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sexta-feira, 24 de agosto de 2018
The X-Files / Ficheiros Secretos 2018
E aqui estamos nós outra vez a falar dos Ficheiros Secretos, versão 2018. É a temporada 11, para quem já se perdeu.
Apesar de toda a minha indignação na crítica à mini-série / 10ª temporada de 2016, confesso que não a levei muito a sério. Como ali digo, “aconteceu-me um raro fenómeno de dissociação televisiva em que continuei a ver sem ver nada. Fui abduzida. O corpo ficou na cadeira em frente à televisão mas a mente já não estava lá.” Enfim, pensei eu, mini-série a apelar à nostalgia (e ao lucro fácil) que começa e acaba aqui. As reacções dos fãs foram semelhantes à minha e acreditei piamente que era a última vez que via o Mulder e a Scully.
Com este novo regresso, a que já chamaram “temporada” em vez de “mini-série”, levei o caso mais a sério. Então os Ficheiros Secretos iam voltar? Iam mesmo voltar, regularmente? Então é para ser bom. Não se admite outra coisa. E comecei a ver com uma maior expectativa que o primeiro “regresso” não me mereceu.
Logo no primeiro episódio, banhada. Toda aquela pandemia do vírus alienígena, o fim do mundo, tudo isso, bem, foi um sonho. [Como naquele famoso e infame episódio de Dallas, de que os leitores mais novos não se vão lembrar mas que é um clássico, em que uma temporada inteira desaparece com um sonho.] Tudo o que vimos na temporada anterior simplesmente não aconteceu. Era só a Scully a ter uma visão do futuro.
Aqui apeteceu-me logo atirar o comando ao écran. Mas acalmei-me. Racionalizei. Se calhar o Chris Carter não sabia se a série ia ser renovada e quis acabar em grande, com o fim do mundo. Sim, com um cliffhanger, mas em grande. E quando a série foi mesmo renovada, percebeu que não era exequível ou não tinha orçamento para continuar o enredo por ali e teve de retroceder. Racionalizei e aceitei. Se isso significava o regresso dos Ficheiros Secretos como os conhecíamos, um caso por semana, Mulder e Scully mais velhos, vinte anos mais tarde, enfrentando novos problemas pessoais e desafios diferentes, até perdoaria o começo desastrado. Porque, afinal, é disso que os fãs dos X-Files sempre gostaram: Mulder e Scully a investigarem casos estranhos, daqueles que nos fazem hesitar entre acreditar e não acreditar. Daqueles que fazem justiça ao slogan da série, I want to believe.
No baú do esquecimento
Esta temporada recordou-me tudo o que já não ia bem nos X-Files quando a série original chegou ao fim. A mitologia, que já não tinha pés nem cabeça. A conspiração, que já não fazia sentido. Mas pelo menos acabaram com a invasão alienígena: o planeta está tão estragado que os extraterrestres já não estão interessados em vir para cá. E aqui sorri. Nunca vi os Ficheiros Secretos à espera de comédia, mas não rejeito. E depois começaram a acontecer coisas estranhíssimas. Sabiam, ou lembram-se, que o Homem dos Cigarros era o pai do Mulder? Lembram-se de isso ser dito, implícita ou explicitamente, na série original? Porque eu não me lembrava nada. Absolutamente nada. E conforme fui lendo críticas aos episódios comecei a recordar-me das últimas temporadas da série que a minha memória tinha pura e simplesmente bloqueado. E lembrei-me que nos últimos tempos a série já não era nada de especial. Até houve uma temporada em que o Mulder esteve ausente! Substituído por um tal agente Doggett interpretado pelo actor de "Exterminador Implacável 2", Robert Patrick. Como é que me esqueci disto tudo? Bem, porque já era mau. É claro que vi, fielmente, mas a série já tinha passado o prazo de validade. Infelizmente, foi disso que esta temporada 11 me recordou e não é o tipo de memórias que queremos ter de uma das nossas séries favoritas. Nostalgia, sim. Do que foi bom, do que lembramos dos tempos áureos. A série não devia ter sido ressuscitada sem motivos épicos para a tirar do baú do esquecimento.
Mas também conhecemos William! Finalmente! Então o puto sempre existe! E não é filho do Mulder. Ficamos logo a saber, no primeiro episódio “My Struggle III”, que o Homem do Cigarro inseminou a Scully, drogada e inconsciente, com um embrião de ambos. Esperemos que a inseminação tenha sido artificial e já é repulsivo o bastante. Mas isto significa que durante este tempo todo o Mulder julgou que era pai de um filho que afinal é o irmão filho do pai. [Não resisti.] E irritou-me um bocadinho. Nunca fui muito apreciadora de terem transformado a relação entre o Mulder e a Scully num romance, admito. Mas fui-me habituando à dinâmica romântica entre os dois e fui-me afeiçoando à ideia de que algures no mundo tinham um filho. De repente, não têm. Nada nos adiantou tentar importar-nos com um miúdo que só vimos brevemente em bebé. Não é filho do Mulder e a Scully foi inseminada por violação científica. O “choque” não compensa a perda do investimento emocional. E faz-nos questionar o mais básico que um espectador nunca devia questionar: vale a pena investirmos emocionalmente nestes personagens? Porque o fim da temporada faz-nos suspeitar que não. Mas agora já me estou a adiantar.
Os bons motivos para uma continuação
Apesar disto tudo, a temporada 11 também me recordou o que me tornou fã dos Ficheiros Secretos. Alguns episódios foram bons, mesmo bons:
“Kitten” Centrado em Skinner e na sua experiência no Vietname, é um episódio à antiga, em que experiências governamentais com drogas alucinogénicas transformam pessoas pacatas em soldados sanguinários. Nada de sobrenatural ou alienígena, mas sempre interessante.
“Rm9sbG93ZXJz” Um episódio que podia ser um filme de terror salpicado de comédia. Num futuro mais ou menos próximo (?) Mulder e Scully vão comer a um restaurante japonês completamente operado por robôs. Depois de ser servido com um jantar horripilante, Mulder recusa-se a deixar gorjeta. Isto leva a uma conspiração entre todas as máquinas dotadas de inteligência artificial que perseguem Mulder e Scully atrás da gorjeta. Parece cómico mas tem momentos muito tensos. A sorte é que a inteligência das máquinas não é assim tanta. Mas faz-nos pensar até que ponto queremos inteligência artificial nas nossas vidas. Eu pensei em comprar um daqueles aspiradores redondos autónomos que andam de um lado para ao outro. Agora é que não compro mesmo! Um excelente episódio, o melhor da temporada na minha opinião.
“Familiar” Este episódio fazia mais sentido no Sobrenatural. Não sei até que ponto é que alguém decidiu que o regresso dos X-Files devia ser palhaçada. Funcionou muito bem com o Lagartomem da temporada anterior, episódio “Mulder & Scully Meet the Were-Monster”, mas para mim já não funcionou tão bem com “The Lost Art of Forehead Sweat” desta temporada, que supostamente devia ser cómico mas não me fez rir. “Familiar” é um episódio a roçar o mau gosto, em que no meio da palhaçada duas crianças são assassinadas e Mulder vê um Mastim do Inferno. No Sobrenatural fazem isto muito bem. Prova de que Sobrenatural é uma das séries mais subestimadas de sempre. Os X-Files tentaram fazer o mesmo e falhou ali qualquer coisa.
“Nothing Lasts Forever” Deste episódio gostei mesmo muito. Um culto procura a eterna juventude alimentando-se de carne e sangue de adolescentes e alguma ficção-científica. E resulta. O que os torna vampiros, nem mais nem menos. Uma diva dos anos 60 permanece jovem e bela como se tivesse vinte anos graças ao seu batido de sangue humano. Muito Erzsebet Bathory. Aconselhado a quem gosta de vampiros. Não aconselhado a pessoas de estômago sensível.
Com estes episódios, recordei o que gostava nos Ficheiros Secretos e vi uma verdadeira possibilidade de continuação. Mulder e Scully, com ou sem romance, a investigar casos estranhos. Sempre foi isto. Bastava só isto.
Mas entretanto aconteceu "Ghouli".
I want to forget
"Ghouli" foi o episódio que introduziu William e não podia ter sido mais disparatado. Começou com um monstro, mas afinal não era um monstro, era William, o filho perdido de Scully e Mulder, o personagem que todos ansiávamos conhecer, o salvador do mundo com o seu ADN alienígena. E estava morto. Mas afinal não estava morto, estava só a fingir-se de morto enquanto Skully chorava à sua beira. Ainda não estávamos refeitos do choque de descobrir que o episódio era sobre um personagem que devia ser fulcral, quando percebemos que William é um estafermo. Mas a série não percebe que William é um estafermo e segue em frente, episódio e temporada, como se nos devêssemos importar com este parvalhão. Entre as belas coisas que William nos mostra, consegue fazer com que as suas duas namoradas se esfaqueiem uma à outra (sim, duas namoradas, ao mesmo tempo). Quando os pais adoptivos são assassinados, não o afecta nada. E ainda diz a uma das namoradas que partilha visões com “uma mulher qualquer que deve ser a minha mãe biológica”. Não é um amor? Mas a série parece querer apresentá-lo como um rapaz interessante e incompreendido. Infelizmente, é apenas um estafermo. E a maneira como o episódio se desenrola é das coisas mais mal feitas que vi na vida. Como se fosse o script de uma história monster of the week em que o William foi metido à força porque não tiveram ideia melhor. É espantoso como uma série deste nível conseguiu destruir o personagem que devia ser o centro emocional da temporada.
Mas isto não é o mais grave. O mais grave é mesmo o fim.
Depois de algumas peripécias, em que Mulder e Scully nunca se apercebem de que têm por filho um estafermo, algo acontece que os leva a pensar que William morreu (mesmo). E aqui Scully tem uma reacção absurda. Depois de anos a agonizar pelo filho perdido, diz apenas: “Ele era só uma ideia, uma experiência de laboratório.” Como?! E Mulder diz esta pérola: “Que sou eu senão um pai?” Como?! Quando é que o Mulder foi um pai? Conheceu o miúdo durante cinco minutos. Trocou com ele cinco palavras. Mulder nunca foi um pai e Scully nunca diria do filho “deixa lá, a gente faz outro”. Ok, ninguém diria uma coisa destas de um filho, ponto final. Quem é que escreveu este diálogo e com que intenção? Porque eu quero esquecer o que vi e ouvi, de tão mau.
