quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Gotika: arquivos Março 2004

março 29, 2004

Pensamento do dia II

"Um pessimista é alguém que olha para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único."

Laurence J. Peter

Publicado por _gotika_ em 04:11 AM | Comentários: (19)




Pensamento do dia I

"Lançar um osso a um cão não é caridade. Caridade é partilhar o osso com o cão quando se tem tanta fome como ele."

Jack London

Publicado por _gotika_ em 04:09 AM | Comentários: (6)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Chelsea Quinn Yarbro: "Olivia"

*contém spoilers*

Quem gosta de literatura de vampiros já deve ter ouvido falar de Chelsea Quinn Yarbro, ou pelo menos da sua famosa personagem o Conde de Saint Germain. Foi nos fóruns da especialidade que a saga Saint Germain me foi aconselhada. Pesquisei por onde começar (nestas coisas das sagas tento ser cautelosa) e descobri que havia uma vampira: Olivia. Diz muito de mim que nesse momento tenha imediatamente decidido ler os livros de Olivia primeiro. Até agora li dois: "A Flame in Byzantium", como o nome indica passado em Bizâncio (Constantinopla, hoje Istambul) nos dias em que os bárbaros saqueavam o império romano, e "Crusader's Torch", quinhentos anos mais tarde em plena Idade Média. Isto torna Olivia uma vampira muito antiga. Nunca fiz as contas mas a rondar os 1000 anos, mais século menos século.
A minha expectativa era grande. Confesso que tinha em mente uma outra vampira, a de Anne Rice, de alcunha Pandora e de nome Lydia, a predadora. A amante de Marius, quando eram "novos". Sempre achei que o talento de Anne Rice se gastou demasiadamente nos vampiros do sexo masculino. Apetecia-me uma vampira. Uma Olivia, romana, trigueira, de pêlo na venta e fartos seios, que os sugasse e deitasse fora como quem troca de camisa. Fui avisada para o teor erótico de certos episódios, mas não fazia mal se Olivia os comesse de todas as maneiras. Uma vampira milenar, uma deusa, uma rainha!
Não ponho as culpas em Yarbro, mas não me saiu o que eu estava à espera. Em vez de um hino ao feminismo... saiu-me uma vampira ruiva (ruiva!), doce, boazinha, esfomeada de afecto. Capitães romanos, cruzados, nobres árabes, e mais o que calhar entretanto, não consigo levar a mulher a sério. Mas antes de lhe chamar "oferecida" calhava bem explicar o que já compreendi da mitologia destes vampiros. Não apreendi tudo, o que é natural numa saga quando não se lê do princípio. Os vampiros de Chelsea Quinn Yarbro não são invulneráveis. Ainda não percebi até que ponto os seus corpos imortais podem morrer de golpes fatais. Fico na dúvida porque Olivia tem horror às viagens no mar (da mitologia que os vampiros não podem deslocar-se sobre água), que a enfraquece fisicamente, e uma dos seus maiores terrores é naufragar, terminar no fundo do mar, consciente, incapaz de se mexer, comida pelos peixes. Mas não morta. O sol não os mata mas retira-lhes a força, pelo que podem viver à luz do dia, mas não comem nem bebem alimentos (o que lhes causa o transtorno de tentar arranjar desculpas para o explicar). Precisam, para se fortalecer, da terra natal literalmente sob os pés (como "Drácula").
Agora vamos à parte que interessa, o sangue. Estes vampiros, como Olivia, pelo que percebi, podem sobreviver de sangue de pessoas ou animais, mas não ficam saciados se não o beberem durante um encontro sexual, e agora sim, a parte melhor, mas não um qualquer encontro sexual! Para ficar saciada, Olivia tem de encontrar o amor, a paixão, a entrega, a total partilha de um amante.
Pobre Olivia, bem está condenada a passar fome eternamente, digo eu que sou cínica.
E a autora também não é romântica. Em dois livros, Olivia tem dois amantes, nenhum deles acredita que é vampira por mais que lhes diga, nenhum a compreende, nenhum a ama, nenhum consegue resistir à atracção puramente sexual, ambos a deixam, cada um à sua maneira. Mil anos depois, Olivia ainda escreve cartas apaixonadas ao seu primeiro amante imortal, o Conde Saint Germain, que não a vê há igual tempo e que partiu algures para parte incerta na Ásia.
