Confesso que esperava mais deste filme tão aclamado pela crítica da altura, mas também não fiquei desapontada. “Almost Famous” retrata o famoso “sex, drugs and rock’n’roll” do universo dos anos 70, com as mega-bandas, as groupies e os roadies, e os jornalistas que os podiam destruir ou levar ao estrelato. Por alguma razão os jornalistas são chamados “o Inimigo”.
O filme tem uma grande dose de humor. Um rapaz nos seus precoces 15 anos, William Miller, é contratado, por equívoco, para escrever uma peça sobre a banda (fictícia) Stillwater para a revista Rolling Stone. Como única ajuda, William conta com o editor da revista “Creem”, Lester Bangs (personagem real), o mentor que lhe diz que um jornalista/crítico de música tem de ser “honesto e impiedoso”. Daí o epíteto não muito simpático de “o Inimigo”.
William Miller cai de pára-quedas num mundo demasiado adulto para a sua idade (mas aguenta-se bem) onde se movem grandes monstros da música como os Led Zeppelin, os Black Sabbath, os Deep Purple, Bob Dylan, e até uma breve aparição de David Bowie escondido pelos guarda-costas. Apaixonado pela groupie Penny Lane (nome fictício), William fica chocado pela maneira como o guitarrista da banda Stillwater a usa e deita fora. Se William via os seus heróis musicais como mitos, agora apercebe-se de que são bastante humanos.
Tudo isto desapareceu para não voltar, e por mim ainda bem. Todo este glamour do “sex, drugs and rock’n’roll” não era saudável para as bandas. Os chamados “gate keepers” (revistas, jornais, rádios) escolhiam que bandas vingavam ou desapareciam. Não havia o "Do It Yourself" do tempo do punk. Grandes bandas significavam um manager, uma escolta de roadies, um estúdio de gravações, um contrato. Muito dinheiro também, para os que chegavam ao topo. Muito dinheiro geralmente mal gasto.
Vivemos numa época em que é fácil produzir música e colocá-la directamente à venda ao público, embora com muito menos lucro, mas as bandas fazem-no pela arte e não pelo dinheiro ou pela fama. Já ninguém idolatra ninguém. O público é o único a decidir quem vinga e quem desaparece. É tudo mais sadio e respirável, na minha opinião.
“Almost Famous” é um filme de época que certamente fará as delícias de quem viveu as grandes bandas dos anos 70. Confesso que pessoalmente não me diz muito. Não vivi, não estive lá, nem sequer gosto da música. Mas é interessante visitar e ver de longe.
15 em 20 (pelo documento de época)
domingo, 11 de setembro de 2022
Almost Famous / Quase Famosos (2000)
quinta-feira, 8 de setembro de 2022
Crítica ao livro "Nepenthos", de D. D. Maio - por Calhariz (Goodreads)
Directamente do Goodreads:
Já li quase todos os livros deste universo, menos “Vanda”. Quando acabei o “Elysion” senti que não queria abandonar os personagens e este universo, que era altura para reler “Nepenthos”. Que leitura. Uma história intensa com personagens variados, reais e palpáveis, além de reviravoltas e surpresas. O que mais me impressionou foram as personagens e a densidade da psicologia delas. O sofrimento psicológico retratado é real, existe, mesmo que as pessoas nem sempre se dêem a conhecer. Andam por aí muitas pessoas como a Reena, Nannaka, Rurik ou Eric por exemplo. Recomendo fortemente.
Toda a informação AQUI
domingo, 4 de setembro de 2022
The Young Pope (2016)
A homilia de abertura de “The Young Pope” é tudo o que a geração actual espera de um Papa jovem (cerca de 50 anos, para um Papa, é bastante jovem). Mas há um problema. Esta homilia é um sonho (ou um pesadelo) de Lenny Bernardo, o primeiro Papa americano. Esta cena inicial diz-nos logo que nem tudo o que estamos a ver é necessariamente realidade. Na orla do surreal, a série utiliza sonhos, memórias, flashbacks e fantasias. Se algo nos parece um sonho, é porque geralmente o é. E depois há o mistério, o que apenas a fé de cada um pode decidir como real.
[Nota: “The Young Pope” é uma mini-série de 2016, com Jude Law, a não ser confundida com a continuação de 2019, com John Malkovich, “The New Pope”. A semelhança de títulos presta-se à confusão.]
