quinta-feira, 21 de julho de 2016

Caixa Económica Operária: tradição de clandestinidade

 

Já lhe chamaram "um dos segredos mais bem escondidos da capital" mas se os edifícios tivessem alma, coisa em que não acredito, apesar de tudo o que parece, então a nossa (agora familiar) Caixa Económica Operária teria uma vontade própria para brilhar mais na obscuridade. Recentemente, no documentário da RTP2 "Antes da Pide", tomei conhecimento de que aqui se realizou o derradeiro congresso do Partido Comunista Português antes da ilegalização.
Na verdade, estou um pouco perplexa porque julguei que para escrever este artigo me bastaria ir buscar um link à Wikipedia, acrescentar uma frase ou duas, e feito. Para minha surpresa, tive de andar à procura dos factos a que o documentário remete, aqui:

«Aos vinte e nove dias de Maio de mil novecentos e vinte e seis, às vinte horas e quarenta e cinco minutos, na Rua Voz do Operário número sessenta e quatro primeiro, da cidade de Lisboa (1) reuniu-se em segundo Congresso a massa filiada no Partido Comunista Português secção da Internacional Comunista», tendo a saudação aos delegados sido feita pelo «camarada Rodrigues Loureiro, Secretário-Geral interino da Comissão Central» (2) . Assim começa a Acta que regista a abertura, há 80 anos, dos trabalhos do II Congresso do PCP, iniciado, portanto, um dia depois de os militares golpistas comandados pelo general Gomes da Costa se terem sublevado em Braga e iniciado a sua marcha para Lisboa, onde acabaram por chegar quando os trabalhos do Congresso estavam a terminar.


E aqui:

O II Congresso realiza-se em 29 e 30 de Maio de 1926, na Cooperativa Caixa Económica Operária, em Lisboa. (...) Com efeito, a ditadura desencadeia uma forte vaga repressiva contra os comunistas e as organizações e militantes democráticos e sindicais. Centenas de dirigentes operários e militantes comunistas são presos.


E nem mesmo aqui quiseram mencionar o local:

II Congresso
(1926)
O II Congresso inicia os seus trabalhos a 29 de Maio de 1926, em Lisboa, mas estes - que contavam com a participação de 100 delegados - são interrompidos em consequência do golpe militar reaccionário que irá conduzir à instauração da ditadura fascista.A repressão aos comunistas não se faz esperar e. em 1927, a sede do PCP é encerrada. O PCP entra na clandestinidade, Da primeira reorganização do Partido, em 1929, emerge a figura de Bento Gonçalves que virá a ser Secretário-geral do Partido.


Esta clandestinidade da Caixa interessa-me pessoalmente porque, segundo fontes familiares, era onde o meu pai se continuou a reunir com a célula do partido muito depois da ilegalização. Faz-me confusão que não exista mais informação disponível online, ou se calhar sou eu que já estou mal habituada, e eu ainda sou do tempo pré-histórico Antes da Internet, das bibliotecas e dos pedidos por favor que nos deixassem ver os arquivos. Mesmo assim, acho estranho que um edifício tão cheio de história não tenha mais páginas online a contá-la. Começo por fazer a minha parte, e cá está.


Actualmente é outra a "clandestinidade" da Caixa (mas ainda assim não menos clandestina, e ainda bem que o é, o tal segredo mais bem guardado de Lisboa) e são outros os subgrupos que a povoam. Curiosas as voltas que a História dá, que me encontrei a cruzar o caminho extinto dos passos do meu pai, noutros passos completamente meus.
Serve este artigo, pois, para chamar a atenção para a tradição de clandestinidade de um edifício, Rua da Voz do Operário nº 64, que parece ter alma própria e gostar pouco de ser falado. A avaliar pelo sucesso dos últimos anos, agora que outra Comissão gere a "clandestinidade" desta moderna CEO, o espírito da casa tem acolhido com aprovação os novos inquilinos. Uma imensa minoria, diria alguém, uma minoria ainda menos imensa, digo eu.
Mas termino com humor. Passou-me pela cabeça, ao conhecer o passado do lugar, o que aconteceria que se de repente ali se abrisse um portal espaço-tempo, como tão a propósito seria que acontecesse num edifício tão carregado de história, e de repente ficassem frente a frente os comunistas daquele tempo, e os PIDES daquele tempo, e os estupefactos visitantes de agora. E quase imagino comunistas e PIDES, daquele tempo, por única vez a concordar, de olhos esbugalhados: "Esta juventude está perdida!"
Perdida não, que encontrou onde se encontrar.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

As dez palavras mais “metálicas” de sempre

Eu não gosto de metal mas achei este artigo no Blitz interessantíssimo:

Um cientista analisou milhares de letras de canções heavy metal e fez um top 10 das palavras mais utilizadas

Tal como em qualquer outro género musical, o heavy metal pode falar de uma miríade de temas: do amor à filosofia, da política à natureza, ou, no caso do black metal, de Satanás.

Contudo, há palavras mais comuns do que outras - e um cientista analisou milhares de letras de canções heavy metal para tentar perceber quais as mais utilizadas por este tipo de artistas.

Recorrendo ao website Dark Lyrics, bem como a 222 623 letras de 7 364 bandas de metal, o cientista em questão elaborou posteriormente um top 10 das palavras mais usadas no metal: confira-a aqui em baixo, e leia aqui o artigo científico em questão.

1. Burn
2. Cries
3. Veins
4. Eternity
5. Breathe
6. Beast
7. Gonna
8. Demons
9. Ashes
10. Soul
O artigo original pode ser encontrado aqui: Heavy Metal and Natural Language Processing

Fiquei muito curiosa. Se alguém fizesse a mesma análise a uma boa amostra de músicas góticas, quais seriam as 10 palavras mais utilizadas? Assim de repente, sem pensar muito, eu apostaria em "dead", "lost", e, por alguma razão, "away". A quantidade de músicas que usam a palavra "away", não é?




sexta-feira, 8 de julho de 2016

"A Metamorfose", de Franz Kafka

Imagem encontrada na net. Desconheço o autor.

