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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 22


O espírito do Éden


o espírito do Éden chama-me, promete-me as delícias da terra, conta-me histórias de liberdade. leva-me a mergulhar profundamente nas suas águas onde o azul tão quente dilui as ondas… e o sol acima das nuvens não é mais do que uma estrela, quando o sol mergulha ao meu lado entre as algas e conchas.
os filhos anjos não são felizes. todos atacados pela doença implacável. o espírito do éden ergue a mão… promete a paz mas não a glória, só promete os sonhos… sei que aqui é o paraíso, vivemos dentro de conchas. à volta só vemos azul, as crianças caem como chuva…pela doença implacável todos eles. caem como chuva. o espírito do éden move-se, como o mar, move-se, e espera. a paz, só há paz, lá no fundo, no fundo, no fundo…

3 outubro 1988



("Spirit of Eden", por James Marsh, para a capa do álbum de Talk Talk com o mesmo título.)






Comentário: Termina aqui "Máquina Herética: poesia e prosa poética". A todos os que acompanharam e comentaram o meu muito obrigada.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 21


Song of the Fog

Came from the fog
free from the fog
Still in the fog with me

Born in the fog
dance on the fog
Came from the fog to be free

Dance on the fog
Scream from the fog
Caught in the fog with me

Far from the fog
Deep in the fog
Out of the fog to be free


1561992





Comentário: "Song of the Fog" é mesmo uma canção. A melodia apareceu-me na cabeça ao mesmo tempo que as palavras. O que é muito estranho, porque eu nunca tinha feito uma canção nem tornei a fazer. Eu não faço música. Durante muito tempo estive convencida de que só podia ter ouvido a melodia em qualquer lado. Até hoje, não a encontrei. E nunca a esqueci. Escrevi-a numa pauta musical. A duração das notas pode estar incorrecta mas as notas estão certas.

domingo, 18 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 20


SILÊNCIO

Nas almas dos mortos e dos corações ardentes
as chamas revolvem-se nas montanhas geladas
As palavras indizíveis
As vidas cortadas rente, dizimadas
As incisões indescritíveis
As palavras insuportáveis
as dores, as dores abandonadas
as outras descobertas e mais tarde exumadas
no bater calmo dos corações
das palavras insuportáveis
das torturas implacáveis, implacáveis
do sangue nas montanhas geladas
Pelo irromper calmo dos vulcões
Pelo bater mortal dos corações
as dores das palavras torturadas
o gelo sangrento das montanhas caladas
As torturas jamais acabadas
Os mortos com almas exumadas
O eterno descanso das montanhas geladas
O sangue das palavras caladas
O sangue dos mortos implacáveis
nas torturas criminosas infindáveis
o gelo das chamas torturadas
pela morte das almas trespassadas.

3091990

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 19


AS ARMAS DA INTELIGÊNCIA

Há momentos na solidão
momentos de grande silêncio
momentos em que falam pedras
gravadas de reflexão
Porque as palavras ferem
Sem que os olhos as imitem
Porque os artifícios da eloquência
obrigam que exagerem
As palavras, essas palavras punhais,
as armas da inteligência
enterram-me por vezes
na estupidez da eloquência
Mais vale que o silêncio encha
os meus olhos cansados
do que voem palavras ocas
destes lábios despedaçados.

1081990

sábado, 10 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 18


ABANDONO

As pequenas estrelas cintilam, receosas
dominam sobre o tempo
tornam-se corajosas
brilham no firmamento.
As minhas velas caem, ansiosas,
nos braços do mar e do vento.
Existem dias como este
em que as noites são longas e frias
as pessoas são tardias
Não existe paz neste mar
Nem nos desertos em redor
e nas ilhas de vulcões fumegantes
perdem-se rastos de náufragos viajantes
que afundaram os navios nas ondas da tarde
em troca de muitos oceanos
em busca da liberdade.

2211990

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 17




Os fantasmas do passado
perseguiram-me neste dia
Oh, como os odeio!
Os espectros do futuro
assolaram-me a mente
Oh, como odeio os do presente!

591989

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 16


Ondas Altas, Grande Amor

Ah, se eu pudesse com o amor que te tenho
Contar as estrelas todas do mar
faria de ti sereia a navegar
nas ondas lentas do meu lenho.

Serias tu para mim a estrela do Norte
que guia as milhas dos navegantes
Seriam meus olhos perdidos infantes
mãozinhas erguidas nas ondas da morte.

E seriam meus olhos infantes perdidos
no mar de sargaços para sempre escondidos
entre as tábuas de amor do meu lenho

Seriam pequenas conchas do mar
Que eu mandaria a ti te contar
Todas as estrelas que por ti tenho.

1981989








Comentário: Se eu alguma vez escrevi um poema, foi este.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 15


Senhor dos infernos

Meu Deus! Como te amo!
Que blasfémia por ti proferi
Meu Deus! Como te adoro!
E só agora me apercebi…
que só esta loucura me guia
que o meu pensamento explode
e de ti preciso noite e dia
e nem o teu sorriso me acode
Pois és tu Senhor dos Infernos
Dono da perfídia e da maldade
Personificação dos Extremos
Máquina de Iniquidade
Dentro de ti, as correntes pretas
voltejam, como metal,
e minhas feridas são violetas
como os teus olhos,
Príncipe do Mal.

