domingo, 22 de janeiro de 2012

E apagou-se a luz

Queridos amigos...

*evil grin*

2010 foi um ano muito divertido. 2011 ainda foi mais. Fartei-me de rir. (Bem vos disse que riria.)
Não, não fiquem indignados. Não vale a pena. Este ano já não vou rir. Já perdeu a piada.
Quando, há meia dúzia de anos, comecei a escrever neste blog sobre o estado da nação, e expliquei como a mediocridade havia de afundar o país, porque o mérito não era reconhecido, porque a Justiça não funciona, porque sem a Justiça a funcionar a democracia não funciona, porque nos íamos tornar todos escravos sem escolha, etc...
Nessa altura, e já pude falar do assunto pessoalmente com pessoas que me lêem desde então, houve comentários de gente de todas as idades -- deixem-me salientar, de todas as idades -- a chamarem-me doente, depressiva, a sugerirem que tomasse medicação para a depressão, a culparem-me de ter ido parar ao call center por falta de mérito. Coisas assim. Meia dúzia de anos mais tarde...

*evil grin*

... meia dúzia de anos mais tarde, dizia eu, aconteceu-lhes o impossível: alguns cresceram, e agora estão no call center também ou nas lojas do centro comercial ou nas caixas de supermercado. É à escolha. Ganha-se o mesmo.
(Mesmo assim, meus amigos, já houve uma evolução nas mentalidades, por isso não se queixem muito. Na minha altura, apenas há meia dúzia de anos, tive de mentir, tive de fingir que não era licenciada, tive de falsificar o meu currículo, para ser aceite sequer numa entrevista de emprego para call center! Actualmente, meninos mais novos, graças a pioneiros e pioneiras como eu, já não precisais de mentir. Podeis sair das faculdades e ir directamente à agência de trabalho temporário-permanente com a vossa licenciatura que eles já não se importam e vos esperam de braços abertos assim que terminardes o estágio não remunerado financiado pelos vossos papás na qualquer área do saber que vos passou pela cabeça prosseguir, cheios de esperança do tal mérito.)
Outros, os que tiveram a sorte de nascer um bocadinho mais cedo, uma geração privilegiada a que eu chamo "os irmãos mais velhos", que vieram ao mundo uns anos antes do 25 de Abril e se viram de repente no País das Maravilhas, indignam-se muito ao ver os filhos, os irmãos mais novos, e a eles próprios, num desemprego e numa desesperança que nunca lhes cruzou o espírito deslumbrado que lhes tocasse na pele. Excepto à meia dúzia de "irmãos mais velhos" que chegaram ao poder desde o tempo do engenheiro. [Cuidado com eles. Mudaram de cor mas são a mesma cambada. Não sabem sequer o que é querer limpar o rabo e faltar o papel higiénico mas não se importam de dizer aos outros 'limpem-se aos dedos'. Sempre vos avisei quanto a eles. Quem não os conheça que os compre.]
Os mais velhos que esses, coitados, dividem-se entre os alucinados que ainda julgam viverem no PREC e os que se contentam em dar graças ao Governo pela pensãozita. Destes nem vale a pena falar. É natural que estejam loucos. Depois de nascerem no tempo da guerra ou no período em que ainda lhe sentiam os efeitos de penúria, e passarem a maior parte da vida sob uma ditadura, e da esperança que foi saírem dela, e caírem a seguir... nisto, não é de estranhar que estejam afectados da cabeça. (Eu também estou, e não sou tão velha como eles, mas ainda estou suficientemente lúcida para saber que estou doida.)
Todos estes pobres deslumbrados se indignam.
Houve uma altura, aqui neste blog, em que se repetia a graça, em post ou nos comentários: "todos os dias acorda um". (Lembram-se?)

Acreditem ou não, ainda não acordaram todos, isso é que é intrigante!!!

Mas indignam-se, e indignam-se tarde.
Muito, muito tarde.

