Más notícias para a cena gótica e alternativa de Lisboa. Depois do encerramento do Club Noir na rua da Madalena, agora é o Metropolis Club a fechar as portas no Centro Comercial Imaviz. A festa de despedida do Metropolis é já no próximo sábado 1 de Fevereiro. A ultima noite no Club Noir da rua da Madalena foi a passagem de ano. Ambos os bares tiveram de fechar porque os espaços foram comprados. Para a “construção de apartamentos de luxo”, no caso do Club Noir, para uma “multinacional hoteleira” no caso do Metropolis, como se pode ler nas respectivas páginas de Facebook. O Club Noir promete reabrir em breve em espaço já encontrado em Alvalade. O Pórtico espera novidades.
No caso do Metropolis, a notícia foi em cima da hora mas não é uma surpresa. O bar já esteve fechado há dois anos, de Outubro a Novembro de 2017, por motivos relacionados com o próprio espaço do centro comercial. O Imaviz, nas Picoas, foi na sua época um centro comercial chique e caro (onde António Variações trabalhou num cabeleireiro unissexo Isabel Queiroz do Vale) mas o estado decrépito e cada vez mais lojas fechadas saltavam à vista de quem atravessava regularmente aquele espaço de “centro comercial fantasma” durante estes últimos doze anos de existência do Metropolis.
O Pórtico vai ficar atento e deseja boa sorte às gerências do Club Noir e do Metropolis na busca de espaços alternativos (em duplo sentido).
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
Club Noir e Metropolis encerrados ao mesmo tempo
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
domingo, 19 de janeiro de 2020
The Twilight Zone (2019)
Quem não se lembra da velhinha Twilight Zone, que nos inícios da nossa televisão passava à tarde e me punha a dar voltas à cabeça sobre qual seria a Quinta Dimensão uma vez que eu só conhecia três? As histórias eram interessantes, às vezes inquietantes, oscilavam entre a ficção científica e o terror, e o final tinha sempre uma reviravolta inesperada.
Infelizmente, não posso dizer o mesmo desta nova Twilight Zone de 2019. Apenas dez episódios e muito pouco inspirados. Desde o primeiro, percebemos que esta série é extremamente politizada e vende a agenda dos Democratas norte-americanos. Não é que a agenda não me agrade, mas a série é demasiado óbvia, quase panfletária. Por exemplo, um miúdo de 12 anos que é eleito presidente dos Estados Unidos e que só faz o que lhe dá na gana. Ora, quem será, quem será?… Outro episódio em que só falta gritarem, de cartazes em punho: black lives matter! Outro todo ele dedicado ao movimento #metoo. Outro que fala de imigrantes e dos horrores da deportação. E por aí fora, tudo do mais anti-Trump possível, sem qualquer subtileza.
Até o meu episódio preferido, “The Blue Scorpion”. A princípio até fiquei espantada que o episódio não estivesse a vender uma mensagem qualquer. É a típica história de um objecto amaldiçoado, neste caso uma pistola, com as particularidades de que ninguém a encontra, é a pistola que encontra a pessoa, e que a pistola tem de ser guardada num sítio iluminado porque (ela, a pistola) tem medo do escuro. Muito interessante e promissor. O seu proprietário mais recente fica obcecado por ela. Primeiro, a pistola aterroriza-o. De seguida, domina-o. O homem adora a pistola. Não vou dizer qual é a reviravolta, mas quando finalmente o homem se consegue livrar da pistola esta acaba por “encontrar” dois miúdos que andavam à pesca. Ah, lá está a agenda! Mais subtil, desta vez, mas para bom entendedor é o que basta.
Outros episódios conseguiram fugir um pouco ao panfleto político: "The Comedian", "Nightmare at 30,000 Feet", "A Traveler", "Six Degrees of Freedom", mas todos a arrancar com uma boa premissa que acabou sempre desaproveitada. Já o episódio “Blurryman” não teve mesmo pés nem cabeça.
Esperava muito mais desta edição actual de The Twilight Zone. Mas, mesmo sem a política à mistura, os episódios foram fraquinhos (embora poucos, o que ainda torna mais estranho que sejam fracos) e sem o efeito de choque da série original.
domingo, 12 de janeiro de 2020
Les Misérables (2018-2019)
Tirando algumas raras excepções, geralmente as adaptações de romances ao cinema ou à televisão conseguem desmotivar-me completamente de ler o livro. Esta mini-série da BBC, adaptação do clássico de Victor Hugo “Os Miseráveis”, é uma das raras excepções. Depois de ver esta série decidi mesmo ler o livro.
Não é a primeira adaptação que eu vejo deste clássico. Lembro-me principalmente de filmes. Mas não sei porquê, se calhar porque o livro é muito grande e o enredo muito extenso, todas as adaptações que vi me pareceram apressadas, sem que houvesse tempo para explorar os pormenores, e algo falhou em arrebatar-me. Esta série conta tudo como deve ser porque não tem essas limitações de tempo.
“Les Misérables”, como é típico destes clássicos com mais de mil páginas, tem vários enredos simultâneos, mas o principal é a história de Jean Valjean, condenado foragido mas intimamente boa pessoa, na sua busca de redenção. Encontra-a ao resgatar a pequena órfã Cosette de uma vida de miséria.
Para mim, a história mais comovente é a de Fantine. Assalariada numa casa de costura (hoje chamar-lhe-íamos operária), Fantine e duas colegas aceitam os convites de três fidalgos que as convidam a passear e jantar. Uma das colegas, mais sabida, avisa-a de que estes fidalgos só querem divertir-se e que vão deixá-las para casar com as donzelas bem nascidas que os pais ricos escolherem para eles.
Mas Fantine julga-se amada. Quando o amante a abandona com uma filha pequena nos braços (como a colega avisou) Fantine tem de procurar um emprego que sustente a ambas. Entretanto, deixa a filha, Cosette, numa estalagem no campo, onde os anfitriões, os Thénardier, prometem cuidar dela como se fosse de uma filha. Longe disso, a menina é maltratada, transformada em criada da estalagem, obrigada a trabalhar noite e dia e a carregar baldes de água do rio até à estalagem em pleno inverno. Estes Thénardier são um casal de patifes, dispostos a explorar a pobre Fantine o mais que puderem, fazendo pedidos de dinheiro cada vez mais elevados para “o bem da pequena”, e chegando mesmo a mandar por carta a Fantine que a menina se encontra às portas da morte e precisam de uma enorme soma para a salvarem. Fantine não tem este dinheiro e no seu desespero vende os dentes e o cabelo. Mas os Thénardier ainda pedem mais. Fantine tem de recorrer à prostituição. Aqui, Jean Valjean também é culpado, porque a despede apenas porque Fantine não revelou que tinha uma filha a seu sustento, razão que dificilmente justifica um despedimento. Espero que o livro explique melhor esta passagem.
Seja como for, Fantine tem tuberculose e morre. No seu leito de morte, Jean Valjean promete-lhe tomar conta da pequenita. Mas o tenaz inspector Javert, que há muito tempo persegue Valjean, acaba de o encontrar e leva-o de volta para as galés.
Valjean consegue fugir, ainda mais agora que tem uma promessa a cumprir, e usa a sua fortuna roubada para resgatar Cosette. Começa aqui a segunda parte mais comovente da história. Valjean e Cosette encontram abrigo num convento, onde ela se torna mulher e ele trabalha como jardineiro. Cosette habitua-se a chamar-lhe Papá, e com razão. Nunca aquela infeliz teve alguém tão semelhante a um pai, e Valjean adora-a como a uma filha.
Não vou contar mais do que isto, mas segue-se um romance entre Cosette e um revolucionário. Espero que o livro não nos aborreça com política revolucionária do século XIX (penso que são republicanos, mas a série, graças a Deus, não nos massacrou com isto).
Os episódios são bem equilibrados a nível da acção e deixam-nos sempre em suspense à espera do próximo. A série foca-se no que é realmente importante, os personagens e o seu desenvolvimento.
Só tenho um reparo a fazer. Parece que a BBC decidiu incluir uma “quota” de actores de cor nas suas produções, independentemente do tempo histórico em que elas se passam. Em “Les Misérables” temos um dos protagonistas negro, o inspector Javert, e um em cada cinco parisienses é negro. Curiosamente, o politicamente correcto não incluiu asiáticos. Sinto-me na legitimidade de perguntar porquê. Ora, não acredito nem por sombras que existisse tanta população negra na França do séc. XIX. Inclusive fui investigar, e outros tantos como eu, se era possível que um inspector da polícia na altura fosse negro. Parece que sim, mas em circunstâncias muito excepcionais. Não era, de todo, normal. Pelo contrário. Ainda há pouco tempo vi um documentário sobre os zoos humanos. Este ainda era o tempo em que Paris tinha um “Jardim de Aclimatação” onde se exibiam os “selvagens” das colónias francesas, embora os organizadores destas exibições soubessem muito bem que estavam a lidar com pessoas normais e até lhes pagavam para fazerem de selvagens. Estes selvagens, portanto, eram actores. Mas isso não implica que a população parisiense não os visse como selvagens e que se organizassem passeios, aos domingos, para ir ver os “selvagens”, tal como hoje em dia vamos ver os animais ao Jardim Zoológico. (Se puderem, vejam o documentário. É muito elucidativo. E isto não se passou só em França como em todas as metrópoles europeias “civilizadas” e até nos Estados Unidos.) Neste clima racista, um inspector da polícia negro seria um acontecimento raro, mas ainda assim possível. Tanta população negra nas ruas de Paris é que não.
Será uma questão de habituação? Afinal, o teatro tem uma grande tradição de usar actores não convencionais nos seus papéis. Napoleão pode ser interpretado por um negro, por um asiático, ou até por uma mulher. Aliás, todos os actores podem ser homens ou mulheres em papéis masculinos e femininos. Estamos habituados. Mas o teatro, por outro lado, foca-se na interpretação, não no realismo histórico. Não estará a reconstituição histórica a ser sacrificada ao politicamente correcto? Gostaríamos de ver um D. Afonso Henriques negro, ou asiático, ou mulher (fora do teatro)? Fica a questão.
