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sexta-feira, 25 de julho de 2008

Memórias

Os últimos três posts são a conclusão da perspectiva que tinha iniciado no ano passado e que, durante muito tempo, não tive capacidade de terminar.
Espero que gostem.
Para ler do princípio, clicar na tag "memórias".

Movimento gótico: Uma Perspectiva V

Quando comecei a escrever estas memórias, há uns seis meses atrás, em forma de perspectiva sobre a evolução do movimento gótico, primeiro em Portugal (no seu começozinho tímido nos anos 80 em que não se sabia ainda bem o que era) depois apenas em Lisboa (a partir do momento em que o Porto começou a ter a sua própria história para contar e esta não me compete a mim porque não estive lá), tinha por objectivo parar no ano 2000 e não escrever mais nada até 2010. Acontece que muita coisa aconteceu nestes seis meses de interregno, o suficiente para mais um capítulo. O último capítulo. Cada um dos capítulos é forçosamente menos distanciado e nostálgico do que o anterior, o que é perfeitamente normal. Os últimos anos têm sempre uma cor e um cheiro mais real do que as memórias de infância da qual só lembramos fantasmas, sonhos, ideais. Pergunto-me qual dos tipos é mais verídico: o distante, de quando não temos a certeza se aconteceu ou apenas lembramos que foi assim, ou o presente, que ainda nos queima emocionalmente e nos censura os pormenores suculentos que apenas o tempo permite contar?

Estamos em 2008. Por email, falo com uma rapariga que conheço da internet. "Não sei se sou gótica", diz ela. Pergunto-lhe que música ouve. Ela faz uma lista. E tal como o meu mentor, em 1988, me respondeu a mim, eu respondo-lhe também: "És gótica".
Actualmente, a mamã internet (como alguém lhe chamou, e muito bem) é o espaço virtual onde se conhece tudo e todos que se queiram dar a conhecer. Impensável, nos anos 80, em que tínhamos de depender dos classificados do Blitz para nos publicar um interesse particular nesta ou naquela banda, ou uma poesia, ou a troca de K7s. A troca de K7s! Hoje sorrio ao escrever isto como aquelas pessoas que toda a vida viveram à luz da vela sorriem quando se lembram de que entretanto alguém inventou a electricidade. Ser gótico tem destas felizes gratificações.
Mas voltemos à internet mais tarde. Onde íamos mesmo? Ah, sim, naquela passagem de ano de 1999 para 2000 em que a comunidade gótica, apesar de já bastante amadurecida e segura de si, se viu de repente sem casa onde celebrar.
Parecia um aviso, e a partir do que vou relatar tiram-se muitas lições de moral. Não vou entrar nos pormenores, que ainda estão demasiado frescos e, ao contrário da maioria das memórias até agora publicadas, estas não são só minhas mas da vasta maioria das pessoas que continuam na cena até ao dia de hoje e por isso mesmo para bom entendedor meia palavra basta.

Bars come and go. That's it, bars come and go.

Não ficámos sem casa por muito tempo. Depressa a mesma gerência da Juke Box abriu no Bairro Alto um bar chamado Limbo. Foi uma festa. E durante um par de anos a comunidade gótica floresceu como eu, habituada nos anos 80 a bares com meia dúzia de gatos, jamais tinha imaginado.
Nunca fui daquelas pessoas que desdenham os mais novos. Sim, é possível que nunca tenham vibrado com "Damage Done" dos Sisters of Mercy. É possível que tenham conhecido a cena através de Marilyn Manson (que ele próprio já não é recente) ou dos emos My Chemical Romance. Como diz o ditado sábio "não me interessa de onde vens, interessa-me para onde vais". Para mim, não deixa de ser uma surpresa agradável que depois de todos estes anos a cena gótica ainda exista, cada vez mais definida, cada vez menos complexada. Certo que não é o que existia no princípio, quando éramos aventureiros num terreno desconhecido e selvagem e não havia rótulos. É um facto que agora basta fazer uma pesquisa na internet e dá notavelmente menos trabalho ser gótico. Ou assim parece. O que dá trabalho em ser gótico, como os mais velhos sabem, é continuar a sê-lo dez anos depois.
Da passagem da Rua da Fé para o Limbo, notaram-se logo as baixas. Muita gente, e todos muito góticos do cabelo pintado às botas bicudas, desapareceram sem deixar rasto e mudaram-se para outros ambientes. Isto acontece e é mesmo assim. Ao frequentar um bar gótico podemos até divertir-nos e fazer apostas: "este fica, aquela é capaz de ficar, aquele nem pensar". É mesmo assim e é o que é. Um gótico faz-se de um dia para o outro mas é o tempo que o faz permanecer gótico.
Estávamos muito bem no Limbo, fomos novamente desalojados. Na Rua da Fé, os vizinhos queixaram-se do barulho (mas à data actual ainda sobrevivem as maravilhosas matinées de sábado à tarde na Juke Box). No caso do Limbo, um senhorio não quis prolongar o contrato. Mais uns tempos sem casa. Até que abriu o Disorder, ao Cais do Sodré. Ainda me lembro que na festa da inauguração vi pela primeira vez na minha vida os góticos a sorrirem de contentes, o que é um feito e tanto! [*Se alguém se lembra do ano de inauguração é favor deixar nos comentários porque não consigo precisar. Nessa altura ainda não achava importante anotar datas.]
Sim, as pessoas ficaram apreensivas. Ao contrário da passagem dos anos 80 para os anos 90, havia uma comunidade formada que não estava nada disposta a deixar de ter um espaço próprio.
Pouco depois, o impensável aconteceria. O Disorder foi tomado de assalto, mas um assalto lento e gradual, por nacionalistas skinheads, desde uma altura em que fixei como ponto chave o ano de 2005, e o ambiente sofreu as consequências. A comunidade gótica é pacífica e não racista. Nestes 20 anos devo ter visto duas ou três brigas nos vários espaços góticos (e não estou a exagerar, foram mesmo duas ou três) e apenas devido a disputas pessoais (geralmente casos do coração). De repente ver um fulano pegar num banco e desatar a partir as mesas é coisa de outro filme qualquer, talvez do Tarantino, mas que não tem nada a ver com a cultura gótica onde as únicas veias que se cortam são as próprias.
Muita gente desapareceu, mas desta vez não deixaram o movimento. Uma mão cheia de indefectíveis decidiu mudar de ares e organizar as Graveyard Parties, uma vez por mês, na Caixa Económica Operária. Devemos-lhes muito, muito mais do que pagamos pelas cervejas. Durante dois anos, as Graveyard Parties foram as únicas festas verdadeiramente góticas da cidade de Lisboa. Não deixam de me recordar os tempos do KGB, no Estoril, onde as pessoas iam de propósito pela música e mais nada. Se não fossem as Graveyard Sessions, teríamos tido um verdadeiro vazio (mais um) sem alternativa.
Entretanto, o Disorder mudou de nome em 2007 e agora chama-se Transmission. Só o tempo dirá se apenas mudou o nome. As Graveyards continuam. Em Junho, abriu um novo bar, o Metropolis, nas Picoas, dedicado inteiramente à música alternativa actual e suas variadas vertentes. Tudo isto é muito recente para fazer parte de umas "memórias" mas não deixo de registar que o momento é positivo e auspicioso.
Afinal, apesar dos momentos negros que nestes 20 anos pareciam ter tirado o movimento gótico do mapa, este não desapareceu, apenas se transformou. Desde que a internet se tornou acessível, deixou de ser preciso depender de alguns senhores que tinham o "alternativo" no bolso e só publicavam o que queriam, sejam eles jornais, editoras ou lojas. A internet veio abolir os intermediários. São as próprias bandas que divulgam o seu material no Myspace ou nos seus sites e assim se tornam conhecidas. Adeus negócio das K7s! É verdade que a indústria se queixa mas é verdade que a indústria comercial ignorou as pessoas enquanto pôde. Depois de 20 anos a sofrer os efeitos, não tenho pena nenhuma. Quando penso na quantidade de bandas que nunca tiveram o destaque que mereciam, como uns Red Lorry Yellow Lorry, porque estes não tinham editora e o que importava era agradar às editoras... Mais uma lição de moral.
Direi mesmo mais. Actualmente a única desculpa para não conhecer mais música é exactamente a quantidade abismal que está disponível, pelo que (de novo) não é de desprezar a importância do rótulo. O rótulo é feio no meio artístico? Até pode ser, mas o tempo é escasso e a triagem impõe-se. Se uma banda faz música electrónica ou industrial e não o admite só está a levar as pessoas que a ouvem a perder o seu tempo, e não é por ouvir que vão gostar.
A internet foi uma revolução também para o movimento gótico. Ajuda a conhecer música, arte, eventos, concertos, e até outras pessoas em sítios recônditos a que de outra forma jamais teríamos acesso. Não é de estranhar, pois, que nos últimos anos o movimento gótico tenha também fervilhado na internet e estimulado o seu desenvolvimento e transformação, e a transformação é que o mantém e manterá vivo. Abracemos, pois, os novos, e guardemos a nostalgia onde ela merece estar: na gaveta.

