O bar Transmission encerrou definitivamente. O fecho foi anunciado ontem, nesta página do Facebook, e o adeus confirmado pelo "obrigado" do DJ Mário Rui Van Acker. Não é público que exista um novo projecto da mesma gerência.
O Transmission, na Rua de São Paulo, em Lisboa, abriu com o nome de Disorder (alguns factos aqui), e só em 2007 assumiu a designação com que permaneceu até agora. Mário Rui Van Acker é um DJ de referência na cena gótica/alternativa desde os anos 80, amplamente conhecido por passar música de vanguarda na Juke Box original (Bairro Alto, Rua do Diário de Notícias). Quando o bar mudou de orientação e clientela, Mário Rui prosseguiu a actividade de DJ em estabelecimentos sob a sua "gerência"*: Limbo (Bairro Alto), Juke Box (Rua da Fé, onde decorriam as famosas matinées) e Disorder (Cais do Sodré).
Esta outra página do Transmission foi sendo actualizada até à última passagem de ano.
* CORRECÇÃO
Como bem salientou uma leitora, desconheço se no caso do Limbo, tal como no caso da Juke Box na Rua da Fé, Mário Rui fazia parte da gerência no sentido legal, isto é, de sociedade comercial com outros gerentes. No contexto acima, leia-se "gerência" como liberdade absoluta para passar a música que entendesse, o que já não era possível na Juke Box original uma vez que a orientação comercial do estabelecimento mudou. Fica a correcção, e o pedido de desculpas pela imprecisão aos próprios e aos leitores.
ACTUALIZAÇÃO:
Nesta página do Transmission foi já manifestada a intenção de continuar noutro local.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Os novos servos
São estes os novos servos.
Hoje são eles, amanhã posso ser eu ou podes ser tu.
O próprio Estado põe desempregados a trabalhar a tempo inteiro a substituir funcionários que ganhariam muito mais, até o dobro. Para não perderem o subsídio de desemprego, os desempregados são obrigados a trabalhar o mesmo por muito menos.
Vejam a reportagem e conheçam os novos servos.
Estado usa programas ocupacionais para suprir necessidades permanentes na função pública
O Estado está a recorrer cada vez mais a programas ocupacionais para desempregados que muitas vezes acabam a fazer funções que eram desempenhadas por pessoas com vínculo. Nos últimos dois anos a função pública perdeu 50 mil funcionários mas o recurso a desempregados aumentou de forma significativa desde a chegada da Troika. A RTP investigou os contratos emprego-inserção depois de várias denúncias.
Hoje são eles, amanhã posso ser eu ou podes ser tu.
O próprio Estado põe desempregados a trabalhar a tempo inteiro a substituir funcionários que ganhariam muito mais, até o dobro. Para não perderem o subsídio de desemprego, os desempregados são obrigados a trabalhar o mesmo por muito menos.
Vejam a reportagem e conheçam os novos servos.
Estado usa programas ocupacionais para suprir necessidades permanentes na função pública
O Estado está a recorrer cada vez mais a programas ocupacionais para desempregados que muitas vezes acabam a fazer funções que eram desempenhadas por pessoas com vínculo. Nos últimos dois anos a função pública perdeu 50 mil funcionários mas o recurso a desempregados aumentou de forma significativa desde a chegada da Troika. A RTP investigou os contratos emprego-inserção depois de várias denúncias.
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Pavão Diabólico "Pavão Diabólico"
"Pavão Diabólico" é o primeiro álbum do projecto homónimo lançado pela Korvustronik. Desta vez, não apenas um lançamento, mas um trabalho "que reúne os membros fundadores da Korvustronik, da Abismo Humano e da Cosa Nostra Dark Club" (informação Abismo Humano).
Impossível que a audição não recorde Mão Morta nos primeiros tempos (em estilo, letras e voz) bem como bandas punk/alternativo/urbano-depressivo desse início dos anos 80, entretanto desaparecidas ou transformadas, que se apresentavam ao vivo no mítico Rock Rendez Vous. Aconselho, portanto, todos os apreciadores desta primitiva sonoridade sombria e arrastada, revisitada com elementos de mais recentes influências, a ouvir AQUI.
