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domingo, 14 de fevereiro de 2021

A Cat-Shape Hole In My Heart, vários artistas (1999) – requiem pelos ausentes

Um disco de grande beleza pelos nossos amigos felinos ausentes, essas criaturas misteriosas que dignam partilhar connosco as suas vidas efémeras.
O projecto começou quando Sam Rosenthal (fundador de Projekt e Black Tape for a Blue Girl) perdeu a sua gata Vidna devido à leucemia felina e decidiu convidar bandas a integrarem uma compilação que alertasse para essa doença. Os lucros foram, e são ainda, destinados ao Tree House No-Kill Shelter of Chicago, um abrigo para gatos.
Cruzei-me com este disco por acaso (se acreditasse em acasos) quando o encontrei em segunda mão nos anos 2000, ainda na velhinha loja Fata Morgana da avenida Duque de Loulé. Comprei-o logo, mesmo sem conhecer a maioria das bandas. Vinte anos depois, este disco fez-me companhia em alguns dos momentos mais penosos da minha vida: o adeus aos companheiros felinos que estiveram comigo e já não estão. Muitas destas canções fazem-me logo desatar em lágrimas, mas chorar lava a alma.
“A Cat-Shape Hole In My Heart” é um álbum de gótico puro e sublime, um requiem composto por pessoas que passaram pelo mesmo luto destruidor. Um disco obrigatório para góticos que amam gatos. Se ainda não o têm, não imaginam a falta que vos fez.
Não há uma única canção inferior nesta colectânea, mas destaco as minhas preferidas: o desgosto subtil de "Too Far Away" (Area), o comovente "Cayman" (Mira), o devastador "Night and Mourning" (Regenerator), os fantasmagóricos "Galactipus" (Tara Vanflower) e "Felix the Cat" (Collide), o melancólico "In The Snow" com o seu último verso "There’s something that falls apart the instant the light ends" (Dead Leaves Rising), o misterioso "In Dreams Of Mine" (Faith & The Muse).

Há pouco tempo pesquisei e não apenas ainda se encontra à venda o CD em formato físico como agora é possível ouvi-lo e adquiri-lo no Bandcamp do Projekt Records:
projektrecords.bandcamp.com/album/a-cat-shaped-hole-in-my-heart-pay-what-you-wish-1999
Ouçam-no, guardem-no, comprem para os amigos, não emprestem. Um dia vão precisar dele.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Requiem

Mais uma madrugada nasce só para ti
Um novo dia e ainda estás aqui

Vem ver, oh vem ver, o sol brilha para ti
Vem ver, amanhã, um novo dia contigo
Fica só mais um dia, mais um dia comigo

Agora partiste e já não estás aqui.
O sol nasce mas já não nasce para mim.

Ó linda, minha linda, levou-te a noite sem fim.





quarta-feira, 20 de novembro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Morte

O tema é a morte. Vou deixar falar os mortos.

Capítulo “Lei da destruição”


Uma vez que a morte deve nos conduzir a uma vida melhor, que nos livra dos males desta, e, por isso, mais deveria ser desejada do que temida, porque o homem tem um horror instintivo que o faz temê-la? [pergunta]
– Já dissemos, o homem deve procurar prolongar a vida para cumprir sua tarefa; eis porque Deus lhe deu o instinto de conservação, que o sustenta nas provas; sem isso, muitas vezes se deixaria levar pelo desencorajamento. A voz secreta que o faz temer a morte lhe diz que ainda pode fazer alguma coisa para o seu adiantamento. Quando um perigo o ameaça, é uma advertência para que aproveite o tempo e a morada que Deus lhe concede. Mas, ingrato! Rende mais vezes graças à sua estrela do que ao seu Criador.

Nunca tinha pensado nisto assim: prolongar a vida para cumprir a tarefa.


Capítulo “Fatalidade”


Haverá fatalidade nos acontecimentos da vida, conforme o sentido que se dá a essa apalavra, ou seja, todos os acontecimentos são predeterminados? Nesse caso, como fica o livre-arbítrio? [pergunta]
– A fatalidade existe apenas na escolha que o Espírito fez ao encarnar e suportar esta ou aquela prova. E da escolha resulta uma espécie de destino, que é a própria consequência da posição que ele próprio escolheu e em que se acha. Falo das provas de natureza física, porque, quanto às de natureza moral e às tentações, o Espírito, ao conservar o seu livre-arbítrio quanto ao bem e ao mal, é sempre senhor para ceder ou resistir. (…)

Há pessoas que parecem ser perseguidas por uma fatalidade, independentemente do seu modo de agir; a infelicidade não é um destino? [pergunta]
– São, talvez, provas que devem suportar e que escolheram. Mas definitivamente não deveis acusar o destino pelo que, frequentemente, é apenas a consequência de vossas próprias faltas. Nos males que vos afligem, esforçai-vos para que vossa consciência seja pura, e já vos sentireis bastante consolados.

O Espírito sabe por antecipação como desencarnará? [pergunta]
– Sabe que o género de vida escolhido o expõe a desencarnar mais de uma maneira do que de outra. Sabe igualmente quais as lutas que terá de enfrentar para evitá-la e, se Deus o permitir, não fracassará.

Há homens que enfrentam os perigos dos combates com a convicção de que a sua hora não chegou; há algum fundamento nessa confiança? [pergunta]
– Frequentemente, o homem tem o pressentimento do seu fim, como pode ter o de que não morrerá ainda. Esse pressentimento vem por meio dos seus protectores*, que querem adverti-lo para estar pronto para partir, ou estimulam sua coragem nos momentos em que é mais necessária. Pode vir ainda pela intuição que tem da existência escolhida, ou da missão que aceitou e sabe que deve cumprir.

* Espíritos protectores que acompanham a existência de cada um de nós. Semelhante à noção de “anjo da guarda”. [Nota minha]


Porque os que pressentem a morte a temem menos que os outros? [pergunta]
– É o homem que teme a morte e não o Espírito; aquele que a pressente pensa mais como Espírito do que como homem: ela a compreende como sua libertação e a espera.

