domingo, 9 de abril de 2023

Damien (2016)

E se o Anticristo não quisesse sê-lo? Longe do original de 1976, com o miúdo sinistro que me lembra uns AC/DC muito maléficos, este é um Damien adulto, dos nossos dias, que recalcou todos esses acontecimentos traumáticos da infância e juventude. Imagens do primeiro “The Omen” são usadas em flashback e a história parte daí, mas este é um Damien muito diferente.
Desde o início da série que tive dificuldade em perceber o caminho que os criadores queriam seguir. Damien Thorn (Bradley James, o Arthur de “Merlin”) é um repórter fotográfico de guerra, simpático e humanitário, e um verdadeiro herói. Seria difícil antipatizar com este “Anticristo”. Por outro lado, não é verdade que o destino do Anticristo é arrastar nações atrás de si e conduzi-las à guerra, causando o Armagedão e a Segunda Vinda? Mas a decência de Damien não é uma simpatia falsa, ardilosa. Este Damien é mesmo do Bem. Como, então, convertê-lo ao Mal?
Em Damasco, em pleno conflito na Síria, no dia em que faz 30 anos, Damien tem um encontro com uma velha suspeita e vestida de negro (penso que sei quem é a Velha, mas não revelo) que lhe diz as palavras que o Espírito Santo diz dos Céus após o baptismo de Cristo. Este choque, aparentemente, faz com que Damien recorde todos os acontecimentos traumatizantes da infância, como o momento em que fez cair a mãe de um balcão abaixo.
Cada vez mais taciturno, confessa à ex-namorada que apesar da amnésia sempre sentiu uma “escuridão” sobre si, razão pela qual pôs termo ao relacionamento e se tornou um solitário. O seu único amigo é mais um colega e sócio que trabalha com Damien.
À medida que Damien investiga a mulher de negro e as suas estranhas palavras, bem como a sua infância, as pessoas que lhe são próximas ou com quem ele contacta começam a morrer em acidentes bizarros. Isto chama a atenção de um detective experiente e determinado que está convencido de que Damien, o único elo de ligação entre as vítimas, é um assassino, e que começa a persegui-lo para o apanhar em falso.
O próprio Damien repara que todos os seus colegas, durante as suas carreiras de repórteres, sofreram ferimentos de guerra, mas não ele. Damien lembra-se também dos Rottweilers que o seguem para todo o lado, e recorda-se do seu sinal de nascença, o 666 no couro cabeludo. Ao mesmo tempo é abordado por uma mulher misteriosa, Ann Rutledge, que se apresenta como executora da fortuna dos Thorn e lhe revela coisas igualmente portentosas sobre o seu destino: a coberto de uma grande corporação multinacional a operar nos mercados financeiros e na indústria militar, Damien tem tudo e todos à sua espera.
Damien rejeita-a terminantemente e ao seu papel de Anticristo. Obcecado, entra em depressão e começa a culpar-se por coisas que nunca poderiam ser culpa dele, como os massacres que testemunhou no terreno e até catástrofes naturais, e tenta suicidar-se. É literalmente salvo pelos Rottweilers.
Mas Damien não pode simplesmente recusar e fugir. Por um lado os satânicos perseguem-no para que os lidere; por outro, o Vaticano manda assassinos para o matarem. O Bem intrínseco à personagem leva-o a tentar pôr fim a si próprio, mas as entidades sobrenaturais não permitem. É um beco sem saída.
Em desespero de causa, deixa-se conduzir ao “inimigo”, uma freira exorcista do Vaticano, num episódio ironicamente chamado “O diabo que conhecemos”. Damien quer pedir ajuda, mas em vez disso, fazendo “o trabalho de Deus”, ela apunhala-o e tortura-o para exorcizar os demónios, o que finalmente faz despoletar os poderes do Anticristo.
Porque é que esta série não foi renovada? Sinceramente, não sei. Os fãs de “The Omen” gostaram mas a crítica acusa a lentidão do enredo e a falta de concretização do que está realmente à disposição de Damien (só começamos a perceber no último episódio). Tenho para mim que os criadores da série queriam ir construindo o contexto devagar, acreditando de certeza que a série seria renovada. Por exemplo, há todo um episódio em que Damien está em coma e acontecem várias coisas contraditórias que me confundiram imenso porque não se percebeu que era um sonho. Qual foi o propósito deste episódio? Penso que foi “reunir” de novo Damien e a sua mãe adoptiva e dizer-nos claramente que nem a nível subconsciente Damien quer ser o Anticristo. Se ao menos se tivesse percebido melhor que era um sonho o episódio teria sido mais eficaz.
Infelizmente, na minha opinião, a série não foi renovada. E digo infelizmente porque havia aqui muita coisa a explorar, como Damien contra o seu destino, a importância do livre-arbítrio contra a inevitabilidade, a luta entre o Bem e o Mal a nível ético, e talvez até a luta entre as forças do Bem e as forças do Mal a nível religioso. Mas a série foi demasiado lenta para agradar à maioria, o que é pena. Recomendo a todos os fãs do tema e admito que é uma delícia ver Bradley James no papel de Anticristo.
Saliento os créditos de abertura, em que vemos imagens clássicas do diabo e demónios espelhadas nos arranha-céus das grandes corporações. Muito bem feito: é mesmo lá que ele está! Outro caminho a seguir seria o Anticristo voltar-se contra a raiz de todo o Mal. Que pena. Eu gostei da cinematografia, do enredo, da imagética demoníaca, das alucinações, dos exorcismos, dos Rottweilers, da música genial de Bear McCreary, da tensão, das personagens… Bem, gostei de tudo, na verdade. Só não gostei que a série não tenha sido renovada.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes (especialmente porque o episódio do coma é muito confuso se não se vir outra vez, há que dizê-lo)

