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domingo, 22 de janeiro de 2012

E apagou-se a luz

Queridos amigos...

*evil grin*

2010 foi um ano muito divertido. 2011 ainda foi mais. Fartei-me de rir. (Bem vos disse que riria.)
Não, não fiquem indignados. Não vale a pena. Este ano já não vou rir. Já perdeu a piada.
Quando, há meia dúzia de anos, comecei a escrever neste blog sobre o estado da nação, e expliquei como a mediocridade havia de afundar o país, porque o mérito não era reconhecido, porque a Justiça não funciona, porque sem a Justiça a funcionar a democracia não funciona, porque nos íamos tornar todos escravos sem escolha, etc...
Nessa altura, e já pude falar do assunto pessoalmente com pessoas que me lêem desde então, houve comentários de gente de todas as idades -- deixem-me salientar, de todas as idades -- a chamarem-me doente, depressiva, a sugerirem que tomasse medicação para a depressão, a culparem-me de ter ido parar ao call center por falta de mérito. Coisas assim. Meia dúzia de anos mais tarde...

*evil grin*

... meia dúzia de anos mais tarde, dizia eu, aconteceu-lhes o impossível: alguns cresceram, e agora estão no call center também ou nas lojas do centro comercial ou nas caixas de supermercado. É à escolha. Ganha-se o mesmo.
(Mesmo assim, meus amigos, já houve uma evolução nas mentalidades, por isso não se queixem muito. Na minha altura, apenas há meia dúzia de anos, tive de mentir, tive de fingir que não era licenciada, tive de falsificar o meu currículo, para ser aceite sequer numa entrevista de emprego para call center! Actualmente, meninos mais novos, graças a pioneiros e pioneiras como eu, já não precisais de mentir. Podeis sair das faculdades e ir directamente à agência de trabalho temporário-permanente com a vossa licenciatura que eles já não se importam e vos esperam de braços abertos assim que terminardes o estágio não remunerado financiado pelos vossos papás na qualquer área do saber que vos passou pela cabeça prosseguir, cheios de esperança do tal mérito.)
Outros, os que tiveram a sorte de nascer um bocadinho mais cedo, uma geração privilegiada a que eu chamo "os irmãos mais velhos", que vieram ao mundo uns anos antes do 25 de Abril e se viram de repente no País das Maravilhas, indignam-se muito ao ver os filhos, os irmãos mais novos, e a eles próprios, num desemprego e numa desesperança que nunca lhes cruzou o espírito deslumbrado que lhes tocasse na pele. Excepto à meia dúzia de "irmãos mais velhos" que chegaram ao poder desde o tempo do engenheiro. [Cuidado com eles. Mudaram de cor mas são a mesma cambada. Não sabem sequer o que é querer limpar o rabo e faltar o papel higiénico mas não se importam de dizer aos outros 'limpem-se aos dedos'. Sempre vos avisei quanto a eles. Quem não os conheça que os compre.]
Os mais velhos que esses, coitados, dividem-se entre os alucinados que ainda julgam viverem no PREC e os que se contentam em dar graças ao Governo pela pensãozita. Destes nem vale a pena falar. É natural que estejam loucos. Depois de nascerem no tempo da guerra ou no período em que ainda lhe sentiam os efeitos de penúria, e passarem a maior parte da vida sob uma ditadura, e da esperança que foi saírem dela, e caírem a seguir... nisto, não é de estranhar que estejam afectados da cabeça. (Eu também estou, e não sou tão velha como eles, mas ainda estou suficientemente lúcida para saber que estou doida.)
Todos estes pobres deslumbrados se indignam.
Houve uma altura, aqui neste blog, em que se repetia a graça, em post ou nos comentários: "todos os dias acorda um". (Lembram-se?)

Acreditem ou não, ainda não acordaram todos, isso é que é intrigante!!!

Mas indignam-se, e indignam-se tarde.
Muito, muito tarde.

Sabem quando é que eu me indignei, meus amigos? Há vinte anos atrás.
Foi precisamente nos anos 90, há vinte anos atrás, sensivelmente, estava eu a acabar o meu curso quando vi a escuridão. Mas lá está, era eu que estava doente. Era eu que estava a ver fantasmas.
Agora indignam-se, e vão para o Facebook chamar nomes ao mesmo homem que há vinte anos foi um dos responsáveis pela minha indignação (mas longe de ser o único!). Estive a ler a página de comentários do fulano, e a mim o que me indigna é a falta de memória de quem tinha obrigação de se lembrar. Só os mais novinhos têm desculpa. Os outros, lamento, se não fizeram a vossa cova ajudaram a cavá-la. Onde estavam vocês, indignados, quando eu me indignei nos anos 90? Eu lembro-me. Vocês lembram-se? Ou fumaram assim tanta ganza que já não há nenhum neurónio nessa cabeça?
Acabei de dar a resposta à minha própria pergunta. Pois foi. Fumaram muita ganza. Eu sei porque me lembro. Não se ofendam, porém, porque eu não estou melhor. A benzodiazepina também não faz melhor ao neurónio, e há coisas que uma pessoa mais vale esquecer. De certa forma, tinham razão. O que me faltava era medicação, não anti-depressivos, porque já não há cura para estas trevas, mas ansiolíticos. Anestesia. O que é preciso é anestesia.

Por isso não me indigno. Nem me queixo. Para mim já é tarde. O meu barco já partiu. Já tive mérito mas já não tenho. Nem para caixa de supermercado porque me engano nos trocos e era logo despedida. Imaginem vocês que de um dia para o outro até já nem sei escrever português! Não há, de facto, neurónio que aguente tanta injustiça. Fundiu-se tudo.
Completo este ano os 40. Posso dizer que até tive sorte em arranjar um trabalhinho antes dos 35, ou já não arranjava nada. Assim haja saúde e transportes públicos para ir trabalhar, e até se sobrevive. Por enquanto.
Depois não sei, nem sei quando será o depois.
Isto de ser oráculo tem muitas desvantagens. Como diria o Nostradamus, "depois de 2000 não vejo nada". Eu também, lamento, não vejo nada no futuro. Nada de nada.
Há certas alturas em que até um oráculo decide fechar os olhos para não viver a tragédia duas vezes. (Esta aprendi no "Flashforward", o que se aprende com a televisão!)

Quem quiser saber como chegou aqui, clique ali em baixo na etiqueta com o nome do país. É possível que não apareçam os posts todos mas alguns hão-de aparecer.
Aos outros (poucos) visionários que também viram o futuro: coragem!
Aos recém-indignados: mais vale tarde do que nunca, mas olhem que é tarde, tão tarde! Mas tão, tão tarde que nem há palavra no dicionário para descrever o quão tarde.

Agora apagou-se mesmo a luz.
E olhem, meus amigos, até apagaram a televisão. Sempre dá jeito que as pessoas não estejam informadas, especialmente aquelas que não têm dinheiro para pagar tv-cabos e televisões novas e aparelhómetros.
Se me estão a ler, considerem-se pessoas de sorte. Muitos há que ainda não descobriram sequer que existe internet.

Vou acabar com uma pequena nota sobre algo que me está a impressionar profundamente, algo do país real, do país quotidiano. Desde há uns dois anos para cá, tenho notado uma crescente falta de bens à venda no supermercado, em quantidade e em variedade. Não é que não haja procura. Já não há sequer oferta. Nestes 40 anos de vida, ouvi falar dos tempos em que as pessoas queriam comprar e não havia à venda como uma coisa dos tempos da guerra, lá muito muito longe. Nunca pensei, na minha existência privilegiada, entrar num supermercado e não encontrar bens básicos como cotonetes, pacotes de sal, amendoins. Nunca pensei ter de andar de supermercado em supermercado à procura de bens tão básicos. E nem sequer estou a falar de uma determinada marca. Estou a falar de não terem o produto, seja de que marca, porque esgotou. E pode estar esgotado dias a fio. Não porque não haja procura. Mas porque não se investe para que haja oferta. Da mesma forma, por exemplo, alguns produtos únicos que eu usava, tipo sabonetes e afins, e não estou a falar de um ou dois mas de número significativo, deixaram de ser fabricados. Vendiam-se, mas deixaram de ser fabricados. Ora, se há procura, se há quem compre, se dava lucro, porque é que já não dá? Porque é que as fábricas fecham se há encomendas? Quem é que anda a fomentar uma economia de tempo de guerra? Quem é que anda a amealhar? O que vem por aí?...
Sintomático dos tempos.

Pensem nisto e até à próxima.

xoxos




post scriptum

Segui o meu próprio conselho e carreguei na etiqueta, para ver se ela ainda funcionava, e descobri este post engraçadíssimo de Janeiro de 2009, que até é giro e reproduzo na íntegra para não acabarmos isto em lágrimas, porque afinal rir é o melhor remédio:

Crise, qual crise?

Então nos últimos dias descobri que neste próximo ano, a manter o meu emprego, apesar da crise (qual crise?) até posso elevar o meu padrão de vida porque os combustíveis e a prestação da casa vão baixar.



Esta gente droga-se. Não há crise nenhuma. Não tenho acções, não tenho casa, não tenho automóvel. Vou ficar perfeitamente na mesma. Perfeitamente na mesma merda. E aqueles sem abrigo a dormir na rua também não vão perceber nada.
Às vezes dá gozo ser pobre. São gargalhadas, são barrigadas de riso, saber que um gajo se atirou para debaixo de um comboio porque perdeu milhões na bolsa. Idiota materialista. Com tantas boas razões para se suicidar foi-se matar por dinheiro.

Uma pessoa não se mata por dinheiro mas porque SIM! Poseur!!!