A história começa com o mistério do Conclave. Somos guiados aos bastidores obscuros do Vaticano, onde aprendemos que a eleição do Papa obedece a políticas previamente estabelecidas para benefício dos cardeais. Durante um impasse, subitamente, Bernardo começa a receber votos sem que nada fosse combinado para tal. Até os cardeais mais cínicos concordam, contra tudo o que acreditam, que foi o Espírito Santo que elegeu o novo Papa. É a perplexidade! Nem o novo Papa acredita que o Espírito Santo o elegeu.
Mas Lenny não é um Papa como os outros. Ao contrário do esperado pelos cardeais que não quiseram eleger o mentor de Lenny por o acharem demasiado “conservador”, Lenny é um extremista ainda pior. “Não sabem que os jovens são mais extremistas?”, rebenta o cardeal Spencer, o que devia ter sido eleito.
Lenny é mais do que dogmático: é retrógrado, arrogante, pomposo, convencido. Lenny decide fechar a Igreja: acabou-se a tolerância, o ecumenismo, a evangelização. Nada de uniões de facto, nada de abortos, nada de divórcios. É a doutrina pura e dura. “Somos cimento, e o cimento não se move nem tem janelas”. Lenny recusa aparecer em público e, na primeira homilia, da famosa janela na Praça de São Pedro, revela-se de costas, à noite, em silhueta, e lança o sermão mais castigador que já se ouvia em séculos. Por fim, abandona a janela com as palavras “Vocês não me merecem”.
É o escândalo! E a partir daí cada vez pior. Lenny tem uma aversão a homossexuais que parece homofobia, mas na verdade está a seguir as coisas à letra. Ou é doutrina, ou não é doutrina. E Lenny é tudo menos hipócrita. (Embora esta aversão se deva mais a uma confusão entre homofobia e pedofilia na cabeça dele, como se verá mais tarde.) A Igreja volta a celebrar missas em latim, o sacerdote virado de costas para os fiéis; as igrejas estão vazias; os turistas escasseiam; a imprensa crucifica o Vaticano; o Vaticano perde receitas; o Papa entra em conflito aberto com o primeiro-ministro de Itália que ameaça aumentar os impostos do Vaticano. Lenny não se importa. Só importa Deus. Mais vale poucos fiéis do que fiéis em part-time, diz ele. É altura de a Igreja voltar a ser misteriosa, proibitiva, fechada. Os fiéis voltarão. Só que não voltam.
Lenny é profundo e perturbado. Abandonado por pais hippies num orfanato, é a ausência deles que compensa com a ausência/presença de Deus (quando Lenny acredita que Ele existe, porque na maior parte das vezes tem dúvidas); é no frio e na escuridão, no sacrifício e no sofrimento que os fiéis têm de encontrar Deus.
O Papa começa logo por recrutar o pobre pateta confessor do Vaticano para lhe contar todos os segredos, coisa que este, Don Tommaso, faz porque acredita na infalibilidade papal (e não é muito esperto, benza-o Deus). Desta forma, Lenny parece ter super-poderes.
Mas o que nós sabemos e que mais ninguém sabe é que Lenny realmente faz milagres: três, que nós saibamos. Três milagres são a prova de santidade para o Catolicismo. Alguns comentários aventaram que se calhar quem faz os milagres é o “outro lado”. Aliás, “diabólico” é como o assessor do primeiro-ministro se refere ao Papa, e o primeiro-ministro, após o encontro entre ambos, é forçado a concordar. Mas por mais interessante que seja esta teoria, a outra é ainda mais interessante: e se Lenny faz milagres porque Deus o aprova, porque Deus é tão fechado, dogmático e arrogante como Lenny? Esta é que é a questão inquietante.
Curiosamente, ou de propósito, talvez pelo formato mais quadrado da cruz que o Papa usa, ou pela maneira como está pendurada de um fio, a mim dá-me a ideia de uma cruz cristã invertida. O que ele faz também não ajuda a não dar esta ideia.
Os créditos de abertura, geniais, são uma boa metáfora para a ascensão de Lenny: à medida que ele passa à frente de alguns quadros clássicos do imaginário religioso, a estrela de Belém, a do Presépio, cresce, eleva-se e torna-se um cometa que destrói tudo por onde passa.
