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terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

The Conjuring 2 / A Evocação (2016)


Este foi o tal filme que eu perdi entre “The Conjuring” e “The Nun”, mas afinal não perdi grande coisa. “The Conjuring 2” é uma sequela menos interessante do que o original, completamente esquecível e cheia de clichés, para não dizer mesmo cópias. Se “The Conjuring” era um remake fingido de “Amityville”, “The Conjuring 2” é uma imitação pobrezinha de “O Exorcista”. Tudo baseado em factos verídicos, dizem eles.
Falando de Amytiville, é lá que o filme começa. O casal de investigadores do paranormal Ed e Lorraine Warren são chamados à mansão para tentarem corroborar as alegações da família Lutz (os que lá moraram depois dos assassinatos de Ron Defeo) de que a casa estava assombrada. Sobre isto não nos é dada uma resposta, mas, enquanto lá está, Lorraine tem uma visão da Freira Maldita (“The Nun”) e uma premonição da morte de Ed que a faz desejar afastar-se do mundo do paranormal “por uns tempos”.
Entretanto, em Londres, uma mãe divorciada com quatro filhos e dificuldades financeiras (isto é verdadeiro terror!) começa a acreditar nos relatos dos filhos de que algo de sobrenatural se passa na casa: pancadas nas paredes, camas a tremer, objectos que se movem sozinhos. A mais afligida é a filha de 11 anos, Janet, que curiosamente andou a tentar contactar espíritos com uma Ouija Board improvisada (olá Regan de “O Exorcista”!). Janet começa por ser assombrada por um espírito da casa e acaba a levitar no tecto.
E quem é este espírito? Um velho de 72 anos que diz aos miúdos “vão-se embora, a casa é minha” e que muda o canal de televisão para ver a Margaret Thatcher (não inventei, juro, mas é terror do mais assustador!). Isto passa-se durante a primeira hora do filme. Por esta altura eu já me perguntava se isto era uma comédia disfarçada de filme de terror, até porque já não é a primeira vez que me rio com um filme de James Wan. (Será que ele faz de propósito para nos fazer rir? Pelo menos desta vez não apareceu o diabo chifrudo, o que já é um progresso.)
A família pede ajuda à igreja, que pede ajuda aos Warren para irem a Londres investigar o caso. Lorraine não quer ir, devido ao tal aviso, mas acaba por ceder ao sentido de dever para com a família atormentada. Quando lá chegam, a miúda de 11 anos parece estar possuída pelo velho (porcalhão!) que fala pela boca dela com a voz dele. É ele quem nos conta que costumava viver ali antes de morrer e que por isso assombra a família.
De repente, uma reviravolta. Afinal não é o velho que atormenta a família. O velho está sob controlo do demónio Valak que se apresenta na figura da Freira Maldita por motivos que só vamos perceber em “The Nun”. Isto já não é uma série de sequelas, é uma telenovela.
Cada vez percebo menos o apelo dos filmes de James Wan, cada vez mais imitações/decalques dos verdadeiros clássicos. “The Conjuring 2” não teve nada que me fizesse interessar, muito menos ter medo. O fantasma do velho era ridículo. Até a Freira Maldita, olho para ela e só consigo ver o Marilyn Manson com mais maquilhagem. E o filme é enorme, umas duas horas e meia para imitar (mal) “O Exorcista”. Se calhar a culpa é minha. Já vi demasiados filmes de terror de qualidade para me deixar impressionar por esta pobreza de ideias.
Por falar em exorcista, a única cena verdadeiramente empolgante é o exorcismo de emergência que Lorraine Warren (a poderosa Vera Farmiga) tem de improvisar e que conseguiu correr efectivamente com o demónio Valak. Isto é, até à próxima sequela, presumo.

