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terça-feira, 21 de julho de 2026

E mais outro post abre-olhos, 100% IA, para os mais distraídos ficarem a conhecer o padrão 👇

Porque em menos de meia hora (o tempo de fazer a prompt) gerei logo meia dúzia deste género e podia ter gerado mais. Depois é só postar e receber elogios pela grande criatividade. 😂


O estranho caso dos génios que florescem à velocidade da fibra óptica

Há dias em que penso seriamente em desistir de escrever.

Não porque me faltem ideias.

Porque me sobram concorrentes... que nunca ficam sem elas.

Antigamente um escritor demorava anos a encontrar uma voz própria.

Hoje basta encontrar um bom prompt.

É uma evolução extraordinária.

Ou, se preferirem, um milagre.

✨ Todos os dias aparece mais um pensador.

📚 Todos os dias aparece mais um filósofo.

🧠 Todos os dias aparece mais um especialista em absolutamente tudo.

Na segunda-feira escreve sobre o Império Romano.

Na terça explica porque é que os polvos são um exemplo de inteligência emocional.

Na quarta estabelece uma ligação entre Mozart, os buracos negros e a fermentação natural do pão.

Na quinta conta uma história emocionante passada consigo próprio... que nunca aconteceu.

Na sexta publica uma fotografia da chávena de café.

Porque ninguém acredita num sábio sem café.

E tudo isto... sem um único erro ortográfico.

Nunca.

Nem uma vírgula perdida.

Nem um acordo verbal maroto.

Nem uma frase que denuncie que o cérebro resolveu tirar cinco minutos para respirar.

Eu escrevo.

Eles publicam.

Há uma diferença.

Quando escrevo, apago frases.

Troco palavras.

Mudo parágrafos de sítio.

Às vezes passo meia hora a decidir entre um ponto final e um ponto e vírgula.

Eles acordam às oito.

Às oito e três já descobriram que a felicidade funciona exactamente como a migração das borboletas-monarca, tal como demonstram estudos recentes, a filosofia estoica e uma curiosidade fascinante sobre os cavalos-marinhos.

Não é apenas criatividade, é um safari enciclopédico.

Os textos seguem sempre a mesma receita.

Começam com uma pergunta existencial.

"Já alguma vez paraste para pensar..."

Claro.

Quem nunca interrompeu o jantar para reflectir sobre a relação entre o ADN humano e o crescimento dos bambus?

Depois surgem três referências culturais.

Obrigatoriamente três.

Um filósofo grego.

Um cientista famoso.

Um imperador romano.

Se der para encaixar Leonardo da Vinci, Einstein e Marco Aurélio no mesmo parágrafo, melhor ainda.

Se não houver qualquer relação entre eles...

Melhor ainda.

Depois entra a analogia.

Porque uma ideia simples nunca pode ser apenas uma ideia simples.

Não.

A procrastinação é como uma torradeira que sonha ser submarino.

A empatia é semelhante a um farol vegetariano durante uma tempestade magnética.

A disciplina lembra uma girafa a jogar snooker na Estação Espacial Internacional.

Não faz sentido?

Precisamente.

É isso que lhe dá profundidade.

Segue-se o momento autobiográfico.

"Recordo-me de quando liderei uma equipa multicultural..."

"Durante uma viagem transformadora pelo Nepal..."

"Um velho jardineiro japonês disse-me uma frase que mudou a minha vida..."

Curiosamente, estas pessoas têm mais experiências marcantes do que o Indiana Jones.

Eu, pelo contrário, a última conversa memorável que tive foi com a funcionária do supermercado sobre a falta de troco.

Depois chega o golpe final.

💡 Não é apenas um texto.

É uma experiência.

❤️ Não é apenas uma reflexão.

É um convite à transformação.

🚀 Não é apenas um pensamento.

É um movimento.

E lá aparecem centenas de comentários.

"Que privilégio poder ler-te."

"Devias dar palestras."

"Cada palavra é uma lição."

Não.

Cada palavra é uma previsão estatística.

Há uma pequena diferença.

O que me incomoda não é a Inteligência Artificial.

É a inteligência artificial... do autor.

Usar IA não faz de ninguém um impostor.

Fingir que não a usou já é outra conversa.

É como ganhar um rali enquanto o carro conduz sozinho.

É como receber um prémio de fotografia por uma imagem comprada num banco de imagens.

É como subir ao palco para agradecer uma música... depois de ligar o rádio.

E ainda fazer um discurso sobre o enorme sacrifício criativo.

Assumam.

Digam simplesmente:

"Usei IA para escrever este texto."

