domingo, 12 de janeiro de 2014

Horror de uma noite de Metro

Um dos últimos metros da noite. As carruagens iam quase vazias. Saí numa das paragens, aparentemente a minha paragem. Irreconhecível. Vagamente parecida com o Marquês mas a plataforma era mais estreita. Saí, andei uns passos, quando atrás de mim ouço gritos. Um homem, sozinho, com uma metralhadora, disparava contra todas as pessoas que saíam das carruagens. Os gritos eram de pânico, as pessoas eram atingidas e caíam, mortas e ensanguentadas. Aproveitando o meu avanço escondi-me atrás de uma parede decorativa, à altura da minha cintura, e baixei-me. Ataque terrorista? Louco? Será que me viu? Um homem, fugindo, passou por mim e enfiou-se por um buraco rente ao chão. Não tinha reparado naquele buraco, onde faltava a grade. Um respiradouro? Pensei segui-lo mas ao aproximar-me o buraco parecia mais estreito. Seria possível que o homem tivesse escapado por ali? Talvez, mas era muito apertado. Mais do que claustrofóbico: um adulto não conseguiria mover-se ali dentro. Não percebi onde o homem se meteu.
Preferi continuar escondida atrás da parede. Ainda via o louco, com a metralhadora. Tinha um kispo azul claro, muito xunga, usava boné, era de raça branca. “Caucasian, male, 25 to 40 years old”. Eu esperava, a todo o momento, que a segurança ou a polícia aparecesse. As carruagens estavam vazias. Os passageiros mortos, na plataforma ou ainda nos bancos do metro. Tudo imóvel.
Como se nada se tivesse passado, o metro fechou as portas e foi-se embora. Não viu nada, o maquinista?! Ou viu, e arrancou dali para fora para salvar a própria vida? Mas com certeza alguém estava a ver as câmaras de segurança. E o próprio maquinista ia comunicar o sucedido à central. Não tardariam a aparecer. Eu continuava atrás da parede, à espera. Não me atrevia a levantar a cabeça mas ouvia o homem, a andar na plataforma, de um lado para o outro como se andasse à procura de alguém ainda vivo.
Passou-se algum tempo, minutos que pareceram horas. Ouvi os passos dele, na plataforma, afastarem-se. Mas ainda na plataforma, algures. De onde eu estava, podia ver a única escada de acesso, a demasiada distância para tentar chegar lá sem que ele me visse. Ele também não tinha saído. Continuava na plataforma. Espreitei por cima da parede. Já não o via. Não o ouvia. Não fazia ideia de onde estava.
O som do placard anunciou a aproximação de outro metro. O comboio chegou, completamente vazio, e abriu as portas. Passou-me pela cabeça, por instantes, correr para dentro da carruagem. Mas pensei melhor. O homem continuava na plataforma e podia ver-me e seguir-me. Deixei-me ficar onde estava. O metro fechou as portas e foi-se embora. Onde estava a polícia?! Porque não aparecia a polícia?! Ninguém tinha ainda reparado, nos tiros, nos mortos, no sangue? Aquele último maquinista, não tinha visto nada? Se tinha visto, porque tinha aberto as portas?! E as câmaras de segurança, não estava ninguém a olhar?!
O metro foi-se embora vazio como chegou. O homem da metralhadora continuava na plataforma. Não sabia onde estava. Nunca mais o tinha ouvido. Desconfiaria que eu ainda estava ali, ter-me-ia visto, antes de me esconder, e estava à espera de me ouvir?... Andava a caçar-me?
A voz da “senhora do metro”, metálica, anuncia que a estação vai fechar: “Esta estação está encerrada”. No placard aparecem letras, uma sequência sem sentido: SDGRGN UF HSGHI. Pergunto-me o que aquilo significa. Fecharam a estação porque vem a polícia?! Apagam-se as luzes, todas. Menos uma. Uma luz branca, avariada e dessincronizada das outras, ou uma luz de presença? Bem no meio da plataforma. Percebo que ninguém viu nada. Ninguém faz nada. Vão fechar a estação e eu tenho de fugir. Correr para a escada, e talvez o gajo não me apanhe.
Quando me viro para o acesso de saída, a grade fecha-se, automaticamente como as luzes se tinham apagado. Não havia como sair. Ninguém ia aparecer. Ninguém estava a prestar atenção. As palavras sem nexo, no placard, talvez um código interno de fecho da estação, apagam-se também. Ninguém viu. Já foram todos para casa.
Afasto-me da luz, recuo para trás da parede. Não vejo o gajo. Está demasiado escuro. Não sei se ele sabe que estou ali. Estou fechada na estação com um louco homicida!



Esta “história” não é uma história. Foi um sonho que tive há poucos dias. Acordei aterrorizada no preciso momento em que o relato termina. ATERRORIZADA!
Tenho muitos pesadelos, complicados e horríveis, mas só raramente desprovidos daquele ambiente bizarro e desconexo que é típico dos sonhos, em que aspectos da nossa vida quotidiana se cruzam com acontecimentos irreais de uma forma que só faz sentido para nós. Este saiu “limpinho”. Um autêntico filme de terror em sequência lógica. Muito, muito raro. De outra forma não penso que seria capaz de o lembrar tão bem.




quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Spartacus

 "Spartacus", protagonizado por Liam McIntyre


Este não seria, em princípio, o género de série que eu julgaria que me interessasse. Evitei ver, durante muito tempo, devido a este preconceito que veio no “embrulho” de apresentação. Mais tarde, lendo críticas de outros fãs em fóruns da série, constatei que esperavam o mesmo que eu: só que eles queriam, eu abominaria! “Spartacus” assenta, pelo menos inicialmente, numa tradição de séries de acção (porrada, guerra, karaté…) de enredo muito básico. Alguns fãs, levados em erro, queixavam-se porque achavam o enredo muito complicado.