Vale a pena ver os créditos de abertura AQUI.

 

domingo, 2 de abril de 2023

I Still See You / Sei Que Estás Aqui (2018)

[contém alguns spoilers]

Para começar, é um filme do canal SyFy, com tudo o que isso implica. Mas a premissa é interessante. Na sequência do colapso de um acelerador de partículas (como o CERN) muitas pessoas morrem porque são directamente atingidas. Mas este “evento” provoca igualmente uma situação inesperada: o aparecimento de fantasmas, por toda a cidade, de pessoas mortas há muito mais tempo. Na verdade, não são bem fantasmas como os conhecemos. São “resquícios” de energia, não comunicativos, inofensivos, presos num loop em que repetem determinada acção vez após vez todos os dias à mesma hora: a senhora que atravessa a rua, o homem que varre o pátio, o pai da protagonista (morto no colapso) que todas as manhãs lê o jornal ao pequeno-almoço. Quando o loop acaba, os fantasmas desvanecem-se.
Mais interessante ainda. À medida que alguém se aproxima do epicentro do colapso, os fantasmas são provenientes de épocas muito distintas, todos eles a cruzarem-se uns com os outros e com os vivos sem interagirem com ninguém. Como diz a protagonista, é como viver numa casa assombrada, só que à escala de uma cidade inteira.
Há teorias científicas por trás disto: os multiversos, as dimensões paralelas que podem ou não existir em simultâneo. Duvido é que estas dimensões sejam povoadas por resquícios energéticos de gente falecida, mas vamos aceitar a fantasia.
Na verdade, a suposta ficção científica começa e termina aqui. Depressa a protagonista parece ser perseguida, ou avisada, por um fantasma que lhe aparece em casa e que não estava lá antes, e que lhe escreve no espelho: FOGE.
A partir deste momento, o filme torna-se bizarro. Um pai, a quem a filha morreu como consequência do colapso, começa a matar raparigas da mesma idade na tentativa de trazer a filha de volta aos vivos (?), sem que nada de científico ou sobrenatural, ou nada de nada, o aponte como possível. Enfim, completamente doido. A protagonista teve o azar de nascer a 29 de Fevereiro, data de nascimento da tal outra rapariga, e o assassino convence-se de que vai conseguir “enfiar” o fantasma da filha no corpo da substituta se esta morrer. Como? Perguntem ao filme, porque o filme não explica. Ou o homem é tão maluco que não merece explicação.
No fim acaba por ser uma vítima a fugir de um serial killer, em que os fantasmas não têm qualquer relevância.
É pena, porque o início prometia algo de original e diferente, uma cidade em que os vivos têm de viver com os fantasmas dos mortos. Terminar assim, com um serial killer prosaico e não muito certo das ideias, foi uma decepção.

12 em 20 (pelo início promissor)


