sábado, 12 de outubro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Do corpo e do mundo material

Capítulo “Encarnação nos diferentes mundos”


As nossas diferentes existências corporais passam-se todas na Terra? [pergunta]
– Não. Nem todas, mas em diferentes mundos. As que passamos na Terra não são nem as primeiras nem as últimas, embora sejam das mais materiais e mais distantes da perfeição.

Podemos voltar à Terra após ter vivido em outros mundos? [pergunta]
– Seguramente. Já vivestes em outros mundos além da Terra.

Existe alguma vantagem em voltar a habitar a Terra? [pergunta]
– Nenhuma vantagem em particular, a menos que se esteja em missão. Nesse caso se progride aí como em qualquer outro mundo.

Não seria melhor permanecer como Espírito? [pergunta]
– Não, não. Seria permanecer estacionário, e o que se quer é avançar para Deus.

Os Espíritos, após terem encarnado em outros mundos, podem encarnar neste, sem nunca terem passado por aqui? [pergunta]
– Sim, como vós em outros mundos. Todos os mundos são solidários: o que não se cumpre em um se cumpre em outro.

Desse modo, há homens que estão na Terra pela primeira vez? [pergunta]
 – Há muitos e em diversos graus.

Os espíritos podem encarnar corporalmente num mundo relativamente inferior àquele em que já viveram? [pergunta]
– Sim, se for para cumprir uma missão e ajudar ao progresso. Aceitam com alegria as dificuldades dessa existência, porque lhes oferecem um meio de avançar.

Isso não pode ocorrer por expiação? Deus não pode enviar Espíritos rebeldes para mundos inferiores? [pergunta]
– Os Espíritos podem permanecer estacionários, mas não regridem. Quando estacionam, a sua punição é não avançar e ter de recompor as existências mal empregadas num meio conveniente à sua natureza.

Os seres que habitam cada mundo atingiram um mesmo grau de perfeição? [pergunta]
– Não, é como na Terra: há seres mais avançados e menos avançados.

Sempre disse a muita gente que o inferno é aqui. Não acreditaram em mim, se calhar porque a existência das pessoas a quem o disse não seja um inferno. Lá está, há vidas de prova e vidas de expiação. A minha vida, aqui, é uma de expiação, e como tal, infernal. Nada do que leram até aqui constituiu uma surpresa para mim. Foi mais como uma clarificação do que eu já suspeitava.


Capítulo “Sexo nos Espíritos”

O Espírito que animou o corpo de um homem pode, em uma nova existência, animar o de mulher e vice-versa? [pergunta]
– Sim, são os mesmos Espíritos que animam os homens e as mulheres.

Quando está na erraticidade, o Espírito prefere encarnar no corpo de um homem ou de uma mulher? [pergunta]
– Isso pouco importa ao Espírito. Depende das provas de que deve suportar.

Os Espíritos encarnam como homens ou mulheres, porque não têm sexo. Como devem progredir em tudo, cada sexo, assim como cada posição social, lhes oferece provas, deveres especiais e a ocasião de adquirir experiência. Aquele que encarnasse sempre como homem apenas saberia o que sabem os homens. [Allan Kardec]

Também nada disto constituiu nenhuma surpresa para mim. A surpresa seria que não fosse assim.
E novamente tenho de salientar a modernidade do livro. Publicar coisas destas, em 1857, se não considerado blasfémia seria no mínimo um atentado à moral e aos bons costumes. Um homem, encarnar num corpo de mulher, e vice versa? O escândalo! A falta de pudor! Um homem conhecer em si os recantos privados da mulher e a mulher tocar em si a virilidade masculina! E trocar, com quem troca de corpo, de facto, trocando de corpo! A simples ideia de que todos nós já fomos homens e mulheres, ambos!
Acredito que só por causa disto muitos exemplares de “O Livro dos Espíritos” possam ter sido queimados, ou proibidos, ou vilipendiados. Muitos espíritos (vivos, não mortos) ainda não estão ao nível de aceitar sexo entre pessoas do mesmo sexo, quanto mais sexos diferentes na sua própria pessoa! Sinceramente, até me faz rir. Só por isto já vale a pena ansiar pelo Além, só para assistir à cara de algumas pessoas quando confrontadas com a revelação que em algumas reencarnações não foram um José mas uma Josefina, e vice versa! Mandem-me outra vez para o Inferno logo a seguir, mas deixem-me ver isso!