Li "A Metamorfose" pela primeira vez quando tinha uns dezassete anos. Percebi imediatamente que este seria um dos meus livros preferidos de sempre, e para sempre. Mas às vezes duvidamos de nós próprios, e da nossa pouca idade, e recentemente voltei a ler "A Metamorfose". Acho que chorei, da primeira vez que li, e desta vez não chorei porque estava a ler em público. Mas apeteceu-me. E às vezes não devemos duvidar de nós próprios nem da nossa pouca idade.
Não vou repetir tudo o que já foi dito sobre Franz Kafka, e o famoso "O Processo", e "O Castelo", que também li. Não vou falar sobre o surrealismo de "A Metamorfose" porque desta vez percebi que não é surrealismo nenhum. Em forma, parece, mas em conteúdo chamar-lhe-ia mais simbolismo porque toda a história é uma grande metáfora. Não é a história de Gregor Samsa que acorda um dia transformado numa barata. É a história de como a família de Gregor Samsa o transformou numa barata. Melhor ainda, é a história de como a bondade de Gregor Samsa permitiu que a família (e o mundo também, mas principalmente a família) o transformasse numa barata.
A transformação de Gregor Samsa deu-se lentamente. Ele próprio o conta. Quando o negócio do pai faliu, deixando a família numa má situação financeira e cheia de dívidas, Gregor transformou-se num escravo do trabalho para sustentar pai, mãe e irmã. A ingratidão desta gente é inenarrável por palavras comuns. Para esta gente, Gregor, que os sustentava, era insignificante como um insecto. É especialmente repugnante a atitude do pai de Gregor, que afinal não era tão inválido como se fazia parecer enquanto o filho pôde trabalhar.
Curiosamente, da minha primeira leitura, fiquei com a ideia de que tinha sido a irmã, e não o pai, a atingir o Gregor-barata com a maçã que depois apodreceu no seu dorso e o matou. Agora percebo porque é que fiquei com essa impressão. A ingratidão da irmã pode não ser tão repugnante, mas a deslealdade é ainda mais repugnante. É ela a primeira a dizer que têm de se "livrar" daquela coisa. É dela a intenção de matar o irmão, o irmão que a adorava e que queria pagar-lhe a educação no conservatório de música. Nessa noite em que os ouviu dizer que o queriam ver fora daquela casa, Gregor Samsa até ponderou sair, mas ferido de morte com a maçã podre acabou por morrer imóvel e sozinho no chão do quarto, no escuro, como um insecto que ninguém quer ver. A criada desfez-se do corpo e a família saiu na manhã seguinte, para um passeio no campo, e fez planos para o futuro. Ninguém chorou Gregor.
No fim, Gregor perdeu a sensibilidade no corpo de insecto, e talvez a morte não tenha sido dolorosa. Mas a verdade é que Gregor já tinha perdido a sensibilidade à dor que aquela família lhe infligia, há muito tempo, tanto tempo que nunca pensou em sair, que não viu a ingratidão, que deixou que o transformassem num insecto insignificante. O amor demasiado que tinha à família foi também o amor que não teve a si próprio.
Eu chorei Gregor, da primeira vez e da segunda, e continuarei a chorá-lo para sempre. Foi uma sorte ter lido "A Metamorfose" tão cedo, embora não tenha percebido tudo tão claramente como percebi agora. Às vezes tenho medo de acordar e estar transformada numa barata. Foi uma sorte ter lido tão cedo sobre a ingratidão e a futilidade de insistir em estender bondade a quem não merece nada. Talvez me livre de acordar um dia e estar transformada numa barata também.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Breaking Bad




Algo se passa de muito errado na minha vida se foi preciso o Dean do Sobrenatural falar desta série para eu perceber que Breaking Bad me ia interessar. (Errado, talvez, mas não é nada de novo. Acho que é mesmo karma.)
Breaking Bad também é uma história em que os personagens têm muitas oportunidades e razões para ponderar o que se passa de errado nas suas vidas.
A sinopse não é suficientemente esclarecedora. Não é apenas um professor de química que decide virar-se para o "dark side" e tornar-se traficante de droga. É muito mais do que isso! É simplesmente uma das melhores séries de todos os tempos, a nível de enredo, a nível de cinematografia, a nível de diálogos, a nível de personagens. A nível de tudo, mas mesmo de tudo! Não há elogios suficientes para descrever esta série.
A história começa quando Walter White, um pacato professor de meia-idade que lecciona química de liceu a alunos desinteressados e apáticos, descobre que tem cancro nos pulmões. O que não pode ser mais injusto porque o homem nunca fumou um cigarro em toda a sua vida. Mal pago e frustrado, Walt podia ter sido um químico brilhante e reconhecido, potencial candidato a um Nobel, mas por motivos de relacionamentos pessoais não participou do sucesso da empresa que co-fundou com os seus colegas de universidade. Um sucesso que não teria sido conseguido sem a genialidade de Walt, e nunca se percebe muito bem porque é que este se resigna à vida de professor de liceu quando podia ter sido tanto mais, mas esta é uma questão que não interessa a Breaking Bad aprofundar, ou que reserva ao espectador decidir.
Walter White, quando o conhecemos, parece pelo menos satisfeito com a sua vida de professor e com o seu casamento com Skyler, dona de casa. O casal, em tudo normalíssimo, tem um filho adolescente com paralisia cerebral e, de repente, um bebé-surpresa a caminho. Para manter o estilo de vida a que a família está habituada, Walt vê-se obrigado a arranjar um emprego depois das aulas a lavar carros para um chefe absolutamente execrável. E subitamente, o cancro, quando a situação financeira da família já é desastrosa. Mais do que com o cancro, Walt preocupa-se com o futuro da mulher e dos filhos. No que é uma crítica feroz ao sistema de saúde norte-americano, o seguro de saúde não cobre todos os tratamentos que precisa, e Walt pondera nem sequer tentar tratar-se. (A crítica repete-se mais tarde na série, quando volta a ser dinheiro da droga a suprir a fisioterapia de um agente do FBI, necessária após um ataque sofrido em consequência da profissão, cujo seguro não chega para cobrir.)
Coincidentemente, Walt é cunhado de Hank, polícia da DEA, casado com Marie, irmã de Skyler. Para animar o cunhado, Hank convida-o a acompanhá-lo numa rusga destinada a apanhar um fabricante de metanfetamina. Não o conseguem apanhar, mas Walt reconhece no meliante um seu antigo aluno. Vê-o fugir e não diz nada à polícia, porque de repente as rodinhas daquele cérebro já começaram a funcionar. Walt começou a fazer contas à vida, e ao dinheiro que não tinha, e aos empregos onde não lhe dão o devido valor que nem chegam para garantir que Skyler e os filhos tenham uma vida confortável após a sua morte, e entretanto descobre que a anfetamina dá dinheiro, muito dinheiro, até a anfetamina de má qualidade que circula nas ruas! Walt sabe que consegue fazer uma anfetamina melhor, genial, pura, científica, e as rodinhas do cérebro começam a girar.
Com a ajuda do antigo aluno, Jesse Pinkman, Walt inicia-se no processo de fabricar anfetamina e o produto, Blue Ice, pode ser descrito como o Nobel da droga. Os problemas começam quando Walt e Jesse têm de vender o produto. A princípio até é engraçado, quando "contratam" três estarolas como dealers, três atrofiados em quem eu não confiava nem para me comprarem o passe. Mas lá vai resultando, e Walt e Jesse fazem mais dinheiro do que alguma vez na vida tinham imaginado. E porque fazem dinheiro, e o Blue Ice se torna conhecido, e dão nas vistas, tornam-se imediatamente alvos: da polícia, e, pior, do cartel lá do sítio, mesmo ali ao lado da fronteira com o México!
E é aqui que as coisas começam a correr mal, muito mal, de mal a pior, como diz o Dean do Sobrenatural, é aqui que as coisas começam "a correr Breaking Bad", à medida que Walt e Pinkman se metem em situações ao mesmo tempo rocambolescas e arrepiantes que tanto nos fazem rir como nos põem a roer as unhas. Os amantes de humor negro não podem perder esta série, nem que seja por causa do casal de agarrados que rouba uma caixa de Multibanco, e depois a mulher zanga-se com o marido e... Só visto. Felizmente, não se "vê" exactamente, ou realisticamente, e é por isso que certas cenas de extrema violência, embora nunca tratada com leviandade, nos conseguem fazer rir. Por exemplo, o que acontece a Gus Fring, e que obviamente não vou revelar. Não me lembro de outra cena em filme ou televisão que me tenha feito reagir assim, sem saber se ficar em choque ou se desatar às gargalhadas. Breaking Bad é uma série assim tão boa!