Devo dizer que desde que a crise dos ricos começou me tenho rido à fartazana, e parece que o ano de 2009 tem tudo para ser uma festa de endorfinas sem recurso a estupefacientes. Basta-me ouvir meia hora do telejornal da 2. Gostei daquela do Monstro do Bolo Rei vir dizer que as ilusões se pagam caras, e com esta se cala, (que ilusões, outro tabu?), e o Histérico nem sequer o ouço porque assim que aparece na televisão carrego no mute (é para isso que ele serve). O Vítor Constâncio, esse, é o melhor palhaço da televisão. Mais ou menos, a piada é esta: se não for despedido, até vai viver melhor do que os outros, mas se for vai amargar. Fantástico! Como se Portugal não fosse já, a par dos Estados Unidos, porque nisso somos uma potência mundial, o país com maior desigualdade! A começar pelo Vítor Constâncio, que devia (a não ser preso) receber o novo ordenado mínimo de 450 euros por incompetência, e o resto do ordenado ser distribuído equitativamente por todos os sem abrigo que aparecessem para o receber à porta do Banco de Portugal.
E como parece que hoje já me estiquei demais e tenho bocas para alimentar, desculpem lá não querer ser presa mas não dava muito jeito. O nome do jogo, dizia outro dia um vampiro qualquer, é "sobrevivência". Depois não se queixem, quando perceberem o verdadeiro significado da palavra que tão levianamente invocam: sobrevivência.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O capitalismo no Antigo Egipto




Os antigos egípcios acreditavam que para chegar ao Além a alma teria de enfrentar numerosos testes e perigos no caminho, muitos deles em que a alma poderia morrer novamente (e para sempre). Não era necessário possuir um corpo físico para viver no Além, mas de forma a usufruir melhor dos prazeres, comidas e bebidas do Céu era preferível jogar pelo seguro e salvaguardar o corpo físico através da mumificação. Mas o que era mesmo crucial era possuir um exemplar do Livro dos Mortos, uma espécie de mapa e encantamento de protecção para o Além, que era colocado junto à múmia dentro do túmulo. Este Livro dos Mortos era uma colecção mais ou menos extensa de feitiços e orações desenhados em rolo de papiro. Quanto maior o rolo, mais caro era o livro.
Cada Livro dos Mortos era destinado a uma só pessoa e/ou família. Mas não era feito de encomenda. Havia uma "produção em série" em que os sacerdotes iam preparando rolos e rolos e deixando em branco o nome do comprador, que só era acrescentado no acto da compra.
Um Livro dos Mortos era caro e não acessível a todas as bolsas, e quanto maior fosse em tamanho mais caro se tornava e mais lucro proporcionaria ao investimento prévio dos sacerdotes produtores. Era, pois, previsível que estes convencessem os crentes que quanto mais feitiços contivesse o Livro dos Mortos "pessoal" mais seguramente a alma encontraria o caminho para os prazeres do Além. Quanto mais se pagasse, nesta vida, mais probabilidade haveria de garantir a próxima.
A princípio, o Livro dos Mortos destinava-se unicamente ao Faraó, que era considerado divino. Com o tempo, porém, a nobreza e as elites também quiseram garantir o acesso ao Além e começaram a encomendar mumificações e Livros dos Mortos. Para os sacerdotes, abriu-se uma oportunidade de negócio.
Mas os pobres não tinham dinheiro para mandar fazer múmias ou comprar Livros dos Mortos. As probabilidades de um pobre chegar ao Céu eram muito escassas, se não impossíveis. Todavia, os pobres sempre foram de ter fé. As pirâmides propriamente ditas estavam reservadas à realeza, mas os outros logo a seguir, as classes altas, tinham os seus próprios túmulos, mais modestos, onde sepultar as múmias e os respectivos Livros dos Mortos. Os pobres iam enterrar os seus mortos na areia junto destes túmulos, na esperança de que estes conseguissem "seguir" o rico até ao Além.
O que me faz pensar no seguinte: que irracionalidade os tomaria para serem levados a acreditar que o rico desprovido de solidariedade em vida seria solidário depois de morto?... Ou talvez não fosse uma questão de solidariedade. Se ele ia em frente, a caminho do Além, guiado pelo mapa enfeitiçado que era o Livro dos Mortos, não se conseguia livrar da legião de miseráveis que o seguiam. Pensando bem, até faz todo o sentido.

domingo, 4 de outubro de 2009

Odeio a realidade!

Estava muito bem a ler "O Historiador", de Elizabeth Kostova, completamente embrenhada e aninhada no manto de ficção draculiana que me afasta a mente da realidade, quando leio estas palavras, pronunciadas por uma personagem húngara:

«-A minha tia trabalha no Ministério do Interior da Hungria desde 1948, e é uma figura muito importante. Consegui as minhas bolsas de estudo graças a ela. No meu país, não se faz nada sem um tio ou uma tia. (...)»

Foi assim, tcha-pum, back to reality!

E continua! Diz um personagem americano:

«-Tenho a impressão de que ela vai ter de fazer milagres para me fazer entrar na Hungria e evitar-nos problemas. (...)»
«- Ela é especialista em milagres. É por isso que não estou na minha terra a trabalhar no centro cultural da aldeia da minha mãe.»

Oh, como eu abomino a realidade!
Este foi, efectivamente, um momento de terror.
Achei engraçado partilhar, para vos estragar o dia também. :)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Crise, qual crise?

Então nos últimos dias descobri que neste próximo ano, a manter o meu emprego, apesar da crise (qual crise?) até posso elevar o meu padrão de vida porque os combustíveis e a prestação da casa vão baixar.



Esta gente droga-se. Não há crise nenhuma. Não tenho acções, não tenho casa, não tenho automóvel. Vou ficar perfeitamente na mesma. Perfeitamente na mesma merda. E aqueles sem abrigo a dormir na rua também não vão perceber nada.
Às vezes dá gozo ser pobre. São gargalhadas, são barrigadas de riso, saber que um gajo se atirou para debaixo de um comboio porque perdeu milhões na bolsa. Idiota materialista. Com tantas boas razões para se suicidar foi-se matar por dinheiro.

Uma pessoa não se mata por dinheiro mas porque SIM! Poseur!!!

Devo dizer que desde que a crise dos ricos começou me tenho rido à fartazana, e parece que o ano de 2009 tem tudo para ser uma festa de endorfinas sem recurso a estupefacientes. Basta-me ouvir meia hora do telejornal da 2. Gostei daquela do Monstro do Bolo Rei vir dizer que as ilusões se pagam caras, e com esta se cala, (que ilusões, outro tabu?), e o Histérico nem sequer o ouço porque assim que aparece na televisão carrego no mute (é para isso que ele serve). O Vítor Constâncio, esse, é o melhor palhaço da televisão. Mais ou menos, a piada é esta: se não for despedido, até vai viver melhor do que os outros, mas se for vai amargar. Fantástico! Como se Portugal não fosse já, a par dos Estados Unidos, porque nisso somos uma potência mundial, o país com maior desigualdade! A começar pelo Vítor Constâncio, que devia (a não ser preso) receber o novo ordenado mínimo de 450 euros por incompetência, e o resto do ordenado ser distribuído equitativamente por todos os sem abrigo que aparecessem para o receber à porta do Banco de Portugal.
E como parece que hoje já me estiquei demais e tenho bocas para alimentar, desculpem lá não querer ser presa mas não dava muito jeito. O nome do jogo, dizia outro dia um vampiro qualquer, é "sobrevivência". Depois não se queixem, quando perceberem o verdadeiro significado da palavra que tão levianamente invocam: sobrevivência.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz 1929... oops... 2009!

 
Líbano, 2006

Quando eu era miúda tive, durante anos, um velho professor de História que despertou em mim toda a reverência que por ela tenho, mas discordávamos numa coisa, o velho e eu, porque ele dizia que a História não se repetia e eu a ver que sim, mesmo ali debaixo dos nossos narizes. (Agora que penso nisso, ele era daquelas pessoas que, apesar do inegável valor intelectual, não via muita coisa que devia ver, e se pouco via muito menos previa.)
Como eu gostaria agora de lhe telefonar, caso ainda fosse vivo, o que desconheço, e provar-lhe por fim:
- O que é que eu dizia, s'tor?! Ela repete-se! Ela repete-se!
Já sei que ele ia responder:
- Rapariga, a História não se repete! - e depois repetir, com voz mais alta e gutural: - A História nunca se repete! - (ele também se repetia, viram?) - Os tempos não são iguais aos de 1929!
- Ò s'tor, a merda é igual, o cheiro é que é diferente! Deve ser a isso que chamam zeitgeist. Eu não falo a língua mas cheira cada vez pior, como aqueles cadáveres de animais que ficam ao sol e cada vez que lá se passa mais agoniam e menos estranham. Assim está o cheiro da coisa: cada vez mais nauseabundo e nós cada vez mais habituados. Podem dizer que ninguém sabe o que vai acontecer a seguir mas este caldinho devia ser reconhecido à légua. Não dou 10 anos até que todo o mundo se envolva em deflagrações, aqui, ali e acolá, fingindo que não, que não é a Terceira Guerra Mundial tal como Roma se recusava a admitir que havia brechas nas fronteiras bárbaras.
- Qual Roma qual carapuça! Roma caiu devido à corrupção!
(Silêncio.)
- Ò s'tor, o s'tor está morto, não está?
- Como é que sabes, rapariga?... Eu não te disse. Mas sim, já morri há uns anos. Foi o tabaquito...
- Pois. Isso explica que não veja os telejornais. É fácil perceber que está morto. Porque agora a corrupção é tão grande que não digo que seja preciso ir buscar os cestos da Revolução Francesa nem a cave sórdida da Revolução Russa (porque isso faz muita porcaria, e agora até já inventámos injecções que fazem o mesmo serviço sem sujar o chão) mas não acredito que isto vá lá sem rolarem cabeças. Bem em breve da Europa se erguerá a Besta, se não se ergueu já na América, e lá voltamos atrás outra vez.
- A História não volta atrás!
- E, no entanto, ela repete-se!
- Eu acredito na Humanidade e no seu progresso!
- Eu sei, s'tor, foi consigo que aprendi isso. Mas o mundo tem periodicamente uma necessidade autofágica de se alimentar do seu próprio sangue. O mundo, s'tor, é um vampiro.
- Foi depois das maiorias atrocidades que o mundo deu os mais importantes passos do Humanismo!
- Concordo de novo. Venham pois elas, e o mais cedo possível.
- Rapariga, não pode haver uma Terceira Guerra mundial porque os russos e os americanos têm armas nucleares capazes de destruir o mundo...
- Ó s'tor, páre lá com isso, o muro já caiu. Olhe, você ainda era vivo, não se lembra?
- A memória pós-morte fica afectada. Pois foi, já caiu o muro.
- Caiu o muro e agora andam todos ao mesmo, russos, americanos, chineses e até sul-americanos e iranianos: possuir os recursos naturais para vender quinquilharias. Olhe s'tor, isto desde o Cro-Magnon não mudou nada. Nadinha. E quando as tribos se encontram acaba tudo à mocada. No meio disto tudo, só não será a Europa a levar mais porrada se não se erguer a Besta. E ela erguer-se-à do lodo no momento oportuno. Graças aos cegos, s'tor, graças aos cegos e àqueles que pensam que em terra de cegos quem tem um olho é rei.
Evitei comentar o que se passa nesta terra, porque ele viu com os seus próprios olhos votos serem despejados das urnas para serem queimados no tempo de Salazar, mas não viu Manuel Alegre, companheiro dos 25 de Abris, admitir na televisão que o actual primeiro-ministro fez batota nas eleições internas do partido e achar isso "normal". Com o tempo tudo se torna normal. Queimar judeus, queimar palestinianos... Queimar pretos no Zimbabué, então, não interessa mesmo nada. Mais cólera, menos cólera, de cólera estamos todos a rebentar!