Como levar a sério esta mulher?! Uma vampira, ainda por cima! A fazer figuras destas! Onde está o teu orgulho, Olivia? Um pouco mais de auto-estima, mulher! És boa demais para eles! Antes morrer de fome, Olivia! Antes morrer de fome!
Olivia tem um mordomo, vampiro de nome grego impronunciável, Niklos Aulirios, uns séculos mais novo, que lhe é leal como um cão. Parece que Saint Germain também tem um lacaio assim. Intriga-me se os prende a pura amizade ou qualquer espécie de servidão vampírica aos seus criadores (um "sire bond", como se diz noutras terras). Parece-me também que Olivia e Niklos, amantes quando este era mortal, não podem, ou não querem, unir-se carnalmente ou sequer de maneira romântica. Porquê é um mistério, se foram amantes em tempos... Talvez a repulsa faça parte das "leis" que regem os vampiros de Yarbro. Ou talvez, muito prosaicamente, se tenham fartado um do outro ou aquilo nunca tenha sido assim tão bom?! Permanece o mistério. Talvez os livros anteriores o expliquem.
É este mordomo o companheiro fiel de Olivia, através dos séculos.
E através dos séculos, é esta a maior perplexidade dos vampiros de Yarbro, não mudam nada. Levam uma vida rotineira e quotidiana, eventualmente têm de deslocar-se de país em país para que a juventude eterna não os traia, e depois é a vida como todos os dias. Nunca passam pela cabeça destes vampiros as angústias existenciais dos séculos após séculos. Nunca lhes passa pela cabecinha qual é o sentido de tal existência.
Diria mesmo mais, há pouco critiquei Olivia pela solicitude com que se entrega aos homens que ama, mas também os esquece igualmente depressa. Parece-me que estes vampiros não conseguem chorar lágrimas, mas Olivia faz uma espécie de luto a cada um dos amantes, por quem daria a própria vida ainda uns dias antes, e aceita que morram, eventualmente, como se fosse normal que uma alma humana conseguisse sobreviver a milénios de perdas sem achar que já bastou.
Esta leveza, esta futilidade, não me entra na cabeça. Observo os vampiros de Yarbro, divirto-me com o realismo cínico da autora, rio-me nas hilariantes cenas eróticas (sem exagero, são hilariantes, e tenho para mim que só lá estão porque o erotismo vende), impressiono-me com o profissionalismo e a competência da pesquisa histórica (que às vezes consegue pecar por excesso), admiro-me com o rigor espartano com que a escritora divide os capítulos em cena/carta cena/carta cena/carta até atingir as trezentas páginas, e aconselho aos amantes de vampiros que procurem uma leitura agradável. Mas leve.
Não quis comentar um só livro para não incorrer em juízos precipitados, e regozijo-me que no segundo as cenas eróticas já não se repitam tanto em número, mas ao fim da leitura de ambos não posso dizer que em qualquer altura me tenha sentido particularmente empolgada.
Minto. No segundo livro, quase no fim, há um episódio interessante que prometia algo de excitante. Olivia, que apesar de vampira não parece ser capaz de matar um ser humano por meios vampíricos (?), cai nas mãos de um cruzado Hospitalário de sádica reputação que entende ter sobre ela vantagem suficiente para a tornar sua escrava sexual. E o que é que acontece? Olivia deita de fora os dentes e suga-o até ficar enxague? Não. Esconde-se debaixo da cama, por sorte deita mão à espada dele, e mata-o de um golpe. (Peço desculpa pelo spoiler do que pode ter sido a melhor leitura do livro.) Boa, Olivia, mas não era exactamente isso que eu esperava!
Que vampiros estranhos, estes!
Recomendo aos amantes de vampiros (aqueles que são predadores, e bebem sangue a sério, e sofrem de angústias existenciais) que se aproximem com uma valente diminuição de expectativas. Para leitura de cabeceira na certeza de sonhos tranquilos, mas sem chegar ao ponto de dar sono.






