domingo, 18 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 20


SILÊNCIO

Nas almas dos mortos e dos corações ardentes
as chamas revolvem-se nas montanhas geladas
As palavras indizíveis
As vidas cortadas rente, dizimadas
As incisões indescritíveis
As palavras insuportáveis
as dores, as dores abandonadas
as outras descobertas e mais tarde exumadas
no bater calmo dos corações
das palavras insuportáveis
das torturas implacáveis, implacáveis
do sangue nas montanhas geladas
Pelo irromper calmo dos vulcões
Pelo bater mortal dos corações
as dores das palavras torturadas
o gelo sangrento das montanhas caladas
As torturas jamais acabadas
Os mortos com almas exumadas
O eterno descanso das montanhas geladas
O sangue das palavras caladas
O sangue dos mortos implacáveis
nas torturas criminosas infindáveis
o gelo das chamas torturadas
pela morte das almas trespassadas.

3091990

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

(falta de) Literatura gótica em Portugal - 1ª parte



"A Literatura 'Negra' ou de Terror em Portugal (séculos XVIII e XIX)" de Maria Leonor Machado de Sousa (1978, Editora Novaera) visa, citando a nota introdutória da obra completa, "dar uma melhor compreensão do género e a integração do caso português nas correntes da literatura europeia. Quanto à bibliografia do 'terror' português pré-romântico e romântico, foi possível, entretanto, acrescentar-lhe mais alguns títulos".
Li este livro, da autoria desta professora da Universidade Nova de Lisboa, na confessa expectativa de encontrar nomes e obras, portugueses, na categoria do gótico e/ou sobrenatural algures enterrados no que a (des)intelectualidade do século XX considera inferior e indigno de ser mencionado nas escolas. Infelizmente, nem enterrados existem, ou se existiram, de tão enterrados, desapareceram.
Como tudo nestas coisas do sobrenatural, não é por falta de provas que deixo de acreditar que existiram (porque é impossível não terem existido em Portugal quando existiram na Europa toda) mas essa discussão fica para mais à frente.
Descobri, mesmo assim, com a leitura deste livro (que li duas vezes e podia ter lido três por tantos e tão interessantes excertos que apresenta), vestígios de um outro país literário que não se ensina na escola dos Eças e dos Camões (e, temo bem, mais recentemente, dos Saramagos, de que felizmente consegui escapar-me a tempo). Descobri, por exemplo, os pormenores tétricos da cabeça mumificada na obra de Camilo Castelo Branco. E pensar que fui obrigada a estudar Camilo (não desgostei, mas não é isso que interessa agora) e passou-me ao lado exactamente o que me interessaria mais!
Mas não nos excitemos. Este pormenor tétrico de Camilo (a que, por outro lado, e bem, a recente série "Mistérios de Lisboa" soube dar o devido destaque) perde-se na moda maciça do romance social da época e em termos do sobrenatural/terror não chega a ser um ponto distante no horizonte que só nos espanta porque é de Camilo (onde não o esperávamos daquilo que dele se aprende na escola), e tão só.
O resto é um deserto. Fica a pergunta: é um deserto porque não havia nada, ou porque o que havia foi coberto de pó? Inclino-me para esta segunda hipótese.

