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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror V

The Horror at Martins's Beach
Se alguma vez Lovecraft pretendeu escrever sobre um horror tão terrível que ficaria para sempre na mente dos leitores, este é um dos contos em que conseguiu.
Um barco de pesca mata um monstro marítimo que se torna atracção para os turistas de Martin's Beach, uma aprazível costa de veraneio com um hotel junto ao mar.
Depois de examinarem a nova espécie, os cientistas concluem que apesar do seu tamanho gigantesco este exemplar não passa de uma cria recém-nascida, razão pela qual o seu progenitor volta para se vingar.

[História "curiosamente" semelhante à que deu origem ao telefilme "The Beast", em que o monstro é uma lula gigante, mas não convence pela inverosimilhança que uma criatura acéfala possa congeminar planos de vingança como, não vamos mais longe, as sequelas do famoso "Tubarão" ("Jaws"), escritas pelo mesmo autor: Peter Benchley... Nada disto se passa na história de Lovecraft uma vez que o monstro possui um cérebro e o resultado deixa concluir que maneja poderes sobrenaturais.]

Esta vingança é levada a cabo numa noite em que os salva-vidas da praia são atraídos ao mar pelo que pensam ser o grito de um náufrago ou de uma baleia, ao que respondem prontamente lançando uma corda e uma bóia de salvamento. Mas algo começa a puxar do outro lado, com tamanha força que muitos homens se lhes juntam e nem mesmo assim a corda parece ceder. Convencidos de que uma baleia teria engolido a bóia, os homens decidem desancorar um barco para a capturar quando percebem que estão "colados" à corda. É aqui que começa o verdadeiro horror. Ao perceber que os homens estão de alguma forma paralisados e que a maré está a subir, os turistas e outros observadores não têm coragem de se mexer e assistem, mais ou menos impávidos e incrédulos, enquanto todos aqueles seres humanos morrem afogados. Ninguém tentou ajudar. Os relatos dados posteriormente à polícia foram confusos e evasivos. Toda a agente tentou esquecer.
Então, onde estão os monstros, de facto?
Esta história foi publicada em 1923.


The Horror at Red Hook
O detective Thomas Malone [quantos polícias e detectives e agentes da lei herdaram este nome é inumerável...] começa por investigar um bairro degradado de Nova Iorque, Red Hook, devido a uma vaga de raptos de crianças que aterrorizava os seus habitantes mais honestos. Num ambiente de crime generalizado e imigrantes ilegais, acaba por descobrir uma seita satânica com origem na população curda [quão politicamente incorrecto isto nos soa agora] trazida para lá com promessas de grandes poderes sobrenaturais conferidos por um deus ou um sacerdote.
No centro desta seita está um velho eremita, aparentemente apenas um estudioso de lendas, cujo percurso lembra o antepassado de outra personagem de Lovecraft: Charles Dexter Ward. Como este, também o velho bruxo Robert Suydam pareceu rejuvenescer de um dia para o outro (as alusões do seu vampirismo amplamente demonstradas pelos raptos das crianças) e até contrair matrimónio com uma jovem noiva da alta sociedade que é brutalmente assassinada na noite de núpcias e todo o seu sangue levado como oferta a Lilith. Nesta história, o que é tão mais curioso quanto raro em Lovecraft, os demónios são do tipo tradicional: Lilith, Asmodai, Samael...
O detective Malone consegue pôr fim à terrível seita mas não sem prejuízo próprio pois acaba por ser afastado da cidade devido a um esgotamento nervoso.


The Hound
Como o título deixa sem dúvida escapar, este cão é a origem do terror que assola dois amigos, mas não dois inocentes. Tratam-se de membros da alta sociedade inglesa que, simplesmente por tédio, decidem procurar emoções violando túmulos e montando um verdadeiro museu de horrores na sua mansão isolada do mundo, onde se divertem, na maior das decadências, a recriar adorações e rituais da natureza mais mórbida rodeados dos despojos das suas explorações nos cemitérios. Um dia vão longe demais. Quando descobrem a história de um outro ladrão de túmulos, tal como eles, que teria morrido há séculos, desmembrado, vítima de um ser sobrenatural que as lendas atribuem à vingança dos mortos perturbados no seu descanso, decidem com ainda maior entusiasmo exumar o velho "colega". Ao seu pescoço encontram um medalhão onde figura um ser entre o cão e a esfinge, e os mais aterradores dizeres. A partir desse momento, parece-lhe ouvir em todo o lado o latir de um cão que os persegue e ameaça. Quem conta a história é o amigo sobrevivente, depois de encontrar o companheiro desfeito e moribundo. Ainda se tenta livrar do medalhão e devolvê-lo ao proprietário no seu caixão mas descobre que uma vez desenterrado é impossível voltar a devolvê-lo ao mundo dos mortos... com vida.
Não consigo deixar de pensar que belo argumento daria este simples enredo se posto num filme de época com dois amigos a viverem juntos no luxo e deboche de que só a alta sociedade de uma certa Inglaterra vitoriana é capaz, tresandando a ópio, violando caixões e oferecendo rituais entre copinhos de sherry, num misto entre Egdar Allan Poe e Oscar Wilde...