domingo, 24 de fevereiro de 2013

Gotika: arquivos Março 2004

março 27, 2004

“O Vampiro Lestat” - o livro

O segundo livro das “Vampire Chronicles” de Anne Rice, escrito em 1985, nove anos após a publicação de “Entrevista com o vampiro”, vem explicar os mistérios deixados no ar pelo relato de Louis e preparar os leitores para a explosão cósmica de “A Rainha dos Malditos”. Nenhum dos livros esgota o tema, pelo contrário, até lança pistas para a sua continuação, de uma forma tão natural e pouco comercial que se diria que as “Vampire Chronicles” não podem acabar enquanto os protagonistas existirem.
A rede de relações entre todos e uns e outros em particular é tão intricada e misteriosa como só a vida pode ser. Muitos dos personagens que falam na primeira pessoa não fazem ideia do que os outros tramam e escondem nas suas costas. Mas nem só de traições e segredos se faz a vida destes vampiros. Os amores falsos e os amores verdadeiros e os amores não correspondidos também lá estão.

Lestat é um jovem fidalgo de uma família aristocrática mas falida do século XVIII, em França, pouco antes da Revolução. Propositadamente ou não, Anne Rice diz-nos que ele foi o 7º filho do marquês, mas é o irmão mais novo dos três sobreviventes. A mãe, Gabrielle, é uma mulher fria que se refugia na leitura, mais uma vítima do seu tempo e de um casamento arranjado e de uma vida que odeia mas da qual não se pode libertar. Num castelo pobre e frio, o jovem Lestat mostra desde cedo uma personalidade invulgar e extraordinária. Sai à mãe e tem jeito para os estudos mas o poder paterno não o deixa ingressar num mosteiro porque ser um humilde monge não é digno da sua condição social. Por exemplo, Gabrielle nem perde tempo a ensinar os filhos a ler. E Lestat ressente-se de ser preterido pelos livros. Na adolescência, alimenta o sonho de ser actor. Chega a fugir com uma companhia de saltimbancos italianos e actuar pelas feiras da região. É apanhado pelos irmãos e obrigado a voltar ao castelo porque ser actor nesse tempo era uma vergonha inconcebível. Na sua frustração e infelicidade, Lestat remete-se a ser o caçador que mais tarde se torna na única fonte de sustento de toda a família.
O seu destino é traçado quando enfrenta um alcateia de oito lobos e consegue matá-los todos. Finalmente conquista o respeito da família e da aldeia, mas este acontecimento é apenas o princípio de tudo. É assim que conhece Nicholas, um jovem violinista que, tal como Lestat, tem sonhos artísticos irrealizáveis. Mas agora estão juntos e conseguem gerar força um no outro para fugirem para Paris e dedicarem-se ao teatro. Gabrielle sabe que está a morrer de tuberculose e num dos seus raros gestos de ternura, incentiva o filho a fugir.
Os dois rapazes de vinte anos partem para Paris e dão asas ao seu sonho. Nicholas toca violino e Lestat consegue um papel principal num pequeno teatro para gente pobre. Nessa altura são felizes.