É num ano negro que vamos mergulhar, por isso celebrem bem o que resta deste! Até nos foi dado mais um segundo. Os cientistas, esses novos deuses da Humanidade, acrescentaram mais um segundo ao tempo eterno porque a Terra gira e não usa relógio. E, no entanto, ela gira!
Não vos vou desejar prosperidade porque não vai haver. Nem felicidade porque só pode ser feliz quem não tiver coração. Pensei em desejar paz, muita paz para o mundo, e engoli a hipocrisia.

Para este ano de 2009 desejo-vos, sim, tranquilidade!
Coragem para mudar o que pode ser mudado
Serenidade para aceitar o que não se pode mudar
E sabedoria para distinguir.

Um ano de 2009 com muita tranquilidade, aquela que vem de dentro e é imperturbável.

E deixo-vos também o meu brinde:

SAÚDE, DINHEIRO, E O RESTO VEM POR ACRÉSCIMO!

domingo, 14 de dezembro de 2008

Profecia

I do not recall distinctly when it began, but it was months ago. The general tension was horrible. To a season of political and social upheaval was added a strange and brooding apprehension of hideous physical danger; a danger widespread and all-embracing, such a danger as may be imagined only in the most terrible phantasms of the night. I recall that the people went about with pale and worried faces, and whispered warnings and prophecies which no one dared consciously repeat or acknowledge to himself that he had heard. A sense of monstrous guilt was upon the land, and out of the abysses between the stars swept chill currents that made men shiver in dark and lonely places. There was a daemoniac alteration in the sequence of the seasons--the autumn heat lingered fearsomely, and everyone felt that the world and perhaps the universe had passed from the control of known gods or forces to that of gods or forces which were unknown.


in "Nyarlathotep", por H. P. Lovecraft

Não deixa de ser curioso como tantos escritores e tão distintos apanham no "ar" o vento das trevas e o traduzem em ficção mal sabendo que escrevem profecias. Agitação social e alterações climáticas... e depois vem o fim.
Pela sua visionária actualidade, arrepia pensar que este conto foi escrito em 1920.

sábado, 22 de novembro de 2008

Venham mais cinco

The cracks appear along the wall wall wall wall wall
See the people stoop back, once stood tall tall tall tall tall
I see the buildings crumble see the empires fall
But I see no more and I don't recall

Because I see
Nothing but the good things
Because I see
Nothing but the good things
Because I see
Nothing but the good things
Nothing but the good good good
Nothing but the good things

Well nothing ventured nothing lost
Count the changes count the cost
A reformation so uncertain
Keep your station draw the curtain

Because out there the snipers work the ridges
Building bombs and blowing bridges
Out there on a darkened road
The lines are dead and the cars explode

But in here
There's nothing but the good things
In here
Nothing but the good things
In here
Nothing but the good things
Nothing but the good good good good good
Nothing but the good things

I see a green sea a pleasant land land land land land
Nothing mean or underhand
On the fence or in the sand
Well I take no chances and I take no stand

Against the wall
Against the wire
Against the fall
Against the fire
Against the sale
Against the hire
They say the profits high
But I know the cost is higher

Still I see
Nothing but the good things
Still I see
Nothing but the good things
Still I see here see do talk see
Nothing but the good things
Nothing but the good good good good good
Nothing but the good things
Nothing but the good things
Nothing but the good good good good things
No!


"Good Things", The Sisters of Mercy




Foi há 5 anos por esta altura que comecei a congeminar este blog. O Sitemeter, registado a 18 de Dezembro de 2003, foi uma das últimas coisas a adicionar à página inicialmente alojada no Sapo.
Nessa altura éramos meia dúzia de gatos a blogar. A maioria dos blogs pertenciam a uma elite que já tinha internet de banda larga desde que ela era demasiado cara para o comum cidadão (40, 50 euros) e dedicavam-se principalmente à política (Abruptos e afins).
Eu, por outro lado, tencionava criar um espaço em que falasse das coisas sob uma perspectiva gótica. Claro que na altura não sabia que era isto que acabaria por fazer. Queria apenas fazer um blog pessoal, um cantinho virtual só para mim, que não esperava que fosse lido de todo.
Acontece que foi lido, cada vez mais lido, e neste diário pessoal fui expondo a minha alma, talvez demais, até um ponto em que as circunstâncias da minha vida se tornaram demasiado... difíceis para serem partilhadas por estranhos, e foi necessário retrair-me, como uma concha que se fecha para proteger as membranas sensíveis onde crescem as pérolas mais preciosas.
Nestes cinco anos a minha vida, a minha mente, a minha alma, foram implacavelmente destruídas por desgostos irreparáveis que me tornaram mais silenciosa e reservada.
Por isso mesmo, nunca imaginei que este blog durasse tanto tempo. E no entanto aqui estamos.
Conheci muita gente interessante, e até alguns heróis. Fiz amigos preciosos.
E com os cabelos brancos virtuais chegaram também dois afilhados, a Ribeira Negra e a Psiquê, que muito fazem babar esta madrinha. (Não podia deixar passar este quinto aniversário sem vos lembrar.)


Um país em ruínas
Nestes cinco anos, observei daqui, também, o último estertor da morte (previsível) de um país arruinado e, com uma perversa satisfação, o despertar dos tansos que foram os últimos a saber que o Titanic se estava a afundar quando já tinham água pelo pescoço. Ainda hoje me fazem rir, porque merecem e não fizeram nada quando podiam fazer... porque estavam demasiado distraídos com o futebol e a telenovela. Chamavam-me maluca quando dizia que estava a passar mal e a passar frio. E só não disse que passava fome porque de verdade não sei. Acontece-me perder o apetite quando tenho a alma agoniada.
Durante estes últimos 5 anos assisti ao maior desastre desde o desvio de fundos cavaquista. Durão Barroso abandonou o mandato de primeiro-ministro, trocando a lealdade à nação pelo vil metal e o estatuto de Bruxelas. Continuo a ter dúvidas de que se possa censurá-lo. Qual o português que não o faria? A circunstância de o exemplo vir de cima é apenas a prova de que ninguém acredita neste ex-país, nem os seus mais altos representantes. E depois veio a desgraça. Santana Lopes primeiro-ministro, um homem que pode ser muito boa pessoa (não sei se é mas pode muito bem ser) mas que não tem capacidade de gerir algo mais que um night club (e com muitos assistentes a ajudar).
Foi assim que uma maioria de eleitores iludidos elegeram democraticamente a maior corja de mentirosos, vigaristas, incompetentes e medíocres, e ainda por cima o governo que mais atenta contra a liberdade de expressão desde o Estado Novo (o que é obra). Logo a seguir, o mesmo povo estúpido e analfabeto elege um presidente da República ché-ché, que fala na terceira pessoa como os jogadores de futebol como se ele próprio não acreditasse que o PR não é outro senão ele, que devia estar já num centro de dia a jogar ao dominó, enquanto Manuel Alegre (que não ganhou por pouco) vai acabando por fazer oficiosamente o papel que o eleito não faz.
Quanto à famosa crise, que deve ser a crise dos ricos, só gostava que me informassem quando acabou a última e começou esta porque, para os pobres, não deixou de haver crise desde o final dos anos 80 (quando secaram os fundos, nos bolsos do PSD).
É o caos. O Titanic já não se afunda. Assentou no fundo do mar entre os limos.


Um mundo à espera de Obama
Nestes cinco anos também assistimos à guerra do petróleo da família Bush, mais conhecida por invasão do Iraque, a qual muitos países europeus apoiaram em troca do envio de um punhado de homens (os yankees que se fodam por lá desde que a gorda e preguiçosa Europa assista ao filme no conforto do sofá), desviando recursos preciosos da verdadeira ameaça no Afeganistão onde até parece que os talibans, possivelmente os mais odiosos fundamentalistas do mundo, não sofreram nenhuma derrota.
Há poucos dias, a propósito da pergunta "o que acham que vai mudar com Obama" no obscuro Dark Forum, comecei a pensar a sério no assunto.
E eis os factos, absolutamente formidáveis: em menos de um ano, Barack Obama passou de obscuro desconhecido a herói mundial com um apoio superior a 80% na maioria dos países do mundo. Repito: do mundo! É por isso que este é de facto, não apenas por ser presidente dos Estados Unidos, o homem mais poderoso do planeta. Tem dito o Arrebenta (não sei as fontes em que se informa) que Obama é mais um peão de Bildeberg. Até pode bem ser, por agora e porque lhe deu jeito (é conhecido como usou o partido Democrata para chegar onde chegou), mas se há homem que consiga abocanhar Bildeberg como um doberman a estralhaçar um caniche, é este o homem. Pela nossa saúdinha, é bom que seja. Se não for, Deus nos acuda.
Obama é a grande incógnita. Sem ele, é o abismo. Com ele, sabe-se lá.