E falando de físicos e de aparências, e de quem vê caras não vê corações:


O homem, pelo Espírito, conserva traços físicos das existências anteriores nas suas diferentes encarnações? [pergunta]
– O corpo que foi anteriormente destruído não tem nenhuma relação com o novo. Entretanto, o Espírito se reflecte no corpo. Certamente, o corpo é apenas matéria, mas apesar disso é modelado de acordo com a capacidade do Espírito que lhe imprime um certo carácter, principalmente ao rosto, e é verdade quando se diz que os olhos são o espelho da alma, ou seja, é o rosto que mais particularmente reflecte a alma. É assim que uma pessoa sem grande beleza tem, entretanto, algo que agrada quando é animada por um Espírito bom, sábio, humanitário, enquanto existem rostos muito belos que nada fazem sentir, podendo até inspirar repulsa. Poderíeis pensar que apenas os corpos muito belos servem de envoltório aos Espíritos mais perfeitos; entretanto encontrais, todos os dias, homens de bem sem nenhuma beleza exterior. (…)

Tendo em vista que o corpo que reveste a alma na nova encarnação não tem necessariamente nenhuma relação com o da encarnação anterior, uma vez que em relação a ele pode ter uma procedência completamente diferente, seria absurdo admitir que numa sucessão de existências ocorressem semelhanças que não passam de casuais. Entretanto, as qualidades do Espírito modificam frequentemente os órgãos que servem às suas manifestações e imprimem ao semblante, e até mesmo ao conjunto das maneiras, um cunho especial. É assim que, sob o envoltório mais humilde, pode-se encontrar a expressão de grandeza e da dignidade, enquanto sob a figura do grande senhor pode-se ver algumas vezes a expressão da baixeza e da desonra. Algumas pessoas, saídas da mais ínfima posição, adquirem, sem esforços, os hábitos e as maneiras da alta sociedade. Parece que elas reencontram o seu ambiente, enquanto outras, apesar do seu nascimento e educação, estão nesse mesmo ambiente sempre deslocadas. Como explicar esse facto senão como um reflexo do que o Espírito foi antes? [Allan Kardec]

Ó Kardec, tu fazes ideia da snobeira que acabaste de pronunciar aqui? Só por causa disso já não te livras de mais duas ou três encarnações, aposto que como sem-abrigo, para que quando te vires roto e descalço percebas o que a “alta sociedade” pensa de ti e das tuas maneiras, e como estarão dispostos a aceitar-te de braços abertos para o chá das cinco devido ao teu “digno semblante” de Espírito avançado. Tu achas mesmo que alguém desses estupores dessa gente reconhece a majestade no semblante de um pobre?!
Desculpa lá, que conversa de rico!
Agora é assim: não me venhas responder esta noite, tocando-me com o dedo nas costas, porque me pregas um grande susto que não me apetece nada apanhar. Se quiseres, falaremos disto noutra altura, cara a cara, ou perispírito a perispírito, olha, no mundo dos Espíritos, tá?
(Estou a brincar, senhor Kardec. Não tenho a mínima apetência para discutir, com mortos ou vivos, os preconceitos das classes "finas", a que não pertenço e a que não tenho qualquer vontade de me associar por já lhes ter visto demais do que a minha conta. Mas lá está, é a expiação.)

Existem muitas passagens d'"O Livro dos Espíritos" que demonstram bem como esta era uma doutrina para as classes "superiores". Desde a linguagem à natureza dos temas abordados e às preocupações colocadas à apreciação dos Espíritos. Nota-se melhor do que qualquer mencionado vestígio de vidas anteriores podia deixar em qualquer rosto.
Desconheço a classe social preponderante dos espíritas actuais.



terça-feira, 8 de outubro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Reencarnação

Capítulo “Objectivo da Encarnação”

Qual o objectivo da encarnação dos Espíritos? [pergunta]
– A Lei de Deus lhes impõe a encarnação com o objectivo de fazê-los chegar à perfeição. Para uns é uma expiação; para outros é uma missão. Mas, para chegar a essa perfeição, devem sofrer todas as tribulações da existência corporal: é a expiação. A encarnação tem também um outro objectivo: dar ao Espírito condições de cumprir sua parte da obra da criação. Para realizá-la é que, em cada mundo toma um corpo em harmonia com a matéria essencial desse mundo para executar aí, sob esse ponto de vista, as determinações de Deus, de modo que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.


Capítulo “A reencarnação”

A alma tem, portanto, que passar por muitas por muitas existências corporais? [pergunta]
 – Sim, todos nós temos muitas existências. Os que dizem o contrário querem vos manter na ignorância em que eles próprios se encontram. Esse é o desejo deles.