Sabem quando é que eu me indignei, meus amigos? Há vinte anos atrás.
Foi precisamente nos anos 90, há vinte anos atrás, sensivelmente, estava eu a acabar o meu curso quando vi a escuridão. Mas lá está, era eu que estava doente. Era eu que estava a ver fantasmas.
Agora indignam-se, e vão para o Facebook chamar nomes ao mesmo homem que há vinte anos foi um dos responsáveis pela minha indignação (mas longe de ser o único!). Estive a ler a página de comentários do fulano, e a mim o que me indigna é a falta de memória de quem tinha obrigação de se lembrar. Só os mais novinhos têm desculpa. Os outros, lamento, se não fizeram a vossa cova ajudaram a cavá-la. Onde estavam vocês, indignados, quando eu me indignei nos anos 90? Eu lembro-me. Vocês lembram-se? Ou fumaram assim tanta ganza que já não há nenhum neurónio nessa cabeça?
Acabei de dar a resposta à minha própria pergunta. Pois foi. Fumaram muita ganza. Eu sei porque me lembro. Não se ofendam, porém, porque eu não estou melhor. A benzodiazepina também não faz melhor ao neurónio, e há coisas que uma pessoa mais vale esquecer. De certa forma, tinham razão. O que me faltava era medicação, não anti-depressivos, porque já não há cura para estas trevas, mas ansiolíticos. Anestesia. O que é preciso é anestesia.

Por isso não me indigno. Nem me queixo. Para mim já é tarde. O meu barco já partiu. Já tive mérito mas já não tenho. Nem para caixa de supermercado porque me engano nos trocos e era logo despedida. Imaginem vocês que de um dia para o outro até já nem sei escrever português! Não há, de facto, neurónio que aguente tanta injustiça. Fundiu-se tudo.
Completo este ano os 40. Posso dizer que até tive sorte em arranjar um trabalhinho antes dos 35, ou já não arranjava nada. Assim haja saúde e transportes públicos para ir trabalhar, e até se sobrevive. Por enquanto.
Depois não sei, nem sei quando será o depois.
Isto de ser oráculo tem muitas desvantagens. Como diria o Nostradamus, "depois de 2000 não vejo nada". Eu também, lamento, não vejo nada no futuro. Nada de nada.
Há certas alturas em que até um oráculo decide fechar os olhos para não viver a tragédia duas vezes. (Esta aprendi no "Flashforward", o que se aprende com a televisão!)

Quem quiser saber como chegou aqui, clique ali em baixo na etiqueta com o nome do país. É possível que não apareçam os posts todos mas alguns hão-de aparecer.
Aos outros (poucos) visionários que também viram o futuro: coragem!
Aos recém-indignados: mais vale tarde do que nunca, mas olhem que é tarde, tão tarde! Mas tão, tão tarde que nem há palavra no dicionário para descrever o quão tarde.

Agora apagou-se mesmo a luz.
E olhem, meus amigos, até apagaram a televisão. Sempre dá jeito que as pessoas não estejam informadas, especialmente aquelas que não têm dinheiro para pagar tv-cabos e televisões novas e aparelhómetros.
Se me estão a ler, considerem-se pessoas de sorte. Muitos há que ainda não descobriram sequer que existe internet.