Alguém se lembra desta senhora?
Até consigo imaginar Vince Gilligan, criador da série, a ver essa outra série igualmente genial que era Weeds, de cariz mais alternativo e humorístico, e pensar que o que faltava a Weeds era a versão hard. Breaking Bad é a versão hard da comédia soft de Weeds. Em Weeds, nada é tão dramático, nada é tão desesperado. Nancy Botwin, a dona de casa viúva e desesperada, mete-se no negócio da marijuana por motivos bem mais levianos do que Walter White. Nancy Botwin é uma sociopata, quer manter o estatuto e o nível de vida, mas fá-lo também por rebeldia anti-sistema, a hippie "crescida" que acredita que a marijuana deve ser legalizada. (De Nancy Botwin, ou dos autores da série, a grande mensagem é: legalizem já!) Não há ninguém naquela série que não fume o seu charro.


Breaking Bad, pelo contrário, é um hino anti-drogas. Com as devidas distâncias, porque não estamos a falar de drogas leves, basta ver aquela cena em que eles preparam heroína numa colher, com sumo de limão e tudo, para uma pessoa ponderar se quer mesmo enfiar aquela porcaria nas veias. Ou as cenas em que sob efeito da anfetamina Jesse Pinkman tem autênticos surtos psicóticos de paranóia, o que também não deve ser nada divertido. Admito, eu própria, que quando Walter começou a ter dificuldade em respirar, ou quando se via o cancro nas radiografias, me faltava o ar a mim também! E olhei para o meu cigarro aceso com pouca vontade o fumar, proeza que nenhum aviso, nenhum programa, nenhum documentário, consegue provocar-me! (Mas passou-me depressa.)
É impossível não comparar Weeds e Breaking Bad, mas atenção, as aventuras de Walter White e Jesse Pinkman não são só para rir, e não são para todos! Breaking Bad é acima de tudo uma série dramática, cheia de acção e humor, mas essencialmente dramática. Na minha opinião, alguns episódios até conseguem ser bastante aborrecidos, e refiro-me especialmente a todas aquelas partes da "vida em família", Walt e a mulher e o filho e os churrascos com a cunhada e o cunhado, que não é o motivo por que as pessoas vêem a série, mas até essas secas, que o são, vão ser fundamentais mais tarde quando todos esses personagens são sugados para o grande buraco negro que Walt andava a criar em laboratório.

A pseudo-gótica
Nesta série não faltam personagens interessantes. Pelo contrário, quase todas elas mereciam a sua própria série (como o conseguiu o advogado Saul Goodman, em "Better Call Saul", que ainda não vi mas obviamente tenciono ver.) Falarei apenas das que me interessaram mais.