O número de existências corporais é limitado ou o Espírito reencarna perpetuamente? [pergunta]
 – A cada nova existência, o Espírito dá um passo no caminho do progresso. Quando se libertar de todas as suas impurezas, não tem necessidade das provações da vida corporal.

O número de encarnações é o mesmo para todos os Espíritos? [pergunta]
 – Não; aquele que caminha rápido poupa-se das provas. Todavia, essas encarnações sucessivas são sempre muito numerosas, porque o progresso é quase infinito.

Em que se torna o Espírito após a sua última encarnação? [pergunta]
– Espírito bem-aventurado; é um Espírito puro.*

* Na terminologia de “O Livro dos Espíritos”, refere-se aos anjos. [Nota minha]


Capítulo “Justiça da reencarnação”

Em que se baseia o dogma da reencarnação? [pergunta]
– Na justiça de Deus e na revelação, e repetimos incessantemente: um bom pai deixa sempre para os seus filhos uma porta aberta ao arrependimento. A razão não vos diz que seria injusto privar, para sempre, da felicidade eterna todos aqueles cujo aprimoramento não dependeu deles mesmos? Não são todos os homens filhos de Deus? Só os homens egoístas podem pregar a injustiça, o ódio implacável e os castigos sem perdão.

Todos os Espíritos estão destinados à perfeição, e Deus lhes fornece os meios de alcançá-la pelas provações da vida corporal. Mas, na Sua Justiça, lhes permite cumprir, em novas existências, o que não puderam fazer, ou acabar, numa primeira prova.
Não estaria de acordo nem com a igualdade, nem com a bondade de Deus condenar para sempre os que encontraram, no próprio meio em que viveram, obstáculos ao seu melhoramento, independentemente de sua vontade. Se a sorte do homem estivesse irrevogavelmente fixada após a morte, Deus não teria pesado as acções de todos numa única e mesma balança e não agiria com imparcialidade. [Allan Kardec]

Uma vez disse aqui, meio a sério meio a brincar, que a reencarnação é como um jogo de computador. Em cada existência a alma pratica, ganha pontos, aperfeiçoa-se, e, quando consegue, sobe de nível. À parte as devidas distâncias, continuo a pensar que é isto sem tirar nem pôr.
Não gosto do objectivo final: ser um anjo. Confesso que a minha noção dos seres angélicos não é a melhor mas talvez esteja equivocada. Entretanto, enquanto estou ou não equivocada, seja mesmo este o objectivo último ou outra coisa (outra coisa perfeita, semelhante a um anjo), quem é quer trabalhar por uma felicidade "pura e eterna" em que não acredita?
Erro de marketing. Se não é erro de marketing é pior; é tirania. Ou chegas cá pelo pau ou pela cenoura, mas chegas cá. À perfeição.
Talvez os participantes nas sessões espíritas transcritas n'"O Livro dos Espíritos", publicado em 1857, não fizessem a mais pálida ideia da impressão que isto causa a pessoas do século XX. Talvez ficassem entusiasmados, esperançosos, uma alternativa ao Céu e ao Inferno, uma doutrina rebelde para a mentalidade do tempo. Saliento que se diz que o Espírito encarna em muitos mundos, não apenas na Terra, assumindo vários tipos de corpos físicos, adaptados ao mundo em que encarna. Considerando a data de publicação, quer se acredite que foi ditado pelos espíritos ou não, e que não pretende ser ficção científica, nem sequer ficção, mas religião!, é espantoso! Absolutamente espantoso!
Mas a alma do século XX vê, em vez disto, campos de concentração, lavagens cerebrais, cultos e seitas nocivas, extermínio em massa dos desobedientes. O século XX assistiu ao Apocalipse e pior. Estava previsto? Que no século XXI considerássemos ingénua esta doutrina, porque também este é um nível? O nível em que não acreditamos em perfeição, pureza ou felicidade? Em que não acreditamos em "acreditar"?
Diria antes que gosto de acreditar nesta explicação, porque faz sentido para mim. É lógico, é racional. O que não quer dizer que concorde com o "processo", mas faz sentido.
Na verdade, foi a única explicação plausível que encontrei para a minha existência e não pretendo separar-me dela. Na altura em que li "O Livro dos Espíritos", depois dos 25 e antes dos trinta, compreendi que a minha é uma vida de expiação. Tive esperança de que a expiação servisse igualmente o propósito de se transformar também numa vida de missão. Mas aos quarenta anos já não tenho dúvidas. Não estou aqui para cumprir uma missão nem para desfrutar dos prazeres da existência terrestre. Estou na prisão. Tenho a sorte de escrever cartas cá para fora, mas sem dúvida estou na prisão.