   

Capítulo “Medo da morte”


O medo da morte é para muitas pessoas um motivo de perplexidade; de onde vem esse medo, se têm o futuro diante de si? [pergunta]
– É um erro terem esse medo. Mas o que quereis! Procura-se convencê-las desde crianças de que existe um inferno e um paraíso, e que é mais certo irem para o inferno, porque lhe dizem que ao agirem de acordo com a natureza cometem um pecado mortal para a alma: então, quando se tornam adultas, se têm algum discernimento, não podem admitir isso, e tornam-se ateus ou materialistas. É assim que se conduzem as pessoas a crer que além da vida presente não há mais nada, e as que persistiram nas suas crenças de infância temem esse fogo eterno que deve queimá-las sem destruí-las.
A morte, entretanto, não inspira ao justo nenhum temor, porque, com a fé, tem a certeza do futuro; a esperança lhe faz esperar uma vida melhor, e a caridade que praticou dá-lhe a certeza de que não encontrará no mundo para onde vai nenhum ser do qual deva temer o olhar.




Capítulo “Intuição das penalidades e prazeres futuros”


No momento da morte, qual é o sentimento que domina a maioria dos homens? A dúvida, o medo ou a esperança? [pergunta]
– A dúvida para os descrentes endurecidos, o medo para os culpados, a esperança para os homens de bem.

Quanto a mim, a curiosidade. Uma curiosidade que não será satisfeita se não houver nada para ver. Se houver algo para ver, dúvidas, medos, esperanças (ou desapontamentos), tudo isso é para depois da curiosidade. Prefiro assim. Sem expectativas.


Porque existem descrentes, uma vez que a alma traz ao homem o sentimento das coisas espirituais? [pergunta]
– Existem menos do que se acredita; muitos se fazem espíritos fortes durante a vida por orgulho, mas no momento da morte não são tão fanfarrões.

Muito boa pergunta.

Excelente resposta.


Capítulo “Natureza das penalidades e prazeres futuros”


O laço de simpatia que une os Espíritos da mesma ordem é para eles uma fonte de felicidade? [pergunta]
– A união dos Espíritos que simpatizam com o bem é, para eles, um dos maiores prazeres, porque não temem ver essa união perturbada pelo egoísmo. Eles formam, no mundo espiritual, famílias com o mesmo sentimento, e nisso consiste a felicidade espiritual, assim como na Terra vos agrupais por categorias e sentis um certo prazer quando estais reunidos. A afeição pura e sincera que sentem e da qual são os agentes é uma fonte de felicidade, porque lá não há falsos amigos nem hipócritas.

A minha permanência na Terra já deve ir muito longa porque não há maneira para mim de acreditar nisto.
A não ser que estejamos a falar de Espíritos que já não são seres humanos, em que o homem se transforme noutra coisa superior ao humano, e aí o caso é outro. Se melhor ou pior... É o mesmo que conjecturar sobre extraterrestres. Talvez. Mas já não são humanos, pois não?


Existe para a condição futura do Espírito uma diferença entre aquele que durante a vida temia a morte e outro que a encarava com indiferença e até mesmo alegria? [pergunta]
– A diferença pode ser muito grande; entretanto, acaba frequentemente diante das causas que geram esse medo ou esse desejo. Tanto quem a teme quanto quem a deseja pode estar movido por sentimentos muito diferentes e são esses sentimentos que influem na condição do Espírito. É evidente, por exemplo, naquele que deseja a morte unicamente porque vê nela o fim de suas aflições, revelar-se uma espécie de revolta contra a Providência e contra as provas que deve suportar.

Esta foi a resposta mais próxima à pergunta que ninguém n'"O Livros dos Espíritos" se atreveu a fazer. E a pergunta é esta: o que acontece se alguém quiser sair do jogo? Se alguém olhar para trás do pano, e conhecer as regras, e se fartar das provas ou discordar da perfeição e pedir o fim? O verdadeiro fim. Segundo a resposta (à pergunta que não se fez, quer porque ninguém estava interessado no fim, quer por medo de a fazer), é a "revolta contra a Providência". Compreende-se que haja medo em fazer a pergunta. Pode ser a última pergunta que se faz.






quarta-feira, 8 de maio de 2013

Gotika: arquivos Julho 2004

julho 09, 2004

O seu tamanho, por favor?




Hoje já estou a escrever demais mas esta não posso deixar de partilhar.
Fui a um velório. Desses velórios, à tradicional portuguesa, com as velhinhas a dizer "não somos nada na vida" e "já não sofre, coitadinha", que se arrasta pela noite dentro...
Bem, o essencial é que estava ali a fazer cara de enterro quando reparei que o caixão da defunta era mais pequeno do que o habitual. Comentei com os presentes que o caixão era pequeno. Disseram-me que a defunta era pequena e estava magrinha. Perguntei se havia vários tamanhos de caixões, e não é que há mesmo?!...
E eu a pensar que com a normalização da fruta e das embalagens da CEE, os caixões também eram normalizados...
Pois não são; há tamanhos. S, M, L, XL?...
E a cova, também é cavada à medida?
E o funeral, é pago ao quilo?

Publicado por _gotika_ em 12:36 AM | Comentários: (33)


~~§~~


Comentário:
Este post tornou a ver a luz do dia porque a coisa me abalou. Será que os caixões já são "normalizados" ou ainda há tamanhos?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Gotika: arquivos Março 2004

março 02, 2004

Tragédias

Duas. Ontem, no telejornal da TVI, duas situações, duas tragédias, ambas comentadas com o rigor e a isenção de Manuela Moura Guedes*.

Mas eram de facto tragédias. A primeira, a do “menino azul”. Uma criança de 7 anos tem uma doença cardíaca rara e incurável. A insuficiência de oxigénio no sangue dá-lhe à pele uma cor azulada (assim como ficam as nossas mãos quando está frio). Alimenta-se por um tubo. Leva cerca de 50 injecções por dia. Precisa de mais de 20 medicamentos para se manter vivo. O Estado comparticipa metade dos medicamentos mas não dá um tostão para as pomadas para a pele. A mãe não trabalha, nem pode, com o filho a exigir tantos cuidados. Gasta 1000 euros por mês em medicação. Sem possibilidade de pagar tanto, escreveu a pedir que o Estado pague a totalidade dos medicamentos. Viu o pedido recusado.
Esta criança vai morrer. Disso não há dúvida. Para a mãe, cada dia é mais um dia. E o pior é que a criança, sorridente, alheia ao que se passa com ele, vive intensamente cada dia apesar da pobre qualidade da sua vida. Numa nota de humor negro, imagino dizerem àquela mãe o que o veterinário disse do meu gato: “Ò minha senhora, isto... Isto... Isto não tem cura... Podemos dar injecções mas não tem cura.”, que se pode interpretar como “anda a gastar dinheiro em vão”. Pois foi isso mesmo que o Estado disse àquela mãe.