[Um pequeno aparte para que se compreenda porque foram levados em erro. Tornou-se quase um cliché dos filmes de acção um certo tipo de enredo: um gajo duro, veterano de guerra ou praticante de artes marciais, mas decente e leal e boa pessoa, retira-se do combate para viver uma existência pacífica em família. Bom marido, pai extremoso, disposto a viver em paz e sossego. Até que um malvado qualquer, inimigo, criminoso, agência governamental, etc, lhe mata a mulher e a prole. Isto são os primeiros 10 minutos do filme e a justificação para a carnificina que se segue. O resto é o gajo a vingar-se, a partir aquela merda toda, enfim, o “kill them all”. E este é, em linhas gerais, o primeiro episódio de “Spartacus”. Incluindo o “kill them all”.]

O enredo nunca é complicado, mas as séries de acção também já não são o que eram. Muita coisa mudou, desde os tempos de “Kung Fu”, e o público feminino saiu nitidamente beneficiado (actores mais jeitosos, introdução de cenas românticas, maior profundidade psicológica das personagens…).  Recentemente, por motivos de audiência, esta abordagem “musculada” estendeu-se também às séries históricas (ou baseadas em factos históricos em que nem sempre a veracidade histórica é respeitada). Tenho lido opiniões que identificam este “Spartacus” como descendente directo de “Roma”, e não discordo, embora seja conveniente recordar que a tradição de séries históricas de reconstrução muito realista e chocante data de mais atrás, por exemplo com “Eu, Cláudio” (de 1976). Em “Roma”, novos limites foram ultrapassados, a câmara deixou de ter medo de mostrar sangue (e sexo quase explícito), e resultou extraordinariamente.  Seguiram-se outras séries que aproveitam o filão da crueldade e barbarismo de outros tempos, como os “Os Tudors”, e a partir daí parece que existe uma competição para ver quem consegue fazer a série mais sangrenta, mais sádica, mais chocante. “Spartacus” inclui-se nesta linha, com requintes de crueldade dignos de filme de terror. 

Não há outra maneira de o dizer, a série perturbou-me. Todas as três temporadas (mais a série intercalar, possivelmente a mais sádica de todas). Não pelo sangue, pelas tripas, pelos miolos. Sendo uma história de gladiadores, e de guerra, não é aconselhável a quem se incomoda com estas coisas. Devo mesmo dizer que os realizadores trataram com elegância as cenas mais desagradáveis (aproveitando a imagética BD de “300”, o filme, em que o sangue é apresentado, por exemplo, a encher todo o écran como encheria uma “vinheta” de banda desenhada), ao contrário de uns “Tudors” em que os pormenores mais perturbadores das execuções são mostrados com um sádico realismo.
O que me perturba, em Spartacus, é a desumanidade com que os escravos são tratados. Revira o estômago aos espectadores modernos, e os realizadores sabem que sim. Pior ainda: quando os romanos começam a crucificar pessoas os cristãos começam a sentir-se incomodados, muito incomodados. Os realizadores também sabem.
Não é por acaso que o velhinho filme “Spartacus”, com Kirk Douglas, costumava ser exibido na Páscoa. A derradeira cena, na Via Ápia, fala por si. E acaba mal, muito mal. Existe, na revolta de Spartacus, uma primeira centelha de valores muito caros aos cristãos. Num mundo de barbarismo, a bondade. Num mundo de escravidão, a libertação.
Mas quem foi o verdadeiro Spartacus? É possível que nunca venhamos a saber, apenas podemos especular. Só sabemos dele o que os romanos contam. É preciso não esquecer que a História, como tentativa de registo científico de relatos de várias fontes, é uma modernidade do século XIX. Em tempos romanos os “historiadores” faziam de propósito por exagerar a ameaça do adversário porque quanto mais temível este fosse maior era a glória da vitória de Roma. Assim tão simples. Aníbal, tudo indica, foi exagerado. Spartacus poderá ter sido também. (Curiosamente, de Jesus, o que provocou a maior de todas as revoluções, existe apenas, que se saiba, uma pequena menção histórica. Jesus, mero pregador judeu sem importância, não era percebido pelos romanos como uma ameaça.) Poderia ser Spartacus, o verdadeiro, minimamente idealista como o Spartacus do filme e da série?... Sempre existiram iluminados, génios à frente do seu tempo, algumas vezes admirados outras vezes esmagados. Não discuto isto. Seria o verdadeiro Spartacus um deles? Ou um rebelde, sem outra causa excepto resistir aos romanos dentro do império como os bárbaros resistiam fora (e ganharam, no fim), atacando e roubando e fazendo-lhes a vida negra? Em suma, um terrorista? Menos nobre ainda, algo entre o ladrão e um cacique de guerrilha em busca de glória e poder? Não sabemos. A série apresenta uma explicação plausível para muitas das  movimentações do verdadeiro Spartacus, mas haveria outras.
A minha visão desiludida do mundo não me ajuda muito a acreditar em heróis. E menos consigo acreditar que o verdadeiro Spartacus, como o da série, conceba já, naqueles tempos, valores de liberdade, fraternidade, igualdade. É muito cedo, demasiado cedo. Para que a humanidade lá chegasse foi preciso cortar muitas cabeças, muitas cabeças. Noutras arenas.

E mesmo assim, neste século XXI do 3º milénio, liberdade temos menos do que já tivemos. Fraternidade (porque “fraternidade” é pedir demais) chama-se agora solidariedade e caminha a passos largos para a caridadezinha. Quanto à igualdade, ui!, isso nunca existiu excepto na utopia da palavra. Nunca existiu, não existe, e nunca existirá.

