domingo, 9 de julho de 2023

Aristides de Sousa Mendes - O Cônsul de Bordéus (2011)

Aqui há uns tempos houve um programa de televisão que promoveu a eleição do maior português de Portugal. O voto era por chamada telefónica de valor acrescentado, o que significa que quem vota mais vezes (e tem posses para o fazer) consegue ganhar.
Quem se lembra deste episódio infeliz recordará que acabou num empate entre António Salazar e Álvaro Cunhal. (Tipo os comentários do Observador…)
Eu votei neste homem, Aristides de Sousa Mendes, sem dúvida o maior português do século XX. Como cônsul de Bordéus durante a Segunda Guerra Mundial, Sousa Mendes emitiu 30 mil vistos de passagem para Portugal contra as ordens do regime, salvando, inclusive, 10 mil judeus. Por isso é hoje reconhecido pela comunidade judaica como um Justo Entre as Nações (gentios que arriscaram suas vidas durante o Holocausto para salvar vidas de judeus do extermínio pelo nazismo), o que não é para todos.
Esta é a história de como Sousa Mendes ignorou as directivas de Salazar, obedecendo antes à sua consciência extremamente católica (ironicamente). Uma das cenas mais tensas do filme é quando o cônsul recebe um telegrama directamente do Professor Salazar, e mesmo assim persiste em passar vistos a eito, até não poder mais, inclusive numa mesa de café, já os alemães invadiam a França. Com isto, Sousa Mendes salvou 30 mil vidas.
É claro que desconheço os pormenores da intimidade do cônsul (interpretado por Vítor Norte), mas o filme dá a entender que numa primeira fase Sousa Mendes acreditava que Salazar ia “compreender”. O que lhe aconteceu foi acabar a vida na miséria.
O filme é maioritariamente contado através da perspectiva de um miúdo judeu que sobreviveu graças a Sousa Mendes. É interessante, mas roubou-nos muito do que aconteceu depois ao cônsul caído em desgraça.
Ficou na ruína e na miséria… e depois? Aristides de Sousa Mendes tinha 14 filhos, era rico. O que significa a ruína para um homem destes? Vou fazer o papel de advogado do Diabo e vou ser muito directa. Ser generoso, quando se é rico, quando nunca se passou privações na vida nem se sabe o que isso é, quando sempre se teve mansão onde morar e criados a servir, não é a mesma generosidade (nem a mesma miséria) de quem nasceu pobre e tem de fazer das tripas coração para sobreviver. Não estou de modo algum a diminuir o heroísmo de Sousa Mendes, mas o que significou a ruína para ele, exactamente, e para os filhos dele? Foram impedidos de estudar por falta de posses? Acabaram como carpinteiros, cerzideiras, mecânicos, cozinheiras? Passaram fome? Faltou-lhes roupa para vestir? Passaram frio de inverno? Esta foi a parte do filme que eu queria ter visto e que não foi abordada. Bastavam uns 10 minutos no fim, até menos. Uma reflexão do protagonista sobre o que fez e o que perdeu também seria interessante.
Este ainda não foi o filme sobre Aristides de Sousa Mendes que eu queria ter visto, mas é melhor do que nada.

14 em 20

 

domingo, 2 de julho de 2023

Tales of the Walking Dead (2022)

"Dee"

“Tales of the Walking Dead” não é um spin-off mas antes uma antologia de contos no universo Walking Dead não relacionados com as personagens originais excepto o episódio “Dee”, mais uma perspectiva sobre o passado de Alpha (líder dos Whisperers na série).

Evie/Joe
Joe é um survivalista que se barricou num bunker subterrâneo já preparado antes do apocalipse zombie com o seu velhinho doberman Gilligan. Tudo corre bem até que Gilligan é apanhado por zombies para defender o dono e a solidão torna-se demasiada para Joe suportar. Joe lembra-se então de conversas na internet pré-apocalipse com outra survivalista ferrenha que também tem um bunker e por quem ele nutria alguns sentimentos. No caminho encontra Evie, que igualmente está a fazer uma viagem para reencontrar o amor.
O episódio é mais engraçado do que romântico, mas fala sobretudo de amizades improváveis.

