nada que fazer.
Mas já era muita gente sem vida.
E a cultura geral em cada texto? Isto era tudo gente que tinha engolido uma enciclopédia ou feito muita, muita, muita pesquisa para um post de 500 palavras sobre um tema que não precisava dessa pesquisa.
Mesmo assim, saltou-me logo à vista que estes textos de diferentes páginas eram tão parecidos, na estrutura e no desenvolvimento da ideia, que pareciam ter sido TODOS escritos pela mesma pessoa. Novamente, pensei que era moda e que andavam a imitar-se uns aos outros.
Mas reparei com mais atenção na estrutura dos textos.
Frases curtas. Muito curtas.
Uma frase por parágrafo.
Um espaço entre parágrafos, como na regra inglesa.
E o travessão, este — travessão de 2 metros que ninguém usa sem ser a IA.
Comecei a desconfiar e fui investigar. Quando se aprende a reconhecer o padrão já não nos escapa. A maioria destes escrevedores de prompts é tão iniciante na escrita (nunca escreveram nada na vida e não conseguiriam escrever aquele texto sozinhos nem que a vida deles dependesse disso) que nem sabe ir ao Word substituir o travessão. Destes, admito, até tenho alguma pena. Pessoas que têm de ir ao ChatGPT para lhes escrever um comentário (sim, existe). Não é genuíno, mas pelo menos esforçam-se. Nestes casos, sempre que têm de escrever alguma coisa sem a IA, mostram logo o seu real nível de escrita: os erros ortográficos, o "no qual" como muleta, o desconhecimento completo da pontuação, a vírgula, que, aparece, onde, a, pessoa, respira.
Também não me choca que se use a IA para escrever textos informativos ou técnicos que podiam ter sido copiados da Wikipedia: O pinheiro-manso (Pinus pinea) é uma espécie de pinheiro originária da Europa, mais precisamente da região do Mediterrâneo. Ou: X é o terceiro álbum da banda Y, pela editora Z.
É preguiça? Pode ser preguiça ou pode ser falta de tempo ou de jeito. Se é informativo, o importante é a informação. Prefiro mais informação com IA do que menos informação porque a pessoa não conseguiu escrever uma coisa coerente.
O que me leva aos posts do LinkedIn, aquelas aberrações de textos motivacionais "escritos" por pessoas que estão a ganhar a sua vidinha e que não acreditam no que escrevem mas pagam-lhes para isso. Esse é um universo distópico completamente à parte, o universo em que uns fazem de conta que motivam e outros fazem de conta que são motivados. É tudo falso, já era artificial antes da IA, ninguém quer saber daquela fantochada. No lugar deles fazia o mesmo. Até acho que a melhor utilização da IA é no mercado de trabalho: assim já não temos de fingir sinceridade, a IA finge por nós.
O que me chateia mesmo, o que me tira do sério, são as pessoas que publicam textos de IA e fingem que foram elas que os escreveram. Não, não foram. O que elas escreveram foi a prompt. Depois foi fazer copy/paste. Logo aparecem os leitores, coitados, iludidos, a elogiar: "Você escreve tão bem!", "Invejo o seu talento", "Devia escrever um livro", "Que texto tão inspirado!".
Se me dissessem isto eu tinha vergonha na cara e explicava que não tinha sido eu a escrever: "Eu só fiz a prompt, o texto é IA". Se começasse a acontecer muitas vezes, como acontece, colocava o aviso no texto ou na descrição da página: "Texto gerado por IA".
Mas não só não têm vergonha na cara como agradecem aos iludidos, "obrigado, obrigada", e deixam-nos ficar na ilusão. Ultimamente apareceu um tipo de escrevedor de prompt ainda mais embusteiro. O tipo que até sabe escrever quando quer, mas dá trabalho. "Escrevo com a ajuda da IA às vezes" é o máximo que arrancam dele, e a grande maioria dos leitores não sabe o que é que "ajuda" quer dizer. Ajuda é só uma ajudinha, não é? Não, não é, é o texto todo.
Este espertalhão sabe substituir os travessões por parêntesis e vírgulas onde eles são necessários, sabe reorganizar o texto para não parecer IA, sabe fazer uma prompt em que finge ser uma professora real a queixar-se de um problema real, como eu já fiz aqui para servir de abre-olhos.
Até há quem escreva testemunhos, em páginas de perfis fictícios, fazendo-os passar por acontecimentos reais. Às vezes até são histórias com enredo, personagens e diálogo. E o leitor normal pensa: "Mas uma história não pode ser escrita com IA, pois não? Isso já seria literatura. Um texto tão emocional só pode ser escrito por um ser humano, a IA não consegue escrever tão bem." Consegue sim. Histórias, poesia, linguagem emocional, a IA escreve isso tudo. (Muitas vezes a pedir donativos, cuidado com esses choradinhos. Não passam de cravas digitais.)
Perguntei a um destes espertalhões, em comentários: "Isto é tudo escrito com IA?"
Resposta muito rápida: "Não, só uso corrector de texto e dicionário de sinónimos".
Mas de outra vez deixei-lhe uma boca sobre a IA que utilizou, e bloqueou-me. Era só o que faltava, aparecer ali gente inconveniente a desmascarar que é tudo IA, porque ele quer vender aquilo em livro. Obviamente, há que manter os leitores a pensar que a página é mesmo escrita por um humano, porque quem é que quer comprar a última obra do ChatGPT? É vender gato por lebre. E actualmente já há legislação que obriga o autor a divulgar se a obra é feita com IA, resta saber se pode ser aplicada.
Mas não pensem que a praga da IA são só os espertalhões, os oportunistas do donativo, os oradores motivacionais do LinkedIn e os coitados que não conseguem escrever sozinhos. A coisa já chegou à imprensa de referência e já li crónicas de nomes conhecidos que, sem dúvida nenhuma, saíram do Gemini, do ChatGPT ou do Claude, mas tudo muito bem disfarçado. Claro que não vou citar nomes porque não tenho provas e seria difamação, mas direi apenas que a estrutura é a mesma dos tais posts do Facebook, sem tirar nem pôr, e que não fui a única a reparar. O mais curioso é que nestes casos as pessoas sabem escrever e não precisam da IA para nada. Mas às vezes bate a preguiça, não é? Eu sei, e é preciso entregar trabalho. Mas não é lebre, é gato.
Se escreves posts com IA, e se não és uma pessoa desonesta que quer intrujar os leitores ou uma pessoa vaidosa que gosta de elogios que não merece, pelo menos põe um aviso no texto: "gerado por IA". Queres elogios? Deixa que as pessoas elogiem as tuas prompts. Algumas delas devem ter dado mais trabalho do que daria escrever o texto inteiro.
A IA escreve que se farta, mas não passa de uma sopa de palavras. No fim, aquilo tudo espremido não significa nada, é uma casca oca, não tem alma nem profundidade nem cunho humano. É assim que se identifica a IA: é plástico.
Sim, a imagem que ilustra este post foi gerada por IA, mas eu nunca me fiz passar por cartoonista. É só para as pessoas saberem que também sei fazer prompts e que não estou a dizer isto porque não sei usar a IA. Sei usar e uso, mas nunca para enganar as pessoas. Há uma grande diferença.
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
GENTE QUE ODEIO: 5 - escrevedores de prompts de IA que se fazem passar por grandes escritores
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
GENTE QUE ODEIO: 4 - os mentirosos
Quem me conhece bem sabe, ou devia saber, que não há nada que eu odeie mais nesta vida do que a mentira e os mentirosos.
Pergunto-me mesmo porque é que "não mentirás" não está nos Dez Mandamentos, em vez de, por exemplo, "não cobiçarás o asno do teu vizinho". "Não mentirás" é o meu grande mandamento.
Acredito que Deus, na sua infinita sabedoria, não quisesse condenar ao apedrejamento quem proferisse uma mentira social. As mentiras sociais são necessárias para nos facilitar a vida. "Agora não posso, estou numa fase complicada" em vez de "escusas de me convidar para as tuas festas chatas". Ou a mentira piedosa: "és um bom amigo mas não estou à procura de uma relação neste momento" em vez de "não andava contigo nem que fosses o último homem do mundo".
Não estou a falar das mentiras piedosas e muito menos das mentiras sociais. Algumas mentiras sociais até acabam por ser piedosas, porque não queremos sobrecarregar a outra pessoa com problemas desnecessários: "hoje não dá, tenho montes de trabalho" em vez de "chegou-me uma conta que não consigo pagar", "tenho uma pessoa da família a morrer no hospital", "vou ter de acabar a minha relação", e coisas chatas deste género.
Também não estou a falar daquelas mentironas de dramalhão: "Filho, o teu pai não era teu pai. O teu pai sou eu."
Estou a falar de mentirosos compulsivos. E nem sequer falo dos sociopatas como certos políticos que debitam uma mentira atrás da outra para não perderem votos, ou dos grandes impostores responsáveis pelos grandes embustes facínoras ao longo da História. Também odeio esses, obviamente, mas não me estou a referir a eles.
