segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Noah / Noé (2014)

 

Esta é a história bíblica de Noé e do dilúvio, versão Senhor dos Anéis com preocupações ecológicas.
Qualquer filme sobre acontecimentos bíblicos é um filme altamente escrutinado. Quem os faz também sabe disto. Depois é uma questão de perceber se o realizador quer seguir tudo à letra (“A Paixão de Cristo”) ou ser “criativo”. Aqui foram um bocadinho mais criativos, na minha modestíssima opinião, do que um filme bíblico devia ser. Não é que não compreenda as preocupações ecológicas para tornar o filme actual e relevante, mas não era preciso pôr esta gente antediluviana a disparar armas de fogo.
Há mais. Por exemplo, os anjos caídos (sim, os tais que seguiram Lúcifer) transformaram-se em pedregulhos animados a lembrar os Entes de Tolkien (porquê, oh, porquê?) e ajudaram Noé a proteger a Arca dos maus. (Se Jeová soubesse que Noé estava a ser ajudado por demónios nem Noé se safava.) Matusalém (Anthony Hopkins, com a sua cara sinistra de Anthony Hopkins), na Bíblia o homem que viveu mais anos em toda a humanidade (969 anos, não é brincadeira) e avô de Noé, tem poderes mágicos que fariam inveja a um Gandalf. Se calhar aprendeu-os dos demónios? Ai se Jeová soubesse disto tudo, Deus os livrasse! É só ler o Velho Testamento para perceber que Jeová Deus dos Exércitos não gostava nada de magias nem de feiticeiros. Mas quem fez o filme não se ralou nada com isso.
Quando se vê um filme sobre Noé, é natural esperar grandes efeitos especiais em duas vertentes principais: os animais e o dilúvio propriamente dito. E com isto falo de efeitos especiais de grande envergadura, daqueles tão caros que obrigam a que só se faça um filme sobre Noé de 50 em 50 anos. Nos animais, fiquei decepcionada. Muito pouco, poucochinho. Poucos animais, pouco detalhados, vistos ao longe. Eu queria ver os bigodes dos leões e os pêlos nas trombas dos elefantes. Fiquei desapontada. Já o dilúvio, a princípio não se distingue de uma chuvada normal. Fica um bocadinho melhor com os geisers (as águas da terra) e as vagas que finalmente cobrem o horizonte. A imagem da Terra vista do espaço, completamente envolta em furacões, como se fosse uma fotografia de satélite, também foi algo de inesperado e original num filme inspirado em temas bíblicos.
Porque convenhamos, um filme destes, quando não segue a história à letra, fica reduzido aos efeitos especiais. Todo aquele drama que acontece dentro da Arca, com Noé a querer matar as netas recém-nascidas (Jesus, que homem tão mau), armado em mais jeovista do que Jeová, completamente fanático e tarado, tipo líder de culto que decide matar todos os seguidores, isso nunca acontece na Bíblia nem nada que se pareça. Aquilo foi tudo para dar que fazer à miúda do Harry Potter. Só para repor a verdade, todos os filhos de Noé já tinham esposas antes de entrarem na Arca. E não entrou nenhum “homem mau” na Arca a matar os animais. Se isso acontecesse, na Bíblia, aparecia-lhe logo um daqueles anjos exterminadores de Sodoma e Gomorra e da Páscoa do Egipto que lhe ensinaria o significado da expressão “o temor de Deus”. Melhor gente foi fulminada por muito menos. A mulher de Ló, transformada numa estátua de sal só porque olhou para trás. Nunca, mas nunca, o Criador permitiria que se destruísse parte da sua criação que ele já tinha deliberado salvar. (Na altura Deus intervinha. Agora é que não.)
A única coisa em que o filme conseguiu acertar foi em convencer-nos da maldade dos contemporâneos de Noé. Existe uma cena bastante perturbadora que parece mesmo uma visão do inferno em todo o seu esplendor medieval, com fogo e tudo. Mais apropriada num cenário pós-apocalíptico mas completamente eficaz.
Onde o filme errou completamente foi na caracterização de uma das “personagens” principais desta história, o Deus do Velho Testamento, aquele que mandou o dilúvio. De forma alguma aqueles demónios seriam perdoados e admitidos de volta ao Céu. Basta ler o Génesis, o Êxodo, e quem não gosta do Velho Testamento que leia os Evangelhos e atente no que Jesus diz de Lúcifer e afins, culminando no Apocalipse/Revelação (o lago de fogo). Que história é que estavam mesmo a contar, afinal?
“Noé” não seguiu o relato bíblico e o fim soou mais vazio do que era claramente a intenção. A grande história de Noé e do dilúvio é a explicação da relação de Deus com os homens. De como Deus perdeu a cabeça com a humanidade e decidiu destruir quase tudo para começar de novo, e no fim arrependeu-se. É este o significado do arco-íris. Mas, ao arrepender-se, foi o momento em que Deus começou a decidir parar de intervir, e, consequentemente, a começar a afastar-se. Foi dado livre-arbítrio à humanidade, mas que faz a humanidade com esse livre-arbítrio quando Deus se afasta? Este é que é o grande tema filosófico do dilúvio, mais filosófico até do que religioso porque não é preciso ser-se crente para o compreender.
“Noé”, o filme, deixou Deus de lado e reduziu tudo isto a um duelo entre maus e menos maus. Ainda por cima a armar-se ao Senhor dos Anéis.
Sinceramente, não gostei.

12 em 20 (os pontos são para os efeitos especiais)

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

The Death of Bunny Munro (2009), de Nick Cave



Saber que Nick Cave tinha escrito um romance deixou-me naturalmente curiosa, interessada e empolgada. Não é o seu primeiro: “And the Ass Saw the Angel” (publicado em 1989), que eu não li, já está na minha lista para colmatar essa falha.
Comecemos pelo princípio, Nick Cave é um poeta e um letrista extraordinário. Disto, ninguém que conheça o seu trabalho tem qualquer dúvida. Quando deram o Nobel a Bob Dylan, mais do que pensar em Leonard Cohen, eu pensei logo em Nick Cave. Isto só para expressar em que pedestal ponho o homem como poeta que é.
Mas escrever um romance não é a mesma coisa que escrever poesia. E um poeta não é necessariamente um romancista. Tive receio, ao pegar em “The Death of Bunny Munro” que Nick Cave não fosse tão completamente sublime, na prosa, quanto o é na poesia. Não é que as duas coisas se possam comparar linearmente, mas fiquei completamente rendida à escrita de Cave como romancista também. Com algumas críticas, ligeiras, que tenho a fazer ao livro.
Mas antes de ir às críticas, o que mais gostei foi sem dúvida a grande riqueza de imagens, inspiradas e inesperadas, que nos fazem relacionar coisas que aparentemente não teriam qualquer relação. Como, aliás, Nick Cave já nos habituou nas suas letras, pelo que não foi novidade nenhuma. Este romance podia ser uma longa canção, ao estilo de “Jangling Jack”, todo escrito no presente do indicativo, alternando os pontos de vista entre Bunny e o seu filho Bunny Junior, com alguma presença de um narrador quase invisível excepto a um olho treinado. E fico-me por aqui a nível de características técnicas. Vamos então à história e às personagens.
Bunny Munro é um tarado sexual e esta é a sua história. E não exagero a parte da taradice. A princípio nem percebi se Nick Cave estava a querer ser sério ou cómico (ou um misto dos dois) ao caracterizar Bunny, que até lembra as piadas de tarados sexuais que se contavam no liceu. Este é um homem que não pensa noutra coisa senão sexo. Desde o momento em que acorda de manhã ao último pensamento antes de adormecer: vaginas, vaginas, vaginas. Olha para uma mancha na parede e vê nela um par de mamas. Olha para outra mancha e vê um traseiro. (Juro que havia uma piada assim, e até me lembro dela, mas não vou contar.) Bunny não precisa de ver pornografia porque todos os seus pensamentos são pornografia. Actualmente chama-se a isto uma adicção ao sexo e é tratada como qualquer outra adicção. Bunny, inclusive, trabalha em venda de produtos de beleza, o que o leva a casa das clientes para demonstrações personalizadas. O perfeito terreno de caça. Na verdade, até o emprego é um meio para atingir o fim, satisfazer a adicção, de manhã à noite. E Bunny, curiosamente, tem uma carinha laroca e tem sucesso nas suas aventuras. Tirando esta ou outra excepção (a intelectual cinturão negro em Taekwondo que lhe partiu o nariz), fiquei surpreendida com o seu nível de êxito. Mas Bunny é um tipo desprezível. Até podemos achar-lhe alguma graça até sabermos que já recorreu a roofies para se aproveitar de mulheres inconscientes, até o vermos aproveitar-se de uma junkie à beira de uma overdose, até nos enojar como ele rouba algumas jóias a uma cliente velhota e cega. Isto é um sociopata a quem só interessa a sua satisfação pessoal e imediata, sexual ou outra. E nem sequer falei da sua (não-)relação com o pobre do filho, a quem Bunny liga exactamente zero.
Mas isto leva-nos à sua relação com a mulher dele, Libby, cujo suicídio é o acontecimento que dá início à história. Não gostei da personagem Libby porque não me pareceu realista. A história passa-se nos anos 90. Sabemos isto porque o puto de nove anos anda sempre com uma enciclopédia e ninguém tem computadores ou smart phones e os telemóveis ainda são de concha, mas Kylie Minogue e April Lavigne já são estrelas mediáticas. [Rectificação: segundo a Wikipedia a acção passa-se em 2003, mas tudo o que eu acabei de dizer ainda se aplica nesta data.] Libby é uma dona de casa com depressão, casada há 10 anos com Bunny, farta de saber que ele a trai a toda a hora e a torto e a direito com conhecidas e desconhecidas. Pior que tudo, ele apalpou o traseiro à melhor amiga de Libby no dia em que Libby chegou da maternidade com o recém-nascido, quando a amiga estava na casa deles para ajudar com as tarefas domésticas. Pior que isto é difícil. Taradice e ingratidão. E Libby sabe porque a amiga lhe contou o que ele fez. Libby sabe e durante dez anos atura esta situação. Logo no princípio do casamento, Libby ainda vai para casa dos pais, mas volta para o marido. Entretanto Bunny Junior tem nove anos, Libby não procura emprego nem ajuda psiquiátrica, e continua casada com um homem que não a respeita a ela nem a ninguém. Saliento que apesar de todos os seus defeitos Bunny não é daqueles que isola e maltrata a esposa e a impede de sair de casa. Não, isso ele não é. Pelo contrário, ele quase não pára em casa e só não a ignora quando quer sexo com ela também. Deprimida ou não, Libby tem opções. Tem família e amigos que a podem receber, pode tentar arranjar emprego, pode pedir ajuda psiquiátrica. Não faz nada disto. E eu não acredito que uma mulher jovem, nos anos 90, aturasse placidamente um casamento que mulheres de outras décadas --ou por vergonha, ou por estigma social, ou por dependência económica do marido, ou por demasiada idade para arranjar emprego, ou por falta de apoio de família e amigos-- suportariam por falta de opções. Nos anos 60, até mesmo nos anos 70, talvez. Nos anos 80, em Inglaterra, onde se passa a história, já tenho dúvidas. Nos anos 90, nem pensar. Libby não é daquelas esposas sem alternativa que se vêem amarradas a um casamento abusivo. Se Libby não é uma personagem pouco credível, é pior, é burra quem nem uma porta. (A depressão é uma coisa, a burrice é outra). Mas, na verdade, Libby não me merece muito respeito porque eu não acredito nesta personagem. Não acredito que uma mulher jovem, bonita, com o apoio da família, com um filho a crescer naquele ambiente com aquele pai que não lhe liga nenhuma, não se pusesse depressa dali para fora. Acreditaria, sim, se a lassidão de Libby se explicasse por um mal bem mais conhecido do autor desta história: uma dependência de substâncias.
Digo mesmo mais, a obsessão de Bunny por sexo, desde que acorda até que adormece, parece-me muito a vida de um viciado em que tudo se resume a obter a próxima dose. Libby, apaticamente sentada no sofá, parece-me outra "drogada" como ele. Reconheço que a depressão é uma doença incapacitante (estou completamente à vontade para falar de experiência própria), mas custa-me acreditar que uma mãe não tenha feito nada para tentar melhorar a sua vida, tendo um filho de nove anos com um pai com que não se pode contar. Em vez disso, suicida-se.
Os amigos de Bunny também não são melhores. Classe média-baixa xunga, de uma espécie como só existe por aquelas bandas. Piadas xungas, quecas xungas, penteados e roupas xungas, tudo é xunga naquele ambiente.
Salva-se o miúdo, o pobre órfão Bunny Junior, que nos parte o coração porque está convencido de que tem o melhor pai do mundo. Para ele, Bunny é um campeão. É mesmo de ter pena do miúdo quando este fica sozinho com aquele tipo egoísta depois do suicídio da mãe. O miúdo é esperto, e naquela interacção alucinante em que Bunny Junior viaja com o pai enquanto este finge andar a vender cosméticos quando na verdade só pensa onde arranjar a próxima queca, começa a aperceber-se de que o seu pai não é o herói que tinha imaginado. A interacção entre pai e filho, afinal, é o cerne da história e o que nos prende à leitura. A torcer pelo filho, bem entendido, e a desejar de todo o coração que alguém o tire àquele pai.
Não vou contar mais porque já me aproximo do fim, e o fim é uma reviravolta com uma surpresa (ou talvez não, se estivermos com atenção), mas poderei dizer que chegando à última página cada um de nós vai ter de tirar conclusões e, se calhar, pensar na vida.
“The Death of Bunny Munro” é como aquelas viagens em que o mais importante é a jornada e não o destino. Apesar de ter detestado o protagonista, apesar da xungaria da maioria das personagens, incultas e grosseiras, apesar de só ter sentido empatia pelo pobre do puto que não tem culpa de nada, gostei do que li. Gostei principalmente da escrita, das imagens inesperadas, de uma longa “canção” de Nick Cave em forma de romance.
Estou convencida. Quero ler mais de  Nick Cave e espero que ele escreva mais. Só não mais tarados sexuais, por favor. Já chega.
Agora vou mesma à cata de “And the Ass Saw the Angel”.



segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Victor Frankenstein (2015)

 

Como adorei o livro original “Frankenstein” de Mary Shelly (o que me surpreendeu tendo em conta o que conhecia da história através das versões de Hollywood), raramente deixo passar uma adaptação.
Esta é mais uma, e aposta na espectacularidade gótica e vitoriana dos cenários e guarda-roupa. A personagem principal não é Victor Frankenstein mas sim o seu assistente, Igor (não é o seu nome verdadeiro mas não vou dizer como é que ele adoptou esse nome), um palhaço corcunda com amor pela medicina que Victor resgata de um circo onde este é maltratado. Ora acontece que este desgraçado é corcunda porque tem um abcesso nas costas e Victor consegue tratá-lo e oferecer-lhe uma vida normal. Mais tarde, Victor dirá que Igor foi a sua melhor criação. Considerando o enredo do filme, até tem razão.
Para quem leu o livro, a breve aparição e destino da criatura criada por Frankenstein é insultuosa. Este filme nunca foi sobre a criatura mas sobre a relação de amizade de Victor e Igor, e mesmo assim é um filme vazio, fútil, muito espectáculo e pouco conteúdo. As próprias personagens raramente se conseguem mostrar tridimensionais. Victor é o génio louco. Igor é o assistente agradecido. Lorelei é a cara bonita que é necessária num filme onde todos os personagens são homens. O monstro/criatura é o colosso abrutalhado e quase invulnerável que volta à vida com uma tendência para atacar toda a gente que vê à frente.
Qualquer semelhança com o livro original é quase coincidência. Este é um filme para ver quando não se tem mais que fazer, e vê-se muito depressa porque não há nada aqui para pensar. Recomendo antes a leitura do livro original de Mary Shelly, esse sim, genial.

13 em 20 (pelos cenários e efeitos especiais)


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A Confissão de Lúcio, Mário de Sá Carneiro

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Para quem está a ler a antologia “Dentro da Noute”, chegar a este conto (que encerra a colectânea de contos portugueses) é chegar à modernidade.
“É que, em realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou — apenas — os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio.
Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem, têm a paz — pode ser. Entretanto não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter vivido."
Tirando algumas expressões muito datadas, especialmente de inspiração francesa, “Lúcio” continua a fazer sentido hoje (ou, neste caso, a não fazer sentido). Na primeira pessoa, o personagem Lúcio confessa, ou melhor, não confessa, um crime que não cometeu mas que o manteve na prisão durante dez anos. Uma verdade inverosímil, como o próprio diz, uma sequência de acontecimentos impossíveis, inacreditáveis.
A história passa-se mesmo no final do século XIX, início do XX, numa alta sociedade de artistas portugueses apaixonados por Paris, a cidade venerada de todo o vanguardismo à época. Lúcio, dramaturgo, convive com outros artistas e escritores, todos eles atingidos dessa doença dos ricos chamada “ennui” que se contrai por não se fazer nada na vida senão passear pelos boulevards, viver em hotéis e jantar em restaurantes chiques. Lúcio conhece o poeta Ricardo de Loureiro, com quem estabelece uma íntima amizade. Muitas coisas são ditas entre os dois (o poeta tem ideias muito “estrambóticas”, como diz o conto), mas talvez a mais importante seja a maneira como o poeta declara só ser capaz de amar se “possuir”, logo, como é que pode amar um amigo se não consegue possuir alguém do mesmo sexo? Isto vai causar uma materialização da alma de Ricardo numa figura feminina que se torna amante de Lúcio. Ou seja, pelo menos é esta a “verdade” de que o narrador nos tenta convencer, sabendo ao mesmo tempo que qualquer plausibilidade é impossível.
“Mas ponhamos termo aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de factos. E para a clareza, vou-me lançando em mau caminho — parece-me. Aliás, por muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará — estou certo — a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida.
Uma coisa garanto porém: Durante ela não deixarei escapar um pormenor, por mínimo que seja, ou aparentemente incaracterístico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer duma grande soma de factos. E são apenas factos que eu relatarei. Desses factos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro que nunca o experimentei. Endoideceria, seguramente.
Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo é que só digo a verdade. Não me importa que me acreditem, mas só digo a verdade — mesmo quando ela é inverosímil.”
O próprio narrador nos avisa, pelo excesso, de que não é de confiança. Até que ponto é que o autor não nos quer revelar o tema que o conto trata (a homossexualidade), ou até que ponto o autor não admite que trata este tema, deixo a outro tipo de análise. Um século depois, esta temática “chocante” perdeu-se e o leitor moderno sente-se atraído pelo mistério que Lúcio nos vai relatando, duvidando aqui e ali dos tais pormenores que o narrador prometeu descrever fielmente, questionando a sua sanidade mental (tal como ele nos advertiu), questionando a relevância deste ou daquele acontecimento no total da narrativa. Tive muitas vezes a sensação (e a desconfiança) de estar a ler o relato de um sonho. O que de certa forma me recorda de Kafka, pese embora a diferença de temáticas. Se tantas vezes as histórias pecam por incoerência e falta de sentido, quando é bem feito e apoiado num todo surrealista resulta muito bem. Este é um desses casos e uma leitura que recomendo a toda a gente que ama a literatura.




