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domingo, 1 de dezembro de 2024

Sisi / Sissi (2021 - ?)

A vida de Sissi, a imperatriz Elisabeth de Áustria, podia ser um romance do Romantismo. Tudo sobre ela é interessante, até ler a Wikipedia. Sissi podia encarnar a típica heroína do Romantismo, principalmente se incluirmos também o seu primo Ludwig, rei da Baviera, que acabou por se isolar do mundo e morreu em circunstâncias misteriosas, talvez um ultra-Romântico se não mesmo um gótico da altura. Sissi podia muito bem ter sido o modelo para a imagem de Cinderella como a imaginamos hoje: bonita, em traje de baile, os longos cabelos apanhados em penteados perfeitos. Mas a vida de Sissi não foi um conto de fadas.
Casou aos 16 anos com o imperador da Áustria, Franz Joseph I, entrando na família dos Habsburgos que eram os Donos Disto Tudo na Europa da época, com gente na monarquia de todos os países e mais algum. Sissi vinha de uma educação mais informal e ressentiu-se da vida na corte, mas eventualmente adaptou-se. O mais fascinante, porém, é o quão moderna ela nos parece agora. Sissi era obcecada com o seu peso e a sua figura, era anoréxica e fazia ginástica e equitação. Passava horas a ler e a escrever durante a noite, e até começou a fumar, o que era chocante para uma mulher. Até a sua morte é a de uma heroína Romântica.
Esta série alemã/austríaca foi feita à semelhança de “Victoria”, um misto de realismo e muito do glamour e aura da época. Uma pessoa fica deslumbrada com os vestidos, as festas, os bailes, os banquetes, as paisagens. Até a guerra é filmada como um vídeo de música. Por outro lado, quer mostrar-nos a realidade desconfortável e consegue ser perturbador, de formas que se calhar nem acredito. Por exemplo, nesta série Sissi torna-se amiga de uma prostituta para aprender coisas para agradar ao marido, e leva-a consigo para a corte. As cenas entre as duas são… de amigas muito modernas, digamos assim, sem as tornar lésbicas. O final desta amizade foi uma das coisas mais difíceis que já vi em filme ou televisão. Mas acreditar que isto aconteceu na realidade? Nem pensar. Também não acredito na paixão entre Sissi e o marido, um casamento arranjado entre primos. Mas, tal como em “Victoria”, a série não resultaria tão bem sem o par romântico, não é?
Tal como gostei de “Victoria”, é impossível não gostar também de “Sissi”. No entanto, apesar da base histórica, esta é uma série grandemente ficcionada para encher o olho e todos os clichés românticos da nossa imaginação colectiva desses tempos de damas antigas, coches e princesas a cavalo com os cabelos a esvoaçar. É bonito, não pode ser real, mas estimula o interesse por descobrir mais.

PS: Agora que já vi duas temporadas posso esclarecer que qualquer semelhança desta série com a realidade é pura coincidência. Sabendo isto, é entretenimento.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: História, século XIX, Romantismo, Victoria (série de televisão), Maria Theresia (série de televisão)

sábado, 2 de dezembro de 2017

Medici, Masters of Florence

 

Tudo o que disse aqui sobre o rigor histórico de “Victoria”, não poderei dizer sobre “Medici, Masters of Florence”. Desta vez, e para meu desgosto, em vez de uma representação verídica dos Medici, e se há bastante a dizer sobre os Medici!, novamente enveredaram por uma versão fantasiada e falseada sobre uma das famílias mais importantes do Renascimento. É pena. É sempre pena.
Pelo menos não deliraram a figura de Cosme de Medici como o fez “Da Vinci’s Demons” (série que eu via por masoquismo e na esperança de que o Da Vinci da série conseguisse chegar a Marte metido num barril de madeira movido a vapor de água, que foi só o que faltou) mas mesmo assim transformaram de tal maneira personagens, inclusive matando um deles que não morreu assim na vida real e cuja descendência se sentou no trono de França, o que não é coisa pouca, que mais valia terem feito uma série ficcional sobre uma família de nome parecido, os Mellinis ou algo que o valha, inspirada na vida dos Medicis.  Era mais honesto e menos irritante.
Para começar, Giovanni de Medici, pai de Cosme, nunca é assassinado, o que deita por terra todo o drama “policial” de descobrir quem o matou. E isto foi só o início. Desgosta-me assistir a séries históricas que não respeitam a História, e desgosta-me ainda mais quando o objectivo é criar um enredo mais violento, supostamente mais interessante, para ver se capta a audiência da Guerra dos Tronos.
Não bastou que o actor de Cosme seja Richard Madden, o Robb Stark King in the North da Guerra dos Tronos, como ainda foram buscar David Bradley, o Walder Frey da mesma Guerra dos Tronos, para fazer o papel do pai da sua noiva, Contessina, e combinar o casamento entre ambos numa cena fria e desagradável, levando toda a gente a pensar, inevitavelmente, no Red Wedding.

