domingo, 19 de julho de 2026
Wednesday [segunda temporada] (2022 - ?)
O que nós aprendemos na segunda temporada de "Wednesday":
1. Wednesday é literalmente alérgica à cor, não era exagero
2. Os Addams são ricos porque comem ratos, insectos e outras coisas nojentas; sempre é dinheiro que poupam no supermercado
3. Os Párias não são secretos, são conhecidos pelos Normais (mas admito que se calhar fui eu que estava distraída na primeira temporada)
4 Morticia é uma autora de literatura romântica/soft porn (grande Morticia, é preciso coragem para escrever coisas dessas)
"A mais feliz das vidas é uma solidão atarefada", do filósofo Voltaire, é um lema para Wednesday, e até resultava melhor se ela não gostasse tanto de se meter em sarilhos. Quando Wednesday regressa a Nevermore para o segundo ano lectivo, problemas novos e antigos não lhe vão dar paz. Mas, na verdade, é mesmo isso que ela quer. Uma vida sem sarilhos é muito aborrecida para qualquer adolescente, e Wednesday nem sequer é uma adolescente qualquer.
Já ia no segundo visionamento quando me apercebi de que não retive nada do enredo. É difícil prestar atenção à história quando Morticia está a comer bolachas cobertas de aranhas (?) vivas. A série é uma tal festa para os olhos, um tal espectáculo de Tim Burton, que o enredo até distrai. Pode dizer-se que esta segunda temporada tem três sub-enredos, e um deles, se calhar o menos provável, vai ganhando predominância até se revelar o principal.
Entretanto, Wednesday perde os poderes mediúnicos por abusar deles. Em contrapartida, ganha uma aliada na sua ex-stalker Agnes, outra aluna de Nevermore que idolatra Wednesday e que tem o poder da invisibilidade. Mas a relação de Wednesday e Enid está periclitante. Numa das suas últimas premonições, Wednesday pressagia a morte de Enid, o que a leva a deixar a amiga lupina fora dos seus planos. Sem saber que a sua vida está em risco, e descontente com a dinâmica que se estabelece entre Wednesday e Agnes, Enid sente-se compreensivelmente posta de lado.
A nível da evolução das personagens principais, contudo, o sub-enredo mais dramático é a aproximação entre Ajax e Bianca quando esta enfrenta uma crise familiar. As coisas nunca se tornam românticas, até porque Bianca está com demasiados problemas para pensar nisso, mas seria bonito se esta amizade desinteressada se transformasse em algo mais no futuro.
A Mão (Thing) continua a ser um personagem preferido de muita gente, eu inclusive. Como é que é possível, como?, transmitir-se tanta personalidade num "ser" que não passa de uma mão? Adorei a cena em que a Mão e outras partes de corpos têm uma reunião do tipo Partes-de-Corpos Anónimos. Estão lá, do que eu percebi, duas mãos, duas pernas, um pé, um braço, dois olhinhos e uma orelha, todos com personalidades bem perceptíveis. A sério, quem é que consegue prestar atenção ao enredo, e até aos diálogos, quando os dois olhinhos e a orelha batem palmas? Os nossos olhinhos e orelhas também batem palmas ao festim visual e auditivo que nos é servido.
Que mais? Adorei tudo do Pilgrim World, adorei Morticia a alimentar plantas carnívoras, adorei Catherine Zeta-Jones como Morticia (na minha opinião a melhor Morticia de sempre), adorei o zombie que se vai regenerando à medida que come cérebros, adorei o romance entre Fester e Louise da cantina, adorei Lady Gaga como Raven, adorei Gwendoline Christie como Larissa Weems e Christina Ricci como Marilyn Thornhill. Nesta segunda temporada passamos muito mais tempo com a família Addams inteira, o que algumas pessoas não apreciaram porque a série centra-se em Wednesday, mas eu não me importei nada.
E depois há as danças. Vou cometer um spoiler. Se virem por aí uma Wednesday estranhamente colorida e efusiva a dançar, não é Wednesday. Num dos melhores episódios da série, Wednesday e Enid trocam involuntariamente de corpo. Ambas as actrizes dão um show a interpretar-se uma à outra. Até a voz conseguem adaptar de tal maneira que muita gente (e eu) pensou que tivesse havido dobragem, mas nem foi preciso.
Noutro episódio, Enid tem uma coreografia de dança em dueto com Agnes, a rapariga invisível, mas desta já não gostei tanto porque não vi metade. (Perceberam a chalaça? Não vi metade porque ela é invisível. Ehm... Avançando.)
No meio deste desvario absoluto, às vezes a série perde a noção da realidade. Como no caso em que o Hyde pega em Marilyn Thornhill (que é humana) pelo pescoço, eleva-a do chão e atira-a contra uma parede como se fosse uma boneca de borracha, e não há sequer uma costela partida. Isto é coisa de desenhos animados que na minha opinião não devia ter aqui lugar. Noutros casos, sacrifica-se a credibilidade, como quando Agnes vê Wednesday ser enterrada viva no bosque, vai a correr até à escola pedir ajuda a Enid, e nenhuma delas se lembra de levar uma pá ou qualquer ferramenta. E para quê? Para que Enid tenha de se transformar nesse momento dramático em que salva a amiga.