Mais quando o assunto o proporcionar.






sexta-feira, 4 de outubro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – O destino dos animais


Hoje, 4 de Outubro, é o Dia Internacional do Animal.



Capítulo “Os animais e o homem”

Se compararmos o homem e os animais sob o ponto de vista da inteligência, a linha de demarcação parece difícil de se estabelecer, porque alguns animais têm, sob esse aspecto, uma superioridade notória sobre alguns homens. Essa linha pode ser estabelecida de uma maneira precisa? [pergunta]
– Sobre esse ponto os vossos filósofos não estão de acordo em quase nada: uns querem que o homem seja um animal e outros que o animal seja um homem; todos estão errados. O homem é um ser à parte que desce muito baixo algumas vezes, ou que pode elevar-se bem alto. Fisicamente o homem é como os animais, e até menos dotado que muitos deles; a natureza deu aos animais tudo o que o homem é obrigado a inventar com a sua inteligência para satisfazer suas necessidades e sua conservação. É verdade que o seu corpo se destrói como o dos animais, mas o seu Espírito tem um destino que somente ele pode compreender, porque apenas o homem é completamente livre. Pobres homens que vos rebaixais além da brutalidade! Não sabeis vos distinguir? Reconhecei o homem pelo sentimento que ele tem da existência de Deus.


E quem diz que os animais não têm o sentimento da existência de Deus, se calhar maior, porque a terem-no será instintivo em vez de pensado e repensado? Quem é que o homem julga que é para saber o que sentem os animais só porque eles não falam (com o homem)?
Só porque eu não te falo de Deus não significa que eu não saiba o que é Deus. Posso achar que tu és demasiado limitado para me ouvires falar de Deus. 
E quanto àquelas pessoas mudas, surdas e cegas, que em tempos eram consideradas brutas como um animal porque não sabiam comunicar com outros humanos? Pode alguém dizer que essas pessoas não sabiam o que era Deus? Porque ninguém lhes ensinou o que era Deus? Nesse caso, igualmente não sabiam o que era o Amor, porque não conheciam a palavra para o Amor? Quem se atreve a insinuar que a espiritualidade tem que ser ensinada e não é inata?
Mais à frente os Espíritos dizem que o animal não conhece Deus. Se Deus nos passasse à frente, "disfarçado" ou invisível, e nós não o reconhecêssemos, quem nos garante que o animal, capaz de pressentir tempestades através de sentidos muito mais apurados que os nossos, não O reconheceria? Quem é o animal mais limitado, afinal?


Os animais têm livre-arbítrio de seus actos? [pergunta]
– Eles não são simples máquinas, como se pode supor; mas a sua liberdade de acção é limitada às suas necessidades e não se pode comparar à do homem. Sendo muito inferiores ao homem, não têm os mesmos deveres. A sua liberdade é restrita aos actos da vida material.

Se os animais têm uma inteligência que lhes dá uma certa liberdade de acção, há neles um princípio independente da matéria? [pergunta]
– Sim, e que sobrevive ao corpo.

Esse princípio é uma alma semelhante à do homem? [pergunta]
– É também uma alma, se quiserdes, depende do sentido que se dá a essa palavra; mas é inferior à do homem. Há entre a alma dos animais e a do homem tanta distância quanto há entre a alma do homem e Deus.


Sim! Os animais estão muito mais perto de Deus do que o homem alguma vez poderá estar.
Até por uma questão de lógica: os animais são as perfeitas criaturas, não questionam Deus. Não escrevem posts a duvidar da bondade de Deus. Não perguntam o porquê. Aceitam e existem e sofrem resignadamente. 
Pergunto mesmo: seria isto que Deus queria do Homem também?...


A alma dos animais conserva, após a morte, a sua individualidade e a consciência de si mesma? [pergunta]
– A sua individualidade, sim, mas não a consciência do seu eu. A vida inteligente continua no estado latente.

A alma dos animais tem a escolha de encarnar num animal em vez de outro? [pergunta]
– Não; ela não tem o livre-arbítrio.

A alma do animal, sobrevivendo ao corpo, estará, depois da morte, na erraticidade, como a do homem? [pergunta]
– É uma espécie de erraticidade, uma vez que não está mais unida ao corpo, mas não é um Espírito errante. O Espírito errante é um ser que pensa e age de acordo com sua livre vontade; o dos animais não tem a mesma faculdade. A consciência de si mesmo é que constitui o atributo principal do Espírito. O espírito do animal é classificado após a sua morte pelos Espíritos a quem compete essa tarefa e quase imediatamente utilizado; não há tempo de se colocar em relação com outras criaturas.

