quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO


Sempre quis escrever uma história de Natal.
Isto pode surpreender os leitores que me têm acompanhado por aqui porque já não é a primeira vez que eu digo, e repito, ODEIO O NATAL. Odeio o Natal com uma paixão que nem o Mr Scrooge do Dickens conseguiria igualar!
Deve ser por isso, porque tudo o que se odeia com paixão é uma paixão também, que sempre quis escrever uma história de Natal.

Mas já lá vamos, porque entretanto lembrei-me de que me esqueci de vos contar, ou não encontrei uma boa oportunidade de o fazer antes, que tenho andado a escrever. Sim, todo este tempo em que tenho andado  "desaparecida" aqui do blog, tenho andado a escrever. Histórias. Romances. Narrativa. Chegou a um ponto em que tive de arranjar um pseudónimo para a minha outra escrita, como poderão ver na capa que alguém sugeriu que eu fizesse para este conto de que vos vou falar.
E como não me apetece falar da minha escrita toda agora (isso será, talvez, ou talvez não, matéria para outro post), vamos lá ao conto.

Sempre quis escrever sobre o Natal. Escrever ficção sobre o Natal, para dessa forma "transformada", "segura", "distanciada", expressar a minha ambivalência sobre esta altura do ano que paira no horizonte imediato.
Porque é assim, e toda minha vida me custou a compreender, até ao dia em que se fez luz: odeio o Natal mas celebro o fim de ano, e agora sei porquê. Já não tento explicar, agora que sei porquê, mas consegui fazer melhor. Consegui criar a partir do que era para mim uma época do ano temível e temida. Não mudei de ideias, mas integrei-as.

Solstício é um conto em que personagens do meu universo celebram a noite mais longa do ano, esta noite que propositadamente escolhi para vos oferecer esta história.
Ainda pensei publicá-la aqui, capítulo a capítulo, mas não acho que este seja o lugar mais indicado para ela e criei-lhe outro lar. (E com fundo branco e letras pretas, para ajudar à leitura.)

Solstício pode ser lido, integralmente, aqui.

Quem preferir, e tiver conta, pode ler no Wattpad, uma plataforma que permite ler no telemóvel, também offline.


Deixo-vos com uma citação, melhor compreendida no contexto:

E Eric voltou a baixar os olhos, uma sombra de amarga inveja a endurecê-los. Era sempre assim, por aquela altura do ano. Todos tinham uma família, todos tinham quem os esperasse. Todos, excepto uma outra, a sua antiga serva, tão infeliz, a que só no seu abrigo encontrara o primeiro lar que tinha conhecido. Reena, pobre Reena, como estaria ela, tão longe? Sim, ela agora tinha uma família. Sim, ele agora tinha uma família. Por quanto tempo, não sabiam. Não era essa a família que lhes faltava, que sempre lhes faltaria. A primeira família. Aquela que nem sabiam o que era. Reena também não sabia, como ele não sabia. Mas dois órfãos não são dois irmãos.

in "Solstício", por d. d. maio


Dedico esta história a todos os que compreendem esta citação, a todos os que conhecem intimamente esta primeira família que lhes falta, pela sua ausência. Dois órfãos não são dois irmãos, mas não precisamos de andar sempre a fingir que somos como os outros.

Um bom Solstício para todos!





quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Blood

(Dean) Why you letting mommy dearest tie you into knots?

(Crowley) Because we're family. We’re blood.

(Dean) That's not the same thing. A wise man once told me, “family don't end in blood”. But it doesn't start there, either. Family cares about you, not what you can do for them. Family's there, through the good, bad... all of it. They got your back, even when it hurts. That's family. That sound like your mother?