Uma coisa são episódios chochos. Outra coisa muito mais grave, como dizia acima, é transformar os personagens em marionetas de papel em que não se consegue investir emocionalmente. E fazer isto ao Mulder e à Scully, a quem conhecemos há mais de vinte anos, é imperdoável.
A temporada 2018 recordou-me o pior e o melhor dos Ficheiros Secretos. Mas o melhor não superou o pior, e é pena. Se é para trazer a série de volta, com pés e cabeça, porque não? Se é para destruir bons personagens e boas memórias, que esta seja a última vez que tenho de falar dos X-Files. De cada vez que tentam dar à série o fim que merece (e que nunca teve) conseguem fazer pior. Se é assim, como fã, prefiro que desistam. Que deixem a série repousar em paz.
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Outcast
A primeira coisa que li sobre Outcast é que esta é uma série que efectivamente mete medo. Do mesmo criador de The Walking Dead, Robert Kirkman, e tendo como personagem principal um exorcista, claro que fiquei extremamente entusiasmada! Bem, culpa minha. Por esta altura já deveria saber que um artigo escrito por um espectador normal não traduz “meter medo” da maneira que eu entendo “meter medo”. E quanto a “meter medo” fiquei bastante desiludida. Mas já lá vamos.
Esta é a história de Kyle Barnes, um homem aparentemente perseguido por demónios desde infância. Os motivos por que é perseguido, porque é que os demónios possuem toda a gente que lhe está próxima, não são explicados, pelo menos até ao fim da primeira temporada (a que esta crítica se reporta). E tenho de começar logo aqui a dizer mal, quando eu até queria gostar desta série.
Para dez episódios, a série segue num ritmo demasiado lento para o meu gosto, mas admito que a história se centra em personagens que nunca me conseguem cativar e com as quais não me identifico. Grande parte dos episódios é sobre estas personagens e o seu quotidiano, tentando, ao mesmo tempo, interessar-nos pelos seus problemas e traumas, o que pode resultar muito bem com o tipo de público que estas representam. Para mim as personagens pouco representam e muitos dos episódios foram, lamento dizê-lo, quase uma seca. Só os demónios os salvaram.
O mesmo sintoma se aplica, curiosamente, a The Walking Dead. As personagens são de uma pobreza intelectual generalizada, insuportável se apresentada num enredo sem zombies. Deduzo que seja mesmo esse o objectivo: personagens que representam um certo público alvo com que este se pode identificar facilmente. Admito que resulte, mas eu não pertenço a este público alvo. Mesmo assim, as personagens de The Walking Dead ainda conseguem ser intelectualmente superiores às de Outcast, o que não é difícil. Mas as personagens de The Walking Dead estão ali para servir de papa para zombie e eu sou da opinião de que não é conveniente que o espectador se identifique muito com personagens de uma história de terror.
Já não se passa o mesmo com Outcast. Com Outcast, uma história muito mais lenta e centrada nos personagens, seria importante que nos importássemos com eles. Infelizmente, isso não aconteceu, e acabei a primeira temporada sem saber de cor do nome do protagonista (que fui consultar para esta crítica). O que diz tudo. Pior do que a pobreza intelectual dos personagens são algumas das suas escolhas e comportamentos, do estúpido ao ainda mais estúpido. (O que também é comum a The Walking Dead, curiosamente.) Nem o reverendo se safa. Se calhar por defeito cultural de influência católica, tenho a tendência de olhar para os responsáveis religiosos como pessoas cultas. Esta série recorda-me constantemente o que de menos culto existe na América profunda do “Jesus Belt”, em que o pastor só precisa de saber citar a Bíblia e interpretá-la como lhe dá mais jeito.
Cada vez que estes personagens abrem a boca entra demónio ou sai asneira, e não há como suportá-los.
Falemos então do único motivo por que vejo esta série: os demónios.
Esta é a história de Kyle Barnes, um homem aparentemente perseguido por demónios desde infância. Os motivos por que é perseguido, porque é que os demónios possuem toda a gente que lhe está próxima, não são explicados, pelo menos até ao fim da primeira temporada (a que esta crítica se reporta). E tenho de começar logo aqui a dizer mal, quando eu até queria gostar desta série.
Para dez episódios, a série segue num ritmo demasiado lento para o meu gosto, mas admito que a história se centra em personagens que nunca me conseguem cativar e com as quais não me identifico. Grande parte dos episódios é sobre estas personagens e o seu quotidiano, tentando, ao mesmo tempo, interessar-nos pelos seus problemas e traumas, o que pode resultar muito bem com o tipo de público que estas representam. Para mim as personagens pouco representam e muitos dos episódios foram, lamento dizê-lo, quase uma seca. Só os demónios os salvaram.
O mesmo sintoma se aplica, curiosamente, a The Walking Dead. As personagens são de uma pobreza intelectual generalizada, insuportável se apresentada num enredo sem zombies. Deduzo que seja mesmo esse o objectivo: personagens que representam um certo público alvo com que este se pode identificar facilmente. Admito que resulte, mas eu não pertenço a este público alvo. Mesmo assim, as personagens de The Walking Dead ainda conseguem ser intelectualmente superiores às de Outcast, o que não é difícil. Mas as personagens de The Walking Dead estão ali para servir de papa para zombie e eu sou da opinião de que não é conveniente que o espectador se identifique muito com personagens de uma história de terror.
Já não se passa o mesmo com Outcast. Com Outcast, uma história muito mais lenta e centrada nos personagens, seria importante que nos importássemos com eles. Infelizmente, isso não aconteceu, e acabei a primeira temporada sem saber de cor do nome do protagonista (que fui consultar para esta crítica). O que diz tudo. Pior do que a pobreza intelectual dos personagens são algumas das suas escolhas e comportamentos, do estúpido ao ainda mais estúpido. (O que também é comum a The Walking Dead, curiosamente.) Nem o reverendo se safa. Se calhar por defeito cultural de influência católica, tenho a tendência de olhar para os responsáveis religiosos como pessoas cultas. Esta série recorda-me constantemente o que de menos culto existe na América profunda do “Jesus Belt”, em que o pastor só precisa de saber citar a Bíblia e interpretá-la como lhe dá mais jeito.
Cada vez que estes personagens abrem a boca entra demónio ou sai asneira, e não há como suportá-los.
Falemos então do único motivo por que vejo esta série: os demónios.
Os demónios
Mas serão mesmo demónios? Após dez episódios, tenho razões para duvidar. Foi realmente muito estranho assistir ao comportamento destes demónios. Na verdade, quem nos diz que são demónios é o reverendo, que não diria outra coisa. Mas o reverendo não consegue exorcizá-los com a Bíblia e a cruz e água benta, o que também poderia não significar nada excepto pelos poderes do tal Kyle Barnes, que nem sabe que os tem. Com a simples imposição das mãos, Kyle Barnes consegue expulsar estas entidades das pessoas possuídas (se estão mesmo possuídas?...). A entidade, composta de parte etérea como fumo (à Sobrenatural) e parte óleo negro (como o vírus extraterrestre dos Ficheiros Secretos) sai pela boca do possuído, roda em espiral em direcção ao tecto, e dissolve-se. Do ponto de vista da cultura cinematográfica, parece uma possessão demoníaca. Os possuídos exibem comportamentos alterados, no mínimo estranhos e nos piores casos capazes de violência extrema, o que também é consentâneo com possessão. As imagens iniciais do genérico (o panorama invertido que sobrevoa a cidade) evocam a noção de que o universo demoníaco é invertido (por que motivo, honestamente, nunca me dei ao trabalho de pesquisar, mas compreendo o conceito). Até aqui, tudo nos leva a pensar que se tratam efectivamente de demónios. Mas depois há outras coisas que não fazem qualquer sentido no contexto em que os conhecemos. Ou são demónios muito esquisitos, ou não são demónios de todo.
Primeiro, o tal óleo negro. Ora, toda a gente sabe que o Diabo só se vê quando ele quer mostrar-se, e o mesmo dos seus capangas. De diabos transformados em óleo negro nunca ouvi falar. Mas vamos considerar que são diabos originais.
Segundo, está a haver uma verdadeira infestação de diabos na gente daquela cidade. Das conversas entre estes diabos, que são tudo menos incompreensíveis e crípticas como se esperaria destas entidades, parece mesmo que o objectivo é possuir o maior número possível de pessoas sem dar nas vistas. (E esta parte de “sem dar nas vistas” é importante porque o objectivo da possessão demoníaca sempre foi o de testar a fé dos crentes, nunca a de passar despercebida.) Os diabos estão a chegar em catadupa para um evento em grande escala que o reverendo interpreta como o Apocalipse, mas eu não vejo nada ali que se assemelhe ao Apocalipse. Antes pelo contrário. No Apocalipse, o Anticristo manifesta-se, não se esconde.
Terceiro, que eu saiba, o grande chefe dos diabos não anda por aí em forma de gente, de fato escuro e chapéu de gangster, a mutilar reverendos. Aniquilar a “concorrência” vai contra o objectivo. Sem concorrência, como é que se corrompem as almas? A concorrência é necessária. Quanto maior e melhor a concorrência mais gozo em corromper as almas. (É mais do que gozo, se é que é gozo, mas não vamos entrar em pormenores doutrinais.) O objectivo é arrebatar almas para o Inferno. Não vale possuí-las todas ou levá-las à força ou ameaçá-las à naifada. Há regras!
Mas serão mesmo demónios? Após dez episódios, tenho razões para duvidar. Foi realmente muito estranho assistir ao comportamento destes demónios. Na verdade, quem nos diz que são demónios é o reverendo, que não diria outra coisa. Mas o reverendo não consegue exorcizá-los com a Bíblia e a cruz e água benta, o que também poderia não significar nada excepto pelos poderes do tal Kyle Barnes, que nem sabe que os tem. Com a simples imposição das mãos, Kyle Barnes consegue expulsar estas entidades das pessoas possuídas (se estão mesmo possuídas?...). A entidade, composta de parte etérea como fumo (à Sobrenatural) e parte óleo negro (como o vírus extraterrestre dos Ficheiros Secretos) sai pela boca do possuído, roda em espiral em direcção ao tecto, e dissolve-se. Do ponto de vista da cultura cinematográfica, parece uma possessão demoníaca. Os possuídos exibem comportamentos alterados, no mínimo estranhos e nos piores casos capazes de violência extrema, o que também é consentâneo com possessão. As imagens iniciais do genérico (o panorama invertido que sobrevoa a cidade) evocam a noção de que o universo demoníaco é invertido (por que motivo, honestamente, nunca me dei ao trabalho de pesquisar, mas compreendo o conceito). Até aqui, tudo nos leva a pensar que se tratam efectivamente de demónios. Mas depois há outras coisas que não fazem qualquer sentido no contexto em que os conhecemos. Ou são demónios muito esquisitos, ou não são demónios de todo.
Primeiro, o tal óleo negro. Ora, toda a gente sabe que o Diabo só se vê quando ele quer mostrar-se, e o mesmo dos seus capangas. De diabos transformados em óleo negro nunca ouvi falar. Mas vamos considerar que são diabos originais.
Segundo, está a haver uma verdadeira infestação de diabos na gente daquela cidade. Das conversas entre estes diabos, que são tudo menos incompreensíveis e crípticas como se esperaria destas entidades, parece mesmo que o objectivo é possuir o maior número possível de pessoas sem dar nas vistas. (E esta parte de “sem dar nas vistas” é importante porque o objectivo da possessão demoníaca sempre foi o de testar a fé dos crentes, nunca a de passar despercebida.) Os diabos estão a chegar em catadupa para um evento em grande escala que o reverendo interpreta como o Apocalipse, mas eu não vejo nada ali que se assemelhe ao Apocalipse. Antes pelo contrário. No Apocalipse, o Anticristo manifesta-se, não se esconde.
Terceiro, que eu saiba, o grande chefe dos diabos não anda por aí em forma de gente, de fato escuro e chapéu de gangster, a mutilar reverendos. Aniquilar a “concorrência” vai contra o objectivo. Sem concorrência, como é que se corrompem as almas? A concorrência é necessária. Quanto maior e melhor a concorrência mais gozo em corromper as almas. (É mais do que gozo, se é que é gozo, mas não vamos entrar em pormenores doutrinais.) O objectivo é arrebatar almas para o Inferno. Não vale possuí-las todas ou levá-las à força ou ameaçá-las à naifada. Há regras!
Por último, finalmente reparei no grande poster “X-Files: I want to believe” que o tal Kyle Barnes tem no quarto, bem visível, desde o primeiro episódio. The Walking Dead já nos habituou a deixar pistas, e eu até já tinha percebido sozinha que o tal óleo negro parecia o vírus extraterrestre dos Ficheiros Secretos, mas pensei que o poster era apenas uma homenagem.
Chegando ao fim da primeira temporada, pergunto-me se é mais do que isso. Aquela infestação de diabos e as conversas entre eles levam-me mais a pensar numa invasão extraterrestre (tipo “Body Snatchers”) do que demónios.
De qualquer das maneiras, o resultado é mau. É mau se a série prometeu demónios e exorcistas durante toda uma primeira temporada para depois nos dizer que são extraterrestres. É mau se forem extraterrestres porque nunca se percebe ao certo que o são, e até a pista, se o for, é uma extrapolação da minha parte que pode estar certa ou errada. Em qualquer dos casos, considero mau resultado chegar ao fim da primeira temporada sem perceber exactamente o que estou a ver. Nos primeiros episódios? Sim. Uma temporada inteira? Demasiado. (Lá tenho de me lembrar outra vez da pior temporada de Lost, quando tentaram convencer as pessoas de que a ilha tinha uma explicação científica.) Mas cheguei mesmo ao fim da temporada na dúvida, a saber muito sobre personagens que não me interessam nada e muito pouco sobre os demónios que podem não ser demónios.
O que mete medo
O que mete “medo”, em Outcast, são as cenas de violência real. A mãe a espancar o miúdo, o homem que viola e assassina a mulher do melhor amigo, os animais mutilados. Tudo coisas imputadas ao diabo, mas todos sabemos que neste caso o diabo tem as costas largas. Não é preciso diabo para as pessoas fazerem estas coisas, o que é mais triste do que assustador.
A única cena que mete medo é quase uma cópia do “Exorcista”. Um miúdo possuído a fazer exactamente as mesmas coisas que faz a miúda possuída do “Exorcista”. Não considero um plágio mas uma homenagem. Se mete medo? Claro que mete medo. Não é por nada que o “Exorcista” é considerado um dos filmes mais assustadores de sempre.
O que mete “medo”, em Outcast, são as cenas de violência real. A mãe a espancar o miúdo, o homem que viola e assassina a mulher do melhor amigo, os animais mutilados. Tudo coisas imputadas ao diabo, mas todos sabemos que neste caso o diabo tem as costas largas. Não é preciso diabo para as pessoas fazerem estas coisas, o que é mais triste do que assustador.
A única cena que mete medo é quase uma cópia do “Exorcista”. Um miúdo possuído a fazer exactamente as mesmas coisas que faz a miúda possuída do “Exorcista”. Não considero um plágio mas uma homenagem. Se mete medo? Claro que mete medo. Não é por nada que o “Exorcista” é considerado um dos filmes mais assustadores de sempre.
As possessões seguintes tornam-se cada vez menos assustadoras e cada vez mais violentas, e já não causam o mesmo efeito. Quanto mais a série se afasta dos temas demoníacos e se foca na banalidade da violência real, cada vez menor o efeito. O que nos assusta no “Exorcista” funciona a nível inconsciente. Temos medo do que não vemos, do que nos pode controlar contra a nossa vontade, da possessão. Se os demónios nem parecem demónios, não produzem o efeito de demónios.
A melhor possessão da série, tenho de dizê-lo, é quando alguém que não vou identificar mata o marido assim que a entidade entra dentro dela. E foi a melhor possessão porque a entidade dentro dela a faz parecer um zombie. Acreditei, a certo momento, que ela ia começar a comer o cadáver do marido. Da maneira como deambula pelas ruas, desgrenhada e descalça, podia ter aparecido em The Walking Dead e ninguém dava pela diferença. A melhor possessão da série funciona porque nos lembra da outra série, com tudo o que isso implica.
A melhor possessão da série, tenho de dizê-lo, é quando alguém que não vou identificar mata o marido assim que a entidade entra dentro dela. E foi a melhor possessão porque a entidade dentro dela a faz parecer um zombie. Acreditei, a certo momento, que ela ia começar a comer o cadáver do marido. Da maneira como deambula pelas ruas, desgrenhada e descalça, podia ter aparecido em The Walking Dead e ninguém dava pela diferença. A melhor possessão da série funciona porque nos lembra da outra série, com tudo o que isso implica.
Ainda não comecei a ver a segunda temporada*, e ainda tenho esperança de mudar de ideias, mas até agora Outcast não me consegue convencer como a grande série que esperava que fosse e que podia ter sido. Se ao menos os personagens fossem mais interessantes (e inteligentes), se ao menos os demónios fossem mais demónios e menos outra coisa que não se percebe.
Espero bem que estas entidades não sejam afinal um vírus extraterrestre que visita o planeta Terra ocasionalmente desde a mais remota pré-História, dando assim origem ao mito dos demónios (e dos vampiros). Se há uma coisa que me irrita é a “mistura” de científico com sobrenatural. Nunca vi nada que saísse bem feito dessa mistura. Porque é que as pessoas insistem?
Espero bem que estas entidades não sejam afinal um vírus extraterrestre que visita o planeta Terra ocasionalmente desde a mais remota pré-História, dando assim origem ao mito dos demónios (e dos vampiros). Se há uma coisa que me irrita é a “mistura” de científico com sobrenatural. Nunca vi nada que saísse bem feito dessa mistura. Porque é que as pessoas insistem?
* Entretanto, depois de escrever este artigo, já vi o primeiro episódio da segunda temporada. O mistério quanto às entidades continua a arrastar-se, a arrastar-se, a arrastar-se... Com alguma sorte, pensam os criadores da série, para espremer dez temporadas disto.
Eu já estou desapontada e ainda vou no décimo primeiro episódio. O início da segunda série não augura melhoria. Se vou continuar a ver? Claro que vou. Demónios ou extraterrestres ou gambuzinos, onde há terror lá estou eu. Que a série podia ser muito melhor do que é? Sim, podia. O que é que a série pretende alcançar? Não faço ideia. Por esta altura, acredito que os criadores também não fazem.
Eu já estou desapontada e ainda vou no décimo primeiro episódio. O início da segunda série não augura melhoria. Se vou continuar a ver? Claro que vou. Demónios ou extraterrestres ou gambuzinos, onde há terror lá estou eu. Que a série podia ser muito melhor do que é? Sim, podia. O que é que a série pretende alcançar? Não faço ideia. Por esta altura, acredito que os criadores também não fazem.
quinta-feira, 10 de março de 2016
The X-Files, versão 2016: Eu não quero acreditar!
Eu não quero acreditar que foram exumar o cadáver dos Ficheiros Secretos ao altar incensado onde repousava em paz e sossego para toda a eternidade dos séculos e séculos... para isto!
Deixem-me dizer-vos: fui uma grande fã da série e nunca perdi um único episódio! E nem sequer me considero uma das maiores fãs da série. Havia fanáticos, na altura, que assobiavam o tema dos X-Files, fanáticos que usavam boné dos X-Files! Nunca fui dessas fanáticas, mas nunca perdi um episódio. Tive pelo menos duas bandas sonoras da série e do filme, em CD!, que ainda ouço hoje em dia. A minha experiência com os Ficheiros Secretos foi sentida e visceral, consumida com avidez cerebral e emocional, e por fim integrada nos arquivos do inconsciente activo onde sempre permanecerá como a memória difusa e vaga de algo que marcou e que passou.
Dentro deste tipo de ficção (sobrenatural, horror, fantástico) esta foi simplesmente a série mais importante dos anos 90, uma série que influenciou tudo o que vimos depois, desde "Lost" a "Sobrenatural", desde "Fringe" ao recente "iZombie", e a toda a miríade de séries e filmes, mais ou menos sérios, que despontaram das raízes de conteúdo, estilo e narrativa que "The X-Files" lançou. Mais ou menos subtil, a influência ramificou-se e nunca mais nada seria mesmo.
O primeiro filme ("The X-Files: Fight the Future", 1998) foi bom e no espírito da série. O segundo filme ("The X Files: I Want to Believe", 2008) estragou tudo. Como muitos outros fãs, senti-me defraudada e ludibriada em tudo o que me tinha sido dado a entender dos universos de Mulder e Scully, e não houve nada que me tenha irritado mais do que a revelação de que Mulder e Scully tiveram um filho, e que o tiveram por meios absolutamente naturais (afinal, tinham uma espécie de caso que "nós" nunca vimos), quando tudo na série nos levou a pensar que aquela gravidez era alienígena, e muito mais interessante que o fosse! O segundo filme, assim, abriu um problema muito maior: por que raio é que Scully deu o miúdo para adopção?! Mesmo que fosse um miúdo meio-alien, que raio de solução era essa?! E o Mulder, afinal, o pai biológico, não tinha nada a dizer sobre o assunto? Na minha opinião, grande asneirada da parte do filme.
Gozei aqui com o filme de 2008, e preferi esquecer que alguma vez tinha visto aquilo. O affair, a gravidez normal, a adopção. Nada daquilo fazia sentido. Melhor recordar a grandiosidade dos X-Files quando eram a vanguarda do género.
(Para quem se preocupa com o puto, esta mini-série continua a
telenovela. Agora eles estão arrependidos de terem dado o puto para
adopção e sentam-se de mão dada a pensar onde ele está. Como se não
fossem o Mulder e a Scully, que até extraterrestres encontram se
quiserem!... Vão lá procurar os puto e deixem-se de lamúrias, vocês
dois!)
Até tremi quando ouvi rumores de que iam fazer uma mini-série. Esta mini-série, de que tratamos aqui. Sinto sempre estes tremores, este frio na barriga, quando me dizem que vão ressuscitar uma grande série ou fazer um remake de um grande filme. Soa-me sempre a vil metal, e a ideia de Chris Carter estar metido nisto ainda me aborreceu mais. Mas, no reverso da moeda, Chris Carter, metido nisto, foi motivo mais do que suficiente para dar o benefício da dúvida. Assim, dei.
E não quero acreditar no que vi! Sei que não estou a avisar os verdadeiros fãs dos X-Files porque esses, como eu, já viram obsessivamente estes seis novos episódios de 2016. Se tivesse de os avisar previamente, diria apenas: "preparem-se, porque é muito mau!"
Porque é que é mau? Porque só uma grande história, um grande motivo, um grande enredo, justificaria arrancar esta série mítica do túmulo. É verdade que os zombies estão na moda, mas não era preciso fazer regressar os X-Files em versão zombie: ultrapassada, sem ideias, sem interesse, um cadáver que devia ter ficado em repouso. Só a grandeza justificaria o regresso dos X-Files, não esta paródia (?) sem sentido a que assistimos.
Não vou criticar o trabalho de Duchovny e Anderson, mas nem eles me convenceram. Como se nem eles estivessem grandemente convencidos do que estavam a fazer. Li por aí que ele parecia o mesmo personagem de "Californication" mas não posso comentar porque não vi. O que me parece, sem dúvida, é que Anderson ainda não tinha tirado a pele da Bedelia du Maurier de "Hannibal". Não acredito naquela Scully sofisticada, de saia travada e cheia de maquilhagem. O estilo da Scully era clean. Isto, para quem não sabe, significava, nos anos 90, maquilhagem que mal se notava. Não acredito nesta Scully que de repente tem medo do passar dos anos. Não é a minha Scully.
Mas voltemos ao enredo.
No primeiro episódio, contra tudo o que sabemos, Mulder decide deixar de acreditar numa conspiração alienígena! Depois de tudo o que ele viu, decide fingir que não viu nada?... Não se percebe nem é nada típico de Mulder. O Cigarette Smoking Man (que afinal não morreu) regressa ainda mais malévolo, ainda mais repulsivo, e ainda e sempre viciado. Uma das melhores ideias desta mini-série. Não podiam ser X-Files sem o Cigarette Smoking Man.
Não, isto não é a minha raiva à mini-série. Isto é o Mulder a pisar o poster dos X-Files! Não dá mesmo para acreditar!
No segundo episódio, o FBI reabre os Ficheiros Secretos e Mulder e Scully voltam a trabalhar juntos, também não se percebe muito bem porquê.
No terceiro episódio... Bem, o terceiro episódio foi engraçado. Uma paródia, mas engraçado. Gostei do Lagartomem, uma espécie de réptil que foi mordido por um homem e todas as luas cheias se transformava em ser humano. A experiência é bastante traumatizante para o pobre Lagartomem que só queria voltar a ser lagarto, o que é compreensível.
No quarto episódio... Não sei. Desliguei. Isto é, continuei a ver, mas, como naqueles episódios realmente interessantes dos Ficheiros Secretos como os conhecíamos, aconteceu-me um raro fenómeno de dissociação televisiva em que continuei a ver sem ver nada. Fui abduzida. O corpo ficou na cadeira em frente à televisão mas a mente já não estava lá. Só voltei a mim no último episódio, quando em matéria de 15 minutos acontece uma catástrofe pouco convincente (que não revelarei) e vi cenas de carros parados na auto-estrada e toda a gente a tentar fugir ao mesmo tempo sem conseguir ir a lado nenhum. Acordei, porque de repente julguei que estava a ver "The Walking Dead". E pensei:
Definitivamente, se era para trazer de volta os Ficheiros Secretos tinha de ser em grande, tinha de ser épico, tinha de ser superior a tudo o que existe agora como em tempos foi superior a tudo o que havia na altura! Tinha que ser para tornar os Ficheiros Secretos novamente na série preferida dos fãs, a série pela qual se anseia a semana toda, a série que provoca arrepios de antecipação e medo. Não era para fazer episódios a lembrar o "Sobrenatural", nem o "Fringe", nem o "Lost" (aquelas cenas fora da narrativa, de flashback, ou flashforward, ou sonho, ou fantasia, nem percebi) e muito menos a lembrar "The Walking Dead", e inferior! Tinha de ser superior, imensamente superior, ou mais valia não fazerem nada. Até o episódio do Lagartomem, que foi engraçado, não superou as melhores paródias de "Sobrenatural".
E para quê? Por nostalgia? Não. Por mais um punhado de dólares.
O que dizer mais quando o melhor episódio desta série de seis é uma paródia? É o melhor que podemos esperar dos novos Ficheiros Secretos? Comédia?
Não havia uma ideia suficientemente forte para trazer de volta os Ficheiros Secretos e pela estima que tenho à série original desejo sinceramente que a ressurreição fique por aqui. Entretanto, tenciono esquecer-me de tudo o que vi nestes episódios e não deixar que me poluam a recordação de uma das maiores séries de todos os tempos que foi The X-Files.
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
H. P. Lovecraft - Mestre do Horror V
The Horror at Martins's Beach
Se alguma vez Lovecraft pretendeu escrever sobre um horror tão terrível que ficaria para sempre na mente dos leitores, este é um dos contos em que conseguiu.
Um barco de pesca mata um monstro marítimo que se torna atracção para os turistas de Martin's Beach, uma aprazível costa de veraneio com um hotel junto ao mar.
Depois de examinarem a nova espécie, os cientistas concluem que apesar do seu tamanho gigantesco este exemplar não passa de uma cria recém-nascida, razão pela qual o seu progenitor volta para se vingar.
[História "curiosamente" semelhante à que deu origem ao telefilme "The Beast", em que o monstro é uma lula gigante, mas não convence pela inverosimilhança que uma criatura acéfala possa congeminar planos de vingança como, não vamos mais longe, as sequelas do famoso "Tubarão" ("Jaws"), escritas pelo mesmo autor: Peter Benchley... Nada disto se passa na história de Lovecraft uma vez que o monstro possui um cérebro e o resultado deixa concluir que maneja poderes sobrenaturais.]
Esta vingança é levada a cabo numa noite em que os salva-vidas da praia são atraídos ao mar pelo que pensam ser o grito de um náufrago ou de uma baleia, ao que respondem prontamente lançando uma corda e uma bóia de salvamento. Mas algo começa a puxar do outro lado, com tamanha força que muitos homens se lhes juntam e nem mesmo assim a corda parece ceder. Convencidos de que uma baleia teria engolido a bóia, os homens decidem desancorar um barco para a capturar quando percebem que estão "colados" à corda. É aqui que começa o verdadeiro horror. Ao perceber que os homens estão de alguma forma paralisados e que a maré está a subir, os turistas e outros observadores não têm coragem de se mexer e assistem, mais ou menos impávidos e incrédulos, enquanto todos aqueles seres humanos morrem afogados. Ninguém tentou ajudar. Os relatos dados posteriormente à polícia foram confusos e evasivos. Toda a agente tentou esquecer.
Então, onde estão os monstros, de facto?
Esta história foi publicada em 1923.
The Horror at Red Hook
O detective Thomas Malone [quantos polícias e detectives e agentes da lei herdaram este nome é inumerável...] começa por investigar um bairro degradado de Nova Iorque, Red Hook, devido a uma vaga de raptos de crianças que aterrorizava os seus habitantes mais honestos. Num ambiente de crime generalizado e imigrantes ilegais, acaba por descobrir uma seita satânica com origem na população curda [quão politicamente incorrecto isto nos soa agora] trazida para lá com promessas de grandes poderes sobrenaturais conferidos por um deus ou um sacerdote.
No centro desta seita está um velho eremita, aparentemente apenas um estudioso de lendas, cujo percurso lembra o antepassado de outra personagem de Lovecraft: Charles Dexter Ward. Como este, também o velho bruxo Robert Suydam pareceu rejuvenescer de um dia para o outro (as alusões do seu vampirismo amplamente demonstradas pelos raptos das crianças) e até contrair matrimónio com uma jovem noiva da alta sociedade que é brutalmente assassinada na noite de núpcias e todo o seu sangue levado como oferta a Lilith. Nesta história, o que é tão mais curioso quanto raro em Lovecraft, os demónios são do tipo tradicional: Lilith, Asmodai, Samael...
O detective Malone consegue pôr fim à terrível seita mas não sem prejuízo próprio pois acaba por ser afastado da cidade devido a um esgotamento nervoso.
The Hound
Como o título deixa sem dúvida escapar, este cão é a origem do terror que assola dois amigos, mas não dois inocentes. Tratam-se de membros da alta sociedade inglesa que, simplesmente por tédio, decidem procurar emoções violando túmulos e montando um verdadeiro museu de horrores na sua mansão isolada do mundo, onde se divertem, na maior das decadências, a recriar adorações e rituais da natureza mais mórbida rodeados dos despojos das suas explorações nos cemitérios. Um dia vão longe demais. Quando descobrem a história de um outro ladrão de túmulos, tal como eles, que teria morrido há séculos, desmembrado, vítima de um ser sobrenatural que as lendas atribuem à vingança dos mortos perturbados no seu descanso, decidem com ainda maior entusiasmo exumar o velho "colega". Ao seu pescoço encontram um medalhão onde figura um ser entre o cão e a esfinge, e os mais aterradores dizeres. A partir desse momento, parece-lhe ouvir em todo o lado o latir de um cão que os persegue e ameaça. Quem conta a história é o amigo sobrevivente, depois de encontrar o companheiro desfeito e moribundo. Ainda se tenta livrar do medalhão e devolvê-lo ao proprietário no seu caixão mas descobre que uma vez desenterrado é impossível voltar a devolvê-lo ao mundo dos mortos... com vida.
Não consigo deixar de pensar que belo argumento daria este simples enredo se posto num filme de época com dois amigos a viverem juntos no luxo e deboche de que só a alta sociedade de uma certa Inglaterra vitoriana é capaz, tresandando a ópio, violando caixões e oferecendo rituais entre copinhos de sherry, num misto entre Egdar Allan Poe e Oscar Wilde...
The Lurking Fear
Um investigador do sobrenatural, cujo nome nunca é referido [mas que à semelhança de Randolph Carter faz lembrar o moderno Fox Mulder dos Ficheiros Secretos], é atraído a Tempest Mountain depois de um massacre sangrento que vitimou muitos dos seus habitantes. O que o leva ao local não é o crime em si mas as lendas dos camponeses que dizem ter sido perpetrado pelo fantasma, ou fantasmas, da família Martensen, cuja mansão, apesar de abandonada, é absolutamente temida embora nem os próprios vizinhos se lembrem porquê. No decurso da investigação, em que são também mortos dois dos seus companheiros de longa data e um jornalista que "recrutara" já no local, o investigador é confrontado com um monstro e apercebe-se de que o horror em Tempest Mountain é algo que na sua busca pelo sobrenatural nunca tinha encontrado antes. Aterrorizado, começa a investigar a história da família Martensen, cujas lendas não tinha levado muito sério. Os registos indicavam que eram colonos holandeses, fugidos do domínio inglês, que continuaram a odiar, durante séculos e até no Novo Continente, tudo o que lhes lembrasse o inimigo da pátria, e se mantiveram, por isso, completamente afastados do resto da recém-nascida sociedade americana. Parece também que o local escolhido para se estabelecerem era, como o nome indica, muito sujeito a tempestades e trovoada, e que ao longo de gerações os relâmpagos e trovões começaram a influenciar os nervos da família. Contava-se que um certo Jan Martensen se tinha afastado do lar para se juntar ao exército e ao regressar teria sido rejeitado pela família, que o acusava de ser um "estrangeiro". Conta um amigo da época, com quem este se correspondia, que Jan Martensen teria sido por isso assassinado pela própria família, e seria o seu fantasma que os habitantes da região tanto temiam apesar de a família Martensen ter eventualmente abandonado a mansão depois de uma degradação aberrante só explicada pela consanguinidade das suas muitas gerações de isolamento. Levado pela superstição, depois de ver os seus colegas de aventura barbaramente assassinados, o nosso investigador acaba por acreditar na história e por isso decide escavar o túmulo da trágica vítima. É então que descobre que toda a montanha era minada por túneis subterrâneos. O som do trovão, ao ecoar, traz para a superfície não demónios nem fantasmas, mas todos os sobreviventes da desaparecida família Martensen: deformados, embrutecidos... e canibais!
Esta é daquelas histórias de que a América gosta particularmente.
The Outsider
Assim começa uma das histórias mais tristes de Lovecraft, em que o protagonista crê ter crescido e vivido a vida toda num castelo onde nunca entrava a luz, cheio dos restos mortais dos antepassados e rodeado de uma densa floresta onde parecia ser sempre noite. À procura da luz que nunca tinha visto, este ser decide então subir à torre mais alta do castelo para vislumbrar a paisagem por cima das copas das árvores que conhecia do seu mundo subterrâneo. Qual não é a sua surpresa quando depois da longa e perigosa escalada se encontra, não no alto de uma torre, mas ao nível do chão. Guiado por memórias inexplicáveis, consegue vaguear até uma casa que lhe parece familiar e onde decorria uma festa com muitos convidados. Era como se sentisse de novo em casa mas, assim que se lhes junta, todos gritam em horror e fogem espavoridos de um monstro que o próprio confronta olhos nos olhos. Alguns segundos depois, de novo sozinho, percebe que se está a ver ao espelho e recorda-se da sua grande tragédia: esteve morto este tempo todo e o que chamava "castelo" era nada mais nada menos do que a sua cripta. Percorrido por uma dor insuportável aceita por momentos que já não pertence àquela família, nem a nenhuma, e volta a encontrar a paz numa segunda amnésia.
The Picture in the House
Das velhas casas isoladas dos primeiros colonos que chegaram à América, puritanos e religiosos ao ponto do fanatismo, Lovecraft fala sempre com horror (como em "The Lurking Fear"). A uma destas cabanas aparentemente abandonadas chega um viajante de bicicleta perdido numa estrada de província que apenas pretendia fugir à tempestade que se avizinhava. Depois de bater à porta e ninguém responder, pensando que a casa estava desabitada e perante a fúria dos elementos, acaba mesmo por entrar. Já no interior apercebe-se de que afinal moraria lá gente. Apercebe-se de um mobiliário de estilo antiquíssimo, que se não fosse pela sua simplicidade seria a delícia de muitos coleccionadores, e surpreende-se pela quantidade de livros igualmente antigos. Em cima da mesa chama-lhe à atenção um em particular, que descrevia viagens pelo Congo no século XVIII e apresentava a ilustração fantasiosa de um talho de negros canibais. De facto, o livro parecia ter sido aberto tantas vezes nessa página que foi das primeiras que viu. À parte disso, ouve barulho nas escadas e percebe que tinha sido surpreendido pelo dono da casa, um velho grande, sujo e mal vestido que, notava-se bem, não estava habituado a ter visitas. A seguir desenrola-se uma conversa perfeitamente civilizada, em que o intruso pede desculpa pela invasão e explica a sua situação, perdido na estrada e na tempestade, e o velho anfitrião o acolhe com a maior das simpatias. Postos ambos à vontade, o tema virou-se para o livro, que estava escrito em latim, e que o velho não sabia ler pelo que pediu ao visitante que lhe traduzisse algumas passagens enquanto lhe contava que tinha adquirido o volume há muitos anos porque achava as ilustrações interessantes. Isto deixou o incauto visitante mais à vontade: afinal, o dono do livro era só um pobre iletrado com um fascínio pelas paragens distantes de África. Até aqui, nada de anormal. Anormal começa a ser quando o anfitrião aponta a figura do talho, salientando os seus pormenores mais sangrentos, e solta algo como "depois de ver isto, matar ovelhas tornou-se mais divertido". E logo depois, como se de nada se tratasse, acrescenta: "Uma pessoa põe-se a pensar como será que sabe. Se comer carne faz bem, comer mais semelhante à nossa carne deve fazer melhor..."
Não, este não é nada um sofisticado Hannibal Lecter, bem pelo contrário, mas apreciam os mesmos ingredientes.
Continua.
Se alguma vez Lovecraft pretendeu escrever sobre um horror tão terrível que ficaria para sempre na mente dos leitores, este é um dos contos em que conseguiu.
Um barco de pesca mata um monstro marítimo que se torna atracção para os turistas de Martin's Beach, uma aprazível costa de veraneio com um hotel junto ao mar.
Depois de examinarem a nova espécie, os cientistas concluem que apesar do seu tamanho gigantesco este exemplar não passa de uma cria recém-nascida, razão pela qual o seu progenitor volta para se vingar.
[História "curiosamente" semelhante à que deu origem ao telefilme "The Beast", em que o monstro é uma lula gigante, mas não convence pela inverosimilhança que uma criatura acéfala possa congeminar planos de vingança como, não vamos mais longe, as sequelas do famoso "Tubarão" ("Jaws"), escritas pelo mesmo autor: Peter Benchley... Nada disto se passa na história de Lovecraft uma vez que o monstro possui um cérebro e o resultado deixa concluir que maneja poderes sobrenaturais.]
Esta vingança é levada a cabo numa noite em que os salva-vidas da praia são atraídos ao mar pelo que pensam ser o grito de um náufrago ou de uma baleia, ao que respondem prontamente lançando uma corda e uma bóia de salvamento. Mas algo começa a puxar do outro lado, com tamanha força que muitos homens se lhes juntam e nem mesmo assim a corda parece ceder. Convencidos de que uma baleia teria engolido a bóia, os homens decidem desancorar um barco para a capturar quando percebem que estão "colados" à corda. É aqui que começa o verdadeiro horror. Ao perceber que os homens estão de alguma forma paralisados e que a maré está a subir, os turistas e outros observadores não têm coragem de se mexer e assistem, mais ou menos impávidos e incrédulos, enquanto todos aqueles seres humanos morrem afogados. Ninguém tentou ajudar. Os relatos dados posteriormente à polícia foram confusos e evasivos. Toda a agente tentou esquecer.
Então, onde estão os monstros, de facto?
Esta história foi publicada em 1923.
The Horror at Red Hook
O detective Thomas Malone [quantos polícias e detectives e agentes da lei herdaram este nome é inumerável...] começa por investigar um bairro degradado de Nova Iorque, Red Hook, devido a uma vaga de raptos de crianças que aterrorizava os seus habitantes mais honestos. Num ambiente de crime generalizado e imigrantes ilegais, acaba por descobrir uma seita satânica com origem na população curda [quão politicamente incorrecto isto nos soa agora] trazida para lá com promessas de grandes poderes sobrenaturais conferidos por um deus ou um sacerdote.
No centro desta seita está um velho eremita, aparentemente apenas um estudioso de lendas, cujo percurso lembra o antepassado de outra personagem de Lovecraft: Charles Dexter Ward. Como este, também o velho bruxo Robert Suydam pareceu rejuvenescer de um dia para o outro (as alusões do seu vampirismo amplamente demonstradas pelos raptos das crianças) e até contrair matrimónio com uma jovem noiva da alta sociedade que é brutalmente assassinada na noite de núpcias e todo o seu sangue levado como oferta a Lilith. Nesta história, o que é tão mais curioso quanto raro em Lovecraft, os demónios são do tipo tradicional: Lilith, Asmodai, Samael...
O detective Malone consegue pôr fim à terrível seita mas não sem prejuízo próprio pois acaba por ser afastado da cidade devido a um esgotamento nervoso.
The Hound
Como o título deixa sem dúvida escapar, este cão é a origem do terror que assola dois amigos, mas não dois inocentes. Tratam-se de membros da alta sociedade inglesa que, simplesmente por tédio, decidem procurar emoções violando túmulos e montando um verdadeiro museu de horrores na sua mansão isolada do mundo, onde se divertem, na maior das decadências, a recriar adorações e rituais da natureza mais mórbida rodeados dos despojos das suas explorações nos cemitérios. Um dia vão longe demais. Quando descobrem a história de um outro ladrão de túmulos, tal como eles, que teria morrido há séculos, desmembrado, vítima de um ser sobrenatural que as lendas atribuem à vingança dos mortos perturbados no seu descanso, decidem com ainda maior entusiasmo exumar o velho "colega". Ao seu pescoço encontram um medalhão onde figura um ser entre o cão e a esfinge, e os mais aterradores dizeres. A partir desse momento, parece-lhe ouvir em todo o lado o latir de um cão que os persegue e ameaça. Quem conta a história é o amigo sobrevivente, depois de encontrar o companheiro desfeito e moribundo. Ainda se tenta livrar do medalhão e devolvê-lo ao proprietário no seu caixão mas descobre que uma vez desenterrado é impossível voltar a devolvê-lo ao mundo dos mortos... com vida.
Não consigo deixar de pensar que belo argumento daria este simples enredo se posto num filme de época com dois amigos a viverem juntos no luxo e deboche de que só a alta sociedade de uma certa Inglaterra vitoriana é capaz, tresandando a ópio, violando caixões e oferecendo rituais entre copinhos de sherry, num misto entre Egdar Allan Poe e Oscar Wilde...
The Lurking Fear
Um investigador do sobrenatural, cujo nome nunca é referido [mas que à semelhança de Randolph Carter faz lembrar o moderno Fox Mulder dos Ficheiros Secretos], é atraído a Tempest Mountain depois de um massacre sangrento que vitimou muitos dos seus habitantes. O que o leva ao local não é o crime em si mas as lendas dos camponeses que dizem ter sido perpetrado pelo fantasma, ou fantasmas, da família Martensen, cuja mansão, apesar de abandonada, é absolutamente temida embora nem os próprios vizinhos se lembrem porquê. No decurso da investigação, em que são também mortos dois dos seus companheiros de longa data e um jornalista que "recrutara" já no local, o investigador é confrontado com um monstro e apercebe-se de que o horror em Tempest Mountain é algo que na sua busca pelo sobrenatural nunca tinha encontrado antes. Aterrorizado, começa a investigar a história da família Martensen, cujas lendas não tinha levado muito sério. Os registos indicavam que eram colonos holandeses, fugidos do domínio inglês, que continuaram a odiar, durante séculos e até no Novo Continente, tudo o que lhes lembrasse o inimigo da pátria, e se mantiveram, por isso, completamente afastados do resto da recém-nascida sociedade americana. Parece também que o local escolhido para se estabelecerem era, como o nome indica, muito sujeito a tempestades e trovoada, e que ao longo de gerações os relâmpagos e trovões começaram a influenciar os nervos da família. Contava-se que um certo Jan Martensen se tinha afastado do lar para se juntar ao exército e ao regressar teria sido rejeitado pela família, que o acusava de ser um "estrangeiro". Conta um amigo da época, com quem este se correspondia, que Jan Martensen teria sido por isso assassinado pela própria família, e seria o seu fantasma que os habitantes da região tanto temiam apesar de a família Martensen ter eventualmente abandonado a mansão depois de uma degradação aberrante só explicada pela consanguinidade das suas muitas gerações de isolamento. Levado pela superstição, depois de ver os seus colegas de aventura barbaramente assassinados, o nosso investigador acaba por acreditar na história e por isso decide escavar o túmulo da trágica vítima. É então que descobre que toda a montanha era minada por túneis subterrâneos. O som do trovão, ao ecoar, traz para a superfície não demónios nem fantasmas, mas todos os sobreviventes da desaparecida família Martensen: deformados, embrutecidos... e canibais!
Esta é daquelas histórias de que a América gosta particularmente.
The Outsider
Unhappy is he to whom the memories of childhood bring only fear and sadness.
Assim começa uma das histórias mais tristes de Lovecraft, em que o protagonista crê ter crescido e vivido a vida toda num castelo onde nunca entrava a luz, cheio dos restos mortais dos antepassados e rodeado de uma densa floresta onde parecia ser sempre noite. À procura da luz que nunca tinha visto, este ser decide então subir à torre mais alta do castelo para vislumbrar a paisagem por cima das copas das árvores que conhecia do seu mundo subterrâneo. Qual não é a sua surpresa quando depois da longa e perigosa escalada se encontra, não no alto de uma torre, mas ao nível do chão. Guiado por memórias inexplicáveis, consegue vaguear até uma casa que lhe parece familiar e onde decorria uma festa com muitos convidados. Era como se sentisse de novo em casa mas, assim que se lhes junta, todos gritam em horror e fogem espavoridos de um monstro que o próprio confronta olhos nos olhos. Alguns segundos depois, de novo sozinho, percebe que se está a ver ao espelho e recorda-se da sua grande tragédia: esteve morto este tempo todo e o que chamava "castelo" era nada mais nada menos do que a sua cripta. Percorrido por uma dor insuportável aceita por momentos que já não pertence àquela família, nem a nenhuma, e volta a encontrar a paz numa segunda amnésia.
The Picture in the House
Das velhas casas isoladas dos primeiros colonos que chegaram à América, puritanos e religiosos ao ponto do fanatismo, Lovecraft fala sempre com horror (como em "The Lurking Fear"). A uma destas cabanas aparentemente abandonadas chega um viajante de bicicleta perdido numa estrada de província que apenas pretendia fugir à tempestade que se avizinhava. Depois de bater à porta e ninguém responder, pensando que a casa estava desabitada e perante a fúria dos elementos, acaba mesmo por entrar. Já no interior apercebe-se de que afinal moraria lá gente. Apercebe-se de um mobiliário de estilo antiquíssimo, que se não fosse pela sua simplicidade seria a delícia de muitos coleccionadores, e surpreende-se pela quantidade de livros igualmente antigos. Em cima da mesa chama-lhe à atenção um em particular, que descrevia viagens pelo Congo no século XVIII e apresentava a ilustração fantasiosa de um talho de negros canibais. De facto, o livro parecia ter sido aberto tantas vezes nessa página que foi das primeiras que viu. À parte disso, ouve barulho nas escadas e percebe que tinha sido surpreendido pelo dono da casa, um velho grande, sujo e mal vestido que, notava-se bem, não estava habituado a ter visitas. A seguir desenrola-se uma conversa perfeitamente civilizada, em que o intruso pede desculpa pela invasão e explica a sua situação, perdido na estrada e na tempestade, e o velho anfitrião o acolhe com a maior das simpatias. Postos ambos à vontade, o tema virou-se para o livro, que estava escrito em latim, e que o velho não sabia ler pelo que pediu ao visitante que lhe traduzisse algumas passagens enquanto lhe contava que tinha adquirido o volume há muitos anos porque achava as ilustrações interessantes. Isto deixou o incauto visitante mais à vontade: afinal, o dono do livro era só um pobre iletrado com um fascínio pelas paragens distantes de África. Até aqui, nada de anormal. Anormal começa a ser quando o anfitrião aponta a figura do talho, salientando os seus pormenores mais sangrentos, e solta algo como "depois de ver isto, matar ovelhas tornou-se mais divertido". E logo depois, como se de nada se tratasse, acrescenta: "Uma pessoa põe-se a pensar como será que sabe. Se comer carne faz bem, comer mais semelhante à nossa carne deve fazer melhor..."
Não, este não é nada um sofisticado Hannibal Lecter, bem pelo contrário, mas apreciam os mesmos ingredientes.
Continua.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
H. P. Lovecraft - Mestre do Horror IV
Herbert West: Reanimator
Este é um dos contos mais populares e popularizados de Lovecraft, mais ainda do que "The Mountains of Madness". Toda a gente já viu a história no cinema, repetida vezes sem conta em filmes igualmente inumeráveis: um cientista descobre um soro que devolve a vida aos mortos. A vida, mas não a personalidade. Estes voltam, mas "alterados" como só o mestre Stephen King descreveu mais tarde. Então o que temos? Zombies. Carradas de zombies. Mortos-vivos. Braços e pernas saltitantes. Cabeças rolantes. Toda essa palhaçada. Agora parece-nos engraçado mas não o seria certamente na época em que Lovecraft o escreveu.
["Reanimator" é também o nome de uma famosa música dos Fields of the Nephilim que, como vimos antes, muito foram buscar ao universo do autor. Um conhecedor de ambas as obras vai encontrar um manancial de referências, em que McCoy mistura o universo onírico e assombrado de Lovecraft com a análise psicológica dos nossos dias.]
O tema já não era novo quando o autor lhe pegou. Aliás, o próprio Lovecraft cita os mestres antigos quando começa esta história -- publicada originalmente em fascículos, razão pela qual é feito um sumário do enredo anterior a cada novo capítulo -- com uma citação do Conde Drácula: "To be dead, to be truly dead, must be glorious. There are far worse things awaiting man than death."
O primeiro "reanimador" famoso foi o cientista "Frankenstein", de Mary Shelley, mas o resultado acaba por ser bem diferente e é isso que interessa salientar. Enquanto o monstro de Frankenstein (que não tem nome) é uma criatura feita de partes de vários mortos mas que almeja uma existência humana e é por isso rejeitado pela sociedade, -- uma perspectiva muito "feminina" capaz de levar o mais sensível às lágrimas -- os zombies de H. P. Lovecraft, numa versão a que nos dias de hoje chamamos "gore", pensam mais em comer a carne dos vivos e voltar a esgravatar na terra do cemitério. Não há aqui nada de "choramingas". São zombies, são maus, e comem criancinhas.
Pior que eles só o seu criador, Herbert West, um verdadeiro monstro digno das experiências nazis mais atrozes (mas antes dos nazis), diametralmente o oposto do torturado cientista Frankenstein, cheio de remorsos pela sua obra blasfema.
Herbert West, que nos é descrito pelo seu assistente, só tem uma preocupação na vida: arranjar cadáveres frescos, muito frescos, para que o soro actue antes que o cérebro perca demasiadas células e comprometa a existência inteligente. Quando lhe faltam os defuntos a tempo e horas, qualquer visitante que bata à porta se torna candidato à experiência. Este médico mata primeiro para ressuscitar depois.
Mas, porque os seus mortos-vivos não são totalmente desprovidos de inteligência, um dia há-de beber o seu próprio veneno.
Delicioso. Imperdível. Satisfação garantida!
Imprisioned with the Pharaohs
Um ilusionista cuja especialidade é o escapismo, como Houdini, vai visitar o Cairo onde a sua "magia" de espectáculo é particularmente testada. Traído por uma armadilha montada pelos beduínos do deserto, é lançado para dentro de um enorme poço que estaria debaixo da Esfinge, amarrado, de mãos e pés atados e olhos vendados. Cabe-lhe primeiro escapar das amarras. Depois... tem de fugir das múmias.
É uma história interessante e exótica mas particularmente indicada para quem gosta do antigo Egipto, pirâmides e mitologia. A ideia é inteligente (a esfinge afinal existe e é real) mas não me convenceu. Certamente haverá quem goste mais do género.
In the Vault
Já esta, é uma história muito mais cómica do que tétrica -- ou ambas as coisas. Parece daqueles contos da avózinha para assustar criancinhas e fazer-lhes perceber os males da preguiça. Senão vejamos. Coveiro de profissão, era um homem habituado a tratar os mortos como se fossem um lixo aborrecido que o seu trabalho tratava de empacotar e enterrar. Não era um coveiro muito competente. Os caixões que fazia eram frágeis. Alguns eram demasiado pequenos para o seu destinatário mas o coveiro lá se encarregava de fazer "caber tudo", nem que para isso tivesse de serrar os pés... Certa vez até enterrou os restos de alguém na sepultura de outrém. Não que o homem fosse má pessoa, mas para ele a missão de enterrar os mortos não passava de um ofício como outro qualquer em que não punha muito brio.
Devido ao seu desleixo, e porventura um copo a mais ao almoço, certa tarde de Sexta Feira Santa ficou preso do lado de dentro de um sepulcro onde estavam alguns dos seus caixões e respectivos "clientes". Negligente, o coveiro tinha deixado que o tempo enferrujasse a fechadura e agora via-se grego para abrir a porta a partir de dentro. Mas não tinha medo da sua situação. De tal modo não tinha medo que se pôs logo a pensar na solução para o contratempo, e esta passava por pegar num martelo que por ali tinha e abrir mais a estreita janela sobre o portão do jazigo. Para lá chegar, empilhou os caixões todos uns sobre os outros (com os respectivos ocupantes lá dentro) e fez deles uma escada. Quando estava quase a conseguir esgueirar-se pela abertura, perto da meia noite, o seu negligente trabalho traiu-o mais uma vez: os caixões eram tão fracos que cederam sobre o seu peso e o pobre diabo ficou pendurado da janela. Mesmo assim, e com muito esforço para levantar todo o peso da sua pança, ia quase a sair do túmulo quando lhe agarraram pelos tornozelos. Alguém que não gostou que lhe serrassem os pés...
Nyarlathotep
Não deixa de ser curioso como tantos escritores e tão distintos apanham no "ar" o vento das trevas e o traduzem em ficção mal sabendo que escrevem profecias. Agitação social e alterações climáticas... e depois vem o fim.
Nyarlathotep ("the crawling chaos"), ou o mensageiro do caos, é uma personagem sinistra e sobrenatural que povoa toda a obra de Lovecraft. Grande e perigoso hipnotizador, leva qualquer pessoa que o ouve a ingressar a grande massa humana que deambula pelo mundo sem norte, uma imensa vaga de "mortos-vivos" ou autómatos, enquanto a civilização se desmorona em ruínas abrindo caminho para o domínio dos Outros Deuses.
Pela sua visionária actualidade, arrepia pensar que este conto foi escrito em 1920.
The Cats of Ulthar
Quando comecei a ler Lovecraft perguntou-me um conhecedor: "E qual é a tua história preferida?". "Tenho de ler mais", respondi. Mas, afinal, já sabia a resposta. Lovecraft tinha um grande amor por gatos. Eu também. E a história é esta e reza assim:
Havia um execrável casal de velhos, que odiava gatos, e que os apanhava e torturava até à morte de formas cruéis. Ouviam-se de noite os gritos arrepiantes dos bichinhos.
Um dia passaram saltimbancos por Ulthar, muito versados em artes mágicas. Um deles era ainda quase uma criança, um pobre rapaz órfão cujo melhor amigo e companhia era um gatinho também de pouca idade. De noite, em Ulthar, o gatinho foi apanhado e torturado e morto pelo casal de velhos malvados.
Na noite seguinte, depois da partida dos saltimbancos, algo aconteceu. Todos os gatos de Ulthar desapareceram. Os habitantes da cidade, que temiam a maldade dos velhos, julgaram o pior e choraram pelos seus amigos de estimação. Mas no outro dia, de manhã, todos os gatos voltaram para casa, gordos, satisfeitos, lambendo os bigodes como se depois de uma boa refeição. Dos velhos, só restavam os ossos. Os gatos de Ulthar comeram-nos.
É por isso que até hoje, em Ulthar, existe uma lei em que é expressamente proibido matar um gato.
The Dream Quest of Unknown Kadath
Esta é uma das histórias em que figura o personagem recorrente Randolph Carter, o grande herói de H. P. Lovecraft, que na sua demanda do sobrenatural terá sido uma espécie de Fox Mulder com os seus Ficheiros Secretos.
Randolph Carter é referido em algumas aventuras mas é neste conto que se aproxima mais dos terríveis deuses (aqui chamados "the Great Ones") que povoam o universo do sonho. Kadath seria a cidade onde os deuses habitam, apenas vislumbrada no sono profundo, e para a alcançar Randolph Carter vai ter de se debater com inúmeros adversários fantásticos, e contar com a ajuda de alguns amigos poderosos no mundo do sonho que também são personagens de outros contos de Lovecraft, como o rei Kuranes de Celepahis, o "ghoul" Richard Pickman ou... o exército dos gatos de Ulthar! Devo confessar que toda esta bizarria me passaria ao lado até ao momento em que Lovecraft invoca, precisamente, o exército dos gatos de Ulthar, que combatem ferozmente para salvar Randolph Carter dos terríveis seres "assapados" do lado oculto da Lua. Mas isto é o quê? Um conto para crianças? Devo dizer que fiquei imensamente decepcionada e não aconselho a ninguém que comece a leitura do autor por esta história excepto se gostar muito, muito, mesmo muito!, de fantasia. Para os iniciados, é uma pequena maravilha conhecer o destino do artista Richard Pickman e do vagabundo Kuranes fora dos limites do mundo físico. Mas, na minha honesta opinião, a única parte realmente à altura de Lovecraft é o encontro final de Carter com Nyarlathotep, "the Crawling Chaos", o mensageiro do caos, que lhe explica que essa cidade porque tanto anseia não é mais do que um reflexo dourado das suas próprias memórias da infância passada em Boston. E dizendo isto, que pode ser verdade ou mais uma artimanha para o desviar do seu objectivo, Nyarlathotep estende-lhe outra armadilha de que o herói tem de se livrar. Nyarlathotep é a personagem que em Lovecraft mais se assemelha ao Diabo: tentador, elegante, eloquente... mas mentiroso e cruel. E esta é a única razão porque a história acaba com algum interesse.
Continua.
Este é um dos contos mais populares e popularizados de Lovecraft, mais ainda do que "The Mountains of Madness". Toda a gente já viu a história no cinema, repetida vezes sem conta em filmes igualmente inumeráveis: um cientista descobre um soro que devolve a vida aos mortos. A vida, mas não a personalidade. Estes voltam, mas "alterados" como só o mestre Stephen King descreveu mais tarde. Então o que temos? Zombies. Carradas de zombies. Mortos-vivos. Braços e pernas saltitantes. Cabeças rolantes. Toda essa palhaçada. Agora parece-nos engraçado mas não o seria certamente na época em que Lovecraft o escreveu.