Aqui termina a curta vida humana do vampiro Lestat. A sua fama de caçador, a sua beleza e o seu talento atraem um velho vampiro que quer fazer dele seu herdeiro. É contra a sua vontade que Lestat é obrigado a tomar a Dádiva Negra. De seguida, o seu criador suicida-se e deixa-o entregue a si próprio, sem fazer ideia das leis que regem o submundo onde acabara de entrar.
Mais uma vez, Lestat é obrigado a desistir dos seus sonhos, a viver nas sombras, longe do palco onde brilhava. É prisioneiro da sua condição.
Mas algo mudou: o seu criador deixou-lhe uma enorme fortuna. Subitamente rico, rodeia-se de todos os luxos que o seu castelo arruinado nunca conheceu e reparte o dinheiro com a família e os amigos. Uma coisa lhe é proibida: o contacto com eles. Até ao dia em que Lestat não suporta a solidão e acaba por voltar, mas Nicholas nunca lhe perdoará ter desaparecido de um momento para o outro. É assim que perde o maior amigo.
Quando Lestat fala da insuportável sede de sangue, não será esta também uma ânsia da vida que o Destino não o deixa viver?
E depois Gabrielle está às portas da morte. E Lestat, que não acredita em Deus, tem tanto pavor da morte como da solidão. Com o consentimento de Gabrielle, transforma-a noutra vampira. Torna-se no criador da sua mãe.
Mas assim que Gabrielle se liberta das condições restritivas da vida, transforma-se no que chamamos agora uma “exploradora de terras desconhecidas”. Tinham em comum, ela o filho, serem prisioneiros de um século feudal e demasiado atrasado para duas pessoas extraordinárias que não se conformavam com a mediocridade das suas existências e com as convenções que lhes eram impostas. Atraída pelos desertos, pelas montanhas, pelo desconhecido, pelos povos primitivos e exóticos, Gabrielle não suporta a sociedade moderna do século XVIII. Aliás, Gabrielle não suporta nenhuma sociedade. Livre como um animal selvagem, é no espaço bravio e desabitado que encontra o seu lugar. Lestat, apaixonado pela vida e pelo amor, jamais a poderia seguir. O próprio admite que espera da mãe o que ela não lhe pode dar. E no entanto, existe amor entre os dois. E no entanto, não podem ficar juntos.
Lestat ainda tenta redimir-se perante Nicholas transformando-o também num vampiro, mas é tarde demais para reconquistar o seu amor. Pior, Nicholas é uma espécie de Louis ainda mais atormentado e acaba por se suicidar numa pira de fogo.
A família aristocrática de Lestat é assassinada durante a revolução, sobrevivendo apenas o velho pai, que se refugia na colónia americana da Louisiana. Confrontado com a necessidade de tomar conta do pai, é Lestat quem se sacrifica. Gabrielle nunca mais quis ver os outros filhos, quanto mais o marido. É a separação definitiva.
Mais uma vez sozinho e sem rumo, Lestat entra na sua primeira depressão vampírica: debaixo da terra, permanece vivo, mas sem vontade de viver. A visita de Marius ensina-lhe alguns segredos que o fazem reagir, mas mais tarde volta a procurar esta hibernação, depois de perder Cláudia e Louis, e como Marius lhe disse, se não fosse esta fuga do mundo muitos imortais não teriam coragem de continuar a viver.