In Supernatural, Season 10, Episode 7, “Inside Man”



domingo, 13 de novembro de 2016

The Garden of Delight / Merciful Nuns: jardim de delícias

Merciful Nuns

Este é um post há muito devido. Há demasiado tempo que The Garden of Delight e a sua posterior encarnação Merciful Nuns me têm feito as delícias sem que deles tenha falado. Mas não vou contornar a batata quente. O profícuo trabalho de ambos os projectos é "derivativo", como se diz agora quando queremos ser simpáticos. Quem não quer ser simpático poderá chamar-lhe "imitação" de Fields of the Nephilim e Sisters of Mercy, mas vamos lá mais devagarinho. Há imitação e há homenagem.
Antes de prosseguir vou relatar uma conversa que tive sobre o assunto, aqui há uns anos, com um daqueles ultra fãs de Sisters of Mercy. Conheci-o porque, eu também, era uma ultra fã de Sisters of Mercy. (Entretanto deixei de ser, mas não vem agora ao caso.) Penso que a conversa até não era sobre os Garden of Delight, salvo erro era sobre os Merry Thoughts, mas a questão é exactamente a mesma. Perguntava-lhe:
"Então, o que pensas destas bandas em que o vocalista faz uma voz tão igual ao Andrew Eldritch que quase não se percebe que não é o próprio?"
Ele: "Imitações. Rip-offs. Não interessam."
Eu: "Não sei... Têm boas canções. O estilo pode não ser original mas as canções não são cópias. E pelo menos assumem que são góticos e não fingem que não são. Porque é que não hei-de gostar de bandas que fazem a música que eu gosto de ouvir?"
Ele: "Estilo gótico!... Mas era só isso, no início, o estilo gótico?"
Aqui fiquei sem palavras porque ele já se referia a toda uma envolvente pós-punk que disse muito às pessoas que a viveram. Já não estávamos a falar de música, estávamos a falar de atitudes, rebeldias, tomadas de consciência, posições políticas e filosóficas. Os anos pós-punk, a adolescência. Não quis entrar nesse debate.

Não sou dada a nostalgias, percebo agora que sou mais velha, e nunca consegui ficar agarrada a meia dúzia de bandas preferidas dos anos 80. Nem me bastava! Musicalmente, sou um vampiro. Preciso sempre de mais, e mais, e mais. E devo dizer, depois de mais de metade da minha vida a ouvir música como um vampiro insaciável, que original nem sempre é bom, e certamente não é tudo. Mais vale não original e bom do que original e mau. Nunca assinei um pacto a prometer que sempre ouviria música original, da mesma forma que também não assinei um pacto com as bandas antigas a prometer que não ouviria bandas novas (originais ou não). Tudo isto para dizer que na minha opinião o original, apesar de sempre promissor e bem vindo, está sobrestimado.
Já não tenho preconceitos com bandas derivativas. Sei do que gosto, musicalmente, e não vejo nenhuma razão para não ouvir o que gosto. Também não vejo nenhuma razão para que as bandas não dêem aos ouvintes exactamente a experiência que estes lhes pedem, a musical e a outra. A experiência gótica. E nisso, tanto os Garden of Delight como os Merciful Nuns, ambos projectos alemães da autoria do mesmo mentor Artaud Seth, não decepcionam. Isto é rock gótico, isto continua o estilo que Fields of the Nephilim e Sisters of Mercy iniciaram, isto é o que eu quero ouvir! O conteúdo lírico, inspirado no oculto e no ritualismo, invocando anjos, deuses e demónios, inspirado em Crowley e Lovecraft, e ao mesmo tempo espiritualista, entre a contemplação e a sublimação da morte, também me delicia. (Ouça-se a solução sobrenatural de "In Between Worlds", Merciful Nuns, "she found a way to wander forever in between worlds" e compare-se com "Emma", The Sisters of Mercy*, "to find her lying still and cold and upon my bed", em que a tragédia se esgota na crueza da realidade.) 
Os amantes do sobrenatural vão gostar muito destes prazeres proibidos, tabus, que apenas apelam à alma gótica.

Garden of Delight "The Darkest Hour" 2007

Fica o alerta, quem viu relata que os Merciful Nuns são uma força da natureza ao vivo. Acredito plenamente. Assim me seja dada a oportunidade de testemunhar.