É claro que os actores não-brancos não têm culpa que certos dramas históricos não os representem porque as suas etnias não estiveram envolvidas neles. Mas isto não é verdade para todos os dramas históricos. Assim de repente estou a lembrar-me da série “Spartacus”, onde havia gente de todas as cores e feitios, do negro da Núbia ao nórdico loiro e de olhos azuis. Sim, também é verdade que eram todos escravos dos romanos, mas é essa a verdade histórica. A História não pode ser branqueada. Qualquer branqueamento, mesmo aquele feito com “boas intenções”, é mais grave do que todos os “politicamente correctos” da actualidade. No que concordo é que podia haver maior produção de dramas a representar várias etnias. E aqui recordo-me de outro exemplo, “Shogun”, passado no Japão feudal. Se a série fosse produzida hoje pela BBC será que íamos ver lá pelo meio samurais africanos? (Se calhar íamos, transformando um drama numa paródia.)
Polémicas à parte, “Les Misérables” é uma excelente série. Gostei principalmente do fim. Depois de os protagonistas chegarem a um final satisfatório, deixando de ser pobres e desgraçados, a série termina com dois meninos a mendigar na rua sem que ninguém lhes dê esmola. Ou seja, sempre haverá miseráveis. Já não os chamamos assim, mas eles existem, muitas vezes onde não desconfiamos.
Recomendo vivamente. Mas conhecendo a RTP2, onde passou a série, será difícil que repitam.
RTP2, se me lês: não é vergonha nenhuma repetir programas, especialmente quando são de qualidade. Nem toda a gente os apanha à primeira.
Não é a primeira adaptação que eu vejo deste clássico. Lembro-me principalmente de filmes. Mas não sei porquê, se calhar porque o livro é muito grande e o enredo muito extenso, todas as adaptações que vi me pareceram apressadas, sem que houvesse tempo para explorar os pormenores, e algo falhou em arrebatar-me. Esta série conta tudo como deve ser porque não tem essas limitações de tempo.
“Les Misérables”, como é típico destes clássicos com mais de mil páginas, tem vários enredos simultâneos, mas o principal é a história de Jean Valjean, condenado foragido mas intimamente boa pessoa, na sua busca de redenção. Encontra-a ao resgatar a pequena órfã Cosette de uma vida de miséria.
Para mim, a história mais comovente é a de Fantine. Assalariada numa casa de costura (hoje chamar-lhe-íamos operária), Fantine e duas colegas aceitam os convites de três fidalgos que as convidam a passear e jantar. Uma das colegas, mais sabida, avisa-a de que estes fidalgos só querem divertir-se e que vão deixá-las para casar com as donzelas bem nascidas que os pais ricos escolherem para eles.
Mas Fantine julga-se amada. Quando o amante a abandona com uma filha pequena nos braços (como a colega avisou) Fantine tem de procurar um emprego que sustente a ambas. Entretanto, deixa a filha, Cosette, numa estalagem no campo, onde os anfitriões, os Thénardier, prometem cuidar dela como se fosse de uma filha. Longe disso, a menina é maltratada, transformada em criada da estalagem, obrigada a trabalhar noite e dia e a carregar baldes de água do rio até à estalagem em pleno inverno. Estes Thénardier são um casal de patifes, dispostos a explorar a pobre Fantine o mais que puderem, fazendo pedidos de dinheiro cada vez mais elevados para “o bem da pequena”, e chegando mesmo a mandar por carta a Fantine que a menina se encontra às portas da morte e precisam de uma enorme soma para a salvarem. Fantine não tem este dinheiro e no seu desespero vende os dentes e o cabelo. Mas os Thénardier ainda pedem mais. Fantine tem de recorrer à prostituição. Aqui, Jean Valjean também é culpado, porque a despede apenas porque Fantine não revelou que tinha uma filha a seu sustento, razão que dificilmente justifica um despedimento. Espero que o livro explique melhor esta passagem.
Seja como for, Fantine tem tuberculose e morre. No seu leito de morte, Jean Valjean promete-lhe tomar conta da pequenita. Mas o tenaz inspector Javert, que há muito tempo persegue Valjean, acaba de o encontrar e leva-o de volta para as galés.
Valjean consegue fugir, ainda mais agora que tem uma promessa a cumprir, e usa a sua fortuna roubada para resgatar Cosette. Começa aqui a segunda parte mais comovente da história. Valjean e Cosette encontram abrigo num convento, onde ela se torna mulher e ele trabalha como jardineiro. Cosette habitua-se a chamar-lhe Papá, e com razão. Nunca aquela infeliz teve alguém tão semelhante a um pai, e Valjean adora-a como a uma filha.
Não vou contar mais do que isto, mas segue-se um romance entre Cosette e um revolucionário. Espero que o livro não nos aborreça com política revolucionária do século XIX (penso que são republicanos, mas a série, graças a Deus, não nos massacrou com isto).
Os episódios são bem equilibrados a nível da acção e deixam-nos sempre em suspense à espera do próximo. A série foca-se no que é realmente importante, os personagens e o seu desenvolvimento.
Só tenho um reparo a fazer. Parece que a BBC decidiu incluir uma “quota” de actores de cor nas suas produções, independentemente do tempo histórico em que elas se passam. Em “Les Misérables” temos um dos protagonistas negro, o inspector Javert, e um em cada cinco parisienses é negro. Curiosamente, o politicamente correcto não incluiu asiáticos. Sinto-me na legitimidade de perguntar porquê. Ora, não acredito nem por sombras que existisse tanta população negra na França do séc. XIX. Inclusive fui investigar, e outros tantos como eu, se era possível que um inspector da polícia na altura fosse negro. Parece que sim, mas em circunstâncias muito excepcionais. Não era, de todo, normal. Pelo contrário. Ainda há pouco tempo vi um documentário sobre os zoos humanos. Este ainda era o tempo em que Paris tinha um “Jardim de Aclimatação” onde se exibiam os “selvagens” das colónias francesas, embora os organizadores destas exibições soubessem muito bem que estavam a lidar com pessoas normais e até lhes pagavam para fazerem de selvagens. Estes selvagens, portanto, eram actores. Mas isso não implica que a população parisiense não os visse como selvagens e que se organizassem passeios, aos domingos, para ir ver os “selvagens”, tal como hoje em dia vamos ver os animais ao Jardim Zoológico. (Se puderem, vejam o documentário. É muito elucidativo. E isto não se passou só em França como em todas as metrópoles europeias “civilizadas” e até nos Estados Unidos.) Neste clima racista, um inspector da polícia negro seria um acontecimento raro, mas ainda assim possível. Tanta população negra nas ruas de Paris é que não.
Será uma questão de habituação? Afinal, o teatro tem uma grande tradição de usar actores não convencionais nos seus papéis. Napoleão pode ser interpretado por um negro, por um asiático, ou até por uma mulher. Aliás, todos os actores podem ser homens ou mulheres em papéis masculinos e femininos. Estamos habituados. Mas o teatro, por outro lado, foca-se na interpretação, não no realismo histórico. Não estará a reconstituição histórica a ser sacrificada ao politicamente correcto? Gostaríamos de ver um D. Afonso Henriques negro, ou asiático, ou mulher (fora do teatro)? Fica a questão.
É claro que os actores não-brancos não têm culpa que certos dramas históricos não os representem porque as suas etnias não estiveram envolvidas neles. Mas isto não é verdade para todos os dramas históricos. Assim de repente estou a lembrar-me da série “Spartacus”, onde havia gente de todas as cores e feitios, do negro da Núbia ao nórdico loiro e de olhos azuis. Sim, também é verdade que eram todos escravos dos romanos, mas é essa a verdade histórica. A História não pode ser branqueada. Qualquer branqueamento, mesmo aquele feito com “boas intenções”, é mais grave do que todos os “politicamente correctos” da actualidade. No que concordo é que podia haver maior produção de dramas a representar várias etnias. E aqui recordo-me de outro exemplo, “Shogun”, passado no Japão feudal. Se a série fosse produzida hoje pela BBC será que íamos ver lá pelo meio samurais africanos? (Se calhar íamos, transformando um drama numa paródia.)
Polémicas à parte, “Les Misérables” é uma excelente série. Gostei principalmente do fim. Depois de os protagonistas chegarem a um final satisfatório, deixando de ser pobres e desgraçados, a série termina com dois meninos a mendigar na rua sem que ninguém lhes dê esmola. Ou seja, sempre haverá miseráveis. Já não os chamamos assim, mas eles existem, muitas vezes onde não desconfiamos.
Recomendo vivamente. Mas conhecendo a RTP2, onde passou a série, será difícil que repitam.
RTP2, se me lês: não é vergonha nenhuma repetir programas, especialmente quando são de qualidade. Nem toda a gente os apanha à primeira.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
domingo, 5 de janeiro de 2020
The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 1 / Amanhecer - Parte 1 (2011)
Quarto episódio de Edward-o-vampiro-que-brilha e sua amantíssima esposa Senhora-Dona-Bella-Cullen.
O filme não perde tempo. Arranca logo com o casamento. Eu sempre pensei que eles não se casassem tão depressa, que houvesse mais peripécias antes disso. Mas a Bella não quer outra coisa senão ser vampira, e afinal há a ameaça dos Vulturi, por isso faz sentido.
O Jacob, pobre Jacob, nem assim a tira da cabeça. Continua um cachorrinho atrás dela. Será que no último filme/livro este desgraçado sem auto-estima vai finalmente partir para outra? Eu estou a torcer para que sim.
Edward e Bella vão passar a lua-de-mel no Rio de Janeiro, onde descobrimos que Edward sabe falar português. Não percebi nada do que ele disse, mas enfim, pelo menos arranha. Não ficam muito tempo no Rio. Afinal a lua-de-mel vai ser numa ilha privada dos Cullen.