Vou acabar com uma pequena nota sobre algo que me está a impressionar profundamente, algo do país real, do país quotidiano. Desde há uns dois anos para cá, tenho notado uma crescente falta de bens à venda no supermercado, em quantidade e em variedade. Não é que não haja procura. Já não há sequer oferta. Nestes 40 anos de vida, ouvi falar dos tempos em que as pessoas queriam comprar e não havia à venda como uma coisa dos tempos da guerra, lá muito muito longe. Nunca pensei, na minha existência privilegiada, entrar num supermercado e não encontrar bens básicos como cotonetes, pacotes de sal, amendoins. Nunca pensei ter de andar de supermercado em supermercado à procura de bens tão básicos. E nem sequer estou a falar de uma determinada marca. Estou a falar de não terem o produto, seja de que marca, porque esgotou. E pode estar esgotado dias a fio. Não porque não haja procura. Mas porque não se investe para que haja oferta. Da mesma forma, por exemplo, alguns produtos únicos que eu usava, tipo sabonetes e afins, e não estou a falar de um ou dois mas de número significativo, deixaram de ser fabricados. Vendiam-se, mas deixaram de ser fabricados. Ora, se há procura, se há quem compre, se dava lucro, porque é que já não dá? Porque é que as fábricas fecham se há encomendas? Quem é que anda a fomentar uma economia de tempo de guerra? Quem é que anda a amealhar? O que vem por aí?...
Sintomático dos tempos.

Pensem nisto e até à próxima.

xoxos




post scriptum

Segui o meu próprio conselho e carreguei na etiqueta, para ver se ela ainda funcionava, e descobri este post engraçadíssimo de Janeiro de 2009, que até é giro e reproduzo na íntegra para não acabarmos isto em lágrimas, porque afinal rir é o melhor remédio:

Crise, qual crise?

Então nos últimos dias descobri que neste próximo ano, a manter o meu emprego, apesar da crise (qual crise?) até posso elevar o meu padrão de vida porque os combustíveis e a prestação da casa vão baixar.



Esta gente droga-se. Não há crise nenhuma. Não tenho acções, não tenho casa, não tenho automóvel. Vou ficar perfeitamente na mesma. Perfeitamente na mesma merda. E aqueles sem abrigo a dormir na rua também não vão perceber nada.
Às vezes dá gozo ser pobre. São gargalhadas, são barrigadas de riso, saber que um gajo se atirou para debaixo de um comboio porque perdeu milhões na bolsa. Idiota materialista. Com tantas boas razões para se suicidar foi-se matar por dinheiro.

Uma pessoa não se mata por dinheiro mas porque SIM! Poseur!!!

Devo dizer que desde que a crise dos ricos começou me tenho rido à fartazana, e parece que o ano de 2009 tem tudo para ser uma festa de endorfinas sem recurso a estupefacientes. Basta-me ouvir meia hora do telejornal da 2. Gostei daquela do Monstro do Bolo Rei vir dizer que as ilusões se pagam caras, e com esta se cala, (que ilusões, outro tabu?), e o Histérico nem sequer o ouço porque assim que aparece na televisão carrego no mute (é para isso que ele serve). O Vítor Constâncio, esse, é o melhor palhaço da televisão. Mais ou menos, a piada é esta: se não for despedido, até vai viver melhor do que os outros, mas se for vai amargar. Fantástico! Como se Portugal não fosse já, a par dos Estados Unidos, porque nisso somos uma potência mundial, o país com maior desigualdade! A começar pelo Vítor Constâncio, que devia (a não ser preso) receber o novo ordenado mínimo de 450 euros por incompetência, e o resto do ordenado ser distribuído equitativamente por todos os sem abrigo que aparecessem para o receber à porta do Banco de Portugal.
E como parece que hoje já me estiquei demais e tenho bocas para alimentar, desculpem lá não querer ser presa mas não dava muito jeito. O nome do jogo, dizia outro dia um vampiro qualquer, é "sobrevivência". Depois não se queixem, quando perceberem o verdadeiro significado da palavra que tão levianamente invocam: sobrevivência.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O capitalismo no Antigo Egipto