Raramente odeio uma personagem como odiei a Jane, a quem não consigo parar de chamar Lydia porque tudo nela me lembra a miúda do Beetlejuice. (Mas da Lydia do Beetlejuice eu gosto, e parece-me que alguém naquela série também gosta porque mais tarde aparece uma personagem sinistra que realmente se chama Lydia. Coincidência? Não acredito.) Odiei a Jane assim que a vi! Foi visceral! Toda vestida de preto, armada em gótica, era só estilo, mas o que é que a menina ouve com o Pinkman? Hiphop. O que é que ela ouve sozinha? Não se sabe, nem sequer a vemos a ouvir música. Na vida real chamar-lhe-ia poseur, mas acredito piamente que os escritores da série não fazem a mais pequena ideia sobre a cena gótica mas acharam que era giro meter uma gótica na série, e saiu isto. Isto irrita-me, porque vem perpetuar uma série de estereótipos sobre os góticos. Que se vestem de preto por rebeldia contra os pais, que aquilo é tudo fachada, que são todos uns drogados. Ainda por cima numa série como Breaking Bad, uma série bem feita e realista, onde vários nichos da sociedade são bem retratados (desde a  cena hiphop, à vida de subsistência e criminalidade dos toxicodependentes lá do sítio, até à ritualidade religiosamente bizarra dos cartéis). Mas aqui, falharam. Mais uma vez, servem-nos uma pseudo-gótica a dar a entender ao mundo que ser gótico é vestir de preto, pintar o cabelo de preto, e ter uma atitude arrogante como o caraças! E ainda por cima, sob o efeito da droga, a moça é violenta a ponto de exibir tendências criminosas. Obrigadinha, Breaking Bad, pelo mau serviço!
Por outro lado, Jane "Beetlejuice" é uma toxicodependente em recuperação, o que pode desculpar em parte o "efeito poseur". Até concebo como realista que antes da droga Jane "Beetlejuice" tenha tido alguma simpatia pela cena gótica, mas quando a vemos na série a única coisa de gótico que ainda tem são as roupas que usa, e absolutamente mais nada! Acredito que alguém na série tenha conhecido alguém assim, ou aparentemente assim. Eu conheci alguém assim, antes e depois da droga, e o que vi não foi bonito. Quem sai já não é o mesmo que entrou. Parte da mente ficou por lá. As drogas fazem muito mal à cabeça, que ninguém se iluda! (Nunca é demais dizê-lo, não vá cair no esquecimento.)
Jane "Beetlejuice", por caricatura que seja, foi a parte mais irritante de Breaking Bad.

Skyler White
Passei a série toda a tentar decidir se devia odiá-la ou se me merecia empatia. Comecei logo por detestá-la. Skyler parecia-me uma espécie de Nancy Botwin com mais problemas de dinheiro, o mesmo tipo de dona de casa totalmente dependente do marido a nível financeiro, mas tão mandona e controladora que até a mim me irritava! Nas mãos dela, Walter White parecia um banana. Mas Walter White, como se vem a perceber, não é um banana, e durante muito tempo conseguiu manter a mulher na completa ignorância do que andava a fazer. Isto confundiu-me. O que é que um génio como Walt podia ter visto naquela parvalhona? Como é que aqueles dois podiam acabar juntos e permanecer juntos?! Bem, isto foi antes de ela descobrir tudo. (Desculpem o spoiler lá para o meio da série.) E então Skyler revela-se. A mulher é uma fera manipuladora! Pior do que o marido! Assim percebe-se o que é que viram um no outro e como é que se aturaram durante tanto tempo, Skyler a mandar, Walter a fingir que Skyler mandava. Entre um e outro, venha o diabo e escolha. 


Ainda assim, Skyler não é uma sociopata. Nunca o é, e somos levados tentar imaginar as suas motivações. Na minha opinião, a razão por que Skyler aceita participar em tanta coisa e durante tanto tempo é afinal a mais simples, e é esta:


O que nos leva imediatamente a tecer comparações com outra série notável, mas num registo mais trágico e sem o humor de Breaking Bad, que foi The Shield:

The Shield, a cena crucial em que Vic Mackey e colegas são corrompidos pela raiz de todo o mal. (Lamento a má qualidade da imagem, não consegui encontrar melhor.)

Não preciso de explicar o que salta à vista e não sou a única a fazer o paralelo. Sem revelar demais, posso até adiantar que os últimos episódios de Breaking Bad me lembraram os últimos episódios de The Shield. Qualidade trepidante até ao fim!
Tal como os polícias de The Shield, pelo menos a princípio, Walter e Skyler não agem por ganância. Não amam o dinheiro e não querem ficar ricos. São pessoas reais, normais, com empregos normais e contas para pagar, e salários que não chegam para pagar as contas. Pessoas reais, a quem de repente aparece à frente uma montanha de dinheiro. Vou fazer filosofia e perguntar se será mesmo a ganância a raiz de todo o mal, ou se não haverá um mal ainda pior do que o amor ao dinheiro, a necessidade do dinheiro? Não falo da mais mísera pobreza, nem é preciso. Falo da pobreza da sociedade moderna, em que a pobreza não é a falta de sapatos mas a necessidade de ter os sapatos adequados, o carro adequado, o telemóvel adequado, a escola dos filhos adequada, e todas essas "necessidades" que somos obrigados a satisfazer para não sermos párias, sem no entanto precisarmos delas. E de repente... uma montanha de dinheiro! A solução para todos os problemas que o dinheiro pode pagar.
Consigo censurar a Skyler? Não consigo. No lugar dela, apoiaria o Walt como ela apoiou e participaria em tudo o que ela participou? É fácil dizer que não. Mas eu não tenho uma montanha de dinheiro à minha frente.

Jesse Pinkman
Chegamos ao duo terrível. Tentei compreender Jesse Pinkman, prestei atenção aos episódios em que interage com os pais, o irmão, as namoradas, o filho da namorada, e não consigo compreender Jesse Pinkman. Isto não quer dizer que ache o personagem irrealista ou bidimensional, apenas que deve ser aquele tipo de pessoa com quem eu não me relaciono nem me passaria pela cabeça relacionar-me. Por outro lado, às vezes, Jesse não me parece assim tão estúpido como certas decisões dão a entender e fico com a sensação de que calhou à personagem Jesse ser "sacrificada" a bem do enredo, ora com atitudes impulsivas, quando a série precisa de acção, ora com abismos de depressão suicida lá pelo meio das temporadas em que são necessários episódios menos evolutivos. 


Parece-me que o personagem sofre com isto, embora  mal se note, mas nunca chego a perceber exactamente quem é Jesse Pinkman. Afinal ele queria o dinheiro, ou não queria o dinheiro? Ou queria, a princípio, e foi o primeiro a perceber que o dinheiro não traz a felicidade? Mas Jesse Pinkman não tem responsabilidades, não tem filhos, não tem contas para pagar. Jesse Pinkman é um miúdo crescido que queria dinheiro para comprar brinquedos e se fartou dos brinquedos que comprou. A montanha de dinheiro não exerce atracção em quem não precisa dela.