Os adversários entram em campo
Como contraponto à seriedade do papa, o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Voiello, serve muitas vezes como comic relief. Este é um homem que tem pensamentos impuros com a Vénus de Willendorf, vários livros publicados a falar dele (de que ele muito se orgulha), é um adepto do Nápoles que assiste aos jogos vestido com o uniforme da equipa e a rezar o terço, que se recusa a invocar o nome de Deus em vão (Maradona), e que tem por objectivo livrar-se de Lenny, nem que seja preciso recorrer à chantagem mais vil. A princípio, Voiello parece o vilão. O filho da empregada pergunta-lhe “Excelência, posso brincar com os meus carrinhos no tapete?” Ao que Voiello responde: “Excelência é a tua mãezinha; a mim chamas-me Eminência”: Parece bruto, mas quando o conhecemos melhor sabemos que Voiello passa as noites a tomar conta de um jovem com paralisia cerebral severa, preso a uma cadeira de rodas, que não fala nem entende, e que Voiello considera o único ser livre de pecado, porque nem o consegue imaginar. A amizade é recíproca.
O que Voiello faz é por amor à Igreja, que Lenny está a destruir pouco a pouco. A certa altura, até o braço direito de Lenny, a Irmã Maria, antiga directora do orfanato onde o Papa cresceu, decide aliar-se a Voiello (que se apaixona por ela, o que também é mais cómico do que parece, até porque ela não é nada o tipo Vénus de Willendorf, mas o amor não entende lógica) para forçar o Papa a resignar, pois, como ela diz, não consegue ver o homem que mais ama no mundo a destruir-se desta maneira e a destruir a instituição que ela ama mais do que a si própria: a Igreja Católica Romana.
Lenny está sozinho, obcecado pelos seus sonhos infantis de órfão que nunca cresceu e que só deseja conhecer os pais verdadeiros (a presença, constante, na ausência, exactamente a sua percepção de Deus). Eventualmente, até o idiota Tommaso deixa de lhe obedecer, com o simples: “O Santo Padre não acredita em Deus”. No mundo limitado de Tommaso é tudo branco ou preto, não há áreas cinzentas. A psique imensa de Lenny, a sua concepção de um Deus inescrutável, é demasiado complicada para Tommaso.
Mas eu acho que o ponto de viragem foi mesmo o canguru. A Austrália ofereceu um canguru ao Papa recém-eleito. Os funcionários do Vaticano queriam mandá-lo para um jardim zoológico mas Lenny opõe-se e deixa o canguru andar à solta nos jardins. (Nota: penso que já não se pode fazer isto, retirar um animal selvagem do seu habitat, mas ecoa os tempos medievais em que presentes exóticos, como leões e rinocerontes, eram oferecidos aos Papas. Muitas vezes esta série faz coisas de propósito que representam um Vaticano intemporal: o que é e o que foi, da mesma maneira que sobrepõe sonhos e memórias de Lenny quando são mais importantes para ele do que a própria realidade.) Alguém mata o canguru com um tiro no peito. Isto foi odioso. O bicho não fazia mal a ninguém, nem se aproximava das pessoas, limitava-se a espreitar por detrás de árvores e sebes. Nunca é explicado quem deu o tiro ao canguru, mas penso que é óbvio que foi um ataque ao Papa como retaliação. Ora, meus amigos, se eu fosse Papa era aqui que ficava fula e desatava a excomungar a torto e a direito. Querem matar o Papa, matem, mas não se vinguem no animalzinho indefeso.
Não posso dizer com certeza se o assassinato do canguru teve este impacto todo, mas foi a gota de água que fez transbordar o balde à medida que Lenny percebe que até os mais leais o começam a abandonar. Lenny portou-se como uma criança mimada a brincar aos reis. É altura de crescer e de se tornar homem, mesmo que isso implique fazer finalmente o luto dos pais vivos que o deixaram para trás.
Agora a parte mais misteriosa: Lenny pode ser de facto o escolhido de Deus. Pressionado para lidar com os casos de pedofilia nos Estados Unidos (personificados por um monsenhor fictício), o Papa manda o cardeal Gutierrez à América com a missão de provar a culpa do pedófilo. Gutierrez é alcoólico, medroso, nascido para ser antes um monge do que um cardeal, um tipo que tem ataques de pânico ao sair à rua, e um homossexual encoberto, ainda por cima, o que não agradaria ao novo Papa. E é a este sujeito improvável que Lenny manda lidar com o caso mais grave da Igreja. Por tal, foi criticado desalmadamente. Ninguém acredita em Gutierrez. Mas não é que Lenny tinha razão? Gutierrez sai do Vaticano um medricas e volta um durão. Isto, para mim, é um milagre, e foi Lenny quem o fez.