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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Sede de Sangue, de Manuel Teixeira Gomes

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Este conto devia ser daqueles que mais me empolgam. Um vampiro. Um vampiro a sério! Mas infelizmente o conto não me cumpriu as expectativas.
Esta é mais a história de um mirone, o narrador, que do seu escritório, onde escreve para um jornal da terra, tem uma vista privilegiada para a “taberna” de um Sr. Trovas e sua esposa Balbina Catada, “antiga marafona que ele desposara em Lisboa”. Sim, a “taberna” é um bordel, e “marafona”, presumo, era sinónimo de prostituta. (Actualmente, “marafona” significa “mulher feia”. É curioso como as palavras evoluem.)
O narrador passa a maior parte do conto a descrever as “marafonas” (nos dois significados) que trabalham na taberna, até que lá aparece uma bela mulher de raça cigana: “Era uma rapariga de aparência franzina que, airosa, de perna cruzada, arcando divinamente o braço nu, fumava cigarros e falava espanhol. Ao expelir o fumo do cigarro em ténues baforadas toda se encostava para trás e o seio entumecia-se-lhe prodigiosamente debaixo do leve casabeque solto; de entre as fartíssimas madeixas do cabelo, que lhe caía sobre os ombros em lustrosas ondas negras, o rosto emergia oval, puro, mate, iluminado por dois olhos babilónicos, imensos olhos ardentes que fascinavam…”
Ora, esta nova trabalhadora da taberna começa a dizer, repetidamente: “a minha vida está por um fio: não tarda muito que não venha alguém beber-me o sangue”. Por estranho que pareça, ninguém lhe pergunta o que é que ela quer dizer com isto. Não é uma coisa normal de se dizer. Mas um dia, de facto, o nosso narrador/mirone observa a chegada de um estranho homem: “No momento em que o tive quase ao meu lado examinei-o bem: era enorme; era monstruoso! O arcabouço mociço, redondo, com proporções de mó de moinho; os braços grossíssimos, como troncos d’árvore articulados, encurvavam-se a miúdo e ligavam as mãos com um jeito de formidável turquês que se fecha para esmagar qualquer coisa; e as esgalgadas pernas de uma tão maravilhosa elasticidade que só as feras assim as têm. Mas o rosto, então, apavorava: lívido, golpeado pelo farto bigode preto, que lhe caía em compridas, agudas pontas dos dois lados do queixo, e sob as hirsutas sobrancelhas, na profundeza das órbitas cavernosas, ardiam-lhe os olhos desvairadamente…”
O narrador espreita como a cigana e este “gigante” se encontram, como se afastam até uma praia, e como ele efectivamente lhe bebe o sangue. E depois o conto acaba, sem qualquer explicação. “Os médicos que lhe fizeram autópsia, ao dia seguinte, não lhe encontraram pinga de sangue nas veias, mas ninguém suspeitou que um vampiro lho houvesse sugado, pois durante a noite a maré lavajara por muitas horas o cadáver e o sítio onde ele ficara, presumindo-se que assim desaparecera o sangue derramado.”
Há casos em que a falta de explicação valoriza a história, mas este não é desses casos. Afinal, o que foi aquilo tudo? Este homem “monstruoso” era mesmo um vampiro (sobrenatural) ou um assassino qualquer? E se a vítima tinha conhecimento do vampiro (sobrenatural ou não) porque é que aceitava tão placidamente que este lhe viesse beber o sangue? Não saber as respostas a estas perguntas deixou-me frustrada e sem perceber o que é que o conto queria, de facto, contar. A mim parece-me que o autor estava mais interessado em falar das marafonas e da Balbina Catada. Como grande fã de literatura de vampiros, não gostei.




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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O Cadáver, de Beldemónio

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Este é um conto cómico que conseguiu fazer-me rir. Trata da história de um homem que vinha de um baile, “Fernando de Morais, um valsista infatigável de todos os bailes do campo”, pelas bandas do Campo Grande, que nessa altura era mesmo campo e arredores de Lisboa. (Primeira gargalhada.) “De repente, distraído, tropeçando em qualquer coisa de mole, caiu de bruços para a frente, com as mãos estendidas. As suas mãos bateram numa superfície fria e molhada; e quando ele rapidamente se quis firmar para se pôr em pé, encontrou cabelos; o seu olhar já habituado ao escuro reconheceu um cadáver ali estatelado, de ventre para o ar, com a cabeça um pouco de lado, lívida e horrorosa sob o luar alvacento.” Era um homem que tinha sido assassinado. Mas este Fernando, e justificadamente, tem medo de ser acusado do crime se for encontrado junto ao cadáver e desata a fugir espavorido. É muito interessante como ele toma medidas forenses para eliminar todos os vestígios do cadáver, queimando a roupa manchada de sangue, fingindo um semblante calmo e sereno enquanto, intimamente, a paranóia de ser acusado do crime vai aumentando a níveis insuportáveis. Bem diz o conto:
«Se se lembrarem de propalar que furtei sub-repticiamente o zimbório da Estrela, a primeira coisa que tenho a fazer é fugir para o estrangeiro, e justificar-me de lá...»
Segunda gargalhada. E não é que ainda é verdade nos nossos dias? Especialmente para o desgraçado do pobre, que não tem uma firma de advogados que o defendam se for injustamente acusado. Mas se é rico e corrupto, não só não o conseguem prender como ainda se “arrisca” a ser reeleito Presidente de Câmara…
Não vou contar o que acontece a Fernando porque ia estragar a piada. Na verdade, esta história nada mais é do que uma piada desenvolvida em forma de conto. O mais surpreendente é que ainda nos faz rir hoje em dia, duzentos anos depois.
Beldemónio é o pseudónimo de Eduardo Lobo Correia de Barros, cronista, contista, jornalista e tradutor.


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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Uma Récita do Roberto do Diabo, de Júlio César Machado

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Durante uma exibição da ópera “Roberto do Diabo”, um folhetinista (título que dá a si próprio) é abordado por um companheiro de camarim que lhe relata uma ignominiosa história de parricídio, caso este a queira escrever. O folhetinista interessa-se e o companheiro conta-lhe a história de Ricardo, que mata o pai no único intuito de lhe roubar a herança. Pior do que isso, consegue acusar um inocente do homicídio, inocente este que é enforcado por um crime que não cometeu. Ricardo é o Mal em pessoa. Mas sobrepujado pelos remorsos, acaba por se arrepender.
No drama em palco, temos a história inversa. Roberto é filho de Bertran, que se intitula diabo (“um diabo subalterno, um diabo inferior, um diabo de segunda qualidade, um pobre diabo! A licença com que veio à Terra expira nesse dia; dentro em poucas horas tem de abandonar o filho e voltar às trevas e às chamas, ao fogo e à escuridão, à alegria infernal e à dor maldita!”), e que gosta tanto do seu filho que quer levá-lo para o inferno para não se separar dele.
Este é um conto que promete mais do que oferece. Entretanto, o companheiro do folhetinista confessa que o tal “Ricardo” é ele próprio (o que já todos tínhamos percebido) e promete dar mais pormenores. Contudo, no dia seguinte, o folhetinista descobre que este estranho homem é um louco do manicómio. Ficamos sem saber se a história era verdadeira, se foi uma invenção do louco, se foi o parricídio que o fez enlouquecer. Não aprecio este tipo de fim que não nos dá nada em forma de conclusão. Justifica-se, em certos casos, mas aqui não percebo mesmo porque é que o fim fica “à interpretação do freguês”.
Salvam-se algumas considerações sobre o Bem e o Mal que vão sendo feitas a meio da narrativa. Não há muito mais a dizer sobre este conto e não quero fazê-lo parecer mais interessante do que é.



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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Mars / Marte


[crítica à primeira temporada]

“Marte” é uma série/documentário do canal National Geographic que se distingue pelo formato original. A parte “documentário” é normal, mas a parte “série” não é a dramatização com figurantes silenciosos que estamos habituados a ver nestas coisas. É mesmo uma série, com personagens a sério, com motivações e flashbacks e histórias pessoais. Pode ter sido uma grande aposta da parte do National Geographic, porque se não fosse esta parte “série” eu não estaria de certeza a ver um documentário sobre uma possível colonização de Marte.
A história é esta: no futuro próximo, a primeira missão tripulada dirige-se a Marte na intenção de estabelecer a base de uma colonização humana. Os personagens são mais genéricos do que tridimensionais mas têm os seus momentos de profundidade. Nas partes boas, isto é, quando o perigo espreita, é que a série muda para documentário, o que é tão irritante como eficaz. Enquanto cientistas entrevistados debitam factos e opiniões, o espectador fica ali agarrado ao écran no suspense de saber se a nave explodiu ou não. Não sei se será este o futuro do documentário em geral, e até mesmo se será o formato mais credível, mas a verdade é que a mim apanharam-me de entre um público que geralmente não vê estas coisas. Logo, aposta ganha em termos de audiências.
O que não quer dizer que fiquei deslumbrada com o formato. Passei o primeiro episódio a tentar perceber se ia haver história ou se era só documentário, e se aquilo não era tudo publicidade à SpaceX. A interrupção da dramatização ficcional para aparecer um senhor ou uma senhora a dizer coisas com que não concordo também não ajuda nada.
Porque, com toda a franqueza, faz-me muita confusão como é que alguém pode estar a pensar em gastar milhões com Marte quando existe tanta miséria aqui mesmo, no planeta Terra, quando tanta gente ignorada em países subdesenvolvidos luta pela subsistência mais básica, onde não há comida nem água potável, quando migrantes morrem no Mediterrâneo a tentar fugir da pobreza. Não me entra no miolo.
A ideia desta gente é colonizar Marte como mais um trampolim para a expansão da espécie humana pelo universo afora, não vá acontecer uma extinção em massa por cá (como já aconteceram várias) que nos acabe com a raça. Não passa pela cabeça destes senhores a simples pergunta: e nós somos uma espécie que vale a pena salvar da extinção? Eles acham que sim, mas quanto apostam que esta “salvação” está restrita a quem tiver dinheiro para a pagar? E vale a pena salvar uma espécie que alegremente anda por aí a explorar o espaço enquanto a maior parte dos seus exemplares passa mal no planeta natal? Uma espécie que já deu cabo do planeta natal, que todos os dias extingue um número assustador de outras espécies, que não se importa nada com isso, que vai dar cabo de todos os planetas onde puser as patas?
Há muito tempo que a filosofia e a ficção científica colocam estas questões, mas agora já não é ficção científica. Estão mesmo a pensar pôr uma base na Lua, e de seguida em Marte. Não contentes com a lixarada que já fizeram na Terra, e que não conseguem (ou não querem) resolver, toca de ir fazer lixarada para o espaço e cavar aterros sanitários na Lua. E a mim faz-me confusão, a sério. Antes de pensar em salvar a espécie da extinção, o ser humano devia estar fazer por merecer ser salvo. Por enquanto não merece destino diferente dos dinossauros. Se se extinguir, não se perde nada e o universo agradece.
Voltando à primeira temporada da série, “Marte” são apenas seis episódios em que os pioneiros da colonização do planeta vermelho passam por bastantes maus bocados. Aprendi muita coisa, apesar dos pedaços “série” estarem constantemente a ser interrompidos e os pedaços “documentário” me alienarem um pouco. Por exemplo, não sabia que uma viagem até Marte são apenas 7 meses. Julguei que era muito mais. Também gostei de ver a parte em que o astronauta desmaia colado ao tecto. Só não sei até que ponto é que é tudo credível. Será mesmo assim que qualquer pessoa pode abrir uma porta (escotilha?) de uma base num planeta sem atmosfera, sem que haja protocolos de segurança confirmados por pelo menos dois responsáveis? Cheira-me que não, ou é optimismo a mais. Ou talvez a parte “documentário” quisesse que a parte “série” mostrasse o que acontece sem esses protocolos de segurança? Talvez. Mas eu continuo a achar que os dois formatos deviam permanecer separados. Preferia que não houvesse documentário nenhum e que fosse só série, para que os personagens evoluíssem e se tornassem de carne e osso em vez de ficarem nesta coisa que não é carne nem peixe.
Seja como for, o melhor momento do programa é a canção de Nick Cave e Warren Ellis, “Mars Theme”, uma pequena maravilha a descobrir. Fãs de Nick Cave, atenção.



segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Os Canibais, de Álvaro do Carvalhal

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Na forma de conto fantástico, “Os Canibais” é na verdade uma feroz crítica social. Quer-me parecer que a crítica não é apenas ao óbvio: a importância das aparências e a ganância, mas mais do que isto talvez já me escape nos dias de hoje.
A acção passa-se entre a alta sociedade portuguesa do século XIX. “Suponha o baile — se lhe apraz, mesmo por comodidade ou propriedade — suponha-o em Lisboa”, diz o narrador,  que já tinha começado o conto com uma crítica irónica ao pensamento literário da época: “Disse a crítica pela boca de Boileau: Rien n’est beau que le vrai”, isto é, só o verdadeiro é belo. [E esta já é uma tradição de séculos entre nós --só o realismo interessa-- o que é um dos factores que explica a falta de literatura gótica e fantástica em Portugal. Ainda hoje, note-se, na cabeça de muitos intelectuais, só o realismo é sério. Veja-se até o prémio Nobel, sempre atribuído a autores que retratam sociedade e política. A Fantasia, a Ficção Científica, o Fantástico em geral, são considerados devaneios inferiores. Salva-se o Realismo Mágico quando bem embrulhado em ditaduras. E isto explica porque é que Tolkien nunca ganhou o Nobel. E está tudo dito.]
Álvaro do Carvalhal vai citar a ideia de que “só o verdadeiro é belo” para se lançar num conto que é completamente Fantástico, se bem que nem sempre coerente. Eu fiquei com algumas dúvidas quanto ao que de facto aconteceu.
A jovem Margarida, bela e senhora do seu nariz, apaixona-se pelo misterioso visconde de Aveleda. Margarida é muito cortejada (“Ela era o ídolo acatado de todos os crentes”) mas não corresponde ninguém. Álvaro do Carvalhal bem sublinha que não quer dar a moral da história, mas eu vejo aqui algo do ditado “quem muito escolhe pouco acerta”. O visconde, desde o momento em que aparece, denuncia logo que não é um homem vulgar. Melancólico e desencantado, não diz duas frases seguidas que não sejam góticas: “O cego adivinha as maravilhas da natureza e adora-as, mas sem poder contemplá-las. Eu sou como o cego, Margarida; adoro-a, sem poder mais nada.” O visconde adverte Margarida de que não o ame, deixando adivinhar qualquer tragédia que nunca revela, mas por fim até ele cede à sedução de Margarida e acabam por casar.
Entra aqui em cena um outro personagem, D. João, que diz amar Margarida, embora tudo nos leve a perceber que é desejo de conquista e orgulho ferido que o move. D. João queria cortejá-la mas Margarida desdenha-lhe os avanços. D. João é um Don Juan (seja o nome propositado ou não), habituado a ter as mulheres que quer. É através deste personagem que Álvaro do Carvalhal faz a crítica mais severa, descrevendo-o como um produto da sociedade, julgando que são os seus talentos pessoais, em vez da grande fortuna, que lhe abrem todas as portas. “O prostíbulo, voragem que a lei sanciona, foi a arena borrifada com o vinho de suas primeiras proezas. Cansado enfim de se estorcer na crápula, no húmido chão do lupanar, volveu os despertados apetites para a recatada burguesia. Se lhe resistia a inocência, a palavra dinheiro, pronunciada com voz anelante por lábios torpes, abandonava o pudor aos soltos caprichos do mancebo. E muitas foram as envergonhadas pequenas, que lhe venderam a virgindade em beijos frios, em dilúvios de sentidas lágrimas.”
Mas tirando a crítica social, não percebi que papel D. João realmente teve nos acontecimentos. O orgulho ferido leva-o a intentar o assassinato do visconde, nomeadamente no dia do casamento, mas antes de o chegar a fazer já a tragédia se tinha desenrolado.
Eu cheguei a pensar, até devido ao título do conto, que o visconde seria um vampiro ou algo do género. O que o visconde realmente é, prefiro que o autor o descreva: “Fez um movimento. Ressoaram estalos como de molas. Horror! Sobre a poltrona caiu um corpo mutilado, disforme, monstruoso. Pernas, braços, os próprios dentes do visconde, brancos como formosos fios de pérolas, tombaram sobre os felpudos tapetes da Turquia, e perderam-se nas dobras de seu robe de chambre, que naturalmente se lhe desprendeu dos ombros. O infeliz era um fenómeno, um aborto estupendo, que em nossos dias valeria muito dinheiro a quem quisesse especular. Era ele poeta de mais para isso. A tudo porém dera remédio a civilização de seu tempo. Afortunados tempos!”
Isto acima descrito aconteceu na noite de núpcias, em frente da horrorizada Margarida. Antes, ele tinha-a lembrado da sua promessa: “prometeste seguir-me ao cemitério, se lá fosse minha morada…” Margarida lança-se da janela e morre, de cabeça esmagada num banco do jardim. O visconde, de coração partido, atira-se à fogueira para morrer queimado.
D. João, que entra no quarto neste preciso momento na intenção de matar o visconde (ou o casal?) foge também. Mas, ao descobrir que Margarida tinha morrido, dá um tiro no “coração”, numa intenção de morrer que eu não percebi muito bem. Achei demais para um homem movido pelo orgulho ferido que de facto não amava Margarida mas a ideia de a possuir como a todas as outras. Mas as motivações das personagens não são o aspecto mais trabalhado deste conto. Diria mesmo mais, este é um conto satírico disfarçado de conto de horror, em que as acções das personagens se destinam a realçar a sátira. Nem sei se devíamos mesmo sentir simpatia pelo pobre visconde e pelo seu atrevimento e ingenuidade de julgar que Margarida o podia aceitar como era, ou se o autor estava a gozar connosco também.
Não vou revelar a parte que dá nome ao conto mas asseguro que não é publicidade enganosa. A seguir, acontece aqui uma espécie de piada que de forma nada subtil nos informa de que o dinheiro compra tudo, até a consciência.
Mas fiquei a perguntar-me: seria só isto que o autor queria dizer, que me parece tão óbvio e batido, até para a altura? O problema da escrita satírica, e neste caso o autor chega mesmo a gozar com o próprio conto, é que só faz rir quem está por dentro da piada. Era preciso dizer ou mostrar muito mais para que se entendesse plenamente a piada mais de dois séculos depois. Nunca esperei canibalismo literal deste conto, mas o título fez-me pensar num “canibalismo” simbólico em que os personagens se destroem mutuamente. Afinal, porque é que os pais e irmãos de Margarida são “canibais” a nível simbólico? Porque são iguais aos outros e também teriam prostituído a filha ao D. João ou ao visconde ou a outro qualquer, não fosse ela tão senhora do seu nariz? Era só isto? Já que o objectivo é a sátira, eu esperava mais de um título tão forte. E não gostei mesmo nada da ligeireza do fim, quase uma anedota. O autor é demasiado gozão para o meu gosto. Mas justiça lhe seja feita, o conto consegue cenas verdadeiramente tenebrosas (rebuscadas que sejam). Tudo o resto sou eu que estou mal habituada a um terror mais moderno e consistente.

* * * * *

Já depois de escrever este artigo, tive curiosidade de ir pesquisar o conto e o autor. Descobri que Álvaro do Carvalhal morreu com apenas 24 anos, em 1868. Isto explica tudo o que apontei acima. Não bastando o talento, a escrita é uma arte que se aperfeiçoa durante toda a vida, mas algumas coisas só se adquirem com a maturidade, nomeadamente a construção de personagens tridimensionais e com as devidas motivações. Não posso deixar de lamentar o potencial perdido com o desaparecimento deste jovem autor.