Os animais seguem uma lei progressiva, como os homens? [pergunta]
– Sim, por isso, nos mundos superiores, onde os homens são mais avançados, os animais também o são, tendo meios de comunicação mais desenvolvidos; mas são sempre inferiores e submissos ao homem, são para ele servidores inteligentes.

“Servidores inteligentes”: tenho para mim que este Espírito nunca conheceu um gato.


Os animais progridem, como o homem, pela acção da sua vontade ou pela força das coisas? [pergunta]
– Pela força das coisas. É por isso que para eles não há expiação.

Nos mundos superiores, os animais conhecem Deus? [pergunta]
– Não; para eles o homem é um deus, como antigamente os Espíritos foram deuses para os homens.

E como os animais foram deuses para os homens.


Os animais, mesmo os aperfeiçoados nos mundos superiores, são sempre inferiores ao homem. Isso significa que Deus teria criado seres intelectuais perpetuamente destinados à inferioridade, o que parece estar em desacordo com a unidade de vistas e de progresso que se distingue em todas as suas obras. [pergunta]

Grande pergunta!


– Tudo se encaixa na natureza pelos laços que não podeis ainda compreender, e as coisas mais desiguais na aparência têm pontos de contacto que o homem nunca chegará a compreender na sua condição actual. Ele pode entrevê-los pelo esforço da sua inteligência, mas somente quando essa inteligência tiver adquirido todo o desenvolvimento e estiver livre dos preconceitos do orgulho e da ignorância é que poderá ver claramente a obra de Deus. Enquanto isso não acontece, suas ideias limitadas lhe fazem ver as coisas sob um ponto de vista mesquinho e restrito. Sabei bem que Deus não pode se contradizer e que tudo, na natureza, se harmoniza pelas leis gerais que nunca se afastam da sublime sabedoria do Criador.

Assim, pode-se considerar que a alma teria sido o princípio inteligente dos seres inferiores da Criação? [pergunta]
– Não dissemos que tudo se encadeia na natureza e tende à unidade? É nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora, individualiza-se pouco a pouco e ensaia para a vida, como já dissemos. É, de algum modo, um trabalho preparatório, como a germinação, em que o princípio inteligente sofre uma transformação e torna-se Espírito. É então que começa o período de humanização e com ela a consciência do seu futuro, a distinção entre o bem e o mal e a responsabilidade de seus actos. Assim como depois da infância vem a adolescência, depois a juventude e, enfim, a idade adulta. Não há, além disso, nessa origem nada que deva humilhar o homem. Será que os grandes génios se sentirão humilhados por terem sido fetos em formação no seio da sua mãe?
Se alguma coisa deve humilhá-lo é sua inferioridade perante Deus e sua impotência para sondar a profundidade dos seus desígnios e a sabedoria das leis que regem a harmonia do universo. Reconhecei a grandeza de Deus nessa harmonia admirável que faz com que tudo seja solidário na natureza. Acreditar que Deus pudesse fazer alguma coisa sem objectivo e ter criado seres inteligentes sem futuro seria blasfemar contra a sua bondade, que se estende sobre todas as suas criaturas.

A bondade de Deus! Não blasfememos contra a bondade de Deus que criou seres destinados a milhões e milhões e milhões de reencarnações em que sofrem a dureza dos elementos e a crueldade da natureza, e a crueldade e insensibilidade do homem, sendo maltratados, caçados, abatidos, torturados, comidos, por outros animais e pelo homem. Seres destituídos de inteligência suficiente para se revoltarem ou acusarem, ou sequer compreenderem.
A bondade de Deus.


Esse período de humanização começa na Terra? [pergunta]
– A Terra não é o ponto de partida da primeira encarnação humana; o período de humanização começa, em geral, nos mundos ainda mais inferiores; entretanto, essa não é uma regra geral, e poderia acontecer que um Espírito, desde o começo da sua humanização, estivesse apto a viver na Terra. Esse caso não é frequente; é, antes, uma excepção.

Capítulo “Metempsicose”

O Espírito que animou o corpo de um homem poderia encarnar num animal? [pergunta]
– Isso seria retroceder e o Espírito não retrocede. O rio não retoma à sua fonte.


Conclusão, os animais têm uma alma que sobrevive à morte. Os seres humanos não reencarnam como animais (não retrocedem). O destino e progressão da alma dos animais é incerto e misterioso, mas existe. Nunca se diz que alguns animais não atinjam a progressão suficiente para serem homens. Talvez isto explique a quantidade de bestas de duas patas que acabaram de sair do animal e são agora humanos (há muito pouco tempo). Enquanto não evoluírem, continuarão a ser bestas, por muito humanos que sejam em aparência. O mundo está cheio deles.
(Talvez não seja exactamente assim que acontece a progressão dos animais, mas era uma boa explicação para o fenómeno.)