Para um público inesperado
Quando comecei a ver esta série pensei que iria aconselhá-la a pessoas que se interessam pelos bastidores do Vaticano, pelos meandros da Igreja Católica, pelos assuntos da fé em geral. Nunca pensei que acabaria a aconselhá-la a quem gostou de “Os Tudors”, “Os Bórgias” ou “A Guerra dos Tronos”. Não há aqui porno-tortura, é verdade (e graças a todos os Santos!), mas há intriga que chega para nos agarrar de episódio para episódio, e uma das cenas de sexo a três mais pornográficas que eu já alguma vez vi fora de um filme porno-gay. Não é com Lenny. Lenny existe numa esfera demasiado intelectual/espiritual para ceder às tentações da carne. Mas o mais irónico é que a cena nos mostra como às vezes podemos perceber tudo e mais alguma coisa do que se passa à nossa volta e ser tão cegos em relação aos mais próximos, aos que consideramos família e amigos.
Por último, uma nota para a ponta solta que a série deixou de fora. Tonino Pettola, um pastor seboso e devoto, acredita (fervorosamente, não a fingir nem por dinheiro) que vê a Virgem Maria numa das suas ovelhas e que através dela (da Nossa Senhora, não da ovelha) consegue fazer milagres. Pede insistentemente ao Vaticano que os milagres sejam reconhecidos, mas é ignorado. Nunca se sabe o que aconteceu exactamente a Tonino Pettola, mas digo apenas que ser “agraciado” com a presença deste Papa na própria casa é mais assustador do que receber uma visita da Máfia. Penso que Tonino Pettola daria um sub-plot hilariante, mas se calhar foi o próprio realizador que o abandonou porque a série é demasiado dramática para estas palhaçadas. Adorava que retomassem o sub-plot, mesmo assim, na sequela “The New Pope”, pelo menos para sabermos o que aconteceu a Tonino Pettola, coitado.
A última cena é uma obra de arte cinematográfica: a câmara parte de uma janela em Veneza e vai-se elevando, e depois vemos a cidade, e depois Itália, e depois a Europa, e depois a Terra vista do Espaço, como Deus é suposto vê-la. Sei que não é a primeira vez que é feito, mas é sempre empolgante.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes
quarta-feira, 31 de agosto de 2022
Lisa Gerrard / Marcello De Francisci − Exaudia
Originalmente publicado no Pórtico
A Deusa cantou.
O álbum “Exaudia” é a colaboração de Lisa Gerrard (vocalização) com o produtor / compositor Marcello De Francisci (música), acabado de lançar em Agosto. O resultado é semelhante aos trabalhos anteriores de Lisa Gerrard a solo.
Peça indispensável no altar dos adoradores da Deusa.
domingo, 28 de agosto de 2022
Sombras, de Patrícia Morais
“Sombras” é o primeiro livro de Patrícia Morais, inicialmente publicado em 2014 pela Cool Books, uma chancela da Porto Editora. Terminado este contrato (e a chancela?), a autora optou agora pela auto-publicação.
Esta é uma história em Young Adult/Fantasia Urbana que agradará a quem gostou de “Twilight”, “Harry Potter”, “Diários do Vampiro” e “Sobrenatural”.
Lilly tem uma vida perfeitamente normal até à noite em que toda a sua família é assassinada. Incapaz de ficar no local onde aconteceu o trauma, Lilly parte para os Estados Unidos, a princípio para estudar Mitologia, mas depressa se junta aos Diabolus Venator, uma organização de caçadores de monstros. É a sua maneira de extravasar a raiva e encontrar um sentido na vida… ou de acabar com ela. Junto dos venatori, Lilly envolve-se num quase triângulo romântico com um dos caçadores, Liam, e um vampiro chamado Louis (não, não é o da Anne Rice). Mas poderá confiar em qualquer um deles?