E depois acontece a cena da cama. Na noite de núpcias, Edward consegue partir a cama toda. Ora, eu não costumo pedir pormenores quando o que se passa é normal, mas isto é tudo menos normal! Como é que aquela cama acabou naquele estado? Sim, queria ver isso. Ao pormenor.
Admito que já sabia da cena da cama porque uma amiga me tinha contado. Fartámo-nos de rir as duas. Não sei como é que isto não acabou num Scary Movie. (Para quem não sabe, “Scary Movie” é uma série de filmes-paródia aos filmes de terror. Não costumam ter muita piada.) Esta cena da cama é já de si uma anedota, só precisava de ser condimentada.
Em resultado, e como estão numa ilha isolada onde não há IKEA para comprar camas baratas, Edward e Bella passam o resto da lua-de-mel a jogar xadrez. Pobre Bella. Eu fiquei aborrecida só de assistir.
Mas tudo isto para chegarmos ao verdadeiro enredo do filme: a gravidez de Bella. E é uma gravidez digna de um “Rosemary’s Baby”, ou pior ainda, em que a gestação progride a um ritmo vertiginoso. Os vampiros estão surpreendidos que isto pudesse acontecer e também não sabem o que vai sair dali. Mas Bella quer o bebé, por muito monstro que seja. O que é natural. Vão lá dizer a uma mãe que o seu bebé é um monstro.
Agora fiquei muito curiosa para ver como é que ela explica isto ao pai dela. “Olá pai, cheguei da minha lua-de-mel de duas semanas. Aqui tens a tua neta.” Vai ser o ponto alto de toda a saga para mim.
Os lobisomens decidem que este monstro não pode existir e querem ir matar a Bella. Pouca curiosidade científica da parte dos lobisomens, para quem é lobisomem. A primeira vez que um vampiro tem um filho com uma humana e não querem saber o que vai nascer? Mas os lobisomens de Twilight têm esta característica xenófoba de achar que todos são monstros menos eles, como já assinalei na crítica ao filme anterior.
Por falar em lobisomens, e como também já disse do filme anterior, aquela reunião de lobisomens em estado lobo e a falar inglês entre eles é algo entre o infantil e o ridículo. Percebo como é que pode funcionar nos livros em que as falas telepáticas têm de ser verbalizadas, mas nos filmes resulta muito mal. Teria sido melhor que os lobisomens se reunissem em estado humano, e sempre se evitava mais um bocadinho de CGI mal conseguido.
A princípio Jacob quer matar o Edward, mas depois o amor fala mais alto e decide antes proteger a Bella e o bebé, como já se esperava, e agora não estou a ver o que é que possa acontecer de interessante no último filme. (Tirando a parte em que têm de explicar isto ao pai da Bella, isso eu quero ver!)
Mas esperem, o filme ainda não acabou. Já corriam os créditos finais e eu já estava com o dedo no “apagar”, quando acontece a cena mais interessante do filme todo e eu quase a perdia! Por um minuto ou dois aparecem os Vulturi, os vampiros mais riceanos e vilanescos desta saga e por isso os únicos que me fazem vibrar alguma coisa, dizendo entre eles que os Cullen têm algo que eles querem. Aposto que é a Renesme, a filha da Bella. E devem querê-la porque são vilanescos e malvados, mas pelo menos têm curiosidade científica. Estes Vulturi devem mesmo ter sido inspirados no vampiro Armand. Só pode.
E sim, a pobre criança chama-se Renesme. Não bastando ser filha de dois vampiros, ainda tem de viver com este nome o resto da vida possivelmente imortal. Ninguém merece.
Enfim, o que dizer de sério sobre isto tudo? O filme nunca apresenta uma explicação sobre esta gravidez, mas se é possível, e um pouco mais atrás ainda, se os vampiros podem fazer sexo com humanos, então duvido muito que Renesme tenha sido a primeira vez. De certeza já devia ter acontecido e os Cullen teriam conhecimento disso.
Na mitologia clássica, um vampiro é um morto que se levanta do túmulo por meios sobrenaturais (diabólicos ou outros) sustentados pelo sangue das suas vítimas. (“O sangue é a vida.”) Os vampiros de Twilight parecem-me cada vez menos “mortos” e sobrenaturais e cada vez mais seres humanos geneticamente modificados pelo tal “veneno” (vírus?) que os transforma em imortais com força e rapidez sobre-humanas. Mas fica a questão. Se não estão mortos (Edward produziu um bebé, por isso definitivamente não está morto) porque é que precisam de sangue? O propósito do sangue é mesmo esse, sustentar a vida sobrenatural do vampiro através da ingestão da vida das vítimas simbolizada no sangue. Se não existe esta necessidade sobrenatural, porque é que os vampiros de Twilight são vampiros?
Mas de certeza ninguém quis saber de nada disto.
12 em 20
sábado, 21 de dezembro de 2019
"Solstício" com envio grátis
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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
“Nepenthos”, novo livro de D. D. Maio
Sinopse
Num gesto de encoberta bondade, o jovem imperador salva uma rapariga da ignomínia na taberna da vila. Devia ter sido inconsequente, mas o encontro muda para sempre as suas vidas.
Acaso, escolha ou destino?
Reena deseja morrer. Serva órfã, presa de abuso em menina e forçada à prostituição desde jovem, há muito que o desespero lhe sussurra ao ouvido. A súbita oferta de uma vida melhor no castelo do imperador não é o trabalho digno que teria almejado, mas dá-lhe esperança de vir a conquistar uma humilde posição de criada. No castelo, Reena experimenta uma liberdade que nunca lhe tinha sido permitida e recorda sonhos de rapariguinha, de um amor e de uma família. Mas sucessivos envolvimentos românticos, fracassados, tornam a lançá-la na escuridão da derradeira escolha. Por muito que tudo ainda melhore, conseguirá alguma vez resgatar-se a si mesma desse inimigo oculto no âmago da sua alma?
Eric, o imperador, já desceu demasiado baixo. Enraivecido por uma infância de abandono, endurecido por um passado de guerra, envereda voluntariamente pelos nefastos caminhos de que talvez não haja regresso. Um último passo na direcção errada desmorona o homem de pedra que já não o quer continuar a ser. Mas não será demasiado tarde para mudar?
Tão afastados nos extremos do destino, Eric e Reena partilham difíceis veredas na busca da longínqua felicidade que não lhes parece reservada. Para ambos, nenhuma felicidade poderá ser vulgar.
“Nepenthos” é um drama em Low Fantasy, pesado e realista, por vezes desconfortável, mas com bastantes tons de romântico.
Disponível brevemente.
Mais informações e excertos:
https://ddmaio.blogspot.com
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
NOS4A2 / Nosferatu
Ao contrário do que o título indica, não é uma série de vampiros. Também não é um anúncio à NOS [eheh, não resisti]. O título é um trocadilho como se usa nas matrículas americanas. Lendo as letras em inglês temos algo como NOS-four-A-two, que soa quase a “nosferatu”. Não é um trocadilho muito bom e na minha opinião é um daqueles títulos que parecem giros em teoria mas que na prática nos levam a pensar em tudo menos no tema da história. Eu pensei, sinceramente, das primeiras vezes que vi o título, que ia ser uma série de espionagem e que NOS4A2 era um código qualquer. ("NOS4A2" é um livro original de Joe Hill.) Felizmente tive curiosidade em perceber que raio significava aquilo porque a série é interessante. Mas na minha opinião é um título francamente mau, e daqui não saio.
Também é um título mau pela razão óbvia que já referi: não é uma história de vampiros, pelo menos no sentido tradicional. É uma história sobre pessoas com poderes psíquicos (a que a série chama “criativos fortes” e que eu também acho uma designação péssima, por isso aqui vou só chamar-lhes “criativos”) que podem ser usados para o bem ou para o mal. Charlie Manx, o vilão, usa os seus dons para fazer muito mal. Este “criativo” descobriu uma maneira de usar os seus poderes para viver para sempre: alimentando-se de almas de crianças, que, uma vez “sugadas”, se tornam uns monstros pálidos de longos dentes. Mas não vampiros, porque comem a carne das suas vítimas. Manx é que chama nosferatu a si próprio (a petulância!) ao usar o tal NOS4A2 na matrícula do carro. Manx é velho, muito velho. Nunca é dito ao certo mas dá a entender que tem pelo menos 100 anos, se não mais. E é um “criativo” mais poderoso do que todos os outros que já o tentaram travar até ao momento. Para começar, Manx criou um espaço ficcional, mas real (é preciso ver para compreender), chamado Natalândia (Christmas Land), que usa para atrair as crianças. Esta Natalândia, baseada em temas natalícios e fofinhos, é um local sinistro a lembrar o filme “Nightmare Before Christmas”. Ora, eu odeio o Natal e deu-me gozo. Aconselho vivamente a toda a gente que também odeia o Natal.
Charlie Manx tem outra ajuda sobrenatural, um carro com vida própria, tipo “Christine”, que aprisiona pessoas no banco de trás e se conduz sozinho. Este carro deve ser o elemento mais sinistro de toda a série. Penso mesmo que o “nosferatu” é o carro porque é dentro e através do carro que as almas são sugadas e o espírito vital é transferido para Manx. Por motivos que não são explicados, a vida de Manx está “ligada” ao carro e quando o carro é atingido Manx fica às portas da morte. Chatices de viver para sempre a qualquer custo.
Este vilão anda a raptar crianças há quase um século (isto é, tendo em conta a data de lançamento do carro, mas ninguém nos diz que ele não começou antes) quando desta vez leva uma miúda ligada a outra “criativa”, Vic McQueen, que decide fazer-lhe frente.
Por vezes esta série toca perigosamente na treta dos super-heróis, Super-Fulano que tem o poder de fazer X, Super-Fulana que tem o poder de fazer Y, mas felizmente não cai completamente nisto. A série mantém sempre um bom nível de cenas perturbadoras, algumas bastante inesperadas como aquelas que incluem Bing, o ajudante de Manx, e que me surpreenderam pela perversidade sexual digna de um “Pshyco” numa série que é praticamente Young Adult de terror e em que a maioria dos protagonistas é adolescente.