Falo daquelas pessoas que adoptaram a mentira como mecanismo de sobrevivência logo na infância, tanto como estratégia de defesa como de ataque, e que mentem mesmo quando dizer a verdade não os prejudicaria em coisa rigorosamente nenhuma, mas a mentira facilita-lhes a vida. Pessoas que mentem entre amigos com quem têm intimidade suficiente para dizerem a verdade. Pessoas que mentem em coisas parvas do tipo: "Não posso ir ver os Iron Maiden porque me dói a cabeça", mas depois um amigo comum encontra-os no mesmo dia, à mesma hora, a ver os Scorpions.
Porque é que isto acontece? Custava muito dizer "desculpa lá, sei que gostas muito dos Iron Maiden, grande banda, sim senhor, mas nesse dia tocam também os Scorpions, e eu sei que vais querer ir aos Iron Maiden mas eu gosto mais dos Scorpions e não vou poder ir contigo"?
Sim, custa. A uma pessoa assertiva não custava dizer isto, mas para um mentiroso compulsivo dizer a verdade é como engolir lava.
Primeiro, por cobardia. Por medo de desagradar ao fã dos Iron Maiden que, se calhar, julgava que eram ambos igualmente os maiores fãs dos Iron Maiden, mas não eram, porque a mentira vem de trás.
Porque o mentiroso compulsivo, ao conhecer o fã dos Iron Maiden, para lhe agradar, lhe disse que também era o maior fã dos Iron Maiden, e assim conseguiu um amigo automático, uma "alma gémea", com base numa mentira. Isto parece muito imaturo, não parece?, e inconsequente, mas depois a mentira começa a avolumar-se.
Agora o fã dos Iron Maiden sabe que lhe mentiram, e começa a tentar perceber porquê. Começa a esgravatar. E descobre que o amigo não foi aos Scorpions sozinho, que foi com uma ex-namorada do fã dos Iron Maiden. E que essa ex-namorada já tinha andado com o amigo antes de andar com ele, mas o amigo sempre disse que não gostava dela e até lhe deu razão em deixá-la, e até esteve lá para o apoiar nessa altura difícil... "Sim, deixa-a, ela não vale nada".
E uma pessoa começa a pensar para trás e uma mentira parva começa a tornar-se num monstro de mentiras com muitos olhos e vários tentáculos, e quanto mais se esgravata pior cheira.
Para além da cobardia, o mentiroso compulsivo também mente para controlar a narrativa e, no pior dos casos, os comportamentos dos que o rodeiam, o que já entra na esfera da sociopatia. Porque é que há-de ser honesto e frontal quando ganha mais em manipular, encobrir, ficar de bem com Deus e o Diabo, fazer-se passar sempre pelo amigo perfeito, até se descobrir a verdade debaixo do castelo de cartas de mentiras?
Este tipo de mentiroso destrói vidas, mina a confiança no outro ser humano, leva pessoas racionais a duvidarem de si próprias, a questionarem o seu discernimento e os seus instintos, obriga-nos, todos os dias, a desconfiar de toda a gente. É assim que uma mentira social, aparentemente inócua, pode significar um grande mentiroso.
"Então porque é que não me disseste que ias aos Scorpions? O Fulano viu-te lá", é o pesadelo do mentiroso compulsivo. Confrontem-no e observem como aquela mente começa imediatamente a fabricar mais mentiras para justificar as anteriores. Quando temos factos irrefutáveis e o mentiroso se sente desmascarado, a conversa e a amizade terminam com uma mentira venenosa: "Não te disse nada porque tive pena de ti. Porque Fulana me disse que te deixou porque [ataque pessoal onde dói mais]."
Hoje em dia não confronto mentirosos. É directamente para o caixote do lixo. Se é possível que já tenha descartado pessoas por causa de uma mentira social sem importância nenhuma porque os apanhei a mentir? Talvez. Se calhar já pagou o justo pelo pecador. Antes isso do que arriscar ter uma pessoa tóxica na minha vida.
Pessoa que me diga "há muitas verdades" é pessoa riscada. Não, não há muitas verdades. Há os factos, há as interpretações e há as diferentes perspectivas. Mas a verdade é só uma. Pessoa que diz "há muitas verdades" é pessoa que gosta de fabricar a "verdade" que mais lhe convém e validá-la com um selo de "subjectividade".
Se és um mentiroso/a compulsivo/a, e se não és um/a sociopata sem consideração nem respeito nem empatia pelos outros, questiona bem as tuas motivações. Estás mesmo a mentir para não magoar os outros, ou para te facilitar a vida? No mínimo dos mínimos, assume e não mintas a ti próprio/a.
Usei os nomes destas bandas porque foram as primeiras que me vieram à cabeça. Longe de mim outra intenção. Muito respeito pelos Iron Maiden e pelos Scorpions, e pelos fãs.
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
GENTE QUE ODEIO: 3 - o gajo dos spoilers
Este é o engraçadinho que tem um prazer sádico e mesquinho em spoilar-te aquilo que gostas. "Sabes quem morreu ontem no Walking Dead?" E vai e diz, porque ainda não viste. E faz aquele risinho de gozo de quem sabe que já te estragou a semana toda.
Devia haver uma lei. Direito a auto-defesa e a dar-lhe uma marretada na cabeça.
Este gajo, porque são geralmente mais os gajos, mas também há algumas gajas, só se encontra em lugares fechados de onde não podes fugir: a escola, o trabalho, o autocarro. Ri-se porque sabe que em qualquer outro lugar levava nos cornos. Este é o gajo que, quando era miúdo, dava um peido na sala de aula para meter nojo a toda a gente. E continua a ser um mete-nojo, com a mesma idade mental dessa altura.
Se és o gajo dos spoilers... esquece. Se chegaste aos 30 anos com mentalidade de 7 já sabes o que te estou a chamar e não há nada que te valha. Ninguém gosta de ti, és um triste, vais ser um triste a vida toda.
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
GENTE QUE ODEIO: 2 - gente que paga para ter amigos
Todos os conhecemos. Pessoas que têm dúzias, centenas de amigos. Mas depois vamos analisar e descobrimos que quem banca as jantaradas, as passeatas, até as facturas dos amigos, é o gajo triste que paga para ter "amigos".
Esta criatura é geralmente tão patética que quase me dá pena, e nem estaria na categoria "gente que odeio" se não ajudasse a propagar uma outra praga: os cravas.
Disse "geralmente" porque alguns sabem muito bem que só têm "amigos" porque lhes pagam, e continuam a fazê-lo para se armarem em superiores: "tens é inveja porque não tens amigos como eu tenho", "os meus amigos aparecem quando preciso deles, nem que seja às 3 da manhã".
Pois aparecem, porque não são amigos, são empregados. Para eles não és um amigo, és um rendimento. Pode até não ser dinheiro, pode ser um benefício que obtêm através de ti, e tu sabes. Estão sempre disponíveis para ti porque não querem perder o part time, quando não mesmo full time, e tu sabes. Escusas de te armar, a gente sabe que amigos são esses que dizem mal de ti nas tuas costas.
De vez em quando, o gajo que paga para ter amigos queixa-se de ingratidão: "fui tão bom para ele e agora faz-me isto!" Faz-te isto porque
1) deixaste de lhe pagar o suficiente para te aturar
2) arranjou quem lhe pagasse mais e mandou-te à merda
3) apanhaste-o a falar mal de ti nas tuas costas, como se tu não soubesses que estavas a alimentar uma sanguessuga
Cuidado quando te queixas! Quando te queixas de ingratidão, podes estar a recrutar outro crava mais necessitado do que o anterior que acabou de encontrar uma vaga de emprego em ti.
Se és uma pessoa que paga para ter amigos, deixo-te aqui um conselho de amiga, completamente grátis e sem contrapartidas: trabalha na tua auto-estima e no teu complexo de inferioridade que te leva a querer parecer superior, e presta mais atenção às pessoas que talvez não estejam sempre ao teu serviço mas que são aquelas que vão ter a integridade de te ajudar quando estiveres realmente na merda e as sanguessugas te abandonarem.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
GENTE QUE ODEIO: 1 - o crava
O crava é universalmente odiado. Até um crava odeia outro crava, afinal, porque outro crava significa concorrência.
Toda a gente sabe o que é um crava. É aquela pessoa que crava cigarros porque deixou de fumar (dos dele); que pede dinheiro emprestado e "esquece-se" de pagar; que num jantar de grupo, assim que sabe que a conta vai ser dividida, pede logo o prato mais caro; é o colega de curso que está sempre a pedir os teus apontamentos mas nunca tem nada para partilhar contigo.
A única maneira de escapar ao cravanço é ser assertivo e dizer "não". O crava não é um amigo, é uma sanguessuga.