12 em 20

 

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Insidious: Chapter 3 / Insidioso: Capítulo 3 (2015)


Esta é a prequela de “Insidious” antes da família Lambert. O filme até começou bem e fez-me interessar pelas personagens. Quinn, uma jovem que perdera a mãe há cerca de um ano, procura a médium Elise Rainier para lhe pedir uma consulta com a mãe falecida. Quinn está convencida de que sente a presença da mãe na sua casa e até já a tentou contactar sozinha. Elise avisa-a de que isso é perigoso e de seguida diz uma coisa muito interessante: quando se fala a um morto, todos os mortos ouvem. (O conceito é interessante mas não creio que quando me lembro de um amigo já desaparecido e lhe digo “ainda não acredito que já não estás aqui” os mortos se ponham a ouvir uma conversa que não lhes diz respeito vinda de alguém que não lhes interessa nada. Mas a ideia que o filme explora não é nova. No “Exorcista” também foi quando se puseram a brincar com uma ouija board que Regan ficou possuída. Por outro lado, sempre fiquei com a ideia de que o problema não foi exactamente a ouija board mas terem-na usado como uma brincadeira, sem o respeito devido. Por outro lado ainda, também não acredito que tenha sido por isto que Regan ficou possuída, mas antes como veículo para chegar ao padre exorcista que já tinha um historial com Pazuzu. Mas voltando a “Insidious”...)
A médium Elise Rainier também tem uma história interessante. O marido tinha-se suicidado há pouco tempo, vítima de depressão. Elise ainda dorme abraçada à camisola dele. Obviamente que o tentou contactar, vimos a saber mais tarde, e que para isso teve de ir à região das Trevas no Longínquo (segundo a nomenclatura da própria). Isto fez com que o fantasma da chamada Noiva Negra se tenha agarrado a ela e a queira matar. Porquê? Porque sim. Não façam perguntas difíceis.
Entretanto, Quinn continua a notar acontecimentos estranhos mas que podem ser explicados por motivos racionais. Como daquela vez em que acorda com um barulho no quarto que pode ou não ter sido um pesadelo. Ou daquela outra vez em que está a brincar às pancadas na parede com o vizinho do lado, outro adolescente que tem uma paixoneta por ela. Começam a trocar mensagens e é então que ele diz que nem sequer está em casa. Isto sim, é terror.
De seguida, Quinn é atropelada e sofre uma experiência de quase-morte que a leva ao Além. Mas, na verdade, a situação já acontecia antes, portanto não sei o que é que se queria insinuar com isto. Quinn até é atropelada precisamente porque vê a assombração que a persegue do outro lado da rua. Mas a partir daqui a situação torna-se ainda mais opressiva porque Quinn fica com as duas pernas partidas e não pode fugir do que a assombra. A vida em família também está completamente descontrolada desde que a mãe morreu. O pai não está a conseguir tomar conta de tudo e principalmente do miúdo mais novo, para além da dor de perder a mulher. Quinn, na sua adolescência, acusa-o de querer ignorar que a mãe morreu porque ele nem sequer fala dela. Tudo muito realista e dramático.
Até aqui eu estava a implorar: “Filme, não fiques histérico! Estás a ir tão bem, dá-me esta hora e meia de felicidade! Não fiques histérico, vá lá!” Mas isto é “Insidious”, infelizmente. É claro que passada meia hora ou 45 minutos o filme já estava a cair no histerismo, precisamente o contrário de “insidioso”.
Acontece que há um fantasma/demónio no prédio que quer possuir Quinn e que até já tinha feito uma vítima anterior. O prédio parece o hotel de “Shining”, muito convenientemente. Também não se percebe porque é que só agora é que o fantasma/demónio quer possuir Quinn. Se calhar tinha muito que fazer antes. O fantasma/demónio (sinceramente, nunca percebi o que era) é chamado de “o homem que não consegue respirar” e usa uma máscara de oxigénio. Porquê? Se calhar porque tem medo do Covid. Passando à frente. A entidade começa a ser cada vez mais violenta e por duas vezes arranca Quinn da cama e atira-a ao chão. O que é isto? Conotações sexuais? Por esta altura já não sei o que estava a ver exactamente.
Finalmente o pai assiste a algo que o convence da presença do sobrenatural e vai ele próprio pedir ajuda a Elise Rainier. Esta já sabia que Quinn precisava de ajuda. Apesar da relutância, aceita. Influenciado pelo miúdo mais novo, o pai também pede ajuda aos dois caça-fantasmas, que não conseguem ajudar. É assim que eles conhecem Elise. Ah! Como se me interessasse muito saber. Mas avançando.
Os caça-fantasmas são o suposto “comic relief” mas eu não lhes acho graça nenhuma. Todavia, não são eles que estragam “Insidious”, apesar de tentarem bastante. A certa altura Elise vai ao Longínquo, onde é confrontada por uma entidade maléfica. E que faz Elise, em espírito, no Além? Dá um soco ao fantasma. Não contente com isto ainda lhe diz “toma lá cabra!”.
Da outra vez desatei-me a rir com o diabo chifrudo, mas aqui parei o filme, bati na testa e abanei a cabeça. Estava a ir tão bem!
Daqui em diante são os clichés do costume e o filme perde o interesse todo. “Insidious” é como se alguém julgasse que um filme de terror não tem de fazer muito sentido e que pode ser apenas um sortido de imagens sinistras, como num vídeo de música. Eu já estava vacinada contra a série mas garanto que o princípio até prometia. Agora peço que as sequelas fiquem por aqui, e que ninguém se lembre de fazer uma nova prequela a explicar porque é que o fantasma/demónio não consegue respirar (tirando o facto de estar morto e/ou de ser um espírito) e precisa de uma máscara de oxigénio. As doenças respiratórias devem ser um grande problema no Além.
Muito, muito mau.