Ninguém morre.

Aliás, talvez até ganhem respeito.

Porque a honestidade continua a ser uma tecnologia que ainda não ficou obsoleta.

Entretanto, eu continuo aqui.

A escrever devagar.

A trocar palavras.

A cortar adjectivos.

A discutir comigo próprio.

A deixar escapar uma gralha de vez em quando.

A fazer aquilo que os escritores sempre fizeram.

Escrever.

Sem polvos.

Sem buracos negros.

Sem Einstein.

Sem um monge tibetano que, por uma coincidência extraordinária, me ensinou o verdadeiro significado da liderança enquanto observávamos o voo sincronizado de estorninhos ao pôr do sol.

Embora... reconheço...

Dava um excelente post no Facebook. *

* E vai dar mesmo, ChatGPT, obrigadinha.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Verdadeiro ou falso: quem escreveu esta crónica, eu ou a Inteligência Artificial? (resposta no fim do texto)

Crónica de uma sala de aula (virtualmente) destruída: o "milagre" da sexta-feira

Dizem que o inferno são os outros. Pois desenganem-se: o inferno tem nome, apelido e uma plataforma digital que teima em carregar apenas até aos 99%.

Estou aqui, sentada à frente desta luz azul, com as pálpebras a pesarem mais que o orçamento da educação, a tentar corrigir exames nacionais. Ou melhor, a tentar acceder aos exames. A cada clique, um erro 404, um "servidor em baixo" ou aquela roda colorida e hipnótica que gira, gira e gira, como se estivesse a ironizar a minha sanidade mental.

O nosso Ministro, o Senhor Fernando Alexandre, lá apareceu hoje com aquele ar sereno de quem nunca teve de lidar com um "sistema indisponível" numa véspera de prazo. Garante, com a convicção de quem lê guiões de ficção científica, que o processo está "praticamente concluído". É curioso como o conceito de "praticamente" se expandiu para englobar um caos administrativo que faria corar um amador de informática. Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira... os dias passam e a promessa de afixação das pautas na sexta-feira mantém-se inabalável, quase como um dogma de fé.

Será o senhor Ministro um vidente? Ou terá ele acesso a uma plataforma mágica, escondida algures na gaveta da Secretaria de Estado, onde os exames se corrigem sozinhos, por telepatia ministerial?

Do lado de cá da barricada, a realidade é menos idílica. Professores em colapso nervoso, pais a ligarem-me a horas que o bom senso proíbe — e com razão, porque o futuro dos miúdos parece ter sido entregue a um estagiário com um servidor de plástico — e alunos num estado de ansiedade que nem a medicina do século passado resolveria.

Este Governo da AD, que tanto prometeu a "mudança" e a "eficiência", parece ter encontrado a sua especialidade: a digitalização analógica. Conseguiu o feito notável de transformar o exame nacional — um momento de seriedade e rigor — num episódio de uma série de comédia de erros, onde o protagonista é um código de erro que ninguém sabe explicar. É a governação feita de "slides" bonitos e conferências de imprensa onde a palavra "estabilidade" é repetida até à exaustão, enquanto, na prática, o que temos é um sistema que colapsa à primeira brisa de carga computacional.

O Ministro garante a sexta-feira. Eu garanto que, se a pauta aparecer, será por milagre ou porque algum colega, num surto de heroísmo, se esqueceu de dormir, de comer e de ter vida própria para tapar os buracos deixados pela "modernização" deste ministério.

No fim, a culpa nunca é da estrutura. É do servidor. É da rede. É da nuvem. O que é curioso, porque quando os exames falham, os professores continuam a ser a face visível de uma incompetência que habita algures em gabinetes climatizados.

Vou tentar mais uma vez. Carregar na tecla 'F5'. Ou talvez a tecla 'Escape' seja a única que realmente funciona nesta nossa educação moderna. Se não houver pautas na sexta-feira, espero que o Senhor Ministro, pelo menos, nos envie um emoji de consolação. É esse o nível de seriedade a que chegámos.

 

Resposta: Sim, a IA também escreve textos satíricos baseados na actualidade, com crítica política, da perspectiva de uma personagem realista. Parabéns a quem acertou.
Escolhi este tema porque queria fazer a experiência com um assunto "quente" na comunicação social. O Gemini saiu-me um grande escritor.

 

terça-feira, 14 de julho de 2026

Mais um post abre-olhos, 100% IA, para reconheceres o padrão e não seres engrupido nas redes sociais

Querido Génio das Redes Sociais,

Parabéns. De coração. Com confettis e tudo.