Os antigos egípcios acreditavam que para chegar ao Além a alma teria de enfrentar numerosos testes e perigos no caminho, muitos deles em que a alma poderia morrer novamente (e para sempre). Não era necessário possuir um corpo físico para viver no Além, mas de forma a usufruir melhor dos prazeres, comidas e bebidas do Céu era preferível jogar pelo seguro e salvaguardar o corpo físico através da mumificação. Mas o que era mesmo crucial era possuir um exemplar do Livro dos Mortos, uma espécie de mapa e encantamento de protecção para o Além, que era colocado junto à múmia dentro do túmulo. Este Livro dos Mortos era uma colecção mais ou menos extensa de feitiços e orações desenhados em rolo de papiro. Quanto maior o rolo, mais caro era o livro.
Cada Livro dos Mortos era destinado a uma só pessoa e/ou família. Mas não era feito de encomenda. Havia uma "produção em série" em que os sacerdotes iam preparando rolos e rolos e deixando em branco o nome do comprador, que só era acrescentado no acto da compra.
Um Livro dos Mortos era caro e não acessível a todas as bolsas, e quanto maior fosse em tamanho mais caro se tornava e mais lucro proporcionaria ao investimento prévio dos sacerdotes produtores. Era, pois, previsível que estes convencessem os crentes que quanto mais feitiços contivesse o Livro dos Mortos "pessoal" mais seguramente a alma encontraria o caminho para os prazeres do Além. Quanto mais se pagasse, nesta vida, mais probabilidade haveria de garantir a próxima.
A princípio, o Livro dos Mortos destinava-se unicamente ao Faraó, que era considerado divino. Com o tempo, porém, a nobreza e as elites também quiseram garantir o acesso ao Além e começaram a encomendar mumificações e Livros dos Mortos. Para os sacerdotes, abriu-se uma oportunidade de negócio.
Mas os pobres não tinham dinheiro para mandar fazer múmias ou comprar Livros dos Mortos. As probabilidades de um pobre chegar ao Céu eram muito escassas, se não impossíveis. Todavia, os pobres sempre foram de ter fé. As pirâmides propriamente ditas estavam reservadas à realeza, mas os outros logo a seguir, as classes altas, tinham os seus próprios túmulos, mais modestos, onde sepultar as múmias e os respectivos Livros dos Mortos. Os pobres iam enterrar os seus mortos na areia junto destes túmulos, na esperança de que estes conseguissem "seguir" o rico até ao Além.
O que me faz pensar no seguinte: que irracionalidade os tomaria para serem levados a acreditar que o rico desprovido de solidariedade em vida seria solidário depois de morto?... Ou talvez não fosse uma questão de solidariedade. Se ele ia em frente, a caminho do Além, guiado pelo mapa enfeitiçado que era o Livro dos Mortos, não se conseguia livrar da legião de miseráveis que o seguiam. Pensando bem, até faz todo o sentido.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

"Gatos que recusam viver sem os donos"

Do site da União Zoófila:




De uma vez por todas, é falso e é profundamente injusto o que se diz sobre os gatos, que não reconhecem ou estabelecem ligação com os donos. Os gatos não só estabelecem ligação com os donos como morrem quando ficam sem eles.
O Roger tinha oito anos quando foi descartado, como se de um objecto sem valia se tratasse. Tinha vivido toda a vida numa casa, mimado, confortável, e depois viu-se num gatil, um sítio estranho, sem a presença do que tinha sido seu dono. O Roger deixou de comer e de se mexer e assim ficou sem que qualquer cuidado ou medicação pudesse fazê-lo recuperar a vontade de ficar vivo. O Roger morreu.
Abandonar um gato adulto, habituado a viver numa casa, num gatil significa muitas vezes a depressão e a morte. É bom que quem o faz fique ciente que condena à morte um amigo e que carregue o peso na consciência.



Para pensar.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O sentido

A grande questão que mais tarde ou mais cedo surge nos espíritos superiores é uma só:
Que faço eu aqui? Qual é o meu propósito no Grande Esquema das Coisas? Estou aqui por uma razão?
Ou não passamos de mamíferos inteligentes que necessitam de inventar justificações para a sua existência, incapazes de aceitar a hipótese de que, apesar do nosso intelecto superior, não passamos de animais mais inteligentes do que outros mas igualmente subordinados à indiferença da Natureza? Que se calhar o nosso único propósito no chamado "Grande Esquema das Coisas" (com que gostamos de nos consolar de uma forma ou doutra) é sermos transformados em cadáveres e produzir petróleo (como os dinossauros) para uma qualquer civilização usar daqui por milhões de anos?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O silêncio II