12 em 20 (pelo princípio promissor)

 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

The Conjuring / A Evocação (2013)


Este filme enganou-me bem enganada e conseguiu mesmo meter-me medo como já não acontecia há muitos anos nem me parece que aconteça tão cedo.
Pensei que era uma prequela de “Annabelle”, a boneca assombrada, e como tudo o que envolve “bonecos assombrados” me lembra “Chucky” não pensei que era para levar a sério. Este foi o meu primeiro engano. O segundo foi que a acção se passa em 1971 e o filme parece mesmo ter sido filmado em 1971 e deixou-me ali um bocadinho confusa se já o tinha visto ou não e se era um clássico e eu o tinha deixado passar.
Afinal até tem um pouco de prequela de “Annabelle”, numa introdução que não tem nada a ver com a história principal e que serve para nos apresentar aos investigadores do paranormal Ed e Lorraine Warren, que existiram mesmo e até estudaram o caso verdadeiro de Amityville. Esta introdução podia bem ter sido cortada porque não faz falta nenhuma, mas também ajuda a estabelecer a natureza séria do filme (e alimenta a série “Annabelle” que já vai no terceiro episódio!).
O filme é efectivamente retro de propósito, desde o guarda-roupa aos penteados, à linguagem, a toda a atmosfera que podia muito bem ser um “Amityvillle” filmado hoje em dia. Só a presença de Vera Farmiga (a Norma Bates de “Bates Motel”) me alertou de que o filme nunca poderia ser de 1971. Parabéns ao realizador James Wan que me enganou bem enganada (porque tenho o hábito de nunca ler nada sobre um filme ou um livro antes de o ver/ler já para não perder este efeito de surpresa).
Vamos então à história principal, muito semelhante a “Amityville”. Um casal com cinco filhas muda-se para uma casa grande e isolada, o sonho da vida deles. Como acontece nestas coisas, não são pessoas de grandes posses e enterraram todas as poupanças na compra da casa, o que significa que não podem simplesmente fugir quando as coisas começam a acontecer.
As coisas começam a acontecer imediatamente. Barulhos, portas a bater, cheiros nauseabundos, algo que puxa os pés de uma das miúdas quando esta está na cama, toda uma sensação de existir uma outra presença na casa. Não é apenas uma presença, são várias. A situação torna-se tão grave e perturbadora que a família passa a dormir na cozinha devido às coisas que acontecem pela casa toda. Em desespero de causa, a mãe decide pedir ajuda a Ed e Lorraine Warren. Os investigadores pesquisam e descobrem que tudo começou com uma suposta bruxa e adoradora de Satanás que viveu na casa e sacrificou o seu próprio recém-nascido ao Diabo, enforcando-se de seguida. Desde aí, a propriedade tornou-se um íman para todo o género de Mal e várias pessoas morreram em circunstâncias inexplicadas, tanto na casa como em seu redor. Por fim, a mãe das miúdas fica possuída, alegadamente pelo espírito da tal bruxa, e necessita de um exorcismo.