Para além do terror e do sobrenatural, a história segue o drama bem mais prosaico da jovem Vic McQueen, que por si só valia uma série de outro tipo. Vic é filha de pais pobres e separados, ele mecânico de motas, a mãe empregada de limpeza. O género de pais que casaram muito jovens por causa da gravidez acidental e que nunca ultrapassaram esse ressentimento de abdicarem dos seus sonhos. Vic quer ir para a faculdade mas é difícil libertar-se desse ciclo de pobreza. Por exemplo, quer pedir um empréstimo para estudar mas nem sequer tem declarações de rendimentos dos pais porque ambos são pagos em dinheiro para se esquivarem aos impostos. Desta forma, Vic não consegue provar a sua necessidade de apoio. Para se candidatar ao empréstimo tem de falsificar documentos. Identifiquei-me com os problemas dela e o final deixou-me com um sabor amargo. Afinal, Vic não teve de desistir dos seus sonhos por causa do sinistro Charlie Manx ou devido a motivos sobrenaturais, mas por sua própria culpa. E tive pena. Queria mesmo vê-la entrar na faculdade e quebrar o ciclo, mas no meio disto tudo ela perdeu de vista os objectivos.
“NOS4A2” nunca é uma série tão arrepiante como podia ter sido e nunca me conseguiu arrebatar, mas vê-se com prazer (ou inquietação, neste caso). O terror nunca nos assusta mas a história vale mais pela dimensão humana do que por qualquer pseudo-nosferatu.
Deixo uma última nota à maquilhagem e aos efeitos especiais, esses sim verdadeiramente excepcionais, que conseguem convencer-nos de que Zachary Quinto é mesmo um velho centenário. Também gostei do truque em que a rapariga enfia o braço no saco das peças de scrabble e o braço parece mesmo desaparecer lá dentro. Até chega a fazer alguma impressão. E gostei de todas as cenas em que Vic atravessa a ponte, de mota, com os morcegos a esvoaçar e a imagem a inverter-se no écran. O tipo de cena que nunca mais se esquece. Nem que seja só por estes pormenores, é uma série que merece ser vista. Mas sem demasiadas expectativas.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2019
Millennium 1 - Os homens que odeiam as mulheres (2010)
Mikael Blomkvist é um jornalista de investigação contratado por um milionário para descobrir o que aconteceu à sobrinha deste, a adolescente Harriet, que desapareceu misteriosamente nos anos 60. Com a ajuda da jovem hacker Lisbeth Salander, Mikael começa a aperceber-se de que o desaparecimento de Harriet se relaciona com uma série de homicídios cujo padrão esta descobriu. Mas a verdade é que o serial killer está mais perto do que a distância de quarenta anos levaria a crer.
Esta é uma mini-série sueca com uma sensibilidade própria e europeia e cenas de violência (especialmente sexual) que não se vêem neste tipo de thrillers nos filmes de Hollywood (excepto em raros casos, conhecidos exactamente por essa violência). Lisbeth é uma personagem carismática e misteriosa que merecia ser mais desenvolvida. De salientar que Lisbeth é interpretada por Noomi Rapace, a mesma arqueóloga de "Prometheus”, aqui analisado há pouco tempo, e como ela está diferente e mais bonita com mais alguns quilos em cima. Porque em “Millennium 1” a rapariga estava tão magra que eu não percebi logo se era um homem ou uma mulher. Às vezes as pessoas melhoram com o tempo, como o vinho.
Recomendo esta mini-série, diferente das de Hollywood, mas muito bem feita.
segunda-feira, 25 de novembro de 2019
The Passage
Admito que é cada vez mais difícil escrever sobre vampiros de maneira original. É que já se fez tudo, tudinho, de uma forma ou de outra. “The Passage”, valor lhe seja reconhecido, consegue ser original durante todos os episódios… excepto o último.
Cientistas à procura da cura para a gripe das aves ouvem falar de um homem de 200 anos nas florestas da Bolívia a quem os nativos chamam “jararaca” (vampiro). Os cientistas não acreditam em nada de sobrenatural e vão visitar este homem na tentativa de compreender a sua longevidade. Só que este homem é um vampiro, e como os cientistas não dão ouvidos aos avisos, o vampiro acaba mesmo por morder um deles. Como toda a gente sabe, quem é mordido por um vampiro torna-se um vampiro.
Os cientistas não desistem. Recusam-se a acreditar em vampiros e começam a fazer experiências em condenados à morte com o ADN do cientista infectado, sempre em busca de criar o elixir da imortalidade sem os efeitos secundários do vampirismo. Manipulando geneticamente o ADN dos sujeitos, a quem eles chamam “virais” porque se recusam chamá-los vampiros mesmo quando alguns elementos da experiência já lhes chamam o que eles são, os cientistas descobrem que quanto mais jovem for o “sujeito” menos “efeitos secundários” manifesta. Estes efeitos secundários são mais que óbvios 100% vampiro: aspecto de nosferatu, intolerância ao sol, força sobre-humana, poderes psíquicos, e, claro está, os “virais” alimentam-se de sangue e matam sem pensar duas vezes. Para os controlar, os cientistas têm-nos detidos sob grandes medidas de segurança, inclusive a opção de os irradiar com luz do dia, e até têm uma carga de explosivos suficiente para detonar todo o laboratório se for preciso. Mas as experiências com pessoas cada vez mais novas estão a funcionar, e os cientistas têm a “grande ideia” de testar com uma criança. Entra em cena a nossa protagonista, Amy, a miúda órfã de uma mãe toxicodependente, a quem ninguém sentiria a falta se “desaparecesse”. A miúda é esperta e tenta fugir, e consegue mesmo que o agente que a rapta tome o seu lado e a ajude, mas nem mesmo assim têm hipótese. Todo o governo apoia esta experiência clandestina e a miúda é caçada como se fosse uma foragida e é mesmo levada para o laboratório onde é inoculada com o ADN do vampirismo.
Aqui começa a minha grande crítica à série (baseada no livro homónimo de Justin Cronin, mas não conheço o livro e não sei se a série o segue à letra). Os cientistas justificam o que estão a fazer com uma “ameaçadora” pandemia de gripe das aves, mas a série nunca nos mostra nada que nos convença da necessidade do sacrifício de uma miudinha. Pelo contrário, fora do laboratório está tudo normal, ninguém está doente, ninguém está a morrer. O que torna os cientistas nuns monstros maiores do que os vampiros por muito que digam que é para o Bem Maior, blá blá blá.
Estranhamente, apesar de a miúda acabar mesmo por se transformar em vampira, isto nunca tem a gravidade que devia ter. Os cientistas sempre tinham razão, o ADN funciona de forma mais “benéfica” numa criança e Amy é uma vampira diferente, mas nunca percebemos ao certo que tipo de vampira ela é e quais são os seus poderes e vulnerabilidades. Ou até mesmo se precisa de sangue para sobreviver/manter-se forte. E digo que é estranho porque a miúda é a personagem principal, contudo a série chega ao fim e não sabemos exactamente em que é que ela se tornou.
Gostei da parte da série que se passa no laboratório. Gostei principalmente da maneira que os vampiros usam para escapar, não recorrendo à força bruta, como costuma acontecer nestas coisas, mas usando em seu benefício a relutância dos seus captores em acreditar em vampiros. Foi muito original e inteligente. Até a mim me apanhou de surpresa. Sem dúvida o melhor momento da história.
E foi assim, a série prometia, até chegarmos ao último episódio. Nunca me passou pela cabeça que isto se transformasse em mais uma versão de The Walking Dead, com flechas e tudo. Vou fingir que a série acabou um episódio antes, quando ainda era interessante e original. Em resumo, uma série “que se vê bem” sem esperar grande coisa.
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segunda-feira, 11 de novembro de 2019
“Solstício”, conto de D. D. Maio, disponível em papel
Para os leitores à antiga, que gostam de tomar um livro nas mãos e afagar-lhe as páginas, “Solstício” já está disponível também em papel, na Bubok:
www.bubok.pt/livros/12040/Solsticio
O site Bubok permite o preview da capa e das páginas iniciais.
Para os amantes do e-reader, “Solstício” continua disponível para download gratuito em formato epub, aqui:
www.bubok.pt/livros/11942/Solsticio
“Solstício” é um drama romântico no género Low Fantasy. A acção centra-se em torno das celebrações do solstício de inverno em terras pagãs.
Sinopse
A noite mais longa do ano. Eric, o imperador, visita a sua prima Hildegaard nas Terras Verdes em busca da família que nunca teve e da esposa que quer vir a ter. Em terra de bruxas, sem acreditar nelas, espera-o confrontar-se com as suas próprias raízes num mundo isolado e proscrito que nunca conheceu, que nunca será o seu, e de que sempre fará parte.
segunda-feira, 4 de novembro de 2019
Operador de Call Center, de H.M.S. Pereira
Encontrei este livro por acaso, na editora Bubok, já há alguns anos. Na altura estava disponível para fazer download gratuito. Fiz. Olhei para as primeiras páginas, achei a escrita decente, e guardei até ter oportunidade de ler. Actualmente parece-me que o livro só está disponível para venda em papel, mas posso estar enganada.
Admito que o que me atraiu imediatamente foi o título, operadora de hell center que sou também, mas o livro acabou por ser mais interessante do que esperava dele.
Esta é a história das peripécias de Henrique Pissada, jovem que desistiu dos estudos por desilusão com os cursos e que acabou a trabalhar na “LusoCabo” porque foi o que encontrou primeiro. Asseguro que todos os horrores descritos são verdade: os contratos renovados mensalmente pelas empresas de trabalho temporário, os subsídios de férias e Natal incluídos no “ordenado” para parecer às pessoas que ganham mais, o supervisor (único que não é sub-contratado) que passa lá o dia de manhã à noite, a mudança de instalações mês sim mês não, o trabalho em part time porque falar como um robô durante oito horas por dia é de uma violência que só quem já teve a experiência consegue compreender. Óptimo livro para quem nunca trabalhou num call center ficar a conhecer o que se passa com os desgraçados que atendem o telefone.