Os especialistas do ofício do cravanço têm todo um leque de competências para manipular a vítima aproveitando-se da sua generosidade, da sua boa educação, da sua compaixão. Consoante o montante a cravar, um crava de categoria apresenta um choradinho de derreter corações: morreu o pai, morreu a mãe, o bebé recém-nascido está no hospital com cancro, o gato precisa de um transplante de rim. O crava é um artista em adaptar o choradinho à vítima. Contra esta táctica, se a pessoa não quiser ser muito bruta, é repetir "não tenho, não tenho" até o crava acreditar ou desistir. Outra solução é "com essas desgraças todas, já se foi informar se tem direito a um apoio?" Deflectir, dizer não, e nunca ceder. Ceder é dar incentivo ao crava para se alapar que nem carraça. Para quem tem dificuldade em dizer não, lembrem-se que é menos doloroso não deixar a carraça pegar-se do que arrancá-la depois.
É claro que o crava vai reagir mal, pode até ser mal-educado ou fazer-te sentir culpado pela tua falta de compaixão ou generosidade. É assim que reconheces o crava.
Não estou com isto a dizer que nunca se deve ajudar. A diferença entre o crava e a pessoa em dificuldades é a lata e a rapidez com que o crava pede. Um crava não tem vergonha na cara. Começa a cravar 5 minutos depois de te conhecer, às vezes até já para te tirar a pinta de tanso. Começas por dar um cigarro, no outro dia já te está a pedir dinheiro. Fazes um favor, pedes outro favor em troca e a pessoa nunca mais te responde. Dizer "não" faz estas pessoas desaparecer como se se tivessem desfeito em fumo, mas quem é que as quer por perto? Um amigo pode pedir-te um favor de ano a ano e começa sempre envergonhado com um "desculpa lá, não pedia se não estivesse mesmo à rasca, e só se não te incomodar". Ou um conhecido pode dizer "desculpe lá, mal o conheço, mas você percebe mais disto do que eu e talvez me possa dar indicações do que fazer ou a quem pedir ajuda". O crava não tem pudor. Pede como quem tem direito a receber. É uma relação predatória, que nunca é consensual nem recíproca.
Quanto mais banana é a vítima, mais descarado o crava. É o caso do célebre
"Emprestas-me 20 euros?"
"Só tenho 10"
"Não faz mal, ficas-me a dever e pagas-me depois"
Este diálogo é anedota mas aconteceu-me uma coisa semelhante. Um crava de grande categoria até pode contestar assim quando a vítima diz que não tem dinheiro: "Tens, tens. Ganhas tanto, tens tanto de despesas, sobra-te tanto". Já te fez a contabilidade toda sobre como gastar o teu dinheiro. É muita lata mesmo.
Um tipo comum de crava é o chamado pendura. Tradicionalmente era o vizinho que batia sempre à porta quando se estava a pôr a mesa, ou a visita que ia tomar chá e ia ficando, ficando, a fazer-se ao piso para o jantar. Este tipo de crava finge que não percebe as dicas para se ir embora. Continua ali sentado com um sorriso idiota, ou "lembra-se" de começar a falar de outro assunto. Desalojar esta criatura do sofá pode requerer uma intervenção física: inventar uma emergência e abrir a porta da rua, pedindo desculpa, mas é preciso ir atender o telefone imediatamente, ou, no caso dos cravas de certa idade, pegar-lhes no braço e "ajudá-los" a percorrer o caminho até saírem porta fora. Lembrem-se sempre: não são vocês que estão a ser mal-educados. Mal-educado é o crava que está a tentar aproveitar-se da vossa bananice. Não são vocês que estão a ser brutos, é o crava que não tem o mínimo respeito por vocês. Quando somos forçados a recorrer a uma posição mais assertiva, o crava ainda é capaz de dizer "eu ia-me já embora". Não, não ia, está é fulo da vida por o esquema não ter resultado. Lembrem-se, isto é gente que não interessa a ninguém, não importa se ficou amuadinho. Quanto mais amuado melhor, para não tentar outra vez.
Outro dos tipos mais detestáveis de crava é o pendura/encostado da equipa. Todos o conhecemos. Começa a praticar na escola, em tenra idade, nos trabalhos de grupo. Nas empresas e instituições, encosta-se/pendura-se no trabalho dos outros e não faz a ponta. Quando alguém o obriga a trabalhar, faz tudo tão mal e porcamente que os outros membros da equipa começam a excluí-lo de propósito para não prejudicar mais o trabalho, ou dão-lhe qualquer tarefa desnecessária porque é desnecessária, e o crava sabe que é desnecessária e também nunca a completa, embora possa fingir que está a fazer alguma coisa. Este é porventura o tipo de crava mais odiado porque não é possível livrarmo-nos dele. Na escola, porque o professor não o vai tirar do grupo; no trabalho, porque a pessoa que age assim tem algum tipo de protecção do chefe ou do patrão. É uma sanguessuga inescapável, é o nosso karma a castigar-nos pelos pecados das vidas passadas. E o crava sabe, e ainda goza o prato e pergunta "de certeza que não querem mais ajuda?" Muitas vezes este tipo de crava é tomado por incompetente ou preguiçoso, mas nada mais errado! Este é o crava profissional, um mestre avançado do ofício do cravanço, proficiente e industrioso na arte de fazer os outros trabalharem por ele.
Se és um crava, toma vergonha na cara e deixa de o ser.
Os cravas odeiam-me tanto como eu os odeio a eles, porque sabem que daqui não levam nada.
Se os cravas são tão fáceis de identificar, perguntarão, porque é que existem tantos? Duas razões. Primeiro, há muitos cravas porque há muitos bananas. Segundo, por causa da categoria da "gente que paga para ter amigos", que fica para a próxima.
terça-feira, 21 de julho de 2026
E mais outro post abre-olhos, 100% IA, para os mais distraídos ficarem a conhecer o padrão 👇
Porque em menos de meia hora (o tempo de fazer a prompt) gerei logo meia dúzia deste género e podia ter gerado mais. Depois é só postar e receber elogios pela grande criatividade. 😂
Há dias em que penso seriamente em desistir de escrever.
Não porque me faltem ideias.
Porque me sobram concorrentes... que nunca ficam sem elas.
Antigamente um escritor demorava anos a encontrar uma voz própria.
Hoje basta encontrar um bom prompt.
É uma evolução extraordinária.
Ou, se preferirem, um milagre.
✨ Todos os dias aparece mais um pensador.
📚 Todos os dias aparece mais um filósofo.
🧠 Todos os dias aparece mais um especialista em absolutamente tudo.
Na segunda-feira escreve sobre o Império Romano.
Na terça explica porque é que os polvos são um exemplo de inteligência emocional.
Na quarta estabelece uma ligação entre Mozart, os buracos negros e a fermentação natural do pão.
Na quinta conta uma história emocionante passada consigo próprio... que nunca aconteceu.
Na sexta publica uma fotografia da chávena de café.
Porque ninguém acredita num sábio sem café.
E tudo isto... sem um único erro ortográfico.
Nunca.
Nem uma vírgula perdida.
Nem um acordo verbal maroto.
Nem uma frase que denuncie que o cérebro resolveu tirar cinco minutos para respirar.
Eu escrevo.
Eles publicam.
Há uma diferença.
Quando escrevo, apago frases.
Troco palavras.
Mudo parágrafos de sítio.
Às vezes passo meia hora a decidir entre um ponto final e um ponto e vírgula.
Eles acordam às oito.
Às oito e três já descobriram que a felicidade funciona exactamente como a migração das borboletas-monarca, tal como demonstram estudos recentes, a filosofia estoica e uma curiosidade fascinante sobre os cavalos-marinhos.
Não é apenas criatividade, é um safari enciclopédico.
Os textos seguem sempre a mesma receita.
Começam com uma pergunta existencial.
"Já alguma vez paraste para pensar..."
Claro.
Quem nunca interrompeu o jantar para reflectir sobre a relação entre o ADN humano e o crescimento dos bambus?
Depois surgem três referências culturais.
Obrigatoriamente três.
Um filósofo grego.
Um cientista famoso.
Um imperador romano.
Se der para encaixar Leonardo da Vinci, Einstein e Marco Aurélio no mesmo parágrafo, melhor ainda.
Se não houver qualquer relação entre eles...
Melhor ainda.
Depois entra a analogia.
Porque uma ideia simples nunca pode ser apenas uma ideia simples.
Não.
A procrastinação é como uma torradeira que sonha ser submarino.
A empatia é semelhante a um farol vegetariano durante uma tempestade magnética.
A disciplina lembra uma girafa a jogar snooker na Estação Espacial Internacional.
Não faz sentido?
Precisamente.
É isso que lhe dá profundidade.
Segue-se o momento autobiográfico.
"Recordo-me de quando liderei uma equipa multicultural..."
"Durante uma viagem transformadora pelo Nepal..."
