domingo, 30 de agosto de 2026

Bardot (2023)

Biografia dramatizada incompleta que retrata a vida de Brigitte Bardot como estrela do cinema francês, desde adolescente até 1960.
Nunca fui de me interessar pela intimidade e romances dos famosos do meu tempo, muito menos de estrelas passadas. Só prestei atenção a Brigitte Bardot quando ela se dedicou à causa animal. Sim, as focas. Eu não sabia sobre as focas. Brigitte Bardot expôs a crueldade e comoveu o mundo. Não sei se ainda matam assim as focas, mas duvido que o façam tão impunemente. Com esta campanha, Bardot foi também uma das celebridades que impulsionaram o movimento anti-peles que teria uma expressão muito visível na esfera da moda e das passerelles. Muita gente gozou e resistiu, mas hoje já não é cool aparecer com um casaco de peles (verdadeiras). Brigitte esteve na linha da frente desta luta quando ainda era considerado mais uma excentricidade de uma mulher excêntrica. Só por isso, independentemente de tudo o resto, tem o meu respeito. Na minha sensibilidade, isto foi a coisa mais importante que Brigitte Bardot fez na vida.
Mas esta mini-série não chega a esse período. Pergunto-me se terá sido porque Brigitte Bardot ainda era viva e porque a biografia completa teria de incluir o seu apoio de décadas à extrema-direita de Le Pen. Que desilusão deve ter sido para os fãs desta sex symbol que desafiou a moralidade rígida dos anos 50, sendo precursora da revolução sexual e do feminismo, talvez até um pouco hippie antes dos hippies, vê-la na idade madura a votar em fascistas. 
Este exemplo novamente me recorda do que foi um dos maiores choques da minha vida. Até certa altura, acreditei intuitivamente que sensibilidade e inteligência eram indissociáveis. Que uma pessoa sensível tinha forçosamente de ser inteligente, porque a sensibilidade e a empatia até lhe permitiriam compreender melhor os factos e as pessoas. E que uma pessoa inteligente, que compreendia os factos e as pessoas, tinha por isso, forçosamente, de ser sensível. Qual não foi o meu espanto quando percebi que algumas pessoas muito sensíveis, empáticas ao outro e ao seu sofrimento, só têm coração e não usam os neurónios, e que algumas pessoas inteligentes são tão frias como a Inteligência Artificial. Comecei a observar isto com atenção e actualmente até estou convencida de que o fenómeno é o contrário do que eu acreditava: a inteligência e a sensibilidade tendem a ser inversamente proporcionais. Se conhecem alguém que seja inteligente e sensível, dêem-lhe valor porque é uma raridade.
Isto dito, a contradição de Brigitte Bardot não me surpreendeu. Ainda por mais porque a extrema-direita populista do século XXI é um bicho. Entra, infecta, e traz ao de cima o pior das pessoas. Todos conhecemos casos, figuras públicas e não só.
Tive de mencionar o activismo animal e o apoio à extrema-direita porque falar de Brigitte Bardot sem estas duas facetas não é completo. Compreendo que a série se tenha querido cingir aos anos de estrelato, mas por outro lado não deixou de incluir cenas em que os animais se vão tornando cada vez mais importantes na vida de Brigitte. Gostei muito disto, mas também queria ter visto pistas que ajudassem a perceber como é que a rapariga rebelde acaba a apoiar fascistas, e isso não vi.
Na verdade, a série não trata Brigitte muito bem. A acreditar no que nos é mostrado, Brigitte é egoísta, infiel, uma drama queen que não se importa de destruir a vida dos homens que a amam, exigindo-lhes dedicação absoluta e fingindo amá-los para sempre... até o próximo aparecer. Julia de Nunez tem um papelão em "Bardot", a ponto de me fazer esquecer que estava a ver outra pessoa. Para além das parecenças, a actriz consegue capturar a sensualidade vulcânica da estrela francesa.
Mas Brigitte Bardot não era feliz. Segundo a série, tinha pavor de ficar sozinha. Dá mesmo a entender, digo eu, que trocava de homem antes que fosse trocada, mas isto pode ser a minha interpretação pessoal. O que se torna muito óbvio é que Brigitte vai percebendo que não está sozinha, e que a companhia não está na cama. A cena do suicídio, seguida e acompanhada pelos seus cães, trouxe-me lágrimas aos olhos. Pode não ter sido aqui nem ter sido isto, mas há um momento na vida dos amantes de animais em que o animal de estimação se torna um companheiro e um amigo, um membro da família. Para muitas pessoas, uma companhia melhor do que qualquer humano.
Lembro-me de a minha mãe comentar, algo trocista, "agora a Brigitte Bardot diz que gosta mais de animais do que de homens". Nessa altura eu não sabia que tinha havido assim tantos homens na vida de Brigitte Bardot, nem me interessava, mas quanto ao resto só tenho a perguntar "e qual é o espanto?". Basta substituir "homens" por "pessoas", e já naquela altura, ainda inconscientemente, sem sequer pensar no assunto, eu já sabia que gostava mais de animais do que de pessoas.
Alguém disse a Brigitte Bardot, como insulto, "vais acabar sozinha com os teus cães". Ainda há gente a dizer isto, tentando insultar. Vais acabar sozinho/a com os cães, com os gatos, com os periquitos. Mas muita coisa mudou desde o tempo de Brigitte Bardot, e, também graças a ela e à sua influência na causa animal, são cada vez mais os que respondem: Isso era um insulto? Acabar sozinho/a com os gatos é o sonho, é mesmo o SONHO!
Não sei até que ponto é que "Bardot" é realista e espelha a pessoa verdadeira, mas, apesar de todos os defeitos da senhora, espero que Brigitte tenha, pelo menos, acabado a viver o sonho. 

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: séries de época, biografia, cinema, animais

 

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