Mas temos de começar pelo início. Não é possível compreender a literatura sobrenatural (ou gótica, ou de terror, ou 'negra', nas palavras da autora, e reservo-me o direito de, por agora, meter tudo no mesmo saco) sem perceber a época em que Horace Walpole decidiu escrever "O Castelo de Otranto" , em 1764 (ver este post e este), sob pseudónimo e recorrendo ao estratagema de o apresentar como a tradução de um manuscrito medieval. O que poderia levar um escritor a fazer tal coisa, perguntam os leitores do século XX e XXI? Não nos entra na cabeça porque a época passou. Em "A Literatura 'Negra' ou de Terror..." a autora exprime com maestria o ambiente que rodeou esta obra inicial e o encadeamento que surgiu dela. A todos os interessados na cultura (e literatura) gótica recomendo, por isso, e vivamente, a leitura de "A Literatura 'Negra' ou de Terror...", se lhe conseguirem pôr os olhos em cima (o meu exemplar foi emprestado e ao dono regressará). Mas se lhe conseguirem pôr os olhos em cima nunca mais verão o sobrenatural com os mesmos olhos. ;)
Curto e grosso e nas minhas palavras: era o século dezoito. O século das Luzes. O século da ciência "positiva" (como lhe chamavam, porque era moda). O século em que era moda não acreditar em nada, nem em Deus. Foi o século dos iluminados.
[É curioso como a palavra "iluminado" deu uma volta de 180 graus e é agora usada no sentido pejorativo excepto no seu conceito de iluminação mística se bem que de proveniência oriental. Os "iluminados" foram derrotados.]
No século iluminado da ciência e da máquina a vapor qualquer homem de intelecto que confessasse acreditar, ou ter simpatia, ou sequer interessar-se pela superstição e pelo sobrenatural era visto como... bem, um parolo. Toda a sua reputação de homem das luzes, de homem moderno, "positivo", arruinada. Horace Walpole, por não ser parolo, não quis ser parolo.
Claro que este extremismo não podia durar para sempre. A contra corrente de literatura de terror que se popularizou a partir do século seguinte bem o comprova. Digo "popularizou" porque o preconceito da elite intelectual manteve-se.
Manteve-se tanto, mas tanto, que ainda hoje a literatura e o cinema de terror são considerados pelas elites, as ditas cultas, produtos inferiores para consumo das massas.
Já começava a ser altura de se encarar a literatura de terror pelo que é, muitas vezes uma representação da realidade mais verídica, porque velada, do que qualquer romance "baseado em factos reais" que a elite cultural gosta de glorificar como supra sumo da obra cultural. Neste aspecto, estamos ainda culturalmente, em termos de literatura e cinema, ao nível da pintura realista: é bonito porque é natural. A nível literário, e cinematográfico, ainda não se dá o devido valor ao fantástico e ao surrealista. A elite cultural continua, como os iluminados do século dezoito, ao nível das naturezas mortas. Darei um bom exemplo na segunda parte.
Os espíritos fortes e científicos deste século das Luzes chegaram ao ponto de considerar que as obras de Shakespeare deviam ser amputadas das suas cenas sobrenaturais. Fantasmas e bruxas, tudo isso passaria de moda! Era desnecessário. Tivesse prevalecido esta moda e hoje teríamos "Hamlet" sem o fantasma e, mais provável igualmente, sem a célebre caveira.
A esta corrente reagiu com todo o vigor que lhe conhecemos a explosão emocional do Romantismo.
Mas não nos interessa aqui o Romantismo como um todo mas apenas a parte que nos toca.



Manifestações pré-românticas

Não começou, todavia, com Walpole. São tão importantes, estas manifestações pré-românticas, que tentarei resumir aqui (demasiado apressadamente, porém, porque a obra é tão rica como vasta) as frases fundamentais com que a autora estabelece os primórdios e a evolução da "poesia da noite e dos túmulos".
O Romantismo foi fundamentalmente uma atitude, uma atitude de reacção contra o convencionalismo que imperava em todas as esferas da vida; conhecia aquilo a que reagia, mas não tinha um rumo a seguir, lançou-se com entusiasmo nos vários e por vezes antagónicos caminhos (...) a título de manifestações pré-românticas. (...)
Esse interesse pelo povo, que levou o Romantismo à compreensão da Idade Média a sua descoberta fundamental , teve realmente consequências que os coleccionadores de baladas não podiam prever (...)
A reacção fez-se no sentido de uma maior sinceridade, buscando-se uma aproximação da natureza: da natureza humana, revelando as manifestações artísticas do povo, não limitado pela civilização; da natureza ambiente, substituindo o bucolismo convencional por descrições fiéis, revelando-a como é na verdade, bela ou árida, alegre ou lúgubre, calma ou aterradora. (...)
A poesia nocturna é ainda um regresso à natureza; a  uma natureza especial, propícia à melancolia, é um desenvolvimento dos quadros outonais e principalmente de Inverno da poesia puramente descritiva.