Blair/Gina
Este foi o episódio de que gostei menos. Uma patroa e uma recepcionista que se odeiam ficam presas num loop surreal no início do apocalipse zombie em que certos acontecimentos se repetem vez após vez até que ambas decidam cooperar. E é isto.

Dee
Considero “Dee” o episódio mais relevante porque nos fala mais de quem era Alpha (Dee) logo após assassinar o marido e ficar a viver com Lydia por conta própria. Percebemos aqui que a futura líder dos Whisperers não tem qualquer escrúpulo em matar, o que já sabíamos, mas o que não sabíamos é que lhe ocorreu matar a própria filha quando não a julgou capaz de sobreviver. Lydia não se apercebeu disto, pelo menos conscientemente, mas esteve perto. Não admira que a miúda tenha ficado tão traumatizada.
Descobrimos também que Dee não teve a ideia dos Whisperers, até isso foi roubado a outra mulher, a Alpha original. Vale a pena ver este episódio.

Amy/Dr. Everett
Dr. Everett é um daqueles especialistas em vida selvagem que decide estudar o Homo Mortuus (designação inventada por ele) como se fosse a nova espécie no topo da cadeia alimentar. Digamos que é um National Geographic Wild com zombies. A parte mais interessante do episódio é que na zona abandonada pelos seres humanos a natureza recupera e renasce (o que não é de estranhar). Amy faz parte de um grupo de sobreviventes que querem voltar a colonizar a área, com a feroz oposição do Dr. Everett que considera o ser humano a pior ameaça ao planeta que já existiu.
É um episódio interessante porque apresenta o apocalipse zombie de um ponto de vista ecológico.

Davon
Este é de todos o episódio mais confuso. Um homem acorda algemado a um zombie e a ser perseguido por homicídio. Uma vez que bateu com a cabeça, está amnésico e tem de reconstituir tudo o que se passou para se encontrar naquela situação, embora tenha a certeza de que está inocente. Da mesma forma, como ele, somos obrigados a reconstruir os factos, muitos deles fora de ordem e fruto da memória afectada do protagonista. Mas no fim compensa.

La Doña
“La Doña” foi o meu episódio preferido (tirando “Dee” por razões que se prendem com a série original), não tanto pelos zombies mas porque os protagonistas estão numa casa assombrada.
Um casal de sobreviventes pede abrigo a uma mulher com reputação de “bruja” (La Doña), que esta concede por uma noite, mas depressa um deles começa a insistir que fiquem mais tempo. A mulher manda-os embora e, na sequência de um acidente, bate com a cabeça na quina da mesa e morre. Não foi culpa de ninguém, e o casal decide apossar-se da casa, mas cedo começam a ser assombrados pelo fantasma da antiga proprietária que continua a querer expulsá-los. Foi refrescante ver uma história de fantasmas num universo de zombies e em que estes quase não têm importância.

Em suma, “Tales of the Walking Dead” é uma colecção de episódios especialmente para fãs, mas que poderá muito bem agradar a toda a gente, mesmo aos que não viram a série original ou os spin-offs.

 

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, Fear the Walking Dead, The Walking Dead: World Beyond, zombies

 

domingo, 25 de junho de 2023

Extinction / Extinção (2015)