Continua daqui por vinte anos.

We had the power
We had the space
We had a sense of time and place
We knew the words
We knew the score
We knew what we were fighting for
For the freedom
The time to choose
But time to think
Is time to lose
The signals clash
And disappear
The shade too loud
And the sound unclear

The Sisters of Mercy, "Adrenochrome"

we must suffer
to free our pain
can you help us
to find our way
you're here to stay
stay here in paradise
I'd end this moment
to be with you
through morphic oceans
I'd lay here with you
only to stay
stay here in paradise
only to stay son
lonely from this maelstrom
free are you
from this maelstrom
to be with you

Fields of the Nephilim, "At the Gates of Silent Memory"

Movimento gótico: Uma Perspectiva IV

Os anos 90 trouxeram um techno ainda mais agressivo e um novo tipo de música alternativa, o trance da XFM, que já não gostava das modas passadas.
E foi aqui que se separaram as águas. A maioria cresceu e juntou-se à grande mole humana de pseudo-ecléticos, que significa "ouço tudo porque não gosto de nada", uma minoria era de facto melómana e eclética (mas poucos, muito poucos), e tudo se diluiu. Tudo fechou.
Os anos 90 nasceram negros para o gótico. Não havia música nova e quando as bandas antigas que ainda não se tinham separado produziam alguma coisa estava muito abaixo das expectativas. A Juke Box tinha-se mudado para um subúrbio onde ninguém conseguia ir. Era o fim do gótico. Era mesmo o fim. Conformei-me. Como eu, muita gente.
Desde que sair à noite se tinha tornado moda, e por volta de 1995 já não era coisa de putas e intelectuais ricos mas de toda uma fauna humana de jovens acima da puberdade, dos liceus e das faculdades, o panorama de negócio fez florescer toda a avenida 24 de Julho com novos bares e discotecas, todos muito alternativos. O problema está mesmo na palavra "todos". De facto, todas as editoras, todos os artistas, todo o público, começou a intitular-se alternativo. Foi a grande moda do alternativo, como se alguma vez a alternativa pudesse ser maior do que a norma. Obviamente que não podia e era apenas alternativa de nome. As próprias lojas, dantes tão pouco interessadas em importar as novidades indie, agora tinham grandes autocolantes a dizer "alternativo". Alternativo para todos!
Desde o Cais do Sodré até Alcântara, onde se foram abrindo pequenos bares e grandes espaços dançantes como cogumelos, só se ouvia techno e grunge, grunge e techno. Um barzinho ou outro ainda ia fazendo noites temáticas dedicadas aos anos 80 mas ficava-se pelos grandes hits das bandas do costume, e assim que começava a entrar clientela mais comercial mudava logo a agulha para lhes agradar. Acabaram por não agradar a ninguém... e desapareceram. Por alguns anos, acredito mesmo que o movimento gótico deixou de existir.
E quando tudo parecia perdido, até o velho Bairro Alto, aconteceu o milagre! Docas ò Docas, bendito seja o ventre que vos pariu! Foram as Docas que salvaram o Bairro Alto, arrastando para lá a volúvel betalhada e a imitativa bimbaria. As ruas e travessas foram devolvidas à juventude estudantil que as tornou alternativas e isso é que importa. A César o que é de César, às Docas o que é das Docas.
Não acredito que a geração a seguir à minha tenha percebido a armadilha, criados como foram a ouvir Nirvana a Pearl Jam, tudo muito alternativo... para todos! Bandas como os Metallica lideravam os tops de vendas. É claro que a bolha tinha que rebentar por algum lado.
E rebentou.

Her perfume smells like
Burning leaves.
Everyday is Halloween.

Yeah you wanna go out
'cause it's raining and blowing.
You can't go out
'cause your roots are showing.

Dye 'em black.
Dye 'em black.

Black black black black No. 1


Type O Negative, "Black #1"

Se o movimento gótico inicial definhava e desaparecia, por outro lado, qual erva daninha no bom sentido, um metal novo começava a aparecer, de negro vestido, e carregadinho de letras sombrias sobre as noites da alma. Bandas como os Cradle of Filth aproveitaram o romantismo mórbido de um imagético extremo e protagonizaram uma ruptura definitiva com a violência acéfala de uns Iron Maiden ou uns Slayer dos anos 80. Do nevoeiro das bandas góticas parecia apenas ter subsistido uma nova moda, o gothic metal. Desde a paródia dos Type O Negative à projecção internacional dos Moonspell, o gothic metal, honra lhe seja feita, não teve complexos em ir beber directamente à fonte, do vampirismo de Bram Stocker à lúxuria decadente dos poetas malditos do século XIX, passando por um reviver do paganismo também tão ao gosto do ideal romântico. Fizeram-no bem e arrastaram multidões pelo mundo inteiro. Eu própria cheguei a frequentar as feiras alternativas da Margem Sul, salvo erro no bar Convívio (e se me engano é porque nos anos 80 já havia intensa actividade no género no velhinho bar Convívio de Cacilhas).
Os anos 90 viram assim nascer uma nova geração, em que os metaleiros se vestiam de preto, os jovens normais se vestiam à Kurt Cobain, e os betinhos... se vestiam à betinhos (e hão-de continuar a usar os mesmos penteados à tigela até ao fim dos tempos, palavra!). As pessoas da minha idade, na altura com vinte e tal anos, tinham "crescido" e só pensavam em constituir família, construir uma carreira... Muitos nunca mais sairam à noite. Os mais "dependentes", sei-o eu e aqui fica a inconfidência, andaram com as mesmas K7s no auto-rádio, com os mesmos Sisters, os mesmos Bauhaus, os mesmos Cure, durante uns 10 anos ou até a K7 estourar, sem se darem ao trabalho de conhecer música nova, como se a música tivesse acabado nos anos 80. Perderam-se.
[A esses deixo a boa novidade: existe música para além dos anos 80, boa música, aliás, e actualmente até muitos sítios onde a ouvir. Não há desculpa. Velhos são os trapos.]
Eu também me julgava perdida (e longe de casa e cheia de saudades) quando a meados dos anos 90, certa noite igual a qualquer outra, ia começar a subir a rua do Alecrim, direita a uma tasca qualquer do Bairro Alto cheia de baratas e onde por acaso se ouvia metal (não havia outra coisa), e vejo um grupo de jovens vestidos como se tivessem saído do século XIX... não, melhor!: de um filme do Drácula. Parei, estupefacta, e exclamei para quem me acompanhava: "Não sabia que ainda havia disto!"
O meu comentário, pejorativo para o ouvinte mais distraído, só prova como as aparências enganam. Durante aqueles anos eu e muitos outros tínhamos perdido o rasto à tribo, e naquele momento tudo o que eu queria era segui-los, segui-los, segui-los!!! E não descansei até descobrir para onde eles iam. Segunda lição: seguir sempre as pessoas de preto. Terceira lição: nunca dar o privilégio por garantido ("bars come and go; that's it, bars come and go").
Este milagre devo-o ao mal amado gothic metal. Aos meus olhos, a nova geração exagerava. Sim, porque os descobri num instante. Estavam cheios de peneiras e manias, acabados de sair dos cueiros, convencidos que Nine Inch Nails era demasiado "comercial" para se dançar. Se bem que, naquela altura, só se mexiam para dançar metal, porque não conheciam outra coisa. Até achavam que Fields of the Nephilim era aquela banda que imitava os Moonspell. Foi neste estado que fui encontrar a minha tribo, na mais profunda escuridão e ignorância, de cabeça enfiada no umbigo. Foi assim que os deixaram as editoras e as rádios e os jornais supostamente "alternativos" que deixaram de fazer o seu papel. Editoras iriam falir, rádios fechar, jornais excelentes transformar-se em revistas que não vale a pena comprar. Nunca deixei de compreender a alergia dessa geração ao "alternativo comercial", "alternativo" só de nome, mas sem experiência nem cultura musical para distinguir o trigo do joio.
Por essa altura eu já estava velha. Nos dias de hoje, em que vi mais essa geração ficar de cabelos brancos, e uma nova geração chegar, já sou uma avózinha. Mas agora as coisas mudaram. A prova disso é este espaço de espanto e pavor em que escrevo estas linhas de memória para novos e velhos, sem editoras, nem rádios, nem jornais pelo meio. Este sítio virtual onde se espalham ideias e se divulgam eventos, onde se fazem páginas de referência, mapas para que ninguém se perca quando mundo se atravessa à frente, para que ninguém tenha de se conformar e pensar que é o fim.
Foi na Rua da Fé, que nome mais providencial, que se reuniram os resistentes até ao fim do século.
E foi mesmo aí, precisamente aí, que voltei a casa.
Na Juke Box, ao sábado à noite, já não se ouviam apenas os clássicos da década anterior. Havia música nova, música que não se ouvia em rádio nenhuma: Therion, Marilyn Manson, Rammstein.