E ler toda a informação sobre o álbum AQUI.
domingo, 12 de janeiro de 2014
Horror de uma noite de Metro
Um dos últimos metros da noite. As carruagens iam quase vazias. Saí numa das paragens, aparentemente a minha paragem. Irreconhecível. Vagamente parecida com o Marquês mas a plataforma era mais estreita. Saí, andei uns passos, quando atrás de mim ouço gritos. Um homem, sozinho, com uma metralhadora, disparava contra todas as pessoas que saíam das carruagens. Os gritos eram de pânico, as pessoas eram atingidas e caíam, mortas e ensanguentadas. Aproveitando o meu avanço escondi-me atrás de uma parede decorativa, à altura da minha cintura, e baixei-me. Ataque terrorista? Louco? Será que me viu? Um homem, fugindo, passou por mim e enfiou-se por um buraco rente ao chão. Não tinha reparado naquele buraco, onde faltava a grade. Um respiradouro? Pensei segui-lo mas ao aproximar-me o buraco parecia mais estreito. Seria possível que o homem tivesse escapado por ali? Talvez, mas era muito apertado. Mais do que claustrofóbico: um adulto não conseguiria mover-se ali dentro. Não percebi onde o homem se meteu.
Preferi continuar escondida atrás da parede. Ainda via o louco, com a metralhadora. Tinha um kispo azul claro, muito xunga, usava boné, era de raça branca. “Caucasian, male, 25 to 40 years old”. Eu esperava, a todo o momento, que a segurança ou a polícia aparecesse. As carruagens estavam vazias. Os passageiros mortos, na plataforma ou ainda nos bancos do metro. Tudo imóvel.
Como se nada se tivesse passado, o metro fechou as portas e foi-se embora. Não viu nada, o maquinista?! Ou viu, e arrancou dali para fora para salvar a própria vida? Mas com certeza alguém estava a ver as câmaras de segurança. E o próprio maquinista ia comunicar o sucedido à central. Não tardariam a aparecer. Eu continuava atrás da parede, à espera. Não me atrevia a levantar a cabeça mas ouvia o homem, a andar na plataforma, de um lado para o outro como se andasse à procura de alguém ainda vivo.
Passou-se algum tempo, minutos que pareceram horas. Ouvi os passos dele, na plataforma, afastarem-se. Mas ainda na plataforma, algures. De onde eu estava, podia ver a única escada de acesso, a demasiada distância para tentar chegar lá sem que ele me visse. Ele também não tinha saído. Continuava na plataforma. Espreitei por cima da parede. Já não o via. Não o ouvia. Não fazia ideia de onde estava.
O som do placard anunciou a aproximação de outro metro. O comboio chegou, completamente vazio, e abriu as portas. Passou-me pela cabeça, por instantes, correr para dentro da carruagem. Mas pensei melhor. O homem continuava na plataforma e podia ver-me e seguir-me. Deixei-me ficar onde estava. O metro fechou as portas e foi-se embora. Onde estava a polícia?! Porque não aparecia a polícia?! Ninguém tinha ainda reparado, nos tiros, nos mortos, no sangue? Aquele último maquinista, não tinha visto nada? Se tinha visto, porque tinha aberto as portas?! E as câmaras de segurança, não estava ninguém a olhar?!
O metro foi-se embora vazio como chegou. O homem da metralhadora continuava na plataforma. Não sabia onde estava. Nunca mais o tinha ouvido. Desconfiaria que eu ainda estava ali, ter-me-ia visto, antes de me esconder, e estava à espera de me ouvir?... Andava a caçar-me?
A voz da “senhora do metro”, metálica, anuncia que a estação vai fechar: “Esta estação está encerrada”. No placard aparecem letras, uma sequência sem sentido: SDGRGN UF HSGHI. Pergunto-me o que aquilo significa. Fecharam a estação porque vem a polícia?! Apagam-se as luzes, todas. Menos uma. Uma luz branca, avariada e dessincronizada das outras, ou uma luz de presença? Bem no meio da plataforma. Percebo que ninguém viu nada. Ninguém faz nada. Vão fechar a estação e eu tenho de fugir. Correr para a escada, e talvez o gajo não me apanhe.
Quando me viro para o acesso de saída, a grade fecha-se, automaticamente como as luzes se tinham apagado. Não havia como sair. Ninguém ia aparecer. Ninguém estava a prestar atenção. As palavras sem nexo, no placard, talvez um código interno de fecho da estação, apagam-se também. Ninguém viu. Já foram todos para casa.
Afasto-me da luz, recuo para trás da parede. Não vejo o gajo. Está demasiado escuro. Não sei se ele sabe que estou ali. Estou fechada na estação com um louco homicida!