Tenho mais a dizer sobre o assunto. Escrevi o parágrafo acima numa intenção meramente crítica e impregnada do sarcasmo habitual. Mas depois pensei melhor sobre o assunto. O que distingue o homem do animal é a consciência moral, isto é, a capacidade de conhecer o Bem e o Mal (o que não é a mesma coisa que conhecer Deus; Deus podia nem existir e continuaríamos a conhecer o Bem e o Mal). O animal não tem esta consciência moral que só o intelecto permite desenvolver, age por instinto, mata e come sem remorso porque nunca questiona o Bem e o Mal dos seus actos. Nem poderia questionar porque o seu intelecto não é a esse nível desenvolvido. Imaginemos, pelo exercício que proporciona, colocar uma alma animal, amoral e instintiva, num corpo humano com um cérebro superior. Teremos um monstro. O que antes era natural e instintivo, mas desculpável pela falta de intelecto, torna-se agora, inteligente mas sem consciência moral, numa criatura capaz de tudo para satisfazer os seus apetites, inclusivamente matar, sem remorsos nem compaixão nem capacidade de sentir empatia. E temos aqui a definição de sociopata. Isto fez-me pensar.
Não me chocaria que o sociopata fosse as primeiras encarnações do animal no homem, mas já não animal porque já homem, e já não necessitando de protecção porque intelectualmente desenvolvido para se defender a si mesmo. Logo, definitivamente já não animal. Mas, sem consciência moral, já inteiramente homem? É uma pergunta que tenho feito a mim mesma e considerado que é perigoso responder-lhe, com ou sem reencarnação.
Mas uma questão pertinente quando se discute a superioridade e/ou inferioridade do homem e do animal.

Seria verdadeira a ideia da metempsicose se ela se definisse como sendo a progressão da alma de um estado inferior a um estado superior em que adquirisse desenvolvimentos que transformassem sua natureza. Porém, é falsa no sentido de transmigração directa do animal para o homem e vice-versa, o que dá ideia de um retrocesso ou de uma fusão (…)
O ponto de partida dos Espíritos é uma dessas questões que se ligam ao princípio das coisas e que estão nos segredos de Deus. Não é permitido ao homem conhecê-lo de maneira absoluta, e ele somente pode fazer a esse respeito suposições, construir sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios Espíritos estão longe de conhecer tudo; sobre o que não sabem podem também ter opiniões pessoais mais ou menos sensatas.
É assim, por exemplo, que nem todos pensam a mesma coisa a respeito das relações que existem entre o homem e os animais. Segundo alguns, o Espírito só alcança o período de humanidade após ter sido elaborado e individualizado nos diferentes graus dos seres inferiores da Criação; segundo outros, o Espírito do homem teria sempre pertencido à raça humana, sem passar pela experiência animal. (…)
Quanto às relações misteriosas que existem entre os homens e os animais, está aí, nós repetimos, o segredo de Deus, como muitas outras coisas cujo conhecimento actual não importa ao nosso adiantamento e sobre as quais seria inútil insistir.
[Allan Kardec]


Penso que por esta altura já seria muito útil ao nosso adiantamento, quando já alguém disse que o desenvolvimento de uma civilização se pode medir pela maneira como se tratam os animais (posterior a Kardec).
Achei engraçado quando Kardec diz dos Espíritos: "Segundo alguns, o Espírito só alcança o período de humanidade após ter sido elaborado e individualizado nos diferentes graus dos seres inferiores da Criação; segundo outros, o Espírito do homem teria sempre pertencido à raça humana, sem passar pela experiência animal."
Imagino as discussões acaloradas durante essas sessões de espiritismo do século XIX, e ainda não tinham chegado "lá acima" os darwinistas!
Se a teoria de que o homem podia ter evoluído do macaco já fazia impressão a muita gente, esta ideia que defende que as origens do Espírito (mais importante porque ainda de maiores implicações religiosas do que a evolução do corpo) começam numa fase pré-humanização, isto é, que o Espírito já foi menos do que homem, talvez até menos do que animal, era uma ideia que não podia ter muitos amigos.
Esta parte das respostas dos Espíritos não é clara. Insinua-se que o (pré-)espírito do homem animou o animal (ou menor que isso) antes de ser um Espírito humano, mas nunca revela mais do que aquilo que transcrevi.