Como estreia, é inegável que Patrícia Morais tem bastante potencial para fazer mais e melhor, mas vejo ainda muito trabalho, dedicação e vontade de aprender à sua frente. Algo necessário a "Sombras" como pão para a boca teria sido um bom beta reader ou revisor de texto.
Como beta reader de contos mais recentes de Patrícia Morais (em que se nota uma evolução substantiva), já tive oportunidade de dizer à autora que ainda falta um português mais elegante a nível gramatical, e que existe uma tendência permanente de decalcar expressões idiomáticas directamente do inglês (é a tal formação da autora em Tradução a imiscuir-se onde não deve) que até podiam resultar se fossem trabalhadas. Algumas escolhas de palavras são igualmente decalcadas do significado em inglês e, lamento, não resultam na nossa língua.
A nível da narrativa propriamente dita, o maior problema está na (falta de) caracterização e bidimensionalidade das personagens. A Lilly até conseguimos conhecer, mas todos os outros são genéricos. Isto vai-se tornando mais grave à medida que se desenrolam acontecimentos dramáticos que nos deviam fazer sentir alguma coisa… se conhecêssemos as personagens e nos interessássemos por elas. Infelizmente, isto não foi conseguido, o que retira bastante impacto à revelação final, quando nos surge um vilão sem profundidade que nunca passou de um nome no papel.
Por último, as personagens de “Sombras” andam na casa dos vinte anos mas comportam-se, falam e agem como miúdos de liceu, o que é grave numa organização que devia ser antiquíssima, sapientíssima e profissional. Esta “juvenilidade” devia ser revista. Jovens adultas não são adolescentes birrentas que andam a puxar os cabelos umas às outras quando se zangam. Basta dizer que o personagem mais velho, o chefe dos venatori, tem apenas 30 anos. Faltava aqui uma maturidade à altura da instituição representada.
Em suma, e apesar do rumo pesado e dramático que a história podia levar, “Sombras” é um livro leve que aborda o sobrenatural e o romântico sem querer aprofundar os temas que, como espectros, gritam das sombras para serem explorados.
Espero muito mais de Patrícia Morais no futuro.
Onde encontrar o livro: patricia-morais.com/livros/sombras
domingo, 21 de agosto de 2022
A Most Violent Year / Um Ano Muito Violento (2014)
“Um Ano Muito Violento” é um título enganador no sentido em que parece menos interessante do que é: em 1981, em Nova Iorque, um empresário tenta salvar o seu negócio dos ataques da concorrência. A sinopse também nos informa de que estatisticamente 1981 foi realmente o ano mais violento da história da cidade até essa data.
A história é aparentemente simples. Abel Morales é um empresário de sucesso no ramo do combustível para aquecimento doméstico quando os camiões da sua empresa começam a ser alvo de assaltos constantes à mão armada. Os condutores dos camiões são atacados e espancados, o que leva o sindicato a ameaçar uma greve se não for autorizado que estes sejam portadores de armas de defesa. Morales é contra isso porque teme uma escalada de violência. A polícia não consegue descobrir de onde vêm os ataques. Embora pareça coisa da Máfia, neste caso esta não tem nada a ver com o assunto. Morales sabe disto porque a sua esposa Anna, contabilista na empresa, é de facto filha de um mafioso. A certa altura esta sugere mesmo “telefonar ao pai para resolver a situação”, o que Morales recusa igualmente.
Como se não bastasse, a polícia está mais interessada em investigar a empresa, suspeitando de fuga aos impostos. Morales encontra-se a meio de um grande negócio: adquirir um terreno no porto, que lhe permitirá descarregar e armazenar combustível com maior lucro. Para isso, não pode falhar o pagamento acordado. Mas, ao saber da investigação, ao mesmo tempo que acontece um tiroteio entre um condutor e os assaltantes, o banco, que prometera apoiá-lo, retira-lhe o financiamento.
Morales é ambicioso e é o patrão, o que não costuma resultar em termos de simpatia. Mas não é ambicioso a qualquer preço. Na verdade, é um homem honestíssimo, que quer sempre fazer tudo com a maior correcção. Não é difícil começar a torcer por ele muito depressa. Mas até mesmo o homem mais honesto se encontra por vezes em áreas cinzentas. Chamar a Máfia para o proteger é uma tentação quando o trabalho de uma vida se encontra prestes a desmoronar devido a actos criminosos de outrem. Não deveria ele responder na mesma moeda? Mais grave ainda, Anna, a esposa, confessa-lhe que desde há anos anda a desviar dinheiro da empresa para uma conta pessoal em nome de ambos. Logo, a investigação não será tão inofensiva quanto Morales julgava a princípio. Conseguirá ele manter os seus princípios e salvar tudo o que construiu? E, depois disto, conseguirá salvar também a sua família? Sem incorrer em spoilers, direi apenas que no fim é a sua humanidade que o salva.