Não acredito, pois, como dizia, que o verdadeiro Spartacus tivesse a noção dos valores que encarna na série. Contudo, posso estar enganada, porque nem um século depois um outro Fulano, o que dizia “quem vive pela espada morre pela espada”, inventou a civilização ocidental como a conhecemos hoje. Não foi preciso derrotar Roma, foi Roma que, em desespero de causa, se agarrou com unhas e dentes à religião dos escravos, a verdadeira revolta civilizacional. Spartacus, qualquer um deles, não ia gostar disto, mas Roma haveria de mandar no mundo durante mais dezanove séculos! Não a mesma Roma, mas Roma à mesma.
O corpo de Spartacus nunca foi encontrado. O corpo de Cristo, se calhar até menos procurado por ser julgado de menor importância, também não. Terá esta coincidência, em pleno século do cristianismo, alimentado a lenda de Spartacus?...


Heróis e zombies
“Spartacus” foi um êxito de audiência. Como “The Walking Dead”. É interessante  reflectir na altura em que estas coisas são feitas, como se alimentadas pelo espírito do tempo que paira no ar. Zombies e escravos. Escravos zombificados e zombies escravizados. Sem um Spartacus que nos livre disto. Mas merecemos? Diz a lenda que quando os rebeldes foram capturados pelos romanos todos eles se acusaram: “Eu sou Spartacus!”, de modo a poupar o verdadeiro à morte ou a um castigo exemplar. Estes, diz a lenda, não eram zombies. Lutavam, e sacrificavam-se, não deambulavam pelo centro comercial a encher a barriga. Cada povo tem o Spartacus que merece, ou a falta dele.
Spartacus morreu, mas o espírito de Spartacus não morreu. Renasceu, em toda a sua valentia, durante a Resistência. E pode renascer ainda, quando os escravos perceberem que são mais do que os dominus e dominas do mundo. Era de crer que por esta altura já tivessem percebido. Como não percebem, concluiu-se que são zombies. Mexem, mas naquele cérebro já está tudo apagado.




...



 Andy Whitfield, primeiro protagonista de "Spartacus"


R.I.P.
Lamento a morte de Andy Whitman (protagonista da primeira temporada), aos 37 anos. Esta morte, precoce, carregou de luto uma ficção já de si carregada de morte. A Fox está a re-exibir a primeira temporada.





quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Lançamentos Abismo Humano

Aproveitamos o fim do ano para destacar alguns dos lançamentos Abismo Humano ao longo de 2013. Optando pela brevidade, apontam-se os traços fortes de cada projecto e convida-se a visita ao respectivo link para uma merecida e atenta audição.


 

Advent Mechanism "Umbra" 

Na sequência de "Shadows of Nothing", este é o novo álbum dos Advent Mechanism entre a sonoridade electrónica, gótica e industrial.

abismohumano.bandcamp.com/album/umbra





Cotard Delusion "I"



Cotard Delusion "Fallen Soldiers"

"I", primeiro álbum de Cotard Delusion, e o seu sucessor, "Fallen Soldiers", lançado a curto espaço do anterior, sugerem-nos uma ambiência dark ambiental, neo folk e industrial.

abismohumano.bandcamp.com/album/i

abismohumano.bandcamp.com/album/fallen-soldiers





The Dream Collision "The World Ends, The World Begins"

Projecto a solo de Pedro Code com facetas de alternativo, ambiente, dark wave, ou ethereal. Último lançamento discográfico Abismo Humano do ano com festa marcada para 4 de Janeiro na Taberna da Malu, em Lisboa.

abismohumano.bandcamp.com/album/the-world-ends-the-world-begins







"O Suor das Feras e o Silêncio"

Por último, mas definitivamente "not least", esta proposta incomum que envolve a narrativa poética "O Suor das Feras e o Silêncio", de Luiza Nilo Nunes, na esfera ambiental de Babalith. O resultado desta "ilustração musical" é muito bem conseguido. As vozes interpretativas, queixosas, gritantes, ecoantes, rodeadas de efeitos sonoros adequadamente pesados, dão um inesperado corpo à poesia da narrativa que possivelmente não se obteria da mera leitura das palavras sozinhas, como as conhecemos, letras no papel.

abismohumano.bandcamp.com/album/o-suor-das-feras




segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Sobrenatural ("Supernatural")



Quando comecei a ver a série “Sobrenatural” (original “Supernatural”), há mais anos de que me lembro e ainda na RTP2 (que aparentemente já não tem dinheiro para comprar o resto), os primeiros episódios levaram-me a crer que ia ser uma série dramática. Dois irmãos são atormentados por uma tragédia de infância, quando perdem a mãe, queimada viva, no tecto, por um demónio. Filhos de um caçador de monstros, dos dois irmãos apenas Dean (Jensen Ackles) aceita continuar a tradição de família. O irmão mais novo, Sam (Jared Padalecki), rejeita-a, e tenta escapar-lhe, sem sucesso, pois também a sua namorada encontra o mesmo destino que vitimara a sua mãe, às mãos do mesmo demónio, que os persegue. Os dois irmãos reúnem-se no esforço de o derrotar.
Dean idolatra o pai. Sam ressente-se da vida de caçador que nunca lhe permitiu uma infância normal. O conflito acerca do pai, já desaparecido, confirmava a interacção dramática entre os dois irmãos.
Devo ter sido das pessoas mais desgostadas ao perceber que rapidamente a série seguiu o caminho mais fácil: dois energúmenos a caçar monstros. Até com os personagens fiquei decepcionada. A princípio, Sam era o inteligente, o rapaz universitário, e Dean era o bronco. Com o desenvolver das temporadas, Sam torna-se quase tão bronco como o irmão… e Dean continua bronco. Em suma, ficam iguais. As companhias também não são melhores, a um ponto que gera inverosimilhança: os caçadores que aparecem em “Sobrenatural” não têm uma educação formal (o único que frequenta a universidade até é Sam), mas um homem vulgar como Bobby (Jim Beaver), dono de um ferro velho e recrutado para a profissão já em idade adulta, mostra-se subitamente versado em latim e outras linguagens e códigos obscuros! Possui mesmo uma biblioteca de fazer inveja a qualquer mestre do oculto. Como se diz na série, “seriously?”…
Continuei sempre a ver, pela vertente do entretenimento acéfalo, e pelos monstros. Duas ou três temporadas disto. Só pela quarta temporada é que as coisas começam a aquecer. Não sei se finalmente deram rédea solta aos autores, ou se a série se encontrava em sério risco de ser cancelada por se encontrar esgotada a fórmula e não havia alternativa senão arriscar por caminhos mais ousados.