Uma vez contei uma história verdadeira, e muito muito triste, da minha vida, a alguém. A resposta foi "Nem sei o que te hei-de dizer". E nunca mais falou comigo. O mais triste, ainda por cima, é que nem sequer contei tudo, nem o pior.
Tem sido esta a maioritária reacção dos outros. Fogem, desaparecem, não conseguem lidar com uma realidade que é demasiado desesperada. Às vezes penso que é algo de supersticioso, como se a infelicidade, o azar, a pobreza, fossem uma espécie de lepra que se pegasse...
Há meia dúzia de outros que querem salvar-me. Na verdade, não é a mim que querem ajudar, mas antes ajudar si próprios, fazer uma boa acção para se sentirem bem consigo mesmos... Não me adianta dizer que aquilo que eu preciso é apenas que me escutem. Apenas e só que me escutem. Mas escutar não é "salvar", e se não podem salvar, se não me podem arrastar para um qualquer médico ou padre ou curandeiro ou afins e salvar-me, então, todo o interesse na minha pessoa desaparece. Desaparecem também.

Esta é outra parte do silêncio. O meu silêncio. Já não tenho idade para ilusões e o meu desapontamento com as pessoas ultrapassou todos os limites que eu julgava concebíveis. Se não posso falar, não falo. Se não há ninguém, não há ninguém. Não adianta continuar a fingir. Não estava nas estrelas.

domingo, 21 de agosto de 2011

O silêncio

Hoje é um daqueles dias em que não há nada a fazer excepto escrever aqui. Que grande elogio estou a fazer a esta página! É quase como dizer "não há nada a fazer senão rezar". Curioso, não é? Nunca me tinha apercebido disto.
O que é de tudo mais curioso é que quando escrevo aqui, nestes momentos, não estou a escrever para ninguém em especial. Já aqui o disse, é como aquele náufrago que deixa uma mensagem na gruta a testemunhar "eu estive aqui" embora não espere que ninguém por lá passe no futuro ou que tal tenha relevância prática no presente. Deve ser instintivo ao ser humano escrever nas paredes das grutas só porque pode.