domingo, 26 de março de 2023

13 Reasons Why (2017 - ?)

O suicídio é o último tabu. Já repararam que não se fala em suicídio nas notícias? As estatísticas do suicídio são guardadas a sete chaves. Porquê? Porque fizeram um estudo no século passado que relaciona notícias de suicídio com um aumento de tentativas. Os media adoptaram esta atitude de “mãezinhas” e é proibido falar do assunto. Eu discordo completamente. A política de silêncio faz com que as pessoas em risco se sintam ainda mais isoladas e anormais. Além disso, se se considera que fazer um aborto é ter “controlo sobre o próprio corpo”, o suicídio é um direito ainda maior. Não há maior controlo sobre a própria vida do que lhe pôr termo. Mas achei bem explicar isto dos suicídios e dos media.
É daqui que vem a controvérsia acerca desta série em que uma adolescente se suicida e deixa 13 gravações em cassete a explicar a sequência de eventos que a levou a essa decisão. E ela deixou as explicações em cassete “para não ser fácil” ouvi-las, como ela diz, para implicar esforço da parte de quem as recebe.
Hannah é uma jovem linda que se acha feia e invisível, para começar. As primeiras K7s são sobre coisas quase insignificantes. Sim, Hannah foi alvo de bullying, mas quem não foi alvo de bullying na escola? Só os bullies, e talvez nem isso. Gera-se uma mentalidade de alcateia: se não caças connosco és uma presa também. Toda a gente passou por isso.
De seguida, um amigo tem a estúpida ideia de a incluir numa lista de “melhor” e “pior” como “melhor rabo da escola”. Sei que há muitas raparigas verdadeiramente invisíveis, numa altura da vida em que atrair alguém romanticamente é um caso de vida ou morte, que adorariam ser o “melhor rabo da escola”. Mas Hannah está convencida de que todos pensam nela como “a rapariga fácil” e fica bastante magoada.
A princípio podemos pensar que não são razões para ninguém se matar, mas à medida que a história avança começamos a saber de coisas muito mais graves que se acumulam às coisinhas pequeninas. Ao mesmo tempo, os pais de Hannah têm problemas financeiros. É preciso nunca descurar esta parte. Muitos adultos cometem suicídio por causa de dinheiro (ou da falta dele).
Gostei que a série não tenha evitado a cena do suicídio propriamente dito. Mostra como Hanna morreu sozinha, em dor, no frio, em lágrimas. Não é exactamente algo de muito apetecível e duvido que algum adolescente se sinta tentado a imitá-la.
O que me tocou mais foi a angústia dos pais, que de repente perderam uma filha e não percebem porquê. Mas houve momentos em que Hannah disse coisas que ecoaram perfeitamente, coisas que eu própria pensei. Como quando ela diz “já nada me interessa na vida, e aqueles que amo ficariam muito melhor sem mim”. Estes são pensamentos depressivos que pediam intervenção profissional imediata, mas Hannah não a teve. Na verdade, muita gente pensa que os miúdos dizem isto para chamar a atenção. O pior mesmo é quando os miúdos se isolam e deixam de falar sobre o assunto. Foi o que Hannah acabou por fazer.
Tirando Hannah, o protagonista da história é Clay, seu quase-namorado, a quem as K7s são entregues por último. Clay quer justiça, mas desconhece que os outros implicados (de forma mais ou menos grave) se estão a organizar numa autêntica conspiração para o desacreditar (e a Hannah) de modo a protegerem os seus próprios segredos.
Na adolescência é tudo um caso de vida ou de morte e 5 minutos duram anos. Tudo é para sempre. Gostei desta representação realista de meia dúzia de miúdos a aprender a navegar a vida. Clay, por exemplo, no início parece ter uma mentalidade de 13 anos. Pelo fim da série, não sendo ainda adulto (e não obstante continuar a ver o mundo a preto e branco) parece ter amadurecido 10 anos.
Recomendo “13 Reasons Why” mas achei que muitos episódios se debruçaram demais sobre personagens secundários que não nos interessavam assim tanto. Talvez por isto a série tenha durado mais três temporadas.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

 

domingo, 19 de março de 2023

Macbeth (2015)

Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life's but a walking shadow, a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

in "Macbeth"


Confesso que não era fã de William Shakespeare até um dia ver a peça abreviada “Hamlet”. Nem era um filme nem nada, era só uma peça de uma hora e meia, toda a gente vestida em roupa moderna. Os diálogos foram reduzidos ao mínimo. E fez-se luz! “Hamlet” é a minha peça preferida.
Mas aqui não estamos a falar de “Hamlet” mas de ”Macbeth”, outra peça intemporal do Bardo. Uma peça amaldiçoada, cujo nome os actores não pronunciam nos bastidores porque dá azar.
Esta adaptação em forma de filme pode muito bem ser a introdução ao mundo de Shakespeare para quem não o conhece. A linguagem é arcaica, mas quase não se nota graças às interpretações que falam por si. Os diálogos foram reduzidos ao indispensável. A cinematografia é bela e trágica, como se esperaria. Gostei da cena famosa em que Lady Macbeth (a mulher ambiciosa que incentiva o marido a iniciar um reino de atrocidades) acaba a tentar lavar o sangue dos punhais com que este subiu ao trono através do assassinato. Gostei dos problemas de consciência que atormentam Macbeth, pelo menos a princípio, cada vez mais abandonados à medida que este mergulha no abismo. Gostei da culpa manifestada nos fantasmas que o perseguem por todo o lado.
Gostei principalmente das três bruxas, aqui tão etéreas como sombrias, que apresentam um mistério: nada de caldeirões, nada de gargalhadas. Uma delas traz um bebé ao colo. Uma criança (bruxa também) acompanha-as.
Recomendo a toda a gente que julga não gostar de Shakespeare.

18 em 20 (porque só faltou um bocadinho “assim”)


domingo, 12 de março de 2023

The Handmaid’s Tale [quarta e quinta temporadas]

[contém spoilers]

[Primeiras duas temporadas]

[Terceira temporada]