Ora aqui está um filme de pormenores confusos, quase à vontade do freguês para os interpretar. Um vírus (nunca sabemos exatamente o quê nem porquê) está a transformar os seres humanos em monstros. Não exactamente vampiros nem zombies, é mais uma coisa à “Wayward Pines” ou “28 Dias Depois”.
Alguns anos depois (é mesmo assim, sem nada pelo meio) dois homens, sobreviventes não infectados, vivem em casas contíguas sem se falarem. Um deles tem uma filha de uns 8 anos, a confiar na cronologia. Através de flashbacks percebemos que um deles era o marido da mãe da miúda, e o outro o amante. Nunca é dito claramente qual deles era o marido, mas pelo que percebi o marido é quem tem a custódia da miúda e o amante é o pai. Para piorar as coisas, parece que o amante, num estado de embriaguez e depois de uma discussão estúpida, foi o responsável por perder de vista a mãe da miúda, que acabou por ser morta pelos monstros. Obviamente, os dois homens têm-se um ódio de morte mas continuam “juntos” para proteger Lu, a miúda.
Sinceramente, acho que é esta a mensagem do filme, porque é graças a Lu que os dois se reaproximam na medida do possível.
O clima que os rodeia é de neve cerrada o ano todo. Mais uma vez não sabemos porquê. Podem ser as alterações climáticas, mas num filme em que um vírus transforma os seres humanos em monstros até podia ter sido uma colisão com a Lua. Durante todos estes anos, os dois homens e a criança julgaram-se os únicos sobreviventes, mas agora parece que não o são. Os tais monstros evoluíram e adaptaram-se ao frio, mas por outro lado as suas dentadas já não são infecciosas. Curiosamente, começam a ver-se cada vez mais pores-do-sol e o clima a voltar ao normal. Confusos? Eu também. Nada disto é explicado.
Finalmente, os sobreviventes encontram outras pessoas (afinal não são os últimos seres humanos na Terra) e… esperem por ela… a miúda ouve numa transmissão rádio que a maneira de matar os monstros é atingi-los no cérebro.
Assim tal e qual, não sei a copiar quantos filmes ao mesmo tempo. O enredo é este, o filme é este, já o vimos dezenas de vezes, e pergunto-me qual foi o objectivo. Continuo a achar que o objectivo era explorar a relação dos dois homens que têm de cooperar embora se odeiem.
Um filme que se esquece rapidamente e que só serve para entreter. Não há mesmo mais nada a dizer.
Gostei de ver de novo Matthew Fox, o Jack de "Lost", pelo menos até ele cortar o cabelo. Foi o melhor do filme.

12 em 20

 

domingo, 18 de junho de 2023

The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood

Não é costume dizer isto, mas a série estragou-me o livro. Não consegui ler sem imaginar “The Handmaid’s Tale” (a série) na minha cabeça a todos os instantes. Isto significa duas coisas: que a série respeita perfeitamente o material original, e que o livro publicado em 1985 foi o bastante para incendiar imaginações e perturbar consciências até aos dias de hoje.
Não estou a dizer com isto que não adianta ler o livro se já se viu a série, nem que a série é melhor do que o livro, mas depois de ter uma visualização de todo este mundo com personagens tão fortes como June (na série, porque no livro nunca é revelado o nome de Offred, a protagonista) não me foi possível dissociar as duas coisas. A maior parte das vezes dei por mim a reconhecer as cenas e a apontar mentalmente os monólogos de Offfred: “Olha, a June disse isto exactamente assim”; “Olha, a June disse isto mas deixou parte de fora”; “Olha, aqui está dito de forma diferente”. Também não ajuda que eu esteja completamente viciada na série.
Em suma, preferia ter lido o livro primeiro, mas agora já está. Atwood foi ousada em apresentar-nos Gilead tão intimamente sem grande exposição, como se o leitor conhecesse perfeitamente a distopia em que Offred estava aprisionada e porquê. Só posso imaginar o choque que isto tenha causado aos leitores que não sabiam para o que iam (como me costuma acontecer a mim), e que se calhar tiveram de ler duas ou três vezes para perceber todo o horror que Offred, muitas vezes veladamente, lhes ia revelando nos seus diários.
No entanto, existem pequenos pormenores de diferença. Como aquelas crianças a quem é repetidamente contado um conto de certa maneira até o ouvirem de forma diferente e que dizem “a história não é assim”, obviamente que reparei neles. Outros ajudam-nos a perceber melhor certas relações e acontecimentos que a série não aprofundou. Por exemplo, a origem da frase “nolite te bastardes carborundorum” está aqui muito melhor explicada.
E depois há a cena da gata…