The Lurking Fear
Um investigador do sobrenatural, cujo nome nunca é referido [mas que à semelhança de Randolph Carter faz lembrar o moderno Fox Mulder dos Ficheiros Secretos], é atraído a Tempest Mountain depois de um massacre sangrento que vitimou muitos dos seus habitantes. O que o leva ao local não é o crime em si mas as lendas dos camponeses que dizem ter sido perpetrado pelo fantasma, ou fantasmas, da família Martensen, cuja mansão, apesar de abandonada, é absolutamente temida embora nem os próprios vizinhos se lembrem porquê. No decurso da investigação, em que são também mortos dois dos seus companheiros de longa data e um jornalista que "recrutara" já no local, o investigador é confrontado com um monstro e apercebe-se de que o horror em Tempest Mountain é algo que na sua busca pelo sobrenatural nunca tinha encontrado antes. Aterrorizado, começa a investigar a história da família Martensen, cujas lendas não tinha levado muito sério. Os registos indicavam que eram colonos holandeses, fugidos do domínio inglês, que continuaram a odiar, durante séculos e até no Novo Continente, tudo o que lhes lembrasse o inimigo da pátria, e se mantiveram, por isso, completamente afastados do resto da recém-nascida sociedade americana. Parece também que o local escolhido para se estabelecerem era, como o nome indica, muito sujeito a tempestades e trovoada, e que ao longo de gerações os relâmpagos e trovões começaram a influenciar os nervos da família. Contava-se que um certo Jan Martensen se tinha afastado do lar para se juntar ao exército e ao regressar teria sido rejeitado pela família, que o acusava de ser um "estrangeiro". Conta um amigo da época, com quem este se correspondia, que Jan Martensen teria sido por isso assassinado pela própria família, e seria o seu fantasma que os habitantes da região tanto temiam apesar de a família Martensen ter eventualmente abandonado a mansão depois de uma degradação aberrante só explicada pela consanguinidade das suas muitas gerações de isolamento. Levado pela superstição, depois de ver os seus colegas de aventura barbaramente assassinados, o nosso investigador acaba por acreditar na história e por isso decide escavar o túmulo da trágica vítima. É então que descobre que toda a montanha era minada por túneis subterrâneos. O som do trovão, ao ecoar, traz para a superfície não demónios nem fantasmas, mas todos os sobreviventes da desaparecida família Martensen: deformados, embrutecidos... e canibais!
Esta é daquelas histórias de que a América gosta particularmente.


The Outsider

Unhappy is he to whom the memories of childhood bring only fear and sadness.

Assim começa uma das histórias mais tristes de Lovecraft, em que o protagonista crê ter crescido e vivido a vida toda num castelo onde nunca entrava a luz, cheio dos restos mortais dos antepassados e rodeado de uma densa floresta onde parecia ser sempre noite. À procura da luz que nunca tinha visto, este ser decide então subir à torre mais alta do castelo para vislumbrar a paisagem por cima das copas das árvores que conhecia do seu mundo subterrâneo. Qual não é a sua surpresa quando depois da longa e perigosa escalada se encontra, não no alto de uma torre, mas ao nível do chão. Guiado por memórias inexplicáveis, consegue vaguear até uma casa que lhe parece familiar e onde decorria uma festa com muitos convidados. Era como se sentisse de novo em casa mas, assim que se lhes junta, todos gritam em horror e fogem espavoridos de um monstro que o próprio confronta olhos nos olhos. Alguns segundos depois, de novo sozinho, percebe que se está a ver ao espelho e recorda-se da sua grande tragédia: esteve morto este tempo todo e o que chamava "castelo" era nada mais nada menos do que a sua cripta. Percorrido por uma dor insuportável aceita por momentos que já não pertence àquela família, nem a nenhuma, e volta a encontrar a paz numa segunda amnésia.