“O pânico é um desperdício de energia.”
Assistir a “The Handmaid’s Tale” é difícil. Das quatro pessoas que faziam críticas que eu lia desde o início da série, só uma delas não desistiu. Pior do que a violência física talvez seja mesmo a violência psicológica que o espectador tem de suportar tal como os personagens. Eu, no entanto, considero esta série educativa e até mesmo inspiradora, um abre-olhos, um kit de sobrevivência para quem não gosta de enterrar a cabeça na areia. Por exemplo, quando June e Luke são capturados e muito possivelmente vão ser executados, e June lhe diz quando ele se está a passar: “O pânico é um desperdício de energia.” June tem experiência com situações extremas e já percebeu que em Gilead o importante é manter sempre a cabeça fria (“keep your shit together”, como Moira lhe diz) para poder agir no caso de surgir uma mínima hipótese de fuga. Não adianta entrar em pânico. Acontecerá o que tiver de acontecer.
“O pânico é um desperdício de energia.” Vou assimilar esta lição de vida e não me esquecer dela.
“We only wanted to make the world better. Better never means better for everyone. It always means worse for some.”, diz Fred logo na primeira temporada. Nos regimes totalitários, a primeira coisa a ser proibida são os livros. Gilead não é excepção. Chamo a atenção para o nº da porta de Emily em Toronto: 451, o que certamente também não é um detalhe inocente.
No último episódio da terceira temporada, num flashback, June recorda o início de Gilead. Vemos mulheres serem presas e separadas. Vemos doentes e deficientes mentais serem levados para parte incerta. Vemos mulheres nuas a serem examinadas em contentores, recordando os campos de concentração nazis. A partir da terceira temporada (que já ultrapassa o livro de Margaret Atwood) a série começou a estabelecer cada vez mais paralelos deste tipo, a começar com o símbolo de Gilead, que não sei bem o que é mas dá a entender que é uma pomba de asas abertas. Parece mais a águia nazi, especialmente nas longas faixas negras que acompanham os procedimentos oficiais. A presença constante dos soldados a falar indistintamente ao rádio, os cães a ladrar, os adornos subliminares em forma de suástica nas portas das Jezebels e até nos canteiros da escola de Hannah, acentuam esta imagética da 2ª Guerra Mundial. Custa-me menos ver “The Handmaid’s Tale”, porque afinal é ficção, do que a assistir a documentários do que aconteceu na realidade.

Com esta ninguém contava
Mais uma vez, não esperava voltar a escrever sobre “The Handmaid’s Tale” tão cedo mas os acontecimentos no enredo já começam a ser demais para a crítica final.
A grande “bomba” da quarta temporada é sem dúvida a gravidez de Serena Joy. Como eu dizia, o casamento dos Waterfords já estava de pantanas antes da chegada de Offred e eles simplesmente já não tentavam. Ambos julgavam que o outro era estéril. Na última noite que passaram juntos, quando Serena o ia entregar aos americanos, aconteceu o improvável. A gravidez de Serena vem acentuar ainda mais que tudo o que Offred passou foi em vão.
Mas finalmente conseguimos ter uma certeza sobre a personagem: a maior ambição na vida de Serena era mesmo ser mãe, isso não era fachada. Vemo-la ajoelhada na capela do estabelecimento prisional do Tribunal Criminal Internacional, a agradecer a Deus por mais uma semana de gravidez sem perder o bebé. Isto é sincero. Serena faria tudo para ter uma criança, inclusive roubá-la à mãe. E não seria a única. Ainda antes de Gilead, quando June dá à luz Hannah, uma estranha entra na maternidade e tenta roubar o bebé. É preciso ter em mente que foi esta crise de natalidade que esteve na origem do regime de Gilead. Com esta gravidez, Serena consegue esquecer a sua obsessão com Nichole (o que já era doentio).
A quarta temporada é também aquela em que vimos June transformar-se num monstro. Depois de uma tentativa de fuga falhada, June é recapturada e desta vez a Tia Lydia propõe uma inovação para as Servas mais insubmissas, uma “Colónia de Madalenas” onde estas podem trabalhar no campo e receber os Comandantes para a Cerimónia mensal. Ou seja, uma quinta de procriação. As servas em causa não chegam a ir para lá porque conseguem fugir de vez (ou morrer pelo caminho). June é resgatada no cenário de guerra de Chicago (que me recordou o mundo apocalíptico de “The Walking Dead”) por Moira, que ali se encontrava com uma ONG humanitária. “Resgatada” não é bem o termo. Moira quase teve de a arrastar dali para fora porque June continuava a recusar sair de Gilead sem Hannah.
Enfim, June está no Canadá, junto de Luke, Moira e Nichole, mas é uma estranha que eles já não reconhecem. Na sua deposição ao representante do governo americano no exílio, Mark Tuello, June acusa Serena Joy de ser um monstro, uma sociopata narcisista e uma grande actriz. Pergunto-me se neste caso não estará a chamar roto ao nu. Sim, compreendo muito bem que June tenha regressado de Gilead um monstro de raiva e fúria, com a culpa de ter falhado (não ter conseguido libertar Hannah) e a culpa de todo o sangue nas suas mãos (por esta altura June já foi a causadora de tantas mortes como o número de pessoas que salvou, o que é um balanço complicado, mas por outro lado quem se mete na Resistência já sabe ao que se arrisca) a acrescer à frustração. E sim, acredito que Serena Joy seja um monstro, mas um outro tipo de flor venenosa: a fanática religiosa. Ainda não estou convencida da sua sociopatia porque quando Eden foi executada (temporadas atrás) Serena ficou tão impressionada que decidiu tomar uma posição pelas mulheres e raparigas de Gilead, o que lhe custou um dedo. Isto demonstra empatia.
June, por outro lado, está completamente descontrolada. Depois de uma magnífica cena em que June depõe contra Fred em tribunal (aconselho a reparar em como a câmara se vai movendo na direcção dela, tão devagar que nem se nota), com toda a compostura e coerência, Fred faz um acordo com o governo americano para revelar os segredos de Gilead em troca da sua liberdade. June perde a cabeça. Ou ganha-a, é difícil tecer julgamentos, e consegue aliciar as mulheres do seu grupo de terapia a darem vazão a toda a raiva que tentam ultrapassar. June não quer ultrapassar a raiva, quer usá-la. E com alguma sorte que a pôs no caminho das pessoas certas, consegue o que quer.
Ao primeiro visionamento, pensei que o que acontece a Fred é um barbarismo sádico, mas ao segundo visionamento mudei de ideias. Temporadas atrás, Fred dá uma tareia de cinto a Serena que não era obrigado a dar (pela lei de Gilead, isto é). No meio de tantas atrocidades em “The Handmaid’s Tale” aquilo passou-me quase despercebido (e Serena até merecia levar uma tareia, se bem que não do marido nem naquelas circunstâncias). Detestei Fred, e descobri que era possível detestá-lo ainda mais. E agora temos a confirmação de Serena de que Fred não era assim mas mudou quando o poder lhe subiu à cabeça. Como eu desconfiava. Logo, Fred não passa de um homem desprezível e só teve aquilo que mereceu.
Da primeira vez que conseguiu fugir, June quase rompeu a orelha para arrancar a etiqueta vermelha de “mulher fértil” que lhe foi colocada como se fosse gado. É curioso e intrigante que após chegar ao Canadá June não tire a etiqueta e continue a usar a cor vermelha típica das servas. Interpreto esse comportamento como o de alguém que desta vez não está disposto a deixar Gilead para trás, que quer usar a raiva contra Gilead para continuar a lutar.