Asche zu Asche
und Staub zu Staub


Rammstein,  "Asche zu Asche"

Razão pela qual acabei por arrancar e enrolar a antena FM e nunca mais ouvi rádio excepto online. Vídeos de música, agora que a sociedade era muito mais rica, também não passavam (nem passam) nos quatro canais gratuitos. Há muito tempo que o Blitz ignorava as bandas góticas (mesmo as novas). Mais um sinal do fim de uma era. Adeus, passado, adeus!
Estava prestes a começar um mundo novo, à distância de um clique na internet, que no final dos anos 90 ainda era demasiado lenta e cara para que todos tivessem acesso. A verdadeira revolução ainda estava para vir.
Quando parecia que os góticos de Lisboa tinham uma casa, a Juke Box na Rua da Fé acabou a poucos dias do novo século. Houve lágrimas na despedida e não era para menos. Mal sabíamos todos, os mais novos e os mais velhos, que o novo milénio não trazia nada de bom para ninguém. Mas nessa altura, verdade seja dita, ninguém sabia.
Lembro-me de ter passado o ano 2000 a ver fogo de artifício em Belém e depois, como não havia mais nada onde ir, ter abancado num bar da 24 de Julho onde dava a Macarena. Mas a minha alma ouvia música diferente, muito diferente:


Everything dies

Type O Negative 

Movimento gótico: Uma Perspectiva III

Through the cables and the underground now
The faceless breathless calls
This is babel, sensurround now
This place is death with walls

Too much contact, no more feeling
The sound around them all
Acid on the floor so she walk on the ceiling
And the body electric flashes on the bathroom wall
And the body electric flashes on the bathroom wall
Crawling to the corners where the idiot children call
See the body flashing on the bathroom wall


Sisters Of Mercy, "Body Electric"


"Gótico, o que é isso?", perguntei eu, ofendida.
"É um movimento musical britânico, que começou em Leeds. Foi de lá que vieram os Sisters, os Nephilim, e outros. Os góticos vestem-se de preto e cabedal, pintam o cabelo de preto, usam óculos escuros, têm o cabelo à punk... Assim como a Siousxie. Tudo muito exagerado, muito negro", respondeu ele, e deve ter olhado para mim, com a minha saia de ganga dos anos 80 e a minha blusinha branca e pensado duas vezes se a sua intuição não se teria enganado. Assim descrita, a coisa e os seus seguidores pareciam-me uma palhaçada, mais uma maneira de dar nas vistas como tantas outras. Ainda hoje prefiro uma certa sobriedade e evito a extravagância. Uma questão de gosto pessoal, nada mais. Mas logo desde essa altura fiquei muito curiosa em relação aos tais góticos e à coincidência de eu gostar de uma série de bandas de que eles também gostavam. A música era demasiado escassa para nutrir preconceitos. Havia que esburacar onde cheirasse a minhoca. A partir daí, compilações góticas em K7 começaram a chegar à minha caixa de correio com uma frequência mais e mais certeira. E nessa altura aprendi uma grande lição que ainda partilho quando as pessoas me falam da suposta "inutilidade" dos rótulos:
Qual inutilidade? Os rótulos são úteis e poupam imenso tempo... e dinheiro! Dinheiro até pode haver para gastar em bandas que se ouvem uma vez, mas o tempo é escasso e a morte espreita. Há que despachar.
Não sei quando e como me comecei a vestir de preto também. Por um lado, sempre gostei de preto. Por outro, toda a gente se vestia de preto. Digamos que foi um processo em que a roupa velha foi sendo substituída, peça a peça, nos ciganos da Feira da Ladra, por essa massa de negrume que se tornou o meu guarda roupa. Quanto mais negro, mais olhava ao espelho e me descobria. Isto numa altura em que as pessoas nos chamavam bruxas por causa de uma saia comprida e de uma t-shirt! Como era fácil chocar a sociedade portuguesa dos anos 80! Não que eu quisesse chocar. Acho que, ao contrário dos punks, nenhum de nós queria chocar ninguém. Só queríamos que nos deixassem em paz na nossa infelicidade adolescente. Não estávamos ali para mudar o mundo. Já sabíamos que não nos deixariam mexer uma palha no sistema corrompido. Enquanto se esperava pela morte, só desejávamos inebriar-nos "na cor poente de um céu inflamado" (Mão Morta).

Oub'lá que tás a fazer?
Quero é que te vás foder!
Qual é a tua identidade?
Perdi aí pla cidade!


Mão Morta, "Oub'lá"


A 2 de Junho de 1989, poucos minutos depois de Adolfo Luxúria Canibal ter dado uma facada na perna durante o concerto, estava eu a entrar no Rock Rendez Vous e a ver o sangue e a pensar que fazia parte dos adereços e a aplaudir em êxtase. Não, não me lembro da data. Naquela altura estava lá em estado de me lembrar de pormenores! Estou a guiar-me por uma biografia dos Mão Morta que me deram recentemente, em que Adolfo é citado ao Académico, em 1993, sobre essa mesma noite: "O ambiente na sala estava pesadíssimo, havia necessidade de aplacar um bocado as coisas e eu pensei que o sangue poderia acalmá-los... o sangue assusta. Afinal o sangue acabou por ser demais, e aí é que eu vi que tinha feito asneira".
O ambiente era pesado? Pensando bem, sim, pois era. Mas era tão pesado e opaco e a tensão cortava-se tanto às fatias que se nem dava por isso. O que estávamos a fazer era mesmo assim, pioneiro e perigoso, a desbravar na noite caminhos novos. Não havia enlatados de abertura fácil. Tudo era novo. Tudo era emoção. Tudo era loucura e excesso.
Se me perguntarem hoje onde era o Rock Rendez Vous, lamento não vos poder guiar até lá mas juro que não faço a mínima ideia. O palco onde tantas vezes vi Mão Morta e Pop Dell'Arte e Mler If Dada era longe e fora do mundo, como Avalon, tão fantasmagórico que não me admiro de já não existir como se nunca tivesse passado de um sonho. Era um espaço de alma onde se ia para nos perdermos e para nos voltarmos a encontrar (como disse Andrew Eldritch, dos Sisters of Mercy, do espaço de luz, fumo e som entre a banda e o palco onde a plateia desses remotos primeiros anos teve o privilégio de dar mais noite à noite). Era tudo novidade, era tudo a primeira vez, a primeira pedra, o primeiro passo. Sentíamos que estávamos a fazer algo original, que não obedecia à cultura que nos tentavam insistentemente enfiar pela garganta abaixo, que éramos uma imensa minoria que pela primeira vez saía do buraco taciturno e se cruzava, e se reconhecia, e se reflectia.
Mas hoje ainda vos poderia levar à Tertúlia, onde havia a Jukebox do meu tempo na rua do Diário de Notícias, e dizer: "foi aqui"! Espaço onde se fumava haxixe e se observava, com curiosidade tão ingénua quanto científica, como a heroína ceifava os primeiros toxicodependentes de Portugal, os pioneiros, como nós, e uns quantos jovens "vencidos da vida" ouviam Bauhaus e Joy Division e ensaiavam passos de dança pequenos e curtos, para trás e para a frente, movimento de meninas a que um amigo dessa altura chamava "moscas". Que sabia ele? Nada. Faltava muito para se separarem as águas. Andava tudo misturado. Os vangs, os pseudo intelectuais, os drogados, os artistas, os falhados do futuro. Só tínhamos uma coisa em comum: não éramos com os demais; éramos de facto diferentes.
Mas nem tudo foram rosas. Naquela altura o revivalismo era feito do punk. Ai de quem não gostasse de punk! Eu nunca gostei de punk, muito menos de rockabilly, mas levei dele tão maciças injecções que fiquei alérgica para o resto da vida. Pregavam comigo num bar existente num prédio da 24 de Julho que penso já ter sido demolido, junto ao actual IADE a que nós chamávamos apenas "a gaiola", isto muito antes de a 24 de Julho estar na moda, o bar Oceano, cheio de skinheads e rockabillies (que, tal como os actuais metaleiros, também não se vestiam de preto) e ali levava com actuações de bandas punk que até doíam aos ossos.
Por outro lado, amigos normais arrastavam-me para discotecas da moda, onde se abria a pista de dança a uma certa hora como se houvesse hora para tudo, e levava com techno pop e Prince e INXS e os "Contentores" dos Xutos & Pontapés a noite toda. (Mesmo assim, menos doloroso que o punk.)
Estava também na moda abrir bares começados por "K". A certa altura terminava-se a noite no Kremlin, onde ainda se ouvia Cure. A vanguarda estava mesmo na crista da onda. Quase a chegar aos anos 90, ninguém podia prever o perigo que corria a música alternativa em geral quando toda a gente se apercebeu de que o que estava a dar era o Bairro Alto e ser vanguardista. E nesse momento chegou tudo: os bimbos, os normais, os betos.
Juro que até as putas da rua da Atalaia se puseram na alheta quando chegaram os betos! Pudera, com a quantidade de putas que de repente invadiu as ruas à caça de marido rido, a competição era desleal! Os velhinhos da aguardente e do futebol do Estádio acabaram por desaparecer também. Os preços das bebidas subiram exponencialmente. Em princípios dos anos 90, o Incógnito tornava-se um sítio fino com preços a condizer. O Kremlin começou a passar música de martelos, uma infecção chamada techno de que descendeu mais tarde o trance. E também o Sudoeste, antes bar de música de vanguarda e hoje coisa nenhuma. A Jukebox fechou e tornou-se num bar de betalhada e gajos de camisa às riscas e camisola às costas. Chegou também a xungaria, que abandonou as tardes de matinés e apareceu atrás das "gaijas". Agora, graças a nós, já era "bem" sair à noite. Os papás já deixavam. E assim, durou pouco, muito pouco, a descoberta selvagem antes da decadência turística.
Em menos de dois ou três anos, mataram o Bairro Alto vadio. Por essa altura eu já não perdia tempo a desdenhar rótulos e frequentava um bar do Estoril chamado KGB que não existiu durante muito tempo mas enquanto durou só passava música gótica. Cumprindo a profecia, sempre me tornei fan incondicional de Fields of the Nephilim. Foi no KGB que passei algumas das melhores noites a ouvi-los, e aos outros nomes do gótico do anos 80 que actualmente são clássicos mas naquele tempo eram o que acabava de sair da editora.
Conseguem imaginar? Uma máquina de fumo, figuras negras a dançar ou apenas sentadas por ali, sozinhos ou a conversar, nos rostos o mesmo desespero e melancolia adolescente que antes não saía dos quartos escuros mas ali se podia demonstrar sem medo dos olhares porque ninguém olhava, e por trás a voz poderosa de Carl McCoy:

you're tempting me to all of life
and all it's pleasure
take me to the dream
to the highs and the depths of my soul
here we free thoughts inside
giving up for giving time
but a world without end
where no soul can descend
there will be no sumertime
how lost life's been
afraid of waking up
so afraid to take the dream
shapes of angels the night casts
lie dead but dreaming
in my past
and they're here
they want to meet you
they want to play with you
so take the dream
can't break free and I hear them call
they want to plague you
they're here once more
they want to lay with you
they want to take you
to the shame of your past
take the dream
take me lead me far away
take me there I'll fade away
but I can't hide and I cannot die
I take the dream
we're but fools of our fate
on this earth I shall wait
by the roots of my soul
I am loosing control
take the dream
the sleepers in you
shapes of angels so deep within you
feel your soul drowning
unloosen your soul
drowning in waters of reality
tell me what is reality
tell me tell me thought of god
do dreams fall from god
tell me what dreams may come
break free thoughts all gone
we've all come down
take me there you're my ticket out of here
all come down
take me out of here
take me there


Fields Of The Nephilim, "Sumerland (What Dreams May Come)"

Às vezes também penso que foi um sonho.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Movimento gótico: Uma Perspectiva II

1987 não foi o ano em que cheguei à noite mas foi o ano em que a noite chegou até mim. Tudo o resto foi tempo perdido a aprender a invocar o demónio até que um dia me deram a chave do inferno, quando alguém sugeriu: "Uma pessoa que gosta de música como tu... devia comprar o Blitz". O Blitz, velhinho jornal que saía às terças feiras, era a nossa internet e a nossa bíblia. O Blitz mudou a minha vida. Mas a homenagem não se fica pelo Blitz. Naquele tempo, em que não havia internet, todas as novidades chegavam pela rádio. Havia alguns programas à meia-noite, na Rádio Comercial o António Sérgio com o lendário Som da Frente, e uma estação já desaparecida de que me lembro muito bem, o Correio da Manhã Rádio, que iniciava a programação nocturna com música de vanguarda e chegava a passar, pela noite fora, álbuns integrais de bandas diversas que encheram as minhas K7s. Lembro-me que a primeira vez que ouvi "This Corrosion" deve ter sido nesse programa do Correio da Manhã Rádio, 104.3, certamente entre a meia noite e as duas da manhã. A princípio aquilo pareceu-me excessivo, histérico, megalómano, e se pensarmos bem ainda o é, mas como em qualquer relação de amor já estava de joelhos a adorar num altar muito diferente dos Smiths, dos Cure, dos Jesus and Mary Chain, e dos outros vanguardistas da altura.
Chamava-se "vanguarda" à música de todas as bandas independentes dos anos 80. Não é à toa que se acusam os anos 90 de transformar o independente a um nível de comercial que tirou à vanguarda toda a sua originalidade. É a pura verdade. Sem esta comercialização fenómenos como os Nirvana nunca tinham tido a mesma divulgação. Mas tudo isto foi preparado nos anos 80, em que uma classe de jovens cada vez mais instruídos, apocalípticos e depressivos começaram em massa a rejeitar a música comercial, romântica, alegre, cliché, Abba em versão reciclada, que durante toda a década de 70 tinha vendido discos e discos. Já ninguém podia ouvir os Beatles. Ainda hoje lhes tenho uma alergia particular. Rolling Stones, então, têm o nível lírico de um atrasado mental. A mentalidade pós-punk e pós-glam exigia algo de novo, inteligente e estético, fruto directo de um "no future" com a beleza reconfortante dos anjos que decoram as campas do cemitério. Os "pós punks" estavam prontos para o gótico. E o gótico nasceu.
Nasceu em Leeds sem saber o que era. Bandas como os Sisters of Mercy, os Cult, os Fields of The Nephilim, seguiam uma linha estética de várias influências (em que os Led Zepellin são frequentemente acusados) que faziam um todo com os Bauhaus, os Joy Division (muito pioneiros mesmo), os Banshees da Siouxsie, os Dead Can Dance e os Cocteau Twins e toda a produção da editora independente 4AD sem me querer lembrar de todos, compondo um panorama já totalmente distinto de todas as outras experiências dos anos 80.
A nós chegou mais tarde, muito mais tarde, o que era completamente natural naquele tempo em que era preciso viajar para conhecer o que se passava no mundo. Viajar ou ter possibilidade de comprar revistas estrangeiras, ia tudo dar ao mesmo. A internet tornou democrático o que nos anos 80 era o privilégio da elite, incluindo a música.
Voltamos ao Bltiz. O Blitz não era apenas um jornal, era também a nossa única maneira de conhecer (e adquirir) música independente. Eu ainda sou do tempo em que quem quisesse comprar o álbum "First And Last And Always" dos Sisters of Mercy tinha de ir a Inglaterra. Não adiantava querer. As lojas não tinham e não mandavam vir. O que fazíamos então? Havia venda de fanzines, folhas A4 fotocopiadas e dobradas em dois de 6 ou 8 páginas, onde se divulgavam originais ou traduções de artigos do New Musical Express ou do Melody Maker, e mesmo do Blitz, sobre bandas que nos interessavam, que pela sua circulação underground permitiam um sistema de pirataria de K7s que foi a nossa única salvação. Encomendava-se tudo com ou sem a K7 virgem incluída, 500 ou 600 escudos, e ficava-se a conhecer a banda pretendida. Isto da gratuitidade da internet veio destruir muitos negócios. No nosso tempo a única coisa que era de graça era a amizade. O primeiro a comprar a K7 gravava para os amigos. Isto se tivesse hi-fi ou gravador com dois decks, que naquele tempo também não era para todos. (A melhor prenda que me deram na vida, tinha eu 17 anos, foi um sistema hi-fi com gira discos, uma excentricidade, uma maluquice, o equivalente a comprarem-me um Porshe e pô-lo à minha porta, foi a completa euforia. Desse sistema ainda tenho o armário e o gira discos, que não se estragou devido ao pouco uso, porque os discos compravam-se, gravavam-se e ouviam-se em K7 para não se riscarem.)
Voltemos ao Blitz. A secção de classificados estava cheia de anúncios para pen pals, pessoas a quem se escrevia (cartas, obviamente) com os mesmos interesses, e com quem se trocava música com fins não comerciais. Sempre houve as putas e os outros, e sempre haverá. Com as putas que vendiam as K7s não se queria nada. Com os outros, queria-se tudo. E sempre se há-de querer.
Foi assim que conheci pessoas semelhantes do Porto ao Algarve, passando por Coimbra e o provinciano Portalegre, pessoas isoladas aqui e ali que sentiam de modo diferente, que não cabiam na caixa, que não alinhavam no rebanho, que ouviam Diamanda Galas e assinavam as cartas com sangue (sim, com sangue). O Porto, especialmente, foi pioneiro da cena gótica quando em Lisboa nem se ouvia falar do assunto.
No país inteiro, por imitação à cena vanguardista inglesa, toda uma geração se começou a vestir de preto. Penso que começou com os tais artistas e intelectuais do Bairro Alto e passou das elites para a ralé. Às pessoas que me perguntam frequentemente o que eram os vanguardistas (porque não estavam cá), bem, meus amigos, era a malta que ouvia as bandas de vanguarda dos anos 80. Como se vestiam, basta olhar para uma foto dos Madredeus dos "Dias da Madredeus". Naquele tempo, para chocar, bastava a uma criatura vestir-se toda de preto e já os vizinhos se benziam. A roupa era bastante simples. Eles e elas vestiam casacos pretos, calças ou saias pretas, t-shirts ou camisolas pretas, e sapatos pretos, de preferência grandes. Havia também a moda das poupas à Morrisey. Eles e elas de franja erecta a terminar em ondinha para dentro, mas com gel, não porcaria, a uma altura dos 6 aos 10 centímetros. Moda era moda. Às meninas exigia-se também lábios pintados de vermelho vivo e anéis de pedras grandes e opacas. Sobriedade, meus amigos. Afinal, era a ressaca dos pós românticos. Nenhuma outra cor, excepto o preto, era tolerada. (Ainda hoje não devia ser... excepto o cor de rosa shocking... porque sim.)
Se os meus caros amigos mais velhos e os meus amiguinhos mais novos acham que isto não era nada, enganam-se, foi uma revolução. De repente, era ver aquelas hordas de negro a caminhar para o Bairro Alto, a encherem as tasquinhas, a consumirem Alien Sex Fiend e Einsturzënde Neubauten como se fossem tremoços. Tudo o que simplesmente soasse a minimamente comercial estava banido. Bandas que hoje se ouvem horas a fio nas noites revivalistas, Duran Duran, Heróis do Mar, Classic Nouveaux, António Variações... BANIDOS! Eu, pela minha parte, bani os Cure até hoje.
Ainda bem que falei em Cure por agora tenho a deixa para falar dos meus ódios de estimação. A moda dos Cure, e dos vanguardistas que gostavam de Cure (para quem se inventou o termo "curistas") nunca me convenceu. Aquilo foi sempre muito comercial. E noventa por cento da malta "vanguardista" era gente que se vestia de preto para dizer que era rebelde, e ser rebelde naquele tempo era fumar um charro no intervalo das aulas (o que é ser rebelde hoje em dia não sei mas desconfio que não anda longe), e tal como o fenómeno freak dos anos 90 também desapareceu sem deixar rasto, depressa tomaram juízo e começaram a vestir-se como pessoas normais que sempre foram. Poseurs! Ainda hoje se devem achar o máximo porque nos anos 80 fumaram um charro a ouvir Sonic Youth, tal como os pais psicadélicos da classe média-alta por consumir LSD ao som de "Sargent Pepper's Lonely Hearts" ou quejandos. Isto há modas. E dos vanguardistas, mortos e enterrados, não há mais a dizer excepto que os encontram no Jumbo mais próximo ao fim de semana a fazer o passeio do shopping com a famelga, de onde nunca deviam ter saído.
A eles a reverência que é merecida, contudo, porque serviram bem o movimento gótico. Sem eles, ainda ninguém se vestia de preto. Tiveram o seu papel. Siga.

A primeira vez que saí de facto à noite foi em 1988 e foi uma aventura a todos os níveis. Com um desconhecido, qual virgem gananciosa, fui para um Bairro Alto cheio de encantos proibidos com o intuito de atalhar o caminho do tempo perdido. Senti-me um daqueles exploradores do século XIX de que lia em livros do mesmo século, que tinham devorado tudo sobre um país exótico antes de o visitar. Já lá estava antes de lá chegar. O meu amigo do Porto, sempre um desconhecido de um lugar distante, mais velho e mais lido do que eu, deslocado aqui por malefícios do Serviço Militar Obrigatório, precisava de companhia e levou-me ao Estádio. O Estádio ainda lá está. O Estádio e as Primas, que devem ser a única coisa que resta daqueles tempos. Excepto os velhinhos. Os velhinhos do Bairro Alto, naquele tempo, ainda saíam à noite para ir ao Estádio beber a aguardente e ver a bola e olhar para nós, invasores, de queixo caído, especialmente as raparigas, com o ar intrigado de quem percebe que não éramos putas (como as outras, as da esquina da rua da Atalaia), mas também não percebia o que raio é que éramos. Velhinhos, vanguardistas e drogados, era assim o Estádio. E assim é que devia ser e assim é que sempre o recordarei.
Não sei como corremos tantos sítios numa só noite. Devia ser sede. Estava na moda "correr as capelinhas". Passar a noite toda num sítio, pior, permanecer mais do que meia hora num sítio só, era contra a etiqueta da noite. Fomos às Primas, fomos sei lá mais onde, fomos ao Incógnito estava ainda vazio, e fomos acabar com os ossos caídos na Juke Box da rua do Diário de Notícias a ouvir música que eu só tinha ouvido nas minhas K7s. Ele há coisas do destino. Árvore que nasce direita tarde ou nunca se entorta.
A certa altura na noite, considerando que já tínhamos trocado correspondência e preferências musicais e tudo o resto, diz-me ele que se eu gostava de Sisters of Mercy e Mão Morta e "vozes cavernosas" devia gostar de Fields of the Nephilim. E de seguida acabou logo ali comigo: "Com essas tendências depressivas, a pensar no suicídio, a ouvir essas músicas, deves ser gótica".
Foi a primeira vez que ouvi a palavra. Gótica. Achei uma grande parvoíce. Devo ter feito uma careta de todo o tamanho. O que me estava a chamar? Seria um bicho? Gótica, disse ele. E eu encolhi os ombros e perguntei "o que é isso?"...


Continua.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Movimento gótico: Uma Perspectiva I

No princípio era o nada. Quando eu cheguei à noite, o Bairro Alto era ainda uma sucessão de tascas, casas de fados e elitistas bares da moda. Um pormenor que recordo com alguma perplexidade, ainda havia prostitutas na rua, sempre duas ou três, já quase reformadas e outras a entrar na pré-reforma, na esquina da Rua da Atalaia junto às Primas. Eram reminiscências de um tempo antigo, de engate à meia porta e cinta na liga, resquício ainda mais rebuscado da Lisboa do fado vadio, da Severa e de outras menos más, da soldadagem de província em busca de copos e mulheres, a fazer-se homem, dos boémios... e, claro, dos artistas. Parece há muito tempo mas ainda em 1987, quando eu cheguei, as pessoas sérias não saíam à noite. Sair à noite era coisa de puta, de putanheiro, de maricas e de artista de revista. Foi nesse Bairro Alto que eu herdei as tascas, as putas e os intelectuais. Estes últimos tinham os seus selectos santuários, o Frágil e os Três Pastorinhos, onde ninguém entrava se não vestisse Ana Salazar.
Não é possível descrever o meu caminho sem começar aqui, no Bairro Alto, onde (quase) nada do que há hoje existia mas algo de novo já começava a fervilhar, como um vírus contagioso todo contente no esgoto infecto, ainda invisível e incubado, mas pronto a espalhar a sua doença.
Mais em baixo, na rua do Diário de Notícias, havia sempre punks à porta de uma determinada discoteca. Discoteca era o nome que dávamos a um sítio onde se ia ouvir música tão alta que não se podia conversar. O termo "bar" raramente se ouvia. Havia o piroso bar dançante, isso havia, e a mais piolhosa "boite", geralmente também "casa de meninas" mas não necessariamente. Vai por isso o termo discoteca aplicado à Juke Box como a conheci, onde pela primeira vez ouvi Sisters of Mercy, Cure, Siouxie, Bauhaus ou Joy Division fora de casa.
Mas não avancemos mais que ainda há muito para contar. Lembro-me especialmente da sujidade, da porcaria. Ainda hoje os bares, tascas e mesmo discotecas da capital (nem escapam os mais finos) primam pela falta de limpeza. Falta de higiene da gerência, falta de asseio dos clientes. Porcos na pocilga em todo o estilo. (Será que conto aquela da menina que mijou nas escadas da casa de banho do Kremlin porque a pia estava ocupada? Não, não conto. E isso é muito para a frente na história.) Eis algo que não mudou. O que me leva a perceber que estas memórias começam muito antes disto tudo. O vírus desenvolve-se na merda.
A primeira vez que eu vi um punk tinha uns 7 ou 8 anos. Estávamos para aí entre 1979 e os primeiros anos 80. Eram duas gajas que vinham dos lados da Feira da Ladra. Os meus olhos de criança fixaram-se nas meias rotas até à brutal revelação que elas se vestiam assim de propósito. Collants esburacadas, roupas rasgadas, possivelmente de quem dormia na rua ou algo parecido (já havia droga mas não se sabia). Mas o que mais me chamou à atenção foi de facto a sujidade daquela gente. O cabelo, todo no ar, mas era mais da porcaria do que do gel. Se isto foi assim na anarchy do UK ou apenas aqui na piolheira (como um amigo insiste em chamar a isto, para meu desgosto) nunca saberei. Lembrei-me delas quando vi punks mais tardios deitados no chão a beber garrafas de litro de cerveja Sagres, também na Feira da Ladra, já iam altos os anos 80 e eram diacrónicas aquelas personagens de crista e pins dos Sex Pistols. Imaginem lá o que sustinha as cristas? Porcaria. Sabão azul e branco e porcaria. Muita porcaria. Não havia lêndea ou piolho que sobrevivesse muito tempo naquela cabeça cheia de heroína (ou será que os piolhos também gostavam?) mas na altura não se falava do assunto. Até se falava da piolhagem, mas não se suspeitava da heroína.
A porcaria nunca me atraiu, pessoalmente. O que leva a história aos meus 10, 11 anos, quando pela primeira vez comecei a ouvir música escolhida por mim. Antes de continuar, saliento mais uma vez que tinha 10, 11, 12 anos, nem mais um dia. Mesmo assim e tudo isso à parte, aqui vou ser peremptória: a música dos anos 70, década em que nasci, era uma grande merda e uma grande seca. Sejamos francos. Disco sound, Abba, Festival da Eurovisão por um lado, cantigas de intervenção pós-25 de Abril por outro, e no meio disto tudo lá se ouviam umas guitarradas de hard rock ou rock sinfónico que não excitavam o menino Jesus. Até os Doors, que são os Doors, no final se tornaram arrastados, psicadélicos, droga a mais.
As hipóteses de contacto com música de vanguarda, para um miúdo de 10, 12 anos, sem irmãos mais velhos, eram mais ínfimas do que ver um OVNI no céu alentejano.
Depois o Júlio Isidro começou a promover umas bandas, no seu execrável programa de domingo à tarde "O Passeio dos Alegres" (ou seria sábado? who cares? mas não queria dizer mal do "Passeio dos Alegres" porque pelo menos tentaram dar a conhecer algo novo...). Por lá passaram, se a memória de infância me não atraiçoa, os Trabalhadores do Comércio, os Táxi, os Salada de Frutas (de Lena d'Água), a Adelaide Ferreira (de "Baby Suicida"), e uma banda estranha, os Tantra, cujo vocalista se chamava Frodo (mal eu sabia o que eu ia gostar de Frodo...) e usava um cone de plástico na cabeça tão arrepiante que à pala disso não dormi algumas noites. (Foda-se, aquilo era lá coisa para passar num domingo à tarde, ou sou eu que me assusto demais?)
Isto era já o despertar do rock português, o Chico Fininho e outros que tais, mas nada disto me dizia a ponta de um corno.
Depois apareceu um programa inédito, salvo erro chamado Top Disco, já em plenos anos 80, portanto, onde se começaram a ver uns telediscos (a palavra era "telediscos") de uns rapazinhos giros chamados Duran Duran, e Limahl, e um outro de que eu gostava particularmente porque já sabia inglês e dizia-me algo, o Nik Kershaw, com o seu lamento de sucesso "Wouldn't it be good?", e até uns Culture Club que no mínimo me deixaram de boca aberta.
Havia neles uma diferença de tudo o que tinha visto até ali. Eram limpinhos. Eram bonitos. Usavam roupa escolhida a dedo. Penteavam o cabelo que só aparentemente parecia punk. Ali não havia porcaria, havia gel. Até a vil Madonna de Like a Virgin, com as suas rendas negras e meia dúzia de crucifixos ao pescoço, não cheirava mal à distância. Porque não vamos ter ilusões, os Táxi ainda me cheiravam a gasosa e peixe frito. Mas os Duran Duran? Cheiravam a vinyl, um aroma muito virtual de que eram feitos os artistas naquele tempo. E, contudo, com cheiro a disco rígido e a internet (que não cheira a nada), hoje os artistas da moda não têm metade da sinceridade que eles tinham.
Era também o tempo do hip hop. Na América estava na moda andar de lata da mão a pintar paredes. A Balada de Hill Street não demorou muito a chegar cá, mas quando atravessou o oceano não cheirava a hot dog mas a cachupa. Tinha doze anos quando fui a uma festinha de 2º ano do Ciclo (hoje 6º ano) e me disseram "hi, não sabes dançar reggae!" Eu saber até sabia, porque aquilo estava na moda à brava e se dançava assim: um passinho à frente, joelhinho abaixo, controlado, passinho para trás, joelhinho abaixo, controlado... Quase uns familiares passo à frente e dois atrás. Estava a guardar-me para música que valesse a pena.
Não podem dizer que não me tentei integrar na merda que havia. Eu tentei. Já com os meus 13, 14 anos, pus-me a ouvir heavy metal. Nessa altura já não se chamava heavy metal mas sim speed, trash, death metal. As minhas K7s estavam gravadas com temas pop da altura, "The Reflex" dos Duran Duran no lado A, e o lado B cheio de Anthrax (quando lhe dou, dou-lhe forte, não fico por paninhos quentes), não tanto porque gostava (depressa caía na mais profunda depressão) mas porque não conhecia outra coisa. Para explicar depressa e bem, nenhuma dessas K7s arqueológicas sobreviveram até aos nossos dias. Graças a Deus! E graças a mim que não tive o mau gosto de as preservar.
O que me leva à questão das tribos que existiam em Portugal na altura. Não, ainda não é hoje que vou falar nos vanguardistas. Esses merecem um cantinho bastante especial e dedicado nas páginas do meu ódio.
Vou começar pelos metaleiros porque me dá especial prazer, especialmente quando nas minhas tentativas de socializar aproveitei a minha audição (não apreço) pelas bandas de metal mais vanguardistas da altura para meter conversa com eles. Ser metaleiro, no início dos anos 80 e até princípios dos anos 90, não era andar vestido de preto com um pentagrama ao pescoço. Tudo isso foi roubado aos góticos. Vou então passar a explicar, e os metaleiros de hoje, quais alemães do pós-guerra, que me perdoem por não deixar morrer o horror mas vai ter de ser. Ser metaleiro, nesses tempos, era usar calças de ganga elásticas, azuis, usadas até ficarem azul bebé, todas chegadinhas ao rabo e pernas magras de anoréxicos/as, e camisolas dos "i-rom mái-dem", sim ouviram bem, "i-rom mái-dem" porque a maior parte deles nem sabia ler inglês quanto mais falar (o ensino obrigatório era o Ciclo Preparatório), e umas cabeleiras compridas, compridas, desgrenhadas, oleosas e... adivinhem?... sujas de meter nojo. Mas é como eu digo, a sujidade era tanta e geral que não se notava. Tudo era sujo, tudo era porco.
[Haviam de ver os pais e mães desses meninos, que só tomavam banho de quinze em quinze dias porque não havia dinheiro para mais.
Não sei se viram "O Perfume", já para não perguntar se leram. Há uma parte em que se diz que Paris na época devia ser um antro fétido a que os narizes já estavam acostumados. Portugal era um antro semelhante no que toca ao chulé, à caspa, à roupa suja. Ao perfume barato a disfarçar. Devemos ter aprendido esse truque do perfume com os franceses mas como não sou especialista vou-me reservar a falar do que sei.]
Os metaleiros, tal como os punks, parece que faziam um especial orgulho da sua falta de limpeza. E depois havia a droga. Já se cheirava droga por todo o lado e ainda ninguém lhe reconhecia o cheiro.
Isto da sujidade lembra-me outra tribo, aquela em que Portugal é mais pródiga, que são os bimbos em geral. Desses nem quero falar porque me deprime, mas diverte-me trazer aqui as memórias de uma sub-tribo de bimbos, os azeiteiros, que eram à sua medida uma espécie de "bimbo radical" mas mais porco. O próprio termo "azeiteiro" deriva da oleosidade capilar. A malta até lhes fez um eufemismo transformando o óleo em azeite pelo que não têm que se queixar. Um verdadeiro azeiteiro já é raro de se ver. Estão praticamente extintos (mas ainda existe um ou outro, escondido debaixo de uma pedra insuspeita.) Se querem imaginar um azeiteiro adaptado aos tempos modernos (versão azeiteiro rico) pensem num Cristiano Ronaldo, sem maquilhagem nem banho, com aqueles brincos espampanantes e o cabelo cheio de óleo, cortadinho à frente e comprido atrás, à Miami Vice, e aí têm a vossa fonte de inspiração.
Esta sub-espécie raramente saía dos buracos onde morava mas quando tomava banho frequentava discotecas à tarde (sim, à tarde, porque naquele tempo não se saía à noite) a fazer-se ao engate. Nem sei se hei-de falar aqui do famoso Crazy Nights ou mais à frente. Ou talvez nunca. Se hoje se tiver transformado em loja de chineses é muito bem feita.
Era vê-los, todos limpinhos com o banho da semana, de calcinha bege, camisinha às riscas, cinto fininho e preto, mocassin castanho e meia branca. Dois ou três botões desabotoados no peito, a mostrar a pintelheira e um fio de ouro com crucifixo, à chulo, como os pais que os pariram. Nem quero imaginar as mães.
À frente. Havia os betinhos, claro, mas nesses nem punha a vista em cima porque andavam em colégios particulares a engravidar e fazer abortos antes dos acampamentos dos escuteiros organizados pela igreja. Desses não é preciso falar. Continuam iguais e penso que, tal como as baratas, serão os últimos a perecer em caso de desastre nuclear ou afins.
Estou mais interessa nos putos filhos da classe média-alta emergente nos princípios e meados dos anos 80, época dourada de entrada na CEE e início do cavaquistão. Isso é que era dinheiro. Aos treze anos já achavam "o máximo!" ir com os pais aos bares da moda, o Bora-Bora e o outro ao lado, beber cocktails verdes de Pisang Ambon com um chapelinho-de-sol. Muitos desses vieram a tornar-se vanguardistas só para se livrarem dos pais e do Bora-Bora. (Não os condeno. Afinal, quem é que suporta o Bora-Bora? E os pais até ficaram aliviados porque naquela altura desatou tudo a divorciar-se e a dormir com este e com aquele e os fedelhos atrás só atrapalhavam o engate.)
Foi assim que os jovens começaram a sair à noite em Lisboa, extravagância proibida que até aí era um tabu tão grande quanto acender um cigarro numa unidade de oncologia do cancro do pulmão para doentes terminais.
E, de repente, num ápice, bons rapazes e boas raparigas começaram a invadir as tascas do Bairro Alto para beber barato (que a mesada não dava para mais) ao lado das putas e dos putanheiros e dos intelectuais e dos artistas.
Foi por esta altura que Jorge Palma escreveu um dos mais belos tratados sobre a noite chamado "Canção de Lisboa":

Os serões habituais
As conversas sempre iguais
Os horóscopos, os signos e ascendentes
Mais a vida da outra sussurrada entre os dentes
Os convites nos olhos embriagados
Os encontros de novo adiados
Nos ouvidos cansados ecoa
A canção de lisboa

Não está só a solidão
Há tristeza e compaixão
Quando sono acalma os corpos agitados
Pela noite atirados contra colções errados
Há o silêncio de quem não ri nem chora
Há divórcio entre o dentro e o fora
E há quem diga que nunca foi boa
A canção de lisboa

Mamã, mamã
Onde estás tu mamã
Nós sem ti não sabemos mamã
Libertar-nos do mal

A urgência de agarrar
Qualquer coisa para mostrar
Que afinal nos também temos mão na vida
Mesmo que seja a custa de a vivermos fingida
O estatuto para impressionar o mundo
Não precisa de ser mais profundo
Que o marasmo que nos atordoa
Ó canção de lisboa

As vielas de néon
As guitarras já sem som
Vão mantendo viva a tradição da fome
Que a memória deturpa e o orgulho consome
Entre o orgasmo e a gruta ainda fria
O abandonado da carne vazia
Cada um no seu canto entoa
A canção de lisboa




Continua.

quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Memória II

Diz-se que quando se morre toda a vida passa como um filme em frente dos olhos.



Verão. 1980.

Havia uma inocência não só em mim como em todas as pessoas crescidas. O mundo era simples. Comprava-se pão na padaria, detergente na drogaria, bolos na leitaria. Toda a Lisboa vivia nesta calma provinciana que não tinha nada a ver com os modelos e continentes de agora e os metros e as pessoas a correrem 2, 3 ou 4 horas por dia só de casa para o trabalho. Havia tempo. Havia tempo!
No verão notava-se mais? Talvez. Mas de inverno também havia pais que levavam os meninos todos da rua à escola, parando de casa em casa, e ainda tinham tempo de ir para os respectivos empregos. As mães podiam ficar em casa e fazer lanches e mandar fazer sestas e os trabalhos de casa. As crianças mais velhas podiam brincar na rua, aos bandos, de putos. Tudo isto era Lisboa e agora é deserto de velhos, mendigos e casas arruinadas, toda uma cidade antiga debaixo de pó como Pompeia.
Como é que o dinheiro chegava com apenas os pais a trabalhar? Se calhar não chegava. Se calhar a inocência era tanta que se pensava que chegava.
Lembro-me dos domingos de Agosto daquele ano de 1980, e como foram quentes, ou se calhar era apenas que eu não tinha memória de tanto calor e fui apanhada de surpresa, e essas coisas não se esquecem. Não que o verão fosse um tempo feliz, mas nessa altura ainda não era tão infeliz. Nessa altura ainda os amigos do bairro não me desapareciam meses a fio, nessa coisa das férias que os levava para longe, para muito mais longe do que eu pensava e do que ainda provavelmente penso. Coisa estranha, essa de viajar, de ir para a "terra" ver a "família", de ter lá "casa" ou "parque de campismo", o que raio seria isso.
Havia alguns dias em que o capricho levava o meu pai a passear-nos à praia. Porquê apenas alguns dias por ano ou só de manhã, nunca percebi porque nunca me entrou na cabeça. Para mim as coisas fazem-se fundo, não se toca só na superfície, mas tenho para mim que era a minha mãe que não gostava do mar.
Os domingos eram então dias chatos em que o momento alto era ir ao único restaurante que estava aberto quando as leitarias tinham fechado para férias e comer uma mousse de chocolate. Depois havia que sentar a vegetar em frente à televisão até ser noite e ser hora de dormir, mas eu não dormia. Nessa altura não podia perceber como a frustração e o ódio se acumulava mais nesses dias quentes, como vapor a apitar, em que se ficava no fresco do escuro de casa. Não admira que aqui se morra de verão. É tradicional. Verão, pó, cemitério, calor, suor a escorrer pela cara abaixo dos coveiros. Para mim verão sempre foi morte, mesmo antes de o saber que o era.
Mas não em 1980, talvez o último ano da inocência. Lembro-me que foi nesse ano que tive um pressentimento, um terrível presságio, de que as coisas iam correr mal. Não, não tinha indícios, mas uma pessoa sabe estas coisas tal como sabe se é menino ou menina. Sabe-se. Ponto final. Mas não foi no verão. No verão ainda se ia todos os dias depois do almoço tomar café à leitaria, as mães e os filhos, e ainda havia esperança.
Eu devia odiar o verão tal como se odeia a morte. Mas não o fiz. Abracei-o muito antes de saber apreciar a solidão. Iam-se todos, ficava só eu. Era uma questão de tempo que um dia fosse eu que me ausentasse quando me convidassem para ir também. Quem olha a solidão muito tempo acaba por descobrir nela encantos inesperados. Viciantes. Plenos de satisfação.
Lembro-me que tinha uma espécie de trabalho de casa por dia, naquelas grandes férias de verão, mas acabava tudo na primeira semana de férias para ter mais tempo livre. *Risos* Hoje percebo o disparate dessa ideia. Como se eu precisasse do tempo livre para alguma coisa. Os meus amigos e colegas nunca os completavam, e agora percebo porquê, porque iam de férias e faziam coisas. Hoje eu resolveria não perder nem uma semana do meu tempo livre com esses deveres maçudos e gravitaria imediatamente para a frente da televisão. Why bother? Nada nunca mudou.