Pensamentos:
Tirando o facto de que o Estado não devia ser paizinho nem mãezinha de ninguém, mas que a situação dos portugueses é de facto esta e que os pobres, com os seus ordenados e pensões de miséria, não sobrevivem sem o Estado...
- em Portugal, uma criança rica vive mais tempo do que uma criança pobre, em pleno século XXI, na União Europeia.
- a vida de uma criança devia ser mais importante do que a de um gato, mas isso depende do recheio da carteira dos pais.
- a situação vai resolver-se de uma de duas maneiras terceiro-mundistas: ou o Estado arranja à pressa um subsídio para o menino porque o caso apareceu na televisão ou, não sei o que é pior, algum rico vai pagar os medicamentos ao menino com caridade(zinha).
- num país onde se constróem 10 estádios de futebol para entreter os pobres, se calhar os pobres têm culpa e é bem feita.
- os pobres só percebem quando lhes toca a eles (preguiça, falta de pensamento, insensibilidade aos problemas alheios?)
- há administradores de empresas públicas a ganhar 9000 contos por mês e não há dinheiro para mais uns dias de vida de uma criança.
- isto está bonito.
- e não é caso único, vejam o post no Caccaocino sobre as crianças com trissomia 21 (síndrome de Down): “Recentemente, saiu uma lei que obriga a filha da Catarina se quiser receber benefícios fiscais a obter uma nova declaração que prove que a criança é portadora de deficiência de cinco em cinco anos como se a trissomia 21 se curasse!...”
- isto de ter filhos é só para os ricos.


Segunda tragédia. 60 mil licenciados desempregados em Portugal, com testemunhos, a viverem de biscates e trabalho temporário. Nesta estou eu incluída. Nos testemunhos revi-me eu. Por isso também sei do que falo.
Todos tinham tido um empregozinho durante uns tempos após a conclusão da licenciatura, na área para a qual estudaram. Depois ficaram sem ele e nunca mais conseguiram outro. Eu explico porquê. As empresas contratam jovens “estagiários”, não remunerados ou quase, e não querem gente com experiência. Quando o trabalhador começa a exigir um aumento porque já lá trabalha há uns tempos valentes, é posto na rua por dá cá aquela palha. E não volta a ser contratado por outras empresas da área porque todos os anos sai das universidades uma fornada nova de trabalho escravo. Se um estagiário não remunerado não consegue dar conta do recado, metem-se dois. O custo é igual. O resultado é o mesmo.
Enquanto isto estiver assim, a malta com alguma experiência fica na prateleira. A taxa de natalidade tem descido nos últimos anos, hão-de acabar-se os pimpolhos recém-licenciados às catadupas. Talvez aí se consiga arranjar um emprego decente...
Gostei do cinismo com que a reportagem foi conduzida, provavelmente por uma jornalista estagiária a ver a vida a andar para trás, quando uma licenciada em Ciências da Comunicação afirmou ter realizado um estágio não remunerado numa televisão durante três meses e, sublinhou, não na TVI. Como se na TVI não se passasse o mesmo! Aliás, a situação não é mais trazida a público porque os meios de comunicação social vivem da exploração do trabalho escravo e ingénuo. É por isso que ainda há gente a dizer: “Quando cheguei cá fora, ao mercado de trabalho, é que me apercebi da situação”. Antes, não. De outra forma não teriam ido encher o cú aos professores que sustentam a criação de cursos de lápis e caneta (não os de ciências, porque requerem investimento) sem a mínima hipótese de saídas profissionais, para se auto-financiarem antes que os pimpolhos escasseiem ou abram os olhos.
Resta a estes homens e mulheres de 20 e tal, 30 anos, viverem com os pais, sem vida privada, sem independência, sem autonomia, e assim se castra uma geração.

É por estas e outras que eu não tenho dinheiro para mandar o gato fazer quimioterapia. Talvez se curasse. Mas se neste país já é tão difícil salvar uma criança pobre, quanto mais um gato...

E assim, tudo está interligado. É uma grande conspiração cósmica contra a minha pessoa. Imagino o que devo ter feito em vidas passadas para merecer este castigo. Devo ter feito caridade(zinha)...

* Temos de admitir que a senhora é rigorosa e isenta no que toca a fazer subir as audiências.

Publicado por _gotika_ em 08:35 PM | Comentários: (17)


Quem não gosta de um cão?

Gosto de ouvir as patas do cão da vizinha de cima, tec tec tec, tec tec tec, de um lado para o outro, e depois ladra “bú! bú! bú!”.
Faz-me sentir segura enquanto durmo. Faz-me sentir segura sempre.
Quem é que não gosta de um cão? Como diria o vampiro Lestat, um ser que é todo Bondade?
Não é humano não gostar de um cão.*

* Tirando certas fobias, que infelizmente também são humanas.

Publicado por _gotika_ em 08:34 PM | Comentários: (6)


A dor desde os primórdios

Não tenho dúvidas de que foi o facto da morte que deu origem à necessidade da religião. Deve ter acontecido em tempos remotos, pré-históricos, quando o homem se deu conta de que os mortos não voltavam. Por isso pergunto: o que veio primeiro, a expressão de dor ou a superstição? E mais uma vez não tenho dúvidas de que o luto, como dor, já existia antes. Bem antes de o homem ter desenvolvido qualquer tipo de criatividade abstracta. Bem antes de o homem ser ainda homem.
Mais tarde, talvez para afugentar essa dor, o homem apercebeu-se da necessidade de acreditar que o morto não morreu de facto, mas que vivia em espírito. Nesse dia deve ter sido investido o primeiro feiticeiro da tribo. O medo que os vivos têm da morte transferiu-se para o medo do espírito do morto. Era preciso, então, apaziguá-lo, aquietá-lo, espantá-lo, para que fizesse a travessia em sossego e não voltasse atrás pelos vivos.
O espírito do morto tornou-se mais temido do que a morte, mas no fundo o espírito do morto não representava mais do que a própria morte.
À medida que as civilizações se desenvolviam, o processo de espanta-espíritos tornou-se cada vez mais evoluído. Não bastava o feiticeiro da tribo. Toda a família do morto, toda a comunidade, devia chorá-lo. Usar roupas especiais, cobrir-se de cinzas, chorar alto, contratando se necessário carpideiras para o fazer. Era necessário fazer barulho para assustar o espírito do morto - tradição da qual ainda guardamos o sino da igreja a bater lúgubre a finados.
Muitas vezes o luto já não exprime dor, mas apenas superstição. Condicionalismo social. Porque fica mal não vestir preto, porque rir é uma falta de respeito a quem partiu. Definiram-se períodos de tempo para o luto a apresentar socialmente, consoante o grau de parentesco ou proximidade com o defunto. Aos pais, esposa e filhos cabendo os períodos de luto mais alargados. Para sossegar o morto. E para sossegar a comunidade de que o morto não voltaria devido a qualquer afronta da sua família. Chorado convenientemente, o espírito não teria razão para voltar. Era necessário ainda convocar o feiticeiro da tribo, o padre, para completar o ritual ao sétimo dia, não fosse o diabo tecê-las.
Este luto tornou-se obrigatório para todos os falecimentos, os dos mortos amados e não amados. Se não se sentia, era preciso fingi-lo.

A comunidade primitiva, penso eu, deve ter começado o luto pela dor, uma dor que muitas vezes não se sente no luto “institucionalizado”. Quando perder um membro da comunidade, ou uma “cria” em quem se investia muito, era de facto uma perda irreparável para a sobrevivência de toda a tribo.
Mas vai mais longe. Os animais sentem o luto. Por menos tempo, é verdade. Tirando os elefantes. Vi num documentário que nas comunidades de elefantes se passa uma coisa verdadeiramente espantosa. Os elefantes, como é largamente conhecido, vão morrer aos cemitérios de elefantes. Aqui ficam os ossos de gerações e gerações de membros da comunidade. E então, ao passarem por ali, os elefantes vivos param, detêm-se, e iniciam um ritual absolutamente incrível. Remexem, com as trombas, nas ossadas. Passam os ossos de membro em membro da comunidade, dos maiores aos mais pequenos, e ficam naquilo durante algum tempo, a provar aos mais cépticos que o ser humano não está assim tão longe dos seus primórdios quanto isso. Não há razão nenhuma de ordem natural que os leve àquele comportamento ritualístico. Não serve para se alimentarem nem para se reproduzirem. Servirá para reforçar a coesão da manada? Quase diria, da “tribo”, porque não estamos habituados a associar as palavras “ritual” com “manada”. E a coesão social faz parte da ordem civilizacional, e já não natural, das coisas. Os seres humanos necessitavam dessa mesma coesão, desde a pré-história, para resistirem aos predadores mais equipados. Actualmente ainda necessitamos dessa mesma coesão para manter a sociedade em funcionamento. Nós e as formigas. Não é, portanto, uma necessidade puramente humana, mas também já não é puramente natural porque muitos animais de hábitos solitários sobrevivem sem ser em comunidade.

Agora vou contar uma história que é verdadeira, e que se não visse não acreditava. A partir daí percebi que de facto a dor veio primeiro e só depois surgiu uma religião que a apaziguasse.
Fui sair à noite. Antes ainda de chegar à paragem de autocarro, vi uma gata branca morta, atropelada, no passeio. Ao lado dela, um gato preto, naquela posição entre o sentado e o deitado (de esfinge) em que se põem os gatos, como se esperasse que ela acordasse. Isso levou-me a pensar que a gata ainda não estava morta, porque se estivesse, pensava eu, o outro já teria desertado o cadáver.
Aproximei-me. O gato preto rosnou-me, ameaçador. Mas não se afastou da gata branca. Perplexa com o que estava a ver, tentei acalmar o gato e mostrei-lhe que vinha para ajudar. Baixei-me a apalpei o corpo da gata morta. Ainda estava morno. Tinha sido recente. Mas estava morto.
Ao perceber que eu viera ajudar, o gato desatou a miar à minha volta. A pedir. O que pedia ele? Que lhe desse a companheira. E pedia-o com mais aflição do que pediria um prato de comida. Eram sons estranhos e cortantes que o gato emitia.
Peguei na gata morta e fui colocá-la no outro lado do passeio que me pareceu mais seguro para o gato que ainda estava vivo e não fazia tenções de sair dali.
Vendo que não podia fazer nada, fui à minha vida. O gato ficou.
Quando voltei, seriam quase cinco da manhã, fiquei estarrecida por encontrar o gato preto deitado ao lado da gata branca. Ainda estava à espera.
Com pena do gato preto, resolvi tirar dali o cadáver. Peguei na gata branca e dirigi-me a casa para ir buscar um saco de plástico. O gato seguiu-me, e miava. Como se acreditasse que eu tinha o poder de restituir a vida à companheira. Afinal, nós fazemos aparecer comida não se sabe de onde... Somos divinos.
Testei. Coloquei a gata dentro de casa e fechei a porta. Agora é que o gato não se calava. Queria entrar também.
Depois meti o cadáver num saco plástico e fui pô-lo num contentor ao fundo da rua. O gato seguiu-me e ficou lá. Aquilo estava a tornar-se aflitivo.
Não costumo deitar-me logo. Umas horas depois voltei a espreitar, era quase manhã, já raiava o sol cor de rosa da aurora, e lá estava ele, o gato preto, a velar o contentor. Preocupei-me por causa dos carros, porque quando viesse a carrinha do lixo não tenho dúvidas de que o gato iria atrás também... Por isso pedi ajuda para uma manobra de diversão. Enquanto eu encaminhava o gato para o sítio onde o tinha encontrado, ali perto, transportando um saco semelhante mas sem o cadáver, outra pessoa se encarregou de ir pôr o verdadeiro cadáver num outro contentor, mais longe.
Evidentemente, o gato não me largou. Depois da voltinha de engodo, voltei ao caixote do lixo perto de casa, que estava num lugar onde não passavam carros, e deixei lá o falso embrulho. O gato caiu no equívoco. Pensava que era ali que estava o cadáver da “amiga”. E ali ficou. Mas já não em perigo.
Disseram-me que esteve ali o dia inteiro, a velar o caixote. Esperava. Depois, já ao pôr-do-sol, deve ter tido fome e lá se foi embora.
Mais uma vez, se eu não tivesse visto não acreditava.