Spoilers
No livro, June (vou usar o nome da série) e Luke têm uma gata. Quando Gilead faz com que June e todas as mulheres percam o emprego, June conforta-se abraçando a gata contra o peito. Comovente, não é? Mas na hora de fugir para o Canadá com Hannah, Luke e June apercebem-se de que não podem “levar um gato com eles a cruzar a fronteira”, que deixar a gata para trás os podia denunciar (se a deixassem à solta ela miava em volta da casa) e que não a podiam oferecer a ninguém que os pudesse trair de seguida. Então o que é que fazem? A gata está escondida debaixo da cama e June até diz “eles sabem sempre”. Luke leva a gata para a garagem e mata-a. Assim mesmo. Mais tarde, quando de facto são traídos, June pergunta-se que género de maldade leva outros seres humanos a traírem os vizinhos. June, filha, e o que terá pensado o animalzinho nos seus últimos momentos naquela garagem, traído pela única família que conheceu, a quem amava e por quem se julgava tão amado que era abraçado contra o peito, que últimos momentos foram esses, cheios de medo, confusão, dor e amargura? Pensaste nisso?
Felizmente, os criadores da série perceberam que isto não ia cair nada bem no público actual e não incluíram essa cena. Afinal, o livro foi publicado em 1985, quando os animais não eram considerados parte da família. Que lhes fazer? Matá-los, afogá-los à nascença, fazia-se tudo isso quando eram incómodos e já não davam jeito. Actualmente é impensável deixar um animal para trás (por exemplo, os refugiados da Ucrânia levaram cães e gatos com eles), e não daria tanto nas vistas porque muita gente leva os animais de estimação quando vai de férias. Na altura talvez não.
Não é que eu não acredite que a June da série não seja capaz de matar um gato, dois gatos, mil gatos. Pelo contrário. O que acho é que a June da série é monstruosa a um ponto que a Offred do livro nunca chega a ser e mesmo assim não me apeteceu torcer por ela. Perturbou-me, revoltou-me. Isto não é dizer pouco quando se fala de “The Handmaid’s Tale”, mas para tudo o resto eu já ia preparada.
Ainda por cima, na série, quando fogem, June e Luke passam por imensos matagais desertos onde podiam muito bem ter deixado a gata e assim esta sempre tinha uma oportunidade de caçar ou encontrar um novo lar. Na garagem é que não teve oportunidade nenhuma.
A acção do livro só cobre as primeiras duas temporadas da série e a própria Margaret Atwood faz parte da equipa, o que poderá explicar o sucesso da expansão do mundo de Gilead. O livro termina quando Offred é levada para parte incerta pela polícia do regime, sem saber o que lhe vai acontecer. Acredito que este fim em aberto tenha causado pesadelos a inúmeras gerações de leitores.
Por fim, o livro deixa-nos uma nota de esperança. Muitos anos no futuro, durante um simpósio sobre Gilead, os diários de Offred (aparentemente gravados em cassete, como em certa passagem da série) são analisados e debatidos, sendo mesmo posta em causa a sua veracidade e de que modo Offred os poderia ter gravado e escondido. Mas Gilead é sempre referida como uma sociedade do passado, algo de extinto que merece a pena ser estudado. O que nos diz, também não disfarçadamente, que Gilead não ganhou no fim.
Margaret Atwood escreveu uma distopia magnífica, um sucessor perfeito dos gigantes “Farenheit 451” e “1984”, e ainda por cima com um contexto muito actual.
Recomendo a toda a gente que não faça o que eu fiz: leiam o livro primeiro, até porque é curto. E depois, sim, devorem a série.
Quanto à cena da gata… vou fingir que não li. Já me perturbou mais do que o bastante.

 

domingo, 11 de junho de 2023

Sinister / A Entidade (2012)