Rita
Não cheguei a falar muito das Marthas. As Marthas são as criadas (escravas) de Gilead. Rita Blue é uma delas e consegue escapar. Não ter sido uma Serva não significa que esteja menos traumatizada. Tudo o que quer é esquecer um passado em que era considerada propriedade, “registada e tudo”, como ela diz. No meio de tantos horrores, foi um prazer vê-la sozinha a deliciar-se com um sushi que não teve de cozinhar ela própria no seu apartamento em Toronto. Rita é das personagens mais simpáticas e teve um fim feliz. Bem, esperemos.

Pactos com o Diabo
Também não falei muito das Tias. As Tias são a Gestapo no feminino, basicamente. São elas que determinam a vida de todas as outras mulheres, até as das Esposas. A Tia Lydia é um monstro de sadismo com muitos traumas pessoais a transformarem-na noutra fanática religiosa com um bastão de electrocutar gado na mão. Duvido que esta personagem consiga alguma vez redimir-se. Mas há progressos. Lydia desenvolveu um carinho especial pela Serva Janine e decide tratar as mulheres sob sua guarda com maior compaixão. As definições de “carinho” e “compaixão” de Lydia não são iguais às nossas, mas é melhor do que nada.
Quase afastada devido a um ataque contra si (Emily espetou-lhe uma faca nas costas, e bem merecida), Lydia encontra-se na necessidade de fazer uma aliança com alguém que antes desprezava, o Comandante Lawrence. Também a situação dele é periclitante, mas neste pacto improvável ambos decidem “corrigir Gilead” no que está mal. Finalmente percebemos que Lawrence foi vítima das utopias que escreveu e que nunca deviam ter passado de ficção. Lawrence odeia Gilead. A sua última invenção é a ilha de New Bethlehem, sem as regras de Gilead, sem Servas nem enforcamentos e sem proibição de ler, para atrair os refugiados de volta. Curiosamente, a ideia quase consegue convencer June (aliciada pela proximidade de Hannah), que abre os olhos a tempo.

Por esta altura, dois movimentos curiosos começam a desenvolver-se no Canadá sem que estejam aparentemente relacionados. Um deles é religioso e apoia os Waterfords. Em suma, as pessoas ficam fascinadas com Serena e a sua gravidez miraculosa. Não é de espantar. A crise de natalidade é real. Serena é uma mulher bonita, alta, carismática, boa oradora quando a deixam abrir a boca, uma Grace Kelly encantadora. Os casais inférteis podem naturalmente pensar, em desespero de causa, que se Gilead consegue uma gravidez de uma “mulher estéril” eles também deviam fazer o mesmo, fechando os olhos a todas as atrocidades. O imperativo biológico de procriar é muito forte.
O outro movimento é talvez ainda mais preocupante. Se a princípio os refugiados de Gilead eram bem-vindos, agora uma contra-corrente de canadianos começa a querê-los fora do país.
Sabendo isto tudo, Serena dirige-se a Gilead onde se sente em casa para fazer propostas, e leva patadas atrás de patadas. Mas uma fanática não desiste, e Serena ajudou a conceber Gilead, excepto quando…