Aqui o filme confundiu-me, sinceramente. Lorraine Warren diz que vê uma presença demoníaca na casa, presença essa que também podia ter possuído inicialmente a tal mulher que sacrificou o próprio filho (e que se suicidou de seguida, prova de que não era assim tão “devota” do demonismo). Mas a explicação dos investigadores é que a mãe está possuída pelo fantasma, não pelo demónio. Achei incoerente, não que tenha muita relevância para a acção propriamente dita.
Há duas maneiras de olhar para “The Conjuring”: como uma cópia ou como uma homenagem. O filme vai buscar elementos a “Amityvile”, ao “Exorcista”, a “Poltergeist”, a “The Haunting”, a todos os filmes de possessões e fantasmas e casas assombradas alguma vez feitos, até aos “Pássaros” de Hitchcock, e eu até notei um cheirinho a “The Shining” e tenho a certeza de que não me estou a lembrar de tudo. Quando um realizador apresenta uma coisa tão descarada nunca é uma cópia, é mais uma amálgama. Talvez a originalidade aqui esteja em tentar perceber quantos filmes podiam ser metidos no filme sem que este implodisse. E a verdade é que resulta. Não é um “The Haunting” (o original) nem um “Exorcista”, nada disso, mas assusta eficientemente e tem passagens de arrepiar a sério. Penso que muito desta eficiência se deve ao grande comedimento nos efeitos especiais que nunca parecem histéricos e implausíveis, o que não é costume no mesmo James Wan (igualmente realizador do primeiro “Saw”) que fez “Insidious”, o tal filme que me pôs literalmente às gargalhadas com o diabo chifrudo. James Wan pode ter muitas qualidades mas a subtileza não é uma delas. Por outro lado, muitos dos filmes em que “The Conjuring” se inspira primam pela subtileza, o que pode ter impedido Wan de se deixar levar pela tentação do disparate. Mesmo assim ainda vemos, por instantes apenas, um demónio em cima de um guarda-fato que na minha opinião não devíamos ter visto. Não me queixo da cadeira levitante durante o exorcismo, porque o que é um exorcismo que se preze sem pelo menos uma cama a levitar, certo?
“The Conjuring” é um filme que nos atira com tudo: casa assombrada, fantasmas, demónios, satanismo, bruxas, possessão, exorcismos, investigadores do paranormal, videntes, pássaros a suicidarem-se contra as janelas, caves e forros de parede secretos, família e crianças em apuros, e de certeza não me estou a lembrar de tudo. É difícil dizer se é este o maior trunfo do filme ou a sua maior falha. Com tantos temas no écran é difícil que um deles não assuste alguém, e a verdade é que me meteu medo. Parabéns.
Por outro lado, por esta mesma razão da amálgama, não posso dizer que seja um grande filme. Há momentos em que no meio dos sub-enredos a tensão se perde, o que nunca deve acontecer num filme de terror, e o mais grave é que se perde ainda mais na previsibilidade do final.
Mesmo assim, “The Conjuring” é um filme para se ver com respeito, que oferece o que promete sem recorrer a sustos fáceis e efeitos especiais disparatados.