"Um velho jardineiro japonês disse-me uma frase que mudou a minha vida..."
Curiosamente, estas pessoas têm mais experiências marcantes do que o Indiana Jones.
Eu, pelo contrário, a última conversa memorável que tive foi com a funcionária do supermercado sobre a falta de troco.
Depois chega o golpe final.
💡 Não é apenas um texto.
É uma experiência.
❤️ Não é apenas uma reflexão.
É um convite à transformação.
🚀 Não é apenas um pensamento.
É um movimento.
E lá aparecem centenas de comentários.
"Que privilégio poder ler-te."
"Devias dar palestras."
"Cada palavra é uma lição."
Não.
Cada palavra é uma previsão estatística.
Há uma pequena diferença.
O que me incomoda não é a Inteligência Artificial.
É a inteligência artificial... do autor.
Usar IA não faz de ninguém um impostor.
Fingir que não a usou já é outra conversa.
É como ganhar um rali enquanto o carro conduz sozinho.
É como receber um prémio de fotografia por uma imagem comprada num banco de imagens.
É como subir ao palco para agradecer uma música... depois de ligar o rádio.
E ainda fazer um discurso sobre o enorme sacrifício criativo.
Assumam.
Digam simplesmente:
"Usei IA para escrever este texto."
Ninguém morre.
Aliás, talvez até ganhem respeito.
Porque a honestidade continua a ser uma tecnologia que ainda não ficou obsoleta.
Entretanto, eu continuo aqui.
A escrever devagar.
A trocar palavras.
A cortar adjectivos.
A discutir comigo próprio.
A deixar escapar uma gralha de vez em quando.
A fazer aquilo que os escritores sempre fizeram.
Escrever.
Sem polvos.
Sem buracos negros.
Sem Einstein.
Sem um monge tibetano que, por uma coincidência extraordinária, me ensinou o verdadeiro significado da liderança enquanto observávamos o voo sincronizado de estorninhos ao pôr do sol.
Embora... reconheço...
Dava um excelente post no Facebook. *
* E vai dar mesmo, ChatGPT, obrigadinha.
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Verdadeiro ou falso: quem escreveu esta crónica, eu ou a Inteligência Artificial? (resposta no fim do texto)
Dizem que o inferno são os outros. Pois desenganem-se: o inferno tem nome, apelido e uma plataforma digital que teima em carregar apenas até aos 99%.
Estou aqui, sentada à frente desta luz azul, com as pálpebras a pesarem mais que o orçamento da educação, a tentar corrigir exames nacionais. Ou melhor, a tentar acceder aos exames. A cada clique, um erro 404, um "servidor em baixo" ou aquela roda colorida e hipnótica que gira, gira e gira, como se estivesse a ironizar a minha sanidade mental.
O nosso Ministro, o Senhor Fernando Alexandre, lá apareceu hoje com aquele ar sereno de quem nunca teve de lidar com um "sistema indisponível" numa véspera de prazo. Garante, com a convicção de quem lê guiões de ficção científica, que o processo está "praticamente concluído". É curioso como o conceito de "praticamente" se expandiu para englobar um caos administrativo que faria corar um amador de informática. Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira... os dias passam e a promessa de afixação das pautas na sexta-feira mantém-se inabalável, quase como um dogma de fé.
Será o senhor Ministro um vidente? Ou terá ele acesso a uma plataforma mágica, escondida algures na gaveta da Secretaria de Estado, onde os exames se corrigem sozinhos, por telepatia ministerial?
Do lado de cá da barricada, a realidade é menos idílica. Professores em colapso nervoso, pais a ligarem-me a horas que o bom senso proíbe — e com razão, porque o futuro dos miúdos parece ter sido entregue a um estagiário com um servidor de plástico — e alunos num estado de ansiedade que nem a medicina do século passado resolveria.
Este Governo da AD, que tanto prometeu a "mudança" e a "eficiência", parece ter encontrado a sua especialidade: a digitalização analógica. Conseguiu o feito notável de transformar o exame nacional — um momento de seriedade e rigor — num episódio de uma série de comédia de erros, onde o protagonista é um código de erro que ninguém sabe explicar. É a governação feita de "slides" bonitos e conferências de imprensa onde a palavra "estabilidade" é repetida até à exaustão, enquanto, na prática, o que temos é um sistema que colapsa à primeira brisa de carga computacional.
O Ministro garante a sexta-feira. Eu garanto que, se a pauta aparecer, será por milagre ou porque algum colega, num surto de heroísmo, se esqueceu de dormir, de comer e de ter vida própria para tapar os buracos deixados pela "modernização" deste ministério.
No fim, a culpa nunca é da estrutura. É do servidor. É da rede. É da nuvem. O que é curioso, porque quando os exames falham, os professores continuam a ser a face visível de uma incompetência que habita algures em gabinetes climatizados.
Vou tentar mais uma vez. Carregar na tecla 'F5'. Ou talvez a tecla 'Escape' seja a única que realmente funciona nesta nossa educação moderna. Se não houver pautas na sexta-feira, espero que o Senhor Ministro, pelo menos, nos envie um emoji de consolação. É esse o nível de seriedade a que chegámos.
Resposta: Sim, a IA também escreve textos satíricos baseados na
actualidade, com crítica política, da perspectiva de uma personagem
realista. Parabéns a quem acertou.
Escolhi este tema porque
queria fazer a experiência com um assunto "quente" na
comunicação social. O Gemini saiu-me um grande escritor.
terça-feira, 14 de julho de 2026
Mais um post abre-olhos, 100% IA, para reconheceres o padrão e não seres engrupido nas redes sociais
Querido Génio das Redes Sociais,
Parabéns. De coração. Com confettis e tudo.
Ontem li o teu post. Aquele sobre resiliência — ou foi sobre liderança? Ou sobre o universo? Ah, já me lembro: era sobre tudo ao mesmo tempo, como só os verdadeiros polímatas conseguem fazer.
E eu, humilde mortal, fiquei ali sentado com o meu café a arrefecer, a pensar: como é que este homem sabe tanto?
Deixa-me adivinhar como o teu processo criativo funciona.
Acordas. Inspiras fundo. Abres o ChatGPT (ou o Claude, ou o Gemini — escolhe o teu veneno). Escreves: "Escreve um post motivacional sobre superar obstáculos, com referências científicas, emojis, frases curtas e um tom inspirador."
E voilà.
Em 11 segundos tens Aristóteles, neurociência, e uma analogia sobre borboletas.
O resultado? Qualquer coisa assim:
🧠 O cérebro humano processa 11 milhões de bits por segundo — mas só tem consciência de 40.
📌 Pensa nisso.
🌊 Não és a tempestade. És o oceano.
💡 Não é apenas falhares. É aprenderes a cair com elegância — como os astronautas da NASA que treinam durante anos para flutuar no vácuo sem entrar em pânico.
E depois vem a parte pessoal, claro. Porque a IA sabe que tens de humanizar:
"Lembro-me de quando, há uns anos, estava numa encruzilhada profissional — tudo parecia incerto. Foi nesse momento que percebi três coisas fundamentais: a persistência, a clareza de propósito, e a coragem de recomeçar."
Que momento tocante. Que autenticidade. Que coincidência que seja exactamente o que a IA escreve quando lhe pedes para "adicionar uma experiência pessoal verosímil".
Mas o melhor — o verdadeiro chefe de obra — são os comentários.
"Que
texto poderoso, obrigada por partilhares!"
"Isto
chegou-me ao coração, precisava mesmo de ler isto hoje."
"Uau,
que profundidade. Segui-te já!"
E tu respondes — provavelmente também com IA — "Obrigado! É sempre gratificante quando as palavras tocam alguém 🙏✨"
Toca. Toca mesmo. Como um raio numa torre de alta tensão — muito barulho, muita luz, e no fim não ficou nada.
Entretanto, eu. O autor de carne e osso.
Passo três horas a escrever um texto. Apago. Reescrevo. Discuto comigo mesmo se "todavia" soa demasiado formal. Procuro a palavra certa como quem procura chaves dentro de um sofá — de joelhos, com a mão encravada, sem garantia de resultado.
No fim publico.
Doze likes. Dois dos quais são da minha mãe e de um primo que provavelmente carregou sem querer.
Tu, entretanto, és convidado para podcasts.
"Como é que desenvolves uma voz tão autêntica?" — pergunta o entrevistador, visivelmente emocionado.
"Ah, é muito trabalho, muita leitura, muita vivência..." — respondes tu, com a serenidade de quem acabou de fazer um prompt de 40 palavras.
Não me interpretes mal. Não tenho nada contra a inteligência artificial. É uma ferramenta extraordinária — como o telescópio de Galileu, como a prensa de Gutenberg, como o autocarro que me poupa de andar a pé.
O problema não é usares a ferramenta.
O problema é apresentares a ferramenta como se fosses tu o carpinteiro.
O problema é receberes o troféu pela corrida que o teu carro fez.