The Picture in the House
Das velhas casas isoladas dos primeiros colonos que chegaram à América, puritanos e religiosos ao ponto do fanatismo, Lovecraft fala sempre com horror (como em "The Lurking Fear"). A uma destas cabanas aparentemente abandonadas chega um viajante de bicicleta perdido numa estrada de província que apenas pretendia fugir à tempestade que se avizinhava. Depois de bater à porta e ninguém responder, pensando que a casa estava desabitada e perante a fúria dos elementos, acaba mesmo por entrar. Já no interior apercebe-se de que afinal moraria lá gente. Apercebe-se de um mobiliário de estilo antiquíssimo, que se não fosse pela sua simplicidade seria a delícia de muitos coleccionadores, e surpreende-se pela quantidade de livros igualmente antigos. Em cima da mesa chama-lhe à atenção um em particular, que descrevia viagens pelo Congo no século XVIII e apresentava a ilustração fantasiosa de um talho de negros canibais. De facto, o livro parecia ter sido aberto tantas vezes nessa página que foi das primeiras que viu. À parte disso, ouve barulho nas escadas e percebe que tinha sido surpreendido pelo dono da casa, um velho grande, sujo e mal vestido que, notava-se bem, não estava habituado a ter visitas. A seguir desenrola-se uma conversa perfeitamente civilizada, em que o intruso pede desculpa pela invasão e explica a sua situação, perdido na estrada e na tempestade, e o velho anfitrião o acolhe com a maior das simpatias. Postos ambos à vontade, o tema virou-se para o livro, que estava escrito em latim, e que o velho não sabia ler pelo que pediu ao visitante que lhe traduzisse algumas passagens enquanto lhe contava que tinha adquirido o volume há muitos anos porque achava as ilustrações interessantes. Isto deixou o incauto visitante mais à vontade: afinal, o dono do livro era só um pobre iletrado com um fascínio pelas paragens distantes de África. Até aqui, nada de anormal. Anormal começa a ser quando o anfitrião aponta a figura do talho, salientando os seus pormenores mais sangrentos, e solta algo como "depois de ver isto, matar ovelhas tornou-se mais divertido". E logo depois, como se de nada se tratasse, acrescenta: "Uma pessoa põe-se a pensar como será que sabe. Se comer carne faz bem, comer mais semelhante à nossa carne deve fazer melhor..."
Não, este não é nada um sofisticado Hannibal Lecter, bem pelo contrário, mas apreciam os mesmos ingredientes.