*Pequena adenda: Depois de escrever este post ocorreu-me acrescentar que "Emma" não é um original dos Sisters of Mercy, mas sim dos Hot Chocolate, uma banda soul britânica. Mesmo assim, achei interessante fazer a comparação porque a escolha de uma versão também fala pelo seu intérprete.
(A reboque desta curiosidade, ouvi pela primeira vez o original dos Hot Chocolate, um êxito de 1974. Vale a pena ver o vídeo.)




terça-feira, 1 de novembro de 2016

Devil / O Demónio (2010)


Ando tão decepcionada com os filmes de terror dos últimos anos que quando apanho uma coisinha assim bem feita até dou pulinhos de contente.
O Demónio é um filme exactamente assim: bem feito, simples, competente e poderoso. Cinco estranhos ficam presos num elevador e um deles é o diabo. Sabemos isto logo a princípio e todo o suspense do filme revolve em torno de adivinhar quem ele é. (Eu pensava que sabia, e enganei-me. Ou melhor, algo que o diabo faz leva-me em erro. Mas andei lá perto, apesar de tudo.) Segundo a lenda que nos é contada, por vezes o diabo reúne algumas das almas que já são dele, ainda em vida, para começar a atormentá-las antes de as reclamar para o Inferno. Como as almas já são dele, segundo a premissa, o diabo pode dar-se ao luxo de fazer o que bem lhe apetece a estes "escolhidos", e que eu não vou relatar aqui para não estragar o filme.
Mas parece-me que o diabo tinha em mente, ao dar aquele espectáculo, tomar posse de pelo menos mais uma alma. Falarei dela no final.

Devo confessar que quando o vi o nome M. Night Shyamalan no genérico (escritor e produtor) temi o que se ia seguir. M. Night Shyamalan já nos deu excelentes filmes (O Sexto Sentido, The Village) e outros muito fraquinhos (Lady in the Water, Signs, e o horrível, na minha opinião, que foi Unbreakable / O Protegido). É daqueles casos em que nunca se sabe o que vai sair dali. Se é mérito de Shyamalan (história) ou do realizador John Erick Dowdle, não sei, mas para um filme quase completamente passado num arranha-céus e na maior parte do tempo dentro de um elevador (e de que já conhecemos a premissa) a acção nunca se torna aborrecida. Eu, definitivamente, fiquei presa à cadeira!
Nunca houve um momento lento, um diálogo desnecessário. Esta é uma história simples e bem contada, dentro do género e, mais importante ainda, dentro do tema. Não deve ser fácil conseguir histórias novas e interessantes quando o tema é o diabo, e aqui não se pretendia nada de muito ambicioso, mas ainda assim o resultado é extremamente bem conseguido. (Parabéns a quem pensou no título português de "O Demónio" em vez da tradução à letra "diabo", porque não é de crer que ali estivesse o Diabo mas um mero subalterno, logo, um demónio. Melhor o título português do que o original.) Nunca achei o enredo previsível e no final até tive uma surpresa que não esperava, passe o pleonasmo, porque é dado a entender que o enredo já acabou.


Mas será que acabou? Porque na minha opinião todo o enredo nos conduz a esta outra cena, já quase pós-filme, em que o diabo podia ter conquistado outra alma para si. Uma das personagens, fora do elevador, tem de fazer uma escolha. Dessa escolha, entre o Bem e o Mal, dependeria se mais uma alma ficava marcada. Tudo indica que a personagem vai mesmo fazer a escolha errada, apesar daquilo a que assistiu, e o diabo vai sair mais vitorioso do que no momento em que entrou no elevador.
Não vou revelar a escolha, mas relembro a passagem bíblica que é citada no início: "Sede sensatos e vigilantes. O Diabo, vosso inimigo, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem devorar." (1 Pedro 5:8) Não é por se estar fora do elevador que se está livre de tentações. A tentação de fazer a escolha errada anda sempre em redor, como leão que ruge, quer se acredite ou não no diabo. Os piores demónios são os que nos habitam, e aqueles a que abrimos as portas e que nos ficam a pesar na consciência.
Não sei se o filme queria ser tão profundo ou chegar tão longe, mas foi onde eu cheguei. Por isso,


16 em 20



quinta-feira, 29 de setembro de 2016

American Horror Story: VAMPIROS!!!