Esta “história” não é uma
história. Foi um sonho que tive há poucos dias. Acordei aterrorizada no preciso
momento em que o relato termina. ATERRORIZADA!
Tenho muitos pesadelos,
complicados e horríveis, mas só raramente desprovidos daquele ambiente bizarro
e desconexo que é típico dos sonhos, em que aspectos da nossa vida quotidiana
se cruzam com acontecimentos irreais de uma forma que só faz sentido para nós.
Este saiu “limpinho”. Um autêntico filme de terror em sequência lógica. Muito,
muito raro. De outra forma não penso que seria capaz de o lembrar tão bem.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Spartacus
"Spartacus", protagonizado por Liam McIntyre
Este não seria, em princípio, o género de série que eu julgaria que me interessasse. Evitei ver, durante muito tempo, devido a este preconceito que veio no “embrulho” de apresentação. Mais tarde, lendo críticas de outros fãs em fóruns da série, constatei que esperavam o mesmo que eu: só que eles queriam, eu abominaria! “Spartacus” assenta, pelo menos inicialmente, numa tradição de séries de acção (porrada, guerra, karaté…) de enredo muito básico. Alguns fãs, levados em erro, queixavam-se porque achavam o enredo muito complicado.
[Um pequeno aparte para que se compreenda porque foram levados em erro. Tornou-se quase um cliché dos filmes de acção um certo tipo de enredo: um gajo duro, veterano de guerra ou praticante de artes marciais, mas decente e leal e boa pessoa, retira-se do combate para viver uma existência pacífica em família. Bom marido, pai extremoso, disposto a viver em paz e sossego. Até que um malvado qualquer, inimigo, criminoso, agência governamental, etc, lhe mata a mulher e a prole. Isto são os primeiros 10 minutos do filme e a justificação para a carnificina que se segue. O resto é o gajo a vingar-se, a partir aquela merda toda, enfim, o “kill them all”. E este é, em linhas gerais, o primeiro episódio de “Spartacus”. Incluindo o “kill them all”.]
O enredo nunca é complicado, mas as séries de acção também já não são o que eram. Muita coisa mudou, desde os tempos de “Kung Fu”, e o público feminino saiu nitidamente beneficiado (actores mais jeitosos, introdução de cenas românticas, maior profundidade psicológica das personagens…). Recentemente, por motivos de audiência, esta abordagem “musculada” estendeu-se também às séries históricas (ou baseadas em factos históricos em que nem sempre a veracidade histórica é respeitada). Tenho lido opiniões que identificam este “Spartacus” como descendente directo de “Roma”, e não discordo, embora seja conveniente recordar que a tradição de séries históricas de reconstrução muito realista e chocante data de mais atrás, por exemplo com “Eu, Cláudio” (de 1976). Em “Roma”, novos limites foram ultrapassados, a câmara deixou de ter medo de mostrar sangue (e sexo quase explícito), e resultou extraordinariamente. Seguiram-se outras séries que aproveitam o filão da crueldade e barbarismo de outros tempos, como os “Os Tudors”, e a partir daí parece que existe uma competição para ver quem consegue fazer a série mais sangrenta, mais sádica, mais chocante. “Spartacus” inclui-se nesta linha, com requintes de crueldade dignos de filme de terror.
Não há outra maneira de o dizer, a série perturbou-me. Todas as três temporadas (mais a série intercalar, possivelmente a mais sádica de todas). Não pelo sangue, pelas tripas, pelos miolos. Sendo uma história de gladiadores, e de guerra, não é aconselhável a quem se incomoda com estas coisas. Devo mesmo dizer que os realizadores trataram com elegância as cenas mais desagradáveis (aproveitando a imagética BD de “300”, o filme, em que o sangue é apresentado, por exemplo, a encher todo o écran como encheria uma “vinheta” de banda desenhada), ao contrário de uns “Tudors” em que os pormenores mais perturbadores das execuções são mostrados com um sádico realismo.
O que me perturba, em Spartacus, é a desumanidade com que os escravos são tratados. Revira o estômago aos espectadores modernos, e os realizadores sabem que sim. Pior ainda: quando os romanos começam a crucificar pessoas os cristãos começam a sentir-se incomodados, muito incomodados. Os realizadores também sabem.