Publicado por _gotika_ em 04:28 PM | Comentários: (4)


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Comentário:
Saliento o post sobre Portugal, este e os que se seguem. Parecem completamente actuais mas na altura foram recebidos como delirantes. Quem só se indigna agora indigna-se tarde e não pode dizer que não foi avisado.
Mas não queriam acreditar.
Se tivessem acreditado talvez tivessem feito alguma coisa mais cedo. Mas a vida corria bem, não corria? Eram os outros que estavam malucos.

domingo, 30 de setembro de 2012

Conto cruel do terror quotidiano

É uma rua comprida e muito inclinada. Todos os dias a atravesso. Os carros têm de a descer devagar, de tão inclinada que é. Naquele dia, esta semana, eu ia atravessar quando olhei para cima e vinha um carro a descer, ainda ao longe, mas mais depressa do que é costume, pelo que preferi esperar que passasse. A rua é longa, ainda demorou uns segundos, e fiquei no passeio à espera. Olhei para baixo. Estavam dois pombos a uns metros, a depenicar no passeio. Um pombo e uma pomba. Sei por causa da coloração das penas. E o carro a descer, em longos, longos segundos. Tempo para tudo. O pombo, parvo do pombo, começa a andar para o meio da rua sei lá porquê, como se fosse Deus quem lhe tivesse dito: olha, vais fazer um teste, avança. A pomba ficou no passeio, a depenicar. Eu fiquei a ver. Tempo para tudo.
A besta do carro também viu o pombo. Não podia não ver o pombo. E continuou por ali abaixo, como se nada fosse. Nem sequer abrandou. Não vinha nenhum carro atrás, nem nenhum carro à frente. Nenhuma razão para não abrandar. A besta estava com pressa. Não tive tempo de atravessar e obrigar a besta a parar, porque já ia abaixo do lugar onde eu estava. A besta passou por cima do pombo, puft!, um monte de carne e penas, o que vivia já não vive, matou e andou, e nem sequer abrandou. Nem sequer viu como eu fiquei a olhar, petrificada de raiva, não apenas raiva, mas Ira, a pensar que um de nós não é humano. Ou eu não sou humana ou a besta não é humana. Não podemos ser ambos humanos. É impossível.
Olhei para a pomba. Tinha ficado petrificada também, olhando, de olhos estupefactos, o cadáver. Naquele momento pareceu-me ver na pomba um momento de lucidez que sobrevém aos animais de maneira diferente do que acontece às pessoas, pois não é verbalizável, mas se fosse seria assim: o meu companheiro desfeito no asfalto!
Estava atrasada mas não me consegui mexer. Demorei a recompor-me do que tinha visto. Porque eu não sou da mesma espécie da besta no carro, que nem abrandou. Eu petrifiquei. Não sei quanto tempo, petrifiquei. Os meus olhos na pomba, a uns metros, aterrorizada. Só quando eu saí do meu transe, e me mexi, e dei um passo, ela abriu as asas e levantou voo. Sei lá se naquele momento consciente de que o companheiro não ia atrás dela. Possivelmente não consciente, o que é uma bênção dos seres irracionais.
Quando regressei, à noite, já não sobrava nada da carne e das penas. Havia só uma mancha amarela. Ninguém diria o que aquilo tinha sido.
As bestas que passaram a seguir também não se importaram de ficar com cadáver nos pneus. Passaram, sem abrandar, e continuaram em frente, todas sujas de morte.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Romance com a morte

Senhora Dona Morte dos dedos de veludo
Fecha-me estes olhos que já viram tudo


Florbela Espanca, sonetos

Lembro-me de ti. Estive no teu abraço durante horas.
Era frio, oh tão frio!, e cinzento.
Não vi nenhuma luz brilhante a chamar-me. Não vi ninguém à minha espera, nem Deus.
Também não cheguei a ver trevas, mas o cinzento tornava-se cada vez mais escuro.
Septicemia. Envenamento do sangue. Ouvi dizer que o fim era agonizante. Nada mais errado.
Fervia de febre. Já não sentia o frio, muito menos a dor. De olhos fechados parecia-me estar entre o cinzento do mar e o cinzento do céu. Ao som da música da minha alma, adormeci.
Foi uma violência quando me despertaram dos teus braços, e de olhos abertos me obrigaram a abandonar a paz com que docemente me levavas.
Nunca me esqueci de ti. Leva-me de volta.

domingo, 17 de agosto de 2008

Invejo-te.
A inveja não é o pecado que me trouxe ao inferno. Mas invejo-te.
Viveste depressa, viveste como quiseste. Partiste num orgasmo de heroína.
Nunca saberás o que é ser velho. O cabelo a cair. Os braços sem força. As pernas trémulas.
O teu rosto será sempre um rapazinho sorridente. Encantador.
Nunca te dirão que a tua arte não presta.
Nunca terás de te preocupar com maldades do mundo que nos matam lentamente. A todos.
Nunca terás crédito indexado à Euribor.
Nunca mais precisarás de gasolina.
Nunca saberás o que é mundo depois de 2001.
Não serás demasiado velho para arranjar emprego.
Não te perguntarão se tens habilitações a mais ou a menos para o supermercado.
Não serás preterido, nas obras, por escravos estrangeiros e mais baratos.
Não terás de emigrar para ser escravo tu também.
Nunca conhecerás a derrota de andar a estudar para nada.
Nunca conhecerás a frustração de seres rejeitado por experiência profissional a mais.
Partiste. Os teus pais choram-te.
Mas não é a ti que eles choram, sabias? Eles choram o filho ideal que nunca tiveram.
Sim, claro que sabias.
E choram o filho ideal que nunca iriam ter.
E isto também sabias, porque vias mais longe do que os outros.
E eles não percebem que morrer foi a melhor coisa que te aconteceu. Não sonham sequer que foi a melhor coisa que lhes aconteceu. Serás sempre o seu pequeno deus.
Invejo-te. Fui cobarde. Todos diziam que estavas errado e acreditei neles. Desculpa-me.
Lamento ter-te deixado. Não lamento teres-me deixado. Nunca teria coragem de te seguir.
Invejo-te tanto!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Pensamentos soltos sobre o suicídio aqui e ali

Hoje o post vai ser sobre um tema a que muitas pessoas são alérgicas por isso aviso desde já que se vai tratar do suicídio de forma e conteúdo ainda não muito bem definido por isso quem correr o risco de se ver possesso por ataques de vómito pró-vida ou não conseguir conter os sacos lacrimais pode já mudar para o blog seguinte.