Tropecei nesta série quase por acaso, lá muito escondida depois de The Walking Dead, como se a Fox tivesse vergonha de a mostrar ou não acreditasse que American Horror Story valesse audiências por si própria. Bem, tem sido um dos meus "prazeres envergonhados" mas também não é assim tanto caso para ter vergonha. Ao longo das cinco temporadas que já vi (há uma sexta), a série evoluiu e ganhou uma qualidade que talvez nem os próprios criadores esperassem da sua estreia, American Horror Story: Murder House.
Não comecei por ver a primeira temporada, a que só assisti recentemente. Caí de pára-quedas na segunda, "Asylum". E devo dizer que durante dois ou três episódios fiquei de boca aberta sem saber o que pensar. "Hospício" é um bom título, porque tudo aquilo me parecia uma doidice de uma mistura sem pés nem cabeça, um esmagador exagero de histórias e sub-histórias de terror, como se fosse a obra de alguém a quem tivesse sido dada oportunidade de fazer uma única série, e essa apenas, e tivesse querido meter tudo lá dentro: um hospício de freiras nos anos 50 (coisa já por si bastante assustadora, mesmo sem os choques eléctricos e os castigos corporais), uma história de lésbicas, uma ninfomaníaca, um psiquiatra serial killer, uma freira possuída pelo Diabo, um médico nazi fugido da Europa que faz experiências com os pacientes, e como se isto tudo não bastasse, e até acho que me estou a esquecer de qualquer coisa, extra-terrestres que vão e vêm e abduzem e devolvem quem lhes apetece! Uma salada russa de horror! Mas afinal a loucura era propositada.

American Horror Story: Asylum

American Horror Story é mesmo assim, um estonteante desfilar dos horrores e mitos e traumas que se alimentam do psiquismo americano profundo. O que explica o nome da série e acaba por ser o fio condutor entre temporadas. É curioso também como tão ao gosto americano estas histórias acabam sempre por ter um final feliz em família, nesta vida ou na outra. (Se vir mais uma família a enfeitar a árvore de Natal, vomito!)

 American Horror Story: Murder House

A segunda perplexidade que me causou esta série aconteceu na temporada seguinte, "Coven", com uma história de bruxas rivais (as finas e as pobres, que é como quem diz, a feitiçaria das brancas e o vodu das pretas...) em New Orleans. (Onde mais poderia ser?... Se isto tem a ver com o universo da Anne Rice ou se é o universo da Anne Rrice que tem a ver com isto, desconheço. Nunca me interessei pela saga das bruxas de Anne Rice.) 

 American Horror Story: Coven

A segunda perplexidade, dizia eu, é que muitos dos actores são os mesmos da temporada anterior a interpretar papéis completamente diferentes. Não é comum, e passada a confusão inicial o espectador habitua-se, mas este é um método muito próprio do teatro que denuncia a ambição da série. Uma ambição plenamente conseguida com grandes exibições de Jessica Lange, Kathy Bates, Denis O'Hare (que eu praticamente só conhecia de True Blood) e os outros actores mais jovens e/ou menos conhecidos que encontraram aqui uma grande oportunidade.
Admiro particularmente os momentos irrepreensíveis de Jessica Lange, a mesma que em 1976 era considerada apenas uma sex symbol para figurar na mão de King Kong. Com lucidez e ironia, esta senhora tem aproveitado magistralmente a sua idade em extraordinários papéis a tender para as divas acabadas de Hollywood nos tempos áureos das grandes estrelas de cinema. Como é que era aquela linha, "Mr. DeMille, estou preparada para o meu grande plano!"?... Jessica Lange nunca esteve tão preparada para o seu grande plano. Tem tido vários em American Horror Story e não consigo decidir em qual das personagens gostei mais dela. Ver esta mulher actuar é um prazer por si só. (Quem me dera ser assim quando tiver aquela idade!...) 

 Jessica Lange em American Horror Story: Murder House

Cada temporada tem o seu tema, e é natural que cada tema provoque maior ou menor agrado. Gostei da primeira temporada, "Murder House", que vai brincar com os mitos da casa assombrada e do Frankenstein louco (o médico, não o monstro), entre outros, tentando um pouco fazer lembrar os filmes sobre o bebé-Anticristo (Rosemary's Baby, The Omen), mas não se aventuraram muito por aí. Já não gostei tanto da quarta temporada, "Freak Show", porque não acho graça à ideia em si, e não gostei de toda aquela violência entre pessoas de carne e osso em que o sobrenatural quase não aparece. Não é o meu género de terror.

American Horror Story: Freak Show

E de repente... VAMPIROS!!!