A "fusão desta corrente melancólica e nocturna" deu-se com a outra, "de inspiração sepulcral, cultivada por poetas pregadores, que apontam aos homens a visão do túmulo, onde tudo acaba". O encontro destas duas correntes vai dar início à chamada "poesia da noite e dos túmulos",

que durante quase um século apresentou a uma Europa melancólica os quadros lúgubres de cemitérios, cadáveres e esqueletos. Mas o elemento macabro não é uma novidade pré-romântica. O Cristianismo, lembrando ao homem "que é pó, e em pó se há-de tornar", guia-lhe o pensamento para a contemplação principalmente da caveira, que os eremitas levavam para as suas grutas, para que lhes lembrasse como são fugazes os dons humanos. (...) O século XV é o século das danças macabras na arte e dos temas macabros na poesia. É à mesma inspiração que se ligam as cenas do cemitério, no quinto acto de Hamlet, onde este assunto toma a forma duradoira que o levaria aos tempos modernos.
Com o advento da Renascença, a literatura sepulcral desapareceu, conservando todavia o Cristianismo o espírito que a ela levara. (...)
Passado o deslumbramento da Renascença, a meditação sobre a morte vai ressurgindo. (...)
Sendo esta meditação sobre a morte um fenómeno europeu, porque é em Inglaterra que surge e principalmente se desenvolve a poesia tumular? Parece que se deve procurar a razão no Puritanismo do século XVII, que foi realmente uma força em Inglaterra e sobretudo na Escócia, levando os homens a uma concepção lúgubre da vida e a uma meditação constante sobre a morte, meditação que, nesta poesia (geralmente escrita por padres, em contacto directo com a doença e a morte), é muitas vezes acompanhada de descrições muito realistas, que degeneram no macabro.
 
Agora a parte que nos interessa:

Ao fugir para os lugares abandonados pelos homens, o poeta melancólico encontrou o cenário conveniente à sua meditação (...) Dos poetas tumulares, é Gray o primeiro que dá atenção às ruínas, notando a "torre coberta de hera", de onde "o mocho triste dirige à lua os seus lamentos"

Chamo a atenção para que nós também tivemos isto, com Bocage e os seus mochos piadores!

Oh retrato da morte, oh noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto! 

(...)
E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!
Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores. 


Escusado será dizer que não foi este o poema que celebrizou Bocage.

Surge agora, pela primeira vez, o termo "gótico", tão empregado durante o século XVIII em Inglaterra.

Não, não foi o manager dos Joy Division que inventou o termo "gótico".

"Poetas a quem falta o poder do génio para dar à natureza aquela simplicidade magestosa, que nós tanto admiramos nas obras dos antigos, são obrigados a procurar ornatos estranhos e a não deixar que lhes escape qualquer fragmento de engenho, de toda a espécie. Considero Godos em poesia estes escritores, que, como os arquitectos, não sendo capazes de se elevar à bela simplicidade dos antigos Gregos e Romanos, procuraram substituí-la por todas as extravagâncias de uma fantasia desregrada.
Tenho procurado, em várias das minhas dissertações, banir este gosto Gótico que se instalou entre nós". [Addison, Essays, grafia original apresentada em "A Literatura 'Negra' ou de Terror..."]

O maldito gosto Gótico, que o autor considera sinónimo de bárbaro Godo (dos Godos, os verdadeiros goths), por cá permanece.
O "Castelo de Otranto" provocou, como se sabe, uma legião de seguidores ávidos por se libertarem do espartilho imposto por um racionalismo ignorante dos mecanismos psicológicos do terror como projecção da realidade.
Não deixo de salientar, porém, uma outra moda que começou quase de imediato e que só muito recentemente deixou de fazer efeito: os escritores que, no género de Arthur Conan Doyle, cozinhavam um ambiente aparentemente sobrenatural para depois o explicarem por causas naturais: não era sangue, era apenas ferrugem; não era um vampiro, era veneno; não era um fantasma, era uma senhora envolta num lençol. O próprio Bram Stoker caiu neste disparate com "The Lady of the Shroud". Como todos os amantes de sobrenatural muito bem sabem, e os autores de sobrenatural melhor ainda, o sobrenatural só se explica com mais sobrenatural (ou não se explica de todo). Infelizmente, alguns autores de respeito ainda se aventuram levianamente a enveredar pelo sobrenatural para depois o tentarem explicar com ficção científica (versão moderna da "ferrugem"). Não sei o que é pior. O resultado é sempre mau. E bastantes vezes mais ridículo do que a senhora envolta no lençol, que até tem uma certa piada. Não compreendo o apelo. Antes a inexplicável e tresloucada aparição do gigante fantasmagórico de Otranto.