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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Event Horizon / O Enigma do Horizonte (1997)


Este é daqueles que se vi não me lembro. Personagens genéricas e uma ameaça que fica sempre inexplicada parecem ser os ingredientes perfeitos para causar amnésia cinematográfica.
Até o enredo é mais ou menos igual a tantos outros do género: uma equipa de socorro é enviada em busca da nave de exploração espacial Event Horizon, seguindo um sinal que esta envia de algures em órbita de Saturno. Assim que vemos o aspecto da nave Event Horizon percebemos logo que isto vai ser um filme de terror inspirado no “Alien”. Meu dito meu feito, o filme não é exactamente subtil. Até a equipa de socorro nos recorda as tripulações dos vários “Aliens”, o tipo de pessoas que está ali porque é um emprego como outro qualquer e no fundo o que queriam era uma reforma antecipada. Gostei das cenas em que quase todos os membros da equipa fumam uma cigarrada antes de entrarem nos tanques de stasis (?). É datado, mas é giro. Também gostei de terem explicado o conceito de FTL (velocidade Faster Than Light) que implica causar uma “dobra” no contínuo espaço-tempo. Tudo ficção científica, bem entendido, mas como era 1997 ainda se deram ao trabalho de explicar. Actualmente a ficção científica usa o termo FTL a torto e a direito e pessoas como eu, que não conhecem estes termos nem sabem o que significam, ficam ali à nora a tentar perceber a acção, ou desistem. O que me leva a esta reflexão: uma ficção científica que não se dirija a um nicho muito específico de conhecedores devia ter em conta uma audiência mais interessada na história e personagens e menos nos aspectos científicos. Quanto mais a ficção científica se dirige a um nicho, mais aliena o público leigo.
Mas voltando ao filme. As coisas começam a acontecer como é previsível neste género horror sci-fi. A Event Horizon é uma nave fantasma, toda a sua tripulação está morta, alguns corpos andam mesmo ali a vogar nos corredores devido à ausência de gravidade. Enquanto exploram a nave, os membros da equipa da socorro começam a ter alucinações estranhas com pessoas que lhe são caras, algumas já falecidas. Resolvendo que se passa algo de anormal e perigoso, decidem ir-se embora, mas aqui entra em cena o cientista louco/malvado (Sam Neill). Acontece que foi ele quem desenhou a nave, dotando-a de um mecanismo capaz de criar o seu próprio buraco negro de modo a viajar no espaço mais depressa. Mas aparentemente a Event Horizon visitou outra dimensão e não regressou sozinha. Trouxe consigo forças maléficas que querem apossar-se dos recém-chegados. Que forças maléficas são estas e para onde querem levar a nave de volta? Para o inferno. Não, não é uma forma de dizer. O filme quer-nos convencer de que a nave foi ao inferno e voltou. (É tranquilizador saber que algures na infinitude do espaço, até do outro lado de um buraco negro, ainda se aplicam as regras da nossa civilização judaico-cristã.)
As tais forças maléficas apoderam-se da mente do cientista (ou será que ele já era assim?) e a partir daqui este faz o papel de sabotar a fuga dos outros. O resto do filme é a tripulação da nave de socorro a lutar pela vida.
“Event Horizon” não prima pela originalidade mas enche o olho em termos de efeitos especiais e cenários. É o tipo de filme que se via no grande écran (quando ainda havia grande écran, mas já em extinção) a comer pipocas. Uma crítica que li chamou-lhe uma espécie de “Shining via Aliens”, e é de facto uma descrição muito apta. Durante quase todo o filme me recordei de “The Shining”, especialmente na cena em que um dos tanques de stasis se enche de sangue, explode, e jorra sangue por todo o lado, como o célebre elevador do hotel Overlook. Fiquei foi sem perceber se o tanque aconteceu mesmo ou se foi outra alucinação. Na verdade, fiquei sem perceber grande coisa excepto que o inferno é muito mau e pode estar do outro lado de um buraco negro, e que o Génesis bíblico tinha razão: o homem não deve querer saber tanto como Deus ou será castigado. Mas acho que até já estou a tirar conclusões a mais por mim própria e a tornar o filme mais interessante do que é. “Event Horizon” aposta principalmente no espectáculo, com muitos cenários, muitas explosões, muito sangue e afins, mas na verdade é um filme vazio que não deixa lembranças.


14 em 20


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A Morta, de Florbela Espanca

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Ou não fosse Florbela Espanca, este é um conto em prosa poética. Os temas são os do costume nesta poetisa, o amor e a morte, e mais uma dose de morte.
Tal como em toda a prosa poética, apenas se pode interpretar o significado, e do que eu conheço da autora interpreto assim: a Morta morreu nova; durante uns tempos, o noivo foi visitá-la ao jazigo; por fim, o noivo deixou de visitá-la. Sentindo-se esquecida, a Morta levanta-se e vai-se “afogar”/”diluir” no rio, onde acabam todas as memórias. (Florbela conheceria o rio Lethes?... Na sua obra poética, Florbela menciona várias vezes a transmigração das almas/metempsicose/reencarnação, pelo que não é descabido interpretar este conto como mais uma referência a essa “morte” do eu antigo/renascimento pós-morte).
Florbela Espanca foi a autora mais gótica do nosso país antes de haver o movimento gótico. Lamento muito por ela não ter encontrado a sua gente. Talvez o suicídio tivesse sido evitado. Trágico destino de nascer antes do seu tempo. Como é que se conseguia ser gótico e viver naquele tempo de Avé-Marias e procissões, e de gente normal a martelar-lhe aos ouvidos que o problema estava nela? A solidão intelectual devia ser absoluta.
Isto é suspeito da minha parte porque eu adoro a autora, mas este foi um dos meus contos preferidos desta colectânea.


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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.




segunda-feira, 29 de julho de 2019

Game of Thrones / A Guerra dos Tronos (final)


[crítica ao FIM; spoilers do último episódio]


Então, quem é que se sentou no Trono de Ferro? Ninguém.
A maioria das críticas são unânimes e eu concordo: durante as duas últimas temporadas foi tudo a correr, de plot point em plot point, sem tempo para aprofundar personagens. A maior vítima desta pressa foi a pobre Daenerys, transformada num monstro em 30 segundos para andar com o enredo para a frente. Nem a actriz nem a personagem mereciam isto. A ideia que tentou ser vendida é que Daenerys enlouqueceu, mas o que passou não foi convincente, nem como loucura nem como evolução natural da personagem. Daenerys não pareceu louca, pareceu monstruosa. Conseguiram transformar a Daenerys no Hitler, basta olhar para este cenário:


Só falta a suástica de 5 metros de altura. Heil!
Outro personagem desnecessariamente atropelado na pressa de chegar ao fim foi Jaime. O desgraçado ia a caminho da redenção, e até compreendo que tenha regredido a meio do caminho. Mas não em meia hora, por amor de Deus! E qual foi a necessidade daquilo com a Brienne (tirando fan service, isto é?) Se queria voltar para a irmã, que voltasse. Mas o que se passou foi que o personagem não sabia o que queria, não sabia quem queria, não sabia o que estava a fazer nem para onde se virar. Coitado, transformado em barata tonta. Merecia um fim mais consistente, quer se redimisse ou não. Mas os criadores da série estavam cheios de pressa para ir fazer outra coisa qualquer (que algo me diz que não vou ver).


O que mais não fez sentido
Perdi qualquer esperança de que o fim da série fizesse sentido quando acabaram com o Night King daquela maneira (o rei dos zombies, para quem não sabe). Este é um desgosto pessoal, admito, porque eu estava realmente a torcer pelos zombies. Talvez não esperasse que vencessem, mas nunca pensei que dessem tão pouca luta. Uma batalha, um episódio, uma ninja adolescente. E assim acabou a maior ameaça de Westeros em milhares de anos, a razão da existência da Muralha, a primeiríssima cena da série. Enfim, nem tenho palavras. Foi mesmo uma desilusão. Nem cheguei a perceber afinal o que é que os zombies queriam. Houve um episódio que explica que a criação deles foi uma espécie de feitiço contra o feiticeiro, mas isso não explica qual era a ambição que os movia. Os zombies não paravam de aumentar as fileiras do seu exército dos mortos. Para quê? O objectivo era invadir o Sul. Porquê? Num dos episódios raptaram um bebé e transformaram-no num deles. Com que objectivo? Por que raio precisavam de um bebé? Só “porque sim” não é resposta. Agora nunca vou perceber para que é que queriam o bebé.
Não pretendo ler a saga de George R. R. Martin, mas, quando e se o homem a escrever a história dos zombies, seria um livro que me interessaria. E talvez possa vir daí a minha conclusão consistente. Mas para isso é preciso que Martin escreva e é melhor não esperar de pé.
Depois desta correria desenfreada, chegámos finalmente ao último episódio. E deste, confesso, gostei da primeira parte (que tem a duração de um episódio inteiro). Especialmente a cena dramática entre a Daenerys e o Jon Snow. Até gostei do dragão! Foi das raras vezes em toda a série que de facto me importei com os personagens. Admito que me surpreendi por ter gostado tanto, porque quase tudo o que aconteceu em “A Guerra dos Tronos” teve principalmente um efeito de choque (o Red Wedding, a morte da princesa Shireen, o sadismo de Joffrey e de Ramsay, as fogueiras de Melisandre, as execuções-por-dragão de Daenerys, tudo porno-tortura) mas a isto eu senti. Finalmente, Jon Snow conseguiu pôr a funcionar o Tico e o Teco e agiu com a cabeça. Teria tido mais pena da Daenerys, mas depois de a transformarem no Hitler em 30 segundos já não deu para empatizar grande coisa.
Já a segunda parte do último episódio foi um festival de disparate. Bran? Eu já me tinha esquecido de que Bran era um personagem. E aquela reunião de nobres(?) e outras pessoas com o Torgo Nudho? Quem era aquela gente que ali apareceu do nada? Custava alguma coisa apresentarem-nas? Alguns descobri quem eram a ler críticas. Outros ficarão para sempre no mistério do meu desinteresse. Afinal, isto era a Guerra dos Tronos. O mínimo que se pode esperar é que o espectador reconheça os sobreviventes.
O fim foi completamente incoerente. Torgo Nudho não ia esperar sei lá quanto tempo por um julgamento com gente que não lhe diz nada. Assim que Torgo Nudho virasse costas, Jon Snow não ia para a Muralha. E qual Muralha? O próprio Jon Snow pergunta “ainda há uma Muralha?”, e com ele nós todos. Já não há Night King, nem sequer cavalos zombies e dragões de gelo. O que é que alguém vai fazer para a Muralha?
Bran e Sansa só acabaram como acabaram, os donos do pedaço, porque o verdadeiro Rei devia ter sido o irmão/primo deles. Essa é que é a verdade e devia ter sido a conclusão lógica da história.