Continua.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror III

The Case of Charles Dexter Ward
O roubo de identidades é um tema recorrente em Lovecraft. Diz-se que os escritores (até os melhores) escrevem sempre a mesma história de maneiras diferentes. "O Estranho Caso de Charles Dexter Ward" faz parte da obsessão.
A princípio, Charles Dexter Ward era apenas um vulgar estudante com um interesse particular em antiguidades e uma especial predilecção por reconstituir a árvore genealógica da família. É assim que descobre a existência de um tetravô desconhecido, cujos registos tinham sido estranhamente apagados de todos os documentos oficiais da região. Através de cartas particulares, contudo, e da memória de gente mais velha, Charles começa a aperceber-se que havia suspeitas sombrias sobre o seu antepassado falecido há 150 anos. Parece que o velho senhor viveu mais de cem anos mantendo sempre a mesma aparência. Havia no seu tempo a desconfiança generalizada de era por artes de vampirismo que o ancião de 100 anos parecia ter apenas 50. Era também conhecido por ser alquimista, e corria o boato da sua prática de bruxaria pois tinha fugido para Providence aquando dos julgamentos de Salem. O facto é que depois da sua morte, apesar de ser um homem muito rico e temido na comunidade, todo e qualquer registo do seu nome tinha sido erradicado e a própria viúva voltou a usar o nome de solteira, muito provavelmente porque o tetravô teria sido morto por um destacamento de "homens bons" depois da descoberta de horrores praticados nas catacumbas secretas debaixo da quinta onde a sinistra personagem mantinha o seu laboratório.
Entusiasmado pela descoberta, Charles embrenha-se na investigação e consegue mesmo descobrir a casa dos tetravós, onde encontra um grande painel com o retrato do proprietário e importantes papéis num esconderijo na parede. O que mais surpreendeu o jovem é que o retrato do antepassado era tão parecido com ele que parecia estar a ver-se ao espelho, razão pelo que o pai de Charles compra imediatamente o quadro e o leva para casa como presente para o filho. [Uma referência à obra de Oscar Wilde, "O Retrato de Dorian Gray"?...]
A partir daí, Charles fica obcecado com os estudos do seu antepassado, a ponto de se tornar ainda mais reservado e reclusivo do que era, sempre enfiado nos escritos e livros do tetravô, a ponto de montar no sótão um laboratório onde começou a fazer experiências que não partilhava com ninguém e que assustavam os pais e os criados da casa. Finalmente, decidiu abandonar os estudos universitários alegando "que estava prestes a atingir um conhecimento tão importante que escola nenhuma lhe poderia proporcionar". Os pais acharam que o filho enlouquecera e chamaram o médico de família, mas a este pareceu que Charles estava obcecado mas não louco. Quando atingiu a maioridade, Charles faz o mesmo que o seu tetravô teria feito no século XVII ou XVIII, uma longa viagem pela Europa que o levou de Londres à Transilvânia e onde conheceu outros alquimistas de importância.
Anos mais tarde, de regresso à América, desgastado e irreconhecível, Charles muda-se de casa dos pais para a mesma quinta onde o seu antepassado teria levado a cabo as suas experiências mais macabras, e explica ao médico de família que estaria cada vez mais próxima a "grande revelação" que iria revolucionar "todo o conhecimento do mundo, do sistema solar e do universo" (ou algo que o valha). Entretanto, o médico repara que o retrato do sinistro tetravô, devido à mudança ou à idade, tinha-se desintegrado e já não passava de um monte de pó caído no chão. Ainda assim, o clínico não acha que Charles tenha enlouquecido, embora agora este se tenha tornado um autêntico prisioneiro do seu trabalho no laboratório e chamado a si dois ajudantes: um português de quem Lovecraft diz muito mal [no mínimo chama-lhe "suspeito" só por ser "mulato", o que é habitual em Lovecraft] e uma criatura sinistra cuja cara anda sempre escondida debaixo de barba e óculos escuros que se apresenta como Dr. Allen e é notavelmente parecido com o antepassado de Charles.
O que aconteceu então? Tal como o antepassado, Charles tinha descoberto o processo químico para fazer, literalmente, os mortos renascer das cinzas, ou dos "sais" dos seus cadáveres, e a primeira coisa que fez foi levantar o corpo do seu tetravô. De facto, este já tinha feito planos para o que o seu tetra-neto descobrisse a sua campa, o seu retrato... e as suas anotações. E quando Charles acaba por ser internado, vítima de distúrbios de personalidade inexplicáveis, o médico de família tem todas as dúvidas de que o homem no hospício seja de facto o jovem estudante... ou o seu longínquo avô, levantado dos mortos e com as mais maléficas intenções de ocupar o lugar do pobre Charles Dexter Ward.
Um conto fascinante entre outros dois semelhantes: "The Thing on the Doorstep" e "Herbert West: Reanimator".