Vampiros muito humanos
É interessante notar a evolução do vampiro Lestat da “Entrevista” para este Lestat que escreve a sua autobigrafia e mais tarde ainda para o Lestat pós-“Queen of the Damned” em “The Tale of the Body Thief”. É o cidadão do século XX que nos fala, como não podia deixar de ser, e já não o aristocrata francês, contemporâneo de Maria Antonieta, que não sabia ler nem escrever, que usava tricórnio e fatos de “todas as cores do arco-íris” (citação) - Consegue-se imaginar um homem elegante de tricórnio cor-de-rosa?... Dificilmente. Grande inteligência, a de Anne Rice, e ao mesmo tempo pergunto-me se o interregno de 9 anos entre o início das crónicas em 76 e a sua continuação nos anos 80 não teve também importância nesse salto qualitativo das personagens.
Como já aqui disse, Louis é que é o gótico mas é de Lestat que eu gosto mais. Lestat é aquela criatura que ninguém nunca conhece completamente, tal é a sua complexidade, e as suas aparentes incoerências só se desfazem quando o próprio explica, com uma inocência mais que convincente, aquele pormenorzinho que os outros ignoravam porque nunca perguntaram, porque Lestat pensava que eles sabiam, ou porque Lestat não podia ou não teve coragem de contar antes.
Por exemplo, a morte de Cláudia. Quem viu o filme e quem leu o primeiro livro, pela perspectiva de Louis, não imagina o que realmente se passou. Só um século depois, quando Lestat lê a interpretação que Louis faz dos factos e da sua personagem (o tal ignorante, cruel, egoísta e vaidoso aristocrata que não tem muitos escrúpulos) é que se revolta e decide contar a sua versão da história. Aliás, como qualquer um de nós faria.
Então, seguir o percurso destas personagens torna-se apaixonante. É preciso, como no jornalismo, ir ouvir a versão de cada um e, como na justiça, não esquecer que todos são inocentes até se provarem culpados. Inevitavelmente, criam-se amores e ódios de estimação.
Já tenho o meu ódio pessoal a Armand. Sedutor e carismático, Armand tem a moral de um tubarão. Não ama ninguém a não ser ele mesmo, isto é, e duvido muito, se é que se ama a ele mesmo. Às vezes a falta de auto-estima leva certas criaturas a encontrarem compensação na sensação de poder que é liderar alguma coisa, manipular as pessoas para benefício próprio, sentir-se importantes aos olhos dos outros mesmo que não gostem deles próprios. (Mal posso esperar por ler “Armand”)
Armand engana Louis, deixando-o pensar durante quase um século que Lestat morreu e, mesmo quando confessa que Lestat está afinal vivo e que foi ele, Armand, a ordenar a morte de Cláudia, não conta que Lestat nunca pediu que o fizesse. A Lestat, Armand também engana e também diz que Louis morreu pouco depois de Cláudia. Chama-se “dividir para reinar”. Graças a isto, manteve os dois afastados até ao século XX e privou da companhia de Louis enquanto lhe apeteceu.
Todos nós conhecemos Armands. O mundo está cheio de Armands. Se calhar por isso o meu ódio de estimação à personagem. Quem não conhece essa personagem intriguista e manipuladora, da família, do escritório, do círculo de amigos?
Só a verdade pode expor a criatura, e é isso que faz Lestat na sua biografia, como a luz que dissipa as trevas. Basicamente é isso que Lestat representa, a luz, e já lhe perguntava o seu amigo Nicholas, “para que serve um monstro cheio de luz”?
O amor de Lestat e Nicholas, por outro lado, lembra-nos que quando o amor se torna em ódio é dos ódios mais fortes que existem. E todos também já vimos isso todos os dias.
O que não vemos todos os dias é uma personagem brilhante e honesta como Lestat, que procura pelo amor. E quem é que pode amar um ser como Lestat? Talvez ninguém. Talvez apenas Louis, à sua maneira, porque partilham da mesma inocência e do mesmo desespero. E mesmo assim, nenhum se consegue adaptar à forma de viver do outro. Este já é o grande problema do século XXI, consciente ou inconscientemente antecipado aqui por Anne Rice. A extrema individualidade e independência dos anos 90, a mesma razão porque Mulder e Scully dos “Ficheiros Secretos” nunca assumem a sua ligação romântica.
Na mãe, Lestat tem uma amiga mas não uma alma gémea. E em relação ao pai, Lestat é implacável. Nada está perdoado. Existe apenas um vago sentimento de obrigação que o faz ficar com ele até ao fim. Os pedidos de desculpa do velho marquês, no leito de morte, já vêm tarde demais. Lestat pede a Louis: “Mata-o!”. Louis responde: “Não posso, é o teu pai!” Ao que Lestat responde: “Eu sei. Por isso não o posso matar eu”. (in “Entrevista com o vampiro”)
Até que ponto a falta de sentir amor na infância pode moldar as pessoas? E se não há almas gémeas, pode haver amor? Como é que os familiares de Lestat poderiam imaginar como este se sentia preso ao destino imposto pela família? A frieza de Lestat no leito de morte do pai, portanto, é completamente natural. Estranho seria se chorasse o homem que o fez tão infeliz. Não havia nada, mesmo nada, em comum entre os dois excepto a casualidade estranha de um ser pai do outro. E viver entre almas estranhas é o inferno da incompreensão. Já dizia Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”.
Mas não todos os outros. O inferno aumenta na medida em que as almas são diferentes. Porque Lestat e Gabrielle tinham muito em comum mas se ela não compreendia a necessidade de Lestat viver entre as pessoas, muito menos ele poderia compreender que ela preferisse viver entre rochas inacessíveis. Eram almas mais gémeas do que Lestat e o velho marquês, mas ainda não suficientemente gémeas.
Lestat procura desesperadamente reconstruir a família. Ao saber da morte dos irmãos e cunhadas e sobrinhos, sonha que voltou a casa e os transformou a todos em vampiros, desde o pai, passando pelas crianças, até ao bebé de colo - a primeira visão de Cláudia? - porque para Lestat tudo e qualquer coisa é melhor do que a morte.