terça-feira, 1 de outubro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Natureza e progressão dos Espíritos


Capítulo “Origem e Natureza dos Espíritos”

Compreende-se que o princípio de onde emanam os Espíritos seja eterno, mas o que perguntamos é se a sua individualidade tem um fim e se, num dado momento, mais ou menos longo, o elemento do qual são formados se dispersa e retoma à massa de onde saiu, como acontece com os corpos materiais. É difícil compreender que uma coisa que começou não possa acabar. Os Espíritos têm fim? [pergunta]
– Há coisas que não compreendeis, porque a vossa inteligência é limitada. Mas isso não é razão para serem rejeitadas. (…) Nós vos dizemos que a existência dos Espíritos não acaba; é tudo o que, por agora, podemos dizer.

É curioso. Aqui há uns anos cheguei à conclusão de que não é difícil para o intelecto humano conceber algo sem fim; o que é difícil, senão impossível, é conceber algo sem princípio.
É por isso que, apesar de termos uma teoria plausível para o começo do universo, o Big Bang, continuamos a questionar: e o que aconteceu antes do Big Bang? E antes disso? E antes disso?...
Compreendemos a eternidade, mas até a eternidade teve que ter um princípio. Algo que não tem princípio faz-nos muito mais confusão do que algo que não tem fim, e considero isso muito curioso. Muito humano, digamos assim, porque Deus não teria princípio nem fim: seria perpétuo. Essa noção de perpetuidade, sem princípio nem fim, escapa-nos. Não nos escapa o não ter fim, sabemos que muitas coisas não têm fim. Mas tudo tem que ter um princípio ou não o compreendemos.
Pergunto-me mesmo como é que podíamos ter inventado a noção de um Deus sem princípio, se a noção nos escapa. Muitos deuses "primitivos", chamemos-lhes assim, tinham um princípio. Havia toda uma série de lendas de como tinham surgido, de onde tinham nascido, quem eram os seus pais e quem eram os seus filhos. Era fácil de perceber. Seria de esperar que a nossa concepção moderna de Deus fosse ainda mais fácil de perceber, porque somos mais científicos e menos crédulos e não gostamos de coisas que ultrapassem a nossa compreensão porque nos julgamos capazes de compreender tudo, mas, pelo contrário, a nossa concepção de Deus é muito mais complexa. Criámos, finalmente, um Deus que nos ultrapassa, ou Ele deu-Se a conhecer? Deixo a cada um responder.



Capítulo “Materialismo”

O homem tem o pensamento instintivo de que nem tudo se acaba quando cessa a vida. Tem horror ao nada. Ainda que teime e resista inutilmente contra a ideia da vida futura, quando chega o momento supremo são poucos os que não se perguntam o que vai ser deles; a ideia de deixar a vida e não mais retornar é dolorosa. Quem poderia, de facto, encarar com indiferença uma separação absoluta, eterna, de tudo o que amou? Quem poderia, sem medo, ver abrir-se diante de si o imenso abismo do nada onde se dissiparão para sempre todas as nossas capacidades, todas as nossas esperanças (…)
Temos uma alma, sim, mas o que é a nossa alma? Ela tem uma forma, uma aparência qualquer? É um ser limitado ou indefinido? Uns dizem que é um sopro de Deus; outros, uma centelha; outros, uma parte do grande Todo, o princípio da vida e da inteligência, mas o que tudo isso nos oferece? O que nos importa ter uma alma se depois da morte ela se confunde na imensidade como gotas de água no oceano? A perda da individualidade não é para nós o mesmo que o nada? [Allan Kardec]

A primeira vez que ouvi falar de certas doutrinas místicas que defendem que após a morte a alma regressa a Deus, "dissolvendo-se" Nele, confesso que fiquei muito assustada. Estava preparada para a morte, até para a morte do pó e do nada, mas a ideia de ser "sugada", como uma força vital, para dentro de um Deus, dava-me calafrios. Essa seria a Morte de todas as mortes. Mas, pensando melhor, Allan Kardec tem razão. Uma vez "dissolvida" a individualidade no todo, desapareceria também a consciência de ter sido dissolvido, ou de estar morto, ou de alguma vez ter existido, ou meramente de ser. É o mesmo que a morte do pó e do nada e não deve assustar nem mais nem menos. É outra espécie de nada.



Capítulo “Progressão dos Espíritos”

Os Espíritos são bons ou maus por natureza ou são eles mesmos que se melhoram? [pergunta]
São os próprios Espíritos que se melhoram, passando de uma ordem inferior para uma ordem superior.

Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, ou seja, sem conhecimento. Deu a cada um uma missão com o objectivo de esclarecê-los e de fazê-los chegar, progressivamente, à perfeição pelo conhecimento da verdade para aproximá-los de Si. A felicidade eterna e pura é para os que alcançam essa perfeição. Os Espíritos adquirem esses conhecimentos ao passar pelas provas que a Lei Divina lhes impõe. Uns aceitam essas provas com submissão e chegam mais depressa ao objectivo que lhes é destinado. Outros somente as suportam com lamentação e por causa dessa falta permanecem mais tempo afastados da perfeição e da felicidade prometida.

Há Espíritos que permanecerão perpetuamente nas classes inferiores? [pergunta]
Não, todos se tornarão perfeitos. Eles progridem, mas demoradamente. Como já dissemos, um pai justo e misericordioso não pode banir eternamente os seus filhos. Pretenderíeis que Deus, tão grande, tão bom, tão justo, fosse pior do que vós mesmos?

É caso para responder que há pais muito maus, muito maus, muito maus, entre "nós mesmos". Péssimo exemplo que este Espírito foi buscar.

Os Espíritos podem se degenerar? [pergunta]
Não; à medida que avançam, compreendem o que os afasta da perfeição. Quando o Espírito acaba a prova, fica com o conhecimento que adquiriu e não o esquece mais. Pode ficar estacionário, mas retroceder, não retrocede.

Deus não poderia isentar os Espíritos das provas que devem sofrer para atingir a primeira ordem? [pergunta]
Se tivessem sido criados perfeitos, não teriam nenhum mérito para desfrutar dos benefícios dessa perfeição. Onde estaria o mérito sem a luta? Além do mais, a desigualdade entre eles é necessária para desenvolver a personalidade, e a missão que realizam nessas diferentes ordens está nos desígnios da Providência para a harmonia do Universo.

Porque alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal? [pergunta]
Não têm eles o livre arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os simples e ignorantes, ou seja, com as mesmas aptidões tanto para o bem quanto para o mal, os que são maus o são por vontade própria.

Nunca se questiona n'"O Livro dos Espíritos" algo muito simples: porque é que Deus pensou que as suas criaturas haveriam de ficar contentes por terem sido criadas? É a primeira pergunta de todas. Depois se pode partir para as outras: porque é que as criaturas, dotadas de inteligência e opiniões pessoais e grandes diferenças entre si, haveriam de aprovar este "sistema educacional", por assim dizer? Porque é que as criaturas haveriam de ter todas a mesma noção de felicidade, especialmente a "eterna e pura", já para não falar na "perfeição", se o que para uns é bonito para outros é feio? Andamos sempre na mesma questão. Deus criou-nos assim de propósito, uns submissos outros rebeldes, porque queria que fôssemos diferentes, ou a Experiência correu mal? Se a Experiência de Deus não pode correr mal, se nos criou assim de propósito, criou algumas criaturas propositadamente para serem infelizes no "sistema"?
"O Livro dos Espíritos" nunca questiona nada disto porque foi publicado em 1857. Diz-se, muitas vezes, de muitas maneiras, "quem sois vós para questionar a sabedoria dos desígnios de Deus?" Depois do século XX tudo se questiona. Tudo se pergunta. Tudo se quer saber. É nesta falta de existencialismo desassombrado que o livro mostra a sua idade.
Mas, tendo isto em conta, não é caso para desistir.





sábado, 28 de setembro de 2013

sem título

O bruxo veio ler-me a mão
viu viagens, viu amantes
mas disse-me, sem compaixão:
“Filhos, não terás não!”

Na linha da minha vida
já não há muito tempo a perder
Pelo caminho fingi-me esquecida
dos sonhos que sonhei ter.

Não me chores quando eu for,
porque agora vou feliz.
Conheci por fim o amor
antes de ir, quando te quis…

Se tu não és último,
próximo deves estar do final.
Na tua mão sou um passarinho doente
à espera da morte invernal.



6/10/1995



terça-feira, 24 de setembro de 2013

Mais silêncio


Mais silêncio


Um segredo é…
Uma promessa calada.
Os dias passam por mim
mas não falo, não direi nada.

Os dias passam e passam
e os loucos enlouquecem
O silêncio mata tudo
e as mentiras permanecem.

Dizem-me que estou viva,
que tenho o futuro na mão.
Dizem-me que o passado morreu
mas nunca lhe vi o caixão.


26/9/1995



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

sem título


Pedir paixão aos mortos
é uma loucura desmedida
não há calor no que está frio
não há vida depois da vida.



6/10/1995