Não é por acaso que o velhinho filme “Spartacus”, com Kirk Douglas, costumava ser exibido na Páscoa. A derradeira cena, na Via Ápia, fala por si. E acaba mal, muito mal. Existe, na revolta de Spartacus, uma primeira centelha de valores muito caros aos cristãos. Num mundo de barbarismo, a bondade. Num mundo de escravidão, a libertação.
Mas quem foi o verdadeiro Spartacus? É possível que nunca venhamos a saber, apenas podemos especular. Só sabemos dele o que os romanos contam. É preciso não esquecer que a História, como tentativa de registo científico de relatos de várias fontes, é uma modernidade do século XIX. Em tempos romanos os “historiadores” faziam de propósito por exagerar a ameaça do adversário porque quanto mais temível este fosse maior era a glória da vitória de Roma. Assim tão simples. Aníbal, tudo indica, foi exagerado. Spartacus poderá ter sido também. (Curiosamente, de Jesus, o que provocou a maior de todas as revoluções, existe apenas, que se saiba, uma pequena menção histórica. Jesus, mero pregador judeu sem importância, não era percebido pelos romanos como uma ameaça.) Poderia ser Spartacus, o verdadeiro, minimamente idealista como o Spartacus do filme e da série?... Sempre existiram iluminados, génios à frente do seu tempo, algumas vezes admirados outras vezes esmagados. Não discuto isto. Seria o verdadeiro Spartacus um deles? Ou um rebelde, sem outra causa excepto resistir aos romanos dentro do império como os bárbaros resistiam fora (e ganharam, no fim), atacando e roubando e fazendo-lhes a vida negra? Em suma, um terrorista? Menos nobre ainda, algo entre o ladrão e um cacique de guerrilha em busca de glória e poder? Não sabemos. A série apresenta uma explicação plausível para muitas das movimentações do verdadeiro Spartacus, mas haveria outras.
A minha visão desiludida do mundo não me ajuda muito a acreditar em heróis. E menos consigo acreditar que o verdadeiro Spartacus, como o da série, conceba já, naqueles tempos, valores de liberdade, fraternidade, igualdade. É muito cedo, demasiado cedo. Para que a humanidade lá chegasse foi preciso cortar muitas cabeças, muitas cabeças. Noutras arenas.
E mesmo assim, neste século XXI do 3º milénio, liberdade temos menos do que já tivemos. Fraternidade (porque “fraternidade” é pedir demais) chama-se agora solidariedade e caminha a passos largos para a caridadezinha. Quanto à igualdade, ui!, isso nunca existiu excepto na utopia da palavra. Nunca existiu, não existe, e nunca existirá.
Não acredito, pois, como dizia, que o verdadeiro Spartacus tivesse a noção dos valores que encarna na série. Contudo, posso estar enganada, porque nem um século depois um outro Fulano, o que dizia “quem vive pela espada morre pela espada”, inventou a civilização ocidental como a conhecemos hoje. Não foi preciso derrotar Roma, foi Roma que, em desespero de causa, se agarrou com unhas e dentes à religião dos escravos, a verdadeira revolta civilizacional. Spartacus, qualquer um deles, não ia gostar disto, mas Roma haveria de mandar no mundo durante mais dezanove séculos! Não a mesma Roma, mas Roma à mesma.
O corpo de Spartacus nunca foi encontrado. O corpo de Cristo, se calhar até menos procurado por ser julgado de menor importância, também não. Terá esta coincidência, em pleno século do cristianismo, alimentado a lenda de Spartacus?...
Heróis e zombies
“Spartacus” foi um êxito de audiência. Como “The Walking Dead”. É interessante reflectir na altura em que estas coisas são feitas, como se alimentadas pelo espírito do tempo que paira no ar. Zombies e escravos. Escravos zombificados e zombies escravizados. Sem um Spartacus que nos livre disto. Mas merecemos? Diz a lenda que quando os rebeldes foram capturados pelos romanos todos eles se acusaram: “Eu sou Spartacus!”, de modo a poupar o verdadeiro à morte ou a um castigo exemplar. Estes, diz a lenda, não eram zombies. Lutavam, e sacrificavam-se, não deambulavam pelo centro comercial a encher a barriga. Cada povo tem o Spartacus que merece, ou a falta dele.
Spartacus morreu, mas o espírito de Spartacus não morreu. Renasceu, em toda a sua valentia, durante a Resistência. E pode renascer ainda, quando os escravos perceberem que são mais do que os dominus e dominas do mundo. Era de crer que por esta altura já tivessem percebido. Como não percebem, concluiu-se que são zombies. Mexem, mas naquele cérebro já está tudo apagado.