Vampiro vs anticristo
Nos anos 80, Lestat volta a sair de uma depressão de 50 anos e dedica-se à música. Quer ser, nem mais nem menos, uma estrela rock.
Aqui tenho de sorrir e ser condescendente para com Anne Rice. Nem vou transcrever as letras que ela escreveu para Lestat. Não, são piores que “Black #1” dos Type O Negative. Mas muito piores!!!
Digamos que Anne Rice queria dizer que Lestat se tornou um ídolo internacional à escala de Marilyn Manson, mas sem a polémica de Marilyn Manson porque ninguém acreditava que ele fosse mesmo um vampiro. Pobre Anne Rice, que em 1985 não acreditava que certas pessoas fossem tão estúpidas que pensassem que um cantor rock pudesse mesmo ser um vampiro - ou o Anticristo!!! E, no entanto, em pleno século XXI, ainda há quem veja o Demónio em Brian Warner.

O que é que aprendemos daqui?

1, Que Anne Rice é uma optimista e que as pessoas podem ser mais estúpidas do que nós imaginamos, ou
2, Que nos anos 80 se vivia uma euforia artística e cultural que não deixava antever a regressão dos anos 90?

Aposto na segunda hipótese porque o progresso é mesmo feito de avanços e recuos.


De volta ao vampiro
Na sua existência vampírica, o destino de Lestat repete-se. O próprio acaba por perceber isto não só em relação a ele próprio como aos outros que o rodeiam. Mortais ou imortais, parece que todas as voltas vão dar ao mesmo fim. Ao tentar brilhar de novo num palco e fazer aquilo para que nasceu... a nova “família” insurge-se. Não pode expor-se assim dessa maneira, não lhe é permitido expor os outros. É preciso remeter-se às sombras e ao anonimato. Não admira que Lestat venha a ter um comportamento suicida e auto-destrutivo. Está tão aprisionado pelo destino como mais tarde se vê aprisionado num corpo humano, já em “The Tale of the Body Thief”.
Sozinho, frustrado... e a precisar de muita terapia.
Mal posso esperar por ler “Memnoch, o diabo”.

Mas, antes, vou reler “Queen of the Damned”. Acontece que já li em português e se há pensamentos de Anne Rice que não se percebem em inglês, muito menos noutra língua. Não me queixo dos tradutores nem da escritora. Pelo contrário, muitas vezes a grandiosidade de um escritor está na dificuldade em interpretar e traduzir as suas frases que evocam toda uma corrente de pensamentos e sentimentos associados aos sons, às sílabas, aos jogos de palavras... Isso fica “lost in translation”. É um pouco como traduzir Fernando Pessoa para outra língua sem lhe assassinar a poesia. É daqueles casos em que não basta traduzir mas re-escrever. Não se pode pedir tanto a um tradutor. (Não se pode pedir tanto a ninguém.)

“O Vampiro Lestat” só termina na introdução da “Rainha dos Malditos” Diz ele: “É uma verdade horrível que o sofrimento nos pode tornar mais profundos, dar mais brilho às nossas cores, uma ressonância mais rica às nossas vozes. Isto é, se não nos destrói, se não nos queima o optimismo e abate o espírito, a capacidade de sonhar, e o respeito pelas coisas simples mas indispensáveis. Por favor perdoem-me se vos soo amargo”.

Como não? Afinal, é apenas a destruição da humanidade que Lestat quase provoca com a Rainha dos Malditos... E só queria voltar a ser o jovem actor que fugiu de casa para andar de feira em feira com saltibancos italianos... É lixado sermos nós próprios.


Notas de humor
“Todas as noites quando regressava a Carmel Valley eu pegava nos sacos de correio dos fãs (...) e procurava neles escrita de vampiros (...) mas não havia nada excepto a devoção fervorosa dos mortais.
‘Querido Lestat, eu e a minha amiga Sheryl adoramos-te, e não conseguimos bilhetes para San Fransciso embora tenhamos estado na bicha durante seis horas. Por favor manda-nos dois bilhetes. Nós seremos tuas vítimas. Podes beber o nosso sangue.’”