Cinco anos de gótico
Mas basta do mundo que este é um blog pessoal. Quando comecei, éramos, como disse, meia dúzia de gatos pingados. Havia dois blogs assumidamente góticos de grande importância: Vampiria (que ainda existe, olá Vampiria!) e o Merdas Góticas, da 69eyeliner, há muito apagado (o que é uma pena). Nestes cinco anos temos assistido a uma explosão do movimento gótico na internet, não apenas em blogs pessoais como nos sites de amigos (Hi5, My Space), em fóruns, portais, associações... Até começa a ser demais, na minha opinião, mas sei que é uma questão de moda e que o equilíbrio não demorará a ser atingido.
Contudo, considero que o meu username "gotika" deixou de fazer sentido uma vez que tanta gente saiu do armário e se assumiu. O nome do blog não. Este continua a ser o "Gotika: diário pessoal do terror quotidiano" que sempre foi. O mundo pelos meus olhos.
Mas já era altura de arranjar um nome próprio em vez de um adjectivo.
Foi difícil, muito difícil. Toda a vida fui conhecida como "Fulana, a gótica", e se alguma vez tive uma alcunha, era essa. Mas nesta nova realidade sou apenas mais uma e o username tornou-se arrogante, ai de mim!
O meu novo username, como poderão ver no fim do post, fruto de uma daquelas centelhas de inspiração irrepetíveis em que tudo faz sentido, é o meu novo nome.
Não foi por acaso que escolhi um furacão, e em especial o furacão que dizimou New Orleans. Destruição. Ruína. Morte. Fúria. Crueldade. Violência. Desespero. Destino. Derrota. Desastre. Uma alma.
Enquanto eu tiver ligação à internet e enquanto me der na real gana, vou ficar, mais ou menos por aqui. Nothing ventured, nothing lost.

Obrigada a todos os que me lêem... pela vossa santa paciência. De mim já sabem o que esperar. Continuarei sempre a falar de todas as coisas lindas e maravilhosas da vida.
Because I see
Nothing but the good things

Bem hajam e obrigada por estes cinco anos!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O que não se viu na televisão

Paulo Portas acusa Vitor Constâncio Governador do Banco de Portugal de ter fracassado enquanto regulador



É triste quando se tem que procurar na internet o que não passou na televisão gratuita para o pobre não ouvir. Não é que não interesse. É que mesmo que interesse o pobre está mergulhado em telenovelas e futebóis.
Paulo Portas diz tudo o que há a dizer e ninguém viu senão uns segundos. O vídeo foi posto online pelo CDS-PP. Só assim consegui ver. Apesar de durar 34 minutos vale muito a pena ver no mínimo os dez minutos finais. Quando tem de ser um partido político a mostrar o que a comunicação social devia fazer e não faz, não admira que se chegue a isto.

E já que estamos nisto, não se perde nada ver também mais esta:

Francisco Louçã: "BPN era um governo sombra do PSD"

Tem havido alguma agitação nas televisões esta semana. Os jornalistas revoltam-se... mas têm que piar muito baixinho. São ovos atirados a Lurdes Rodrigues, é Manuel Alegre a fazer o papel de Presidente da República (na questão da avaliação dos professores e no voto contra o escandaloso Código do Trabalho) na ausência factual do presidente eleito. Repararam? Eu reparei. Gostava que reparassem também, daí este apontamentozinho.
De resto, continuem a ler o Braganza Mothers que aquilo está muito bom.

domingo, 26 de outubro de 2008

Falta de mim

Now in the black black behind your sleep I am trying to hold your oceans, I am struggling to sparkle in your sky, I will collect your snowflakes in my arms and watch them unfold. In the North, you ache with loss and wish for a sick day to curl yourself away and cry. The warmth of your voice now burnt with loss and everyone knows. Everyone knows you are far too far too transparent to hide away such a wanting. Now whom is needed and whom is needful? You are older than I but hand yourself over a bird nestling into my hand. “I am broken, I am broken” you say as I stroke you to sleep.

"Thirst"
Golden Palominos, álbum "Dead Inside"

Roubaram-me a alma. Sinto-lhe a falta. Sei que a amava e sem ela estou tão sozinha que nada pode preencher este vazio de falta de mim.

Convidaram-me para participar num blogue de renascimento português, blogue esse cujos participantes respeito e aprecio, um novo blogue de nome O Bar do Ossian que desde já aconselho. Ponderei longamente o que teria para dizer num espaço de "renascimento português". A parte triste é não tenho nada para dizer sobre Portugal que não tenha dito já. Mais triste ainda é que já não acredito no "renascimento português". Não estou a dizê-lo por dizer. É que não acredito mesmo. No que eu acredito é que este território se tornará, mais tarde ou mais cedo, de uma forma ou de outra, uma província da Europa, por razões que aqui já expus longamente.
Não tenho razão nenhuma para ter pena. Afinal, esta merda de país deixou que me roubassem a alma. Que se foda Portugal.
Lamento, pelo Bar do Ossian, mas não participo no que não acredito. E quanto à cultura da nação, que essa sobreviverá a qualquer maremoto político, apenas uma sub-franja muito marginal me interessa pessoalmente. O resto faz parte do mesmo cadáver.

Quanto ao mundo, falta pouco, muito pouco, para a guerra. Temo pelos animais. Tudo o resto que se foda.
Detesto repetir-me.

sábado, 20 de setembro de 2008

Que se foda Portugal!

Não tenho palavras para descrever o ódio que tenho a este país. Há quem ainda acredite que o país pode mudar, mas eu não. O país está morto e apodrece. Há outros que se lamentam, que choram choradinho o fado do destino de ter nascido português, mas eu não. Eu quero que o país se foda.
Como os skinheads odeiam os pretos, eu odeio Portugal. Só não desejo que caia uma bomba atómica no território porque tenho pena da fauna e da flora.
De resto, não sou daquelas que venderia o país, nem a Espanha nem a ninguém. Eu odeio tanto Portugal que o dou, ofereço! Eu rifo Portugal e barato!
De preferência à Europa, mas esta merda é tão má que não faz diferença nenhuma a quem.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O estado das coisas

Uma das melhores frases que li na blogosfera nos últimos tempos e que espelha não só o meu estado de espírito como de muitos outros bloggers em relação ao estado de coisas - O Pântano - é obviamente do Arrebenta, no seu "novo" The Braganza Mothers:

nenhuma notícia nos empolga comentários maiores, nem nenhum texto nosso desencadeia agora uma enxurrada de notícias.

É ir ler o resto que vale a pena.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Não se aceitam licenciados

A XAC - Gestão de Frotas, anda à procura de operadores de call center mas não se aceitam licenciados. Por outro lado deve gostar do contacto telefónico com o exterior. Até porque o contacto telefónico com o interior, de extensão para extensão, acaba por ser uma seca.


É caso para nos questionarmos (sem o afirmarmos porque não desejamos ser processados e sabemos fazer as coisas como deve ser) se esta alergia a licenciados se deve ao dono da empresa ter a 4ª classe, escrever "fodasse" em vez do correcto "foda-se", e cuspir para o chão. Enfim, podemos apenas imaginar que empresa é esta que tem horror ao intelecto. Será inveja? Será complexo de inferioridade? Será o choque tecnológico?...
O choque é como é que existem empresas com esta mentalidade.
Até aposto tudo e mais alguma coisa que para senhoras da limpeza já não se importariam de lá ter licenciadas brasileiras ou ucranianas. Licenciado imigrante é licenciado de segunda.

Fica aqui um grande obrigada e um mal-haja à XAC - Gestão de Frotas, por este exemplo confesso e paradigmático do tecido empresarial português.
Têm razão em não querer lá licenciados que até escrevem na internet e coiso, mas deviam ser mais cuidadosos porque os licenciados andam por aí, lêem, e escrevem à mesma.

Mais uma para a listinha de greatest hits.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Pensamentos soltos sobre o suicídio aqui e ali

Hoje o post vai ser sobre um tema a que muitas pessoas são alérgicas por isso aviso desde já que se vai tratar do suicídio de forma e conteúdo ainda não muito bem definido por isso quem correr o risco de se ver possesso por ataques de vómito pró-vida ou não conseguir conter os sacos lacrimais pode já mudar para o blog seguinte.

Começo pela vida.
Ninguém devia ser obrigado a viver contra a sua vontade.
E no entanto, é contra toda a liberdade do homem que ele nasce e se vê obrigado a permanecer vivo, sem ninguém lhe perguntar a opinião prévia. Começa logo mal.
Há correntes de pensamento que dizem o contrário, bem sei. Que o homem nasce porque quer, porque assim decidiu antes de encarnar. Se assim foi, certamente que a sua vontade de abandonar a vida será decerto também respeitada pelos Poderes que lha concederam. A ver vamos. (Só se sabe no fim.)
Para mim, a vida sempre foi um pesadelo que posso levianamente comparar às Docas. Para quem não sabe e para quem nunca visitou o antro nos seus tempos dourados, as Docas são um espaço de lazer em Lisboa, ali depois de Alcântara, que tem bares porta sim porta sim, oferecendo uma variedade de escolhas desde o techno da moda à esplanada veraneja, e permitindo todo um vasto leque de comportamentos que vão do casal que leva os filhos a comer um gelado, aos engates de ocasião ou à ostentação (verdadeira ou falsa) dos ricos e dos intelectuais, onde toda a gente faz questão de ir para não passar por anormal. Dir-se-ia que foi feito para agradar a toda a gente, e toda a gente gosta muito daquilo, mas eu não gosto nada. Por isso sempre comparei a vida às Docas.
(A vida é melhor, porque tem bares góticos, mas não nos percamos na alegoria.)