A escola gótica

Orientada ainda pelo ideal trágico do classicismo, a escola gótica procurava excitar terror pelo manobrar do misterioso e do sobrenatural e pela alimentação constante da expectativa (suspense) e compaixão

Inspirar terror e compaixão eram os objectivos da tragédia grega clássica.

O romance gótico é essencialmente um romance sentimental, em cuja intriga de amor intervém o sobrenatural e o misterioso, ou ao lado das potências maléficas, contra as quais lutam as virtudes dos heróis, ou servindo-se de poderes ocultos para fortalecer e defender essas mesmas virtudes. (...)
Qualquer história, de qualquer época, pode tornar-se assunto de um romance gótico, principalmente se lhe forem adicionados certos elementos cénicos, a criar ambiente.

Não foi inocentemente que me referi, acima, à corrente literária que estamos a analisar como literatura sobrenatural, ou gótica, ou de terror, ou 'negra', tudo no mesmo saco. Durante os primórdios, os temas dos romances andavam mesmo todos no mesmo saco. Fantasmas, crimes, demónios, salteadores, lendas... tudo metido no grande saco "gótico". Não existia a separação clara que temos hoje do que é o policial, o terror, o romance histórico... Era mesmo tudo no mesmo saco. Talvez tenha sido esse ambiente de peripécias várias e pouco especializadas que levou, na altura, ao afastamento de um público mais intelectual e menos receptivo à teatralidade de sangue e trovões na noite escura com que se horrorizavam as damas de então. Atingiu-se o absurdo.



Continua.




quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 19


AS ARMAS DA INTELIGÊNCIA

Há momentos na solidão
momentos de grande silêncio
momentos em que falam pedras
gravadas de reflexão
Porque as palavras ferem
Sem que os olhos as imitem
Porque os artifícios da eloquência
obrigam que exagerem
As palavras, essas palavras punhais,
as armas da inteligência
enterram-me por vezes
na estupidez da eloquência
Mais vale que o silêncio encha
os meus olhos cansados
do que voem palavras ocas
destes lábios despedaçados.

1081990

sábado, 10 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 18


ABANDONO

As pequenas estrelas cintilam, receosas
dominam sobre o tempo
tornam-se corajosas
brilham no firmamento.
As minhas velas caem, ansiosas,
nos braços do mar e do vento.
Existem dias como este
em que as noites são longas e frias
as pessoas são tardias
Não existe paz neste mar
Nem nos desertos em redor
e nas ilhas de vulcões fumegantes
perdem-se rastos de náufragos viajantes
que afundaram os navios nas ondas da tarde
em troca de muitos oceanos
em busca da liberdade.

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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 17




Os fantasmas do passado
perseguiram-me neste dia
Oh, como os odeio!
Os espectros do futuro
assolaram-me a mente
Oh, como odeio os do presente!

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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 16


Ondas Altas, Grande Amor

Ah, se eu pudesse com o amor que te tenho
Contar as estrelas todas do mar
faria de ti sereia a navegar
nas ondas lentas do meu lenho.

Serias tu para mim a estrela do Norte
que guia as milhas dos navegantes
Seriam meus olhos perdidos infantes
mãozinhas erguidas nas ondas da morte.

E seriam meus olhos infantes perdidos
no mar de sargaços para sempre escondidos
entre as tábuas de amor do meu lenho

Seriam pequenas conchas do mar
Que eu mandaria a ti te contar
Todas as estrelas que por ti tenho.

1981989








Comentário: Se eu alguma vez escrevi um poema, foi este.