14 em 20

(Já depois de escrever este artigo andei à procura de uma imagem para o post. Descobri a fotografia do tal “demónio em cima de um guarda-fato”, que afinal é o fantasma da bruxa muito demonizado. Como disse, só vemos isto durante um instante, nem dá para perceber muito bem o que é. Mas se é a bruxa, não faz sentido. A mulher enforcou-se, o que significa que sentiu culpa e remorsos. Não é dada outra razão. Porque há-de andar agora a sua alma penada a possuir pessoas para fazerem o mesmo? Não há motivação e não bate a bota com a perdigota. Tirei um ponto.)


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Outcast


A primeira coisa que li sobre Outcast é que esta é uma série que efectivamente mete medo. Do mesmo criador de The Walking Dead, Robert Kirkman, e tendo como personagem principal um exorcista, claro que fiquei extremamente entusiasmada! Bem, culpa minha. Por esta altura já deveria saber que um artigo escrito por um espectador normal não traduz “meter medo” da maneira que eu entendo “meter medo”. E quanto a “meter medo” fiquei bastante desiludida. Mas já lá vamos.
Esta é a história de Kyle Barnes, um homem aparentemente perseguido por demónios desde infância. Os motivos por que é perseguido, porque é que os demónios possuem toda a gente que lhe está próxima, não são explicados, pelo menos até ao fim da primeira temporada (a que esta crítica se reporta). E tenho de começar logo aqui a dizer mal, quando eu até queria gostar desta série.
Para dez episódios, a série segue num ritmo demasiado lento para o meu gosto, mas admito que a história se centra em personagens que nunca me conseguem cativar e com as quais não me identifico. Grande parte dos episódios é sobre estas personagens e o seu quotidiano, tentando, ao mesmo tempo, interessar-nos pelos seus problemas e traumas, o que pode resultar muito bem com o tipo de público que estas representam. Para mim as personagens pouco representam e muitos dos episódios foram, lamento dizê-lo, quase uma seca. Só os demónios os salvaram.
O mesmo sintoma se aplica, curiosamente, a The Walking Dead. As personagens são de uma pobreza intelectual generalizada, insuportável se apresentada num enredo sem zombies. Deduzo que seja mesmo esse o objectivo: personagens que representam um certo público alvo com que este se pode identificar facilmente. Admito que resulte, mas eu não pertenço a este público alvo. Mesmo assim, as personagens de The Walking Dead ainda conseguem ser intelectualmente superiores às de Outcast, o que não é difícil. Mas as personagens de The Walking Dead estão ali para servir de papa para zombie e eu sou da opinião de que não é conveniente que o espectador se identifique muito com personagens de uma história de terror.
Já não se passa o mesmo com Outcast. Com Outcast, uma história muito mais lenta e centrada nos personagens, seria importante que nos importássemos com eles. Infelizmente, isso não aconteceu, e acabei a primeira temporada sem saber de cor do nome do protagonista (que fui consultar para esta crítica). O que diz tudo. Pior do que a pobreza intelectual dos personagens são algumas das suas escolhas e comportamentos, do estúpido ao ainda mais estúpido. (O que também é comum a The Walking Dead, curiosamente.) Nem o reverendo se safa. Se calhar por defeito cultural de influência católica, tenho a tendência de olhar para os responsáveis religiosos como pessoas cultas. Esta série recorda-me constantemente o que de menos culto existe na América profunda do “Jesus Belt”, em que o pastor só precisa de saber citar a Bíblia e interpretá-la como lhe dá mais jeito.
Cada vez que estes personagens abrem a boca entra demónio ou sai asneira, e não há como suportá-los.
Falemos então do único motivo por que vejo esta série: os demónios.