Ontem andei a pesquisar na internet métodos de cortar as veias eficientemente com o intuito de sangrar até morrer. Tudo se encontra na internet, e não me desiludi. Não, não vou dizer onde é. Isto de morrer dá o seu trabalho, começando pela pesquisa. E que trabalho! Para fazer a coisa bem feita é quase preciso tirar um curso superior. É preciso saber onde estão veias (artérias, dizem) que nem se sabe que se têm. A direcção do golpe também levanta controvérsia. Metade afirma que deve ser horizontal, se apanhando a artéria no sítio cirúrgico, a outra metade clama que é vertical ao longo da veia do braço. A própria profundidade do corte também não é para amadores. Muito profundo e ineficaz e o suicida corre o risco de mutilar os tendões do pulso (em vez de morrer, claro está) perdendo o controle das mãos com maior ou menor gravidade futura. Cortar pouco, por outro lado, apresenta o risco muito pior de o suicida ser rotulado de "suicida a fingir", ou seja, de ser diagnosticado por apenas "comportamentos suicidários" sem verdadeira intenção de morrer. Pior ainda, de desejar chamar à atenção.
(Por esta ordem de ideias, o simples facto de estar a escrever este texto seria um chamar a atenção sem correr o risco de ficar com cicatrizes. O simples gozo que me dá abordar o tema para escandalizar certas mentes não é levado em conta. O que ainda dá mais gozo.)
Concluindo, se não tem sucesso, o suicida que sobrevive é sempre um falhado. Tendo em conta que na maior parte das vezes a falta de sucesso à luz da sociedade dos outros é o motivo maior para a o acto desesperado, não deixa de ser ironicamente cruel.

Isto levou-me a pensar como é difícil morrer em Portugal. Começando pelo simples acto de cortar as veias. Toda a gente sabe que o melhor método de o fazer, depois da perícia (porque envolve conhecimentos acima da média) de cortar as artérias certas no sítio exacto com uns instrumento suficientemente afiado, é através da imersão em água tépida numa banheira. Isto já pressupõe que o pobre diabo tenha uma banheira. Ora, uma banheira é um luxo. Fazê-lo no bidé, isso sim, é de artista!
Em Portugal, até se é pobre demais para morrer "bem". Os únicos casos de sucesso que conheço são daqueles miúdos que se atiram de um certo viaduto ali para Alcântara e o famoso caso do jornalista da TVI que não foi de modas e saltou da ponte 25 de Abril. Ah valente! (E por falar em bravura, aplaudiria de pé se todos os toureiros decidissem fazer o mesmo para mostrar que os têm como dizem.)
E depois há os casos da linha do comboio de Sintra de que ninguém fala.
E dos polícias que usam a sua própria arma.
Para se morrer, tem de ser à bruta.

No Alentejo, e muita gente não sabe disto, o suicídio é uma tradição que nos aproxima da cultura nipónica. É considerado um acto trágico (mas culturalmente aceitável pelos pares), que um homem ou mulher caído em desgraça, por pobreza ou desonra, se enforque com uma corda nas traves do palheiro. Não sei de quem é a tese, mas existe, de que esta familiaridade alentejana com o suicídio de honra tenha a ver com a menor penetração da mentalidade católica numa região essencialmente pagã que demorou mais tempo a "desarabizar". O que faz todo o sentido, especialmente no mundo pós-2001. Certas culturas são mais inclinadas para o martírio socialmente aceite, independentemente da religião praticada. E se pensarmos em religião, até o Messias se deixou martirizar. (Mas isso eram águas para outro moinho.)

Nos Estados Unidos da América, onde toda a gente compra uma arma de fogo desde que não tenha cadastro (e se tiver até arranja peças mais profissionais) o problema põe-se com maior acutilância. Acredito que seja mais fácil acusar "wannabes" numa sociedade em que toda a casa de família guarda uma arma aqui ou ali. De modo que não chega a haver uma "segunda tentativa". E tendo a conta a familiaridade com que os americanos lidam com o suicídio e o homicídio, só mesmo a inexperiência permite o falhanço (e muitos casos com lesões irreversíveis em estado vegetativo). O suicídio com arma de fogo, bem executado, hitleriano, não permite retorno. Só uma sociedade muito amadurecida consegue conviver com esta proximidade da morte. É verdade que se matam a torto e a direito uns aos outros, mas o suicida que pega na sua arma com balas compradas no Walmart e a dispara nos miolos sabe muito bem que não é uma tentativa - é mesmo a "definitiva".
Conheço de lá um rapaz da minha idade que, como qualquer bom americano, tem um casa não uma arma de fogo mas uma verdadeira colecção. Sabendo das suas tendências depressivas pergunto-me como é que ainda está vivo. (É verdade, estará? Tenho de lhe escrever.) Não senhor, não é brincadeira.

Nisso, acho que os americanos levam a melhor. Uma arma, uma decisão, a terra da liberdade. A liberdade suprema que se pode conceder ao ser humano: acabar com a própria vida.

Em Portugal, por defeito europeu, tem tudo de ser feito com maior hipocrisia. E que hipocrisia. Neste momento trágico que vivemos, aposto que se o senhor Sócrates decidisse distribuir kits de suicídio nos Centros de Desemprego e na Segurança Social livrava-se bem de grande parte do déficit. E assim ficavam mais recursos para os neo-liberais Joões Mirandas da terra, que choram cada tostão dos seus impostos para a solidariedade social.
Estranho ser é o humano, porque a ser feito, não podia ser pela calada. Reunissem, pois, um grupo de desempregados de longa duração, numa daquelas salas de centro de emprego onde se têm de apresentar até à última semana de um subsídio de desemprego que não tarda em acabar (para os que o têm), já a contemplarem o suicídio para não sobrecarregarem a família, e proponha-se-lhes a ingestão de uma pílula letal como fim para os seus problemas. Eis a sublevação imediata! O linchamento do funcionário! O instinto animal a funcionar!
Esta é a razão porque nenhum político alguma vez propôs a ideia às claras (por muito que lhe tenha passado pela cabeça e, nalguns casos, até a tenha tentado pôr em prática).
Como é complexa a alma humana! Tão complexa que é capaz de aceitar o seu fim de livre vontade, mas incapaz de aceitar que lhe seja imposta. Para os que amam a vida ainda deve ser mais lixado. Tenho pena, confesso, porque todos todos todos nós vamos morrer. Uns mais contentes que outros.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Estado Máfia

EDP - Clientes vão pagar dívidas incobráveis


Clientes vão pagar dívidas incobráveis


ANA SUSPIRO
Electricidade. Até agora, EDP tinha de assumir a totalidade dos custos com as dívidas incobráveis. A situação vai mudar a partir de 2009. Os consumidores vão partilhar este risco com a eléctrica. Em causa estão valores entre 0,2% a 0,3% da facturação total. Em 2007, foram 12,5 milhões de euros

Em 2009, a EDP vai partilhar os custos com consumidores

Os custos com as dívidas incobráveis da electricidade vão passar a ser pagos por todos os consumidores. Hoje, é a EDP Serviço Universal que assume os encargos totais dessas dívidas. Mas a proposta da ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) para o próximo período regulatório de 2009/11 prevê que os encargos com esses compromissos passem a ser partilhados com os consumidores de electricidade a partir do próximo ano, nas tarifas de electricidade.


Para ler o resto, clicar no texto. Para quem não acredita, vistar o site da ERSE (www.erse.pt).
Pois é mesmo verdade, uma grande empresa, monopolista, pior ainda, a Entidade Reguladora para os Serviços Energéticos, que não devia ser o braço direito da empresa monopolista (digo eu), acha por bem que os custos das dívidas dos caloteiros sejam distribuídas pelos tansos que pagam.
Como a Justiça não funciona, e isto se tornou numa história de Robin dos Bosques ao contrário, a própria entidade reguladora decide que a empresa monopolista sobrecarregue os pagadores com as dívidas dos outros. Se isto não é a gota de água, não sei o que é. Como eu ando a dizer, e a dizer, e a dizer, a Justiça é o cancro do país. Sem a Justiça a funcionar como deve é impossível para qualquer empresa cobrar qualquer dívida. O mercado estagna. A economia seca. É a lei do vilão.
Se a moda pega, os bancos (igualmente poderosos) poderão também imputar o crédito mal parado às prestações das casas de quem as paga. Por exemplo. E vai por aí fora, até aos camionistas que, soube a propósito do recente abalo sísmico (salvo seja) fazem fretes abaixo do custo.
[Abaixo do custo?! Como é que uma empresa se pode dar ao luxo de fazer preços abaixo do custo?! E depois admiram-se.]
A mania de todo o português é apontar o dedo ao Estado e pedir subsídios. Não é isso que estou a fazer aqui. Estou aqui apenas a realçar que os deveres fundamentais do Estado são garantir bases essenciais como a segurança, a justiça, a equidade. Já só peço ao Estado que garanta a segurança e a justiça. Se o Estado não a garante não é um Estado, é um bando de malfeitores. Tão simples como a história do Robin dos Bosques. Paga quem não tem espada. Quem não tem espada paga. Lei da máfia.
Se esta proposta passar, Portugal deixa de ser definitivamente e oficialmente um Estado de Direito, porque num Estado de Direito qualquer cidadão poderia defender-se de ter de pagar dívidas que não são suas. Não o podendo fazer, estamos no totalitarismo. É tão simples como isso. E é por isso que esta notícia é tão grave.
Aliás, é tão grave que mesmo que a proposta não passe (se bem que o povo português seja tão acarneirado que é mesmo capaz de passar), só a sugestão de alguém se atrever a sugerir esta possibilidade me dá arrepios pela espinha abaixo. Isto chama-se roubo, e chegou-se a um ponto em que os ladrões não têm medo de dar a cara.
Pelo contrário. Quem tem medo de dar a cara e protestar são os cidadãos honestos e cumpridores que têm toda a razão para temer represálias. E porque não? Depois disto tudo é possível. Mesmo tudo.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Da desigualdade


Ruínas de Pompeia, Jardim dos Fugitivos

É por estas e outras que falar sobre Portugal me põe doente mas as putas das Musas não param de me gritar na cabeça que tenho de o fazer. Ainda ninguém pegou nisto como deve ser. Calhou-me a mim a fava. Pois cá vai.

Segundo o Relatório Sobre a Situação Social na União Europeia com dados de 2004, Portugal é o país da Europa onde existe mais desigualdade.
Somos mesmo tão bons, mas tão bons, que até superamos a desigualdade dos grandes Estados Unidos of fucking A, toma lá yankee! O Governo, por outro lado, já veio desmentir, todo contente, porque entretanto, em 2006, já fomos ultrapassados pela Letónia, país que não anda a mamar fundos de Bruxelas há vinte e tal anos (como nós). Ah, já podemos ficar descansados. Continuamos a bater os Estados Unidos e não somos os últimos da Europa! Somos geniais!

Mas em Portugal a desigualdade não é apenas económica. Antes fosse. Em Portugal a desigualdade existe também perante a Lei. Os ricos e poderosos fumam no Casino e no avião fretado, os pobres fumam na rua como os cães. (Eu já vos tinha dito, quando comecei a roer o osso, que Leis Secas nunca são para todos.) Isto, meus amigos, é apenas a face visível, ridícula, desprezível do enorme cancro que se chama Justiça. Não é a desigualdade económica que gera injustiça. Aqui é ao contrário. É a falta de Justiça que gera todas as desigualdades. Aprendei isto ou permanecei cegos.

Perguntava hoje um leitor indignado, no jornal gratuito "Global":

«José Sócrates lamentou, pedindo-nos desculpa, ter fumado no avião que o levou à Venezuela, dizendo que "não sabia estar a violar a lei". Não sabia que há uma lei que proíbe fumar em locais fechados, em transportes públicos, incluindo aviões? Mas o mais surpreendente foi a TAP defender a atitude do PM e de outros elementos do seu séquito de viagem, os quais também prevaricaram, fumando, afirmando que "num voo não comercial as regras competem a quem o frete". Para mim, esta defesa é deveras leviana e caricata: então eu posso fretar uma aeronave e nela transportar, por exemplo, armamento e droga?»


Caro amigo, infelizmente não acredito que me esteja a ler mas tenho pena. Pois caro amigo, se é rico e poderoso pode levar armas, pode levar drogas, pode levar miúdos em orgias pedófilas, pode levar tudo o que quiser! No estrangeiro também, e se for suficientemente rico e poderoso pode levar Maddies mortas em bagageiras de carro com cheiro a cadáver e nada lhe acontece, ou transportar presos para Guantanamo em voos ilegais com destino a tortura e execução sumária, só porque é rico e poderoso. A única diferença é que aqui é à descarada. Porque isto só veio a público porque toda a gente se está a cagar para um cigarrito. Houvessem armas, drogas, prostituição, já o chibo se calava muito caladinho antes que lhe fizessem a folha também porque quem tem cu tem medo. Aqui é à fartazana! É o regabofe! Ele é miúdos da Casa Pia, ele é sacos azuis, ele é fundos mamados directamente para os bolsos de indemnizações milionárias, e nada lhes acontece! Nem Roma, em todo o seu esplendor, conheceu tamanha impunidade! É o deboche, é a orgia, é o bacanal! Borbulha o Vesúvio, lança os seus vapores pestilentos e ninguém se mexe! São os últimos dias de Pompeia!
Quando me perguntam o que acho dos motins de Paris, é muito simples: ainda deviam ser mais!
Aqui não há motins porque o ar envenenado já matou tudo. O cheiro do cigarrito até disfarça o fedor a morte. Fume-se então, que o Vesúvio já tudo empesta.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Visita


Intuition, Pamela Jeager
Se roubar às amigas é roubar... pois roubei.




Hoje apercebi-me, com surpresa, que talvez nunca mais volte aqui. É provável que a minha situação piore muito antes de melhorar. É bem possível que o meu tempo de fazer alguma coisa se tenha esgotado.
Não estou a dizer que nunca mais escreva. Ainda agora a minha alma está aqui pousada a digitar estas linhas. Mas não tenho muito tempo.
Apressei-me a concluir a lista de posts sobre Portugal. É bem interessante de ler, principalmente se começarem pelos mais antigos, ainda este blog estava alojado no Sapo e quando lamentava a minha situação as pessoas pensavam que eu estava deprimida. Quatro ou cinco anos depois, é de facto hilariante. Sim, voltem, leiam as conversas que tive com algumas pessoas em Março de 2004, quando estava tudo a dormir. Não, eu não estava deprimida. Antes estivesse e as trevas pairassem apenas sobre os meus olhos.
Porque faço questão? Porque actualmente me rio com a queda das vendas e o abrir dos olhos dos ingénuos que na altura não acreditavam. E lá continuam eles a papaguear e a não dizer nada. Não sabem nada das trevas.
Feliz ou infelizmente, este não é o meu tempo de as rasgar, como diria o Goldmundo.
A minha batalha não é simples, como a vossa, e tenho de lutar em várias frentes ao mesmo tempo. Estou cansada. Não tenho energia para as batalhas comuns.
Sim, sei que estas palavras são crípticas e susceptíveis de milhentas interpretações (todas erradas -- se este blog prova alguma coisa é como as pessoas falam do que não sabem) que só a mim dizem respeito.

A lista está feita. O legado pronto. Disto pode depender o meu destino.

Já aqui estive tempo a mais. Por hoje.

Lista de posts sobre Portugal

LISTA DE POSTS SOBRE PORTUGAL, A SUA SOCIEDADE, A SUA POLÍTICA, A SUA (IN)JUSTIÇA, A SUA (DES)EDUCAÇÃO, O SEU DECLÍNIO E A SUA QUEDA INEVITÁVEL

Do mais recente para o mais antigo


Terça-feira, Junho 19, 2018
São precisas cinco gerações para uma família sair da pobreza em Portugal


Sábado, Março 16, 2013
A zombificação


Domingo, Janeiro 22, 2012
E apagou-se a luz


Domingo, Outubro 04, 2009
Odeio a realidade!


Sexta-feira, Outubro 02, 2009
O momento político


Terça-feira, Setembro 22, 2009
Adeus ò Portas!


Janeiro 29, 2009
O caso


Janeiro 08, 2009
Crise, qual crise?


Dezembro 18, 2008
Prémios Precariedade 2008


Dezembro 10, 2008
Grande Prémio Precariedade 2008


Novembro 13, 2008
O que não se viu na televisão


Novembro 05, 2008
Precisamos de um Obama


Novembro 03, 2008
Profetas


Setembro 20, 2008
Que se foda Portugal!


Setembro 11, 2008
O estado das coisas


Julho 24, 2008
Os velhos pobres


Julho 05, 2008
Um livro: "A Morte de Portugal", por Miguel Real


Julho 01, 2008
Não se aceitam licenciados


Junho 26, 2008
Massa amorfa


Junho 22, 2008
(Des)Emprego


Junho 19, 2008
Estado Máfia


Junho 12, 2008
A geração que matou Abril


Maio 27, 2008
Da desigualdade


Maio 01, 2008
MayDay Dia do Trabalhador


Abril 13, 2008
Vitalino Canas: o provedor do trabalho temporário


Abril 01, 2008
MayDay


Março 20, 2008
Cães grandes e homens pequenos


Março 16, 2008
Desobediência


Março 12, 2008
PORTUGAL: o declínio e a queda


Fevereiro 07, 2008
A saúde ou a morte!


Fevereiro 07, 2008
Uma casa portuguesa


Janeiro 27, 2008
Estado das coisas


Janeiro 24, 2008
Eu Sou Deus


Janeiro 13, 2008
Má vida


Janeiro 10, 2008
Ser profeta é ser mais alto


Janeiro 08, 2008
Os uns e os outros


Janeiro 06, 2008
Direito de escolha


Janeiro 06, 2008
Cortem!


Janeiro 03, 2008
Quem tem medo da morte não merece estar vivo


Dezembro 12, 2007
O cancro


Novembro 06, 2007
A eloquência do silêncio


Agosto 30, 2007
Rendas altas ou leis absurdas?


Agosto 30, 2007
Comentário ao país, por UNG


Março 04, 2008
Ocos e vazios


Outubro 11, 2007
Uma semana sem internet


Setembro 12, 2007
Virtualidades: A justiça portuguesa


Agosto 16, 2007
Benzodiazepinas e outras aberrações


Agosto 04, 2007
DESAFIO: O declínio e a queda IV


Junho 27, 2007
À superfície


Junho 27, 2007
Vozes a acordar


Junho 24, 2007
Vampiros e flores vermelhas


Maio 30, 2007
A minha greve geral


Maio 30, 2007
Porque apoio Paulo Portas


Maio 29, 2007
Hora Absurda


Maio 27, 2007
Dá que pensar


Maio 26, 2007
Natural born leader


Maio 10, 2007
DESAFIO: O declínio e a queda III


Maio 09, 2007
DESAFIO: O declínio e a queda II


Maio 03, 2007
DESAFIO: O declínio e a queda


Abril 21, 2007
Quem tiver dois neurónios que relacione este cartaz ao do post abaixo.


Abril 19, 2007
As ideias não se apagam, discutem-se


Março 23, 2007
O estado da elite intelectual e bem pensante


Março 01, 2007
Na mouche


Março 01, 2007
Liderança


Outubro 17, 2006
Sem palavras


Agosto 16, 2006
De como eu acabei a viver em Portugal


Julho 12, 2006
Da independência dos povos


Julho 07, 2006
Nota sobre o mundial, a selecção e a alienação


Julho 07, 2006
Da cobardia


Junho 02, 2006
(des)Abril em Junho


Maio 30, 2006
A machadada final


Maio 29, 2006
Falta de sorte


Maio 25, 2006
A burrice


Maio 04, 2006
O que fazer


Maio 02, 2006
Procura-se


Abril 29, 2006
"You come at last", she said.