Começo pela vida.
Ninguém devia ser obrigado a viver contra a sua vontade.
E no entanto, é contra toda a liberdade do homem que ele nasce e se vê obrigado a permanecer vivo, sem ninguém lhe perguntar a opinião prévia. Começa logo mal.
Há correntes de pensamento que dizem o contrário, bem sei. Que o homem nasce porque quer, porque assim decidiu antes de encarnar. Se assim foi, certamente que a sua vontade de abandonar a vida será decerto também respeitada pelos Poderes que lha concederam. A ver vamos. (Só se sabe no fim.)
Para mim, a vida sempre foi um pesadelo que posso levianamente comparar às Docas. Para quem não sabe e para quem nunca visitou o antro nos seus tempos dourados, as Docas são um espaço de lazer em Lisboa, ali depois de Alcântara, que tem bares porta sim porta sim, oferecendo uma variedade de escolhas desde o techno da moda à esplanada veraneja, e permitindo todo um vasto leque de comportamentos que vão do casal que leva os filhos a comer um gelado, aos engates de ocasião ou à ostentação (verdadeira ou falsa) dos ricos e dos intelectuais, onde toda a gente faz questão de ir para não passar por anormal. Dir-se-ia que foi feito para agradar a toda a gente, e toda a gente gosta muito daquilo, mas eu não gosto nada. Por isso sempre comparei a vida às Docas.
(A vida é melhor, porque tem bares góticos, mas não nos percamos na alegoria.)

Ontem andei a pesquisar na internet métodos de cortar as veias eficientemente com o intuito de sangrar até morrer. Tudo se encontra na internet, e não me desiludi. Não, não vou dizer onde é. Isto de morrer dá o seu trabalho, começando pela pesquisa. E que trabalho! Para fazer a coisa bem feita é quase preciso tirar um curso superior. É preciso saber onde estão veias (artérias, dizem) que nem se sabe que se têm. A direcção do golpe também levanta controvérsia. Metade afirma que deve ser horizontal, se apanhando a artéria no sítio cirúrgico, a outra metade clama que é vertical ao longo da veia do braço. A própria profundidade do corte também não é para amadores. Muito profundo e ineficaz e o suicida corre o risco de mutilar os tendões do pulso (em vez de morrer, claro está) perdendo o controle das mãos com maior ou menor gravidade futura. Cortar pouco, por outro lado, apresenta o risco muito pior de o suicida ser rotulado de "suicida a fingir", ou seja, de ser diagnosticado por apenas "comportamentos suicidários" sem verdadeira intenção de morrer. Pior ainda, de desejar chamar à atenção.
(Por esta ordem de ideias, o simples facto de estar a escrever este texto seria um chamar a atenção sem correr o risco de ficar com cicatrizes. O simples gozo que me dá abordar o tema para escandalizar certas mentes não é levado em conta. O que ainda dá mais gozo.)
Concluindo, se não tem sucesso, o suicida que sobrevive é sempre um falhado. Tendo em conta que na maior parte das vezes a falta de sucesso à luz da sociedade dos outros é o motivo maior para a o acto desesperado, não deixa de ser ironicamente cruel.

Isto levou-me a pensar como é difícil morrer em Portugal. Começando pelo simples acto de cortar as veias. Toda a gente sabe que o melhor método de o fazer, depois da perícia (porque envolve conhecimentos acima da média) de cortar as artérias certas no sítio exacto com uns instrumento suficientemente afiado, é através da imersão em água tépida numa banheira. Isto já pressupõe que o pobre diabo tenha uma banheira. Ora, uma banheira é um luxo. Fazê-lo no bidé, isso sim, é de artista!
Em Portugal, até se é pobre demais para morrer "bem". Os únicos casos de sucesso que conheço são daqueles miúdos que se atiram de um certo viaduto ali para Alcântara e o famoso caso do jornalista da TVI que não foi de modas e saltou da ponte 25 de Abril. Ah valente! (E por falar em bravura, aplaudiria de pé se todos os toureiros decidissem fazer o mesmo para mostrar que os têm como dizem.)
E depois há os casos da linha do comboio de Sintra de que ninguém fala.
E dos polícias que usam a sua própria arma.
Para se morrer, tem de ser à bruta.

No Alentejo, e muita gente não sabe disto, o suicídio é uma tradição que nos aproxima da cultura nipónica. É considerado um acto trágico (mas culturalmente aceitável pelos pares), que um homem ou mulher caído em desgraça, por pobreza ou desonra, se enforque com uma corda nas traves do palheiro. Não sei de quem é a tese, mas existe, de que esta familiaridade alentejana com o suicídio de honra tenha a ver com a menor penetração da mentalidade católica numa região essencialmente pagã que demorou mais tempo a "desarabizar". O que faz todo o sentido, especialmente no mundo pós-2001. Certas culturas são mais inclinadas para o martírio socialmente aceite, independentemente da religião praticada. E se pensarmos em religião, até o Messias se deixou martirizar. (Mas isso eram águas para outro moinho.)

Nos Estados Unidos da América, onde toda a gente compra uma arma de fogo desde que não tenha cadastro (e se tiver até arranja peças mais profissionais) o problema põe-se com maior acutilância. Acredito que seja mais fácil acusar "wannabes" numa sociedade em que toda a casa de família guarda uma arma aqui ou ali. De modo que não chega a haver uma "segunda tentativa". E tendo a conta a familiaridade com que os americanos lidam com o suicídio e o homicídio, só mesmo a inexperiência permite o falhanço (e muitos casos com lesões irreversíveis em estado vegetativo). O suicídio com arma de fogo, bem executado, hitleriano, não permite retorno. Só uma sociedade muito amadurecida consegue conviver com esta proximidade da morte. É verdade que se matam a torto e a direito uns aos outros, mas o suicida que pega na sua arma com balas compradas no Walmart e a dispara nos miolos sabe muito bem que não é uma tentativa - é mesmo a "definitiva".
Conheço de lá um rapaz da minha idade que, como qualquer bom americano, tem um casa não uma arma de fogo mas uma verdadeira colecção. Sabendo das suas tendências depressivas pergunto-me como é que ainda está vivo. (É verdade, estará? Tenho de lhe escrever.) Não senhor, não é brincadeira.

Nisso, acho que os americanos levam a melhor. Uma arma, uma decisão, a terra da liberdade. A liberdade suprema que se pode conceder ao ser humano: acabar com a própria vida.

