quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Lisa Gerrard / Marcello De Francisci − Exaudia

Originalmente publicado no Pórtico


A Deusa cantou.
O álbum “Exaudia” é a colaboração de Lisa Gerrard (vocalização) com o produtor / compositor Marcello De Francisci (música), acabado de lançar em Agosto. O resultado é semelhante aos trabalhos anteriores de Lisa Gerrard a solo.
Peça indispensável no altar dos adoradores da Deusa.


domingo, 28 de agosto de 2022

Sombras, de Patrícia Morais

“Sombras” é o primeiro livro de Patrícia Morais, inicialmente publicado em 2014 pela Cool Books, uma chancela da Porto Editora. Terminado este contrato (e a chancela?), a autora optou agora pela auto-publicação.
Esta é uma história em Young Adult/Fantasia Urbana que agradará a quem gostou de “Twilight”, “Harry Potter”, “Diários do Vampiro” e “Sobrenatural”.
Lilly tem uma vida perfeitamente normal até à noite em que toda a sua família é assassinada. Incapaz de ficar no local onde aconteceu o trauma, Lilly parte para os Estados Unidos, a princípio para estudar Mitologia, mas depressa se junta aos Diabolus Venator, uma organização de caçadores de monstros. É a sua maneira de extravasar a raiva e encontrar um sentido na vida… ou de acabar com ela. Junto dos venatori, Lilly envolve-se num quase triângulo romântico com um dos caçadores, Liam, e um vampiro chamado Louis (não, não é o da Anne Rice). Mas poderá confiar em qualquer um deles?
Como estreia, é inegável que Patrícia Morais tem bastante potencial para fazer mais e melhor, mas vejo ainda muito trabalho, dedicação e vontade de aprender à sua frente. Algo necessário a "Sombras" como pão para a boca teria sido um bom beta reader ou revisor de texto.
Como beta reader de contos mais recentes de Patrícia Morais (em que se nota uma evolução substantiva), já tive oportunidade de dizer à autora que ainda falta um português mais elegante a nível gramatical, e que existe uma tendência permanente de decalcar expressões idiomáticas directamente do inglês (é a tal formação da autora em Tradução a imiscuir-se onde não deve) que até podiam resultar se fossem trabalhadas. Algumas escolhas de palavras são igualmente decalcadas do significado em inglês e, lamento, não resultam na nossa língua.
A nível da narrativa propriamente dita, o maior problema está na (falta de) caracterização e bidimensionalidade das personagens. A Lilly até conseguimos conhecer, mas todos os outros são genéricos. Isto vai-se tornando mais grave à medida que se desenrolam acontecimentos dramáticos que nos deviam fazer sentir alguma coisa… se conhecêssemos as personagens e nos interessássemos por elas. Infelizmente, isto não foi conseguido, o que retira bastante impacto à revelação final, quando nos surge um vilão sem profundidade que nunca passou de um nome no papel.
Por último, as personagens de “Sombras” andam na casa dos vinte anos mas comportam-se, falam e agem como miúdos de liceu, o que é grave numa organização que devia ser antiquíssima, sapientíssima e profissional. Esta “juvenilidade” devia ser revista. Jovens adultas não são adolescentes birrentas que andam a puxar os cabelos umas às outras quando se zangam. Basta dizer que o personagem mais velho, o chefe dos venatori, tem apenas 30 anos. Faltava aqui uma maturidade à altura da instituição representada.
Em suma, e apesar do rumo pesado e dramático que a história podia levar, “Sombras” é um livro leve que aborda o sobrenatural e o romântico sem querer aprofundar os temas que, como espectros, gritam das sombras para serem explorados.
Espero muito mais de Patrícia Morais no futuro.