Cool Air
Um jovem escritor (diz-se apenas que escreve para uma revista) é obrigado a viver num edifício onde aluga um quarto junto com muitos outros hóspedes de fracos recursos. Neste conto, tenta explicar a sua estranha fobia a correntes de ar relatando o que se passou nesse prédio, cuja senhoria era espanhola ("quase barbuda", salienta Lovecraft) e onde vivia, no quarto andar, o excêntrico Dr. Muñoz, de quem esta dizia já ter sido "grande no seu tempo". Mas agora o médico reformado Dr. Muñoz era ele próprio afligido por uma estranha doença que o obrigava a manter o seu quarto sempre arrefecido a temperaturas próximas de zero através de uma máquina concebida para o efeito. Com o passar do tempo, repara o jovem escritor, a condição do velho médico ia-se agravando e o paciente, desesperado, tentava por tudo fazer baixar ainda mais a temperatura, ao mesmo tempo que tomava estranhos banhos gelados e fazia um uso peculiar de ervas aromáticas usadas nas múmias egípcias. Dizia o doutor que tinha declarado guerra à morte, uma afirmação bastante compreensível para um médico, mas algo no seu aspecto e no odor do quarto e na baixa temperatura repugnava ao jovem que, apesar de tudo, o tentava assistir o melhor possível.
Por exemplo, na noite em que a máquina se avariou fez todos os possíveis para encontrar mecânicos que a arranjassem e lhe substituíssem o motor enquanto mantinha o paciente abastecido em banhos de gelo, mas o dia estava quente e a reparação tardava. Quando entraram no quarto de onde o médico já não respondia, encontraram em seu lugar uma papa fétida e um manuscrito trémulo em que o Dr. Muñoz explicava a razão de todos os seus esforços. Dizia que a vontade sobrevivia ao corpo, e foi assim que se manteve vivo durante 18 anos após a morte, à custa de mumificação e baixas temperaturas, até à noite tépida de outono em que a máquina finalmente falhou...
Este é um conto que não resiste à implacável verdade da ciência pois se o Dr. Muñoz estava lúcido não podia ter havido morte cerebral, o que estraga o condimento que apimenta a história... ou será que não? Talvez no tempo de Lovecraft não se conhecessem conceitos como "morte cerebral" e se pudesse levianamente atribuir a existência à "vontade", mas nos dias de hoje contos como este colocam-nos sérias questões pois nunca foi possível viver tanto tempo em coma com ajuda artificial. Não posso deixar de querer imaginar (mas não consigo!) o que Lovecraft não escreveria sobre isso.


Dagon
Na sua nota de suicídio, em que declara estar prestes a atirar-se da janela, um ex-prisioneiro da Primeira Guerra Mundial relata como consegue evadir-se do navio alemão que o capturara num pequeno salva vidas. Perdido e à deriva algures no hemisfério sul, tinha esperança apenas de encontrar um navio que o salvasse do naufrágio quando a exaustão lhe faz perder os sentidos. Quando volta a si, apercebe-se de que o mar tinha desaparecido e tanto ele como o barco estavam agora em terra firme mas pantanosa. Só havia uma explicação: durante o desmaio, alguma erupção vulcânica teria projectado para fora este pedaço de terra arrancado ao fundo do mar, e tão grande era a sua extensão que o náufrago teve de o percorrer a pé durante vários dias em busca de encontrar de novo o mar. É nesta caminhada que descobre uma montanha, e que, atrás dela, se abria um enorme abismo cheio de água. À luz da lua cheia, o que o mais o surpreendeu foram as esculturas na rocha, que pareciam ser provas de um culto pré-histórico e desconhecido a gigantescos deuses do mar, ou assim pensava o perplexo observador. Pensava, porque quando viu uma dessas enormes criaturas, toda ela barbatanas e escamas, sair do abismo e adorar o obelisco erguido em honra dos deuses do mar, não teve mais dúvidas e refugiou-se para sempre no vício da morfina para não se recordar do que tinha visto com os próprios olhos, até ao momento em que decide pôr termo à vida.
Lovecraft chama "Dagon" ao deus-peixe das profundezas adorado pelos homens-peixe em "The Shadow Over Innsmouth".



Ex Oblivione
Uma página de prosa poética da melancolia mais profunda raramente expressa em Lovecraft, este é um meio conto, meio poema, em que um sonhador se aventura por um maravilhoso vale encantado onde encontra uma porta que decide atravessar para fugir à realidade. Como toda a poesia, esta pode ser interpretada de muitas formas mas na minha modesta opinião do que aqui se fala é da própria morte:

Some of the dream-sages wrote gorgeously of the wonders beyond the irrepassable gate, but others told of horror and disappointment. I knew not which to believe, yet longed more and more to cross forever into the unknown land; for doubt and secrecy are the lure of lures, and no new horror can be more terrible than the daily torture of the commonplace.


Facts Concerning the Late Arthur Jermyn and his Family
Não sei se todos os leitores de Lovecraft concordam comigo mas esta história parece-me mais cómica do que trágica, se calhar por causa de uma protagonista "portuguesa" que me provocou algumas gargalhadas tão silenciosas quanto permite a minha falsa indignação. Preparem-se, pois, lusitanos, porque de todas as alusões ao povo português na obra de Lovecraft esta é de facto a mais mázinha.
Começa-se por dizer que Arthur Jermyn se auto imolou pelo fogo quando descobriu a verdade sobre a sua família. O que poderia ser tão grave? Pelos vistos, uma ascendente portuguesa, que o seu antepassado, Sir Wade, grande explorador de outros séculos, teria conhecido em África. Diz-se que esta filha de pai português, comerciante, casara com o americano, mas desgostada dos hábitos anglo-saxónicos teria permanecido reclusivamente fechada em casa e nunca teria sido vista por ninguém, até à viagem que fez com o marido de volta a África onde viria a falecer.