Mas não se pense que este é um livro “triste”. Pelo contrário, é uma sátira divertida a uma geração entre a minha e a seguinte, a geração dos que tiraram um curso e nunca tiveram oportunidade de trabalhar no que estudaram, dos que moram com os pais ou amigos ou desconhecidos, em quartos alugados, porque trabalham mas não têm independência financeira, dos sonhos acalentados mas inúteis, das noites no Bairro Alto à toa pelas ruas. Toda uma geração completamente à toa.
Henrique Pissada é um protagonista que nos faz rir. Directo, cínico, vai relatando as suas peripécias com uma linguagem autêntica, exactamente como se fala, até mesmo um pouco como se escreve num call center (Existe uma linguagem própria de call center. É como entrar numa realidade paralela.) Henrique Pissada é preguiçoso, indiferente, egoísta, algo desonesto, anti-social, e porco. Daqueles que só toma banho e muda de roupa porque tem de aparecer minimamente apresentável no trabalho. Só mesmo minimamente. Este gajo é tudo o que uma mulher detesta num homem e ainda se pergunta porque é que não tem vida sexual. Mas não é que lhe importe muito, porque acha que tê-la não compensa o trabalho que dá.
Também Henrique Pissada anda à toa, vivendo de dia para dia sem se preocupar com um futuro mais longínquo. E com razão, porque não há futuro longínquo no horizonte. O futuro acaba ao fim do mês, com a renovação ou não do contrato. Depois, não se sabe. Continua-se à toa.
Não julgava que ia gostar tanto deste livro, especialmente considerando o protagonista. Mas admito que também gostei do livro por causa do protagonista. Henrique Pissada despe-se, na primeira pessoa, e mostra-nos quem é, e diz as coisas que se calhar até todos pensamos às vezes sem nunca admitir. Eu admito que Henrique Pissada me fez rir para dentro muitas vezes, e uma ou outra vez até para fora.
Recomendo vivamente a toda a gente que gosta de sátira e não se importa de ler umas verdades.
Não sei se o autor escreveu mais livros, ou até mesmo a continuação das aventuras de Henrique Pissada, mas em caso afirmativo gostava de conhecer mais obras de H. M. S. Pereira.
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
Alien: Covenant (2017) / Prometheus (2012)
Alien: Covenant (2017)
Como faço muitas vezes, comecei a ver este filme sem saber quase nada sobre ele. Nem que era de Ridley Scott, nem que era um filme da série Aliens, nem que era a sequela de “Prometheus”. (Da sinopse e título pensei que era a história de colonos espaciais que encontram uma civilização alienígena hostil.) Não saber nada de um filme (ou livro) permite-me absorver a obra sem expectativas ou ideias preconcebidas. E admito que fiquei agradavelmente surpreendida quando percebi que ia ser um filme da série Aliens. Até cerca de metade do filme gostei bastante. E de repente o filme tornou-se confuso. Comecei a ter a sensação de que tinha perdido um episódio. Efectivamente, perdi, porque ainda não tinha visto “Prometheus”.
Então a história é esta. A nave espacial Covenant dirige-se a um sistema solar distante na intenção de o colonizar. Mas, durante o caminho, recebe uma transmissão humana, vinda de um planeta tão propício à vida que é completamente compreensível que a missão decida investigar e, talvez, estabelecer-se mesmo ali.
Mas a transmissão é uma armadilha. E de quem? Ora, é esta a parte em que seria preciso conhecer o que aconteceu em “Prometheus” e em que comecei a ficar confusa.
“Alien: Covenant” começa muito ao estilo de “Odisseia no Espaço” (ou filmes semelhantes da altura, até nas roupas que parecem ter saído dos anos 70) com o criador de um andróide muito evoluído, e este próprio andróide, David, a terem uma discussão altamente filosófica sobre quem devia servir quem uma vez que o andróide é eterno e o criador é mortal.
Muda a cena, estamos na nave Covenant. Esta nave tem um andróide, que eu julguei que era o tal David (são iguais) mas afinal não era. Instala-se a confusão na minha cabeça.
A tripulação da nave desce ao tal planeta, onde começam a ser infectados pelo nosso alien do costume (afinal não fui assim tão enganada pela sinopse, simplesmente o alienígena hostil não é um desconhecido) através de esporos que entram pelo nariz, boca, ouvidos e outras reentrâncias do corpo humano. Mas a maneira como sai é a mesma: buraco entre as costelas e lá vai ele.
Entretanto, já andam pelo menos dois aliens adultos à solta ainda antes que a pobre tripulação perceba muito bem o que lhe está a acontecer. Quando estão a ser atacados, eis que entra em cena o primeiro andróide, David, o tal da primeira cena, com armamento que afugenta os aliens.
E aqui parece que o filme deixou o universo Aliens e entrou no universo O Senhor dos Anéis. David vem coberto com uma manta encapuzada à elfo, de longos cabelos loiros, no papel do estranho misterioso e cheio de poderes sobre-humanos que oferece ajuda.
Só percebi que era um andróide quando ele se volta para o andróide da nave e lhe chama “irmão”, e só aí percebi que o andróide da nave não era o mesmo do princípio.
Ok, avançamos. A tripulação é levada para as ruínas de uma cidadela completamente rodeada de cadáveres carbonizados (a lembrar Pompeia) e ninguém se lembrou de perguntar ao tal David o que raio se tinha passado ali. Entretanto, este explicava que era o único sobrevivente da nave Prometheus, dada como perdida, e a fonte da transmissão que leva ali a tripulação da Covenant.
O filme continua dividido em dois a partir daqui: por um lado, os recém-chegados da Covenant protagonizam um filme Aliens como estamos habituados, eles a fugir, os aliens a comê-los, enquanto que os dois andróides se retiram para mais uma conversa filosófica como se nada se passasse lá fora.
E aconteceu-me outro momento de grande confusão. O novo andróide, o tal David, subitamente aparece de cabelo preto e cortado, e quase igual ao outro, e durante toda a cena eu não percebi que era o mesmo actor a contracenar consigo próprio! Aqui tenho de dar os parabéns ao actor Michael Fassbender que me convenceu completamente de que era duas personagens diferentes a ponto de enganar os meus olhos. (Mas deixem-me explicar o motivo principal da minha confusão, que foi o cabelo loiro. Isto é explicado no filme anterior, “Prometheus”. Quem conhece os andróides de Aliens não lhes nota qualquer vestígio de vaidade ou vontade de ser diferente. Mas David, aparentemente, foi o primeiro andróide a ser criado e é muito mais humanizado do que os outros, o que se revela um problema. Sim, David decidiu mudar de visual. E isto baralhou-me tanto que passei o filme a tentar perceber quem era quem. Mas lá consegui apanhar o fio à meada e até adivinhei a reviravolta final.)
Fazendo justiça a Ridley Scott, se eu tivesse visto “Prometheus” primeiro esta confusão não se punha porque David é completamente inesquecível. O que só vem reforçar a ideia de que os filmes são episódios e precisam um do outro, e não aconselho ninguém a ver “Alien: Covenant” antes de “Prometheus”. A sensação de “episódio perdido” persiste até ao fim do filme. Comecei a ficar com a impressão de que “Alien: Covenant” se tinha passado antes mesmo do primeiro Alien, que este tal David é que tinha manipulado geneticamente a raça de aliens até estes se transformarem nos aliens que viemos a conhecer nas aventuras da Ripley, mas tudo isto apenas como hipótese e sem lhe conhecermos as motivações. Este David, neste filme, aparece como um Dr. Frankenstein apaixonado pelo seu monstro, um filme dentro de outro filme. Mas um filme que termina no Aliens “habitual”, com todas as reviravoltas que esperamos desta saga. Se alguém tem o direito de inovar é mesmo Ridley Scott, realizador do “Alien” original, mas parece-me que ele tentou fazer a sua “Odisseia no Espaço” ao mesmo tempo que dava à audiência a dose de aliens de que esta estava à espera. Se resultou? Bem, é uma boa dose de aliens com todos os condimentos habituais, mas “Alien: Covenant” continua a parecer dois filmes que só por coincidência se interceptam e no meu caso com um “episódio perdido” pelo meio. Por este motivo, culpa minha que não vi “Prometheus” antes, abstenho-me de dar nota por agora.
Prometheus (2012)
“Prometheus” não é a dose habitual de Aliens. É um filme filosófico e ambicioso sobre a origem da vida, especialmente sobre os motivos do criador e a sua relação com as criaturas que concebeu.
O filme começa quando uns arqueólogos, na Terra, descobrem gravuras rupestres que apontam para uma raça estelar semelhante à humana e para um sistema solar longínquo que, segundo estes acreditam, é o lar dos nossos Criadores, a quem chamam os Engenheiros. Esta descoberta leva-os a uma viagem ao tal planeta dos Engenheiros, na esperança de conhecerem a espécie que deu origem à raça humana.
Enquanto a tripulação dorme na nave que a transporta até lá, voltamos a encontrar o andróide David (o mesmo de “Alien: Covenant”) e percebemos porque é que ele pinta o cabelo. David pinta o cabelo de louro depois de ver “Lawrence da Arábia”, o seu herói. E um andróide com um herói é um andróide com personalidade. David é, indubitavelmente, o personagem principal, um andróide com um complexo de superioridade em relação aos seres humanos que o criaram e que o tratam como a um robô sem sentimentos nem intelectualidade. David está chateado e tem motivos para estar chateado.
Ao chegarem ao planeta dos supostos Engenheiros, hominídeos gigantes que nos teriam criado à sua imagem, mas agora aparentemente extintos, David encontra, primeiro que todos, uma outra criação dos Engenheiros, uns estranhos micróbios cuja finalidade desconhece. Mas começa imediatamente a testá-los nos humanos, especialmente nos humanos que o tratam pior.
Há muitas cenas arrepiantes neste filme, mas na minha opinião a pior de todas é a operação à barriga. Não faltam outras, igualmente de arrepiar os cabelos. Ninguém vai sair deste filme insatisfeito nesse departamento. Os efeitos especiais são particularmente convincentes.