Os vencedores
Apesar de tudo isto, algumas personagens conseguiram conquistar-me. Tyrion, não é novidade, sempre foi o meu preferido. Embora no fim tenha tido momentos de burrice que não fazem justiça ao personagem (e Varys, idem) quando decidiu agir com honra e coragem em vez de ser inteligente. Só se safou graças ao Jon Snow, que foi mais esperto. Não deixa de ser irónico.


Sansa nunca foi preferida do público desde o início mas eu sempre vi nela o potencial daquilo em que se tornou. Se se pode dizer que alguém ganhou a Guerra dos Tronos, esse alguém é Sansa, não apenas sobrevivente mas vencedora, não apenas uma Lady mas uma Rainha. Gostei.


Também gostei da última tirada de Samwell Tarly, sugerindo dar voz ao povo para escolher os seus governantes. Momento brilhante de alguém à frente do seu tempo. Infelizmente, ninguém lhe ligou nenhuma.


Arya, a miúda ninja, não sei o que lhe aconteceu mas perdi completamente o interesse por ela. Lembra-me aquela cena d’“Os Diários do Vampiro” em que eles desligam a humanidade. Foi o que me pareceu, que ela desligou a humanidade e se tornou uma espécie de super-Arya. Super-heróis não são o meu género e nunca serão.
Mas, no meio disto tudo, uma personagem cresceu no meu coração. Brienne de Tarth, que a princípio era bidimensional e irrelevante, nas últimas temporadas tornou-se uma mulher de carne-e-osso, não apenas uma mulher “que queria ser homem” mas alguém que amou (um homem que não a merecia), que sofreu, e que se elevou ao abandono com a maior das dignidades. Não sou daquelas que só fica satisfeita quando as personagens têm um final romântico mas, se Brienne quiser pensar no assunto, há sempre o Tormund. Depois de amestrado, e com maneiras à mesa, quem sabe, ainda se encontram para tomar um copo?


Tormund, o “gigante” (gigante entre aspas, porque nesta série há gigantes a sério) voltou para o norte, para lá da Muralha, de coração partido. Mas estar longe não é estar morto.
Para minha felicidade, Ghost (o lobo ou direwolf) também foi com ele. Esteve difícil, mas o bicho safou-se. Ainda bem, nesta série que se fartou de matar animais. Quem é que, não sendo um serial killer com nostalgia pela infância, quer ver isso?


Em suma, uma boa cena dramática (Tyrion, Daenerys, Jon Snow, Drogon) não basta para compensar a enorme frustração que foi assistir ao final desta série. Eu até não sou uma daquelas fãs “die hard”, não estou desiludida e em lágrimas, mas não é por isso que não tenho direito a um final que faça sentido. Desde que os criadores da série ficaram sem os livros para os guiar o enredo foi por água abaixo e nunca mais se elevou ao nível das primeiras temporadas.  Resta-nos esperar pelo Martin, se entretanto ele não perdeu o interesse em escrever o resto.



Primeira parte da crítica à série até à quinta temporada AQUI

Segunda parte da crítica à série até à quinta temporada AQUI


segunda-feira, 22 de julho de 2019

A Feiticeira, de Ana de Castro Osório

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Esta é uma história de aldeia com personagens a condizer. Num cenário muito rural, existe um rapagão considerado o melhor partido da terra, o Manel da Clara, que “tem alguma coisa de seu, e no fundo não é mau rapaz”.
Este tal Manel está dividido entre duas pretendentes, a pálida e frágil Teresinha, que “era afilhada da fidalga e lá pelo palácio se tinha criado com mimos e delicadezas que as outras não conheciam. Era com uma graça toda senhoril que punha os olhos no chão e enrubescia como romã bem madura quando ele a fitava de frente, bem de frente, como fazia às mais, sem conseguir com isso chamar-lhes o sangue ao rosto, mas fazê-las explodir em jucundas gargalhadas. O seu andar lento e ondulado dava um realce de elegância exótica ao seu corpo delgado de anémica, flor tristemente desabrochada entre paredes sombrias e velhas coisas impregnadas da melancolia dos tempos passados. Como era a única que na terra sabia ler, eram também os seus os únicos olhos que na missa se não levantavam do livro para andarem em leilão pela igreja à procura dos rapazes, que lá de longe, e de soslaio, não perdiam o grupo buliçoso da raparigada”, e a robusta Maria do Próspero, que “era alta e desempenada! A sua tez, dum moreno intenso, fora brunida pelas soalheiras ardentes e curtida pelas ventanias agrestes. A boca, sempre aberta em riso, era vermelha e fresca como cerejas maduras, e os dentes brancos e agudos cravavam-se com delícia no pão de milho, sua única escova. As saias, rodadas em balão, faziam-lhe mais altas as ancas já de si redondas e fortes; o cabelo, em duas tranças pregadas, enchia-lhe a cabeça como uma touca de veludo negro. Quando punha o cachené vermelho e amarelo de grandes ramagens verdes, o xale em bico traçado deixando livre o braço esquerdo, a chinela branca pespontada na ponta do pé, nenhuma como a Maria do Próspero para arrebanhar admiradores. Depois, sempre satisfeita, radiava em plena expansão dos seus vinte anos sadios, vividos em plena natureza.”
Esta tal Maria, mais extrovertida, está a conseguir avanços no coração do Manel que a tímida Teresinha não alcança. A tia da Teresinha, que faz muito gosto no casamento, queixa-se à Gertrudes Zarolha que o Manel não se decide a declarar-se à Teresinha. A Gertrudes Zarolha oferece ajuda através de umas mezinhas de bruxa de aldeia:
“— Deixe estar, deixe estar... Eu sei cá umas coisinhas que hão-de voltar o Manel, oh se hão-de!... Assim eu tivesse uma coisa que lhe pertencesse... Coisa de vestir era melhor... Punha-lhe a pedra de ara e dizia a oração... É coisa certa.”
O Manel, em noite que vinha da feira, depara-se então com um Sabat onde nem faltava “o Diabo passeando altivo, vestido de encarnado e de chapéu guizalhante, poisando os pés de forquilha sobre as cabeças das feiticeiras, que riam sarcasticamente”. Entre as feiticeiras, Manel vê a Maria do Próspero, e “E quando a viu chegar ao pé do homem vermelho, estender-lhe os fortes braços roliços e trigueiros, abraçá-lo com ardor, não pôde reter um surdo grito de raiva.” Horrorizado, nunca mais lhe fala e casa antes com a Teresinha.
Mas aqui é que está a parte mais difícil de perceber. Parece que ele não viu a Maria do Próspero. Esta nega tudo quando é confrontada. Mas, caída em desgraça, perde o gosto pela vida e torna-se um fantasma de si própria, questionando-se mesmo se afinal é de facto a bruxa que a acusam de ser.
Este conto peca pela falta de desenvolvimento. Havia aqui o suficiente para um romance, com personagens bem desenvolvidas, maior imersão no pano de fundo da vida na aldeia, maior aprofundamento psicológico dos protagonistas, pistas que nos levassem a perceber que se passa mesmo algo de sobrenatural. Afinal, esta Gertrudes Zarolha tem pacto com o demo, ou, no mínimo, tem poderes suficientes para invocar a imagem de um Sabat na mente do Manel, e até de o fazer ver a Maria no Sabat, e isto é tratado como se nada fosse?... Assim parece um conto escrito a correr, sem ter o desenvolvimento que merece. No pior dos casos, soa-me a coisa escrita por senhora da alta sociedade a gozar com as superstições (e a linguagem, e o modo de pensar, e a “vidinha”) do povo ignorante, porque é “himalaias de giro” observar a gentinha. E isto irrita-me muito. Se calhar não era a intenção da autora (raramente é) mas foi o que chegou até mim.
O conto tem uma temática gótica o bastante mas falha na execução.


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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.




segunda-feira, 15 de julho de 2019

O Corvo, de Fialho de Almeida

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Na sequência de um naufrágio, bóia no mar o cadáver de um escravo. Um corvo tenta alimentar-se do cadáver. E é só isto. Apesar da temática mórbida, este é um conto que eu identifico muito mais com o realismo do que com alguma sensibilidade a que se possa chamar gótica. O autor observa a cena e comenta-a, “O negro lá continua de bruços sobre as ondas, hirtas as pernas, o cavername do tronco abroquelado em glaciais musculaturas, os ombros sempre unidos, a cabeça debaixo do peito, como em vivo fizera, quando o chicote do amo lhe arava as carnes, delas fazendo suar martírio e sangue”, no que é uma posição política implícita contra a escravatura, e atira invectivas ao corvo como se o pássaro tivesse alguma culpa por se alimentar.
É claro que existe aqui uma metáfora no corvo, “Só o corvo prossegue na sua tarefa exaustinada, e imagem do ódio, ei-lo armando em força a cobardia, requintando a vingança, tripudiando sobre a impunidade — como esses vencidos que se desforram da humilhação sofrida, indo aos cemitérios esbofetear os cadáveres dos vencedores”, mas como no caso do conto “O Mistério da Árvore”, de Raul Brandão, faltam-me as referências para identificar a quem se destina a crítica virulenta sem ter de ir procurar fora do conto. É assim que as obras panfletárias ficam datadas e perdem relevância.
Posso estar a ser infinitamente injusta, mas também não gostei da escrita rebuscada do início , versão “o homem que engoliu um dicionário”: “Aos primeiros clarões da manhã, o casco do galeão tinha-se afundado inteiramente. Para qualquer lado que se olhava, o mar não tinha termo; o céu ia coberto duma bostela de nuvens cor de chumbo, mosqueada de fulvo, que se fora erguendo duma banda, erguendo té descobrir sobre a linha do mar uma fímbria d’alva muito pálida, por onde a luz começou a esclarecer de manso o plaino líquido. E esse plaino amainava e começara a perder os vagalhões… Sobre as águas se erguia, à maneira de torre, um grande ilhéu bronco e tisnado. Era uma massa de fortins dentada toda em roda, por cima de cuja plataforma outras moles gigantes se aprumavam. E havia pórticos, recantos, pátios, levadiças: a ressaca bramia nos recôncavos da rocha babugenta; por cima as nuvens galopavam, embebendo os goelanos e os corvos marinhos do seu chorume glácido e mortal.” Felizmente este estilo é abandonado assim que entramos na história propriamente dita.
O gótico baseia-se muitas vezes no mórbido, mas nem tudo o que é mórbido é gótico. Na minha opinião, este é precisamente o caso. Não reconheço neste conto o “belo do horrível”, apenas o horrível e panfletário.