Fevereiro 09, 2006
Olhem o que eu encontrei!


Fevereiro 09, 2006
Os alhos e as cebolas e a invencível armada


Fevereiro 03, 2006
Os miseráveis e os miseráveis


Janeiro 27, 2006
Da miséria e da miséria


Novembro 11, 2005
Notícias


Outubro 28, 2005
Tomem lá estatíticas


Outubro 21, 2005
Outra!


Outubro 18, 2005
Marco histórico


Outubro 16, 2005
O país de pernas para o ar - parte II


Setembro 23, 2005
O casino


Setembro 08, 2005
"Portugal pode desaparecer"


Agosto 14, 2005
Párem de se queixar do PS


Agosto 14, 2005
Lengalenga


Agosto 12, 2005
Da pobreza e da pobreza de espírito


Agosto 03, 2005
We are the champions, my friend


Julho 25, 2005
Diferença de desenvolvimento entre Portugal e Espanha


Julho 22, 2005
O fundo


Julho 22, 2005
O ministro ou another one bites the dust


Junho 24, 2005
Orgulho


Junho 23, 2005
País de merda.


Junho 12, 2005
Então, é assim.


Fevereiro 19, 2005
Dilema


Fevereiro 15, 2005
O dilema


Janeiro 27, 2005
Por falar em cunhas, com as eleições à porta


Janeiro 13, 2005
Outro post imperdível para quem queira conhecer a História


Janeiro 13, 2005
Não sou a única a apontar a PREGUIÇA


Novembro 28, 2004
Coitadinha da mãe do senhor ministro!!!


Outubro 30, 2004
This is not America (?)


Outubro 30, 2004
Pensamento do dia


Outubro 27, 2004
Censura?


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Fazer figura de merda grande


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Comentários 05.02.04 +/- 4h30


março 02, 2004
Tragédias





Agora está completo. Incluídos também os posts do tempo em que o blog estava no Sapo.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Cães grandes e homens pequenos


"Howling Wolf", autor não encontrado


Começa a faltar paciência para isto. Foi proibir o fumo, foi proibir as colheres de pau (tão úteis para dar disciplina às crianças desobedientes), foram os piercings, agora são os cães. Os cães perigosos. Admito que estou a ficar preocupada. Sou muito mais perigosa do que qualquer cão. Não mordo. Escrevo. Mas sou capaz de ficar ofendida se alguém me mandar executar um dia destes devido ao perigo que ponho para os outros seres humanos (principalmente às quartas feiras à noite, depois do "Dexter"). Sei lá, quem vos garante?... Posso ser um serial killer disfarçado de gótica.
Começa também a faltar a paciência para falar disto, tal são tão repetitivas estas medidas ridículas ladradas por um governo de pinchers que as palavras começam a escassear, até para um "animal feroz" como eu, mas vou tentar.

Proibida importação e reprodução de cães perigosos

O Governo vai proibir a importação, criação e reprodução de cães de sete raças consideradas perigosas e de todos aqueles que resultem do cruzamento de animais destas raças ou com outras espécies. A notícia é avançada pela TSF e abranges as raças Pit bull, Rottweiler, Cão de fila brasileiro, Dogue argentino, Staffordshire terrier americano, Staffordshire bull terrier e Toza inu.



Cães perigosos: lutas de morte

Animais são utilizados para ameaçar, assaltar e divertir. Lutas são organizadas por classes altas e baixas e ocorrem um pouco por todo o país. Só em Sintra, GNR apreendeu 30 cães usados em combates


Porto: câmara vai despejar donos de cães perigosos
Também estão previstas multas nos Bairros Municipais

Quem continuar a ter cães «perigosos» ou «potencialmente perigosos» dentro das habitações municipais será alvo de despejo. A proposta foi, esta terça-feira, aprovada em reunião da Câmara do Porto, por unanimidade. A regra já existia, mas não previa a possibilidade de despejo.


Cães cada vez mais ilegais

Criadores das denominadas «raças perigosas» criticam novas medidas. Garantem que polícia não entra nos bairros onde há mercado paralelo destes animais. «É o caminho mais fácil e uma medida extrema». Associações falam em aumento da taxa de abandono

O Governo escolher «o caminho mais fácil e optou por uma medida extrema», afirmou ao PortugalDiário Hugo Ramos, presidente do Rottweiler Clube de Portugal. Para este amante da canicultura a justificação para a proibição de importar ou criar estes animais é óbvia: «Dava muito trabalho» fiscalizar a lei que aprovaram em 2007.

«Até porque», acusa, «fizeram uma lei que não estava regulamentada e, por isso, não era cumprida». «Estamos à espera há meses que o Governo, através da Direcção-geral de Veterinária, determinasse quem e em que termos podia criar os animais». Nada foi feito.

(...)

Animais vão ser abandonados

Já esta tarde, a associação ANIMAL alertou para um possível aumento do abandono de cães que poderá resultar da proibição da importação, reprodução e criação de cães de sete raças consideradas perigosas considerada pelo Governo.

«Quem vai pagar a factura são os animais que serão abandonados pois as pessoas vão querer furtar-se a estas condições entregando-os aos canis e gatis municipais. As pessoas não vão querer pagar pelas esterilizações», comentou à agência Lusa o presidente da associação de defesa dos direitos dos animais, Miguel Moutinho.

«Uma medida destas, imposta sem qualquer preparação, vai gerar uma reacção que vitimará os animais», acrescentou.


Quem me conhece sabe que nada no mundo me transtorna mais do que a malvadez contra os animais, de todas as vítimas aquelas que menos capacidade têm de defesa. Gente que maltrata animais é gente sádica e cobarde e é por isso que não gosto de gente que não gosta de animais. Gente sádica e cobarde só não tortura gente do seu tamanho porque mete o rabinho entre as pernas e mija-se todo. Gente que não gosta de animais não gosta de ninguém, nem de si próprio.

É o caso deste governo que na falta de tamanho para deixar obra grande e nacional na Justiça, na Educação, na Saúde, vai fazendo de mau pai de família a quem já nem o mais pequeno pirralho tem respeito.

Não vou fazer um post sobre a crueldade para com animais mas aproveito para divulgar uma medida, essa sim meritória, da sociedade civil, a petição online e em papel da Associação Animal, "Pelo Fim dos Crimes Sem Castigo" e para definir penas a aplicar às bestas que maltratam os animais ou que os mantêm para fins tenebrosos, com o propósito de levar o assunto à Assembleia da República e fazer de facto alguma coisa de jeito.

Isso sim, é de homem, e a petição pode ser assinada aqui.




Proibir não é apenas o caminho mais fácil, como já disse gente que há-de enterrar os ossos destes pinchers, é também o melhor caminho para demonstrar como são pequeninas as ideias deste governo cheio de tiques proibicionistas a que hoje, no "Metro", José Júdice apelidou de "abelhudismo".
Eu chamo-lhe pior. Como diria aquela entrevistada anónima do post anterior, "Os deputados estão na Assembleia da República a pensar em coisas destas? Está a brincar, não está?". Não está. O (des)governo está de facto sentado a pensar em coisas importantes para a nação como fazer cafés só para não fumadores (mas sem direito à escolha), proibir (sem direito à escolha) confecções artesanais de valor cultural inestimável como os pastéis de bacalhau da D. Alzira com que esta alimentou desde sempre a família, proibir os piercings nos filhos (dos outros), e até nos manda saber quais são os cães que se podem ter.
Não há palavras para descrever o ridículo desta lei/proposta/bosta que há-de ir com as telhas tão depressa como esta raça de anões que agora roça o traseiro, qual cão sarnoso, pelos gabinetes da assembleia.
É melhor não lhes dar ideias senão proibem também o pastor alemão, o podengo alentejano (em tempos mais felizes --ou mais optimistas-- tive um bichinho desses, rafeiro mas igualmente mau como as cobras e que pesava tanto como eu), o cão de fila açoreano, e, last but not least, essa besta impressionante e muito nossa que é o lindo Serra da Estrela. Tenho a impressão que esta gente nem sequer sabe o que é um Serra da Estrela, fechados como estão nos seus apartamentos assépticos onde só penetram os micróbios do ar condicionado (que eles não vêem e cujas alergias não dão notícias tão bombásticas). Se vissem um Serra da Estrela correr para eles a abanar o rabo eram capazes de gritar "leão!" e borrar-se todos. Em dias de lua cheia, tenho aqui uma gata que os esgatanhava todos caso eu deixasse (mas não é preciso porque para isso estou cá eu com o meu polegar oponível, cérebro de homo sapiens sapiens, e arma na mão: o voto).
Mas como esta gente chegou à definição de "cães perigosos" é para mim um mistério insondável. Mais um daqueles momentos de queixo caído a tentar imaginar a tortuosa tentativa de raciocínio destes frutos da consanguinidade. Mas afinal, não lhes foi difícil. São os cães da moda que aparecem nos jornais. Tocar nos donos não, que é gente muito, mas muito perigosa, e a malta do governo é tudo gente muito pequena como o Francisco George Director-Nacional da Saúde. Livra! Na volta até era preciso comprar balas para as pistolas dos polícias! Olha a despesa que não era! É de génio, sim senhor! Proibir meia dúzia de raças de cães. E claro, os criminosos, que é tudo gente que respeita o código penal, vão logo fazer o que os senhores querem. A correr e a saltar.