...
Andy Whitfield, primeiro protagonista de "Spartacus"
R.I.P.
Lamento a morte de Andy Whitman (protagonista da primeira temporada), aos 37 anos. Esta morte, precoce, carregou de luto uma ficção já de si carregada de morte. A Fox está a re-exibir a primeira temporada.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Lançamentos Abismo Humano
Aproveitamos o fim do ano para destacar alguns dos lançamentos Abismo Humano ao longo de 2013. Optando pela brevidade, apontam-se os traços fortes de cada projecto e convida-se a visita ao respectivo link para uma merecida e atenta audição.
Advent Mechanism "Umbra"
Na sequência de "Shadows of Nothing", este é o novo álbum dos Advent Mechanism entre a sonoridade electrónica, gótica e industrial.
abismohumano.bandcamp.com/album/umbra
Cotard Delusion "I"
Cotard Delusion "Fallen Soldiers"
"I", primeiro álbum de Cotard Delusion, e o seu sucessor, "Fallen Soldiers", lançado a curto espaço do anterior, sugerem-nos uma ambiência dark ambiental, neo folk e industrial.
abismohumano.bandcamp.com/album/i
abismohumano.bandcamp.com/album/fallen-soldiers
The Dream Collision "The World Ends, The World Begins"
Projecto a solo de Pedro Code com facetas de alternativo, ambiente, dark wave, ou ethereal. Último lançamento discográfico Abismo Humano do ano com festa marcada para 4 de Janeiro na Taberna da Malu, em Lisboa.
abismohumano.bandcamp.com/album/the-world-ends-the-world-begins
"O Suor das Feras e o Silêncio"
Por último, mas definitivamente "not least", esta proposta incomum que envolve a narrativa poética "O Suor das Feras e o Silêncio", de Luiza Nilo Nunes, na esfera ambiental de Babalith. O resultado desta "ilustração musical" é muito bem conseguido. As vozes interpretativas, queixosas, gritantes, ecoantes, rodeadas de efeitos sonoros adequadamente pesados, dão um inesperado corpo à poesia da narrativa que possivelmente não se obteria da mera leitura das palavras sozinhas, como as conhecemos, letras no papel.
abismohumano.bandcamp.com/album/o-suor-das-feras
Advent Mechanism "Umbra"
Na sequência de "Shadows of Nothing", este é o novo álbum dos Advent Mechanism entre a sonoridade electrónica, gótica e industrial.
abismohumano.bandcamp.com/album/umbra
Cotard Delusion "I"
Cotard Delusion "Fallen Soldiers"
"I", primeiro álbum de Cotard Delusion, e o seu sucessor, "Fallen Soldiers", lançado a curto espaço do anterior, sugerem-nos uma ambiência dark ambiental, neo folk e industrial.
abismohumano.bandcamp.com/album/i
abismohumano.bandcamp.com/album/fallen-soldiers
The Dream Collision "The World Ends, The World Begins"
Projecto a solo de Pedro Code com facetas de alternativo, ambiente, dark wave, ou ethereal. Último lançamento discográfico Abismo Humano do ano com festa marcada para 4 de Janeiro na Taberna da Malu, em Lisboa.
abismohumano.bandcamp.com/album/the-world-ends-the-world-begins
"O Suor das Feras e o Silêncio"
Por último, mas definitivamente "not least", esta proposta incomum que envolve a narrativa poética "O Suor das Feras e o Silêncio", de Luiza Nilo Nunes, na esfera ambiental de Babalith. O resultado desta "ilustração musical" é muito bem conseguido. As vozes interpretativas, queixosas, gritantes, ecoantes, rodeadas de efeitos sonoros adequadamente pesados, dão um inesperado corpo à poesia da narrativa que possivelmente não se obteria da mera leitura das palavras sozinhas, como as conhecemos, letras no papel.
abismohumano.bandcamp.com/album/o-suor-das-feras
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Sobrenatural ("Supernatural")
Quando comecei a ver a série “Sobrenatural” (original “Supernatural”), há mais anos de que me lembro e ainda na RTP2 (que aparentemente já não tem dinheiro para comprar o resto), os primeiros episódios levaram-me a crer que ia ser uma série dramática. Dois irmãos são atormentados por uma tragédia de infância, quando perdem a mãe, queimada viva, no tecto, por um demónio. Filhos de um caçador de monstros, dos dois irmãos apenas Dean (Jensen Ackles) aceita continuar a tradição de família. O irmão mais novo, Sam (Jared Padalecki), rejeita-a, e tenta escapar-lhe, sem sucesso, pois também a sua namorada encontra o mesmo destino que vitimara a sua mãe, às mãos do mesmo demónio, que os persegue. Os dois irmãos reúnem-se no esforço de o derrotar.