Temporada cinco: supremo apocalipse

Ainda bem que o fizeram, porque é aqui que o enredo se adensa. Esta é a insuperável quinta temporada, alucinante, vertiginosa, escatológica, que abre literalmente as portas do Inferno! Os dois irmãos, durante este tempo todo, nem desconfiavam da sua importância. Sam, em pequeno, bebeu sangue do demónio Azazel, porque Sam está “marcado”. Sam e Dean estão destinados a desempenhar um papel cósmico: são eles que, querendo ou não, vão despoletar o Apocalipse.
Se os irmãos Winchester estão habituados a lidar com demónios, que são maus, agora começam também a lidar também com anjos, que não são melhores e querem cumprir as profecias bíblicas ao pormenor. Lúcifer e Miguel (o arcanjo) vão literalmente defrontar-se no Armagedão, usando por receptáculos os corpos de Sam e Dean, para o que estes têm de dar o seu consentimento. (Lúcifer, em "Sobrenatural", ao contrário da crença geral, sendo um anjo, não pode possuir um corpo sem consentimento do ocupante.) Sam e Dean têm de consentir (nem que seja à força) e os anjos têm as suas sinistras maneiras de os “convencer”. Serafins, querubins, assediam-nos. Lúcifer, liberto do Inferno, assedia-os. Não existe alternativa senão travar o Apocalipse e mandar Lúcifer de volta para o Inferno.
Os irmãos têm a ajuda do confuso anjo Castiel (Misha Collins)… Que merece mais algumas palavras. Não me recordo exactamente de quando Castiel entra na série mas julgo que terá sido ainda na temporada anterior (a quarta), tentando convencer Sam e Dean a impedirem os eventos conducentes à libertação de Lúcifer. O que acaba por acontecer, involuntariamente, pois a informação que os irmãos detêm está errada e são manipulados a quebrar o último selo antes do Apocalipse. Castiel é apenas um anjo, fervoroso, fiel, que desconhece o livre arbítrio mas sofre de dilemas existenciais. Acontece que Deus se ausentou do Céu, ninguém sabe onde Ele pára, e ninguém sabe o que fazer excepto continuar com o plano bíblico. Castiel começa a agir pela sua própria cabeça, pela primeira vez, e ao ajudar os dois irmãos torna-se alvo da ira dos seus superiores, serafins e querubins. Castiel, apenas “um anjo do senhor” não passa de um zé-ninguém na hierarquia celestial. Podia ter sido imediatamente fulminado, se lhe prestassem atenção, mas subestimam-no, como subestimam aos irmãos Winchester. Grande erro! E se trabalham em equipa, erro colossal! Não é por nada que na temporada seguinte o demónio Crowley pergunta retoricamente “mas serei o único que não subestima aqueles dois pesadelos vestidos de ganga?!” Crowley sabe bem do que a casa gasta.


Crowley, o detestável/adorável demónio



É exactamente o demónio Crowley (uma impagável interpretação de Mark Sheppard) quem se torna um inesperado aliado dos irmãos Winchester na sua tentativa de derrotar Lúcifer. O demónio Crowley, igualmente um zé-ninguém da hierarquia infernal, um diabeco cuja ocupação é estabelecer pactos em encruzilhadas, com um beijo na boca (homem ou mulher, o beijo é o mesmo, aliás, um dos atractivos da série é perceber qual é exactamente a inclinação sexual de Crowley, nada fácil de detectar!), descobre que a intenção do big boss (Lúcifer), ao ser libertado, é destruir todos os demónios criados desde o seu aprisionamento, que este abomina visceralmente. (Lúcifer, em “Sobrenatural”, não é um diabo de pés de cabra, mas o anjo, caído e condenado ao Inferno; condenado ao inferno,  mas um anjo ainda assim). Crowley, sem nunca fazer parte da “equipa”, não deixa de ser um elemento essencial, porque nada mais lhe importa do que meter Lúcifer de volta no buraco. Neste momento de tudo por tudo, os irmãos Winchester, anjos e demónios são aliados.
É desta forma que Sam e Dean, antes limitados ao obscuro conhecimento enciclopédico e buscas online e ao armamento improvisado de balas de ferro e de sal, começam a receber informação e ajuda sobrenatural do Céu e do Inferno. Com tais personagens, a série tinha de se tornar transcendente.
É nesta temporada que acontece o único episódio que causa arrepios. Lúcifer, liberto do Inferno, precisa de um receptáculo. Encontra-o num homem amargurado que tinha perdido a mulher e o filho bebé num assalto. Sitiando a sua presa, com visões fantasmagóricas e sonhos (o que consiste, na concepção medieval, na obsessão que precede a possessão) Lúcifer alimenta-lhe a raiva e o desespero até obter o seu consentimento para lhe possuir o corpo, prometendo vingança. Um grande papel de Mark Pellegrino (que já tinha sido o Jacob de “Lost”) e momentos dignos de um filme de terror. Seriously!
A partir daqui, Lúcifer começa a perseguir o seu verdadeiro receptáculo, Sam, que vai defrontar Dean, possuído pelo arcanjo Miguel, na batalha do Armagedão. Nenhum dos irmãos quer ouvir falar em tal coisa! Descobrem que o feitiço para reabrir a jaula de Lúcifer (que involuntariamente tinham aberto), passa por recolher os quatro anéis dos quatro cavaleiros do Apocalipse: a Guerra, a Pestilência, a Fome, e a Morte. Vivem-se os tempos do fim e os quatro cavaleiros já andam no mundo. Sam e Dean procuram-nos e acabam por encontrá-los. Todas as prestações dos actores convidados que interpretam os Cavaleiros são formidáveis, mas é impossível não salientar uma.
Um dos melhores episódios de “Sobrenatural”, senão um dos melhores episódios de todas as séries de sempre, a lembrar o “filme sério”, é aquele em que Dean se encontra com a Morte numa pizzaria.


Dean encontra a Morte numa pizzaria


A Morte, um tipo alto, de sobretudo preto, de aspecto sinistro mas indistinto entre um agente funerário, um chefe da Máfia ou um caixeiro viajante, mas um fulano civilizado e inteligente, tem com Dean uma soberba conversa filosófica, enquanto come pizza, em que afirma: “Tudo começa e tudo acaba, menos eu. Um dia, Deus, também, será ceifado”. Ora, porque é que isto (e muitas outras blasfémias que aparecem na temporada cinco) não ocasionou uma verdadeira onda de fanatismo dos “jesus lovers” a exigir que "Sobrenatural" fosse tirado do ar? Muito simples. Porque "Sobrenatural" tem dois tipos de fãs: os que não percebem, e os que não se interessam.
Da mesma forma, Deus também aparece na quinta temporada, como personagem, muito disfarçadamente, mas não vou dizer mais do que isto. Deixo apenas a mesma pista oferecida pelo jardineiro do Céu a Sam e Dean, quando Dean e Sam morrem e vão para o Céu (mas voltam), de que Deus está na Terra. Ele está lá, é uma questão de o procurar.
(Este é também um dos melhores episódios da série, numa sequência de muitos. Sam e Dean, no Céu, a fugir, a pé, de anjos! E conseguem! Com a ajuda do jardineiro, o único que ainda está em contacto com o Patrão. Existe aqui também uma leitura política, para além da leitura religiosa ortodoxa: Deus já não fala com a arrogante hierarquia do Céu, mas fala com o mais pequenino, o jardineiro; da mesma forma, Deus intervém ao ajudar os pobres de espírito, Sam e Dean. Deus abandona os grandes mas protege os fracos. Nada disto é acéfalo e a mensagem está lá, quer se queira acreditar que é religiosa ou apenas política, para quem a quiser entender.)
“Sobrenatural” é por isso uma série com muitos níveis de interpretação: uma série de acção com monstros, uma série de acção com humor, uma série de acção com humor muito inteligente, político e actual (mas já não atingido pela maioria), uma série de acção com humor e questões filosóficas (ainda menos atingida apesar da simplicidade da abordagem).
Não sem sacrifício, Sam e Dean derrotam Lúcifer, os anjos todos, serafins e querubins e arcanjos, anulam as profecias bíblicas, e impedem o Apocalipse!


Temporada seis: a desbunda continua

Quando terminou a temporada cinco, fiquei perfeitamente convencida de que era o fim da série. Foi de facto uma grande surpresa quando descobri uma temporada seis. E tive medo. Tive muito medo que após uma temporada tão espectacular não fosse possível fazer melhor e que talvez não fosse boa ideia continuar. Comecei a ver na expectativa de que ia ficar desiludida.
Não fiquei desiludida. Antes pelo contrário! Ainda estou de boca aberta pelo nível de qualidade que foi mantido! Depois da temporada cinco (soberba) os autores sabiam que já podiam fazer tudo o que lhes apetecesse. Já não havia nada a provar. A temporada seis continua a abordagem da guerra no Céu, o anjo Castiel toma algumas más decisões, o demónio Crowley é mais engraçado do que nunca (uma das personagens mais marcantes da série que perderia muito se ele desaparecesse), e o resto é uma grande desbunda que me fez rir algumas vezes.


Castiel, promovido a manda-chuva do Céu, estabelece um acordo com o novo rei do Inferno, Crowley. Não acaba bem.


Saliento o episódio 15, em que Sam e Dean são transportados para uma realidade alternativa… que é a nossa, em que a vida deles é uma série de televisão. Hilariante! Confesso que adoro todo este tipo de interacção surreal entre personagens reais e fictícias. Para não variar, os fãs da série dividiram-se. Muitos adoraram, muitos detestaram. (Como eu dizia acima, não é para todos.) A vertente filosófica gira agora em torno das almas. Diz um anjo, inimigo de Castiel (não esquecer a guerra pós-apocalíptica no Céu) que os persegue até esta realidade, a um aterrorizado Misha Collins a fazer o papel de si próprio: “Como é que suportam viver aqui, sem Deus, sem alma, sem nada superior a vós? Matar-te é um favor que te faço!”, e mata mesmo. E não deixa de ter razão.

Misha Collins interpreta o actor Misha Collins nos bastidores da série "Sobrenatural" de uma realidade alternativa em que Misha Collins interpreta o anjo Castiel


Sam regressa do inferno mas regressa sem alma. É curiosa a interpretação filosófica com que é definida a alma, porque não o torna falho de consciência, antes o transforma em algo mais semelhante a um robot para quem os fins justificam os meios, não para seu proveito pessoal mas porque está “programado” para caçar monstros nem que tenha de matar os inocentes que se metam à frente… Falta-lhe a compaixão, mas não é por motivos egoístas que age (como um sociopata); é o “exterminador implacável” que tem uma missão a executar sem sentimentos a inibi-lo. Interessante definição de alma, à parte as controvérsias.
“Sobrenatural” tornou-se uma das minhas séries preferidas. Sei sempre que vou passar um bom bocado, cheio de humor inteligente que me diverte e de questões filosóficas que me fazem pensar. Lamento que a genialidade de “Sobrenatural” não seja reconhecida e que a série seja encarada apenas pela vertente do entretenimento pouco sério: fazer uma série aparentemente tão simples, tão fácil de absorver, e ao mesmo tempo tão profunda, não é trabalho fácil nem para todos.
Manter a qualidade, após a suprema temporada cinco, ainda menos. Posso apenas desejar que a série, que vai já na temporada oito, saiba não esgotar as ideias e terminar no momento certo, nem antes nem depois. Enquanto isso, vou ser fã. Seriously!




domingo, 24 de novembro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Conclusão

Quando comecei a fazer esta série de comentários não contava escrever uma conclusão. Mas o “O Livro dos Espíritos” é uma obra religiosa e merece alguns reparos finais.

Se alguma coisa do que aqui disse ofendeu ou melindrou ou desgostou qualquer espírita praticante (que tenha aqui chegado, por exemplo, através de uma busca qualquer), nunca foi essa a intenção. Os meus comentários inscrevem-se no estilo do blog, sempre crítico e sempre sarcástico e sem papas na língua, mas respeito todas as religiões que pugnem pelo Bem, independentemente das minhas opiniões pessoais.
Simpatizo com o Espiritismo, e penso mesmo ler mais obras da doutrina, mas não é caminho para mim. Se por agora ou para sempre, não sei.

Se alguma coisa do que disse ofendeu algum Espírito (ainda desencarnado ou já reincarnado), bem, vamos ter muito tempo de resolver essas diferenças, um dia mais tarde, certo?

Se alguma coisa do que disse ofendeu Deus... Então ninguém tem nada a ver com isso. É entre mim e Ele.


Gostei, confesso, destas conversas com Espíritos que as ditaram algures antes de 1857, e das discrepâncias e das semelhanças de ideias entre nós apesar de mais de um século nos separar. Toda esta serie de posts foi previamente agendada, pelo que não sei, no momento em que escrevo, se mais pessoas se juntaram às conversas. Por acaso teria apreciado que a série de posts tivesse suscitado comentários. Quando chegarmos a este momento, no futuro, se verá.
Algo está muito mal quando as conversas mias interessantes que alguém consegue ter é consigo mesmo. Era bom que mais alguém as apreciasse.

É tudo.
Que a leitura de “O Livro dos Espíritos” faça os seus leitores pensarem, e meditarem, e concluírem.





quarta-feira, 20 de novembro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Morte

O tema é a morte. Vou deixar falar os mortos.

Capítulo “Lei da destruição”


Uma vez que a morte deve nos conduzir a uma vida melhor, que nos livra dos males desta, e, por isso, mais deveria ser desejada do que temida, porque o homem tem um horror instintivo que o faz temê-la? [pergunta]
– Já dissemos, o homem deve procurar prolongar a vida para cumprir sua tarefa; eis porque Deus lhe deu o instinto de conservação, que o sustenta nas provas; sem isso, muitas vezes se deixaria levar pelo desencorajamento. A voz secreta que o faz temer a morte lhe diz que ainda pode fazer alguma coisa para o seu adiantamento. Quando um perigo o ameaça, é uma advertência para que aproveite o tempo e a morada que Deus lhe concede. Mas, ingrato! Rende mais vezes graças à sua estrela do que ao seu Criador.

Nunca tinha pensado nisto assim: prolongar a vida para cumprir a tarefa.


Capítulo “Fatalidade”


Haverá fatalidade nos acontecimentos da vida, conforme o sentido que se dá a essa apalavra, ou seja, todos os acontecimentos são predeterminados? Nesse caso, como fica o livre-arbítrio? [pergunta]
– A fatalidade existe apenas na escolha que o Espírito fez ao encarnar e suportar esta ou aquela prova. E da escolha resulta uma espécie de destino, que é a própria consequência da posição que ele próprio escolheu e em que se acha. Falo das provas de natureza física, porque, quanto às de natureza moral e às tentações, o Espírito, ao conservar o seu livre-arbítrio quanto ao bem e ao mal, é sempre senhor para ceder ou resistir. (…)

Há pessoas que parecem ser perseguidas por uma fatalidade, independentemente do seu modo de agir; a infelicidade não é um destino? [pergunta]
– São, talvez, provas que devem suportar e que escolheram. Mas definitivamente não deveis acusar o destino pelo que, frequentemente, é apenas a consequência de vossas próprias faltas. Nos males que vos afligem, esforçai-vos para que vossa consciência seja pura, e já vos sentireis bastante consolados.

O Espírito sabe por antecipação como desencarnará? [pergunta]
– Sabe que o género de vida escolhido o expõe a desencarnar mais de uma maneira do que de outra. Sabe igualmente quais as lutas que terá de enfrentar para evitá-la e, se Deus o permitir, não fracassará.

Há homens que enfrentam os perigos dos combates com a convicção de que a sua hora não chegou; há algum fundamento nessa confiança? [pergunta]
– Frequentemente, o homem tem o pressentimento do seu fim, como pode ter o de que não morrerá ainda. Esse pressentimento vem por meio dos seus protectores*, que querem adverti-lo para estar pronto para partir, ou estimulam sua coragem nos momentos em que é mais necessária. Pode vir ainda pela intuição que tem da existência escolhida, ou da missão que aceitou e sabe que deve cumprir.

* Espíritos protectores que acompanham a existência de cada um de nós. Semelhante à noção de “anjo da guarda”. [Nota minha]


Porque os que pressentem a morte a temem menos que os outros? [pergunta]
– É o homem que teme a morte e não o Espírito; aquele que a pressente pensa mais como Espírito do que como homem: ela a compreende como sua libertação e a espera.

   

Capítulo “Medo da morte”


O medo da morte é para muitas pessoas um motivo de perplexidade; de onde vem esse medo, se têm o futuro diante de si? [pergunta]
– É um erro terem esse medo. Mas o que quereis! Procura-se convencê-las desde crianças de que existe um inferno e um paraíso, e que é mais certo irem para o inferno, porque lhe dizem que ao agirem de acordo com a natureza cometem um pecado mortal para a alma: então, quando se tornam adultas, se têm algum discernimento, não podem admitir isso, e tornam-se ateus ou materialistas. É assim que se conduzem as pessoas a crer que além da vida presente não há mais nada, e as que persistiram nas suas crenças de infância temem esse fogo eterno que deve queimá-las sem destruí-las.
A morte, entretanto, não inspira ao justo nenhum temor, porque, com a fé, tem a certeza do futuro; a esperança lhe faz esperar uma vida melhor, e a caridade que praticou dá-lhe a certeza de que não encontrará no mundo para onde vai nenhum ser do qual deva temer o olhar.




Capítulo “Intuição das penalidades e prazeres futuros”


No momento da morte, qual é o sentimento que domina a maioria dos homens? A dúvida, o medo ou a esperança? [pergunta]
– A dúvida para os descrentes endurecidos, o medo para os culpados, a esperança para os homens de bem.

Quanto a mim, a curiosidade. Uma curiosidade que não será satisfeita se não houver nada para ver. Se houver algo para ver, dúvidas, medos, esperanças (ou desapontamentos), tudo isso é para depois da curiosidade. Prefiro assim. Sem expectativas.


Porque existem descrentes, uma vez que a alma traz ao homem o sentimento das coisas espirituais? [pergunta]
– Existem menos do que se acredita; muitos se fazem espíritos fortes durante a vida por orgulho, mas no momento da morte não são tão fanfarrões.

Muito boa pergunta.

Excelente resposta.


Capítulo “Natureza das penalidades e prazeres futuros”


O laço de simpatia que une os Espíritos da mesma ordem é para eles uma fonte de felicidade? [pergunta]
– A união dos Espíritos que simpatizam com o bem é, para eles, um dos maiores prazeres, porque não temem ver essa união perturbada pelo egoísmo. Eles formam, no mundo espiritual, famílias com o mesmo sentimento, e nisso consiste a felicidade espiritual, assim como na Terra vos agrupais por categorias e sentis um certo prazer quando estais reunidos. A afeição pura e sincera que sentem e da qual são os agentes é uma fonte de felicidade, porque lá não há falsos amigos nem hipócritas.

A minha permanência na Terra já deve ir muito longa porque não há maneira para mim de acreditar nisto.
A não ser que estejamos a falar de Espíritos que já não são seres humanos, em que o homem se transforme noutra coisa superior ao humano, e aí o caso é outro. Se melhor ou pior... É o mesmo que conjecturar sobre extraterrestres. Talvez. Mas já não são humanos, pois não?


Existe para a condição futura do Espírito uma diferença entre aquele que durante a vida temia a morte e outro que a encarava com indiferença e até mesmo alegria? [pergunta]
– A diferença pode ser muito grande; entretanto, acaba frequentemente diante das causas que geram esse medo ou esse desejo. Tanto quem a teme quanto quem a deseja pode estar movido por sentimentos muito diferentes e são esses sentimentos que influem na condição do Espírito. É evidente, por exemplo, naquele que deseja a morte unicamente porque vê nela o fim de suas aflições, revelar-se uma espécie de revolta contra a Providência e contra as provas que deve suportar.

Esta foi a resposta mais próxima à pergunta que ninguém n'"O Livros dos Espíritos" se atreveu a fazer. E a pergunta é esta: o que acontece se alguém quiser sair do jogo? Se alguém olhar para trás do pano, e conhecer as regras, e se fartar das provas ou discordar da perfeição e pedir o fim? O verdadeiro fim. Segundo a resposta (à pergunta que não se fez, quer porque ninguém estava interessado no fim, quer por medo de a fazer), é a "revolta contra a Providência". Compreende-se que haja medo em fazer a pergunta. Pode ser a última pergunta que se faz.






domingo, 17 de novembro de 2013

Conclusões existenciais (sobre a pobreza)

As pessoas que dizem que gostam do frio devem ter ricas casinhas aquecidas para onde voltar. Ou pior, devem ter daqueles casarões com lareira e tudo. Não devem saber o que é estar a escrever a um teclado com os dedos gelados. Não devem saber que até dói pensar em tomar banho porque é preciso tirar a roupa numa casa de banho gelada. Não devem saber que até dói pensar em despir a roupa e vestir o pijama pela mesma razão. E outras coisas que me levam a concluir que não sabem mesmo o que é passar frio.
Gostar do frio deve ser assim, tipo, um passeio na neve, muito divertido. Como ir à praia.

Se eu tivesse percebido isto aos 15 anos, e não aos 40, teria mudado alguma coisa?...
Ou, o que interessa mais: teria mudado alguma coisa para melhor?
Talvez não. Talvez a minha ignorância [ou subconsciente ignorância] tenha sido um mecanismo de sobrevivência. De que já não necessito. Tudo é tão mais simples quando o mundo já não tem importância.

... / ...