O que é o meu género, o que eu não consigo deixar de ver nem que seja para dizer mal... Os leitores frequentes já sabem.
Não era isto que eu esperava de American Horror Story: Hotel, e ainda nem vi metade da temporada e já estou a recomendar. Vampiros! Crianças vampiro! Se não vos convence, o primeiro episódio começa ao som de "Decades" de Joy Disivion, sim, Joy Division!, e mais tarde passa "Neverland" dos Sisters of Mercy, sim, Sisters of Mercy!, e mais alguns, e até "Bela Lugosi is Dead" dos Bauhaus! E vampiros! E crianças vampiro! E muito de Shinning:

American Horror Story: Hotel

Concebido para uma audiência gótica? Talvez. Mas não deviam tê-lo sido também "Murder House" e "Coven"? Porque é que só os vampiros é que têm direito a música gótica? Não sei. Já desisti de perceber o que é que as pessoas normais pensam dos góticos.
E por falar em pessoas normais, em "Hotel" tive a oportunidade de conhecer bem a cara à Lady Gaga. Acreditem se quiserem, não a conhecia, nunca a tinha olhado duas vezes, se já ouvi alguma das músicas dela não sei porque desconheço e não tenho interesse em conhecer, e se passasse por ela na rua não a conhecia. Mas agora conheço-a! E sei que sempre que olhar para ela é só disto que me me vou lembrar:

Lady Gaga em American Horror Story: Hotel

Não há ninguém que convença a senhora a vestir-se sempre de preto? Fica-lhe tão bem!
E era isto, e basicamente: vampiros, vampiros, vampiros. E crianças vampiro. E Denis O'Hare num espaventoso papel de bicha que ainda não sei se também é vampiro ou não. E Kathy Bates noutro fantástico papelão. O resto é o mesmo do costume, mas: vampiros, vampiros, vampiros! Este "Hotel" está cheio de vampiros!
Os fanáticos do género, se ainda não viram, já sabem o que têm a fazer.



sábado, 24 de setembro de 2016

Black Sails / Velas Negras


Eu nunca gostei particularmente de piratas, e continuo a não gostar. Do que gosto mesmo muito é de uma série bem feita, com um enredo sólido e dramático e personagens psicologicamente bem construídas. Já começa a ser uma raridade, e por isso me custa tanto que não se fale de Black Sails como se devia falar. Esta é uma das melhores séries actualmente no ar! Os personagens têm uma coisa chamada motivação. O enredo não tem buracos e absurdidades. Os cenários, o guarda-roupa e a localização também não deixam de dar uma ajuda.
Mas esta não é uma "telenovela" de época com piratas galantes a cortejar carinhas bonitas (embora as haja). Nem é um filme de capa e espada daqueles de bocejar de tédio. E não falta aqui o seu crânio esmagado, ou a sua cabeça cortada, ou as suas tripas de fora. Mas ao contrário de outras séries mais populares, aqui há realmente um motivo para a violência. E há violência, mas não é gratuita, e há sexo, mas não se pretende que funcione como mero efeito de choque. Esta é uma série séria e para ser levada a sério, e é uma série inteligente, e tenho para mim que é esse o motivo de não ser falada. (Que se tirem as devidas conclusões...)
Li algumas reviews e descobri que a história é inspirada em acontecimentos e piratas reais (ou algo ficcionados em livro, não percebi bem nem quis investigar), mas não me interessa nada. Reafirmo, nunca me interessei por piratas, nem quando era o Johnny Depp, e o período histórico do século XVIII também nunca despertou o meu maior fascínio, nem aqui (muito menos aqui), nem na Europa, e muito menos nas colónias inglesas das Caraíbas. Demasiado moderno para o meu gosto, que anda por paragens mais antigas. Não quero nada saber, aliás, prefiro não saber se estes cavalheiros existiram mesmo (ou uma versão deles). Gosto mais deles assim como são, assim construídos, assim apresentados.