Escrevi a minha primeira história quando tinha oito anos. Foi um trabalho da escola. Davam-nos um princípio de enredo e tínhamos que desenvolver uma história a partir daí. O trabalho era para ser apresentado no dia seguinte. Pela primeira vez na minha vida, não consegui apresentar o trabalho no prazo devido. A professora ficou muito intrigada. Eu respondi apenas "ainda não está pronto". Isto durou uma semana. Todos os dias a professora insistia e cada vez eu me irritava mais e lhe dizia "ainda não está pronto". Deve ter sido a primeira vez que senti a frustração de um verdadeiro escritor confrontado com os outros. Como é que ela não percebia que ainda não estava pronto? Era uma história, não uma conta de multiplicar. Uma história requer tempo, concentração, inspiração. Não é coisa que se escreva quando se quer!
Uma semana depois, lá lhe apresentei vinte ou trinta páginas. Acho que a mulher se passou da cabeça. Acho que acreditava mesmo, a bruta, que eu não estava a fazer o trabalho! Como é que é possível?!
Enfim, aquilo foi lido por todos os professores da escola. A história tratava de temas que uma miúda de oito anos não devia saber tratar -- e aqui só entre nós não sabia mesmo.
Do ponto de vista literário não tinha interesse nenhum. Do ponto de vista de uma proeza de infância não sei: deitei aquilo fora quando anos mais tarde encontrei o manuscrito e me apercebi de que não tinha interesse literário. Aliás, a maior parte das coisas que escrevi durante toda a minha vida já foi destruída.
Mas aquele exercício ensinou-me uma coisa extraordinária, inconcebível para mim até àquele momento! Sempre gostei de ler, mas até àquele preciso momento nunca me tinha passado pela cabeça que os livros não estavam já todos escritos. Mais ainda, que eu também podia escrever qualquer coisa de novo! Fantástica descoberta! Nefasto e terrível vício, só comparável, de facto, à descoberta do orgasmo.
Continuei as escrever umas coisinhas, mas agora percebo que eram vôos demasiado elevados para as asas da idade. Nessa altura não sabia o que me levava a escrever coisas de adultos. Agora sei, mas não digo.
Digo apenas isto. Costuma recomendar-se, aos jovens escritores, "escreve sobre coisas que conheces". E caramba, eu estava a escrever sobre coisas que conhecia, eles é que não sabiam o que eu sabia e a minha inexperiência era de forma, não de conteúdo. O conteúdo já estava todo lá.
Mas ninguém percebia o que eu estava a dizer, por isso tentei melhorar. Comecei a fazer versões de versões de versões. Chama-se a isso "prática". Mas continuei. Na verdade, não tive outro remédio. A inspiração é uma forma de possessão.
Por volta dos vinte e poucos anos já conseguia escrever coisas que transmitiam coisas. Escrever coisas que transmitem coisas é difícil. Foi por volta dessa altura que as pessoas que liam começaram a sentir as minhas palavras. Foi por volta dessa altura que comecei a receber como reacção, em vez da crítica, o silêncio. Um silêncio sepulcral. Um silêncio tão sepulcral que pensei exactamente o contrário: que as minhas palavras não tinham impacto nenhum.
Agora posso dizê-lo, que já ninguém se lembra disto nem de mim. Escrevi num jornal, e na entrevista para esse emprego de jornalista incorri na ingenuidade de dizer que era escritora (no simples intuito de explicar que tinha o costume de escrever). A cara da pessoa que me entrevistava foi inesquecível. "Escritora? Tens alguma coisa publicada?" Confesso que foi uma pergunta que me deixou tão embasbacada como as insistências da professora pelo TPC que não aparecia. Perguntei-me, e o que eram os escritores antes de serem publicados? Ou seja, o que era Camões antes de ser publicado? Não era já um poeta? Quando é que Camões, exactamente, se tornou um poeta? Quando foi publicado? No momento em que começou a escrever? Antes? Depois? E se nunca tivesse sido publicado, nunca seria um poeta? A pessoa que fazia a pergunta não se apercebia da barbaridade que dizia, nem nunca eu a contradisse, até porque entretanto consegui o emprego, eheheh.
Mas deixei de dizer que era escritora. Afinal, não tinha nada publicado. Pergunta existencial: e agora, que tenho anos e anos de blog publicado, já sou escritora, ou pelo menos blogueira?
Isto leva-me a extrapolar para a conversa que tive com um amigo que me falou em publicar partes deste blog em livro. As partes sumarentas em que falo da minha vida, claro está, que isto aqui é só coscuvilhice. Confesso que também fiquei perplexa. Não está já publicado? Não está aqui? Palavra de honra, há coisas que não percebo. Um blog é um blog, isto é um blog, as palavras deste blog esgotam-se aqui, rebentam como bolhas de sabão e desaparecem. Exactamente como bolhinhas de sabão à chuva.
Mas onde é que eu ia? Sim, na minha experiência jornalística. Aprendi, com esta, que não sabia nada. Que a minha escrita era feia, monótona, desinteressante. Excepto quando me deixavam escrever crónicas. Cheguei a receber cartas de admiradores. Acho que isto causou uma certa inveja por lá mas não entremos por aí... A inveja é uma coisa tão feia.
Ainda escrevi mais algumas coisas, e mostrei, mas continuava a receber como reacção o tal silêncio, e fiz aquilo que um aspirante a escritor não deve fazer nunca: parei de escrever de todo. Durante uns quinze anos, não escrevi absolutamente nada. Isto equivale a um bailarino que deixa de dançar ou a um ginasta que deixa de praticar. Atrofia muscular. Atrofia de estilo. Anos e anos perdidos a achar que os leitores não sentiam as minhas palavras. Anos e anos a pensar que o silêncio significava a minha inépcia.
Foi um choque começar este blog e perceber que tinha leitores. Sempre pensei que escrevia para o ar. Literalmente. Foi um choque ouvir elogios de que escrevia bem. Estava convencida do contrário. Foi um choque compreender que as minhas palavras tinham tanto impacto que até tinham impacto a mais: causavam demasiada polémica. (Tenho-me controlado bastante desde esses tempos! Há que saber poupar energia.)
Se não fosse por esta página nunca teria sabido nada disto. Se não fosse por esta página, nunca teria aprendido o Mal e o Bem que me foi desfilando perante os olhos assombrados.
O que eu acho mais enigmático, de certa forma até fatídico (no sentido em que é um fado, um destino) é que as descobertas sempre me tenham sido proporcionadas por completos estranhos. Longínquos, distantes estranhos. Se Dante diz que existem nove círculos de inferno eu tendo a constatar que existem vários círculos de solidão, como os anéis de Saturno. O silêncio é um deles. Mas apenas mais um. Nem sequer o pior.
Mas continua a ser curioso que as melhores coisas que já fiz foram feitas quando as fazia para o ar. O meu erro é insistir na companhia. Agora percebo. Se calhar há coisas que estão destinadas a nunca ficar prontas.

