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domingo, 30 de novembro de 2025

Arcadia (2023 - ?) [segunda temporada]

Numa sociedade distópica cujo lema é "temos o que merecemos" e em que o valor da pessoa é medido por pontuação, a família Hendriks está cada vez mais ameaçada. Hannah é exilada como o pai, Alex fica em maus lençóis, e Milly também se encontra sob suspeita. Entretanto, na floresta do Exterior, o patriarca Pieter Hendriks começa a congeminar um plano para derrubar o regime.
Confesso que não esperava uma segunda temporada desta série holandesa, e muito menos que a qualidade da estreia conseguisse ser mantida. "Arcadia" não é um produto de Hollywood em termos de produção e orçamento, e às vezes nota-se no mau sentido, mas, no que é verdadeiramente relevante, a série aguenta-se bastante bem.
Fiquei muito impressionada pela maneira como nos fazem compreender os personagens, até os vilões. Podemos não concordar com eles nem gostar deles, mas percebemos porque é que a Guardiã está realmente convencida de que a repressão securitária em Arcadia é a melhor solução para a sociedade. Ver as coisas pela perspectiva do contrário ao que acreditamos faz-nos ponderar os nossos princípios mais a fundo. Ultimamente, ela diz que "já não há crime nem medo", mas alguém a recorda de que agora há outro tipo de medo. Tentar viver numa utopia/distopia em que as pessoas só são valorizadas por aquilo com que podem contribuir vai forçosamente fazer com que os mais frágeis (ou doentes, ou inadaptados) sejam excluídos e, em caso extremo, como em Arcadia, considerados inúteis e não merecedores do custo que a sociedade tem de despender com eles. É a sobrevivência do mais apto, a lei da selva, aplicada com a intenção e a racionalidade fria de que o ser humano é capaz quando põe de lado a empatia. Nestes casos, regra geral, aqueles que estão em posição dominante nunca pensam que poderão ser eles, um dia, os mais frágeis, ou tentam viciar o sistema (mesmo que inconscientemente) em que aparentemente acreditam para que as regras cruéis que aplicam aos outros nunca se apliquem a eles nem aos que lhes são próximos. Esta série despretensiosa mostra-nos a humanidade falível dos que defendem sistemas baseados em ideias erróneas de mérito social, e por isso já vale muito a pena.
No entanto, acho que a série não explicou bem o golpe de Estado que deu origem ao regime. Daquilo que percebi, estão a culpar um só homem como cabecilha do atentado e isso simplesmente não seria possível. Mesmo que houvesse uma predisposição social para aproveitar o ataque terrorista para implementar o autoritarismo, uma acção deste tipo teria de ser sempre concertada entre vários conspiradores, aliás, como até está documentado na História recente. Caso contrário, líderes autoritários fariam questão de perseguir o responsável e exibir-lhe a cabeça na praça pública como exemplo. Não cheguei a perceber se "Arcadia" falhou neste ponto ou se não conseguiu mostrar o que queria (ou se não tinha orçamento para filmar uma conspiração a larga escala), mas foi a ideia com que fiquei.
Esta série surpreendeu-me. Com poucos meios fazem-nos pensar em tanta coisa.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Distopia, 1984, ficção científica, sociedades pós-apocalípticas

 

domingo, 28 de julho de 2024

Arcadia (2023)