Actualmente pergunto-me que outra medida de génio estará na forja para sair e distrair a malta do verdadeiro abismo em que mergulha vertiginosamente enquanto vai cantando e rindo e vendo a bola. Será o quê? Proibir as ratas, que as há bem grandes e activas em todo o lado e toda a gente sabe que as ratas são perigosas?
-- E o texto ia tão bem, era mesmo preciso esta brejeirice?--
Definir o tamanho do cabelo por motivos de higiene pública? Proibir outra cor de verniz que não rosa? Agora não tenho dúvidas de que haverá infinitos ataques à inteligência mais mediana daqui até ao fim do mandato até que todos os wannabe ditadores tenham decretado a sua regrazinha. E cada vez menos gente lhes ligará porque toda a gente sabe o que acontece aos "paizinhos" que proibem tudo.

Desobediência geral. Até apetece entrar num café a fumar, com um piercing na língua, passeando um casal de rotweillers a acasalar. Palavra de honra, apetece ou não apetece? Ah pois apetece!

Neste caso, as boas notícias são também as más. Enquanto nos cai o coração aos pés porque em vez de governar o país os deputados andam entretidos a contar detritos fecais caninos na calçada e a apagar beatas acesas com a língua, quais dementes malcheirosos, é que estas regrazinhas de caca não são nada que não se anule em três dias assim que os traseiros sarnosos forem devidamente corridos da coisa pública.
Voltando ao assunto do fim de mandato, que isso sim é sério. Sei que até já se fala por aí de uma revolução armada. Obviamente, uma revolução, neste momento, não seria legítima nem produtiva. Mudar as moscas? Para isso, em 2009, basta votar no PSD.
Ainda não estão esgotadas todas as vias democráticas. O que é preciso fazer é uma revolução de mentalidades e acabar com o voto (in)útil. É preciso, em 2009, votar, mas votar em força e em peso, e votar em tudo menos no centrão. Votar em tudo desde o PCTP-MRPP à POUS, no Bloco, no CDS, até no PNR se a revolta for muita, ou um partido novo qualquer, tudo menos PS ou PSD. Obrigar os partidos a mexer-se começa no povo que o elege. Se os partidos são estagnados é porque o povo fede.
E se o povo fede é mais grave. Já fedeu muito nestes últimos trinta anos. Porque os homens são como os cães. Há homens grandes, que dão novos mundos ao mundo, e homens pequenos que proibem colheres de pau. Se o povo fede de podre, é tempo de homens pequenos.

Não digo eu, mas a História, que os homens pequenos são os mais perigosos de todos. Ou se lhes põe o açaimo a tempo ou devoram tudo o que encontram pela frente.



Agora basta. Enterro o osso. Já devo ter esgotado o tema durante uns largos meses para a frente em que será servido mais do mesmo.
Vou ali dar uma volta por motivos pessoais. Acordem-me quando começar a revolução.

domingo, 16 de março de 2008

Desobediência

When the Nazis came for the communists,
I remained silent;
I was not a communist.

When they locked up the social democrats,
I remained silent;
I was not a social democrat.

When they came for the trade unionists,
I did not speak out;
I was not a trade unionist.

When they came for the Jews,
I remained silent;
I wasn't a Jew.

When they came for me,
there was no one left to speak out.


Eu juro que não sou eu que invento estas coisas. Antes fosse eu, que estivesse em casa sem fazer nada, a pensar em assuntos deprimentes para falar no blog. Infelizmente, eles não faltam. E esta hoje até me fez cair o queixo. Tabaco? Ainda se compreende. Obesidade, matar os gordos à fome? Tem a sua lógica. Agora o governo meter-se em assuntos que só dizem respeito a pais e filhos, como proibir piercings a jovens menores de idade e piercings na língua a toda a gente?! Mas esta gente ensandeceu de vez? "Come a sopa ou eu chamo a ASAE"? Quem disse bem foi uma entrevistada anónima que respondeu ao jornalista da RTP1: "Os deputados estão na Assembleia da República a pensar em coisas destas?! Não acredito. Está a brincar comigo, não está?" Pois a rapariga tem toda a razão. Isto é coisa para os Apanhados ou para o Gato Fedorento, ou para a criatura sinistra que é o Director Geral de Saúde, Francisco George, que pelos vistos tem mais corja igual lá enfiada no gabinete bolorento onde, à semelhança do que acontecia no bunker de Hitler, é proibido fumar.



Não, este não é o sinistro Francisco George, Director-Geral da Saúde e meu ódio de estimação. Este é o Lizard Man, que é um gajo porreiro. Francisco George é bem mais sinistro. Muito mais sinistro ainda do que o deputado que fala "axim" e quer proibir o piercing na língua. Balha-nos Deus, e no pénis e no clítoris, podem facher-se? Ou é chó uma questão de tempo antes que também chejam proibidos, chenor deputado? Por caucha da chaúdinha, pois então. Deus nos dê chaúdinha que hospitais já não há.

Eu própria gostava de tratar da saúdinha a estes senhores, que não sei se vão ser corridos assim que houver eleições porque o lobby do jogging parece uma hidra de sete cabeças que aparecem em todo o lado. Acho que se tivesse filhos menores era amanhã mesmo que os levava a uma loja de piercings e os mandava tatuar de alto a baixo. Se já fosse proibido, melhor ainda.

Porque aquilo de que eu quero falar é de desobediência. Tenho andado caladinha porque há muito bar por aí onde se desobedece à Lei do Tabaco. Às vezes, melhor que roer o osso, é enterrá-lo em sítio secreto. No que a lei é injusta, a sociedade restabelece a justiça. Há efectivamente, neste momento, bares para fumadores e não fumadores. De resto é como tudo. Quem não gosta do ambiente ou da música dá meia volta e sai. Escolha não falta. E assim é que deve ser.

Esta dos piercings, contudo, lembra-me a minha adolescência: "Tu não te metas na droga! Tu não me apareças grávida em casa! Tu não te vistas que nem uma viúva!"
De facto, podia ter dado em pior, mas não deu porque eu nunca fui desobediente. Para dizer a verdade, e este post é uma desculpa para escrever mais uma página do diário que se vai fazendo neste horror de sociedade absurda, desde a mais tenra infância que eu nunca compreendi o conceito dialéctico OBEDIÊNCIA / DESOBEDIÊNCIA. Ambas as palavras eram para mim chinês. De modo que não podia ser uma coisa que desconhecia completamente. Agora se me falarem no conceito RESPEITO / DESPREZO, é outra conversa. Ainda antes de conhecer as palavras já me regia por ele. E era basicamente assim: mandavam-me fazer alguma coisa cuja lógica ou importância eu não compreendia... estava tudo lixado! Pelo contrário, desconfiada que nem uma raposa (e com razões para isso), a proibição era para mim, ao invés da maioria das crianças que julgam que um prazer lhes está a ser negado, uma suspeição de que andavam a esconder-me algo para me tramar. Por exemplo, nunca ouvir dizer de mim "esta criança é desobediente". Ouvi, sim, muitas vezes, "fala mais baixo que ela está a ouvir". Ela, eu. Que se ouvisse demais era um problema. Eu até os compreendo. Explicar conceitos complicados a uma criança que não sabia ler nem escrever podia ser um bico de obra. Azar, eu até queria aprender a ler mas não me deixaram para "não me aborrecer na escola".
Tantos anos passados e quem tinha razão era eu. E já nessa altura as pessoas que lidavam comigo sabiam que se eu achasse que tinha razão não se fazia nada de mim. "Não venhas tarde para casa ou levas tareia." As tareias que eu levei! Mas a verdade é que a proibição sem lógica só me causava desprezo. Hoje, como dantes, só me causa desprezo.
Havia pessoas que não lidavam comigo muito frequentemente e ficavam sideradas com as minhas perguntas incómodas. "Criança reguila", ouvi também muitas vezes. Tinha um especial prazer em demonstrar-lhes que não era "reguila", estava simplesmente a ignorá-los. É assim um bocado como hoje, quando voto em Paulo Portas porque o respeito sem ele me mandar fazer nada, e porque não voto em ninguém do PS ou do PSD porque me dão vómitos. Pena o Manuel Alegre (que ninguém o cala mas não faz nada) não ter o golpe de asa para dar um chuto no partido. Olha, pena eu, a reguila, não ter estômago para a política. Dizem que aquilo é pior do que a aula de anatomia na morgue. E realmente cheira mal.

Esta coisa da obediência é-me, portanto, ainda hoje estranha, se bem que compreenda o conceito. Obedece-se para manter a ordem social. Não me passa pela cabeça, por exemplo, desobedecer a um polícia. Mais depressa fazia o que ele diz porque tenho pena que os agentes da ordem sejam tão mal pagos e desprezados, quanto mais ainda terem cidadãos a contrariá-los. Pois é, até já tenho pena da polícia, e nisto incluo a Polícia Judiciária que passou uma vergonha mundial com o caso Maddie. É de ter pena. Muitas vezes obedeço por essa razão, a pena. Claro que isto não é obediência. É protocolo de misericórdia. "Sim, senhor agente. Tem toda a razão, senhor agente".

Mas há uma altura em que já nem a obediência chega para manter a ordem. É a hora do lobo. Ou da raposa. A noite está escura e não há luar. Ouvem-se lá ao longe os caçadores a conspirar. (Ouvem-nos?)

Depois vêm falar de "mal difuso" e de "perigo de perder a coesão nacional", quando os deputados estão na Assembleia da República, como disse a anónima, não a fazer leis para o desenvolvimento do país mas tão só a meter-se na vida de pais e filhos?!

É a consanguinidade. Coitados, pensam que governar o país é a mesma coisa que ser pai de família. Deviam pensar mais onde andam os filhos deles antes de se meterem na vida dos outros. Pelo que conheço da corja com quem andei na faculdade, são os piores. E a pior notícia é que são esses meninos do papá as cobras do futuro. Esses não têm piercings na língua... só onde não se vê. Nem fumam, só snifam coca. Same old, same old. Sepulcros caiados por fora e cheios de podre por dentro. Tais pais, tais filhos.

Quando se chega a esta situação em que criaturas desprezíveis nos querem roubar a liberdade, só resta uma solução. Desobediência. Mas com jeitinho, que isto é um jogo perigoso. Eu prefiro chamar-lhe resistência.

Estou a pensar fazer um piercing no umbigo.