Pacto de duas diabas
O episódio mais marcante da quinta temporada, se não da série toda, no entanto, é “No Man's Land”. June e Luke fazem uma incursão por terras de ninguém (em busca de informação sobre Hannah) onde June é capturada para ser executada em Gilead ou pelo caminho. Entretanto, Serena é enviada para um Centro de Informação de Gilead em Toronto, tipo uma embaixadora informal, mas o Centro é depressa fechado. Ficamos a saber que Gilead tem gente rica e poderosa do seu lado no Canadá, e Serena vê-se “refugiada” na casa dos Wheelers. É um paralelo com os Waterfords, porque Mrs. Wheeler prende Serena na propriedade e tenciona roubar-lhe o bebé. Pela primeira vez, Serena sabe o que é ser uma Serva, e não gosta nada.
Conseguindo convencer Mr. Wheeler de que quer ser ela a matar June, consegue fugir da mansão, já em trabalho de parto. E assim as duas inimigas confrontam-se em pleno matagal, sozinhas. Muito contra a sua vontade, June ajuda Serena a ter o filho. A solidariedade feminina sobrepõe-se ao ódio. Esta série não é sobre a infertilidade; pelo contrário, o tema principal é a maternidade.
Este foi um dos melhores episódios que eu já vi na vida, por todas as razões e mais alguma, e especialmente pelo realismo com que se desenrola o parto. Se Elisabeth Moss faz um papelão quando teve de dar à luz Nichole sozinha, Yvonne Strahovski não lhe fica atrás. Se Serena Joy merecia ajuda? Talvez não, mas June é incapaz de virar as costas a outra mulher em dificuldades. Talvez agora, que Serena está em muito maus lençóis, June consiga seguir em frente e dar a vingança por terminada.

O fim está próximo
O que podemos esperar da última temporada? Eu gostava de ver a redenção de alguns personagens. Mas não quero, NÃO QUERO, ver o apaixonado Nick Blaine na Parede, nem Luke, ou, pior ainda, a pobre Janine (a quem saiu a sorte grande ao ser colocada na casa de Lawrence e não percebeu a oportunidade que deitou fora. Se ao menos June lhe tivesse contado mais coisas…) Lawrence e Lydia podem muito bem acabar na Parede, se bem que eu preferisse uma redenção. Mas é possível redimir Lydia? Duvido. E Serena Joy, terá finalmente a epifania de perceber que o seu papel é ajudar a derrubar Gilead, da mesma forma que derrubou o governo dos Estados Unidos? E o desgraçado Mark Tuello, que tem um fraquinho romântico por Serena, terá alguma sorte?
Por último, e June? Esta é uma mulher capaz de tudo para resgatar a filha Hannah. Será que vamos ter um final feliz… ou não? Isto é “The Handmais’s Tale”, não esqueçamos. June já gastou toda a sorte que tinha.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 3 vezes

domingo, 5 de março de 2023

Unfriended: Dark Web / Desprotegido: Dark Web (2018)


Moral da história: nunca roubem um computador, mesmo que seja um portátil esquecido há meses na secção de perdidos e achados. Nunca se sabe a quem pertenceu e as porcarias que vêm lá dentro. É o que acontece ao protagonista, aliciado por um portátil muito melhor do que o dele a quem o dono nunca mais vinha reclamar.
O início do filme é chato, admito. Apenas um grupo de amigos no Skype a jogar um jogo qualquer. Mas de repente o protagonista recebe uma mensagem ameaçadora: TENS O MEU COMPUTADOR! QUERO-O DE VOLTA!
O protagonista até está na disposição de o devolver, mas o caso complica-se. Alguém lhe pirateia o computador e o transporta para a Dark Web, onde o protagonista percebe que está metido com um grupo de serial killers contratados que matam para satisfazer os caprichos sádicos de uma clientela pagante. (Vi um episódio assim em “Mentes Criminosas”.) E ponha-se sádico nisto, sádico a nível de “Saw”.
Nesta altura, por momentos, pensei que raio de hacker de meia-tigela, metido nestas actividades criminosas, seria parvo o bastante para perder o portátil num cyber-café qualquer. Mas também isto tem uma razão.
A partir daqui os acontecimentos sucedem-se muito depressa. Todos os amigos no Skype são pirateados e monitorizados, dos computadores aos telefones. Se alguém chamar a polícia, alguém morre. Saindo do mundo virtual, subitamente o perigo é bem real e iminente.
No fundo, este é mais um daqueles filmes de “matar adolescentes” adaptado às novas tecnologias aparentemente inofensivas que todos nós usamos. Até cairmos numa rede criminosa da Dark Web…
Aconselho vivamente e não me responsabilizo pelos pesadelos que possa causar. “Unfriended: Dark Web” é um filme de terror que não nos vai sair da cabeça.