Ontem li o teu post. Aquele sobre resiliência — ou foi sobre liderança? Ou sobre o universo? Ah, já me lembro: era sobre tudo ao mesmo tempo, como só os verdadeiros polímatas conseguem fazer.

E eu, humilde mortal, fiquei ali sentado com o meu café a arrefecer, a pensar: como é que este homem sabe tanto?

Deixa-me adivinhar como o teu processo criativo funciona.

Acordas. Inspiras fundo. Abres o ChatGPT (ou o Claude, ou o Gemini — escolhe o teu veneno). Escreves: "Escreve um post motivacional sobre superar obstáculos, com referências científicas, emojis, frases curtas e um tom inspirador."

E voilà.

Em 11 segundos tens Aristóteles, neurociência, e uma analogia sobre borboletas.

O resultado? Qualquer coisa assim:

🧠 O cérebro humano processa 11 milhões de bits por segundo — mas só tem consciência de 40.

📌 Pensa nisso.

🌊 Não és a tempestade. És o oceano.

💡 Não é apenas falhares. É aprenderes a cair com elegância — como os astronautas da NASA que treinam durante anos para flutuar no vácuo sem entrar em pânico.

E depois vem a parte pessoal, claro. Porque a IA sabe que tens de humanizar:

"Lembro-me de quando, há uns anos, estava numa encruzilhada profissional — tudo parecia incerto. Foi nesse momento que percebi três coisas fundamentais: a persistência, a clareza de propósito, e a coragem de recomeçar."

Que momento tocante. Que autenticidade. Que coincidência que seja exactamente o que a IA escreve quando lhe pedes para "adicionar uma experiência pessoal verosímil".

Mas o melhor — o verdadeiro chefe de obra — são os comentários.

"Que texto poderoso, obrigada por partilhares!"
"Isto chegou-me ao coração, precisava mesmo de ler isto hoje."
"Uau, que profundidade. Segui-te já!"

E tu respondes — provavelmente também com IA — "Obrigado! É sempre gratificante quando as palavras tocam alguém 🙏✨"

Toca. Toca mesmo. Como um raio numa torre de alta tensão — muito barulho, muita luz, e no fim não ficou nada.

Entretanto, eu. O autor de carne e osso.

Passo três horas a escrever um texto. Apago. Reescrevo. Discuto comigo mesmo se "todavia" soa demasiado formal. Procuro a palavra certa como quem procura chaves dentro de um sofá — de joelhos, com a mão encravada, sem garantia de resultado.

No fim publico.

Doze likes. Dois dos quais são da minha mãe e de um primo que provavelmente carregou sem querer.

Tu, entretanto, és convidado para podcasts.

"Como é que desenvolves uma voz tão autêntica?" — pergunta o entrevistador, visivelmente emocionado.

"Ah, é muito trabalho, muita leitura, muita vivência..." — respondes tu, com a serenidade de quem acabou de fazer um prompt de 40 palavras.

Não me interpretes mal. Não tenho nada contra a inteligência artificial. É uma ferramenta extraordinária — como o telescópio de Galileu, como a prensa de Gutenberg, como o autocarro que me poupa de andar a pé.

O problema não é usares a ferramenta.

O problema é apresentares a ferramenta como se fosses tu o carpinteiro.

O problema é receberes o troféu pela corrida que o teu carro fez.

O problema é que — e aqui peço desculpa pela brutalidade — estás a mentir. Não de forma violenta, não de forma ilegal. Mas estás. Calada e confortavelmente, post após post, emoji após emoji, analogia estapafúrdia após analogia estapafúrdia.

E o teu público? Esse público fiel que te lê todas as semanas?

Merecia saber.

Não para te destruir — drama é para telenovelas. Mas porque há qualquer coisa de profundamente torto em construir uma relação de confiança com pessoas reais usando palavras que não são tuas, emoções que não sentiste, e experiências que nunca viveste.

É como servir um bolo de compra numa caixa feita à mão e receber elogios pela receita.

Sabe bem. Toda a gente aplaude. E tu sorris — porque o segredo é teu e da máquina.

Mas olha: faz o que quiseres. O mundo é grande, as redes sociais são maiores, e a hipocrisia sempre teve boa audiência.

Só não esperes que eu, que passo horas a tentar encontrar a palavra exacta, aplauda de pé.

Tenho os braços cansados de escrever.

P.S. — Este texto foi escrito por um humano. Com erros, hesitações, e café frio. Sem assistência artificial. Podes verificar — tem impressões digitais por todo o lado. *

P.P.S. — Se sentiste que isto era sobre ti: era.