“Um Ano Muito Violento” é a prova de como uma história aparentemente simples pode ser bem contada com suspense e tensão. O filme está classificado como Acção mas eu colocava-o antes no Drama, e só não é tecnicamente um policial porque o protagonista não faz parte das forças da ordem, embora acabe por ser ele a fazer o papel de detective. Além disso, o filme tem uma vertente de época. Aquilo é mesmo 1981, para o bem e para o mal.
Aconselho a toda a gente que gosta de filmes de Máfia, crime, policiais e dramas do género.
14 em 20
domingo, 14 de agosto de 2022
Vikings (2013–2020)
Para uma série que andou por aqui durante sete anos e que teve 90 e tal episódios, o que tenho a dizer é muito breve.
Vi o final de “Vikings” com aquele alívio “acabou, acabou, acabou” de ser libertada de um vício prejudicial. Ou melhor, era incontrolável como olhar para um desastre rodoviário: sangrento e horroroso. Confesso que cheguei a pensar, no fim da quinta temporada e devido ao grande hiato que aconteceu entretanto (por alguma razão passaram meses, um ano inteiro, sem aparecer na televisão?), que a série tinha acabado por causa da pandemia, e ainda bem, porque eu não queria tornar a vê-la. A minha primeira opinião não mudou, pelo contrário, foi piorando ao longo das temporadas.
“Vikings” queria ser a história de Ragnar Lothbrok e dos seus filhos, todos eles míticos e propícios a serem romanceados, mas a crítica é unânime quanto ao facto de que o enredo andou muito perdido após a morte de Ragnar, e nunca tornou a encontrar-se. Isto não era inevitável, foi simplesmente um caso de não se conseguir estabelecer os filhos de Ragnar como personagens sólidas. Tirando, talvez, Ubbe, aquele que consegue chegar mais longe, embora os seus feitos (na narrativa da série) tenham ficado em completa obscuridade. Ivar o Sem Ossos era demasiado sádico para que pudéssemos sentir empatia por ele; Hvitserk andou perdido num inferno de motivações contraditórias e dependências incapacitantes (pese embora a óptima interpretação de Marco Ilsø); Sigurd Snake in the Eye, coitado, desapareceu antes de aparecer. E Bjorn, filho mais velho de Ragnar e Lagertha, nunca conseguiu escapar à sombra do pai excepto no campo de batalha, tornando-o um personagem oco e fácil de esquecer.
A certa altura a série sacrificou o enredo e as personagens pela sumptuosidade dos cenários e nunca mais saiu dali. Não é difícil de entender. As reconstruções históricas são fabulosas. Eu própria já só assistia por causa delas. Nem me importo que quase nada tenha acontecido em Paris, na Rússia, até na Arábia (?) onde me parece que Bjorn foi parar durante alguns episódios. Só faltou termos visto Bizâncio. Esta é uma série que não precisa de enredo: vê-se só pelo espectáculo.
A porno-tortura continuou, ou não fosse uma série de Michael Hirst, até ao último episódio, em que ele próprio pôs o pé no travão. Talvez Michael Hirst receie não ter espectadores se não houver bastante porno-tortura. Mas agora, finalmente, após ver a sexta e última temporada, compreendi o que é que Michael Hirst deseja mesmo fazer. Michael Hirst quer criar as suas próprias cenas shakespearianas. E, devo admiti-lo, é nas cenas shakespearianas que ele brilha: nos monólogos e diálogos “to be or not to be”, nos momentos de surrealismo meditativo, no Vidente que volta do túmulo para fazer profecias, nas visões de Cristo no campo de batalha, no momento em que o drogado Hvitserk alucina uma serpente rastejante, monstruosa, e julga que é Ivar que veio para o matar. A sexta temporada foi cheia destes momentos e foi a melhor, na minha opinião, que adoro surrealismo.