1661989

domingo, 28 de julho de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 14


Parabéns hoje aos mortos
na calada da vida
muitas desigualdades
e esperança perdida
Hoje é dia de abortos
vomitamos as almas
para os meninos mortos
uma salva de traumas.




1751989




Comentário: Versão do "Parabéns a Você". Dá para cantar e tudo. Experimentem.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 13


O ÚLTIMO DIA

O dia em que te tiraram de mim
Foi só o princípio do fim
Foi a derrocada louca
Foi o último beijo fatal
Foi Satanás trazendo o mal
E foi também a ventania
Foi o grito ensurdecedor
Foi a minha alma ficar fria
E foi perder-te a ti, amor.


1751989

sábado, 20 de julho de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 12


O doce cheiro da morte

O dia em que bebi o teu sangue
soube-me à morte que me corre nas veias
o dia em que pendurei o pássaro na parede
Cristo alado redentor colado pelas asas
O pássaro que o meu gato matou
Ali está o Pássaro frio ensanguentado
o bico fechado, enfim descansado
as garras furiosas e tão frágeis
que não lhe serviram para nada
penduradas imóveis
O cheio a morte empesta na sala
o cheiro do sangue dos passarinhos mortos
empesta a minha vida
persegue-me, este cheiro insuportável
os passarinhos inocentes e humilhados
pelos gatos pretos
O dia em que bebi o teu sangue
Suguei-o da tua boca instável
arranhei-o das veias do teu peito
e cheirava tão bem, o teu sangue,
como cravos de pétalas rubras.
Os cravos do cemitério
que cobrem os passarinhos mortos que cantam
nos ciprestes
entre as campas
cobertas de cravos vermelhos como o teu sangue,
o teu sangue que eu bebi com prazer.


551989
sexta feira à noite

terça-feira, 16 de julho de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 11


Quietude

Na minha alma existe o vírus da calma
Existe um eterno estado de insatisfação
Existe ainda um vulcão em repouso
e mais alguns corais e conchas raros
cujas pérolas abrir não ouso.

Existe também a guerra nuclear
E a Inquisição da Idade Média
Existe um Hitler sequioso de matar
Está um mundo preso na minha mão
às ordens da Santa Inquisição.

O Inferno é meu, eu o controlo
O Céu não sei que é, que Deus Existe
E existe também uma Irlanda dividida
em que o Santo Catolicismo resiste
São estas as noções da minha vida.

O Irão é meu, sou Ayatola
Sou Gorbachev Bush Komeni
faço o que quero com as mãos ensanguentadas
presas em relógios de Dali
que batem minhas horas devastadas.

E existe Freud inconsciente
Na psicose louca de demente
que manobra meu Lenin às 5ªs feiras
dia mais longo das semanas inteiras
E dos restos da sanidade do presente.



2531989

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 10


Máquina herética

Vem, doçura dos meus passos
Ao aconchego terno dos meus braços
cheios de tal dor suprema e cansaços
deixa-me prender-te em fortes laços
Mas não me peças que te ame, por favor
de tudo, o que não tenho é o amor!

Porque não sabes como sou eu própria
Sou uma bela máquina de aprender
Aprendi a dançar e a viver
aprendi a beijar, rir e sofrer
Cheia de inteligência me construíram gelada
Edificaram-me estátua mecânica de prazer
Julgaram-me nocturna ao som da alvorada.

Sou eu própria máquina de álcool puro
Sou um copo de veneno destilado
Sou a serpente que te espera em pecado
Para te matar, para te amar em sono escuro
Sou só uma vítima das noites frenéticas
Destilo em mim doces trovas heréticas
Não encontro o pesadelo que procuro.

Oh, amor, para mim és a doçura
que me acalma as tristes noites de terror…
Mas tu não sabes nada do amor
Só sabes que não entendes a loucura
Não sabes se sou anjo se demónio
Nem eu sei se sou possessa ou possuidora
Nem eu sei como ser de ti traidora.

O que vês de mim é a verdade!
Sou máquina correcta de objectividade
Revisto a alma matemática de sinceridade
Sou poeta louca de racionalidade
E se te amo é apenas relativamente
Na minha vida tudo é consciente.
Analiso-te e a mim racionalmente
Os dados que tu lês objectivamente
São os factos verdadeiramente.

Mas existe um caos que não conheço
Não consigo prever os universos
O amor demora mais do que mereço
Da vida só tenho sonos dispersos
Como podes entender o gelo que eu sou
se agora és fogo que arde selvagem
e eu, fria ártica aragem.

Eu sou uma máquina de aprender
Não te esqueças que te digo objectivamente
Os avisos que precisas de saber
Sou sincera e pura e louca e doce
sou a tua irmã, a alma de prazer,
serei aquela que tem sempre os braços certos
Mas nunca tentes saber os meus segredos
a razão de já estar morta sem morrer.

Ah, quem me dera ser insensível!
Ser ainda mais gelo do que sou
ser como tu, segura e invencível!





segunda-feira, 8 de julho de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 9


Ouro, jóias, brilho, pedrarias
Pérolas de marfim entrelaçadas
Safiras, águas-marinhas frias
Paixões, infernos, derrocadas.

Tiaras, rubis e esmeraldas
Correntes, coroas e brasões
Arcos, pratas e grinaldas
sonhos, lágrimas, grilhões.

Caravelas, glória e cruzadas
Romanos, sangue, Jesus cristo
Princesas moiras encantadas
Cavalo à solta jamais visto.


27111988