[Até aqui nada de muito grave ou insultuoso, mas desta "portuguesa" fala-se mais tarde.]

Diz-se que a loucura sempre existiu na casa dos Jermyn desde o grande explorador Sir Wade, que com um copo a mais não se cansava de repetir que tinha vivido numa cidade perdida no coração de África: as ruínas de civilização magnífica e avançada agora ocupadas por uma sociedade de grandes símios. Acabou por morrer num manicómio sem mostrar grande desgosto por ser separado do filho. O filho, nascido da união com a misteriosa esposa, ainda veio mais afectado. Philip Jermyn era uma criatura corpulenta mas ágil, de feições algo estranhas apesar da parecença com o pai, e uma predilecção por subir às árvores. Casou com uma mulher de ascendência cigana mas depressa a abandonou para se tornar marinheiro. Certa noite, ao largo do Congo, desapareceu na selva e nunca mais voltou.
Deixou um filho que, certamente saído ao avô, se distanciou intelectualmente do pai. Apesar de algumas desproporções fisionómicas, Sir Robert era um homem elegante e inteligente e tornou-se um grande estudioso. Foi o primeiro a debruçar-se sobre o grande manancial de objectos preciosos que o avô trouxera de África e a conquistar um nome na comunidade científica da etnologia da altura. Casou e teve três filhos, sendo que o mais velho e o mais novo eram tão desmesuradamente feios que eram guardados da vista do público, o que causava grande desgosto ao casal. O filho do meio, Nevil, que parecia tão desmiolado como o avô Philip, e de aparência igualmente desagradável (mas não tanto como os irmãos), acabou por fugir com uma bailarina de má vida e só voltar a casa depois de enviuvar, trazendo com ele um único filho, Alfred. Devido a estas contrariedades que afectavam a estatuto social da família, Sir Robert embrenhou-se ainda mais nos seus estudos africanos e chegou mesmo a visitar o continente em duas expedições. Os mitos que ouviu por lá e os desgostos pessoais, diz-se, foi o que o levou a perder a cabeça, pois depois de tomar conhecimento de uma cidade magnífica dominada por macacos que adoravam um "deus branco", assassinou, nesse mesmo dia, o amigo que o informara do facto, e os seus três filhos, tentando matar-se de seguida. Não o conseguiu, nem conseguiu matar o neto, como pretendia, acabando por morrer num hospício. O que teria levado a tamanha loucura um homem até então perfeitamente lúcido e equilibrado?
Ninguém o poderia saber, muito menos o seu neto Alfred que acabou por sair ao pai. Casou e constituí família, deixando um único filho, Arthur, mas também enveredou por abandonar a esposa para ir viver com um circo. Tinha uma especial afinidade com os animais, e uma predilecção por um gorila com quem se "entendia" muito bem e o qual treinou para um espantoso número que maravilhava as multidões... mas um dia houve uma "briga", homem e animal envolveram-se numa luta, e quase nada restou do corpo de Alfred Jermyn.
Arthur Jermyn, o único filho e último da linhagem, saiu a Sir Wade e Sir Robert. Apesar de ser muito feio e ter os membros invulgarmente longos, Arthur era intelectualmente superior e aproveitou a boa educação que ainda lhe proporcionou a fortuna restante da família. Tornou-se um poeta e um académico e decidiu dedicar-se também aos estudos etnológicos em África que tinham distinguido os membros da família. Tal como Sir Robert, visitou o Congo e procurou sem preconceito vestígios da cidade de falava o seu antepassado, atribuindo-lhe um carácter mitológico e nada mais. Era um homem de letras mas também de ciência, um verdadeiro humanista. Na sua busca, entrevistou alguns chefes de tribos locais mas apenas um lhe falou da misteriosa cidade perdida dos macacos brancos. Segundo a lenda, esta tinha mesmo existido, e os símios que a habitavam adoravam a múmia de uma macaca branca de espécie mais semelhante ao homo sapiens. Há muito que as tribos locais tinham dizimado os macacos, mas o ídolo, símbolo de poder, ainda existia, algures numa tribo africana, e podia ser comprado. O velho chefe africano contou ainda mais. Rezava a lenda que na cidade dos macacos tinha reinado um "deus branco" casado com a princesa macaca, e que ambos tinham tido um filho e abandonado África, mas regressaram e a princesa tinha sido preservada para adoração. Havia rumores de que, mais tarde, este "deus branco", ou o filho de ambos, teria voltado também, se para a mulher ou para a mãe não se sabia a certeza. Arthur conhecia as histórias da família. Talvez não quisesse ver como tudo batia certo com a história do antepassado, o famoso explorador Sir Wade?...
Até que um dia a esperada encomenda chegou a sua casa e Arthur se regou com gasolina e pegou fogo a si próprio perante os criados estupefactos. Os colegas etnólogos conseguiram reconstruir a história: dentro da caixa estava a múmia de uma macaca branca, totalmente símia mas mais semelhante ao ser humano do que os primatas conhecidos. E ao pescoço tinha um medalhão que provava, sem sombra de dúvida, que tinha sido esta a misteriosa esposa "portuguesa" do famoso Sir Wade... que constituíra família com uma macaca.