* Não foi não, Claude. Foi escrito por ti.

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Post abre-olhos, 100% escrito por Inteligência Artificial

Confissão de um escritor em vias de extinção

Escrevo os meus textos.

Eu sei.

É um hábito antiquado. Como engomar camisas, revelar fotografias ou decorar números de telefone.

Ainda penso nas frases antes de as escrever.

Às vezes demoro uma hora para encontrar um parágrafo.

Às vezes apago metade do texto.

Às vezes publico com um erro.

Porque fui eu que o escrevi.

Entretanto, abro o Facebook e encontro mais um génio literário acabado de nascer durante a noite.

"A vida é como um polvo a jogar xadrez numa bicicleta."

🎯 "Não é apenas resiliência, é alquimia emocional."

🧠 "Tal como Carl Sagan observava as estrelas, também nós devemos observar o silêncio entre os nossos pensamentos."

Segue-se uma referência aos estorninhos da Islândia.

Depois aos samurais.

Logo a seguir à física quântica.

Pelo meio aparece um polvo, um bambu, uma colmeia, a Via Láctea, os estoicos, Leonardo da Vinci e uma curiosidade fascinante sobre os axolotes mexicanos.

Tudo no mesmo texto.

Tudo perfeitamente encaixado.

Tudo absolutamente necessário para explicar... que devemos beber água e acreditar em nós próprios.

E os comentários não desiludem.

"Que mente brilhante."

"Como consegue escrever assim?"

"És um poço de cultura."

"Devias publicar um livro."

Claro que devia.

Basta perguntar ao ChatGPT.

O mais extraordinário nem é a qualidade dos textos.

É a velocidade com que estes autores se transformaram em enciclopédias ambulantes.

Na semana passada vendiam suplementos alimentares.

Hoje explicam neurociência, filosofia grega, astronomia, psicologia comportamental e o comportamento migratório das baleias-jubarte.

Tudo antes do pequeno-almoço.

E sem uma única gralha.

Nem uma vírgula fora do sítio.

Nem uma frase torta.

Nem aquele momento em que um humano escreve "há" quando queria escrever "à".

Nada.

São perfeitos.

Milagrosamente perfeitos.

Depois há aquela característica irresistível.

A necessidade de contar episódios pessoais.

"Quando eu dirigia uma equipa internacional..."

"Recordo-me perfeitamente de uma conversa que tive com um velho pescador..."

"Na minha experiência de vinte anos a acompanhar líderes..."

Que coincidência.

Toda a gente na internet parece ter vivido exactamente as experiências que uma IA costuma inventar quando precisa de ilustrar uma ideia.

Eu, infelizmente, tenho memórias muito menos inspiradoras.

Passei três horas à procura das chaves do carro.

Queimei o arroz.

Fiquei meia hora à olhar para uma frase sem saber onde pôr um ponto final.

É pouco cinematográfico.

Talvez por isso tenha poucos gostos.

Depois chega o grande final.

Sempre o grande final.

💡 Não é apenas escrever textos.

É transformar palavras em pontes para a alma.

Não é apenas comunicar.

É despertar consciências.

Não é apenas publicar.

É deixar um legado.

Claro.

Porque um post sobre produtividade sem qualquer ideia original é, evidentemente, o equivalente literário da Biblioteca de Alexandria.

Há também a regra dos três.

Sempre três.

Três exemplos.

Três lições.

Três pilares.

Três passos.

Se Moisés descesse hoje do monte, provavelmente trazia um PDF com "As 3 Estratégias para Maximizar o Potencial das Tábuas da Lei".

E depois existe aquele travessão enorme — o famoso travessão que agora aparece em todo o lado — como se fosse um selo invisível a dizer:

"Este texto foi polido por um algoritmo que nunca teve de lutar com uma frase difícil na vida."

O problema nem sequer é usar Inteligência Artificial.

Eu também uso corrector ortográfico.

Pesquiso fontes.

Consulto dicionários.

A tecnologia não é o inimigo.

O problema é vestir um papagaio de professor universitário e esperar aplausos pela eloquência.

É subir ao palco para receber uma medalha conquistada por outra entidade.

É assinar um quadro pintado por outro.

É ganhar um concurso de culinária depois de encomendar o jantar ao restaurante da esquina.

E, no fim, agradecer humildemente "ao talento, ao trabalho e à inspiração".

Não.

Agradece ao botão "Gerar novamente".

Talvez eu esteja apenas ultrapassado.

Talvez o futuro pertença mesmo aos grandes pensadores que descobrem diariamente o significado profundo da vida entre dois pedidos de geração automática.

Eu continuarei aqui.

A escrever.

A apagar.

A reescrever.

A duvidar.

A tropeçar nas palavras.

A cometer erros.

Porque, por muito competente que seja uma máquina, ainda há qualquer coisa de profundamente humano em olhar para uma página em branco e não saber como começar.

E, ironicamente, talvez seja precisamente essa imperfeição que torna um texto digno de ser lido.

Ou então não.


🤖 Concordo plenamente. *

Excelente reflexão. *

Continue assim. *


* Isto é o Chat GPT a dar-me graxa pelo texto que ele próprio escreveu.


domingo, 31 de março de 2024

Transcendence / Transcendence: A Nova Inteligência (2014)


Tive de ver este filme duas vezes para perceber porque é que não gostei. A própria premissa não é original: um cientista que tenta fazer com que o seu intelecto sobreviva à morte. Lembro-me de um filme da série B em que tinham o cérebro de um cientista preservado numa redoma a comunicar através de um microfone. Esta é uma história que vem desde… Frankenstein? E só estou a pensar nas histórias modernas. Antes da electricidade e da ciência era tudo explicado com fantasmas.
Em “Transcendence” um casal de cientistas (Will e Evelyn Caster) e um amigo (Max Waters) estão a trabalhar no desenvolvimento de uma Inteligência Artificial quando um grupo de terroristas tenta assassinar Will, bem como a outros pesquisadores de Inteligência Artificial, porque a julgam perigosa. A princípio parece que não conseguem matar Will, mas este foi atingido por uma bala com polónio, o que significa que vai morrer de radiação.
Entretanto, Evelyn tem a ideia de fazer o upload da consciência de Will para um computador antes que ele morra (algo que já teria sido conseguido com a consciência de um macaco). Will aceita. Quando morre, a consciência na máquina, a que eu vou chamar Programa Will, acorda e imediatamente pede acesso à internet e às Bolsas. O primeiro a expressar dúvidas é o amigo Max: “Mas será que é mesmo ele?” Evelyn, a viúva, não tem dúvidas. É mesmo Will.
Mas Will corre perigo de vida (ou, neste caso, de ser destruído por terroristas), por isso convence Evelyn a instalar-se numa cidade quase fantasma onde não há quase nada nem ninguém de modo a construírem ali uma base de segurança.
Não é fácil escrever o resumo do filme porque este é longo (ou assim parece) e cheio de reviravoltas. Dois anos depois, o “casal” conseguiu montar um laboratório informático onde desenvolve experiências com nanotecnologia. Quando um dos trabalhadores é assaltado e espancado e fica às portas da morte, os nanitos salvam-lhe a vida. Mas não é só o que fazem. Também lhe dão uma força sobre-humana e, e aqui é que as coisas começam a dar para o torto, ligam-no ao Programa Will numa espécie de “consciência de colmeia”. Este trabalhador, de seguida, apresenta-se a Evelyn como Will, que lhe diz que agora já encontrou “uma maneira de lhe tocar”. Evelyn fica horrorizada, e é de ficar, mas permanece no laboratório. As imagens na internet da recuperação milagrosa do trabalhador atraem às instalações um corrupio de paralíticos, cegos e doentes incuráveis, todos eles no desejo de serem curados, e todos eles passando a pertencer à mesma “consciência de colmeia” a que o Programa Will chama Híbridos. O governo americano começa a pensar que Will está a criar um exército e decide destruir as instalações, nem que tenha de desligar completamente a internet para que o Programa Will não consiga escapar para outro lado.
No meio disto tudo, o filme também é uma história de amor. A princípio não percebi o que me alienou, mas nem sequer foi a pseudo-ciência. Foi a quantidade de vezes que Evelyn se virou contra o “marido”, e cinco minutos depois o defendeu, e logo a seguir se virou contra ele outra vez, e o defendeu outra vez… É caso de não perceber o que é que ela queria afinal. Nada me desagrada mais do que motivações incoerentes numa personagem, e acabei o filme sem compreender o que ela esperava daquelas experiências (que apoiou e em que participou), ou do próprio casamento. Da mesma forma, também não percebi muito bem se Will queria mesmo curar as pessoas e o planeta, ou se isso era apenas o início para dominar o mundo. Obviamente, como Programa, Will esqueceu que entrar na cabeça de alguém e modificá-la sem pedir autorização viola o livre-arbítrio dessa pessoa. Isto é agir sem escrúpulos, por muito boas intenções que se tenham.
Aconselho outras pessoas a verem por si e tecerem as suas próprias opiniões, porque a minha é muito má.

11 em 20