Os demónios
Mas serão mesmo demónios? Após dez episódios, tenho razões para duvidar. Foi realmente muito estranho assistir ao comportamento destes demónios. Na verdade, quem nos diz que são demónios é o reverendo, que não diria outra coisa. Mas o reverendo não consegue exorcizá-los com a Bíblia e a cruz e água benta, o que também poderia não significar nada excepto pelos poderes do tal Kyle Barnes, que nem sabe que os tem. Com a simples imposição das mãos, Kyle Barnes consegue expulsar estas entidades das pessoas possuídas (se estão mesmo possuídas?...). A entidade, composta de parte etérea como fumo (à Sobrenatural) e parte óleo negro (como o vírus extraterrestre dos Ficheiros Secretos) sai pela boca do possuído, roda em espiral em direcção ao tecto, e dissolve-se. Do ponto de vista da cultura cinematográfica, parece uma possessão demoníaca. Os possuídos exibem comportamentos alterados, no mínimo estranhos e nos piores casos capazes de violência extrema, o que também é consentâneo com possessão. As imagens iniciais do genérico (o panorama invertido que sobrevoa a cidade) evocam a noção de que o universo demoníaco é invertido (por que motivo, honestamente, nunca me dei ao trabalho de pesquisar, mas compreendo o conceito). Até aqui, tudo nos leva a pensar que se tratam efectivamente de demónios. Mas depois há outras coisas que não fazem qualquer sentido no contexto em que os conhecemos. Ou são demónios muito esquisitos, ou não são demónios de todo.
Primeiro, o tal óleo negro. Ora, toda a gente sabe que o Diabo só se vê quando ele quer mostrar-se, e o mesmo dos seus capangas. De diabos transformados em óleo negro nunca ouvi falar. Mas vamos considerar que são diabos originais.
Segundo, está a haver uma verdadeira infestação de diabos na gente daquela cidade. Das conversas entre estes diabos, que são tudo menos incompreensíveis e crípticas como se esperaria destas entidades, parece mesmo que o objectivo é possuir o maior número possível de pessoas sem dar nas vistas. (E esta parte de “sem dar nas vistas” é importante porque o objectivo da possessão demoníaca sempre foi o de testar a fé dos crentes, nunca a de passar despercebida.) Os diabos estão a chegar em catadupa para um evento em grande escala que o reverendo interpreta como o Apocalipse, mas eu não vejo nada ali que se assemelhe ao Apocalipse. Antes pelo contrário. No Apocalipse, o Anticristo manifesta-se, não se esconde.
Terceiro, que eu saiba, o grande chefe dos diabos não anda por aí em forma de gente, de fato escuro e chapéu de gangster, a mutilar reverendos. Aniquilar a “concorrência” vai contra o objectivo. Sem concorrência, como é que se corrompem as almas? A concorrência é necessária. Quanto maior e melhor a concorrência mais gozo em corromper as almas. (É mais do que gozo, se é que é gozo, mas não vamos entrar em pormenores doutrinais.) O objectivo é arrebatar almas para o Inferno. Não vale possuí-las todas ou levá-las à força ou ameaçá-las à naifada. Há regras!


Por último, finalmente reparei no grande poster “X-Files: I want to believe” que o tal Kyle Barnes tem no quarto, bem visível, desde o primeiro episódio. The Walking Dead já nos habituou a deixar pistas, e eu até já tinha percebido sozinha que o tal óleo negro parecia o vírus extraterrestre dos Ficheiros Secretos, mas pensei que o poster era apenas uma homenagem.
Chegando ao fim da primeira temporada, pergunto-me se é mais do que isso. Aquela infestação de diabos e as conversas entre eles levam-me mais a pensar numa invasão extraterrestre (tipo “Body Snatchers”) do que demónios.
De qualquer das maneiras, o resultado é mau. É mau se a série prometeu demónios e exorcistas durante toda uma primeira temporada para depois nos dizer que são extraterrestres. É mau se forem extraterrestres porque nunca se percebe ao certo que o são, e até a pista, se o for, é uma extrapolação da minha parte que pode estar certa ou errada. Em qualquer dos casos, considero mau resultado chegar ao fim da primeira temporada sem perceber exactamente o que estou a ver. Nos primeiros episódios? Sim. Uma temporada inteira? Demasiado. (Lá tenho de me lembrar outra vez da pior temporada de Lost, quando tentaram convencer as pessoas de que a ilha tinha uma explicação científica.) Mas cheguei mesmo ao fim da temporada na dúvida, a saber muito sobre personagens que não me interessam nada e muito pouco sobre os demónios que podem não ser demónios.