Num futuro pós-apocalíptico, depois de sofrer com as alterações climáticas e com um golpe de Estado que alterou o regime, a sociedade de Arcadia é uma comunidade distópica e fechada, fortemente vigiada no estilo “Big Brother”, onde o lema é “cada um tem o que merece”. Todas as pessoas têm implantado um chip obrigatório e são avaliadas a partir dos 18 anos por uma pontuação baseada na utilidade social, emprego, educação… e saúde.
O casal Hendriks e as suas quatro filhas (algumas deles, outras adoptadas) faz parte da classe mais privilegiada e próxima do governo, usufruindo de todas as regalias disponíveis em Arcadia. No entanto, os Hendriks têm um problema: a filha Luz é uma adulta autista, embora funcional, que mal distingue a bondade da maldade, o que é muito perigoso numa sociedade do tipo “1984”. Oficialmente, Arcadia não pratica a eugenia, mas na prática todos os deficientes são ostracizados através das suas pontuações e a dos seus pais. Ser ostracizado em Arcadia significa, em último caso, ser expulso da sociedade para sobreviver Lá Fora dos muros, na floresta selvagem. É o que acontece ao pai Hendriks quando se descobre que este manipulou as pontuações das suas filhas Hannah e Luz de modo a conseguir-lhes uma posição melhor. Num julgamento sumário, Hendriks é posto no exterior com uma mochila e a roupa do corpo, onde não tem qualquer hipótese de subsistir. Toda a família é igualmente castigada, quer soubessem da fraude ou não, perdendo 2 pontos cada um.
As classes menos privilegiadas têm ainda pior sorte. Sem a pontuação necessária não têm direito a uma boa alimentação (por exemplo, leite verdadeiro) nem aos cuidados médicos ou remédios de que precisam (onde é que eu já vi isto?). Quem fica doente perde o emprego, e quem perde o emprego perde pontuação porque não se considera que a pessoa valha o custo-benefício de a manter. Com a pontuação cada vez mais baixa, a pessoa acaba por ser expulsa para Lá Fora, ao que Arcadia chama o eufemismo “exilar”.
Uma das filhas dos Hendriks, Millie, militar despromovida devido ao processo que atingiu a família, pede transferência para o Serviço de Patrulha Exterior na esperança de encontrar e ajudar o pai. Graças à ajuda do seu parceiro, Millie descobre que existe uma colónia de sobreviventes na floresta, que subsistem da terra e de tudo o que lhes chega dos exilados de Arcadia, mas subsistem. No entanto, Millie não encontra lá o pai e continua a procurar, arriscando cada vez mais ser descoberta e punida pelos superiores.
Por seu lado, outra das filhas, Alex, polícia igualmente despromovida, é aliciada pelos detractores do pai a envolver-se numa intriga governamental entre facções inimigas na tentativa de ajudar a família que já perdeu a casa e cuja pontuação continua a descer sem explicação (porque o regime também a manipula).
Entretanto, começa a surgir uma Resistência em Arcadia, que desenvolveu uma tecnologia que consegue neutralizar o chip de vigilância. Graças a esta Resistência, por exemplo, pessoas que não teriam direito a um transplante recebem tratamentos clandestinamente. Como enfermeira, Hanna, outra das filhas dos Hendriks, vê-se directamente envolvida nesta tentativa de ajudar as pessoas em necessidade. O lema de Arcadia é “todos têm o que merecem” mas só os ricos e poderosos é que merecem tudo (onde é que eu já vi isto?).
Embora as séries europeias tenham a reputação que têm (muitas vezes injustamente), e ainda pior no canal SyFy, “Arcadia” é uma produção belga/holandesa que vale mesmo a pena ver, embora a língua, a princípio, nos soe bastante estranha (pelo menos a mim pareceu, mas habituei-me rapidamente). O ritmo é rápido, o enredo é tenso, o perigo é real. O final da primeira temporada é um cliffhanger e eu queria muito saber o que vai acontecer a seguir, mas, infelizmente, não me parece que esteja na calha uma segunda temporada. Por outro lado, talvez não seja precisa nenhuma continuação. Neste género de distopias o final acaba por ser um dos dois: a vitória da Resistência, como parece estar a acontecer na versão televisiva de “The Handmaid’s Tale”, ou o assassinato literal ou psicológico de todos os personagens, levados à completa submissão como em “1984”. Mesmo assim, recomendo vivamente.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Distopia, 1984, ficção científica, sociedades pós-apocalípticas