Continua.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

"O Retrato de Dorian Gray" (The Picture of Dorian Gray), de Oscar Wilde

A história é sobejamente conhecida. Dorian Gray foi até incluído como personagem do filme "Liga de Cavalheiros Extraordinários", interpretado por não outro que que Stuart Towsend, o Lestat de "A Rainha dos Vampiros" (e não lhe correu nada mal). A história de Dorian Gray é tão interessante pela acérrima crítica social às elites da burguesia e nobreza inglesas do século XIX (com uma ironia, direi mesmo sarcasmo, e sentido de humor que me faz lembrar o muito nosso Eça de Queirós, e cujas citações mais assombrosas publiquei aqui no último mês), como pelo elemento sobrenatural que rege toda a história (e por elementos sobrenaturais os nossos escritores nunca se interessaram, o que é uma pena).
Dorian Gray é um rapaz oco, fútil e vazio. Acima de tudo, influenciável pelo intelecto superior e hedonista de Lord Henry, seu amigo, que o convence da sua beleza e da sua importância e o torna não apenas vaidoso como, ao longo da sua vida, cada vez mais perverso e insensível ao sofrimento dos outros. Lord Henry, neste livro, funciona como o Diabo, o tentador, que incute no jovem o valor verdadeiramente satânico do culto da invidualidade e do prazer, mas sempre através de subtis sugestões e filosofias, sem nunca poder ser acusado pelos crimes que, debaixo da sua influência, Gray acaba por cometer sem um pingo de remorso, incluindo o assassínio a sangue frio de um dos seus melhores amigos. Poder-se-à perguntar se o jovem Dorian Gray, antes de cair nas "garras" do seu luciferino mentor, era efectivamente tão oco e fútil como fazia crer, ou se havia já nele a semente ruim da maldade só à espera de um jardineiro que a fizesse florescer em frutos do Mal. Esta é uma das muitas interrogações morais que Oscar Wilde vai colocando ao longo da obra, cuja grande metáfora é o retrato, um retrato verdadeiro, não simbólico, do jovem Dorian Gray, onde por magia se projecta toda a maldade de Dorian enquanto este permanece belo e jovem para sempre. Uma espécie de pacto com o diabo sem que o diabo seja necessário.
Na sua grande inteligência, o que Oscar Wilde faz é desmascarar todos os outros "retratos escondidos" atrás da hipocrisia de uma sociedade em que a imagem vale mais do que o Ser.
Nunca uma obra foi tão actual.

sábado, 27 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

"The tragedy of old age is not that one is old, but that one is young."

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

"To get back my youth I would do anything in the world, except take exercise, get up early, or be respectable."

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

Had it been merely vanity that had made him do his one good deed? Or the desire for a new sensation, as Lord Henry had hinted, with his mocking laugh? Or that passion to act a part that sometimes makes us do things finer than we are ourselves? Or, perhaps, all these?