Walter White
Também passei a série toda a questionar-me se Walter White é um sociopata ou um homem desesperado numa situação desesperada. No fim, ele próprio o admite, fez tudo por si próprio, mas quando ele admite nós já sabíamos. O homem é um monstro!
Também aqui, como em Dexter, fomos manipulados a sentir empatia pelo pacato professor de liceu que tem cancro e só quer garantir uma vida confortável à família depois de morrer. Não imaginávamos, nos primeiros episódios, o que Heisenberg iria significar depois. Realisticamente, até se poderia conceber que Walter tenha sido um sociopata funcional a vida toda. Não sabemos, porque não vimos e se calhar não era nada de interessante para ver, mas há-os para aí muitos. Na sombra de Skyler, solar e controladora, até um Heisenberg em potencial podia passar perfeitamente despercebido. Não é implausível. 
Mas Walter White é um sociopata ficcional, tal como Dexter, e a ficção manipulou-nos. Desde o episódio em que o pacato professor de química desata a lançar bombas de fósforo no quartel-general do drug lord lá do sítio, e Heisenberg se auto-inventa, sabemos que estamos na presença de um super-herói. Mais tarde, percebemos que é um anti-herói. Um dos melhores super-anti-heróis que a ficção já imaginou! Este é o homem que sabe fazer veneno indetectável, mas também consegue detonar bombas à distância, e este é o homem que raramente precisa de matar com as próprias mãos porque consegue manipular alguém para o fazer por ele. Heisenberg é um dos personagens mais perigosos que já apareceram na ficção! Ainda mais perigoso porque ninguém desconfia dele, e ele sabe disso. Neste aspecto, recorda-me o mítico Keyser Söze de "Os Suspeitos do Costume" (os autores da série só foram buscar aos melhores), mas Heisenberg existe mesmo, em carne e osso.
Mas somos manipulados. Até ao fim, somos manipulados. Queremos sentir empatia pelo homem que tosse e que encara a morte de frente com coragem, queremos acreditar que é um homem desesperado que só quer deixar dinheiro à família. Queremos sentir empatia mesmo quando já sabemos que ele não sentiria empatia por nós, que sem pensar duas vezes nos metia também num barril cor-de-rosa. Queremos acreditar que é um homem desesperado mesmo quando temos à frente todas as provas em contrário, queremos acreditar que naquelas circunstâncias todos nós faríamos o que ele faz, que na face da morte há um Walter White à espera de despertar em cada um de nós, mas sabemos que não. Porque o homem é um monstro, mas nós não somos, e só conseguimos amar um monstro quando fechamos os olhos à sua monstruosidade. E é assim que Breaking Bad nos manipula, do primeiro ao último episódio, e encantados na canção do bandido deixamo-nos convencer.


 Obrigada, Dean do Sobrenatural




quinta-feira, 30 de junho de 2016

40 anos de gótico em menos de 4 minutos

Imperdível!
Alguns exemplos do mais extremo que apareceu na moda gótica feminina nos últimos 40 anos.