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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.



segunda-feira, 8 de julho de 2019

O Mistério da Árvore, de Raul Brandão

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De Raúl Brandão li “Húmus” (1917). Já não me lembro porque li. Se calhar por ser considerado o primeiro romance existencialista português. Mas perguntem-me de que trata o livro. Não me lembro. Não ficou nada. Foi daqueles que li por curiosidade e cultura geral. Já deste “O Mistério da Árvore” vou-me lembrar. Não por causa da história propriamente dita, porque quase não a tem. Um Rei que odeia a vida e, principalmente, o amor, manda enforcar dois amantes que entram no seu reino. Na árvore em que eles são enforcados, uma árvore negra e seca, que “não bebia água, nem sugava húmus”, nasce um galho florido. E é isto. Mais do que contar uma história, Raul Brandão pinta um retrato deste Rei e desta árvore em prosa poética. “Só o Rei no Palácio trágico vivia braço a braço com a Dor. A vida, a luz, as árvores lembravam-lhe a sua miséria e enojavam-no. Queria que todo o país fosse negro e viúvo; e o Amor que ele sentia correr na terra, a Morte até, que tudo transformava e enchia de vida, lhe parecia uma abominação.” Do que li de Brandão, sobressai imediatamente a obsessão/fascínio com a terra. A terra como lugar de germinação e a terra como lugar de decomposição. Ventre e sepultura, semente e húmus. Há algo de hippie antes do tempo neste fascínio em que Brandão faz equivaler a natureza à vida, ao amor, à alegria.
Mas confesso que não percebo exactamente onde é que Brandão quer chegar com este conto. Quem é o Rei Trágico? Será psicológico, alguém em particular? Sociológico, a sociedade do seu tempo como Brandão a via? Religioso, a igreja? Político, um louvor ao povo pobre mas “feliz”? Existe aqui uma crítica contundente algures, mas o conto já não basta para a identificar sem termos de ir estudar o autor e a época.


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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.



segunda-feira, 1 de julho de 2019

Colony (2016-2018)


[crítica às três temporadas; contém spoilers]

É um erro pensar nesta série como mais uma invasão extraterrestre. “Colony” é a história de uma família que tenta sobreviver a uma colonização repressora e brutal onde a vida humana perdeu o valor. Nada do que acontece aqui não aconteceu já em várias ditaduras do século XX. Desde a Ocupação nazi e à Resistência francesa (onde a série se inspira predominantemente), às outras ditaduras fascistas e comunistas, das europeias às soviéticas, às asiáticas, às latino-americanas. A invasão extraterrestre é uma desculpa para revisitar episódios da História tão monstruosos que é mais fácil imaginá-los cometidos por criaturas de outro planeta.
Will Bowman (Josh Holloway, o Sawyer de “Lost”) era um agente do FBI antes de chegar a Ocupação, mas agora o mundo está muito diferente. Quando a série começa, a invasão já aconteceu. Em flashback, vemos como os alienígenas dividem a área de Los Angeles em várias colónias através de umas titânicas muralhas de metal que caem directamente do céu nocturno e destroem tudo onde aterram (mais uma boca política a um certo muro…). Ao mesmo tempo, todos as forças de segurança, policiais e militares, são estrategicamente eliminadas (assassinadas) como medida para prevenir uma rebelião inicial. Não que tal rebelião fosse muito longe, porque os meios militares dos invasores são de tal modo avançados que neutralizam qualquer tecnologia terrestre. Os seres humanos não têm capacidade para se defender e têm de se submeter por uma questão de sobrevivência. Will consegue escapar a esta onda de assassinatos assumindo o nome de um vizinho que estava fora de Los Angeles e começando a trabalhar como mecânico. Kate Bowman, esposa de Will, (Sarah Wayne Callies, a Lori de “The Walking dead” e a Sara Tancredi de “Prison Break”) tem um bar que é fechado pela Ocupação. Existe um recolher obrigatório e qualquer incauto apanhado na rua depois de soar a sirene tanto pode ser morto imediatamente pelos drones extraterrestres que vigiam as ruas como, pior, ser preso e enviado para um lugar sinistro chamado a Fábrica, de onde nunca ninguém volta.
O drama dos Bowman é que um dos seus três filhos (o miúdo do meio, Charlie) ficou preso noutra colónia e não o conseguem ir buscar. As deslocações são proibidas. A colónia é uma grande prisão. Automóveis, telemóveis, todos os meios de comunicação avançados, foram neutralizados ou proibidos pela Ocupação. Os residentes recorrem a chamadas em cabines telefónicas anónimas onde, como nos tempos das ditaduras do século XX, transmitem mensagens em código. Tudo está a ser vigiado pelas câmaras da Ocupação, todas as comunicações são ouvidas. Noutras das alusões à Segunda Guerra Mundial, é através de frequências secretas de rádio que a Resistência transmite informação codificada.
A comida é racionada. Algumas pessoas, como os diabéticos, que é o caso do sobrinho de Kate, não têm acesso a medicamentos porque os Anfitriões (nome dado aos extraterrestres pelos representantes humanos da Ocupação) não consideram as suas vidas relevantes. Para os Anfitriões, os seres humanos são apenas um recurso: mão-de-obra em campos de trabalho, de onde se mantém toda a logística da Ocupação. A alusão aos campos de concentração nazis é arrepiante quando vemos um grupo de pessoas chegar à tal Fábrica, onde homens e mulheres (todos juntos) são mandados despir completamente e submeter-se a um “banho” químico de descontaminação. Nunca nos é explicado, mas pressupõe-se que quaisquer bactérias que transportem poderão ser nocivas à tecnologia extraterrestre. Esta tecnologia, descobrimos mais tarde, também é radioactiva, o que faz adoecer os trabalhadores que entram em contacto com ela. Vemos um deles começar a tossir sangue e a ser prontamente levado para parte incerta. Já não sendo produtivo, adivinha-se-lhe o que lhe acontece. Outros trabalhadores (vítimas) o substituirão.
Mas isto é na Fábrica, um verdadeiro campo de extermínio de todos os que lá vão parar. Cá em baixo na Terra (a Fábrica não fica na Terra) os ocupados tentam por tudo sobreviver e evitar ir lá parar.


Nem eram precisas listagens
Porventura o mais chocante desta série (chocante para quem não conhece os perversos mecanismos dos sistemas ditatoriais como eles sempre se desenvolveram) é a quantidade de pessoas que colaboram voluntariamente com a Ocupação, que fazem do lema do inimigo o seu lema, que por instinto de sobrevivência ou sadismo nada se importam com a vida dos seus semelhantes desde que mantenham o seu poder dentro da Autoridade Global, a face humana da Ocupação. A série até aproveita para fazer um comentário à actualidade, explicando que estes colaboradores de topo foram seleccionados um a um antes de chegar a Ocupação através dos seus dados online. Alguém diz mesmo que as nossas vidas estavam todas na internet para eles escolherem. Existe verdade nisto. Actualmente a nossa vida está toda online. E nem me refiro apenas às redes sociais, onde só partilhamos o que queremos. Refiro-me mesmo aos serviços do Estado, especialmente dados médicos e financeiros, onde qualquer hacker pode descobrir que lojas frequentamos, que medicamentos tomamos, que produtos consumimos. Tanta informação nas mãos erradas é uma receita para nos desenharem o perfil: pobre, abastado, casado, solteiro, desportista, sedentário, feliz, infeliz. Nas mãos de um regime ditatorial, o perfil seria diferente: saudável (mão-de-obra capaz), doente (dispensável, a eliminar), pai ou mãe (mais susceptível a intimidação), e por aí fora. Na série, com a ajuda dos colaboradores humanos, os Anfitriões tiveram acesso a listas de possíveis colaboracionistas e de elementos indesejáveis a abater. Assustador, não é?
Mas na vida real nunca foram precisas estas listagens. Basta que qualquer grande facínora chegue ao poder que imediatamente se encontra rodeado de batalhões de pequenos facínoras à cata do seu quinhão de poder que numa sociedade democrática e regida pela ética dificilmente conseguiriam alcançar. (E mesmo assim conseguem, que os pequenos facínoras também sabem jogar pelas regras.) O que “Colony” mostra aqui é a realidade nua e crua que o vizinho do lado ou o amigo de longa data pode ser o primeiro a mandar-nos para a Fábrica, especialmente se for uma questão de “nós ou ele”.