O que mete medo
O que mete “medo”, em Outcast, são as cenas de violência real. A mãe a espancar o miúdo, o homem que viola e assassina a mulher do melhor amigo, os animais mutilados. Tudo coisas imputadas ao diabo, mas todos sabemos que neste caso o diabo tem as costas largas. Não é preciso diabo para as pessoas fazerem estas coisas, o que é mais triste do que assustador.
A única cena que mete medo é quase uma cópia do “Exorcista”. Um miúdo possuído a fazer exactamente as mesmas coisas que faz a miúda possuída do “Exorcista”. Não considero um plágio mas uma homenagem. Se mete medo? Claro que mete medo. Não é por nada que o “Exorcista” é considerado um dos filmes mais assustadores de sempre.


As possessões seguintes tornam-se cada vez menos assustadoras e cada vez mais violentas, e já não causam o mesmo efeito. Quanto mais a série se afasta dos temas demoníacos e se foca na banalidade da violência real, cada vez menor o efeito. O que nos assusta no “Exorcista” funciona a nível inconsciente. Temos medo do que não vemos, do que nos pode controlar contra a nossa vontade, da possessão. Se os demónios nem parecem demónios, não produzem o efeito de demónios.
A melhor possessão da série, tenho de dizê-lo, é quando alguém que não vou identificar mata o marido assim que a entidade entra dentro dela. E foi a melhor possessão porque a entidade dentro dela a faz parecer um zombie. Acreditei, a certo momento, que ela ia começar a comer o cadáver do marido. Da maneira como deambula pelas ruas, desgrenhada e descalça, podia ter aparecido em The Walking Dead e ninguém dava pela diferença. A melhor possessão da série funciona porque nos lembra da outra série, com tudo o que isso implica.


Ainda não comecei a ver a segunda temporada*, e ainda tenho esperança de mudar de ideias, mas até agora Outcast não me consegue convencer como a grande série que esperava que fosse e que podia ter sido. Se ao menos os personagens fossem mais interessantes (e inteligentes), se ao menos os demónios fossem mais demónios e menos outra coisa que não se percebe.
Espero bem que estas entidades não sejam afinal um vírus extraterrestre que visita o planeta Terra ocasionalmente desde a mais remota pré-História, dando assim origem ao mito dos demónios (e dos vampiros). Se há uma coisa que me irrita é a “mistura” de científico com sobrenatural. Nunca vi nada que saísse bem feito dessa mistura. Porque é que as pessoas insistem?


* Entretanto, depois de escrever este artigo, já vi o primeiro episódio da segunda temporada. O mistério quanto às entidades continua a arrastar-se, a arrastar-se, a arrastar-se... Com alguma sorte, pensam os criadores da série, para espremer dez temporadas disto.
Eu já estou desapontada e ainda vou no décimo primeiro episódio. O início da segunda série não augura  melhoria. Se vou continuar a ver? Claro que vou. Demónios ou extraterrestres ou gambuzinos, onde há terror lá estou eu. Que a série podia ser muito melhor do que é? Sim, podia. O que é que a série pretende alcançar? Não faço ideia. Por esta altura, acredito que os criadores também não fazem.