A porno-tortura continuou e, como sempre, foi escusada. A incursão na Rússia, por exemplo, que tinha por objectivo humanizar Ivar. Menos porno-tortura antes e as atrocidades a que ele assistiu teriam tido verdadeiro impacto. Assim? O que é que ele viu que ele próprio não tivesse feito? Sim, compreendo, o efeito de espelho. Mas, no fim de contas, parece que Ivar não mudou assim tanto, simplesmente se tornou mais contido. Nem teve tempo de mostrar o que tinha mudado, na verdade. Então, de que valeu? A viagem à Rússia valeu pela arquitectura, pelas paisagens, pelos trajes, pelas cerimónias. Se isto é um elogio a uma série que devia ter enredo? Não é. Mas vê-se mesmo sem ele.
“Vikings” podia ter sido uma série grandiosa, mas auto-sabotou-se. Hirst esqueceu-se completamente do que dá vida a uma boa história: boas personagens, sólidas e consistentes. A partir daí foi tudo por água abaixo. Salvam-se os cenários.
Também não gostei do último confronto: deus cristão contra os deuses nórdicos. Não me parece plausível nem histórico. “Vikings” devia passar-se no século VIII mas foi sempre uma amálgama dos séculos VIII e IX. Mesmo assim, ainda não era o tempo das Cruzadas, das Jihads, das guerras religiosas. Este ainda era o tempo em que a Igreja era perseguida, não perseguidora. Era o tempo em que toda uma nação se convertia porque o monarca se decidia converter. O povo não se importava desde que a sua religiosidade se mantivesse. E foi assim que a Igreja teve de transformar as celebrações pagãs em dias santos, e é por isso que celebramos o Sol Invictus junto ao Solstício. Para as gentes do século VIII e IX o deus cristão não era o bicho papão que é agora. Isto foi anacrónico (à frente do tempo, neste caso).
Hirst conseguiu pelo menos uma coisa: Ivar, Ragnar, Bjorn, Lagertha, não serão esquecidos pela geração que assistiu a “Vikings”. Esse desejo de Ivar, no mínimo, foi atingido. Mas eu ainda queria ver esta história bem contada. Os filhos de Ragnar não se perderam assim tão facilmente na obscuridade do mito.
Gostei de Ubbe e da sua chegada à terra misteriosa a Oeste. Historicamente não foi ele, mas é sempre empolgante.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 VEZ
quarta-feira, 10 de agosto de 2022
Crítica ao livro "Vanda", de D. D. Maio - por o.chefdoslivros (Instagram)
domingo, 7 de agosto de 2022
The Meg / Meg: Tubarão Gigante (2018)
Há muito tempo que eu andava a tentar pescar este filme. Não é todos os dias que se vê um megalodonte sem ser em fóssil. “The Meg” é um Jurassic Park com um gigantesco tubarão extinto.
Começa como estas coisas começam sempre: uma expedição de biólogos marinhos na Fossa das Marianas descobre, a mais de 11 mil metros de profundidade, um novo ecossistema virgem, pré-histórico e até aqui desconhecido. É tudo muito bonito até um dos submarinos ser atacado por uma lula gigante, lula esta que foge muito depressa à aproximação de algo ainda maior… Muito mau sinal!
Eis que ele aparece, o megalodonte (o CGI é muito bom), e os submarinos têm de se pôr a milhas a toda a pressa. Mas, como sempre acontece nestas coisas, o megalodonte segue-os até à superfície onde encontra um novo território de caça sem predadores à altura. O megalodonte consegue partir uma baleia em duas!
O resto já se adivinha e não é preciso contar. Saliento apenas o momento de reflexão: “descobrimos, destruímos”. Neste caso, sem tempo para mais, não havia grande alternativa.
Há muitas caras conhecidas neste filme, das quais destaco Cliff Curtis (o Travis Manawa de “Fear the Walking Dead”). Mas o meu preferido mesmo é Rainn Wilson (o Dwight Schrute de “The Office”) e quem viu de “The Office “ sabe que vale a pena ver Rainn Wilson nem que seja a descascar batatas (ou beterrabas, neste caso).
Este é um filme excelente para se ver antes de ir à praia, ou mesmo na praia, ou mesmo numa bóia, a vogar, de pés na água. Banhos felizes!
14 em 20