O problema é que — e aqui peço desculpa pela brutalidade — estás a mentir. Não de forma violenta, não de forma ilegal. Mas estás. Calada e confortavelmente, post após post, emoji após emoji, analogia estapafúrdia após analogia estapafúrdia.
E o teu público? Esse público fiel que te lê todas as semanas?
Merecia saber.
Não para te destruir — drama é para telenovelas. Mas porque há qualquer coisa de profundamente torto em construir uma relação de confiança com pessoas reais usando palavras que não são tuas, emoções que não sentiste, e experiências que nunca viveste.
É como servir um bolo de compra numa caixa feita à mão e receber elogios pela receita.
Sabe bem. Toda a gente aplaude. E tu sorris — porque o segredo é teu e da máquina.
Mas olha: faz o que quiseres. O mundo é grande, as redes sociais são maiores, e a hipocrisia sempre teve boa audiência.
Só não esperes que eu, que passo horas a tentar encontrar a palavra exacta, aplauda de pé.
Tenho os braços cansados de escrever.
P.S. — Este texto foi escrito por um humano. Com erros, hesitações, e café frio. Sem assistência artificial. Podes verificar — tem impressões digitais por todo o lado. *
P.P.S. — Se sentiste que isto era sobre ti: era.
* Não foi não, Claude. Foi escrito por ti.
sexta-feira, 10 de julho de 2026
Post abre-olhos, 100% escrito por Inteligência Artificial
Confissão de um escritor em vias de extinção
Escrevo os meus textos.
Eu sei.
É um hábito antiquado. Como engomar camisas, revelar fotografias ou decorar números de telefone.
Ainda penso nas frases antes de as escrever.
Às vezes demoro uma hora para encontrar um parágrafo.
Às vezes apago metade do texto.
Às vezes publico com um erro.
Porque fui eu que o escrevi.
Entretanto, abro o Facebook e encontro mais um génio literário acabado de nascer durante a noite.
✨ "A vida é como um polvo a jogar xadrez numa bicicleta."
🎯 "Não é apenas resiliência, é alquimia emocional."
🧠 "Tal como Carl Sagan observava as estrelas, também nós devemos observar o silêncio entre os nossos pensamentos."
Segue-se uma referência aos estorninhos da Islândia.
Depois aos samurais.
Logo a seguir à física quântica.
Pelo meio aparece um polvo, um bambu, uma colmeia, a Via Láctea, os estoicos, Leonardo da Vinci e uma curiosidade fascinante sobre os axolotes mexicanos.
Tudo no mesmo texto.
Tudo perfeitamente encaixado.
Tudo absolutamente necessário para explicar... que devemos beber água e acreditar em nós próprios.
E os comentários não desiludem.
"Que mente brilhante."
"Como consegue escrever assim?"
"És um poço de cultura."
"Devias publicar um livro."
Claro que devia.
Basta perguntar ao ChatGPT.
O mais extraordinário nem é a qualidade dos textos.
É a velocidade com que estes autores se transformaram em enciclopédias ambulantes.
Na semana passada vendiam suplementos alimentares.
Hoje explicam neurociência, filosofia grega, astronomia, psicologia comportamental e o comportamento migratório das baleias-jubarte.
Tudo antes do pequeno-almoço.
E sem uma única gralha.
Nem uma vírgula fora do sítio.
Nem uma frase torta.
Nem aquele momento em que um humano escreve "há" quando queria escrever "à".
Nada.
São perfeitos.
Milagrosamente perfeitos.
Depois há aquela característica irresistível.
A necessidade de contar episódios pessoais.
"Quando eu dirigia uma equipa internacional..."
"Recordo-me perfeitamente de uma conversa que tive com um velho pescador..."
"Na minha experiência de vinte anos a acompanhar líderes..."
Que coincidência.
Toda a gente na internet parece ter vivido exactamente as experiências que uma IA costuma inventar quando precisa de ilustrar uma ideia.
Eu, infelizmente, tenho memórias muito menos inspiradoras.
Passei três horas à procura das chaves do carro.
Queimei o arroz.
Fiquei meia hora à olhar para uma frase sem saber onde pôr um ponto final.
É pouco cinematográfico.
Talvez por isso tenha poucos gostos.
Depois chega o grande final.
Sempre o grande final.
💡 Não é apenas escrever textos.
É transformar palavras em pontes para a alma.
Não é apenas comunicar.
É despertar consciências.
Não é apenas publicar.
É deixar um legado.
Claro.
Porque um post sobre produtividade sem qualquer ideia original é, evidentemente, o equivalente literário da Biblioteca de Alexandria.
Há também a regra dos três.
Sempre três.
Três exemplos.
Três lições.
Três pilares.
Três passos.
Se Moisés descesse hoje do monte, provavelmente trazia um PDF com "As 3 Estratégias para Maximizar o Potencial das Tábuas da Lei".
E depois existe aquele travessão enorme — o famoso travessão que agora aparece em todo o lado — como se fosse um selo invisível a dizer:
"Este texto foi polido por um algoritmo que nunca teve de lutar com uma frase difícil na vida."
O problema nem sequer é usar Inteligência Artificial.
Eu também uso corrector ortográfico.
Pesquiso fontes.
Consulto dicionários.
A tecnologia não é o inimigo.
O problema é vestir um papagaio de professor universitário e esperar aplausos pela eloquência.
É subir ao palco para receber uma medalha conquistada por outra entidade.
É assinar um quadro pintado por outro.
É ganhar um concurso de culinária depois de encomendar o jantar ao restaurante da esquina.
E, no fim, agradecer humildemente "ao talento, ao trabalho e à inspiração".
Não.
Agradece ao botão "Gerar novamente".
Talvez eu esteja apenas ultrapassado.
Talvez o futuro pertença mesmo aos grandes pensadores que descobrem diariamente o significado profundo da vida entre dois pedidos de geração automática.
Eu continuarei aqui.
A escrever.
A apagar.
A reescrever.
A duvidar.
A tropeçar nas palavras.
A cometer erros.
Porque, por muito competente que seja uma máquina, ainda há qualquer coisa de profundamente humano em olhar para uma página em branco e não saber como começar.
E, ironicamente, talvez seja precisamente essa imperfeição que torna um texto digno de ser lido.
Ou então não.
🤖 Concordo plenamente. *
Excelente reflexão. *
Continue assim. *
* Isto é o Chat GPT a dar-me graxa pelo texto que ele próprio escreveu.
terça-feira, 5 de agosto de 2025
Crise, qual crise - habitação
Há muito tempo que não falava de política/sociedade. Ora cá vai um apontamento da actualidade.
Eu devo ser mais lenta do que pensava. Finalmente consegui perceber o que é afinal a Puta da Crise Crónica - Crise, Qual Crise?, sobre a qual ando aqui a escrever há anos.
Tenho ficado muito perplexa com a "crise da habitação". Mas qual crise? As casas estão caras, não se consegue arrendar? E onde é que está a novidade? Qual é a diferença agora? Nos anos 60 e 70 a minha tia arrendava um apartamento de várias assoalhadas em Lisboa com os quartos todos "alugados". Um estivador aqui vizinho "arrendava" uma despensa de pátio onde só cabia uma cama de molas e um fogão de campismo. Outro vizinho vivia num armazém de refugo de madeira (antigo palheiro para animais de manjedoura), exíguo, de uma fábrica quando havia fábricas em Lisboa. Vivia-se assim, sempre foi normal. E havia barracas, sim havia, nos arredores. O palheiro sempre era mais perto do local de trabalho.
De repente, fez-se um clique, um momento EUREKA. Só se chama crise quando afecta a classe média. Quando (ainda só) afecta os pobres não faz mal, é normal, "não estudaram/não querem trabalhar". Mas quando toca nos filhos daqueles que conseguem arrendar e pagar empréstimos, aí já é crise. Percebi.
Isto já aconteceu com a crise do emprego precário, nos últimos 20 anos, quando os filhos da classe média saíram das faculdades e não conseguiam arranjar nada sem ser a recibos verdes (hoje recebem o ordenado mínimo). Pensei que, sei lá, as pessoas tivessem aberto a pestana. Afinal não.
Não é crise quando só afecta os filhos dos pobres. Está esclarecido.
domingo, 25 de maio de 2025
A Travessia (2025)
Esta é uma série de grande qualidade sobre a primeira travessia aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Demorei um bocadinho a "entrar" na história porque conheço muito pouco sobre o período histórico (1922) e quase zero sobre aviação (sobre a exactidão técnica da travessia têm de ir ler outra pessoa). Na minha ignorância, confesso, e também falta de interesse, sem desmerecimento dos aviadores, tinha a ideia de que Gago Coutinho e Sacadura Cabral tinham voado para o Brasil numa questão de horas, como hoje. A ignorância é minha, mas é mais uma grande razão para fazer e ver esta série.