Dean idolatra o pai. Sam ressente-se da vida de caçador que nunca lhe permitiu uma infância normal. O conflito acerca do pai, já desaparecido, confirmava a interacção dramática entre os dois irmãos.
Devo ter sido das pessoas mais desgostadas ao perceber que rapidamente a série seguiu o caminho mais fácil: dois energúmenos a caçar monstros. Até com os personagens fiquei decepcionada. A princípio, Sam era o inteligente, o rapaz universitário, e Dean era o bronco. Com o desenvolver das temporadas, Sam torna-se quase tão bronco como o irmão… e Dean continua bronco. Em suma, ficam iguais. As companhias também não são melhores, a um ponto que gera inverosimilhança: os caçadores que aparecem em “Sobrenatural” não têm uma educação formal (o único que frequenta a universidade até é Sam), mas um homem vulgar como Bobby (Jim Beaver), dono de um ferro velho e recrutado para a profissão já em idade adulta, mostra-se subitamente versado em latim e outras linguagens e códigos obscuros! Possui mesmo uma biblioteca de fazer inveja a qualquer mestre do oculto. Como se diz na série, “seriously?”…
Continuei sempre a ver, pela vertente do entretenimento acéfalo, e pelos monstros. Duas ou três temporadas disto. Só pela quarta temporada é que as coisas começam a aquecer. Não sei se finalmente deram rédea solta aos autores, ou se a série se encontrava em sério risco de ser cancelada por se encontrar esgotada a fórmula e não havia alternativa senão arriscar por caminhos mais ousados.
Temporada cinco: supremo apocalipse
Ainda bem que o fizeram, porque é aqui que o enredo se adensa. Esta é a insuperável quinta temporada, alucinante, vertiginosa, escatológica, que abre literalmente as portas do Inferno! Os dois irmãos, durante este tempo todo, nem desconfiavam da sua importância. Sam, em pequeno, bebeu sangue do demónio Azazel, porque Sam está “marcado”. Sam e Dean estão destinados a desempenhar um papel cósmico: são eles que, querendo ou não, vão despoletar o Apocalipse.
Se os irmãos Winchester estão habituados a lidar com demónios, que são maus, agora começam também a lidar também com anjos, que não são melhores e querem cumprir as profecias bíblicas ao pormenor. Lúcifer e Miguel (o arcanjo) vão literalmente defrontar-se no Armagedão, usando por receptáculos os corpos de Sam e Dean, para o que estes têm de dar o seu consentimento. (Lúcifer, em "Sobrenatural", ao contrário da crença geral, sendo um anjo, não pode possuir um corpo sem consentimento do ocupante.) Sam e Dean têm de consentir (nem que seja à força) e os anjos têm as suas sinistras maneiras de os “convencer”. Serafins, querubins, assediam-nos. Lúcifer, liberto do Inferno, assedia-os. Não existe alternativa senão travar o Apocalipse e mandar Lúcifer de volta para o Inferno.
Os irmãos têm a ajuda do confuso anjo Castiel (Misha Collins)… Que merece mais algumas palavras. Não me recordo exactamente de quando Castiel entra na série mas julgo que terá sido ainda na temporada anterior (a quarta), tentando convencer Sam e Dean a impedirem os eventos conducentes à libertação de Lúcifer. O que acaba por acontecer, involuntariamente, pois a informação que os irmãos detêm está errada e são manipulados a quebrar o último selo antes do Apocalipse. Castiel é apenas um anjo, fervoroso, fiel, que desconhece o livre arbítrio mas sofre de dilemas existenciais. Acontece que Deus se ausentou do Céu, ninguém sabe onde Ele pára, e ninguém sabe o que fazer excepto continuar com o plano bíblico. Castiel começa a agir pela sua própria cabeça, pela primeira vez, e ao ajudar os dois irmãos torna-se alvo da ira dos seus superiores, serafins e querubins. Castiel, apenas “um anjo do senhor” não passa de um zé-ninguém na hierarquia celestial. Podia ter sido imediatamente fulminado, se lhe prestassem atenção, mas subestimam-no, como subestimam aos irmãos Winchester. Grande erro! E se trabalham em equipa, erro colossal! Não é por nada que na temporada seguinte o demónio Crowley pergunta retoricamente “mas serei o único que não subestima aqueles dois pesadelos vestidos de ganga?!” Crowley sabe bem do que a casa gasta.