Mas pergunto, alguém reparou nisto sequer? Duvido, e duvido que alguém se importe. A série pode fazer tudo o que lhe apetece entre o realismo, o desenho animado e a fantasia porque "Wednesday" é um clássico instantâneo e estou convencida de que o será para sempre enquanto existir televisão.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 ou 3 vezes, e ninguém vai escapar a ver isto na internet
PARA QUEM GOSTA DE: A Família Addams, Young Adult, Fantasia
domingo, 21 de maio de 2023
Wednesday (2022 - ?)
“Eu ajo como se não me importasse que as pessoas não gostem de mim. Mas lá no fundo… secretamente até gosto.”
É difícil gostar de Wednesday e é difícil não gostar. Wednesday é agora uma adolescente de 16 anos com ideias muito próprias que consegue ser expulsa de várias escolas normais (como seria de esperar). Finalmente, os Addams mandam-na para o internato Academia Nevermore (esse mesmo Nevermore) onde Gomez e Morticia se conheceram e apaixonaram.
A princípio Wednesday planeia fugir, mas é apanhada num mistério com centenas de anos que implica os Addams e intrigam-na os rumores da existência de um monstro homicida a rondar a escola. Como aspirante a escritora (Wednesday quer “bater” Mary Shelley que escreveu “Frankenstein” aos 19 anos), Wednesday decide ficar e resolver o mistério.
Nevermore é uma academia para párias (lobisomens, vampiros, górgones, sereias) mas isso não torna a adaptação de Wednesday mais fácil. Por exemplo, a sua companheira de quarto, Enid, uma aspirante a lobisomem a quem eu só posso descrever como efusiva, positiva e… cor-de-rosa, é um pesadelo para o mundo isolado e a preto e branco de Wednesday. Wednesday é uma solitária que não quer deixar de o ser, e odeia emoções. Emoções levam a sentimentos e sentimentos levam a sofrimento, é a sua filosofia de vida. Isto implica não querer saber de nada nem ninguém senão ela própria.
Mas Wednesday é uma adolescente, e algumas coisas nunca mudam. Como, por exemplo, ela já não suporta que Gomez e Morticia andem sempre agarrados e aos beijos (é verdade, e já não se suporta!). O romance não está nos seus planos, mas os planos não resistem à idade das hormonas. Wednesday tem de compreender que o seu ideal de ser “uma fortaleza rodeada de um fosso fundo cheio de tubarões” não se adapta ao mundo real. Os amigos são necessários, mesmo os mais irritantes, desde que ela saiba em quem confiar. É preciso baixar a ponte levadiça de vez em quando para os deixar entrar.
Aqui é que está o problema. Vinda do mundo resguardado da Mansão Addams em que tudo revolvia à sua volta (pobre Pugsley), Wednesday não aprendeu em quem confiar e é confrontada com isso vez após vez enquanto investiga os homicídios.
Sejamos francos, Wednesday tem capacidades extraordinárias, inclusive visões que começaram a acontecer-lhe há pouco tempo, mas é uma péssima detective que está sempre a perseguir o suspeito errado. Talvez pela falta de inteligência emocional, algo que se desenvolve com a interacção com os outros, o que Wednesday sempre desprezou. A Academia Nevermore vai ensinar-lhe que ninguém é uma ilha e que os amigos dão muito jeito. Tudo isto são dores de crescimento, mas valem a pena.
A série conta com alguns membros da família Addams que visitam Wednesday. Gomez e Morticia, iguais a eles próprios. O tio Fester, idem. E a Coisa, a que eu vou chamar A Mão para não confundir com o tio It. Nunca julguei sentir tanta empatia por um personagem (?) de desenhos-animados como senti pela Mão quando tentaram matá-la (não perguntem). Foi de fazer as lágrimas virem aos olhos.
Noutra nota, não me perdoo por não ter reconhecido a maravilhosa Gwendoline Christie (Brienne of Tarth de “A Guerra dos Tronos”, uma das minhas personagens preferidas) no papel de directora da academia, Larissa Weems. Algo nela me era familiar, mas não descobri de onde sem pesquisar.
“Wednesday” não podia ter aparecido em melhor altura. Com o êxito dos precedentes “Stranger Things”, “Harry Potter”, “Twilight”, “Os Diários do Vampiro” e outros que tais, o público estava mais do que preparado para um Young Adult com a família Addams. E o sucesso tem sido escabroso. Já viram a dança? Se não, vão ver! Toda a gente vai ver a dança mais tarde ou mais cedo.
“Wednesday” distingue-se pelo humor inteligente e pela personagem que afinal até se preocupa com os outros, por muito que diga que não. Aconselho a toda a gente com sentido de humor e gosto pelo sombrio.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA : duas vezes (uma pela história, outra pelos pormenores)