Ellison Oswalt é um escritor de crime real que se muda, com a mulher e dois filhos pequenos, para a casa onde ocorreu o homicídio de uma família inteira. (Primeiro erro: numa história de terror nunca ninguém deve ir viver para a casa “assombrada”.) Toda a família anterior foi assassinada, com uma excepção: a filha mais nova, ainda criança, desapareceu sem deixar rasto. É este mistério que o escritor quer explorar no novo livro, que, espera ele, seja um sucesso de vendas que venha compensar a falta de êxito das suas obras mais recentes. Com a casa antiga penhorada, Ellison Oswalt não se atreve a dizer à esposa que estão a viver na residência onde ocorreu o crime.
Como pessoa racional que é, espera que o ambiente o inspire para escrever o melhor livro da sua vida (e aquele que o vai livrar das dificuldades financeiras). Mas assim que se instala no seu escritório repara numa caixa com várias bobines de vídeo: estas filmagens são os homicídios horripilantes de várias famílias anteriores em que, igualmente, só desapareceu a criança mais nova. Agora Ellison Oswalt sabe que o assassino tem acesso à sua casa, e ainda pensa chamar a polícia, mas o xerife foi tão pouco colaborativo, e o escritor precisa tanto de um êxito na sua carreira, que muda de ideias.
Mais tarde, consegue recrutar a ajuda do assistente do xerife que identifica estes outros homicídios como remontando aos anos sessenta e setenta, o que tornaria o assassino demasiado velho para continuar a cometer crimes desta natureza. (Quem viu todos os episódios de “Mentes Criminosas”, como eu vi, tem uma explicação óbvia para isto: é um aniquilador de famílias que rapta as crianças mais novas para as endoutrinar a fazer o mesmo através da Síndrome de Estocolmo e de uma lavagem cerebral apropriada).
De facto, a solução do filme passa exactamente por aquilo em que eu estava a pensar, mas com um desvio no sentido do sobrenatural.
Ora, o filme estava a ir muito bem como policial. O sobrenatural é que não chegou para me convencer. Não gostei do truque baixo de passar a maior parte do filme à noite, no escuro, enquanto o escritor percorre a casa sozinho (ou com um taco de basebol) à procura de intrusos, sem que a gente consiga ver nada do que está a acontecer. Não estou a ironizar, nos primeiros dias de permanência na casa pensei que a família ainda estava à espera de que a luz fosse ligada, tal era a escuridão constante, até durante o jantar.
Por fim, Ellison Oswalt percebe que nenhum sucesso financeiro vale mais do que a sua família e decide fugir a toda a velocidade. Mas ainda irá a tempo?
“Sinister” daria um excelente policial se não quisesse ser outra coisa, outra coisa, aliás, já tão batida e esgotada que o espectador adivinha o fim assim que começa o filme. Não é promissor. Aconselho pelo entretenimento. O fim não deixa de ser chocante, apesar de previsível.

13 em 20

domingo, 4 de junho de 2023

Wayward Pines (2015 – 2016)

Alguém se lembra da primeira temporada de “Wayward Pines”, prometida como uma mistura de “X-Files”, "Twin Peaks", ficção científica, distopia e terror? Eu também não. Mesmo assim, decidi ver a segunda e última temporada, só para saber como é que a história acabava.
Se a primeira parte de “Wayward Pines” era toda um jogo mental, entre destrinçar a realidade da mentira, entre descobrir em quem confiar ou não, a segunda parte é muito menos pretensiosa. Aqui já sabemos tudo o que precisamos de saber.
A cidade de Wayward Pines, com cerca de 1500 habitantes mantidos em criogenia até ao ano 4000 e tal, é o último reduto da raça humana. Fora dos seus limites, os seres humanos sofreram mutações genéticas que os transformaram em aberrações, com dentes e garras e tudo, e são donos do mundo. O problema de Wayward Pines é sobreviver.
Se na primeira temporada os dirigentes da cidade nos pareciam fascistas, agora vemos as coisas pelo outro lado. O objectivo é “frutificar”, aumentar o número de sobreviventes para terem alguma hipótese, e assegurar comida para todos. Nestas circunstâncias o que nos parecia fascismo assemelha-se mais a Lei Marcial. O que não quer dizer que não haja atropelos. As meninas são incentivadas a ter filhos assim que têm o período, preparadas ou não. É uma violência. Assegurar a sobrevivência da humanidade não implica cair na desumanidade. A resistência ainda existe, cada vez mais fraca, até ser completamente arrasada. Nesta altura já não há muito a que resistir, diga-se a verdade.
As colheitas estão fora da vedação e é perigoso ir buscá-las. Com os números de sobreviventes a aumentar, é necessário procurar mais locais de plantação. A comida é racionada. Pouca gente se preocupa a sério com este problema.
De repente, todas as aberrações desaparecem de vista e os sobreviventes julgam ter uma oportunidade. Mas subestimaram os novos habitantes da Terra. Quando estes regressam, muito mais inteligentes do que os julgavam, queimam todas as colheitas já existentes. Parece ser o fim da humanidade como a conhecemos.
A segunda temporada de “Wayward Pines” é isto, uma última comunidade de seres humanos a tentar sobreviver numa situação periclitante e cada vez mais improvável. Mesmo assim conseguiram atingir-me directamente nos sentimentos com uma revelação que ninguém esperava.
Penso que a premissa podia ter sido muito mais bem aproveitada mas não tenho a certeza se “Wayward Pines” julgava que ia ser renovada ou não. Todos os sobreviventes da primeira temporada são rapidamente despachados em meia dúzia de episódios, até os principais. O fim é ambíguo e frustrante. Apesar de tudo indicar que alguém tinha um plano infalível para dizimar as aberrações com um cocktail de doenças infecciosas, parece que estes não só sobreviveram mas agora estão a procriar com os seres humanos dando origem a uma nova espécie? Estou a especular, porque não sabemos. O objectivo seria renovar ou era mesmo para acabar assim?
Aconselho esta temporada a quem gosta de distopia e histórias de sobrevivência, sem grandes expectativas.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA : uma vez 