15 em 20


domingo, 26 de fevereiro de 2023

Colosseum / Coliseu (2022)


“Colosseum” é um documentário dramatizado do canal História em que se acompanha o coliseu de Roma desde o apogeu à queda do Império Romano.
Aconselho vivamente a toda a gente que se interessa pelo tema, mas advirto que algumas das cenas dramatizadas contêm um realismo e brutalidade a nível de um “Spartacus” e podem perturbar pessoas sensíveis.
Tudo o que se passava naquele Coliseu, afinal, é bastante perturbador para a mentalidade moderna. Eram jogos de morte a que os romanos iam assistir por diversão de manhã à noite, que incluíam “lutas” com animais ferozes (curiosamente os “jogos” menos considerados e remetidos para a manhã), execuções de criminosos à hora do almoço, e, finalmente, o espectáculo mais aguardado: os gladiadores.
A mim perturbaram principalmente todas as cenas que incluem os animais, desde o martírio dos cristãos ao martírio dos animais propriamente ditos. Tudo isto, para nós, é de um sadismo incompreensível. Aprendi, por exemplo, que os Romanos caçaram tantos milhares de animais para o Coliseu (e para outros jogos pelo Império fora) que alguns séculos depois o Norte de África tinha perdido algumas espécies para nunca mais as recuperar. Isto dá-nos uma dimensão da grandiosidade e importância com que Roma encarava os jogos. As feras (leões, leopardos, chitas) eram os animais mais apreciados para o “espectáculo”, mas rinocerontes, crocodilos, e até avestruzes (em suma, tudo o que parecesse exótico) eram igualmente procurados. Também aprendi que os animais mortos na arena eram depois cozinhados e comidos pelo público. Nunca me tinha passado pela cabeça. Na minha matriz de pensamento judaico-cristão sempre considerei estas mortes na arena como sacrifícios, interditos a serem comidos por cristãos porque “sacrificados a ídolos”.
Por falar nisso, também é interessante e irónico que o Coliseu, onde os Romanos tentaram aniquilar os cristãos de uma vez por todas, se tornou o maior palco para a divulgação do Cristianismo que viria a dominar o Império que o quis derrotar.
O que mais me espantou foi a própria construção dos subterrâneos do Coliseu (o Hipogeu). Também nunca pensei que se conseguisse tal obra de engenharia à altura, escavada nas fundações do enorme Coliseu depois de este já ter sido construído à superfície. Inacreditável! A cultura Romana levava os jogos muito a sério.
Os documentários do canal História têm tido a tendência de explorar o sensacionalismo (extraterrestres, sobrenatural, etc) mas este, parece-me, é de bastante qualidade. O canal tende a repetir as séries periodicamente, é uma questão de estar atento.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

O Querido Lilás (1987)


Como é que este filme me escapou? Tenho a certeza de que nunca o tinha visto antes ou lembrar-me-ia. Deve ter sido daqueles que ficou na lista “tenho de ver isto” e nunca vi.
Estou triste com algumas críticas que colocam este filme como um dos piores filmes portugueses de sempre.
Herman José é o maior actor cómico/humorista da minha geração e não há nada que ele faça que não me ponha a rir às gargalhadas. Não posso falar dos anteriores (Vasco Santana, Ribeirinho, etc) porque antes do 25 de Abril ninguém tinha a liberdade de fazer o que Herman fez depois. Herman José não é apenas um humorista que escreve umas piadas em stand up ou uns textos engraçados nos jornais. Herman é um actor completo, e um actor cómico, ainda mais difícil do que um actor dramático, na minha opinião. Neste filme, e no resto da sua carreira, Herman encarna verdadeiramente algumas personagens inesquecíveis, e digo isto porque as encarna mesmo, como se fossem reais.
“O Querido Lilás” é a história de uma diva do teatro português, Beladona (Herman José), que tem um filho de pai incógnito que lhe é retirado 6 minutos depois do parto (dizem-lhe que morreu), para manter as aparências de respeitabilidade. A criança é levada para ser criada por uma mãe adoptiva.
27 anos depois, Querido Lilás (é o nome do filho, também interpretado por Herman José), conhece a mãe numa casa de fados enquanto esta andava a ensaiar a peça “A Tragédia da Rua das Flores” de Eça de Queirós, e ambos se apaixonam sem terem culpa.
Não posso dizer que passei o filme inteiro a rir, até porque o objectivo de uma comédia é deixar os espectadores relaxar antes da próxima gargalhada, mas há uma cena inesquecível que me fez rir às bandeiras despregadas: Beladona, num recital de poesia, a assassinar “Balada da Neve”. Também me ri bastante naquela parte em que Querido Lilás está a traduzir o fado em alemão, e naquela outra passagem em que Beladona se quer atirar à lareira para morrer “queimadinha como a Joana d’Arc”. Isto só podia sair da mente mirabolante de Herman José, embora a direcção seja de Artur Semedo.
É claro que é um filme propositadamente kitsch, e que Herman José é tão exagerado como em algumas outras personagens posteriores (?). Maximiana (?), por exemplo. Aqui o problema não é o som, mas como Beladona grita histericamente a ponto de não se perceber o que diz, mas também é de propósito.
Eu, pelo menos, ri-me à fartazana e ainda gostava de ver aquela “Balada da Neve” outra vez.
Só achei que o filme foi demasiado longo por causa dos fados. Não desgosto, mas também não aprecio, especialmente o fado castiço. E agora toda a gente relacionada com este filme me vai odiar: detesto musicais. O filme não é um musical, graças a Deus, mas foram mesmo demasiados fados.
Recomendo a toda a gente que gosta de Herman José.