terça-feira, 26 de abril de 2016

“Christ The Lord Out Of Egypt”, de Anne Rice


Christ The Lord Out Of Egypt é uma novela de ficção de Anne Rice em que esta descreve os primeiros anos de Jesus, na primeira pessoa. Isto é, o próprio Jesus nos conta o relato intimista do período entre os seus 7 anos, idade em que voltou do Egipto para Nazaré, e durante o espaço do ano seguinte, até à visita ao Templo de Jerusalém onde, diz a Bíblia, Jesus teria ficado a discutir a Lei com os maiores sábios entre os Rabis.
Na verdade, a Bíblia não diz mais do que isto sobre a criança Jesus. Sabemos que, após a matança dos inocentes, Maria e José, avisados por um anjo num sonho de José, fugiram com o menino para o Egipto, de onde só regressaram após a morte do rei Herodes. Sabemos que Jesus aprendeu o ofício de carpinteiro, como José. Sabemos que a família visitou o Templo em Jerusalém onde Jesus ficou para trás, a debater com os Rabis do Templo, e quando a família, já desesperada, finalmente o encontrou, Jesus terá dito: "Porque me procuram? Não sabem que estive na casa do meu Pai?"
Anne Rice baseou-se também em evangelhos apócrifos, e inclui uma extensa nota em que descreve o grande trabalho de pesquisa que fez sobre a época, e os trabalhos académicos e religiosos que consultou sobre a vida de Jesus enquanto criança. Para os não-crentes, este livro servirá, no mínimo, para acompanhar a vida de um rapazinho e sua família nessa altura conturbada da Palestina.
Eu sou crente (gosto de dizer que tento ser Cristã, e que "tento ser" porque ser Cristão é muito difícil) e quando ouvi dizer que Anne Rice ia pôr de lado os vampiros para se dedicar a escrever a vida de Cristo, que estava "farta de escuridão e queria escrever sobre a luz", até estremeci de medo. Demorei muito tempo a preparar-me psicologicamente para o que ia ler, se bem conheço Anne Rice, temendo encontrar nestas páginas os envolvimentos românticos e controversos entre Jesus e Maria Madalena, entre Jesus e João (o apóstolo), entre Jesus e Judas... Se bem conheço Anne Rice.
Foi uma agradável surpresa que este primeiro livro da série tenha sido completamente inocente de tudo isto que imaginei. Mas polémico o suficiente, como teria sempre de ser polémica uma qualquer interpretação da vida de Jesus, criança ou adulto.
A polémica começa logo na primeira frase. Jesus fala na primeira pessoa e diz-nos que naquela idade, aos 7 anos, "what did I know?". E aqui começa a controvérsia. Anne Rice apresenta-nos um menino completamente alheio à sua natureza divina. O que não é de somenos importância, porque o debate sobre a divindade do Cristo é um assunto muito sério entre os teólogos. Este menino Jesus que Anne Rice nos apresenta não é divino, na minha opinião, mas humano, completamente humano. Sentimos por ele a empatia que podemos sentir por qualquer outra criança na situação de tentar perceber os eventos trágicos que rodearam o seu nascimento, os segredos que a família prefere guardar dele, os seus esforços, finalmente recompensados, de encontrar respostas e compreender quem é.
Jesus não tem qualquer intuição de quem é. Intrigam-no os milagres que realiza, as curas, as ressurreições, os milagres menores como pedir que deixe de chover e a chuva lhe obedecer. Intriga-o que da sua família não encontre nenhuma explicação, que mais perplexos do que ele Maria e José o aconselhem a guardar em segredo o seu poder e a não falar dele a ninguém. Jesus é uma criança muito confusa. Em certas passagens, Jesus é um menino aterrorizado pela guerra que atravessa Israel na sequência da morte do rei Herodes. Não era esta a minha ideia de Jesus, nem em criança, mas a representação de Anne Rice parece-me razoável. (Mesmo assim, não sei se concordo. Não era assim que via Jesus e não será assim que passarei a vê-lo.) Mas reconheci Jesus em certas passagens. Quando chegam a Nazaré, e alheio aos horrores da guerra à sua volta, o menino sente uma paz que transcende todo o pensamento: a paz de Cristo. Quando no regresso ao Templo Jesus deseja tanto entrar no Santo dos Santos, onde Jeová está presente, que os pensamentos o transportam até lá, numa viagem transcendental muito à maneira oriental, para lá do pátio, para lá do véu, para lá do Santo dos Santos, e ainda mais além, até Deus. Sem saber, sem imaginar, que naquele momento nada existe de mais divino naquele Templo do que a sua pessoa, e que o Templo, que o Jesus-criança admira e acha tão glorioso, e que o Santo dos Santos, nada são perante o Rei dos Céus que se senta à direita do Pai. Como é que Jesus poderia não o saber, não o intuir? Como poderia faltar-lhe algo da omnisciência divina que vem do Pai? O Jesus-criança de Anne Rice é acima de tudo humano, um Jesus-humano que faz milagres sem querer, por quem todos nos podemos enternecer, mas Anne Rice deve saber (por muito bem intencionada, como eu completamente acredito que o estivesse, porque se sente na obra uma humildade e uma espiritualidade de quem acredita no que está a dizer) que esta não é uma interpretação livre de controvérsia.
Outro problema que encontrei nesta obra é a personagem de Maria. José é exactamente o que eu esperava dele, sem tirar nem pôr. Anne Rice preferiu enveredar pela tradição católica de Maria sempre virgem, indicando que o casamento com José nunca foi consumado, nem antes de Jesus nem depois de Jesus, e que os irmãos de Jesus, de que fala a Bíblia, são irmãos adoptivos, um deles do primeiro casamento de José e alguns outros primos órfãos que sendo criados por Maria podiam mais tarde ter sido chamados de irmãos de Jesus. Em suma, Maria, puríssima, nunca conheceu carnalidade. Ora... (Não, nem vou por aí.) O que direi de Maria, sem perceber se Anne Rice fez isto de propósito ou não, é que me parece uma jovem mulher à beira de um ataque de nervos. É certo que ela dá o consentimento ao anjo "Faça-se em mim conforme a vontade do Senhor", mas tudo o resto me dá a entender que Maria tem um calado rancor ao que lhe aconteceu, ao que lhe estragou a reputação e a vida, ao que lhe estragou o casamento. Tenho a sensação, à medida que vou lendo, que a qualquer momento Maria vai agarrar os cabelos e desatar a gritar histericamente. Não vejo nela, nada de nada, a Maria Sereníssima. Sinceramente, até tive pena da personagem. Não sabemos, da Bíblia, quem era Maria na intimidade, mas sempre a imaginei alguém profundamente religioso, uma jovem tão devotada a Deus que foi por isso a escolhida, a abençoada entre as mulheres, o que na Idade Média se chamava uma "mística", uma santa, com visões e tudo. A Maria de Anne Rice também não percebe muito bem o que lhe aconteceu. E a minha sensação, errada ou não, é de que não gosta do que lhe aconteceu.
Outro aspecto digno de nota, pela sua possibilidade de polémica, é a família de Jesus. Não faço ideia de como era a espiritualidade dos judeus na época de Cristo, mas a família de Jesus, segundo o livro, era tão religiosa que nos nossos dias lhe chamaríamos fanática. Toda a vida daquela família, das orações da manhã às orações da noite, revolvia em torno das Escrituras, da Lei, da sinagoga. Seria fácil, para os críticos, atribuírem àquilo que hoje nos parece fanatismo as visões de anjos, a influência religiosa no pequeno Jesus, a sua inevitável conclusão de que é o Filho de Deus, o seu delírio religioso que o levaria à execução como Rei dos Judeus. Partidários desta opinião considerarão que os milagres foram alucinações ou pura e simplesmente não aconteceram.
Mas arriscando tudo isto, a própria Anne Rice diz, na nota de autora:
 "I wanted to write the life of Jesus Christ. I had known that years ago. But now I was ready. I was ready to do violence to my career. I wanted to write the book in the first person. Nothing else mattered. I consecrated the book to Christ. I consecrated myself and my work to Christ. I didn't know exactly how I was going to do it."
Mas fez, e explica porque o fez, quase como numa necessidade, digo eu, de proclamar desta forma o evangelho, o que é um dever de todos os cristãos, da maneira que ela sabe fazer melhor, pela escrita.
Não sei, não faço ideia, se a leitura deste livro terá alguma influência nos não-crentes. Em mim, teve apenas a influência que aqui exponho, o confronto entre as minhas próprias ideias sobre a Sagrada Família e a interpretação de Anne Rice, mas a minha opinião quase não conta porque Anne Rice, no meu caso, está a pregar para o coro (eu já estou convertida). Não aconselho este livro aos leitores do trabalho mais bem conhecido de Anne Rice, as Vampire Chronicles, se acharam que os momentos religiosos não tinham ali razão de ser. Não aconselho a quem leu Memnoch e não gostou por achar o livro demasiado religioso. Christ The Lord Out Of Egypt é religioso, e quem não estiver interessado em religião não conseguirá, acho eu, suportar as cerca de 120 páginas a contar a vida da criança-Jesus. Posso estar enganada, mas não me parece. Aconselho exactamente aos outros, aos que leram Memnoch e gostaram, aos crentes, aos que se interessam por religião.
Por falar em Memnoch, e como não podia deixar de ser, digo eu que conheço Anne Rice, um dos episódios mais empolgantes do livro é quando Jesus tem um sonho perturbador com um ser lindíssimo e alado que lhe coloca questões a que o próprio Jesus não sabe responder. O ser alado também não sabe quem ele é, o que demonstra o grau de afastamento entre Lúcifer e os planos divinos. Pois, claro, este ser alado é Lúcifer, e basta ele aparecer para reconhecermos o melhor de Anne Rice em todo o seu esplendor. Anne Rice escreve melhor sobre a escuridão. Nada a fazer.
Mas não sei se esta obra é exactamente o que ela disse, uma "obra sobre a Luz". Eu achei-a algo triste e até abaladora, aqui e ali. E pensei, quando vi o reduzido tamanho do livro, que era pequeno. Mas o conteúdo, estranhamente, tão intenso e tão profundo, torna-o grande, imenso. Fiquei convencida, e tenciono ler os livros seguintes desta série apesar de todas as minhas reservas quanto à interpretação pessoal da autora.