Disse que conhecia muito pouco sobre o período histórico, mas mais correctamente devia ter dito que conheço muito pouco sobre este Portugal da alta sociedade dos anos 20, com jornalistas, ministros, aviadores, clubes de Charleston. O que me chegou do Portugal deste tempo, via família, foi miséria, analfabetismo, ignorância, pés descalços, fome e obscurantismo. Este é um Portugal que os meus avós nunca conheceram e nunca puderam transmitir-me.
Sacadura Cabral queria ir mais longe e empreender uma circum-navegação mas não teve financiamento do Governo porque se estava em crise e "o povo tinha fome". Este já é um Portugal que eu reconheço, com a puta da crise crónica e os concursos públicos feitos "à medida", os muito pobres que mal podiam comprar um burro e os muito ricos que queriam comprar hidroaviões. No fim das contas, não foi feita circum-navegação nenhuma e o povo continuou com fome. Há qualquer coisa de muito errado com este país.
Regressando à ficção, adorei a atenção aos pormenores nesta série, desde o guarda-roupa à mobília e à loiça. Muitas peças desta loiça, aliás, que não era loiça cara, era o equivalente da loiça do Continente hoje em dia, ainda me chegou como "antiguidade" a preservar porque ainda era da "mãe da avó". O guarda-roupa lembra-me as fotos de família, e respectivos amigos e colegas, em dias de "tirar fotografia", todos no melhor traje e nos uniformes bem aprumados. Ainda tive um professor de liceu que se vestia assim.
Vou só apontar uma criticazinha picuinhas. Pareceu-me que as cenas no avião precisavam de mais vento. Sei que em Hollywood têm umas máquinas de vento que fazem voar os cabelos, mas imagino que isso deva ser muito caro. Também presumo que a barulheira no avião devia obrigar os aviadores a gritar uns para os outros para serem ouvidos, o que deveria implicar legendas. Não sei, digo eu.
"A Travessia" é uma série imperdível para quem gosta de História recente e deixa-me muito optimista quanto ao futuro da produção portuguesa de ficção. Se calhar ainda vou ver uma série de terror de jeito feita por cá, falando muito a sério.
Última nota: então a festa do Neptuno, que eu vi em "Das Boot", existia mesmo! Será que ainda existe? Alguém me esclarece nos comentários, por favor?
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: História, aviação, séries de época
domingo, 31 de julho de 2022
Snu (2019)
Este foi um filme que adiei ver, e um filme que me custou a ver com imparcialidade. Por esta razão, vou pôr as cartas todas na mesa. Tinha apenas 8 anos quando Sá Carneiro morreu, mas a verdade é que já nessa idade nunca gostei da pinta dele. Também é verdade que raramente gosto da pinta de qualquer político, mas este em particular, que era primeiro-ministro e que eu via na televisão todos os dias, não me dava boas vibrações. Nem sequer estou a falar da ideologia que o político preconizava porque era demasiado nova para a compreender. Estou a falar do homem, da antipatia que sentia por ele. (Embora eu esteja perfeitamente convencida de que o homem foi de facto assassinado, mesmo que a bomba não fosse para ele. Veja-se sobre isto outro filme controverso, “Camarate”.)
Em 1980 não sabia nada da Snu Abecassis, nem tinha idade de saber. Tínhamos acabado de sair da ditadura, não era coisa que se falasse na Crónica Feminina. Os mais velhos também não falavam do assunto, e depois de Sá Carneiro morrer muito menos, para “não falar mal dos mortos”. Só descobri já na adolescência.
Mas este filme não é sobre política, mas sobre a história de amor entre Sá Carneiro e Snu. Mesmo assim, tive muita dificuldade em abstrair-me das ideias políticas, ainda por mais quando o filme mostra constantemente intervenções reais do verdadeiro Sá Carneiro na televisão da altura. Numa delas, ele dizia que o PPD estava a fazer tudo para que os “mais jovens tivessem um futuro melhor”. Eu ri-me, ri-me às gargalhadas. Não por culpa dele. Se calhar ele até estava a ser sincero (não tenho razão para pensar o contrário). Mas tanta gente se colou a ele, tanto energúmeno ao longo da história do PPD/PSD, incluindo o senhor Passos que mandou os jovens saírem da zona de conforto e imigrarem. Se calhar Sá Carneiro não merecia lapas destas agarradas à sua memória, mas os mortos não falam. A verdade é que, para além da antipatia que eu já sentia por ele, Sá Carneiro me lembra todos estes figurões que vieram a desfilar depois dele pelo PPD/PSD e foi difícil ver o filme sem ter isso sempre presente.
Mas vou pôr a política de lado e vou tentar.
“Snu” funciona como um documento histórico preciso, tão preciso que me irritou. Irritou-me aquela gente rica toda, aqueles betos que tratam os paizinhos por você e vice-versa, aquela gente de famílias opulentas que tinha grandes casas de banho onde tomar banho ou duche numa altura em que o povo passava mal, mesmo muito mal, e ainda se lavava num alguidar. Lá está, novamente, a dificuldade em avaliar o filme de forma imparcial. Ver o filme deu-me vontade de arrancar os cabelos, o que só significa que está muito bem feito. Foi pena não termos ao mesmo tempo a outra face da moeda: aquela gente pornograficamente rica enquanto o povo vivia na miséria.
Mas esta é uma história de amor trágico. Ainda antes da tragédia propriamente dita, o casal teve de enfrentar o grande problema das mentalidades. Nos anos 80, O PPD ainda cheirava a igreja. Este cheiro foi progressivamente passando para o CDS (RIP) e por lá ficou. (Sim, eu não queria falar de política, e estou a conter-me, mas é difícil quando o protagonista foi um antigo primeiro-ministro.) Na altura, PPD e CDS mal se distinguiam, daí a AD (Aliança Democrática) com outro partido improvável visto do nosso tempo: o PPM (Partido Popular Monárquico). Este era um Portugal profundamente salazarento, pidento, todo ele a cheirar a igreja católica. Um primeiro-ministro não podia apaixonar-se, e muito menos divorciar-se. (Ainda há alminhas, em Portugal de 2022, que não querem divorciar-se porque é pecado, tenhamos isto em atenção! O cheiro a igreja impregna-se no cérebro e depois custa a sair, quando alguma vez sai.)
Snu e Sá Carneiro, ambos casados, tiveram o azar de se apaixonarem naquela altura. Não chegou a ser um escândalo público porque, tragicamente, não houve tempo para que toda a gente soubesse. Algumas notícias em alguns jornais, mas nunca o falatório que seria agora.
O filme chama charmoso a Sá Carneiro bastantes vezes. Ora, eu não podia discordar mais. A carantonha que aparecia na televisão era tudo menos charmosa. Mas, quem sabe? O que somos em público é muito diferente do que somos em privado, e o que somos na intimidade ainda pode ser mais charmoso. Snu e Sá Carneiro eram um amor proibido para a altura, o que talvez ainda os tenha aproximado mais. A eterna tragédia de Romeu e Julieta.
Se nunca achei Sá Carneiro charmoso, não posso dizer o mesmo do actor que o representou, Pedro Almendra. Tão charmoso que se calhar até me convencia a votar nele! A personagem Snu (nunca conheci, nem sequer vi a pessoa real) faz um retrato muito convincente de alguém que se apaixona por um homem pelo seu ideal. Não é o meu ideal, mas compreendo. Até compreendo todas as boas intenções daquele tempo, embora discorde delas profundamente.
Sá Carneiro quer casar com Snu, mas isso implica divorciar-se da mulher que é a mãe dos seus não-sei-quantos-filhos. De acordo com a mentalidade da época, a mulher não lhe quer dar o divórcio. Acredito que seja daquelas que ainda hoje não daria o divórcio. Aqui posso fazer também o meu juízo de valor e perguntar-me porque é que um homem de visões mais largas casou com alguém de visões tão estreitas? Porque dava jeito ter uma esposa “bem”, muito honrada e católica? Reparem, não estou a falar mal dos mortos. Estou a dizer que sempre, em todas as épocas, a gente se deita na cama que faz. Às vezes há quem se deite na cama que parece mais fácil só para descobrir que é uma cama de picos. Vamos esquecer que estas personagens são pessoas reais. Vamos imaginar que são ficcionais. Quando ele casou com ela, como ela diz, colocou-lhe um anel no dedo e disse-lhe que era até que a morte os separasse, sabendo bem que ela levava essa promessa muito a sério. Também compreendo que algumas pessoas mudam, divergem, e não se tornam a encontrar. Mas aqui há culpa para toda a gente e para ninguém. E sim, sei que estou a dizer isto do conforto de 40 anos depois. E, mesmo assim, ainda há quem não tenha percebido estas coisas básicas: as pessoas mudam, divergem. Nada é para sempre. Que este filme sirva ao menos para abrir alguns olhos ainda embaciados de incenso de sacristia.