Colaboras ou resistes?
“Colony” começa quando Will consegue esconder-se, clandestino, num camião de carga destinado à colónia onde se encontra o seu filho Charlie, na esperança de o encontrar. Para seu azar, a Resistência faz explodir o camião quando este cruzava a passagem entre as duas colónias, debaixo da muralha alienígena, para potenciar o número de vítimas entre os colaboradores. Will é preso, o seu verdadeiro nome é revelado, e é-lhe feita uma proposta que ele não pode recusar: trabalhar para a Autoridade Transicional e ajudar a capturar os terroristas responsáveis pela  explosão (na perspectiva da Ocupação, a Resistência é uma organização terrorista) ou… ganhar um “bilhete de ida” para a Fábrica, ele e toda a família. Por outro lado, se colaborar, prometem-lhe a possibilidade de lhe ser devolvido o seu filho.
O poster da série pergunta: Colaboras ou resistes? É fácil responder quando não se tem família, pais e filhos sujeitos a represálias, e até, neste caso de uma ditadura brutal, a correrem risco de vida. De repente, a resposta não é assim tão simples. Will aceita, por falta de opção.
Kate começa a envolver-se em actividades clandestinas para arranjar insulina para o sobrinho no mercado negro. Ao saber que o marido está a colaborar com a Ocupação, Kate decide, por sua vez, entrar em contacto com Eric Broussard, ex-militar e implacável membro da Resistência, para o ajudar na luta contra os ocupantes. Agora que Will tem acesso aos bastidores da Autoridade Transicional, Kate torna-se um elemento muito útil para a Resistência, obtendo informação privilegiada através do marido, que de nada suspeita.
“Colony” é, acima de tudo, e principalmente nas duas primeiras temporadas, um drama familiar e inteligente que coloca o casal um contra o outro, pelo menos até Will perceber que Kate trabalha com a Resistência e tem de tomar uma atitude. Adorei a cena, muito realista, em que finalmente se confrontam. Will nunca lhe pergunta ou diz “sei o que andas a fazer”. (E isso Kate também já tinha percebido.) O que ele lhe diz é “há semanas que ando a encobrir o que andas a fazer”.
Como colaborador, Will tem acesso a regalias que a restante população não tem, como sempre acontece nestes regimes. Mas uma das regalias é um presente envenenado. Tendo como desculpa as possíveis represálias que a família pode sofrer devido à colaboração de Will, os miúdos deixam de ir à escola e é-lhes atribuída uma tutora ao domicílio. Esta tutora é uma fanática da religião promovida pelos Anfitriões, a Igreja do Maior dos Dias, que promete vida eterna a todos os que forem fiéis ao novo regime. (Isto lembra-me os khmer rouge, no Cambodja, que endoutrinavam as criancinhas para denunciarem todos os que se opusessem ao regime.) Uma das melhores cenas da série é quando Kate se apercebe disto e mostra à filha, Grace, uma série de livros de várias religiões em que todas prometem o mesmo. Mas a miúda é muito jovem e susceptível (deve andar pelos 8/10 anos) e já lhe fizeram uma autêntica lavagem cerebral. De onde podemos tirar uma lição prática. Foi tão fácil endoutrinar Grace porque esta foi a primeira religião com que teve contacto. Se Grace tivesse tido alguma espécie de educação religiosa talvez tivesse resistido mais ao fanatismo da tutora, digo eu.
Agora que Will e Kate estão tão envolvidos na Ocupação e na Resistência, a sobrevivência torna-se cada vez mais periclitante para toda a família.


Era bom mas descambou
As duas primeiras temporadas de “Colony” são tão boas, mas mesmo tão boas, que quase cheguei a dizer aqui que é a melhor série que vi desde “Breaking Bad” e “Black Sails”. Só que:
1, entretanto vi “The Terror
2, a segunda parte da terceira (e última) temporada de “Colony” foi por água abaixo.
Perguntei-me muito, quando soube que a série tinha sido cancelada, porque é que tinham acabado com uma série tão boa, tão bem escrita, focada em personagens bem construídos e desempenhados (a princípio, confesso, só conseguia ver o Sawyer e a Lori, e preferia ter visto nela a outra Kate, a de “Lost”, a única Kate que conseguia imaginar ao lado de Sawyer. Mas Sarah Wayne Callies impôs-se e a química entre os dois actores é excelente). As duas primeiras temporadas são espectaculares (em todos os sentidos, até na grandiosidade dos cenários exteriores com as grandes muralhas extraterrestres, os lançamentos de naves para o espaço, as cenas na Fábrica). A terceira temporada começa bem, mudando a família para um esconderijo nas montanhas onde se introduzem num campo da Resistência liderado por um survivalista ditatorial que gere a comuna com mão de ferro, em que não é por acaso que um dos episódios se chama “Sierra Maestra” e quase são fuzilados como traidores. Mais uma referência a outros movimentos insurgentes de guerrilha.
Infelizmente, na segunda parte da terceira temporada, quando eles vão para Seattle, foi o descalabro. Nem sequer vou dizer que o pior foi terem de facto mostrado extraterrestres (como tantos fãs exigiam) o que tornou a série numa dessas coisas que começam por Stargate e Babylon que eu não vejo. O pior nem foi isso, mas o grande plot hole no enredo.
Parece que os extraterrestres invasores até não eram tão maus de todo (apesar dos milhões que mataram indiscriminadamente e mandaram para a Fábrica e outros campos de trabalho forçado), e que andavam a fugir de uns extraterrestres ainda piores (e copiados do Predador, o que não foi nada brilhante), e que afinal até precisavam de um super-exército para combater estes últimos. Onde a bota não bate com a perdigota foi o que mencionei logo no início desta crítica: todas as forças de segurança, policiais e militares, são estrategicamente eliminadas (assassinadas) como medida para prevenir uma rebelião inicial. Há até uma cena em que Broussard e outros militares de elite são convocados a um único ponto de encontro, logo no início da invasão, para serem massacrados de uma só vez. Broussard consegue escapar porque tem um mau pressentimento à última da hora. Na terceira temporada, de repente, tanto Broussard como Will aparecem numa lista de operacionais a NÃO-abater por serem importantes para o tal exército ao serviço dos Anfitriões. Então em que é que ficamos? Os militares de elite são valiosos para os extraterrestres ou são alvos a abater? Quem escreveu a terceira temporada, será que viu a primeira?
E se fosse só isto! De repente há um colaborador, que nunca tínhamos visto na vida, que anda a esconder estes militares dos Anfitriões no intuito de estabelecer uma aliança com os inimigos deles e assim recuperar o planeta. Mas se estamos a falar de espécies tão avançadas (os Anfitriões conseguiram dominar a Terra em questão de horas) alguém acredita que vai ser um exército de humanos a fazer a diferença? E já agora, quem é que disse aos Anfitriões que este inimigo ia simplesmente “aceitar” lutar contra o exército de humanos na Terra quando o que estes outros extraterrestres querem mesmo são os Anfitriões e podem atacá-los no espaço? “Exmo.s Inimigos, sabemos que vêm aí e tomámos a liberdade de preparar para V.Exas estes soldadinhos aqui neste lindo planeta para vosso entretenimento e lazer. Façam favor de aproveitar, matar os humanos e visitar as belas paisagens terrestres, enquanto nós assistimos do conforto da nossa nave. Felizes em servir V.Exas. Voltem sempre.”
Eu explico: nas primeiras temporadas viram-se pessoas serem transportadas em cápsulas de animação artificial para as naves extraterrestres sem que soubéssemos porquê. Era um mistério que tinha de ser explicado. A série meteu os pés pelas mãos e explicou-o assim, com estes enormes plot holes. Os escritores começaram a inventar, pura e simplesmente, com o único objectivo de fazer render o peixe e sem grande vontade de começar a dar respostas ou de conduzir a narrativa a um fim coerente (a lembrar "Lost", onde o showrunner Carlton Cuse também andou...).
Se calhar até tinham conseguido vender melhor esta intrujice se tivessem sido os protagonistas a descobri-la. Mas em vez disso começámos a acompanhar a história pela perspectiva de um personagem novo, de quem nem me vou dar ao trabalho de saber o nome, enquanto Will e Kate e Broussard quase tropeçam no enredo principal por acaso.
E só mais uma: quem é que disse aos Anfitriões que estes soldados humanos mantidos em cápsulas de vida suspensa quereriam ou aceitariam lutar pelos invasores e opressores, quando subitamente têm como aliado natural uma espécie que também quer destruir os Anfitriões? O inimigo do meu inimigo meu amigo é, e claro que toda a gente estaria a pensar numa aliança com este inimigo comum dos Anfitriões. Até parece que quem escreveu as duas primeiras temporadas da série se foi embora a meio da terceira, de tal modo a qualidade e a coerência foi por água abaixo.
Mas a verdade é que as audiências de “Colony” nunca foram boas. Na minha opinião, muito da culpa se deve a ter sido dirigida a um público-alvo errado, os apreciadores de ficção científica com extraterrestres (Stargate, Babylon, etc) sem grande profundidade, em vez de se salientar o drama humano. A série é extremamente brutal e pessimista, às vezes é bastante deprimente, e raramente temos um qualquer motivo de esperança. Direi mesmo que foi isso que faltou à Resistência durante toda a série: uma vantagem secreta que pudesse efectivamente ser usada para derrotar os Anfitriões. Episódio após episódio, tivemos de assistir enquanto inocentes eram massacrados e a Resistência se desfazia aos pedaços em vez de se tornar mais forte. Esta falta de esperança que permeia toda a série pode ter afastado muitos espectadores que apreciam uma ficção científica mais levezinha em que os Bons ganham e os Maus perdem e tudo acaba bem.
Marketing errado, enredo pesado e deprimente, brutalidade e violência (embora nunca gratuita) podem ter ajudado ao cancelamento da série, mas nada tão grave como o final da terceira temporada. Eu, sinceramente, fiquei contente quando acabou porque não queria ver a série afundar-se mais.
Mas aconselho vivamente as duas primeiras temporadas e o princípio da terceira. São excelentes. Faz de conta que acabou na temporada 3 episódio 5, bem intitulado “The End of the Road”.



sábado, 22 de junho de 2019

“Solstício”, um conto de D. D. Maio, disponível para download gratuito



O conto “Solstício” já se encontra disponível para download gratuito no site da Bubok.
Link aqui:
www.bubok.pt/livros/11942/Solsticio


“Solstício” é um conto de D. D. Maio.
Sinopse
A noite mais longa do ano. Eric, o imperador, visita a sua prima Hildegaard nas Terras Verdes em busca da família que nunca teve e da esposa que quer vir a ter. Em terra de bruxas, sem acreditar nelas, espera-o confrontar-se com as suas próprias raízes num mundo isolado e proscrito que nunca conheceu, que nunca será o seu, e de que sempre fará parte.

“Solstício” é um drama romântico no género Low Fantasy.

Como autora, agradeço a todos os beta readers e demais leitores que ao longo destes anos contribuíram com comentários construtivos. Sem vocês a minha escrita não seria o que era hoje. Muito obrigada.
d. d. maio (pseudónimo)