Delicioso!
Fantástico!
E eu queixava-me do preço dos bilhetes para o Nick Cave.

E há aquela parte em que Louis fala dos bares onde os vampiros se encontram, e de uma certa fauna humana que também por lá anda... Esta, confesso, foi dolorosa. Diz Louis:
“Os mortais que lá vão são um autêntico circo de tipos teatrais - jovens punks, artistas, aqueles que vestem capas negras e dentes de vampiro de plástico. Eles mal dão por nós! Comparados com eles, somos ofuscados!”

Senhor Louis, já é suficientemente mau ter nascido numa época de trajes elegantes - nada de tricórnios e fatos brilhantes cor de malva que são coisas do seu ilustre amigo - e não poder apontar um dedo ao seu bom gosto, e ainda por cima ser um vampiro famoso e quase antigo e aos antigos não se falta ao respeito, não pela hierarquia gótica porque o senhor não é gótico nem percebe nada do assunto (faz de conta!), mas com a respectiva vénia: beba-nos o sangue mas não critique as nossas roupas!

Publicado por _gotika_ em 02:59 AM | Comentários: (6)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Gotika: arquivos Março 2004

março 25, 2004

O teste da vida

Este fizeram-mo há muito tempo e não sei se agora responderia da mesma forma. Acho que sim, mas não tenho a certeza. Isto para vos mostrar que não se faz de ânimo leve. É um teste muito interessante porque puxa pela nossa capacidade de interpretação de acordo com o que vai no nosso inconsciente. É mesmo um teste mais psicológico de auto-conhecimento do que outra coisa. E como tal, subjectivo. Mas eu gostei muito e vou aqui reproduzi-lo para que outros possam tirar dele o mesmo prazer e ao mesmo tempo aprendam sobre eles próprios.
Primeiro vou pôr as perguntas, com espaços para que possam pensar nas respostas. Aconselho-vos a parar e meditar muito bem naquilo que vocês fariam. Afinal, este teste não tem pontuação. Não é para mostrar que são bons nisto ou naquilo, é apenas para se conhecerem melhor.
Depois, vou dizer o que eu respondi, e que eu acho que ainda responderia.
Então, vamos lá...

Estás a passear por uma floresta. Descreve a floresta.


Pelo caminho, encontras um pote cheio de moedas de ouro. O que fazes?


Mais à frente, encontras uma casa desabitada. Descreve a casa. Tentas lá entrar?


Depois da casa, encontras um cavalo na floresta. Tens medo dele? O que fazes? Aproximas-te? Tentas montá-lo?


Continuas o teu passeio. Encontras um lago no caminho. Descreve o lago. O que fazes? Entras nele?


Por fim, o teu passeio acaba com um alto muro que se ergue diante de ti. Voltas para trás, espreitas para ver o que está do outro lado do muro, saltas o muro?

As minhas respostas (e a interpretação):
A minha floresta era cheia de árvores e arbustos, muito verde e densa, coberta de ramos por onde nem sequer passava a luz. A floresta significa a vida. Quanto mais densa ela for, mais complicada nós achamos que é a vida.

O pote cheio de moedas significa a relação com os amigos. Esta interpretação é altamente discutível! Tentar agarrar muitas moedas significa (segundo o teste) ter facilidade em fazer amigos e dar-lhes muita importância. Pessoalmente acho um disparate, mas assim como assim, a minha resposta não foi - por razões que desconheço - a resposta completamente lógica: “Levo o pote todo!”. Pelo contrário, levava apenas as moedas que pudesse carregar. Nada me disse que o pote era demasiado pesado para o levar todo comigo, nada me disse que o pote não podia ser levado. Isso fui eu que imaginei, é a minha projecção psicológica a funcionar. Logo...

A casa desabitada. Para mim, era um cabana abandonada onde ninguém morava há décadas. Cheia de pó e sujidade e teias de aranha, jamais me passaria pela cabeça entrar lá dentro. Não havia lá nada que me atraísse, mas mesmo nada. A casa é como vemos o casamento e a constituição de família. Escusado será dizer que nem pela janela eu espreitava...

