domingo, 21 de junho de 2026

Homens de Honra (2026)


"Homens de Honra" é a história dramatizada de Álvaro Cunhal e Mário Soares, e de como se encontraram, convergiram e divergiram. Mostrar como as coisas se passaram, apesar do aspecto ficcional que o género biográfico envolve, é muito importante para a preservação da nossa memória histórica à medida que estas figuras vão ficando cada vez mais distantes das gerações que já não as conheceram.
Gostei muito até aos últimos dois episódios. O episódio da fuga de Peniche, tenso e cheio de acção e perigo, dava um filme inteiro a não ficar atrás de "Prison Break". "Homens de Honra" seria interessante até apenas como série de época, mesmo com personagens fictícias.
Não gostei nada da substituição por actores mais velhos nos dois últimos episódios e não vejo a necessidade de o ter feito. Romeu Vala estava a arrasar como Álvaro Cunhal. Obviamente que não conheci a pessoa na juventude (nem eu, nem o actor) mas a interpretação é tão bem decalcada da personalidade mais velha que me convenceu completamente de que aquele podia ter sido o jovem Álvaro Cunhal, faceta Don Juan e tudo. Na verdade, nem conhecia esses pormenores da vida privada de Cunhal porque nunca gostei de meter o nariz, mas acredito plenamente que toda aquela aura de espionagem/clandestinidade/idealismo/liderança/perigo podia muito bem ter sucesso com o sexo feminino.
Alexandre Carvalho já não ficou tão parecido com Mário Soares, nem ele nem o actor que o substituiu, Tónan Quito, porque Mário Soares tinha particularidades físicas muito próprias e seria sempre difícil recriá-las, nem é isso que está aqui em causa, muito menos as interpretações dos quatro actores. O que está em causa é que assim que identifiquei os personagens com os actores, os personagens passaram a ter aquelas caras. Eram as caras que eu reconhecia e em que estava investida. A substituição das caras deu-me a sensação de que estava a ver outra série, em que a dinâmica criada pelos actores substituídos se perdeu a meio. Talvez tivesse resultado se os actores tivessem sido substituídos mais cedo e durante mais episódios, para poderem criar uma dinâmica própria com o espectador, mas assim sendo pareceu-me abrupto e desnecessário. Eu, pelo menos, como espectadora, teria preferido ver os actores originais envelhecidos, mesmo que ficasse um bocadinho forçado. Afinal, desde o primeiro episódio que é forçado: este é Cunhal, este é Soares. A substituição obrigou a forçar outra vez, e a minha paciência como espectadora não acompanhou a mudança. Nem sequer tentei perceber quem eram as novas caras de todos os outros substituídos.
Sem desprimor ao actor Tónan Quito, também não achei que a substituição tenha sido benéfica. Fisicamente, o actor é mais parecido com Ricardo Salgado do BES (se ainda não fizeram a série, podiam fazer) e em vez de ver Soares via Salgado, o que nem vou comentar mas que foi "algo" aflitivo. Também acho que o actor Tónan Quito é fisicamente mais parecido com José Sócrates. Pela minha saúde, sem desprimor absolutamente nenhum. Até deixo aqui a sugestão, e seriam, tanto Salgado como Sócrates, dois papelões do caraças.
Também a nível das parecenças, e numa nota humorística, não reconheci João Soares. Pensei que era Vasco Pulido Valente ou Fernando Rosas, por causa do colete de malha.* Mania de usarem todos o mesmo. Por outro lado, pensei que Daniel Proença de Carvalho era Marcelo Rebelo de Sousa tal e qual me lembro dele, barbicha e tudo. Já Maria Barroso não ficou nada parecida, tenho de dizer, pelo menos da altura em que a conheci. O que me fez cair o queixo foi o general Ramalho Eanes do actor João Tempera, arrepiante de tão igualzinho, até na voz e na maneira de falar.
Quando escrevi aqui sobre "Ena, A Rainha Vitória Eugénia", salientei que a série não explica os factos históricos em profundidade, é mais dirigida a quem já os conhece. Achei o mesmo de "Homens de Honra". Gostei da voice over que ia guiando o espectador em certas passagens, mas penso que no futuro ainda vamos precisar de mais voice over e legendas. Por exemplo, só identifiquei o general Humberto Delgado quando ele disse "obviamente, demito-o". Tudo isto foi antes de mim, e o que é antes de mim é História, um rumor de outros tempos que nos chega dos mais velhos.
Já não tive esta desconexão com os factos que vivi, embora os dois últimos episódios não os retratem como me lembro deles (o que é natural, porque já entramos no campo do subjectivo). Fiquei muito surpreendida que a série não tenha mencionado o "engolir do sapo". Tendo em conta que "Homens de Honra" retrata a relação entre Cunhal e Soares, o "sapo" é relevante e pensei que estavam a guardar para o clímax. Mas não, nada sobre o assunto. 
Por último, e vou ter muito cuidado ao escrever isto, acho que "Homens de Honra" não fez justiça ao legado de Álvaro Cunhal, e não porque a série seja tendenciosa mas se calhar exactamente por não o ser e por se ter cingido aos factos. Chegamos ao fim e podemos ser levados a conjecturar que o único legado válido de Álvaro Cunhal, que nunca admite os crimes da União Soviética e que aparece como um homem ultrapassado pelo tempo, foi a Festa do Avante, onde a malta hoje vai beber umas cervejas e ver umas bandas, enquanto que Mário Soares foi eleito presidente da República. Um perdeu, o outro ganhou. Ou se calhar sou eu que estou a ser tendenciosa, ainda que inconscientemente, a ler coisas que não estão lá. Não parto do princípio de que tenha sido isto que a série tenha querido dizer, ou sequer que tenha querido fazer qualquer tipo de comentário, mas penso que podia ter sido dedicada mais profundidade ao legado de Cunhal. 
Tudo o que aconteceu nos últimos dois episódios me pareceu apressado, uma montagem de acontecimentos políticos que podia ter vindo do arquivo das televisões, sem o dramatismo que me fez investir nos personagens Álvaro e Mário, cada um com os seus ideais e motivos.

* O colete de malha pode ser imaginação minha. Pesquisei as fotos das pessoas mencionadas no Google e de facto não os encontrei de colete de malha, mas a ideia deve-me ter vindo parar à cabeça de algum lado. Afinal, quem é que nunca usou um colete de malha nos anos 70 e 80? Nem eu escapei.

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PARA QUEM GOSTA DE: História, séries de época, política, biografia

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