Coisas como este post, que está longe de estar pronto e mesmo assim já foi tão longe, longe demais.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

"Let the right one in" / "Deixa-me entrar"



Logo a seguir a ver "Twilight", como numa necessidade urgente de me desintoxicar, vi "Let The Right One In", este sim, um filme altamente recomendado. Passo desde já a palavra: este filme não é só bom, é obrigatório!
"Let the right one in" / "Deixa-me entrar" é um filme sueco de 2008 (título original "Låt den rätte komma in"), o que faz pensar que ao mesmo tempo que se produzem ensalsichados para o povo existe sempre um outro patamar a desenvolver-se, acima da média e da atenção geral, só para conhecedores. Contudo, é de admirar a velocidade da divulgação com que este filme generalizadamente obscuro chegou aos verdadeiros apreciadores. Sem querer mentir, devo ter tomado conhecimento dele quase ao mesmo tempo em que acontecia a febre "Twilight". Repito: altamente recomendado por outros apaixonados pelo género!

"Let the right one in" (prefiro o título inglês porque é mais fiel ao conteúdo) conta a história de um menino de 12 anos que trava conhecimento com uma menina vampira que aparenta ter a mesma idade. Apresentado sob a perspectiva das "crianças" (há quem lhe chame "conto de fadas" mas eu discordo), é assombroso neste filme como o presenciar do homicídio mais grotesco não nos afecta. É algo que é. São os adultos que falam do horror mas o espectador não o sente. Fascinado pela história de amor entre o menino solitário e a vampira que não queria sentir amizade, não vê outra coisa. Só os vê a eles. Compreende-os. Sente o que sentem. Como ela diz: "sê eu por um bocadinho". Somos eles o filme todo.
Depois de o filme acabar pus-me a pensar. Até que ponto é inocente a amizade da parte dela? Ou estaria apenas a recrutar um novo escravo que matasse por ela quando o antigo ficou demasiado velho para o fazer?... Esta já é a apreciação cínica de quem já não tem idade para acreditar em contos de fadas mas, juro, não se pensa nisto enquanto dura o "encantamento". Tal como o menino solitário, somos sugados para a amizade da vampira (a mim ela lembrou o vampiro Armand) e justificamos todas as suas piores acções. Aqui está a genialidade da coisa.
Duvido que qualquer bom apreciador de vampiros não se sinta completamente saciado depois de beber esta surpresa.
Um conselho: vejam. Mas vejam mesmo!

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