domingo, 28 de maio de 2023

The Amityville Murders / O Massacre de Amityville (2018)

Quando comecei a ver este filme pensei que há muito tempo não via nada tão assustador, de eriçar os cabelos da nuca. Diferente do “Amityville” original, de 1979, este filme retrata os homicídios cometidos pelo filho mais velho da família que previamente ocupou a casa: na mesma noite, Ronald DeFeo Jr. (nome real), de 23 anos, matou o pai, a mãe, as duas irmãs e os dois irmãos mais novos (de apenas 12 e 9 anos), todos nas suas camas enquanto dormiam. Ronald usou uma espingarda sem silenciador mas as provas forenses indicam que nenhuma das vítimas acordou nem deu luta. Numa das muitas confissões contraditórias de Ronald, este afirma que ouviu vozes que lhe disseram o que fazer.
À primeira vista, parece aterrador. Mas depois o filme entra num ultra-realismo que choca com o aspecto sobrenatural que quiseram dar à coisa, e o que aconteceu foi que se quis ter sol na eira e chuva no nabal: não funcionou, e também deixou de meter medo. Passo a explicar porquê.
Ronald Sr., o pai, é apresentado como um homem ligado à máfia e abusivo para com a esposa e os filhos, um daqueles que bate na mulher na intimidade do lar e sorri à vizinhança na rua para não mostrar o que é. Ronald Sr. é pior para com o filho mais velho, a quem humilha, chama nomes como “falhado” e espanca com um cinto. Todos os elementos da família têm pavor do homem. É de recordar que isto se passou em 1974, quando na prática não havia conceito de “violência doméstica”. Homicídios já foram cometidos por muito menos do que isto.
Mas porquê as crianças? É a mesma situação que leva algumas mães em profunda depressão a matarem os filhos também quando se tentam suicidar. Na lógica do desespero, deixar as crianças sozinhas no mundo é condená-las a “sofrer”. Matá-las é uma “misericórdia”. No filme, os irmãos mais velhos chegam mesmo a conversar sobre isso, que se sentem presos, encurralados, que nunca vão conseguir sair, que estão todos condenados ao inferno daquela existência, e que se por acaso conseguirem escapar quem vai sofrer são as crianças mais novas. Este sentimento de impotência e desespero incapacitante também é frequente em situações de abuso prolongado, especialmente desde a infância. Para piorar tudo, Ronald Jr. é um toxicodependente de heroína que também usa LSD (o que explica todas as vozes, visões e outras imaginações que possa ter tido).
Então, perguntam-me, onde é que está o sobrenatural nesta história? A mim também me parece que não seria preciso sobrenatural nenhum. O que se passava naquela casa a nível quotidiano, a par da vertente da toxicodependência, era mais do que motivo para explicar os homicídios. E já seria uma história real bastante assustadora ‒ que o é!
Mas o filme quis mesmo convencer-nos de que havia espíritos maléficos a vaguear pela casa, a abrir portas e gavetas tipo poltergeist, e que no fim possuíram o filho mais velho. Estas visões de fantasmas estão bem feitas e são suficientemente arrepiantes, mas, pergunto-me, qual era a necessidade delas? Este é um daqueles casos em que a realidade é mais assustadora do que a ficção. Depois do ultra-realismo de vermos o pai a espancar o filho de cinto na mão, a dar um murro na barriga da mulher, a chamar prostituta à filha em frente de estranhos (injustamente), os fantasmas não produzem efeito. Aqui eu já estava a ver um filme da vida real, terminando com fotografias das cenas dos crimes e do verdadeiro Ronald Jr. e tudo. O sobrenatural foi “metido à pressão” sem necessidade, funcionando antes como algo que está a estorvar, a minar o horror da história verdadeira.
O mesmo não acontece no “Amityville” original, em que assistimos a como George Lutz (James Brolin) se vai transformando de homem normal até quase “lobisomem” sob qualquer influência maléfica. Quem não se lembra da cena da lenha? Neste filme, sim, o sobrenatural faz sentido. Em “The Amityville Murders” o sobrenatural estragou um filme que podia ter causado mais efeito sem ele. Os demónios que habitavam aquela casa eram bastante de carne e osso.