Foi com alguma surpresa, há três temporadas atrás, que comecei a ver esta série. Não parecia outra coisa senão outro cocktail de violência gratuita, desde a primeira cena, só que desta vez com piratas. Mas foi só a primeira cena. Dez minutos depois já se percebe que o que se passa ali não são só piratas atrás do tesouro do navio (galeão?) espanhol  L'Urca de Lima, e só melhora, e melhora, e melhora. Afinal, o Capitão Flint tem motivações, motivações muito mais profundas do que acredito que alguma vez algum pirata pudesse ter tido na vida real. Não pode ter existido um capitão Flint na vida real, nem um John Silver, nem um Charles Vane. Simplesmente não pode! (Um Billy Bones, talvez.) Mas acima de tudo, não pode ter havido um Capitão Flint, que desde o início nos explica que afinal não é uma série sobre piratas. "Eles não querem que se pense de nós que somos apenas criminosos. Eles querem fazer de nós monstros", explica, quando se percebe que o seu alvo principal, e o seu maior inimigo, é o Império Britânico. É contra o Império Britânico que Flint luta, foi o Império Britânico que lhe roubou tudo, é o Império Britânico que Flint quer destruir. Na impossibilidade de o fazer, é do Império Britânico que Flint quer roubar Nassau, lar dos piratas.
Isto não nos lembra nada? Claro que lembra. É até bastante óbvio, quando a série começa com o logotipo do canal Starz. Sim, lembra-nos Spartacus, também uma produção Starz Originals, de que já aqui falei.
Estes piratas, não apenas Flint mas também Vane, e Rackham, e Silver, e elas, Eleanor, Max, Anne Bonny, Miranda, todos querem a mesma coisa primordial: liberdade! Libertação da pobreza, libertação da escravatura e de todos os outros tipos de servidão, libertação da moral esmagadora dos tempos, liberdade suficiente para um homem negro ser importante e uma mulher decidir os destinos de Nassau.
É este o segredo da série, como também já o tinha sido de Spartacus, o anseio por liberdade que ecoa dentro de nós, nos nossos dias, nesta geração, já não uma liberdade como aquela que os hippies ansiavam, porque já não acreditamos em hippies, mas uma outra, que sabemos que é impossível e desesperada. Flint, tal como Spartacus, é um homem desesperado que não olha a meios para atingir os fins. Um monstro? Definitivamente sim, um monstro, ou o monstro em que o tornaram, fica à apreciação de cada um. Estes são personagens que vivem no fio da espada, personagens que não podem ter escrúpulos. Personagens que não podem confiar em ninguém, e muitas vezes nem em si próprios.
Mas ao contrário de Spartacus, esta não é, de todo, uma história só de homens. Eu teria muito medo das carinhas bonitas que exercem o seu poder sem pegarem numa espada. Ficcional, tendo em conta a época? Sem dúvida. Não podemos acreditar que na sociedade patriarcal de 1700 alguma vez uma mulher fosse encarada como igual, nem por maridos, nem por amantes, nem pelos próprios subordinados. Uma mulher era sempre a mulher de alguém.


Poderia alguma vez existir uma Eleanor Guthrie? Não acredito. Poderia alguma vez a ex-escrava e prostituta Max conseguir o respeito de toda a Nassau? Não acredito. (E no caso de Max não acredito que possa acontecer agora, muito menos naquele tempo!) Poderia alguma vez alguém levar a sério uma Anne Bonny? Talvez no Wild West, com umas boas pistolas, mas isto ainda não é o Wild West. Curiosamente, Black Sails consegue o equilíbrio suficiente entre o poder efectivo que estas mulheres exercem no mundo que as rodeia e o poder persuasivo que exercem entre os lençóis (que era o único poder que a mulher daqueles tempos podia exercer) que nos convence de que até podia ser possível.

Uma série demasiado boa para se perder. Uma série tão boa que num dos episódios a melhor cena de acção foi uma tempestade, e foi aterrador, e no episódio seguinte a melhor cena de violência foram dois homens num bote a calçar um tubarão, e foi arrepiante. Uma série tão boa que disse aqui coisas que nunca pensei vir a dizer de uma série de piratas. Mas é mesmo sobre piratas? Não, não é. Tentar colar este "universo paralelo" a acontecimentos reais é cuspir num banquete. Esta Nassau, este enredo, estes  personagens, são tão melhores do que alguma vez a realidade podia ter sido!


Uma última nota sobre o tema musical de abertura. Épico! Magnífico! Também existe uma versão longa. Ambas rodam no meu Winamp.