Em Portugal, por defeito europeu, tem tudo de ser feito com maior hipocrisia. E que hipocrisia. Neste momento trágico que vivemos, aposto que se o senhor Sócrates decidisse distribuir kits de suicídio nos Centros de Desemprego e na Segurança Social livrava-se bem de grande parte do déficit. E assim ficavam mais recursos para os neo-liberais Joões Mirandas da terra, que choram cada tostão dos seus impostos para a solidariedade social.
Estranho ser é o humano, porque a ser feito, não podia ser pela calada. Reunissem, pois, um grupo de desempregados de longa duração, numa daquelas salas de centro de emprego onde se têm de apresentar até à última semana de um subsídio de desemprego que não tarda em acabar (para os que o têm), já a contemplarem o suicídio para não sobrecarregarem a família, e proponha-se-lhes a ingestão de uma pílula letal como fim para os seus problemas. Eis a sublevação imediata! O linchamento do funcionário! O instinto animal a funcionar!
Esta é a razão porque nenhum político alguma vez propôs a ideia às claras (por muito que lhe tenha passado pela cabeça e, nalguns casos, até a tenha tentado pôr em prática).
Como é complexa a alma humana! Tão complexa que é capaz de aceitar o seu fim de livre vontade, mas incapaz de aceitar que lhe seja imposta. Para os que amam a vida ainda deve ser mais lixado. Tenho pena, confesso, porque todos todos todos nós vamos morrer. Uns mais contentes que outros.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

EX OBLIVIONE

But as the gate swung wider and the sorcery of the drug and the dream pushed me through, I knew that all sights and glories were at an end; for in that new realm was neither land nor sea, but only the white void of unpeopled and illimitable space. So, happier than I had ever dared hope to be, I dissolved again into that native infinity of crystal oblivion from which the daemon Life had called me for one brief and desolate hour.

In "Ex Oblivione", H. P. Lovecraft

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Heath Ledger



Sin eater encontrado morto em casa no dia 22 de Janeiro, aos 28 anos.
Nada dá mais imortalidade do que a morte.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Romance com a morte

Aqui começa a mais bela história sobre o tabaco jamais contada.
Havia nicotina nos espermatozóides que me conceberam. A minha mãe, felizmente para mim, não fumava. Não porque não tivesse tentado mas não conseguiu porque não gostava. Isto de fumar não é para quem quer, é para quem gosta. Ela só queria ter estilo e ser aceite. Ficou-se pelo caminho. E nunca foi aceite nem nunca teve estilo (mas essa história não merece ser contada por ser demasiado banal).
Nasci. Nasci numa casa de fumador, num tempo em que as crianças andavam sozinhas na rua e descalças, e nenhum mal lhes vinha por isso.
Tempo de liberdade.
Desde que conheci o meu pai, conheci-o com um cigarro na boca. Naquela altura não gostava do cheiro. Há odores e paladares subtis que escapam aos sentidos mal desenvolvidos de uma criança, como o sabor suave de uma cenoura cozida.
Aquele cheiro era agressivo mas cresci com ele e habituei-me a ele. Aquele era o cheiro de que o pai estava em casa, à mesa, a fumar SG Filtro. E quando o pai estava em casa, à mesa, a fumar SG Filtro, nada me podia fazer mal.
Mais tarde, o pai começou também a beber. Aguardente, era o que ele bebia. E começou a beber muito, e também o cheiro da aguardente se tornou repulsivo. Ainda hoje a aguardente me cheira a morte.
O meu pai chegava a casa, de um clube privado onde se jogava à sueca até altas horas da noite, sentava-se à mesa a ler livros científicos e tomava um Rophinol para dormir. Esses eram os bons tempos.
Quando tinha sono ia para a cama e dormia como um anjo.
Não foi o cigarro que o matou, mas a aguardente. Cancro no pâncreas. Bem, cientificamente, pode-se dizer que foram as duas coisas, mais o Rophinol. Mais uma vida de prazeres até ao fim dos seus dias.
O meu pai teve tuberculose e foi mandado para o Caramulo curar-se, uns vinte anos antes de eu nascer, e a tuberculose não o matou. Irmão de sete ou oito irmãos, fora os que morreram em crianças, nem mais tarde uma operação que lhe tirou parte do estômago lhe deu sumiço.
Aos 75 anos, finalmente, chegou-lhe o cancro. Demorou uns seis meses. Ninguém sabia quanto tempo tinha de vida. Não houve quimioterapia nem radiações nem hospitais. Mas nesse tempo havia tempo para cuidar dos moribundos. O meu pai morreu na cama dele, no mesmo quarto em que eu durmo agora, com um enfermeiro que lhe vinha dar cada vez mais injecções de morfina. Dois ou três dias antes de morrer, sem dores mas em plena posse das suas faculdades, o meu pai deixou de fumar. Foi também nessa altura que entrou no pré-coma em que passou as últimas horas de vida. Morreu na cama, na cama dele, junto dos familiares, como deve ser, depois de uma vida bem vivida.
Ò morte, qual é o teu triunfo?

Invejo o meu pai por ter vivido num tempo em que se fumava, em que se tomava Rophinol, em que se bebia aguardente até cair, em que se morria fisicamente antes de se perder a razão, em que nos deixavam partir no tempo devido. Só queria da vida ter a sorte que ele teve e morrer suavemente na minha cama, com alguém que eu amo a segurar-me a mão e um enfermeiro a dar-me injecções de morfina. Morrer antes de me esquecer de quem sou, lúcida e consciente, uma jovem de 75 anos.

O meu pai nem sabe a sorte que teve. Mas eu sei. E não estou disposta a deixar de fumar senão dois ou três dias antes de morrer, na minha cama, com os meus amigos de volta. Nesse dia não me vai apetecer fumar, nem comer, nem beber, mas simplesmente partir, para Deus, onde pertenço. Assim seja.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