14 em 20


domingo, 21 de maio de 2023

Wednesday (2022 - ?)

“Eu ajo como se não me importasse que as pessoas não gostem de mim. Mas lá no fundo… secretamente até gosto.”
É difícil gostar de Wednesday e é difícil não gostar. Wednesday é agora uma adolescente de 16 anos com ideias muito próprias que consegue ser expulsa de várias escolas normais (como seria de esperar). Finalmente, os Addams mandam-na para o internato Academia Nevermore (esse mesmo Nevermore) onde Gomez e Morticia se conheceram e apaixonaram.
A princípio Wednesday planeia fugir, mas é apanhada num mistério com centenas de anos que implica os Addams e intrigam-na os rumores da existência de um monstro homicida a rondar a escola. Como aspirante a escritora (Wednesday quer “bater” Mary Shelley que escreveu “Frankenstein” aos 19 anos), Wednesday decide ficar e resolver o mistério.
Nevermore é uma academia para párias (lobisomens, vampiros, górgones, sereias) mas isso não torna a adaptação de Wednesday mais fácil. Por exemplo, a sua companheira de quarto, Enid, uma aspirante a lobisomem a quem eu só posso descrever como efusiva, positiva e… cor-de-rosa, é um pesadelo para o mundo isolado e a preto e branco de Wednesday. Wednesday é uma solitária que não quer deixar de o ser, e odeia emoções. Emoções levam a sentimentos e sentimentos levam a sofrimento, é a sua filosofia de vida. Isto implica não querer saber de nada nem ninguém senão ela própria.
Mas Wednesday é uma adolescente, e algumas coisas nunca mudam. Como, por exemplo, ela já não suporta que Gomez e Morticia andem sempre agarrados e aos beijos (é verdade, e já não se suporta!). O romance não está nos seus planos, mas os planos não resistem à idade das hormonas. Wednesday tem de compreender que o seu ideal de ser “uma fortaleza rodeada de um fosso fundo cheio de tubarões” não se adapta ao mundo real. Os amigos são necessários, mesmo os mais irritantes, desde que ela saiba em quem confiar. É preciso baixar a ponte levadiça de vez em quando para os deixar entrar.
Aqui é que está o problema. Vinda do mundo resguardado da Mansão Addams em que tudo revolvia à sua volta (pobre Pugsley), Wednesday não aprendeu em quem confiar e é confrontada com isso vez após vez enquanto investiga os homicídios.
Sejamos francos, Wednesday tem capacidades extraordinárias, inclusive visões que começaram a acontecer-lhe há pouco tempo, mas é uma péssima detective que está sempre a perseguir o suspeito errado. Talvez pela falta de inteligência emocional, algo que se desenvolve com a interacção com os outros, o que Wednesday sempre desprezou. A Academia Nevermore vai ensinar-lhe que ninguém é uma ilha e que os amigos dão muito jeito. Tudo isto são dores de crescimento, mas valem a pena.
A série conta com alguns membros da família Addams que visitam Wednesday. Gomez e Morticia, iguais a eles próprios. O tio Fester, idem. E a Coisa, a que eu vou chamar A Mão para não confundir com o tio It. Nunca julguei sentir tanta empatia por um personagem (?) de desenhos-animados como senti pela Mão quando tentaram matá-la (não perguntem). Foi de fazer as lágrimas virem aos olhos.
Noutra nota, não me perdoo por não ter reconhecido a maravilhosa Gwendoline Christie (Brienne of Tarth de “A Guerra dos Tronos”, uma das minhas personagens preferidas) no papel de directora da academia, Larissa Weems. Algo nela me era familiar, mas não descobri de onde sem pesquisar.
“Wednesday” não podia ter aparecido em melhor altura. Com o êxito dos precedentes “Stranger Things”, “Harry Potter”, “Twilight”, “Os Diários do Vampiro” e outros que tais, o público estava mais do que preparado para um Young Adult com a família Addams. E o sucesso tem sido escabroso. Já viram a dança? Se não, vão ver! Toda a gente vai ver a dança mais tarde ou mais cedo.
“Wednesday” distingue-se pelo humor inteligente e pela personagem que afinal até se preocupa com os outros, por muito que diga que não. Aconselho a toda a gente com sentido de humor e gosto pelo sombrio.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA : duas vezes (uma pela história, outra pelos pormenores)