Onde encontrar o livro: patricia-morais.com/livros/sombras


domingo, 21 de agosto de 2022

A Most Violent Year / Um Ano Muito Violento (2014)

“Um Ano Muito Violento” é um título enganador no sentido em que parece menos interessante do que é: em 1981, em Nova Iorque, um empresário tenta salvar o seu negócio dos ataques da concorrência. A sinopse também nos informa de que estatisticamente 1981 foi realmente o ano mais violento da história da cidade até essa data.
A história é aparentemente simples. Abel Morales é um empresário de sucesso no ramo do combustível para aquecimento doméstico quando os camiões da sua empresa começam a ser alvo de assaltos constantes à mão armada. Os condutores dos camiões são atacados e espancados, o que leva o sindicato a ameaçar uma greve se não for autorizado que estes sejam portadores de armas de defesa. Morales é contra isso porque teme uma escalada de violência. A polícia não consegue descobrir de onde vêm os ataques. Embora pareça coisa da Máfia, neste caso esta não tem nada a ver com o assunto. Morales sabe disto porque a sua esposa Anna, contabilista na empresa, é de facto filha de um mafioso. A certa altura esta sugere mesmo “telefonar ao pai para resolver a situação”, o que Morales recusa igualmente.
Como se não bastasse, a polícia está mais interessada em investigar a empresa, suspeitando de fuga aos impostos. Morales encontra-se a meio de um grande negócio: adquirir um terreno no porto, que lhe permitirá descarregar e armazenar combustível com maior lucro. Para isso, não pode falhar o pagamento acordado. Mas, ao saber da investigação, ao mesmo tempo que acontece um tiroteio entre um condutor e os assaltantes, o banco, que prometera apoiá-lo, retira-lhe o financiamento.
Morales é ambicioso e é o patrão, o que não costuma resultar em termos de simpatia. Mas não é ambicioso a qualquer preço. Na verdade, é um homem honestíssimo, que quer sempre fazer tudo com a maior correcção. Não é difícil começar a torcer por ele muito depressa. Mas até mesmo o homem mais honesto se encontra por vezes em áreas cinzentas. Chamar a Máfia para o proteger é uma tentação quando o trabalho de uma vida se encontra prestes a desmoronar devido a actos criminosos de outrem. Não deveria ele responder na mesma moeda? Mais grave ainda, Anna, a esposa, confessa-lhe que desde há anos anda a desviar dinheiro da empresa para uma conta pessoal em nome de ambos. Logo, a investigação não será tão inofensiva quanto Morales julgava a princípio. Conseguirá ele manter os seus princípios e salvar tudo o que construiu? E, depois disto, conseguirá salvar também a sua família? Sem incorrer em spoilers, direi apenas que no fim é a sua humanidade que o salva.
“Um Ano Muito Violento” é a prova de como uma história aparentemente simples pode ser bem contada com suspense e tensão. O filme está classificado como Acção mas eu colocava-o antes no Drama, e só não é tecnicamente um policial porque o protagonista não faz parte das forças da ordem, embora acabe por ser ele a fazer o papel de detective. Além disso, o filme tem uma vertente de época. Aquilo é mesmo 1981, para o bem e para o mal.
Aconselho a toda a gente que gosta de filmes de Máfia, crime, policiais e dramas do género.

14 em 20

 

domingo, 14 de agosto de 2022

Vikings (2013–2020)

Para uma série que andou por aqui durante sete anos e que teve 90 e tal episódios, o que tenho a dizer é muito breve.
Vi o final de “Vikings” com aquele alívio “acabou, acabou, acabou” de ser libertada de um vício prejudicial. Ou melhor, era incontrolável como olhar para um desastre rodoviário: sangrento e horroroso. Confesso que cheguei a pensar, no fim da quinta temporada e devido ao grande hiato que aconteceu entretanto (por alguma razão passaram meses, um ano inteiro, sem aparecer na televisão?), que a série tinha acabado por causa da pandemia, e ainda bem, porque eu não queria tornar a vê-la. A minha primeira opinião não mudou, pelo contrário, foi piorando ao longo das temporadas.
“Vikings” queria ser a história de Ragnar Lothbrok e dos seus filhos, todos eles míticos e propícios a serem romanceados, mas a crítica é unânime quanto ao facto de que o enredo andou muito perdido após a morte de Ragnar, e nunca tornou a encontrar-se. Isto não era inevitável, foi simplesmente um caso de não se conseguir estabelecer os filhos de Ragnar como personagens sólidas. Tirando, talvez, Ubbe, aquele que consegue chegar mais longe, embora os seus feitos (na narrativa da série) tenham ficado em completa obscuridade. Ivar o Sem Ossos era demasiado sádico para que pudéssemos sentir empatia por ele; Hvitserk andou perdido num inferno de motivações contraditórias e dependências incapacitantes (pese embora a óptima interpretação de Marco Ilsø); Sigurd Snake in the Eye, coitado, desapareceu antes de aparecer. E Bjorn, filho mais velho de Ragnar e Lagertha, nunca conseguiu escapar à sombra do pai excepto no campo de batalha, tornando-o um personagem oco e fácil de esquecer.
A certa altura a série sacrificou o enredo e as personagens pela sumptuosidade dos cenários e nunca mais saiu dali. Não é difícil de entender. As reconstruções históricas são fabulosas. Eu própria já só assistia por causa delas. Nem me importo que quase nada tenha acontecido em Paris, na Rússia, até na Arábia (?) onde me parece que Bjorn foi parar durante alguns episódios. Só faltou termos visto Bizâncio. Esta é uma série que não precisa de enredo: vê-se só pelo espectáculo.
A porno-tortura continuou, ou não fosse uma série de Michael Hirst, até ao último episódio, em que ele próprio pôs o pé no travão. Talvez Michael Hirst receie não ter espectadores se não houver bastante porno-tortura. Mas agora, finalmente, após ver a sexta e última temporada, compreendi o que é que Michael Hirst deseja mesmo fazer. Michael Hirst quer criar as suas próprias cenas shakespearianas. E, devo admiti-lo, é nas cenas shakespearianas que ele brilha: nos monólogos e diálogos “to be or not to be”, nos momentos de surrealismo meditativo, no Vidente que volta do túmulo para fazer profecias, nas visões de Cristo no campo de batalha, no momento em que o drogado Hvitserk alucina uma serpente rastejante, monstruosa, e julga que é Ivar que veio para o matar. A sexta temporada foi cheia destes momentos e foi a melhor, na minha opinião, que adoro surrealismo.
A porno-tortura continuou e, como sempre, foi escusada. A incursão na Rússia, por exemplo, que tinha por objectivo humanizar Ivar. Menos porno-tortura antes e as atrocidades a que ele assistiu teriam tido verdadeiro impacto. Assim? O que é que ele viu que ele próprio não tivesse feito? Sim, compreendo, o efeito de espelho. Mas, no fim de contas, parece que Ivar não mudou assim tanto, simplesmente se tornou mais contido. Nem teve tempo de mostrar o que tinha mudado, na verdade. Então, de que valeu? A viagem à Rússia valeu pela arquitectura, pelas paisagens, pelos trajes, pelas cerimónias. Se isto é um elogio a uma série que devia ter enredo? Não é. Mas vê-se mesmo sem ele.
“Vikings” podia ter sido uma série grandiosa, mas auto-sabotou-se. Hirst esqueceu-se completamente do que dá vida a uma boa história: boas personagens, sólidas e consistentes. A partir daí foi tudo por água abaixo. Salvam-se os cenários.
Também não gostei do último confronto: deus cristão contra os deuses nórdicos. Não me parece plausível nem histórico. “Vikings” devia passar-se no século VIII mas foi sempre uma amálgama dos séculos VIII e IX. Mesmo assim, ainda não era o tempo das Cruzadas, das Jihads, das guerras religiosas. Este ainda era o tempo em que a Igreja era perseguida, não perseguidora. Era o tempo em que toda uma nação se convertia porque o monarca se decidia converter. O povo não se importava desde que a sua religiosidade se mantivesse. E foi assim que a Igreja teve de transformar as celebrações pagãs em dias santos, e é por isso que celebramos o Sol Invictus junto ao Solstício. Para as gentes do século VIII e IX o deus cristão não era o bicho papão que é agora. Isto foi anacrónico (à frente do tempo, neste caso).
Hirst conseguiu pelo menos uma coisa: Ivar, Ragnar, Bjorn, Lagertha, não serão esquecidos pela geração que assistiu a “Vikings”. Esse desejo de Ivar, no mínimo, foi atingido. Mas eu ainda queria ver esta história bem contada. Os filhos de Ragnar não se perderam assim tão facilmente na obscuridade do mito.
Gostei de Ubbe e da sua chegada à terra misteriosa a Oeste. Historicamente não foi ele, mas é sempre empolgante.


ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 VEZ

 

domingo, 7 de agosto de 2022

The Meg / Meg: Tubarão Gigante (2018)

Há muito tempo que eu andava a tentar pescar este filme. Não é todos os dias que se vê um megalodonte sem ser em fóssil. “The Meg” é um Jurassic Park com um gigantesco tubarão extinto.
Começa como estas coisas começam sempre: uma expedição de biólogos marinhos na Fossa das Marianas descobre, a mais de 11 mil metros de profundidade, um novo ecossistema virgem, pré-histórico e até aqui desconhecido. É tudo muito bonito até um dos submarinos ser atacado por uma lula gigante, lula esta que foge muito depressa à aproximação de algo ainda maior… Muito mau sinal!
Eis que ele aparece, o megalodonte (o CGI é muito bom), e os submarinos têm de se pôr a milhas a toda a pressa. Mas, como sempre acontece nestas coisas, o megalodonte segue-os até à superfície onde encontra um novo território de caça sem predadores à altura. O megalodonte consegue partir uma baleia em duas!
O resto já se adivinha e não é preciso contar. Saliento apenas o momento de reflexão: “descobrimos, destruímos”. Neste caso, sem tempo para mais, não havia grande alternativa.
Há muitas caras conhecidas neste filme, das quais destaco Cliff Curtis (o Travis Manawa de “Fear the Walking Dead”). Mas o meu preferido mesmo é Rainn Wilson (o Dwight Schrute de “The Office”) e quem viu de “The Office “ sabe que vale a pena ver Rainn Wilson nem que seja a descascar batatas (ou beterrabas, neste caso).
Este é um filme excelente para se ver antes de ir à praia, ou mesmo na praia, ou mesmo numa bóia, a vogar, de pés na água. Banhos felizes!

14 em 20


domingo, 31 de julho de 2022

Snu (2019)

Este foi um filme que adiei ver, e um filme que me custou a ver com imparcialidade. Por esta razão, vou pôr as cartas todas na mesa. Tinha apenas 8 anos quando Sá Carneiro morreu, mas a verdade é que já nessa idade nunca gostei da pinta dele. Também é verdade que raramente gosto da pinta de qualquer político, mas este em particular, que era primeiro-ministro e que eu via na televisão todos os dias, não me dava boas vibrações. Nem sequer estou a falar da ideologia que o político preconizava porque era demasiado nova para a compreender. Estou a falar do homem, da antipatia que sentia por ele. (Embora eu esteja perfeitamente convencida de que o homem foi de facto assassinado, mesmo que a bomba não fosse para ele. Veja-se sobre isto outro filme controverso, “Camarate”.)
Em 1980 não sabia nada da Snu Abecassis, nem tinha idade de saber. Tínhamos acabado de sair da ditadura, não era coisa que se falasse na Crónica Feminina. Os mais velhos também não falavam do assunto, e depois de Sá Carneiro morrer muito menos, para “não falar mal dos mortos”. Só descobri já na adolescência.
Mas este filme não é sobre política, mas sobre a história de amor entre Sá Carneiro e Snu. Mesmo assim, tive muita dificuldade em abstrair-me das ideias políticas, ainda por mais quando o filme mostra constantemente intervenções reais do verdadeiro Sá Carneiro na televisão da altura. Numa delas, ele dizia que o PPD estava a fazer tudo para que os “mais jovens tivessem um futuro melhor”. Eu ri-me, ri-me às gargalhadas. Não por culpa dele. Se calhar ele até estava a ser sincero (não tenho razão para pensar o contrário). Mas tanta gente se colou a ele, tanto energúmeno ao longo da história do PPD/PSD, incluindo o senhor Passos que mandou os jovens saírem da zona de conforto e imigrarem. Se calhar Sá Carneiro não merecia lapas destas agarradas à sua memória, mas os mortos não falam. A verdade é que, para além da antipatia que eu já sentia por ele, Sá Carneiro me lembra todos estes figurões que vieram a desfilar depois dele pelo PPD/PSD e foi difícil ver o filme sem ter isso sempre presente.
Mas vou pôr a política de lado e vou tentar.
“Snu” funciona como um documento histórico preciso, tão preciso que me irritou. Irritou-me aquela gente rica toda, aqueles betos que tratam os paizinhos por você e vice-versa, aquela gente de famílias opulentas que tinha grandes casas de banho onde tomar banho ou duche numa altura em que o povo passava mal, mesmo muito mal, e ainda se lavava num alguidar. Lá está, novamente, a dificuldade em avaliar o filme de forma imparcial. Ver o filme deu-me vontade de arrancar os cabelos, o que só significa que está muito bem feito. Foi pena não termos ao mesmo tempo a outra face da moeda: aquela gente pornograficamente rica enquanto o povo vivia na miséria.
Mas esta é uma história de amor trágico. Ainda antes da tragédia propriamente dita, o casal teve de enfrentar o grande problema das mentalidades. Nos anos 80, O PPD ainda cheirava a igreja. Este cheiro foi progressivamente passando para o CDS (RIP) e por lá ficou. (Sim, eu não queria falar de política, e estou a conter-me, mas é difícil quando o protagonista foi um antigo primeiro-ministro.) Na altura, PPD e CDS mal se distinguiam, daí a AD (Aliança Democrática) com outro partido improvável visto do nosso tempo: o PPM (Partido Popular Monárquico). Este era um Portugal profundamente salazarento, pidento, todo ele a cheirar a igreja católica. Um primeiro-ministro não podia apaixonar-se, e muito menos divorciar-se. (Ainda há alminhas, em Portugal de 2022, que não querem divorciar-se porque é pecado, tenhamos isto em atenção! O cheiro a igreja impregna-se no cérebro e depois custa a sair, quando alguma vez sai.)
Snu e Sá Carneiro, ambos casados, tiveram o azar de se apaixonarem naquela altura. Não chegou a ser um escândalo público porque, tragicamente, não houve tempo para que toda a gente soubesse. Algumas notícias em alguns jornais, mas nunca o falatório que seria agora.
O filme chama charmoso a Sá Carneiro bastantes vezes. Ora, eu não podia discordar mais. A carantonha que aparecia na televisão era tudo menos charmosa. Mas, quem sabe? O que somos em público é muito diferente do que somos em privado, e o que somos na intimidade ainda pode ser mais charmoso. Snu e Sá Carneiro eram um amor proibido para a altura, o que talvez ainda os tenha aproximado mais. A eterna tragédia de Romeu e Julieta.
Se nunca achei Sá Carneiro charmoso, não posso dizer o mesmo do actor que o representou, Pedro Almendra. Tão charmoso que se calhar até me convencia a votar nele! A personagem Snu (nunca conheci, nem sequer vi a pessoa real) faz um retrato muito convincente de alguém que se apaixona por um homem pelo seu ideal. Não é o meu ideal, mas compreendo. Até compreendo todas as boas intenções daquele tempo, embora discorde delas profundamente.
Sá Carneiro quer casar com Snu, mas isso implica divorciar-se da mulher que é a mãe dos seus não-sei-quantos-filhos. De acordo com a mentalidade da época, a mulher não lhe quer dar o divórcio. Acredito que seja daquelas que ainda hoje não daria o divórcio. Aqui posso fazer também o meu juízo de valor e perguntar-me porque é que um homem de visões mais largas casou com alguém de visões tão estreitas? Porque dava jeito ter uma esposa “bem”, muito honrada e católica? Reparem, não estou a falar mal dos mortos. Estou a dizer que sempre, em todas as épocas, a gente se deita na cama que faz. Às vezes há quem se deite na cama que parece mais fácil só para descobrir que é uma cama de picos. Vamos esquecer que estas personagens são pessoas reais. Vamos imaginar que são ficcionais. Quando ele casou com ela, como ela diz, colocou-lhe um anel no dedo e disse-lhe que era até que a morte os separasse, sabendo bem que ela levava essa promessa muito a sério. Também compreendo que algumas pessoas mudam, divergem, e não se tornam a encontrar. Mas aqui há culpa para toda a gente e para ninguém. E sim, sei que estou a dizer isto do conforto de 40 anos depois. E, mesmo assim, ainda há quem não tenha percebido estas coisas básicas: as pessoas mudam, divergem. Nada é para sempre. Que este filme sirva ao menos para abrir alguns olhos ainda embaciados de incenso de sacristia.
A nível das interpretações tenho de dar dois grandes parabéns:
À actriz Ana Nave, que fez uma Natália Correia tão real que até me esqueci de que não era a própria. (A Natália Correia eu tive muitos anos para conhecer.) Trabalho extraordinário. Até fiquei arrepiada.
À actriz Joana Brandão, que fez uma Manuela Eanes exactamente como eu me lembro dela. Fiquei igualmente arrepiada.
Já outros personagens não foram tão bem conseguidos. Só percebi que era Mário Soares quando Snu lhe chama Mário. Maria Barroso, Freitas do Amaral, Ribeiro Telles, Helena Roseta, etc, etc, não os reconheci. Mas o filme também não era sobre eles.
Tirando tudo isto à parte, este é um documento histórico (e político) sobre a vida da alta sociedade portuguesa à saída dos anos 70. Reconheci tudo, vi tudo. Do outro lado da história, mas vi. De tal forma que é difícil fazer as pazes com o que se passa aqui, por muito que queira. A história de amor é bonita e trágica, Romeu e Julieta, que não tinha de acabar assim, e não devia ter acabado assim porque ninguém o merece. Mas este era também um mundo bafiento e fechado, um mundo que Snu e Sá Carneiro, na maturidade das suas vidas, queriam arejar. Era inevitável abrir as janelas.
Uma das melhores partes do filme é quando se mostram imagens reais da Revolução de Abril misturadas com filmagens actuais e “envelhecidas” de Snu e Sá Carneiro. Portugal precisava dessa Revolução de Abril, mas ainda precisava mais da outra, da revolução de mentalidades que seriam Snu e Sá Carneiro. Que ainda precisa, 40 anos depois. Se foi isto que o filme quis fazer, e acredito que foi, então fez bem.