Crowley, o detestável/adorável demónio
É exactamente o demónio Crowley (uma impagável interpretação de Mark Sheppard) quem se torna um inesperado aliado dos irmãos Winchester na sua tentativa de derrotar Lúcifer. O demónio Crowley, igualmente um zé-ninguém da hierarquia infernal, um diabeco cuja ocupação é estabelecer pactos em encruzilhadas, com um beijo na boca (homem ou mulher, o beijo é o mesmo, aliás, um dos atractivos da série é perceber qual é exactamente a inclinação sexual de Crowley, nada fácil de detectar!), descobre que a intenção do big boss (Lúcifer), ao ser libertado, é destruir todos os demónios criados desde o seu aprisionamento, que este abomina visceralmente. (Lúcifer, em “Sobrenatural”, não é um diabo de pés de cabra, mas o anjo, caído e condenado ao Inferno; condenado ao inferno, mas um anjo ainda assim). Crowley, sem nunca fazer parte da “equipa”, não deixa de ser um elemento essencial, porque nada mais lhe importa do que meter Lúcifer de volta no buraco. Neste momento de tudo por tudo, os irmãos Winchester, anjos e demónios são aliados.
É desta forma que Sam e Dean, antes limitados ao obscuro conhecimento enciclopédico e buscas online e ao armamento improvisado de balas de ferro e de sal, começam a receber informação e ajuda sobrenatural do Céu e do Inferno. Com tais personagens, a série tinha de se tornar transcendente.
É nesta temporada que acontece o único episódio que causa arrepios. Lúcifer, liberto do Inferno, precisa de um receptáculo. Encontra-o num homem amargurado que tinha perdido a mulher e o filho bebé num assalto. Sitiando a sua presa, com visões fantasmagóricas e sonhos (o que consiste, na concepção medieval, na obsessão que precede a possessão) Lúcifer alimenta-lhe a raiva e o desespero até obter o seu consentimento para lhe possuir o corpo, prometendo vingança. Um grande papel de Mark Pellegrino (que já tinha sido o Jacob de “Lost”) e momentos dignos de um filme de terror. Seriously!
A partir daqui, Lúcifer começa a perseguir o seu verdadeiro receptáculo, Sam, que vai defrontar Dean, possuído pelo arcanjo Miguel, na batalha do Armagedão. Nenhum dos irmãos quer ouvir falar em tal coisa! Descobrem que o feitiço para reabrir a jaula de Lúcifer (que involuntariamente tinham aberto), passa por recolher os quatro anéis dos quatro cavaleiros do Apocalipse: a Guerra, a Pestilência, a Fome, e a Morte. Vivem-se os tempos do fim e os quatro cavaleiros já andam no mundo. Sam e Dean procuram-nos e acabam por encontrá-los. Todas as prestações dos actores convidados que interpretam os Cavaleiros são formidáveis, mas é impossível não salientar uma.
Um dos melhores episódios de “Sobrenatural”, senão um dos melhores episódios de todas as séries de sempre, a lembrar o “filme sério”, é aquele em que Dean se encontra com a Morte numa pizzaria.
Dean encontra a Morte numa pizzaria
A Morte, um tipo alto, de sobretudo preto, de aspecto sinistro mas indistinto entre um agente funerário, um chefe da Máfia ou um caixeiro viajante, mas um fulano civilizado e inteligente, tem com Dean uma soberba conversa filosófica, enquanto come pizza, em que afirma: “Tudo começa e tudo acaba, menos eu. Um dia, Deus, também, será ceifado”. Ora, porque é que isto (e muitas outras blasfémias que aparecem na temporada cinco) não ocasionou uma verdadeira onda de fanatismo dos “jesus lovers” a exigir que "Sobrenatural" fosse tirado do ar? Muito simples. Porque "Sobrenatural" tem dois tipos de fãs: os que não percebem, e os que não se interessam.