sábado, 16 de abril de 2016

Ajuda e partilha

Preciso de ajuda com um projecto literário. Nem sei porque é que não me lembrei disto mais cedo, dizê-lo aqui, neste blog que já me deu tantas alegrias. Talvez só agora tenha chegado a esse ponto de cansaço (ou desespero).
Há alguns anos que ando a escrever uma história e sinto que perco demasiado tempo a fazer tudo sozinha. A escrita, a revisão, a espera até conseguir o suficiente distanciamento para nova leitura e nova revisão. Seria tão útil ter um par de olhos, isentos e frescos, que me apontassem o que muitas vezes me demora anos a ver. Desde gralhas a sobressaltos na transição de um parágrafo para outro, a proximidade do autor cega-o ao que salta à vista a um leitor experiente.
Então, a minha tentativa de não ter de fazer tudo sozinha. O meu pedido de ajuda.
Procuro pessoa, ou pessoas, que queiram ajudar. Pessoas que gostem de ler, que sejam leitores ávidos e de mente aberta, que saibam oferecer uma opinião fundamentada e uma crítica construtiva. Até preferia, não sendo essencial, que fosse pessoa ou pessoas que também escrevam, que saibam do que falo, que levem a escrita a sério, que queiram ajudar e ser ajudadas, que gostem de opiniões fundamentadas e críticas construtivas. Alguém a quem perguntar o que acha desta ou daquela frase, deste ou daquele parágrafo, deste ou daquele adjectivo. Uma partilha que ajudasse mutuamente em projectos presentes e futuros. Ou uma troca de ideias entre autor e leitor, frutífera e positiva.
Quem tiver essa disponibilidade e interesse, escreva-me para blog.gotika@gmail.com .
E tu aí, que estás a ler a isto, e que conheces alguém que te está sempre a azucrinar e a pedir que lhe dês opiniões sobre o que escreve, e tu que não gostas de dar opiniões, mostra-lhe este post.
Agora fica nas mãos do destino.

Deixo-vos com um excerto do que ando a escrever. Não uma das partes de que gosto mais, pelo contrário. É precisamente um excerto que me tem dado problemas. Um daqueles excertos para os quais preciso de olhos isentos e frescos que me digam de sua justiça. Este fica já aqui, aberto a considerações.