Mas como este não é um filme de aliens qualquer, a nossa curiosidade é conduzida para esta raça de gigantes que supostamente nos criou. Após pesquisarem as instalações que os Engenheiros deixaram no planeta, a tripulação da Prometheus percebe que este não é um lar mas uma base militar, e carregadinha de armas de destruição maciça (o micróbio alien). Visualizando gravações de imagens, percebem que os Engenheiros se preparavam para voltar à Terra com o objectivo de destruir a humanidade que eles próprios criaram.
Mas se dúvidas houvesse, David o andróide descobre que um dos Engenheiros ainda está no complexo, vivo, numa câmara de hipersono. A tripulação acorda-o e tenta estabelecer comunicação com ele, mas o gigante não quer conversas e desata a matar toda a gente que apanha. Não bastando fugir dos aliens, agora têm de fugir dele também.
Voltemos ao princípio. Filme filosófico e ambicioso em que a humanidade se confronta com o seu criador. Este criador, aparentemente, mudou de ideias e resolveu destruir a sua criação. Que moral, ensinamento, conclusão tiramos daqui?
“Porque é que queres saber porque é que eles mudaram de ideias? É irrelevante. Não compreendo.”, pergunta David à arqueóloga.
“Não compreendes porque tu és um robô e eu sou um ser humano”, responde ela.
Ainda bem que eu também sou um ser humano porque eu também queria muito saber porque é que os Engenheiros se deram ao trabalho de criar a humanidade para depois a destruir. Isto é, posso tecer milhentas conjecturas sozinha, mas o filme não oferece nenhuma. Temos de ficar com esta ideia “interessa-nos porque somos seres humanos”. Fraquinho, muito fraquinho. Eu esperava, no mínimo, uma teoria. Um motivo. Afinal ficamos na mesma.
De igual forma, não percebi o Engenheiro suicida que se mata com uma dose de micróbios alien no princípio do filme enquanto vê a nave do seu povo afastar-se. Dá ideia de que foi o único que ficou no planeta, mas afinal não, porque havia outro em hipersono. A única pista sobre este suicida é uma menção no genérico final como aquele que se “sacrifica”, o que ainda é mais confuso. Do que vimos nas tais imagens deixadas por eles, tiveram de fugir à pressa porque as experiências com aliens não correram bem. (A única parte que se percebe perfeitamente, conhecendo nós os aliens como os conhecemos.) Então quando é que isto (o suicídio/sacrifício) aconteceu? Terá sido neste planeta, como parece dar a entender, ou no deles, ou na Terra, ou noutro lado qualquer? Mais uma vez podia pôr-me aqui a tecer conjecturas, mas o filme não dá respostas. “Alien: Covenant”, a sequela, também não nos explica mais sobre esta raça de gigantes excepto o massacre que se vê na tal cidadela de que falei acima. E que mais uma vez nos deixa sem saber nada.
As únicas respostas que temos, tanto em “Prometheus” como em “Alien: Covenant”, são sobre a origem dos aliens. Afinal começaram como micróbios (ou esporos, não percebi bem) e foram sendo geneticamente manipulados (e evoluindo por eles próprios, igualmente, com a ajuda dessa manipulação), primeiro pelos Engenheiros e depois pelo próprio David, antes de serem o alien que conhecemos da nave Nostromo. Uma coisa é certa, no entanto: até como micróbios os aliens eram extremamente mortíferos, se não mais, porque não se viam a olho nu e mesmo assim entravam no corpo do hospedeiro e faziam aquilo que se sabe.
Gostei mais de “Prometheus” do que de “Alien: Covenant”, e gostei mais ao segundo visionamento. A primeira vez que vi fiquei confusa, a perguntar-me o que me tinha escapado. Afinal não me escapou nada, mas estes dois filmes têm ar de trilogia incompleta. As intenções são claras, fazer um paralelo entre a nossa criação, ou mitologia dessa criação, com a criação dos aliens, e de como acabamos todos por ser espécies a competir pela vida num universo indiferente, abandonados por um Criador que não se importa. Muito existencialista. Mas parece-me que Ridley Scott queria dizer mais e ainda não foi desta que conseguiu. A existência e motivação dos Engenheiros é interessante e misteriosa e merecia um filme só para eles. Até sem aliens.
Também gostei muito de toda a imagética criada em “Prometheus”, a começar pela primeira cena. Só é pena deixar tantas perguntas a que a sequela também não responde.
Fiquei interessada e fui investigar. Parece que Scott prevê realizar outro filme ainda só denominado “Untitled Alien Prequel". Por mim, que venham mais. Que venham todos.
Alien: Covenant
14 em 20
Prometheus
15 em 20
segunda-feira, 14 de outubro de 2019
Noah / Noé (2014)
Esta é a história bíblica de Noé e do dilúvio, versão Senhor dos Anéis com preocupações ecológicas.
Qualquer filme sobre acontecimentos bíblicos é um filme altamente escrutinado. Quem os faz também sabe disto. Depois é uma questão de perceber se o realizador quer seguir tudo à letra (“A Paixão de Cristo”) ou ser “criativo”. Aqui foram um bocadinho mais criativos, na minha modestíssima opinião, do que um filme bíblico devia ser. Não é que não compreenda as preocupações ecológicas para tornar o filme actual e relevante, mas não era preciso pôr esta gente antediluviana a disparar armas de fogo.
Há mais. Por exemplo, os anjos caídos (sim, os tais que seguiram Lúcifer) transformaram-se em pedregulhos animados a lembrar os Entes de Tolkien (porquê, oh, porquê?) e ajudaram Noé a proteger a Arca dos maus. (Se Jeová soubesse que Noé estava a ser ajudado por demónios nem Noé se safava.) Matusalém (Anthony Hopkins, com a sua cara sinistra de Anthony Hopkins), na Bíblia o homem que viveu mais anos em toda a humanidade (969 anos, não é brincadeira) e avô de Noé, tem poderes mágicos que fariam inveja a um Gandalf. Se calhar aprendeu-os dos demónios? Ai se Jeová soubesse disto tudo, Deus os livrasse! É só ler o Velho Testamento para perceber que Jeová Deus dos Exércitos não gostava nada de magias nem de feiticeiros. Mas quem fez o filme não se ralou nada com isso.
Quando se vê um filme sobre Noé, é natural esperar grandes efeitos especiais em duas vertentes principais: os animais e o dilúvio propriamente dito. E com isto falo de efeitos especiais de grande envergadura, daqueles tão caros que obrigam a que só se faça um filme sobre Noé de 50 em 50 anos. Nos animais, fiquei decepcionada. Muito pouco, poucochinho. Poucos animais, pouco detalhados, vistos ao longe. Eu queria ver os bigodes dos leões e os pêlos nas trombas dos elefantes. Fiquei desapontada. Já o dilúvio, a princípio não se distingue de uma chuvada normal. Fica um bocadinho melhor com os geisers (as águas da terra) e as vagas que finalmente cobrem o horizonte. A imagem da Terra vista do espaço, completamente envolta em furacões, como se fosse uma fotografia de satélite, também foi algo de inesperado e original num filme inspirado em temas bíblicos.
Porque convenhamos, um filme destes, quando não segue a história à letra, fica reduzido aos efeitos especiais. Todo aquele drama que acontece dentro da Arca, com Noé a querer matar as netas recém-nascidas (Jesus, que homem tão mau), armado em mais jeovista do que Jeová, completamente fanático e tarado, tipo líder de culto que decide matar todos os seguidores, isso nunca acontece na Bíblia nem nada que se pareça. Aquilo foi tudo para dar que fazer à miúda do Harry Potter. Só para repor a verdade, todos os filhos de Noé já tinham esposas antes de entrarem na Arca. E não entrou nenhum “homem mau” na Arca a matar os animais. Se isso acontecesse, na Bíblia, aparecia-lhe logo um daqueles anjos exterminadores de Sodoma e Gomorra e da Páscoa do Egipto que lhe ensinaria o significado da expressão “o temor de Deus”. Melhor gente foi fulminada por muito menos. A mulher de Ló, transformada numa estátua de sal só porque olhou para trás. Nunca, mas nunca, o Criador permitiria que se destruísse parte da sua criação que ele já tinha deliberado salvar. (Na altura Deus intervinha. Agora é que não.)
A única coisa em que o filme conseguiu acertar foi em convencer-nos da maldade dos contemporâneos de Noé. Existe uma cena bastante perturbadora que parece mesmo uma visão do inferno em todo o seu esplendor medieval, com fogo e tudo. Mais apropriada num cenário pós-apocalíptico mas completamente eficaz.
Onde o filme errou completamente foi na caracterização de uma das “personagens” principais desta história, o Deus do Velho Testamento, aquele que mandou o dilúvio. De forma alguma aqueles demónios seriam perdoados e admitidos de volta ao Céu. Basta ler o Génesis, o Êxodo, e quem não gosta do Velho Testamento que leia os Evangelhos e atente no que Jesus diz de Lúcifer e afins, culminando no Apocalipse/Revelação (o lago de fogo). Que história é que estavam mesmo a contar, afinal?
“Noé” não seguiu o relato bíblico e o fim soou mais vazio do que era claramente a intenção. A grande história de Noé e do dilúvio é a explicação da relação de Deus com os homens. De como Deus perdeu a cabeça com a humanidade e decidiu destruir quase tudo para começar de novo, e no fim arrependeu-se. É este o significado do arco-íris. Mas, ao arrepender-se, foi o momento em que Deus começou a decidir parar de intervir, e, consequentemente, a começar a afastar-se. Foi dado livre-arbítrio à humanidade, mas que faz a humanidade com esse livre-arbítrio quando Deus se afasta? Este é que é o grande tema filosófico do dilúvio, mais filosófico até do que religioso porque não é preciso ser-se crente para o compreender.
“Noé”, o filme, deixou Deus de lado e reduziu tudo isto a um duelo entre maus e menos maus. Ainda por cima a armar-se ao Senhor dos Anéis.