["Reanimator" é também o nome de uma famosa música dos Fields of the Nephilim que, como vimos antes, muito foram buscar ao universo do autor. Um conhecedor de ambas as obras vai encontrar um manancial de referências, em que McCoy mistura o universo onírico e assombrado de Lovecraft com a análise psicológica dos nossos dias.]
O tema já não era novo quando o autor lhe pegou. Aliás, o próprio Lovecraft cita os mestres antigos quando começa esta história -- publicada originalmente em fascículos, razão pela qual é feito um sumário do enredo anterior a cada novo capítulo -- com uma citação do Conde Drácula: "To be dead, to be truly dead, must be glorious. There are far worse things awaiting man than death."
O primeiro "reanimador" famoso foi o cientista "Frankenstein", de Mary Shelley, mas o resultado acaba por ser bem diferente e é isso que interessa salientar. Enquanto o monstro de Frankenstein (que não tem nome) é uma criatura feita de partes de vários mortos mas que almeja uma existência humana e é por isso rejeitado pela sociedade, -- uma perspectiva muito "feminina" capaz de levar o mais sensível às lágrimas -- os zombies de H. P. Lovecraft, numa versão a que nos dias de hoje chamamos "gore", pensam mais em comer a carne dos vivos e voltar a esgravatar na terra do cemitério. Não há aqui nada de "choramingas". São zombies, são maus, e comem criancinhas.
Pior que eles só o seu criador, Herbert West, um verdadeiro monstro digno das experiências nazis mais atrozes (mas antes dos nazis), diametralmente o oposto do torturado cientista Frankenstein, cheio de remorsos pela sua obra blasfema.
Herbert West, que nos é descrito pelo seu assistente, só tem uma preocupação na vida: arranjar cadáveres frescos, muito frescos, para que o soro actue antes que o cérebro perca demasiadas células e comprometa a existência inteligente. Quando lhe faltam os defuntos a tempo e horas, qualquer visitante que bata à porta se torna candidato à experiência. Este médico mata primeiro para ressuscitar depois.
Mas, porque os seus mortos-vivos não são totalmente desprovidos de inteligência, um dia há-de beber o seu próprio veneno.
Delicioso. Imperdível. Satisfação garantida!
Imprisioned with the Pharaohs
Um ilusionista cuja especialidade é o escapismo, como Houdini, vai visitar o Cairo onde a sua "magia" de espectáculo é particularmente testada. Traído por uma armadilha montada pelos beduínos do deserto, é lançado para dentro de um enorme poço que estaria debaixo da Esfinge, amarrado, de mãos e pés atados e olhos vendados. Cabe-lhe primeiro escapar das amarras. Depois... tem de fugir das múmias.
É uma história interessante e exótica mas particularmente indicada para quem gosta do antigo Egipto, pirâmides e mitologia. A ideia é inteligente (a esfinge afinal existe e é real) mas não me convenceu. Certamente haverá quem goste mais do género.
In the Vault
Já esta, é uma história muito mais cómica do que tétrica -- ou ambas as coisas. Parece daqueles contos da avózinha para assustar criancinhas e fazer-lhes perceber os males da preguiça. Senão vejamos. Coveiro de profissão, era um homem habituado a tratar os mortos como se fossem um lixo aborrecido que o seu trabalho tratava de empacotar e enterrar. Não era um coveiro muito competente. Os caixões que fazia eram frágeis. Alguns eram demasiado pequenos para o seu destinatário mas o coveiro lá se encarregava de fazer "caber tudo", nem que para isso tivesse de serrar os pés... Certa vez até enterrou os restos de alguém na sepultura de outrém. Não que o homem fosse má pessoa, mas para ele a missão de enterrar os mortos não passava de um ofício como outro qualquer em que não punha muito brio.
Devido ao seu desleixo, e porventura um copo a mais ao almoço, certa tarde de Sexta Feira Santa ficou preso do lado de dentro de um sepulcro onde estavam alguns dos seus caixões e respectivos "clientes". Negligente, o coveiro tinha deixado que o tempo enferrujasse a fechadura e agora via-se grego para abrir a porta a partir de dentro. Mas não tinha medo da sua situação. De tal modo não tinha medo que se pôs logo a pensar na solução para o contratempo, e esta passava por pegar num martelo que por ali tinha e abrir mais a estreita janela sobre o portão do jazigo. Para lá chegar, empilhou os caixões todos uns sobre os outros (com os respectivos ocupantes lá dentro) e fez deles uma escada. Quando estava quase a conseguir esgueirar-se pela abertura, perto da meia noite, o seu negligente trabalho traiu-o mais uma vez: os caixões eram tão fracos que cederam sobre o seu peso e o pobre diabo ficou pendurado da janela. Mesmo assim, e com muito esforço para levantar todo o peso da sua pança, ia quase a sair do túmulo quando lhe agarraram pelos tornozelos. Alguém que não gostou que lhe serrassem os pés...
Nyarlathotep
I do not recall distinctly when it began, but it was months ago. The general tension was horrible. To a season of political and social upheaval was added a strange and brooding apprehension of hideous physical danger; a danger widespread and all-embracing, such a danger as may be imagined only in the most terrible phantasms of the night. I recall that the people went about with pale and worried faces, and whispered warnings and prophecies which no one dared consciously repeat or acknowledge to himself that he had heard. A sense of monstrous guilt was upon the land, and out of the abysses between the stars swept chill currents that made men shiver in dark and lonely places. There was a daemoniac alteration in the sequence of the seasons--the autumn heat lingered fearsomely, and everyone felt that the world and perhaps the universe had passed from the control of known gods or forces to that of gods or forces which were unknown.
Não deixa de ser curioso como tantos escritores e tão distintos apanham no "ar" o vento das trevas e o traduzem em ficção mal sabendo que escrevem profecias. Agitação social e alterações climáticas... e depois vem o fim.
Nyarlathotep ("the crawling chaos"), ou o mensageiro do caos, é uma personagem sinistra e sobrenatural que povoa toda a obra de Lovecraft. Grande e perigoso hipnotizador, leva qualquer pessoa que o ouve a ingressar a grande massa humana que deambula pelo mundo sem norte, uma imensa vaga de "mortos-vivos" ou autómatos, enquanto a civilização se desmorona em ruínas abrindo caminho para o domínio dos Outros Deuses.
Pela sua visionária actualidade, arrepia pensar que este conto foi escrito em 1920.
The Cats of Ulthar
Quando comecei a ler Lovecraft perguntou-me um conhecedor: "E qual é a tua história preferida?". "Tenho de ler mais", respondi. Mas, afinal, já sabia a resposta. Lovecraft tinha um grande amor por gatos. Eu também. E a história é esta e reza assim:
Havia um execrável casal de velhos, que odiava gatos, e que os apanhava e torturava até à morte de formas cruéis. Ouviam-se de noite os gritos arrepiantes dos bichinhos.
Um dia passaram saltimbancos por Ulthar, muito versados em artes mágicas. Um deles era ainda quase uma criança, um pobre rapaz órfão cujo melhor amigo e companhia era um gatinho também de pouca idade. De noite, em Ulthar, o gatinho foi apanhado e torturado e morto pelo casal de velhos malvados.
Na noite seguinte, depois da partida dos saltimbancos, algo aconteceu. Todos os gatos de Ulthar desapareceram. Os habitantes da cidade, que temiam a maldade dos velhos, julgaram o pior e choraram pelos seus amigos de estimação. Mas no outro dia, de manhã, todos os gatos voltaram para casa, gordos, satisfeitos, lambendo os bigodes como se depois de uma boa refeição. Dos velhos, só restavam os ossos. Os gatos de Ulthar comeram-nos.
É por isso que até hoje, em Ulthar, existe uma lei em que é expressamente proibido matar um gato.
The Dream Quest of Unknown Kadath
Esta é uma das histórias em que figura o personagem recorrente Randolph Carter, o grande herói de H. P. Lovecraft, que na sua demanda do sobrenatural terá sido uma espécie de Fox Mulder com os seus Ficheiros Secretos.
Cartoon do site Unspeakable Vault (Of Doom)
Randolph Carter é referido em algumas aventuras mas é neste conto que se aproxima mais dos terríveis deuses (aqui chamados "the Great Ones") que povoam o universo do sonho. Kadath seria a cidade onde os deuses habitam, apenas vislumbrada no sono profundo, e para a alcançar Randolph Carter vai ter de se debater com inúmeros adversários fantásticos, e contar com a ajuda de alguns amigos poderosos no mundo do sonho que também são personagens de outros contos de Lovecraft, como o rei Kuranes de Celepahis, o "ghoul" Richard Pickman ou... o exército dos gatos de Ulthar! Devo confessar que toda esta bizarria me passaria ao lado até ao momento em que Lovecraft invoca, precisamente, o exército dos gatos de Ulthar, que combatem ferozmente para salvar Randolph Carter dos terríveis seres "assapados" do lado oculto da Lua. Mas isto é o quê? Um conto para crianças? Devo dizer que fiquei imensamente decepcionada e não aconselho a ninguém que comece a leitura do autor por esta história excepto se gostar muito, muito, mesmo muito!, de fantasia. Para os iniciados, é uma pequena maravilha conhecer o destino do artista Richard Pickman e do vagabundo Kuranes fora dos limites do mundo físico. Mas, na minha honesta opinião, a única parte realmente à altura de Lovecraft é o encontro final de Carter com Nyarlathotep, "the Crawling Chaos", o mensageiro do caos, que lhe explica que essa cidade porque tanto anseia não é mais do que um reflexo dourado das suas próprias memórias da infância passada em Boston. E dizendo isto, que pode ser verdade ou mais uma artimanha para o desviar do seu objectivo, Nyarlathotep estende-lhe outra armadilha de que o herói tem de se livrar. Nyarlathotep é a personagem que em Lovecraft mais se assemelha ao Diabo: tentador, elegante, eloquente... mas mentiroso e cruel. E esta é a única razão porque a história acaba com algum interesse.
Continua.
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