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Blitz: entrevista a Andrew Eldricth


Entrevista de Rui Miguel Abreu publicada no Blitz a 10 de Setembro último. Para a posteridade.




Sisters of Mercy hoje no Reverence Valada: a entrevista BLITZ com Andrew Eldtrich

A banda de rock gótico é hoje cabeça de cartaz do derradeiro dia do festival Reverence, em Valada. A BLITZ falou com Andrew Eldritch, o vocalista e mentor da banda: anti-Trump, anti-Brexit, anti-editoras, anti-quase tudo


Andrew Eldritch é um homem de fortes convicções e uma voz refrescantemente honesta que não se importa de assumir que é no passado que se encontra a parte mais relevante da sua obra e que o futuro serve apenas para a revisitar. Eldritch traz os seus Sisters of Mercy ao Reverence, em Valada (atuam sábado, às 23h30, no palco Rio), para um concerto que, garante ele, será mais do mesmo. E o mesmo continua a ser épico, denso e negro.

O que é que se tem passado com Sisters of Mercy nos últimos anos?

Mais do mesmo, na verdade. Não mudámos o nosso pessoal, nem sequer os nossos métodos. A vida continua...

Com cada nova digressão surgem sempre algumas canções novas. Têm trabalhado fora do palco também...
Sim, sempre, mas não sei ainda o que iremos tocar nestes concertos. Essa é uma decisão coletiva da banda e como dois de nós estão em Inglaterra e outros estão... a olhar para o Mediterrâneo, algures, ainda não se tomaram essas decisões. Os últimos concertos que tocámos foi na Letónia, Polónia, na Alemanha e na Bósnia e posso dizer que sim, foi mais do mesmo.

Mudando de assunto, 2016 tem sido um ano terrível para a música com grandes perdas. A mais recente foi Alan Vega. Estes desaparecimentos obrigam-nos a confrontar a nossa própria mortalidade, não acha?
Eu tinha muito orgulho no Vega. Teria ficado surpreendido se ele tivesse vivido até aos 30 anos, mas ele conseguiu viver até aos 78 e isso é incrível. Ele mentiu sempre em relação à sua verdadeira idade. Conheci-o há muitos, muitos anos e pensei “bem, este homem não está destinado a ter uma grande vida”. Mas acabou por ter uma vida longa e durante todo esse tempo, apesar do crescimento da música industrial, apesar do crescimento do dubstep, continua a não haver nada por aí que soe como os Suicide. Ninguém sequer tenta imitá-los, porque seria impossível. Ele era um homem realmente único.

Disse numa entrevista recente que gravaria um novo álbum dos Sisters of Mercy se Donald Trump fosse eleito...
Bem, haveria muitas razões para gravar um álbum e nós temos vindo a gravar canções de tempos a tempos, mas temos feito isso sem pressões de prazos, sem pressões de editoras e sem a pressão de ter que lançar alguma coisa. A verdade é que o nosso sistema parece funcionar e não vejo grande necessidade de alterar o nosos posicionamento. Às vezes, no entanto, damos por nós a pensar em fazer alguma coisa, talvez usando o Kickstarter, mas parece que encontramos sempre outras coisas para fazer. Mas há muitas coisas que me revoltam e, mesmo que ele não seja eleito, o simples facto de saber que pelo menos 40 por cento da América vai votar naquele palhaço deixa-me terrivelmente revoltado. Há muitas coisas que me deixam nesse estado e essa é uma delas.

Muitas bandas da vossa geração gravam coisas novas apenas para terem uma desculpa para continuarem a tocar as antigas...
A verdade é que nos divertimos muito a tocar o nosso material original. Acho que é importante ter novas canções nos concertos e nós fazemos isso. E, claro, temos que navegar muito bem a linha divisória que separa as pessoas que compram bilhetes porque querem ouvir coisas que já conhecem das outras que compram bilhetes porque gostavam de nos ouvir a tocar coisas novas. Temos sempre que encontrar esse equilíbrio. Se calhar nem sempre conseguimos, mas vamos tentando. E em todas as nossas digressões cada concerto é diferente porque só decidimos alinhamentos no dia do concerto. Tem a ver como o que sentimos, se o sol está a brilhar, se tivemos problemas no aeroporto, se nos apetece tocar canções rápidas ou lentas, mais canções antigas, ou pelo contrário mais das mais recentes. Mas o que acontece com mais frequência é que cerca de metade das canções são clássicos que as pessoas já conhecem e a outra metade será material nunca editado.