Sinceramente, não gostei.
12 em 20 (os pontos são para os efeitos especiais)
segunda-feira, 7 de outubro de 2019
The Death of Bunny Munro (2009), de Nick Cave
Saber que Nick Cave tinha escrito um romance deixou-me naturalmente curiosa, interessada e empolgada. Não é o seu primeiro: “And the Ass Saw the Angel” (publicado em 1989), que eu não li, já está na minha lista para colmatar essa falha.
Comecemos pelo princípio, Nick Cave é um poeta e um letrista extraordinário. Disto, ninguém que conheça o seu trabalho tem qualquer dúvida. Quando deram o Nobel a Bob Dylan, mais do que pensar em Leonard Cohen, eu pensei logo em Nick Cave. Isto só para expressar em que pedestal ponho o homem como poeta que é.
Mas escrever um romance não é a mesma coisa que escrever poesia. E um poeta não é necessariamente um romancista. Tive receio, ao pegar em “The Death of Bunny Munro” que Nick Cave não fosse tão completamente sublime, na prosa, quanto o é na poesia. Não é que as duas coisas se possam comparar linearmente, mas fiquei completamente rendida à escrita de Cave como romancista também. Com algumas críticas, ligeiras, que tenho a fazer ao livro.
Mas antes de ir às críticas, o que mais gostei foi sem dúvida a grande riqueza de imagens, inspiradas e inesperadas, que nos fazem relacionar coisas que aparentemente não teriam qualquer relação. Como, aliás, Nick Cave já nos habituou nas suas letras, pelo que não foi novidade nenhuma. Este romance podia ser uma longa canção, ao estilo de “Jangling Jack”, todo escrito no presente do indicativo, alternando os pontos de vista entre Bunny e o seu filho Bunny Junior, com alguma presença de um narrador quase invisível excepto a um olho treinado. E fico-me por aqui a nível de características técnicas. Vamos então à história e às personagens.
Bunny Munro é um tarado sexual e esta é a sua história. E não exagero a parte da taradice. A princípio nem percebi se Nick Cave estava a querer ser sério ou cómico (ou um misto dos dois) ao caracterizar Bunny, que até lembra as piadas de tarados sexuais que se contavam no liceu. Este é um homem que não pensa noutra coisa senão sexo. Desde o momento em que acorda de manhã ao último pensamento antes de adormecer: vaginas, vaginas, vaginas. Olha para uma mancha na parede e vê nela um par de mamas. Olha para outra mancha e vê um traseiro. (Juro que havia uma piada assim, e até me lembro dela, mas não vou contar.) Bunny não precisa de ver pornografia porque todos os seus pensamentos são pornografia. Actualmente chama-se a isto uma adicção ao sexo e é tratada como qualquer outra adicção. Bunny, inclusive, trabalha em venda de produtos de beleza, o que o leva a casa das clientes para demonstrações personalizadas. O perfeito terreno de caça. Na verdade, até o emprego é um meio para atingir o fim, satisfazer a adicção, de manhã à noite. E Bunny, curiosamente, tem uma carinha laroca e tem sucesso nas suas aventuras. Tirando esta ou outra excepção (a intelectual cinturão negro em Taekwondo que lhe partiu o nariz), fiquei surpreendida com o seu nível de êxito. Mas Bunny é um tipo desprezível. Até podemos achar-lhe alguma graça até sabermos que já recorreu a roofies para se aproveitar de mulheres inconscientes, até o vermos aproveitar-se de uma junkie à beira de uma overdose, até nos enojar como ele rouba algumas jóias a uma cliente velhota e cega. Isto é um sociopata a quem só interessa a sua satisfação pessoal e imediata, sexual ou outra. E nem sequer falei da sua (não-)relação com o pobre do filho, a quem Bunny liga exactamente zero.
Mas isto leva-nos à sua relação com a mulher dele, Libby, cujo suicídio é o acontecimento que dá início à história. Não gostei da personagem Libby porque não me pareceu realista. A história passa-se nos anos 90. Sabemos isto porque o puto de nove anos anda sempre com uma enciclopédia e ninguém tem computadores ou smart phones e os telemóveis ainda são de concha, mas Kylie Minogue e April Lavigne já são estrelas mediáticas. [Rectificação: segundo a Wikipedia a acção passa-se em 2003, mas tudo o que eu acabei de dizer ainda se aplica nesta data.] Libby é uma dona de casa com depressão, casada há 10 anos com Bunny, farta de saber que ele a trai a toda a hora e a torto e a direito com conhecidas e desconhecidas. Pior que tudo, ele apalpou o traseiro à melhor amiga de Libby no dia em que Libby chegou da maternidade com o recém-nascido, quando a amiga estava na casa deles para ajudar com as tarefas domésticas. Pior que isto é difícil. Taradice e ingratidão. E Libby sabe porque a amiga lhe contou o que ele fez. Libby sabe e durante dez anos atura esta situação. Logo no princípio do casamento, Libby ainda vai para casa dos pais, mas volta para o marido. Entretanto Bunny Junior tem nove anos, Libby não procura emprego nem ajuda psiquiátrica, e continua casada com um homem que não a respeita a ela nem a ninguém. Saliento que apesar de todos os seus defeitos Bunny não é daqueles que isola e maltrata a esposa e a impede de sair de casa. Não, isso ele não é. Pelo contrário, ele quase não pára em casa e só não a ignora quando quer sexo com ela também. Deprimida ou não, Libby tem opções. Tem família e amigos que a podem receber, pode tentar arranjar emprego, pode pedir ajuda psiquiátrica. Não faz nada disto. E eu não acredito que uma mulher jovem, nos anos 90, aturasse placidamente um casamento que mulheres de outras décadas --ou por vergonha, ou por estigma social, ou por dependência económica do marido, ou por demasiada idade para arranjar emprego, ou por falta de apoio de família e amigos-- suportariam por falta de opções. Nos anos 60, até mesmo nos anos 70, talvez. Nos anos 80, em Inglaterra, onde se passa a história, já tenho dúvidas. Nos anos 90, nem pensar. Libby não é daquelas esposas sem alternativa que se vêem amarradas a um casamento abusivo. Se Libby não é uma personagem pouco credível, é pior, é burra quem nem uma porta. (A depressão é uma coisa, a burrice é outra). Mas, na verdade, Libby não me merece muito respeito porque eu não acredito nesta personagem. Não acredito que uma mulher jovem, bonita, com o apoio da família, com um filho a crescer naquele ambiente com aquele pai que não lhe liga nenhuma, não se pusesse depressa dali para fora. Acreditaria, sim, se a lassidão de Libby se explicasse por um mal bem mais conhecido do autor desta história: uma dependência de substâncias.
Digo mesmo mais, a obsessão de Bunny por sexo, desde que acorda até que adormece, parece-me muito a vida de um viciado em que tudo se resume a obter a próxima dose. Libby, apaticamente sentada no sofá, parece-me outra "drogada" como ele. Reconheço que a depressão é uma doença incapacitante (estou completamente à vontade para falar de experiência própria), mas custa-me acreditar que uma mãe não tenha feito nada para tentar melhorar a sua vida, tendo um filho de nove anos com um pai com que não se pode contar. Em vez disso, suicida-se.
Os amigos de Bunny também não são melhores. Classe média-baixa xunga, de uma espécie como só existe por aquelas bandas. Piadas xungas, quecas xungas, penteados e roupas xungas, tudo é xunga naquele ambiente.
Salva-se o miúdo, o pobre órfão Bunny Junior, que nos parte o coração porque está convencido de que tem o melhor pai do mundo. Para ele, Bunny é um campeão. É mesmo de ter pena do miúdo quando este fica sozinho com aquele tipo egoísta depois do suicídio da mãe. O miúdo é esperto, e naquela interacção alucinante em que Bunny Junior viaja com o pai enquanto este finge andar a vender cosméticos quando na verdade só pensa onde arranjar a próxima queca, começa a aperceber-se de que o seu pai não é o herói que tinha imaginado. A interacção entre pai e filho, afinal, é o cerne da história e o que nos prende à leitura. A torcer pelo filho, bem entendido, e a desejar de todo o coração que alguém o tire àquele pai.
Não vou contar mais porque já me aproximo do fim, e o fim é uma reviravolta com uma surpresa (ou talvez não, se estivermos com atenção), mas poderei dizer que chegando à última página cada um de nós vai ter de tirar conclusões e, se calhar, pensar na vida.
“The Death of Bunny Munro” é como aquelas viagens em que o mais importante é a jornada e não o destino. Apesar de ter detestado o protagonista, apesar da xungaria da maioria das personagens, incultas e grosseiras, apesar de só ter sentido empatia pelo pobre do puto que não tem culpa de nada, gostei do que li. Gostei principalmente da escrita, das imagens inesperadas, de uma longa “canção” de Nick Cave em forma de romance.
Estou convencida. Quero ler mais de Nick Cave e espero que ele escreva mais. Só não mais tarados sexuais, por favor. Já chega.
Agora vou mesma à cata de “And the Ass Saw the Angel”.
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
Victor Frankenstein (2015)
Como adorei o livro original “Frankenstein” de Mary Shelly (o que me surpreendeu tendo em conta o que conhecia da história através das versões de Hollywood), raramente deixo passar uma adaptação.
Esta é mais uma, e aposta na espectacularidade gótica e vitoriana dos cenários e guarda-roupa. A personagem principal não é Victor Frankenstein mas sim o seu assistente, Igor (não é o seu nome verdadeiro mas não vou dizer como é que ele adoptou esse nome), um palhaço corcunda com amor pela medicina que Victor resgata de um circo onde este é maltratado. Ora acontece que este desgraçado é corcunda porque tem um abcesso nas costas e Victor consegue tratá-lo e oferecer-lhe uma vida normal. Mais tarde, Victor dirá que Igor foi a sua melhor criação. Considerando o enredo do filme, até tem razão.