Da mesma forma, Deus também aparece na quinta temporada, como personagem, muito disfarçadamente, mas não vou dizer mais do que isto. Deixo apenas a mesma pista oferecida pelo jardineiro do Céu a Sam e Dean, quando Dean e Sam morrem e vão para o Céu (mas voltam), de que Deus está na Terra. Ele está lá, é uma questão de o procurar.
(Este é também um dos melhores episódios da série, numa sequência de muitos. Sam e Dean, no Céu, a fugir, a pé, de anjos! E conseguem! Com a ajuda do jardineiro, o único que ainda está em contacto com o Patrão. Existe aqui também uma leitura política, para além da leitura religiosa ortodoxa: Deus já não fala com a arrogante hierarquia do Céu, mas fala com o mais pequenino, o jardineiro; da mesma forma, Deus intervém ao ajudar os pobres de espírito, Sam e Dean. Deus abandona os grandes mas protege os fracos. Nada disto é acéfalo e a mensagem está lá, quer se queira acreditar que é religiosa ou apenas política, para quem a quiser entender.)
“Sobrenatural” é por isso uma série com muitos níveis de interpretação: uma série de acção com monstros, uma série de acção com humor, uma série de acção com humor muito inteligente, político e actual (mas já não atingido pela maioria), uma série de acção com humor e questões filosóficas (ainda menos atingida apesar da simplicidade da abordagem).
Não sem sacrifício, Sam e Dean derrotam Lúcifer, os anjos todos, serafins e querubins e arcanjos, anulam as profecias bíblicas, e impedem o Apocalipse!
Temporada seis: a desbunda continua
Quando terminou a temporada cinco, fiquei perfeitamente convencida de que era o fim da série. Foi de facto uma grande surpresa quando descobri uma temporada seis. E tive medo. Tive muito medo que após uma temporada tão espectacular não fosse possível fazer melhor e que talvez não fosse boa ideia continuar. Comecei a ver na expectativa de que ia ficar desiludida.
Não fiquei desiludida. Antes pelo contrário! Ainda estou de boca aberta pelo nível de qualidade que foi mantido! Depois da temporada cinco (soberba) os autores sabiam que já podiam fazer tudo o que lhes apetecesse. Já não havia nada a provar. A temporada seis continua a abordagem da guerra no Céu, o anjo Castiel toma algumas más decisões, o demónio Crowley é mais engraçado do que nunca (uma das personagens mais marcantes da série que perderia muito se ele desaparecesse), e o resto é uma grande desbunda que me fez rir algumas vezes.
Castiel, promovido a manda-chuva do Céu, estabelece um acordo com o novo rei do Inferno, Crowley. Não acaba bem.
Saliento o episódio 15, em que Sam e Dean são transportados para uma realidade alternativa… que é a nossa, em que a vida deles é uma série de televisão. Hilariante! Confesso que adoro todo este tipo de interacção surreal entre personagens reais e fictícias. Para não variar, os fãs da série dividiram-se. Muitos adoraram, muitos detestaram. (Como eu dizia acima, não é para todos.) A vertente filosófica gira agora em torno das almas. Diz um anjo, inimigo de Castiel (não esquecer a guerra pós-apocalíptica no Céu) que os persegue até esta realidade, a um aterrorizado Misha Collins a fazer o papel de si próprio: “Como é que suportam viver aqui, sem Deus, sem alma, sem nada superior a vós? Matar-te é um favor que te faço!”, e mata mesmo. E não deixa de ter razão.
Misha Collins interpreta o actor Misha Collins nos bastidores da série "Sobrenatural" de uma realidade alternativa em que Misha Collins interpreta o anjo Castiel
“Sobrenatural” tornou-se uma das minhas séries preferidas. Sei sempre que vou passar um bom bocado, cheio de humor inteligente que me diverte e de questões filosóficas que me fazem pensar. Lamento que a genialidade de “Sobrenatural” não seja reconhecida e que a série seja encarada apenas pela vertente do entretenimento pouco sério: fazer uma série aparentemente tão simples, tão fácil de absorver, e ao mesmo tempo tão profunda, não é trabalho fácil nem para todos.
Manter a qualidade, após a suprema temporada cinco, ainda menos. Posso apenas desejar que a série, que vai já na temporada oito, saiba não esgotar as ideias e terminar no momento certo, nem antes nem depois. Enquanto isso, vou ser fã. Seriously!
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