 

domingo, 14 de maio de 2023

Split / Fragmentado (2016)


O transtorno dissociativo de identidade, mais conhecido como transtorno de múltiplas personalidades, tem sido um manancial para o cinema desde os tempos de “Psycho”. Na verdade, é um distúrbio muito raro, raríssimo, mas permite histórias inesquecíveis e geralmente thrillers fantásticos.
É o caso deste “Split”, do realizador M. Night Shyamalan, onde notei influências de “O Silêncio dos Inocentes”, ou, mais precisamente, de “Dragão Vermelho”.
“Dennis” é a última personalidade a emergir num total de 23 que co-existem no corpo de Kevin. Só que “Dennis” é um psicopata que, aliado a uma outra personalidade, Patricia, acredita numa Besta que virá a ser a 24ª personalidade.
Para alimentar esta Besta (que considera sobre-humana) Dennis rapta três adolescentes, consideradas por ele “impuras” porque nunca sofreram, sem outra utilidade senão a de serem sacrificadas ao deus-Besta. Imediatamente as outras “personalidades” começam a enviar emails à psiquiatra de Kevin, pedindo ajuda, mas Dennis aparece sempre em vez delas, para as calar e dissipar qualquer suspeita, fingindo que está tudo bem. No entanto, prestando atenção a pormenores muito subtis, a psiquiatra desconfia de que a “personalidade” que lhe aparece na consulta não é nenhuma que ela conheça, e que é perigosa.
Conseguirá a psiquiatra salvar as raparigas? Conseguirão elas salvar-se sozinhas?
É um filme que dá para roer as unhas. Aconselho vivamente.

16 em 20

domingo, 7 de maio de 2023

The Good Place (2016 – 2020)

Eleanor Shellstrop morre e vai parar ao Sítio Bom. Recebida pelo “Arquitecto” Michael, é-lhe dito que apenas uma pequena percentagem de almas consegue lá entrar, e que Eleanor foi escolhida pelo seu notável trabalho humanitário. As almas que vão para o Sítio Mau são torturadas para toda a eternidade.
No Sítio Bom todos têm uma alma gémea, e Eleanor é apresentada à sua, Chidi Anagonye, professor de Filosofia e Ética. Mas há um problema. Eleanor, nas suas palavras, é “um lixo humano do Arizona” e não merece estar no Sítio Bom. Deve ter havido uma confusão de identidade. Em desespero, para não ser enviada para o Sítio Mau, Eleanor pede ajuda a Chidi para se tornar uma pessoa melhor de modo a poder permanecer no Sítio Bom antes que todos se apercebam de que ela não pertence lá.
No entanto, depressa Eleanor percebe que não é a única alma que está no Sítio Bom por engano. Algo de muito errado se passa no Sítio Bom!
Esta é uma comédia inteligente, filosófica sem ser pesada, romântica que baste, que leva os protagonistas numa aventura existencial enquanto eles tentam sinceramente tornar-se pessoas melhores. Aconselho a toda a gente que tem sentido de humor e sensibilidade ética.
A série tem quatro temporadas. Aviso que não gostei do último episódio de todos. Não acredito naquela solução e achei-a deveras deprimente. Mas a primeira temporada é imperdível.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez