Embora conheça a obra de Stephen King através dos filmes, dele só tinha lido "Salem's Lot", publicado em 1975, e não fiquei bem impressionada com a escrita a ponto de querer ler mais. Para um autor competente, mas com personagens bidimensionais, os filmes chegavam muito bem.
Este livro de 2006, “A História de Lisey”, é outra conversa. É outra escrita. É grande literatura. É certo que se passaram 31 anos desde “Salem’s Lot”, e muita evolução como escritor, sem dúvida, mas há aqui uma liberdade de linguagem, de narrativa, até de construção, que só o estatuto permite a Stephen King. Uma editora nunca publicaria este livro a um autor desconhecido, muito menos sendo um livro de “género”. Num livro de Terror espera-se que o autor conte a história decentemente, provoque alguns sustos, e acabe depressa, para consumo rápido. “A História de Lisey” é tudo menos consumo rápido e não é para leitores impacientes ou que gostam de muita acção e muitos sustos.
Mas aos leitores que gostam de boa escrita, de uma estrutura fora-da-caixa, de personagens bem construídos, de uma viagem ao psiquismo de cada um deles, este livro é para vocês.
Começa logo com o tamanho. O formato do livro que li é dos mais pequenos e tem 600 páginas, mas as letras são minúsculas. Isto noutro formato talvez não chegasse às seiscentas, mas andaria igualmente pelas quinhentas e muitas.
Durante um terço do livro não acontece praticamente nada. Lisey é a viúva de um escritor de sucesso, Scott Landon, e dois anos após a morte dele ainda não decidiu o que fazer com o espólio do marido, apontamentos, livros, teses, jornais e revistas, e nem sabe se existe no meio daquela tralha toda um romance inédito. Lisey não é exactamente uma intelectual e nunca acompanhou de perto a obra do marido. Pior um pouco, ela própria admite que nunca gostou muito dos livros dele (Terror, dá-se a entender), e ele sabe disso. Lisey diz a certa altura que “Atracção Fatal” é que é um filme como deve ser que já viu muitas vezes, “nada daquelas tretas suecas com legendas”. Esta admissão diz-nos tudo o que precisamos de saber sobre a personagem. Questionei-me muito por que motivo tinha um intelectual casado com uma pessoa com encanto zero, na minha opinião, e não vou explicitar as conclusões a que cheguei.
Duzentas páginas a ler sobre uma personagem assim é violento. Lisey tem três irmãs (não percebi se são mesmo três ou quatro, era preciso ler de novo, o que não vai acontecer) e as primeiras duzentas páginas são quase só isto, drama familiar entre elas, memórias do marido, a exasperação de Lisey perante os interessados no espólio que ela nunca mais se decide a partilhar. O que nos prende é a maneira como King nos manipula, transformando-a numa narradora não confiável. A certa altura ela começa a falar com o marido. Em pensamentos, ou ouve mesmo a voz dele? E ouve a voz dele porque está a pirular? Lisey é uma mulher de meia-idade, não é nenhuma garota. Pode bem estar a pirular. O que eu não senti dela, nesta fase, foi desgosto. Só consegui sentir desgosto no fim, seiscentas páginas depois. O que me passou dela foi uma mulher banal, sem saber o que fazer à vida sem o marido (não tem qualquer ocupação), e ainda por cima demasiado preguiçosa para arrumar as coisas dele. Dois anos passados!
A primeira coisa que acontece que é digna de meter medo, é certa passagem em que ela julga que o marido possuiu o corpo da irmã, catatónica, para falar com ela. Mas por esta altura já a julgamos tão maluquinha que temos dificuldade em acreditar nisto. Se não fosse um livro de Stephen King nem me passaria pela cabeça que o que estava a acontecer podia de facto ter origem sobrenatural. E não haveria nada de errado nisto. Stephen King tem todo o direito de escrever um drama familiar com uma personagem a perder a sanidade.
Por esta altura também, já no segundo terço do livro, Lisey começa a ser perseguida por um fã obcecado e tresloucado, que a quer obrigar a abdicar do espólio do marido, seja por que meios forem. O fã obcecado é uma imagem de marca de Stephen King (“Misery”) que me faz pensar como é que ele não tem medo de escrever. Outra imagem de marca, infelizmente, é a mulher que vive em função do marido. É que Stephen King também é um homem “antigo”. Cresceu com mulheres a viver em função dos homens na sua vida. Mulheres como Lisey.
O que realmente mete medo é o que acontece lá para o meio, quando sabemos que tanto o pai como o irmão de Scott sofriam de alguma doença e/ou maldição que os transformava em monstros a certa altura das suas vidas. Quase como lobisomens, mas não são lobisomens. Sim senhor, meteu medo, e os leitores de Terror não vão sair deste livro defraudados.
A partir daqui, as coisas tornam-se mirabolantes. Não apenas uma, como várias personagens, têm o “poder” de ir a uma dimensão paralela apenas ao fecharem os olhos e quererem lá ir. Stephen King já escreveu tantos livros que desconheço se a explicação está algures na sua obra prolífica, mas mesmo assim eu acho que uma coisa destas merecia uma explicação aqui. Ficou inexplicado e é pena, porque por aquela altura eu já estava convencida de que estávamos a viver completamente no mundo de fantasia da cabeça de Lisey. Não me teria surpreendido se ela acabasse por revelar que tinha sido ela a matar o marido (o que a tinha levado a pirular), ou que Lisey fosse uma personagem numa história de Scott (o marido também não batia bem da bola), ou que Lisey acabasse no manicómio com todas as irmãs a olharem para ela com piedade, ou outra coisa ainda mais estrambólica. Neste aspecto, fiquei decepcionada com o fim. Pelo menos compreendi o título, e porque é que se chama “A História de Lisey” em vez de só “Lisey”, mas mesmo assim o motivo não me convenceu muito.
“A História de Lisey” vale sobretudo pela escrita e pela estrutura não-linear, complexa, que nos obriga a ir completando o puzzle por nós próprios. Stephen King atinge aqui uma maturidade como autor que até lhe permite ir tecendo comentários sobre o mundo da literatura e da escrita que muito provavelmente só outros escritores vão compreender na sua totalidade. “A realidade é o Ralph” foi uma das que me fez rir para dentro.
Só lamento que a protagonista seja tão desenxabida (sem gracinha nenhuma). Mas a realidade é o Ralph, e as desenxabidas desta vida, e Stephen King retratou-a muito bem.
domingo, 10 de janeiro de 2021
A História de Lisey, de Stephen King
quinta-feira, 25 de janeiro de 2007
Mais vale ver o filme
"Salem's Lot", de Stephen King, relata a chegada de um vampiro muito antigo à pacata cidade de Salem's Lot e a consequente infecção vampiresca que em espaço de poucos dias transforma todas as casas e respectivas famílias - pai, mãe e filhos bebés - em covis de vampiro. Desta sorte só escapa um garoto que lê histórias de terror, um escritor e um padre. Quanto ao padre, não tenho bem a certeza se escapa. Terá talvez, na sua fuga da igreja onde já não podia fisicamente entrar, inciado um novo foco de de vampirismo para onde os passos o levaram. O seu destino é de todos o mais misterioso. Do ponto de vista literário, deve ser a primeira vez que o digo aqui: mais vale ver o filme. Este ainda não vi mas não custará muito que supere o livro, e podem-se esperar os sustos e saltos na cadeira com que tão mal o cinema americano tem transformado o terror num filme de "screams". Do ponto de vista do vampirismo em geral, que é o que interessa a nós, "vampire lovers of the world", a disseminação vampírica é inconsistente. Stephen King segue o cânone medieval em que a vítima se transforma também em vampiro. Ora, se assim fosse, desde esses tempos até hoje, e com tanta gente mordida, já éramos todos vampiros. (Talvez sejamos e não saibamos.) Tudo o que não tem lógica, numa história de terror, perde grande parte do potencial (se não todo) do seu objectivo último que é meter medo. É para isso que servem as histórias de terror. Mas Stephen King não quis ser original. Se Tolkien reescreveu o Velho Testamento, o senhor preferiu reescrever "Drácula" à americana... e não saiu nada de jeito. No mínimo, e para que o mito fosse respeitado, ao eliminar o vampiro principal, o patriarca, a fonte, todos os outros se desfariam em pó. Não acontecendo isto, e não sendo observada a regra de que a vítima tem de beber o sangue do vampiro que a transforma (como em Bram Stoker ou Anne Rice) é como digo: por esta altura até o Van Helsing seria um vampiro. Filosofia? Sim, há. Um dos que se safam, mas porque foge a tempo, é o sheriff da cidade, que com a sua sabedoria de muitos anos de observação se apercebe desde o princípio do que está a acontecer e justifica o lavar de mãos com a sua decepção geral perante o ser humano: "Acho que eles vão gostar de ser vampiros. A cidade já estava morta. Sim, eles vão apanhar-lhe o jeito. Mas eu não. Eu vou-me embora." Há sempre quem o faça, caro Gillespie.
Outro livro que li recentemente foi "Os Filhos dos Homens" ("Children of Men") de P.D. James, e tão fraquinha é a literatura que mais uma vez... mais vale ver o filme. Não que a ideia original não seja boa, um futuro próximo em que o ser humano perdeu a capacidade de se reproduzir e que por isso está condenado a uma lenta extinção, mas a história (passada em Inglaterra) perde-se demais em chás das cinco, encontros em museus e visitas nostálgicas a igrejolas decrépitas. Dizem que o filme tem mais acção. Mesnos acção seria impossível, excepto, talvez, se fosse Manoel de Oliveira a realizar. Filosofia? Eu cá, se fosse Deus, e se quisesse acabar com esta merda toda, e acho que há razões para isso, era mesmo assim que o fazia. Um apocalipse soft, sem massacres nem anjos de espadas vingadoras, fazia mesmo o meu género de apocalipse. O meu tipo preferido de Ómega.