Para quem leu o livro, a breve aparição e destino da criatura criada por Frankenstein é insultuosa. Este filme nunca foi sobre a criatura mas sobre a relação de amizade de Victor e Igor, e mesmo assim é um filme vazio, fútil, muito espectáculo e pouco conteúdo. As próprias personagens raramente se conseguem mostrar tridimensionais. Victor é o génio louco. Igor é o assistente agradecido. Lorelei é a cara bonita que é necessária num filme onde todos os personagens são homens. O monstro/criatura é o colosso abrutalhado e quase invulnerável que volta à vida com uma tendência para atacar toda a gente que vê à frente.
Qualquer semelhança com o livro original é quase coincidência. Este é um filme para ver quando não se tem mais que fazer, e vê-se muito depressa porque não há nada aqui para pensar. Recomendo antes a leitura do livro original de Mary Shelly, esse sim, genial.
13 em 20 (pelos cenários e efeitos especiais)
segunda-feira, 23 de setembro de 2019
A Confissão de Lúcio, Mário de Sá Carneiro
Para quem está a ler a antologia “Dentro da Noute”, chegar a este conto (que encerra a colectânea de contos portugueses) é chegar à modernidade.
“É que, em realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou — apenas — os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio.Tirando algumas expressões muito datadas, especialmente de inspiração francesa, “Lúcio” continua a fazer sentido hoje (ou, neste caso, a não fazer sentido). Na primeira pessoa, o personagem Lúcio confessa, ou melhor, não confessa, um crime que não cometeu mas que o manteve na prisão durante dez anos. Uma verdade inverosímil, como o próprio diz, uma sequência de acontecimentos impossíveis, inacreditáveis.
Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem, têm a paz — pode ser. Entretanto não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter vivido."
A história passa-se mesmo no final do século XIX, início do XX, numa alta sociedade de artistas portugueses apaixonados por Paris, a cidade venerada de todo o vanguardismo à época. Lúcio, dramaturgo, convive com outros artistas e escritores, todos eles atingidos dessa doença dos ricos chamada “ennui” que se contrai por não se fazer nada na vida senão passear pelos boulevards, viver em hotéis e jantar em restaurantes chiques. Lúcio conhece o poeta Ricardo de Loureiro, com quem estabelece uma íntima amizade. Muitas coisas são ditas entre os dois (o poeta tem ideias muito “estrambóticas”, como diz o conto), mas talvez a mais importante seja a maneira como o poeta declara só ser capaz de amar se “possuir”, logo, como é que pode amar um amigo se não consegue possuir alguém do mesmo sexo? Isto vai causar uma materialização da alma de Ricardo numa figura feminina que se torna amante de Lúcio. Ou seja, pelo menos é esta a “verdade” de que o narrador nos tenta convencer, sabendo ao mesmo tempo que qualquer plausibilidade é impossível.
“Mas ponhamos termo aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de factos. E para a clareza, vou-me lançando em mau caminho — parece-me. Aliás, por muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará — estou certo — a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida.O próprio narrador nos avisa, pelo excesso, de que não é de confiança. Até que ponto é que o autor não nos quer revelar o tema que o conto trata (a homossexualidade), ou até que ponto o autor não admite que trata este tema, deixo a outro tipo de análise. Um século depois, esta temática “chocante” perdeu-se e o leitor moderno sente-se atraído pelo mistério que Lúcio nos vai relatando, duvidando aqui e ali dos tais pormenores que o narrador prometeu descrever fielmente, questionando a sua sanidade mental (tal como ele nos advertiu), questionando a relevância deste ou daquele acontecimento no total da narrativa. Tive muitas vezes a sensação (e a desconfiança) de estar a ler o relato de um sonho. O que de certa forma me recorda de Kafka, pese embora a diferença de temáticas. Se tantas vezes as histórias pecam por incoerência e falta de sentido, quando é bem feito e apoiado num todo surrealista resulta muito bem. Este é um desses casos e uma leitura que recomendo a toda a gente que ama a literatura.
Uma coisa garanto porém: Durante ela não deixarei escapar um pormenor, por mínimo que seja, ou aparentemente incaracterístico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer duma grande soma de factos. E são apenas factos que eu relatarei. Desses factos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro que nunca o experimentei. Endoideceria, seguramente.
Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo é que só digo a verdade. Não me importa que me acreditem, mas só digo a verdade — mesmo quando ela é inverosímil.”
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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute –
Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
Sede de Sangue, de Manuel Teixeira Gomes
Este conto devia ser daqueles que mais me empolgam. Um vampiro. Um vampiro a sério! Mas infelizmente o conto não me cumpriu as expectativas.
Esta é mais a história de um mirone, o narrador, que do seu escritório, onde escreve para um jornal da terra, tem uma vista privilegiada para a “taberna” de um Sr. Trovas e sua esposa Balbina Catada, “antiga marafona que ele desposara em Lisboa”. Sim, a “taberna” é um bordel, e “marafona”, presumo, era sinónimo de prostituta. (Actualmente, “marafona” significa “mulher feia”. É curioso como as palavras evoluem.)
O narrador passa a maior parte do conto a descrever as “marafonas” (nos dois significados) que trabalham na taberna, até que lá aparece uma bela mulher de raça cigana: “Era uma rapariga de aparência franzina que, airosa, de perna cruzada, arcando divinamente o braço nu, fumava cigarros e falava espanhol. Ao expelir o fumo do cigarro em ténues baforadas toda se encostava para trás e o seio entumecia-se-lhe prodigiosamente debaixo do leve casabeque solto; de entre as fartíssimas madeixas do cabelo, que lhe caía sobre os ombros em lustrosas ondas negras, o rosto emergia oval, puro, mate, iluminado por dois olhos babilónicos, imensos olhos ardentes que fascinavam…”
Ora, esta nova trabalhadora da taberna começa a dizer, repetidamente: “a minha vida está por um fio: não tarda muito que não venha alguém beber-me o sangue”. Por estranho que pareça, ninguém lhe pergunta o que é que ela quer dizer com isto. Não é uma coisa normal de se dizer. Mas um dia, de facto, o nosso narrador/mirone observa a chegada de um estranho homem: “No momento em que o tive quase ao meu lado examinei-o bem: era enorme; era monstruoso! O arcabouço mociço, redondo, com proporções de mó de moinho; os braços grossíssimos, como troncos d’árvore articulados, encurvavam-se a miúdo e ligavam as mãos com um jeito de formidável turquês que se fecha para esmagar qualquer coisa; e as esgalgadas pernas de uma tão maravilhosa elasticidade que só as feras assim as têm. Mas o rosto, então, apavorava: lívido, golpeado pelo farto bigode preto, que lhe caía em compridas, agudas pontas dos dois lados do queixo, e sob as hirsutas sobrancelhas, na profundeza das órbitas cavernosas, ardiam-lhe os olhos desvairadamente…”
O narrador espreita como a cigana e este “gigante” se encontram, como se afastam até uma praia, e como ele efectivamente lhe bebe o sangue. E depois o conto acaba, sem qualquer explicação. “Os médicos que lhe fizeram autópsia, ao dia seguinte, não lhe encontraram pinga de sangue nas veias, mas ninguém suspeitou que um vampiro lho houvesse sugado, pois durante a noite a maré lavajara por muitas horas o cadáver e o sítio onde ele ficara, presumindo-se que assim desaparecera o sangue derramado.”
Há casos em que a falta de explicação valoriza a história, mas este não é desses casos. Afinal, o que foi aquilo tudo? Este homem “monstruoso” era mesmo um vampiro (sobrenatural) ou um assassino qualquer? E se a vítima tinha conhecimento do vampiro (sobrenatural ou não) porque é que aceitava tão placidamente que este lhe viesse beber o sangue? Não saber as respostas a estas perguntas deixou-me frustrada e sem perceber o que é que o conto queria, de facto, contar. A mim parece-me que o autor estava mais interessado em falar das marafonas e da Balbina Catada. Como grande fã de literatura de vampiros, não gostei.
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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute –
Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
O Cadáver, de Beldemónio
Este é um conto cómico que conseguiu fazer-me rir. Trata da história de um homem que vinha de um baile, “Fernando de Morais, um valsista infatigável de todos os bailes do campo”, pelas bandas do Campo Grande, que nessa altura era mesmo campo e arredores de Lisboa. (Primeira gargalhada.) “De repente, distraído, tropeçando em qualquer coisa de mole, caiu de bruços para a frente, com as mãos estendidas. As suas mãos bateram numa superfície fria e molhada; e quando ele rapidamente se quis firmar para se pôr em pé, encontrou cabelos; o seu olhar já habituado ao escuro reconheceu um cadáver ali estatelado, de ventre para o ar, com a cabeça um pouco de lado, lívida e horrorosa sob o luar alvacento.” Era um homem que tinha sido assassinado. Mas este Fernando, e justificadamente, tem medo de ser acusado do crime se for encontrado junto ao cadáver e desata a fugir espavorido. É muito interessante como ele toma medidas forenses para eliminar todos os vestígios do cadáver, queimando a roupa manchada de sangue, fingindo um semblante calmo e sereno enquanto, intimamente, a paranóia de ser acusado do crime vai aumentando a níveis insuportáveis. Bem diz o conto:
«Se se lembrarem de propalar que furtei sub-repticiamente o zimbório da Estrela, a primeira coisa que tenho a fazer é fugir para o estrangeiro, e justificar-me de lá...»
Segunda gargalhada. E não é que ainda é verdade nos nossos dias? Especialmente para o desgraçado do pobre, que não tem uma firma de advogados que o defendam se for injustamente acusado. Mas se é rico e corrupto, não só não o conseguem prender como ainda se “arrisca” a ser reeleito Presidente de Câmara…
Não vou contar o que acontece a Fernando porque ia estragar a piada. Na verdade, esta história nada mais é do que uma piada desenvolvida em forma de conto. O mais surpreendente é que ainda nos faz rir hoje em dia, duzentos anos depois.
Beldemónio é o pseudónimo de Eduardo Lobo Correia de Barros, cronista, contista, jornalista e tradutor.
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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute –
Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.
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