[Por falar em Guerra dos Tronos, quem tem saudades da Lady Olenna pode ver a actriz Diana Rigg na segunda temporada de “Victoria” como Duquesa of Buccleuch, num papel quase igual ao da Lady Ollena embora menos dramático e mais humorístico.]

Eu tinha muito interesse nesta série devido à importância que banqueiros como os Medici tiveram no despontar do Renascimento. Vi algo disto, mas queria ver mais. E havia mais para ver. Não havia necessidade de assassinatos que nunca aconteceram e de drama fantasioso. A realidade foi suficientemente interessante, e ainda nem chegámos ao Maquiavel!
Encontrei este artigo sobre todas as imprecisões da série, para quem quiser comparar: Medici Masters of Florence. Truth and Fiction in the TV series

Se nos conseguirmos esquecer disto tudo, é uma série que entretém. Mas não educa.

sábado, 22 de abril de 2017

Victoria


Admito que conhecia muito pouco da vida pessoal da rainha Vitória, à parte as máculas da era a que se viria a chamar vitoriana.
(E dos vestidos, é claro! Os vestidos! E os decotes! E as capas! E os coletes! E as gravatas! E as cartolas!... Mas vou tentar controlar-me.)
Desde já tenho um grande elogio a fazer a esta série: a precisão histórica que tentou sempre respeitar. Isto não devia ser um elogio, devia ser um requisito obrigatório quando se trata de uma série de ficção que pretende retratar a vida de personagens históricas e reais, mas ultimamente os argumentistas enveredaram pela mania irritante de alterar pessoas e factos ao serviço do que consideram (na cabeça deles) um enredo mais “chocante”. Exemplos: Os Tudors, Os Borgias... Não só não há qualquer necessidade, como há quem deteste estas liberdades, como há outras maneiras de contar uma história diferente da realidade (Fantasia, meus amigos, Fantasia!).
Não é doença que tenha contagiado esta “Victoria”, e nem que fosse só por isso já teria amado a série. Adorei, no fim de cada episódio, ir pesquisar sobre cada uma das personagens que me chamaram a atenção e descobrir que foram efectivamente reais e que a vida desta gente foi muito mais interessante do que eu tinha imaginado. (George III, avô de Vitória, teve 15 filhos legítimos da mesma mártir consorte, dois dos quais foram reis, mas por capricho do destino a descendência feminina de dois dos herdeiros à coroa quase tornava inevitável que fosse uma rainha a chegar ao trono, como aconteceu, como já tinha acontecido antes, como acontece agora. Destino da Inglaterra?...)

Série histórica à antiga
A série segue a vida da jovem Victoria desde o momento em que se torna rainha. Muito do encanto desta personagem se deve à interpretação da bela e talentosa Jenna Coleman, que ajuda a transformar esta história num verdadeiro conto de fadas. Por opção, a realização opta pelo estilo estético da época, o Romantismo em todo o seu esplendor, sem que tal retire qualquer realismo à narrativa histórica. Não podia ter sido uma melhor decisão!
Não contente com isso, a série desenvolve em paralelo algumas das histórias dos criados do palácio. O contraste é brutal. Aqui já temos o Realismo de Dickens (ainda um Realismo muito Romântico, na minha opinião), nas ruas esquálidas, sujas, escuras e nevoentas por onde estes se movimentam fora do ambiente palaciano, ruas onde crianças roubam e pedem esmola e vendem fósforos e mulheres sem escolha se prostituem nos cantos e becos mal iluminados, ruas onde se adivinha a passagem de um Jack Estripador, casas frias e miseráveis e roupas gastas até ao farrapo. Tudo isto era a outra face do Romantismo, a outra face do progresso que arrancou aos campos toda esta massa de indigentes cuja melhor oportunidade na vida seria uma posição como criados da casa real. É esta grande ambição que consegue Ms. Skerrett, personagem mais interessante, talvez, do que a própria Victoria, que confrontada entre a promessa de amor romântico (e incerto) e a independência financeira invejável como camareira da rainha, opta por desconfiar do amor e apostar na carreira, uma opção inteligente mas ainda assim amarga. Ms. Skerrett, e outras como ela, não se podiam dar ao luxo de acreditar no Romantismo.


Como num conto de fadas, a série termina com o nascimento da primeira filha de Vitória e Alberto, esposos amantíssimos e felizes para sempre. Desconheço, de momento, se há intenções de renovar a série, mas seria uma excelente ideia. O reino de Victoria foi longo e cheio de acontecimentos, e eu sempre gostaria de ver se a continuação permite o mesmo Romantismo do início ou se, forçosamente, se lhe sobreporá o iminente Realismo que se segue.


Depois de escrever este texto, descobri que a série foi mesmo renovada. A ver vamos, então.