(Não vou dar nota ao filme porque não consigo ser imparcial.)


terça-feira, 26 de julho de 2022

Crítica ao livro "Vanda", de D. D. Maio - por Rita (Goodreads)

[por Rita, book.serotonin no Instagram]

Directamente do Goodreads:

Como não amar a escrita de D.D.Maio...?
Sou suspeita. Adoro tudo o que escreve. Sou fã, uma das minhas escritoras favoritas.
Mais um livro e mais a adoro.

Vanda, uma personagem que me surpreendeu do inicio ao fim.
E como adorei a personagem do Dayn! Chorei o seu destino.
Vanda, uma personagem tão forte... Adorei ler a sua história.
É uma história fortíssima, que não recomendo a todos mas que adorei! 

 

Toda a informação AQUI

 

 

domingo, 24 de julho de 2022

A Náusea, de Jean-Paul Sartre


"A Náusea” é o primeiro romance do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre. O protagonista, Antoine Roquentin, fica abalado quando repara que alguns objectos lhe causam o que ele chama “a Náusea”, e começa a registar as suas experiências num diário. Roquentin está a tentar escrever a biografia de uma figura histórica mas a certa altura até o alvo do ensaio lhe causa a Náusea e tem de desistir. Mas o livro não leva o rumo kafkiano que sugere à partida. Quanto mais analisa a sua relação com os objectos e reflecte nas suas observações do mundo e das pessoas à sua volta (os outros “solitários”, como ele lhes chama) melhor Roquentin percebe que a Náusea não está no exterior, nos objectos, mas que vem antes do interior de si próprio: ele “é” a Náusea.
Filosófico, psicológico, e até sociológico, este não é um livro para toda a gente e não conta exactamente uma história. Consiste em entradas de diário em que o protagonista vai descrevendo o seu dia-a-dia, as pessoas com quem se cruza, as ruas onde passa e os transeuntes que as frequentam (em jeito de comentário social bastante cortante), muitas vezes em estilo de “corrente de consciência” confessional. Anny, um amor do passado, é mencionada as vezes suficientes para que o leitor perceba que foi uma ex-amante, mas sem que o protagonista lhe queira dar a importância que ela realmente tem. Anny é a única “história” do livro, no momento em que convida Roquentin para um encontro. Este vai, fingindo a si próprio que não quer reatar com ela, quando no fundo é tudo o que mais deseja, já adivinhando realisticamente que isso não vai acontecer e preferindo antecipar de antemão como é que as coisas vão correr.
No diário, Roquentin descreve os seus estados de humor e questiona-se sobre o que é existir, e, acima de tudo, o que significa existir. Não no sentido “penso logo existo”, mas numa outra profundidade. Como, por exemplo, a cena da árvore, que o faz questionar até que ponto termina a existência da árvore para começar a sua e se não será uno com a árvore (o que ecologicamente até faz sentido). Por fim, Roquentin confronta-se com o significado da existência e chega a uma conclusão que vai agradar muito aos escritores que lerem este livro.
Não aconselho a toda a gente, mas aconselho vivamente a todos os que gostam de filosofia, psicologia e sociologia, e a quem gosta de pensar profundamente.