A morte moderna

E voltamos a falar na morte.
Há pouco tempo soube da morte de um amigo, mas soube tarde e a más horas. Temos a tendência para pensar que algumas pessoas que desaparecem das nossas vidas estão em todo o lado menos mortas porque são muito novas para morrer. Essa é uma das perplexidades da morte. Nunca se é muito novo para morrer. O dia em que se nasce é um dia mais próximo Dela.
Mas hoje não quero falar da eterna perplexidade da morte mas sim da morte moderna.
Da última vez que fui a um funeral foi por um vizinho idoso a quem tinha apreço. Lembro-me que tive de pedir autorização no trabalho e de me olharem de lado como se fosse uma extravagância, um mimo, uma ida ao cabeleireiro. Pedir dispensa do trabalho para ir a um funeral? Não podia ir ao funeral no fim de semana? E mesmo assim tive sorte. Na condição precária em que me encontro, actualmente só poderia ir à noite ao velório. Acompanhar o defunto à última morada à hora de expediente é que não. O morto que morresse ao sábado.
Isto faz-me impressão, confesso que faz. Seriam vinte pessoas naquele funeral, no funeral de um homem idoso que deve ter conhecido tanta gente ao longo da vida. Até se pensaria que era uma peste. Só uma peste merece ter um funeral de vinte pessoas. Achava eu.
Comecei a pensar no assunto, porque a morte é daquelas coisas que não me saem da cabeça, quando percebi que se um amigo chegado morresse ia ter muitos problemas para ir ao funeral. A lei laboral só contempla essa "benesse" para a família. Ao funeral dos amigos não se pode ir.
E depois pensei como as coisas mudaram com o progresso. Antes, quando Lisboa era ainda uma aldeia de pequenos bairros, e morria alguém lá da rua, nem se pensava pedir ao patrão para ter dispensa para ir ao funeral. Que raio! Fechava a mercearia, fechava a farmácia, fechava o sapateiro, punham a gravata preta e iam todos ao funeral. E depois voltavam, todos, mesmo todos, para os seus afazeres. Não falo do século passado. Falo de coisas tão presentes como os anos oitenta. A partir daí, o progresso ditou que os moribundos fossem para o hospital e os mortos se enterrassem sozinhos. É isto progresso?, pergunto ingenuamente. É isto que se faz nos países desenvolvidos?
Se a minha indignação pega, ainda vamos ter funerais depois das seis. Ou de noite. Faltar ao trabalho para ir ao funeral de um amigo é que não. Com os mortos que vão os velhos, que é o sítio deles. As crianças estão na escola e os novos estão a trabalhar. Não há tempo para enterrar os mortos. Toca a andar, sempre a correr. Isto é que é o progresso? Que honra está na vida quando se rouba a dignidade à morte?
Estranhos tempos, estes. Tempos de guerra, tempos de peste, tempos das mais terríveis trevas. Os vivos estão mortos e não sabem.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Até à próxima

Hoje encontrei a mãe desgostosa de um amigo... mais que amigo... de outros tempos. Soube hoje que ele morreu, aos 27 anos, de overdose, em 1999. Era da minha idade. Dois meses mais novo. Gostava de viver. Gostava das artes, pintura em especial. Era um optimista. Parecia satisfeito. Parecia alegre. Parecia. Simplesmente parecia. Nunca quebrou a máscara. A máscara acabou por se tornar mais forte e estrangulou para sempre a mentira.
Podia ter sido o pai dos meus filhos. Podia ter sido... o meu amor. Se não fosse ela, a rival que mulher nenhuma pode derrotar. Golden Brown. "Sabe a caramelo", disse ele. Também o cheiro da morte é adocicado.

Eras um sonhador. Sonha agora no Elisium até ao dia do reencontro. Nunca te esqueci. Não te esquecerei.

sábado, 24 de março de 2007

Morte em sequência

Tenho uma vizinha que durante anos e anos sempre teve um cãozinho de companhia. Quando o último morreu, a minha mãe era da opinião que por ser de avançada idade a senhora não devia arranjar outro. Uma decisão racional porque pessoas de avançada idade podem morrer antes do animal. Mas a verdade é esta. Esta vizinha minha, se lhe olharem para a cara, não sabem que idade tem. Há trinta anos que a conheço igual. Tem uma daquelas caras, esculpidas em pedra, como John Wayne. Quando eu era bebé tinha medo dela, daquela cara, e daquela voz que parece sair das profundezas de uma gruta. A mulher já enterrou o marido, uma série de cães, e não passou mais de poucos meses até arranjar outro pequeno companheiro. Acho até que tirar o seu cãozinho à senhora é o mesmo que condená-la à morte.
Tem-me feito pensar naqueles casos em que, morrendo o marido, morre logo de seguida a mulher. Pode até parecer em perfeita saúde, mas perdendo esse seu elo à vida começa a definhar, como se quisesse morrer também, e como se morresse por vontade própria.
O que os mata é a falta de motivo para viver. Tira-se o motivo, mata-se a pessoa. Interessante, não é?


Em tribos primitivas, bastava ao shaman, ou feiticeiro da tribo, apontar um osso à vítima, entoando cânticos de morte, e esta morria em poucos dias. Não que exista realmente uma "morte por vudu", mas porque a vítima, por sugestão, se convencia de que estava destinada a morrer. Sendo assim, deixava de comer e beber, sentava-se a um canto e morria mesmo.

Sim, é possível morrer porque se quer. Morrer por vontade. Haverá antidepressivo contra o osso do feiticeiro? É o mesmo que perguntar se há comprimido que cure a fé. Mas essa é outra história.

domingo, 10 de julho de 2005

Uma conversa com a Morte

Não sei se vos disse que era uma das minhas canções preferidas?



It's getting dark
too soon
a threatening silence
Surrounding me
a wind
comes up from the islands

Distance fades to stormy grey
Washed out from the deep of the ocean
Here I will stand to face your wrath
While all the others are praying


Calm down my heart
don't beat so fast
Don't be afraid
just once in a lifetime
Calm down my heart
don't beat so fast
Don't be afraid
just once in a lifetime

No rain can wash away my tears
No wind can soothe my pain
You made me doubt, you made me fear
But now I'm not the same

You took my wife, my unborn son
Torn into the deep of the ocean
I don't pretend that I love you
'Cause there is nothing left to lose


And when silence comes back to me
I find myself feeling lonely
Standing here on the shores of destiny
I find myself feeling lonely

I had a life to give
many dreams to live
Don't you know that you're losing so much
this time
Beyond the waves
I will be free
While all the others are praying

Calm down my heart
don't beat so fast
Don't be afraid
just once in a lifetime
Calm down my heart
don't beat so fast
Don't be afraid
just once in a lifetime

No rain can wash away my tears
No wind can soothe my pain
You made me doubt, you made me fear
But now I'm not the same

You took my wife, my unborn son
Torn into the deep of the ocean
I don't pretend that I love you
'Cause there is nothing left to lose

The love in you,
it does not burn,
There is no lesson you can learn
And there are sounds
you cannot hear,
And there are feelings
you can't feel
Calm down my heart
don't beat so fast
Don't be afraid
just once in a lifetime
I don't pretend that I love you

And this time I'm not scared of you



ONCE IN A LIFETIME
Wolfsheim


terça-feira, 5 de julho de 2005

Até à próxima





Dum Dum
1995 - 2005




(Nota: este não é aquele gatinho que estava fadado para morrer há mais de um ano. O destino é irónico.)
O Dum Dum era um bom amigo. Gostava de cães, gatos e pessoas.
Estou mais pobre. Perdi um amigo.
Morreu como um passarinho, esta madrugada, depois de uma semana de doença súbita. Eu estive sempre com ele até ao fim.

Não quero dizer adeus. Até à próxima, meu amigo!