Há muito que vive na Europa continental, mas os seus conterrâneos parecem querer seguir o caminho contrário...
O voto surpreendeu-me porque não sabia que a maior parte dos meus compatriotas se sentia assim. Sei que os escoceses não se sentem assim. E boa parte das pessoas da minha geração e talvez a maior parte das pessoas mais jovens acreditam nalgum tipo de união europeia, mesmo que possam estar desapontadas com algumas das promessas não cumpridas da União Europeia. Mas o que aconteceu é que a Direita mentiu às pessoas, os nacionalistas mentiram às pessoas sobre a imigração - ninguém quer viver no País de Gales, por isso a imigração não será um problema aí. E disseram que, abandonando a União Europeia, teriam dinheiro para gastar no Serviço Nacional de Saúde. Mas eles são conservadores; por eles não se gastaria dinheiro algum nos serviços públicos de saúde... Muita gente, branca sobretudo, mais velha, nostálgica, pensou “lembro-me dos anos 50, que eram maravilhosos”. Na verdade, e eu também tenho memória, os tempos mais recuados foram terríveis. A vida antes da União Europeia não era tão boa e tenho a certeza que o mesmo acontecia em Portugal. Sempre verbalizei as minhas opiniões e acredito mesmo que se pode ser britânico e europeu ao mesmo tempo.

Diz-se que a meio dos anos 90 gravou dois discos de tecno que editou sob outros nomes, nunca revelando a sua verdadeira identidade. É verdade?

O primeiro era um álbum de tecno, definitivamente. O resto das coisas que fiz, para minha satisfação pessoal, não sei como se poderia descrever... Trance? Não sei. Não será verdadeiramente música de dança, será logo “trancey”, mas “evil trance”, não “happy hippy trance”. Gosto de brincar com electrónica e algumas das coisas que faço é demasiado electrónica até para os Sisters of Mercy. Os Sisters usam muita electrónica, mas combinam isso com guitarras ao vivo. E às vezes gosto de fazer coisas sem guitarras que não me parecem material de Sisters. Faço essas coisas para mim e normalmente poderei gravar uns CDs que ofereço a 12 amigos, sempre diferentes de cada vez, dizendo “tomem lá, apreciem”. Para isso não preciso de me meter na engrenagem da edição de música. É música privada. E música privada é fixe.

Os Sisters of Mercy foram descritos como “uma mistura entre Leonard Cohen e os Stooges”. Parece-lhe uma descrição apropriada?
Sim, sem dúvida. Mas também se poderia dizer que somos uma mistura dos Hawkwind e dos R.E.M. ou Neil Young e Moby...

Para terminar: trabalhou em tempos com o [compositor, letrista e produtor] Jim Steinman, colaborador próximo de Meat Loaf, no tema “This Corrosion”, que tem uma dimensão quase operática. O que recorda dessas sessões?
Lembro-me que ele se fartou de gastar dinheiro. Lembro-me que ele comia muito. Nesses tempos era normal fazermos maquetes antes de se gravar a versão que seria editada e a minha maquete já tem todos os elementos da versão comercial. O que o Jim acrescentou foi o orçamento que lhe permitiu juntar um coro verdadeiro e muito tempo num grande estúdio de Nova Iorque. Esse disco ficou muito caro. E ele era muito melhor do que eu a convencer as editoras a gastarem muito dinheiro num projeto. Quando uma editora gasta muito dinheiro num disco, gosta de gastar ainda mais dinheiro a promovê-lo, por isso acabaram a gastar uma batelada a fazer vídeos. Isso é tudo muito bom, mas no fim todas essas verbas vão sair do bolso dos artistas. Eles apenas avançam o necessário. Quando se vendem muitos discos, eles acabam por tirar o dinheiro que gastaram. Felizmente, esse disco vendeu muuuito e por isso todos fizeram dinheiro, mas podia ter sido um desastre porque custou uma fortuna a fazer e outra a promover. Felizmente, as editoras morreram e são hoje irrelevantes, por isso já não temos que nos meter nestes números. E isso é maravilhoso.