Eric tencionava um dia ir visitar a sua prima, mas não o fizera ainda porque os seus domínios eram de difícil acesso, numa região montanhosa e rodeada de cerrada floresta, longe de tudo, e o conflito não o levara nessa direcção. Ademais, nunca as gentes das Terras Verdes tinham levantado armas contra ele, apesar de serem, oficialmente, inimigos, pelo menos desde que os seus tios tinham conspirado para matar o rei. Aquela era uma situação que, de tão nebulosa, o próprio Eric fazia questão de adiar para depois da guerra, quando vencesse e se vencesse.
Um pouco antes de raiar a madrugada da grande batalha em que se percebeu que desta vez o exército do jovem rei ia enfrentar uma aliança de inimigos, tão numerosos que o próprio Ian se mostrava apreensivo, não obstante por essa altura já ter granjeado a alcunha de o Valente, os sentinelas trouxeram a notícia de um grupo de duas centenas de homens armados que se encaminhavam do norte naquele sentido, empunhando o estandarte do Unicórnio e declarando ter vindo combater nas suas fileiras.
Eric não os viu chegar, porque era ainda noite escura, mas quando alguns cavaleiros se aproximaram da luz das tochas reconheceu a bandeira que traziam, e impressionou-o a soberba com que apresentavam, direitos e orgulhosos nas suas montadas como se desprezassem o perigo para onde se dirigiam. E irritou-o, o imaculado fulgor daquelas armaduras brilhantes, quando o seu exército espelhava o desgaste enlameado e exausto de muitas batalhas.
– Não sabia que restava ainda um homem nobre capaz de montar a cavalo nas Terras Verdes! – exclamou, incapaz de conter-se nessa hostilidade, como se perguntasse ao líder quem era e porque tinha demorado tanto se tencionava lutar do seu lado. Mas os homens permaneceram em silêncio, e um cavaleiro mais pequeno, que todos julgaram um jovem rapaz, avançou enfim por entre a barreira de guardiões que pareciam assim colocados de propósito para o proteger.
– Tens razão. Não resta um homem nobre capaz de montar a cavalo. O meu pai sofre de paralisia. Quem aqui está sou eu, Hildegaard, a tua prima. – disse ela, e levantou a viseira do seu elmo, descobrindo os olhos verdes. Eric deixou cair o queixo. Um silêncio abismado calou as bocas de todos os presentes, e não era para menos. Hildegaard vinha pronta para lutar, de armadura e espada e arco e flechas a tiracolo. – Fomos atacados. Os nossos inimigos estão naquele exército. É por isso que lutaremos neste.
– Bruxa! É uma bruxa! – gritou um padre, um daqueles que acompanhavam sempre os exércitos para confessar os homens antes de cada batalha e dar-lhes a extrema unção em caso disso, erguendo um grande crucifixo perante ela. Hildegaard não pareceu estranhar a recepção mas não escondeu a raiva que tais palavras lhe causavam. – Ide de volta para os infernos! Não queremos aqui bruxas e demónios a lançar sobre as nossas cabeças a ira de Deus!
– Cala-te, desgraçado! – exclamou então Malkom, furioso, e com os seus cabelos cor de palha a esvoaçar cavalgou até ele e arrancou-lhe o crucifixo da mão. Por momentos pareceu a todos que ponderava seriamente bater com ele na careca do padre, mas em vez disso atirou-o para longe, como se temesse ceder a essa forte tentação. – A minha ira é que vai cair sobre a tua cabeça! Estamos em menor número e todos os que quiserem lutar são bem vindos, venha até o próprio Satã e todos os demónios do inferno! Mulheres, bruxas, padres! E se não vais lutar não fazes cá falta nenhuma! Aconselho-te a fugir porque isto não vai ser bonito assim que o sol raiar e essa batina não me parece grande armadura!
A partir daí, Malkom ficou definitivamente apelidado de o Cínico. Quem o conhecia imaginava-o perfeitamente capaz de cumprir a promessa e dar as boas vindas ao diabo se este estivesse do seu lado… ou corrê-lo a pontapé se não estivesse. E naquele momento era aquele padre que ameaçava ofender os recém-chegados, bruxos ou não, que traziam cavalos e armaduras e espadas, e em tudo aparentavam ser guerreiros de valor, e tendo em conta o exército que os esperava do outro lado da colina não era tempo de ser esquisito.
O padre levantou as mãos ao céu, horrorizado, e fugiu daquele blasfemo. Ninguém o tornou a ver até à manhã seguinte. Hildegaard ficou bem impressionada, e os homens que a ladeavam, e que por momentos tinham parecido dispostos a começar a batalha logo ali, tiraram as mãos do punho das suas espadas.
Eric reparou nisso, e que a sua prima era a senhora incontestada daqueles súbditos, e tentou disfarçar a perplexidade. Aquela não era a menina simpática de que se recordava! Se calhar essa menina não tinha mesmo passado de um sonho… Reconheceu-a, mesmo assim, pelos olhos verdes e pelos cabelos louros que lhe escapavam, presos num rabo de cavalo, da parte de trás do seu elmo. De tão atordoado, mal conseguiu pronunciar uma palavra enquanto aquela rapariga de bizarros costumes e aparência arrapazada lhe explicava rapidamente o que sucedera nas suas terras. Eric quase não a ouvia. Pensava apenas que afinal sempre lhe restava uma familiar, e que não sabia sequer como agir perante ela. Pois se até o facto de se declarar sua aliada era uma tão grande surpresa!... Tinha uma imensidão de perguntas a pôr-lhe, mas não houve tempo.
Aos primeiros clarões da aurora um temível exército inimigo avançou pelo vale. Eram tão numerosos os adversários, a pé e a cavalo, que um silêncio ansioso se instalou entre os homens. Dizia-se que o exército do jovem rei, cujos guerreiros lutavam por convicção, não obstante menor em proporção valia três vezes o seu número. Era agora que se provaria se mereciam a fama que tinham conquistado. As perspectivas eram sombrias, mas não havia ali ninguém que não estivesse preparado para o perigo que defrontavam e valentemente todos tomaram as suas posições. Só então Eric percebeu que a sua prima lançava mão das suas armas para se colocar entre os arqueiros.
– Não pensas mesmo ir combater, pois não?... – interpelou-a, com tal aflição que naquele momento, se houvesse tempo para tal, a teria amarrado de pés e mãos se preciso fosse. Hildegaard, contudo, não era mulher que se amarrasse.
– São aqueles os homens que atacaram o meu castelo? – perguntou apenas, apontando com o queixo os nobres que ao longe se alinhavam atrás das suas tropas, e Eric compreendeu que nada se interporia entre ela e a vingança. – Não deviam tê-lo feito.
Isto dito, Hildegaard juntou-se aos arqueiros e ergueu o arco ao lado deles. A partir daí, no iminente início da batalha, Eric não teve outro remédio senão aceitar que estavam todos entregues à sua sorte e a única coisa que podia fazer para proteger a sua prima era vencer.
Não era só ele a pensar assim, pois ao ser dado o sinal para que a cavalaria avançasse foram os homens de Hildegaard os primeiros a investir, e tão destemidamente o fizeram, apesar do seu pequeno número, que abriram uma clareira entre o exército inimigo. Eric meditou, ao vê-los irromper daquela maneira, que devia ter sido com tal ímpeto que a mão divina partira o mar em dois. Cavalos e cavaleiros pareciam imunes, envoltos na nuvem de poeira que levantavam atrás de si, e inspiravam todos os outros que os seguiam. Ninguém ali presente jamais esqueceria a coragem dos guerreiros das Terras Verdes.
Tinha começado uma batalha longa e sangrenta. Muito mais longa do que esperavam os adversários, que se odiavam entre si, aliados somente no propósito de reunir o número bastante que abatesse de vez o jovem rei e o seu exército. E o número teve o seu peso, e as suas consequências. Naquele dia o exército do rei provou que nenhum dos seus homens se deixaria cair sem levar consigo o triplo da sua vida. Teria sido uma batalha ainda mais sangrenta não fossem as incontáveis deserções do outro lado assim que se percebeu qual era a parte mais inabalável. Mas demorou tempo, e sangue e sacrifício. No pior caos do combate, Eric perdeu de vista a sua prima, e os seus amigos, e os capitães das suas tropas. Muitos que lhe eram próximos pereceram, entre eles o nobre que tinha sido inimigo e se tornara aliado. Mas ninguém parava de lutar, e cada morte era repetidamente vingada, e os grandes números vacilaram. Confundidos pela inesperada reviravolta, quando contavam com um triunfo esmagador, os oponentes decidiram bater em retirada.
Alguns capitães queriam persegui-los mas Eric impediu-os. Ainda eram em maior número e os homens estavam demasiado cansados, e a vitória final já não lhes escapava se apenas se poupassem até ao momento certo. Aquela tinha sido uma vitória decisiva, uma vitória que instalara medo no coração dos inimigos e que os quebraria da próxima vez que se confrontassem. Por agora deviam parar, e tomar fôlego e preparar-se para ganhar a guerra. Tinha-lhe parecido tão longe, e agora estava tão perto! Tão perto que quase se podia estender a mão e agarrá-lo!

in "Elysion"


As opiniões são bem vindas.