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

"As for being poisoned by a book, there is no such thing as that. Art has no influence upon action. It annihilates the desire to act. It is superbly sterile. The books that the world calls immoral are books that show the world its own shame. That is all."

terça-feira, 23 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

“All crime is vulgar, just as all vulgarity is crime. It is not in you, Dorian, to commit a murder. I am sorry if I hurt your vanity by saying so, but I assure you it is true. Crime belongs exclusively to the lower orders. I don’t blame them in the smallest degree. I should fancy that crime was to them what art is to us, simply a method of procuring extraordinary sensations.”
“A method of procuring sensations? Do you think, then, that a man who has once committed a murder could possibly do the same crime again? Don’t tell me that.”
“Oh! anything becomes a pleasure if one does it too often,” cried Lord Henry, laughing. “That is one of the most important secrets of life. I should fancy, however, that murder is always a mistake. One should never do anything that one cannot talk about after dinner.”

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

“Death is the only thing that ever terrifies me. I hate it.”
“Why?” said the younger man wearily.
“Because,” said Lord Henry, passing beneath his nostrils the gilt trellis of an open vinaigrette box, “one can survive everything nowadays except that. Death and vulgarity are the only two facts in the nineteenth century that one cannot explain away.

domingo, 21 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

“My dear boy,” said Lord Henry, smiling, “anybody can be good in the country. There are no temptations there. That is the reason why people who live out of town are so absolutely uncivilised. Civilisation is not by any means an easy thing to attain to. There are only two ways by which man can reach it. One is by being cultured, the other by being corrupt. Country people have no opportunity of being either, so they stagnate.”

sábado, 20 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

"Romance lives by repetition, and repetition converts an appetite into an art. Besides, each time that one loves is the only time one has ever loved. Difference of object does not alter singleness of passion. It merely intensifies it. We can have in life but one great experience at best, and the secret of life is to reproduce that experience as often as possible."

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

“All good hats are made out of nothing.”
“Like all good reputations, Gladys,” interrupted Lord Henry. “Every effect that one produces gives one an enemy. To be popular one must be a mediocrity.”

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

There are moments, psychologists tell us, when the passion for sin, or for what the world calls sin, so dominates a nature that every fibre of the body, as every cell of the brain, seems to be instinct with fearful impulses. Men and women at such moments lose the freedom of their will. They move to their terrible end as automatons move. Choice is taken from them, and conscience is either killed, or, if it lives at all, lives but to give rebellion its fascination and disobedience its charm. For all sins, as theologians weary not of reminding us, are sins of disobedience. When that high spirit, that morning star of evil, fell from heaven, it was as a rebel that he fell.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

One’s days were too brief to take the burden of another’s errors on one’s shoulders. Each man lived his own life and paid his own price for living it. The only pity was one had to pay so often for a single fault. One had to pay over and over again, indeed. In her dealings with man, destiny never closed her accounts.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

Ugliness that had once been hateful to him because it made things real, became dear to him now for that very reason. Ugliness was the one reality. The coarse brawl, the loathsome den, the crude violence of disordered life, the very vileness of thief and outcast, were more vivid, in their intense actuality of impression, than all the gracious shapes of Art, the dreamy shadows of Song. They were what he needed for forgetfulness.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

“Moderation is a fatal thing. Enough is as bad as a meal. More than enough is as good as a feast.”

domingo, 14 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

“What nonsense people talk about happy marriages!” exclaimed Lord Henry. “A man can be happy with any woman, as long as he does not love her.”

sábado, 13 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

“You will never marry again, Lady Narborough,” broke in Lord Henry. “You were far too happy. When a woman marries again, it is because she detested her first husband. When a man marries again, it is because he adored his first wife. Women try their luck; men risk theirs.”

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

“Everybody I know says you are very wicked,” cried the old lady, shaking her head.
Lord Henry looked serious for some moments. “It is perfectly monstrous,” he said, at last, “the way people go about nowadays saying things against one behind one’s back that are absolutely and entirely true.”

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

As frases mais fabulosas de "The Picture of Dorian Gray", por Oscar Wilde

He felt that if he brooded on what he had gone through he would sicken or grow mad. There were sins whose fascination was more in the memory than in the doing of them, strange triumphs that gratified the pride more than the passions, and gave to the intellect a quickened sense of joy, greater than any joy they brought, or could ever bring, to the senses. But this was not one of them. It was a thing to be driven out of the mind, to be drugged with poppies, to be strangled lest it might strangle one itself.