14 em 20


domingo, 12 de fevereiro de 2023

El Camino: A Breaking Bad Movie (2019)

Só descobri que este filme existia porque “tropecei” nele a ler críticas de “Better Call Saul”. “El Camino”, realizado por Vince Gilligan e interpretado por Aaron Paul, conta-nos em duas horas o que aconteceu a Jesse Pinkman depois de ser resgatado por Walter White dos neo-Nazis que o mantinham escravizado a produzir metanfetaminas.
Embora lançado como filme, este último episódio de formato alargado funciona antes como um epílogo de “Breaking Bad”. Era necessário? Talvez não. É como comer um enorme gelado de chocolate depois de uma óptima refeição. É necessário? Não. Mas sabe bem!
Gostei muito de ver como Jesse cresceu durante o cativeiro, como abandonou o adolescente irresponsável que só queria mais droga. Agora Jesse é um homem que aprendeu a lição, perseguido pela Lei e atormentado pelo stress pós-traumático, que sabe que tem de estar disposto a correr todos os riscos e sofrer as consequências pela sua liberdade, e, em último caso, pela sua própria sobrevivência. Jesse brilha neste epílogo como o carisma de Walter White nunca lhe permitiu na série original.
Aconselho este filme a todos os amantes de “Breaking Bad”, a que ele obviamente se dirige, mas deixo o aviso: é melhor ser visto antes de “Better Call Saul”, não porque a série contenha spoilers mas porque é uma experiência muito mais satisfatória. Por exemplo, há uma cena em que Jesse tem de destruir o interior de um apartamento, paredes e tudo, à procura de dinheiro para escapar. Isto ecoa a outra cena em “Better Call Saul” em que Chuck destrói a sua própria casa à procura de fios de electricidade escondidos. Ou melhor, agora já sabemos que é Chuck quem ecoa Jesse e não o contrário.
Tal como tudo o que Vince Gilligan faz, este epílogo é uma obra-prima. Às vezes o que importa não é a chegada, mas o caminho. Tal como diz o título, este filme é sobre a viagem de Jesse para a liberdade.

 

domingo, 5 de fevereiro de 2023

The Hunger Games: Mockingjay - Part 2 / Os Jogos da Fome: A Revolta - Parte 2 (2015)


Gostei muito mais deste último “episódio” de “The Hunger Games”, muito devendo a finalmente terem deixado brilhar as estrelas: Donald Sutherland e Julianne Moore. Parecendo que não, é logo outro nível. Concomitantemente, o meu prazer neste último filme pode dever-se também ao efeito “Acabou! Acabou!”. Admito que já estava cansada do formato e queria uma resolução. Então vamos lá ao mais importante.
Finalmente, Katniss decide-se e fica com o… Haha, como se eu fosse dizer! Os leitores deste blog já devem sabê-lo, romances (e triângulos amorosos) Young Adult não me excitam grandemente e este já durava há tempo a mais.
No último filme, Katniss continua no coração da Resistência, onde a Presidente Coin (Julianne Moore) a utiliza como símbolo para galvanizar a rebelião contra o Capitólio. Mas Katniss não é rapariga de ficar metida num bunker a ser um símbolo e decide ir pessoalmente ao Capitólio apertar o gasganete ao Presidente Snow (Donald Sutherland), como ele merece.
Aqui acontece a parte mais idiota do filme. O Capitólio encontra-se sob ataque da Resistência, uma equipa de soldados acompanha Katniss pelas ruas da cidade, e, em vez de exercer uma resposta militar, o Capitólio decide colocar armadilhas aqui e ali e televisioná-las, como se fosse mais uma edição dos Jogos da Fome. Às vezes nem percebi muito bem o que estava a acontecer. Por exemplo, uma das armadilhas lança toneladas de óleo, supostamente para afogar a equipa. Não teria sido mais eficiente incendiar o óleo?... Desta forma a equipa conseguiu escapar para um prédio alto. Com o óleo a arder talvez não tivesse escapado. Não estou a ser má, estou a pensar em termos militares. Não percebi aquilo.
Mas avançando. Sem incorrer em muitos spoilers, Katniss apercebe-se de que a Presidente Coin tenciona tomar o poder e reinstaurar os Jogos da Fome, desta vez com os apoiantes do Presidente Snow como vítimas. Katniss não gosta nada da ideia. Afinal, tanto Coin como Snow são iguais no sentido em que só pensam em conquistar e manter o poder. Gostei da reviravolta.
O final é bastante satisfatório para o que se pretendia desta distopia Young Adult. Eu queria mais, muito mais, mas já sabia que não o teria daqui. Adeus, “Hunger Games”. Acabou, acabou!

14 em 20