A nível das interpretações tenho de dar dois grandes parabéns:
À actriz Ana Nave, que fez uma Natália Correia tão real que até me esqueci de que não era a própria. (A Natália Correia eu tive muitos anos para conhecer.) Trabalho extraordinário. Até fiquei arrepiada.
À actriz Joana Brandão, que fez uma Manuela Eanes exactamente como eu me lembro dela. Fiquei igualmente arrepiada.
Já outros personagens não foram tão bem conseguidos. Só percebi que era Mário Soares quando Snu lhe chama Mário. Maria Barroso, Freitas do Amaral, Ribeiro Telles, Helena Roseta, etc, etc, não os reconheci. Mas o filme também não era sobre eles.
Tirando tudo isto à parte, este é um documento histórico (e político) sobre a vida da alta sociedade portuguesa à saída dos anos 70. Reconheci tudo, vi tudo. Do outro lado da história, mas vi. De tal forma que é difícil fazer as pazes com o que se passa aqui, por muito que queira. A história de amor é bonita e trágica, Romeu e Julieta, que não tinha de acabar assim, e não devia ter acabado assim porque ninguém o merece. Mas este era também um mundo bafiento e fechado, um mundo que Snu e Sá Carneiro, na maturidade das suas vidas, queriam arejar. Era inevitável abrir as janelas.
Uma das melhores partes do filme é quando se mostram imagens reais da Revolução de Abril misturadas com filmagens actuais e “envelhecidas” de Snu e Sá Carneiro. Portugal precisava dessa Revolução de Abril, mas ainda precisava mais da outra, da revolução de mentalidades que seriam Snu e Sá Carneiro. Que ainda precisa, 40 anos depois. Se foi isto que o filme quis fazer, e acredito que foi, então fez bem.
(Não vou dar nota ao filme porque não consigo ser imparcial.)
domingo, 4 de abril de 2021
The Purge: Anarchy / A Purga: Anarquia (2014)
Muitos críticos deste filme apontam a premissa da Purga como ridícula e inconcebível. Eu discordo cada vez mais. Tal como disse aqui na crítica ao primeiro filme da série, “A Purga”, não acredito que uma noite de violência por ano em que todos os crimes são admissíveis, até o homicídio, resultasse na diminuição do crime. Mas, como acabámos de ver pelo exemplo do ano que passou, não é por uma medida não resultar que não se implementa. E uma população aterrorizada, neste caso uma população aterrorizada pelo crime, desde que bem regada de propaganda, aceita tudo o que percepcione como medida de protecção para si e para os seus.
Os Novos Pais Fundadores, como chamam a si próprios, não são ditadores de um regime totalitário. Tal como o partido Nazi foi eleito por uma população desesperada e iludida, estes líderes foram eleitos por uma população amedrontada que acreditou na propaganda. Uma vez engolida a propaganda, as piores atrocidades podem acontecer sob o aval da sociedade que concordou com elas, implícita ou explicitamente. E depois há sempre aquela tendência do ser humano de entrar em negação: “Eles dizem isso assim e assim, mas não são tão maus como parecem. É só conversa, não vão pôr em prática.” E lá vai o voto de protesto para os radicais que defendem as medidas. Aconteceu com o partido Nazi, não vejo razão por que não possa vir a acontecer. É claro que aqui também entra a negação: “Não, não vai nada acontecer outra vez. Que ideia ridícula e inconcebível.” Não é ridícula nem inconcebível e já esteve mais longe.
Raramente me vão ouvir dizer isto, mas este segundo filme é melhor do que o primeiro. Se “A Purga” era o típico filme de terror em que uma casa é assaltada por estranhos que querem matar os seus habitantes, esta sequela desenvolve-lhe as pistas políticas e sociológicas. Sem deixar de ser um filme de grande terror, que o é, é também um comentário à desigualdade social, à lavagem cerebral e ao poder.
Se em “A Purga” vimos os acontecimentos pela perspectiva de uma família privilegiada da classe média-alta, aqui andamos nas ruas, na anarquia da noite da Purga em que aqueles que não se conseguem proteger por detrás de muros e bunkers, os pobres, são os mais vitimados. Muitas coisas são chocantes por serem já consideradas tão normais pela sociedade.
Por exemplo, começa por aquele avô que precisa de remédios muito caros e sabe que a filha faz grandes sacrifícios para lhos comprar, e decide vender-se para ir ser assassinado por uma família abastada que mata em conjunto no conforto e segurança do seu lar. “Sobrevivam a esta noite e usem o dinheiro que vai aparecer na vossa conta”, escreve à filha e à neta antes de sair para ir morrer.
Já na casa deste avô, esta filha, empregada de mesa, e a sua filha adolescente, tentam trancar-se como podem, mas uma milícia armada invade o prédio e arrasta-as para fora de casa, onde uma metralhadora as espera. É que o governo acha que as pessoas “não estão a matar-se o suficiente” e começou a intervir com assassinatos militarizados em bairros pobres para diminuir a despesa com as classes mais desfavorecidas. Esta milícia mata a mando do governo.
Mãe e filha são salvas no último instante por um polícia que andava na rua na noite da Purga com a sua própria vingança em mente: matar o condutor alcoolizado que vitimou o seu filho num acidente de automóvel. Este é daqueles que concordam com a Purga como método de fazer justiça pelas próprias mãos, e que se calhar até votou nos Novos Pais Fundadores, mas tem muitas horas para mudar de ideias até ao fim da noite.
Os outros protagonistas da história são um jovem casal em crise que apenas teve o azar de estar no sítio errado à hora errada. Ainda antes de começar a Purga, são perseguidos por um gangue com máscaras medonhas e facas. Pensamos que este gangue os quer matar, mas não. Este gangue anda à procura de vítimas para vender a um leilão da classe alta em que estas vítimas vão ser caçadas, como animais num safari, pelos licitantes que pagarem mais. A mensagem do filme não podia ser mais clara. A Purga serve os interesses dos mais ricos, que “purgam e purificam” completamente convencidos de que estão a participar na melhoria da sociedade. Porque nunca lhes calha a eles. Assim é fácil defender a Purga.
Mas se os mais ricos se conseguem proteger, isso não significa que alguns das classes mais desfavorecidas não gostem também da Purga. É uma noite para deitar cá para fora o “animal dentro de si” como dizem as notícias, e grupos de “purgadores” munidos das suas armas preferidas saem às ruas para fazer isso mesmo: matar tudo o que lhes aparecer à frente. Chegam até a procurar os locais onde dormem os sem-abrigo porque são os mais fáceis de matar e estão completamente indefesos.
Nem tudo é horrível. Já começa a formar-se uma resistência política e armada que anda pela noite da Purga a matar os ricos nos seus bunkers. Sim, também parece horrível, mas pelo menos estes matam por convicções ideológicas, se não mesmo em auto-defesa, não matam para satisfazer instintos sádicos. É a diferença entre a guerra e a barbárie, por muito más que sejam ambas.
Como se deve ter notado, gostei do filme e recomendo. Para se ver de olhos bem abertos sem as vendas da negação. Já aconteceu semelhante e pode muito bem vir a acontecer igual ou semelhante outra vez.
17 em 20
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Os novos servos
Hoje são eles, amanhã posso ser eu ou podes ser tu.
O próprio Estado põe desempregados a trabalhar a tempo inteiro a substituir funcionários que ganhariam muito mais, até o dobro. Para não perderem o subsídio de desemprego, os desempregados são obrigados a trabalhar o mesmo por muito menos.
Vejam a reportagem e conheçam os novos servos.
Estado usa programas ocupacionais para suprir necessidades permanentes na função pública
O Estado está a recorrer cada vez mais a programas ocupacionais para desempregados que muitas vezes acabam a fazer funções que eram desempenhadas por pessoas com vínculo. Nos últimos dois anos a função pública perdeu 50 mil funcionários mas o recurso a desempregados aumentou de forma significativa desde a chegada da Troika. A RTP investigou os contratos emprego-inserção depois de várias denúncias.
domingo, 31 de março de 2013
Acabar com a vergonha de uma vez por todas!
O domingo de Páscoa é o dia em que Jesus ressuscitou dos mortos, o dia da esperança, o dia em que Jesus venceu a morte e provou aos crentes que a vida nesta terra é apenas uma passagem. Os bens materiais corrompem-se e desaparecem, mas o espírito é imortal.
Neste dia de Páscoa, quero deixar uma mensagem de esperança.