Este post era para ficar por aqui e chamar-se apenas "conclusão existencial" mas parece que hoje estou numa de dizer umas verdades.
Aqui há uns tempos, no último ano, a propósito da crise, vejo na televisão um marmanjo da minha idade a queixar-se, muito indignado, ao presidente da república, que agora já não tinha casa e era obrigado a morar no local de trabalho (empresa dele próprio, isto é).
Na verdade, esta crise fez-me perceber como a maioria das pessoas estão mal habituadas, muito mal habituadas. No reverso da medalha, fez-me perceber como eu sou miserável, como eu sempre fui tão miserável. E como eu não percebi o miserável que era na idiotice de me julgar igual aos outros.
Pois eu nasci e cresci num escritório. O meu pai tinha uma oficina e a nossa casa era o escritório. Isto, para mim, era a realidade. Às vezes perguntava-me para onde iam os outros meninos quando as lojas fechavam. (Este post já está a tomar-me tempo a mais para o que quero dispor nele, mas cá vai.) Os outros meninos, quando não estavam na escola, iam para as lojas da rua onde os pais trabalhavam. Não havia cá creches para ninguém e amas eram só para os ricos. Estes meninos de que falo não eram ricos, eram a maioria. Durante o dia andavam na rua, comigo, ou andávamos pelas lojas dos pais deles. Devo-me ter perguntado, embora não me lembre, mas devo-me ter perguntado, para onde é que eles iam quando fechava a mercearia, quando fechava a drogaria, quando fechava a papelaria. Eu, no escritório e na oficina, estava sempre em casa. Até atendia os clientes ao telefone! Mas não pensava no assunto. Se calhar nem me passava pela cabeça que eles tinham uma casa, da maneira que as pessoas entendem ter uma casa, para onde se vai, depois do trabalho ou da escola. As minhas ambições eram muito mais limitadas. Ter uma Tucha (para quem não sabe, era uma imitação mal-amanhada da Barbie) já me fazia as delícias. Desde que eu tivesse uma Tucha, como elas, e uma colecção de carrinhos, como eles, estava toda feliz. Casa para ir depois do trabalho? Nem me passava pela cabeça!
Depois ouço este gajo queixar-se que tem de viver na empresa... Enfim, ri-me. Tive de me rir. E se tivesse de tomar banho numa oficina malcheirosa, cheia de aranhas e centopeias (para não falar dos ratos, de que nunca desgostei), o que não se queixaria?... Sei lá, deu-me para rir.
Ainda nesta onda de reflexões, tive o meu primeiro quarto, um quarto só para mim, já depois dos vinte anos. Nesse dia, ao telefone com o meu namorado, disse-lhe: "Nem imaginas como me sinto feliz por ter um quarto! É que me sinto muito melhor!", e ele respondeu-me: "Que parvoíce! Ninguém se sente melhor por ter um quarto!"
Eu calei-me, e senti-me estúpida, e não percebi porque me senti estúpida. Envergonhada. Envergonhada, mesmo, por me estar a sentir feliz por ter um quarto.
É claro que este menino sempre teve um quarto, onde cabiam duas ou três famílias, cama de casal e grande roupeiro, aparelhagem, tudo.
E depois pergunto-me, como é que eu não percebi que não era possível, que não ia dar?! Que não posso imaginar sequer que as pessoas percebam, porque sempre tiveram tudo?...

Mas não sabiam que tinham tudo. Da mesma maneira que eu não sabia que não tinha nada. Isto é que é assombroso! Verdadeiramente assombroso!

Como as pessoas sempre viveram noutro mundo, até as pessoas da minha própria família, como por exemplo a minha tia quando me ofereceu sais de banho tendo a obrigação de saber que eu não tenho banheira! E eu perguntei-lhe: "e faço o quê, com isto?..." Está bem, a mulher tem desculpa, não bate muito bem da cabeça. Mas a sério, sais de banho? Para um escalda-pés na bacia, quiçá?...
Também houve aqueles imigrantes em França, amigos dos meus pais, era eu miúda, que resolveram trazer-me um disco com um êxito infantil qualquer. É difícil não associar estas duas memórias, porque eu não tinha gira discos! A cara com que eles ficaram! (Não interessa também, porque a minha avó tinha gira discos e eu pude ouvir aquilo uma ou duas vezes antes de decidir que era uma porcaria. Ainda se fossem os Abba!) Mas a cara daquela gente, quando lhes disse: "Não tenho onde ouvir."! Impagável! Verdadeiramente impagável!

Mas a melhor de todas foi a da torneira. Acreditem ou não, durante alguns anos da minha adolescência tive de viver sem uma torneira. Era uma casa completamente degradada, não tinha casa de banho, só uma pia redonda (daquelas de buraco no mármore). Onde tomava banho? Na oficina, pois claro! Mas seguindo em frente. Não havia torneira. Abria-se directamente o cano, enchia-se o jarro de água (um daqueles jarros plásticos verdes com a boca em forma de jarro vegetal, muito populares na altura) e depois lavava-se a cara na bacia. Só se abria o cano uma vez por dia. Ah, sim, e a água era sempre fria. De inverno, gelada!
Finalmente, lá se arranjou uma torneira. Estranho que pareça, eu sempre tive muitos amigos. Que iam a minha casa, esta casa. Esta amiga em particular era mais do que uma amiga, mas não interessa nada agora, e eu mostrei-lhe a torneira. Ela gozou, por eu estar feliz por finalmente ter uma torneira e poder abri-la várias vezes ao dia e não precisar do jarro, e eu ri-me também. Porque me ri? Porque achei ridículo. Estava-me a rir como se não fosse eu naquela situação. Como se eu fosse como ela, com torneiras de água quente e fria, e banheira e tudo. A ponto de gozar com a minha torneira! Mas no fundo, no fundo, acho que também me ria para ela não perceber que eu estava envergonhada. Acho que me ria para eu não perceber que eu estava envergonhada.
Aquilo era muito giro, para ela. Devia ser também como um passeio à neve, uma ida à praia. E eu a fingir que era divertido para mim também. Original. Excêntrico. Não ter uma torneira, não é giro?

É assombroso, perfeitamente assombroso, como eles não viam a diferença. Como eu não via a diferença. Mas foi melhor assim. Que eu me risse. Enquanto houve paciência para me rir. Acho que se gastou, e a paciência não é coisa que se compre com dinheiro.

E agora já gastei muito tempo com isto.