Isto era para ser uma memória agradável mas não o foi. Ainda estou para desencantar uma memória agradável do fundo do baú. Quanto mais olho para trás mais compreendo como fui infeliz, e quando comparo o antes como o agora mais me é aparente que se tivesse de resumir a minha vida numa palavra essa seria "desperdício". Mas penso que houve um propósito, um plano superior para a minha existência. Que não seja perceber isto:

As pessoas são como as plantas. Deite-se uma semente em bom solo, com muito ar livre, e sol, e nutrientes generosos, e água suficiente, e essa planta crescerá e será uma grande árvore e impressionará com a sua imponência. Deite-se a mesma semente num quarto escuro, num vaso ínfimo, e prive-se a terra de água, e esqueie-se-lhe o tronco e corte-se-lhe qualquer ramo que se atreva a despontar, medroso, em busca de luz, e ter-se-à uma planta esbranquiçada, raquítica, moribunda. Se muitos anos depois essa planta sem sorte ainda estiver viva é já uma vitória do seu instinto de sobrevivência. Nada de novo. Eça de Queirós já o disse n'"Os Maias".

Não tenho tempo para escrever mais. Tenho de ir ver televisão.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Memória

Diz-se que quando se morre toda a vida passa como um filme em frente dos olhos.


E depois houve aquela vez em que eu me senti feliz pela primeira vez desde há muito tempo. E falei com ele ao telefone. "Sabes, já me sinto muito melhor. Agora tenho uma cama, um quarto, e está a dar um filme de terror. Sinto-me quase feliz".
"Não me digas", desdenhou ele, "que isso é que te faz feliz?"
Como é que ele poderia saber se sempre teve um quarto, uma cama e, diga-se de passagem, uma mobília inteira (!!!). Queria que eu lhe dissesse "não, amor, só tu me fazes falta, e o teu corpo, e o teu cheiro, e a tua voz, e o teu amor". Mas foda-se, não, o que me faltava mesmo era uma cama.

Um destes dias vi um filme sobre a guerra americana da secessão, em que dizia um dos soldados: "Durante todo aquele tempo senti-me morto, mas afinal tinha apenas fome".


E lembro-me de outra vez, semelhante a esta. Mostrei à minha amante, a minha querida, o orgulho da menina dos meus olhos, a minha nova torneira (porque durante anos não houve torneira, houve uma bacia de plástico onde se lavava a cara em cima de um móvel de cozinha com tampo de mármore), e ela gozou-me. "Ai Jasus, uma torneira, binde ber a minha torneira". Só o amor me fez perdoar. E ainda dizem que sou fria. A água também era fria, especialmente no inverno. Lembro-me de ser tanto frio e as rachas das paredes da casa permitirem ver as pessoas que passavam na rua, que em vez de me despir, não o fazia, e acabava por vestir o pijama por cima da camisa interior e das collants. Tive sempre tanto frio, tanto frio!

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

First and last and always

Uma história que precisa de ser contada antes que o nevoeiro da memória a leve para sempre.
A noite em que eu percebi onde eu pertencia. A noite em que eu percebi que era gótica.

No sábado anterior, tinha ido ao Incógnito com uns amigos. Isto foi, salvo erro, em 1989. Talvez no Outono. Não me recordo. Dos amigos só me lembro de um, o único que importava. Aquele de quem ainda sinto saudades. Uma alma gémea perdida na outra vida.
Nessa altura já há dois anos que andava pelo Bairro alto, pela Juke Box, até pelo Frácil, e também parava num bar todo cinzento chamado... Foi-se. O nome foi-se. Agora é o restaurante Põe-te na Bicha. Lembro-me de noites e noites passadas a falar de música à volta das mesas cinzentas, a ouvir incessantemente Joy Division e a beber não sei o quê. Com groselha. Tenho a certeza que levava groselha. Ou talvez não.
Nessa altura já sabia que pertencia a uma onda alternativa, cheia de jovens urbano depressivos, artistas, ou melhor, aspirantes a artistas, muitos deles engolidos pela heroína pouco depois. Muitos deles perdidos num mundo de fatos e gravatas. Muitos deles desaparecidos em acção.
Então, naquele sábado no Incógnito, roubaram-me a carteira. Lembro-me dos pormenores. Devia 1500 escudos, três vodkas com laranja (o vodka era a 500 escudos) e como éramos todos uma cambada de tesos, só levávamos o dinheiro à conta. Ninguém me podia pagar a despesa porque ninguém tinha dinheiro.
Não me lembro se deixei lá o meu BI ou se confiaram na minha palavra. Eu era, afinal, cliente conhecida da casa.
Ficou combinado voltar lá assim que pudesse.
Isso aconteceu na segunda feira seguinte. Fui acompanhada de dois amigos. Nessa altura costumávamos ir ao cinema às segundas feiras. Não me lembro se ainda íamos para o cinema ou se já voltávamos. É possível que fosse na volta porque o Incógnito só abria às 10, ou seriam 11?, e os amigos estavam com pressa.
O que descobri nesse dia obliterou tudo o resto.
Entrei sozinha, só para pagar a conta.
A casa tinha acabado de abrir. O primeiro cliente tinha acabado de chegar. Um tipo de preto, encostado ao corrimão do primeiro andar. Estava escuro. Mal se via coisa alguma. Eu conhecia o sítio de cor, não precisava de luz.
Segui um dos empregados de bar até à cave, onde também era a pista de dança. Nesse momento, o DJ levantou o som da música. Ligou a máquina de fumo. Um cheiro a gelo e um frio penetrante fizeram-me esquecer o que me levara ali. E de repente, percebi que estava escuro, no meio do nevoeiro, sem pessoas excepto o vulto de preto, e das colunas de som ouviu-se:

Brother wolf, sister moon
Your time has come
Brother wolf, sister moon
Your time has come

And the wind will blow your tears aways
Will blow your tears away
Will blow your, your tears aways, yeah! Your tears away, yeah!



Ian Astbury cantava. Eu parei. Esqueci-me dos amigos lá fora e acho que acendi um cigarro. Nesse momento o tempo parou. Não queria sair. Tudo o resto não fazia diferença. As pessoas não importavam. Só o nevoeiro, o som e a escuridão falavam comigo. E ouvi-os falar comigo. E as pessoas calaram-se. Eu estava sozinha. Absolutamente sozinha. E era agradável.
Nesse momento percebi que as pessoas lá fora, à minha espera, nunca sentiriam o mesmo.
Fui transportada para onde sempre estive sem saber, e encontrei-me.
Fiquei ali até aos Cult darem lugar a outra música. Não sei que desculpa inventei para a minha demora. Para explicar como fiquei embriagada de som e escuridão e nevoeiro. Para explicar que tinha encontrado o meu lugar e não queria sair.
Acabei por sair. E por voltar.
O gótico foi a única coisa que estava dentro de mim antes da vida e que continuou dentro de mim quando essa vida acabou.
O som, a escuridão, o nevoeiro. Os vultos negros desconhecidos. A solidão absoluta.
O único, o primeiro e o último porto de abrigo. First and last and always mine.

Nessa noite tive a certeza. Nunca nada foi o mesmo nunca mais.