A notícia sobre a vaga de suicídios "envergonhados" não me sai da cabeça. Este é um problema sociológico, não patológico, que requer uma cura social e não psiquiátrica. As pessoas não estão deprimidas, as pessoas estão desesperadas. Depois de pensar muito nisto, acho que um bom começo era mudar a mentalidade da "pobreza envergonhada" que é, ela sim, uma vergonha da mentalidade deste país. Desesperadas, isoladas na sua vergonha, as pessoas começam a entrar numa espiral de pensamentos depressivos. Não querem falar da sua pobreza, preferem gastar dinheiro em roupa na loja do chinês para "fazer figura" quando, se calhar, têm a luz cortada em casa. Porque também faz parte da mentalidade portuguesa "fazer figura". Sempre foi assim, e é uma mentalidade transversal desde os mais pobres aos mais ricos. Parar de "fazer figura", assumir a pobreza, não ter vergonha de ser pobre, especialmente neste tempos em que as pessoas são pobres por factores externos que não conseguem mudar [sim, eu sei que são pobres porque o país não as deixa evoluir] é um grande passo de orgulho e auto-estima.
Os portugueses precisam de auto-estima. Mesmo rotos e pobres e de luz cortada, devem erguer a cabeça e dizer, como eu vou dizer aqui: só tomo dois banhos por semana porque não há dinheiro para as contas da luz; não ligo o aquecedor quando está frio pela mesma razão (o frio que eu passei este ano, e ainda há quem se admire porque odeio o Inverno, é porque passo frio, pronto!); tenho os pijamas todos rotos porque não quis gastar dinheiro em novos. Preferi gastar o meu pequeno orçamente nas coisas que me cultivam, nas coisas que me inspiram. Livros, concertos, internet, televisão. (E não esqueçamos que através da internet se obtêm muitas destas coisas que lá estão à nossa espera, tesouros para a alma, não roupa e "fazer "figura" para os vizinhos que se calhar têm a luz cortada também.)
Era bom que estas pessoas nesta situação, e noutras piores, parassem de ter vergonha de falar na pobreza em que vivem. Era bom que se juntassem, numa terapia colectiva, era bom que levantassem a cabeça e se enchessem de orgulho e não se deixassem enganar de que são uns falhados (bem sei que deu muito jeito a muita gente convencê-los disto mesmo, de que são uns falhados, de que a culpa é toda deles, de que viveram acima das suas possibilidades, de que não tiveram mérito para isto ou para aquilo - MENTIRAS!!!)
Era bom que se juntassem, com orgulho, e comparassem histórias e expusessem estas mentiras. Que recuperassem a auto-estima que, uma vez perdida, os atira para debaixo de metros e os faz saltar de pontes.
Se esta crise pode servir para que algo evolua, que se comece por algum lado, que se expulse a "pobreza envergonhada", que se nos repugnemos todos de andar no rebanho a "fazer figura". Uma auto-estima por dia vale mais do que todos os antidepressivos.
Porque a vida terrena é efémera. Podem não acreditar na Ressurreição, mas pensem nisto: quando morrerem, quantos bens vão levar convosco para debaixo da terra?
A VIDA É MUITO CURTA PARA VIVER DE CABEÇA BAIXA E ENVERGONHADA COM MEDO DO QUE OS OUTROS PENSAM.
Aleluia!
sábado, 16 de março de 2013
A zombificação
Oh, porquê, porque será?! O mistério, o mistério!
Espanta-me (nos dias que correm) que os senhores doutores psiquiatras continuem a apontar a depressão como razão para esta decisão definitiva, coisa simples que se cura, com comprimidos, vejam lá! "Está desempregado, não consegue arranjar uma entrevista, vai perder a casa, anda a mendigar na rua? Tome lá um comprimido para não pensar nisso!"
Não, não se cura com comprimidos, nem sequer com conversas, porque as pessoas não estão doentes, as pessoas estão desesperadas e não têm futuro! As pessoas estão a perder o emprego, as mães estão a pegar nos filhos ao colo e a saltar de pontes abaixo, as pessoas vêem-se na iminência de ter de sair da casa própria (porque o desemprego não lhes permite cumprir as prestações ao banco) ou arrendada (porque não suportam a renda), as pessoas chegam aos 35 anos e são consideradas velhas para trabalhar, as pessoas não têm filhos para que não passem fome, as pessoas resignaram-se a enterrar os sonhos, as pessoas já não têm motivo para viver.
E estas bestas continuam a chamar-lhes doentes, e querer medicá-los, e a torná-los nuns vegetais, a andar pela cidade sem abrigo e a comer da caridade da Santa Casa da Misericórdia e da Legião da Boa vontade? E não lhes passa pela cabeça que essas pessoas chamadas “doentes” prefiram morrer com orgulho e dignidade, nos seus próprios termos, porque não querem viver de caridadezinha?... O que as pessoas querem é direitos. Só a justiça, a igualdade, as perpectivas de futuro, curam esta "doença". Uma doença social, um cancro, uma vergonha.
Foram feitas umas acções de formação. Diziam os formandos: "quando alguém diz: 'eu quero matar-me' já não está muito bem. Precisa de um psiquiatra." Eu é que já não estou muito bem! Porque eu sei o que faz o psiquiatra. O psiquiatra passa um papel e transforma esse "doente" num vegetal ou semi-vegetal.
Não precisamos de mais zombies! A Fox já nos fornece walking deads que cheguem!
Mas interessa, ao poder estabelecido, que os desesperados andem medicados, zombificados, vegetalizados. Toma lá com comprimidos para não pensares quanto te fodem!
E pensar que estes charlatães, que não têm outro nome, sem pinga de vocação (os mais velhos foram para Medicina porque os papás quiseram, os mais novos porque não havia emprego em mais nada), não sabem sequer distinguir o que é psicológico do que é sociológico! Não custa assim tanto. Leiam os jornais, grandes bestas! Está lá tudo! E não é psicológico, é mesmo a sério!
E se estes doutores, que ganham BALÚRDIOS, forem de repente corridos pelos cortes no Ministério da Saúde, como eu vi alguns (muitos deles, psicólogos, remetidos ao call center, ou às lojas, ou à caixa de supermercado), e se se virem sem papás a quem pedir dinheiro, e sem conjugues, igualmente desempregados, que não garantam sustento, e se se virem numa situação de miséria em que têm de ir recorrer à caridade do Banco Alimentar ou da Santa Casa, ou mendigar na rua? Também ficam "deprimidos", "doentes", "neuróticos"? Ou não vos passa pela cabeça que vos possa tocar a vós, alimárias?
Por esta altura já deviam saber melhor, mas parece que a alguns só dói quando vos toca na pele. Oxalá toque, anormais! Para morderem a língua antes de ensinar aos ignaros que "a pessoa já não está muito bem" quando a pessoa já está muito mal!
Se não sabem o que estão a fazer, suicidem-se! Mas passem antes o papel, que a malta quer é droga. Porque é isso que vocês são: não passam de dealers autorizados.
domingo, 16 de dezembro de 2012
Do prazer na Idade Média e do desprazer de agora
“No século XII, Guillaume de Conches observou que a mulher para engravidar tem de sentir prazer, pois este permite a emissão do sémen e, consequentemente, da fecundação. As prostitutas que vendem o corpo a troco de dinheiro não sentiam qualquer prazer durante o acto e, por essa razão, não concebiam.
Podemos objectar que as mulheres violadas não deveriam então conceber, mas, pessimista quanto à natureza humana e até um pouco cínico, Guillaume retorquia: «apesar da violação ser desagradável ao princípio, depois, e com a ajuda da fraqueza da carne, o acto não se realiza sem consentimento». Ora, os ensinamentos de Guillaume de Conches, influenciados pelas ideias do médico grego Galiano (cerca de 131-201) sobre o esperma feminino, tiveram grande difusão no fim da Idade Média.”
Tirando o conhecimento actualmente generalizado de que as mulheres não produzem esperma, tenho para mim que na cabeça de muitos homens, hoje, no século XXI, e por outras palavras, mais sofisticadas, que significam o mesmo, é obrigação da mulher gostar de ter relações sexuais com eles, por muito incompetentes que sejam, porque a carne delas deve ser tão fraca como a carne deles.
Certas coisas, pelos vistos, não mudam nunca.
“No parecer de André Le Chapelain, os camponeses não se interessam particularmente pela procura do prazer: eles são, diz o autor, levados de forma natural a efectuar a obra de Vénus como o cavalo e a mula, seguindo o instinto natural. O trabalho da terra e os prazeres da lavoura e da enxada bastam-lhes.
Já o aristocrata tem direito a gozar e, se uma camponesa o atrai, não hesita em possuí-la à força, pois ela é bem capaz de lhe recusar o prazer que espera dela.”
O aristocrata, evidentemente, tem o direito de tomar tudo à força. O povo não passa de um bando de animais, cavalos e mulas, contentes em chafurdar na terra. As mulheres, principalmente, de carne fraca, como já vimos, são ainda por cima animais ariscos que obrigam o gentil homem a cansar-se, perseguindo-as como se fossem ovelhas. No entanto, na certeza de que “desagradável ao princípio” “o acto não se realiza sem consentimento” deverá considerar-se um gozo ser-se procurada por um cavalheiro.
O povo, e as mulheres sobretudo, servem mesmo para esmagar debaixo da pata dos aristocratas.
Hoje e sempre.