O cavalo significa a nossa posição perante a sexualidade. Sem saber disso, eu disse logo que me aproximava, via se era manso e, sim, claro que tentava montá-lo. Aliás, montava-o mesmo. Havia de lhe dar a volta.

O lago. Antes de mais, tinha de desmontar do cavalo. (Isto mostra que para mim a sexualidade está intimamente ligada a uma continuidade, a um companheirismo. Depois de encontrado o cavalo, o meu inconsciente dizia-me que ele ia comigo - ou que eu o levava - pelo resto da jornada.) O lago era límpido, claro e sereno. Possivelmente, se estivesse calor, tirava a roupa (ou não) e ia tomar banho. Possivelmente queria levar comigo o cavalo para a água.
O lago não tem a ver com a sexualidade mas com os problemas que surgem na vida e a maneira com que se lida com eles. Isto significaria que eu mergulharia de cabeça dentro deles. Não tentava passar-lhes ao lado nem dar-lhes a volta, mas transformá-los-ia num desafio, até num prazer, em vez de um contratempo.
Será?... Então está mais que meio mundo enganado quanto a mim ou este teste não vale a ponta de um corno.

O muro alto. Esta é a minha parte preferida do teste. Nunca percebi por que razão havia de voltar para trás perante o muro. Nunca voltaria para trás. O que eu faria, sim, era pôr-me em bicos dos pés para espreitar o que havia do outro lado do muro. Se gostasse, saltava para o outro lado. Se não gostasse, em vez de voltar para trás, caminhava ao longo dele até ao sítio em que o muro acabasse. Na certeza de que todos os muros têm um fim.
O muro é a morte.

Publicado por _gotika_ em 08:06 AM | Comentários: (1)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O que fugiu

Verão 1999 - 16 de Fevereiro de 2013

Sempre foste fujão.
Ela abriu-te a porta. Fugiste atrás dela!
Que esses olhos redondinhos só teus contemplem agora muitos jardins soalheiros e brincalhões, Lá onde foste, Onde estás, meu amigo.



sábado, 16 de fevereiro de 2013

Gotika: arquivos Março 2004

março 19, 2004

Comentários góticos
Tenho reparado que falas no gótico como tendo início no final do séc. XX numa alusão clara ao movimento gótico musical. Já que pretendes escrever um livro sobre o assunto (projecto que apoio) penso que deverias também pesquisar sobre a relação (que existe) entre os outros movimentos góticos, o arquitectónico (sécs. XII a XV) e o literário (sécs. XVIII e XIX) e o movimento gótico musical do séc XX cujas raíses remontam aos anos 60 (um pouco mais cedo do que tens mencionado). Enviado por jesusrocks em março 12, 2004 01:18 PM

O livro é o projecto para a velhice :) se eu lá chegar. Se não chegar, não há livro.
Sim, eu sei que já sou velha, mas falar do movimento gótico é como ser vampiro e dar uma entrevista: quanto mais velho se é, mais autoridade se tem.
Por falar nisso, certa vez alguém aqui comentou que ser mais velho não é saber mais porque os mais velhos tem um conhecimento ultrapassado. Raciocínio errado. Só tem um conhecimento ultrapassado quem não o actualiza à luz de aprendizagens novas. Infelizmente, a maioria dos velhos é apenas velho e não sábio.
Voltando à sugestão do Jesusrocks, se tal livro surgisse com certeza que seria feita uma alusão aos movimentos que referes - é incontornável - mas não me parece que mereça mais do que duas páginas. Isto porque já há milhares de livros sobre esses temas, escritos por verdadeiros peritos na matéria, em abordagens históricas, literárias, arquitectónicas, sociológicas... Eu própria sou uma consumidora ávida desse material histórico-sócio-artístico e não me atrevo a meter por aí a colher.
O que é interessante, e é novo, e não está suficientemente debatido, é esta “nova” explosão “assumida” - reparem nas aspas - dessa corrente do pensamento humano que é o gótico nos finais do século XX - e notem que chamar-lhe “corrente do pensamento humano” já é uma ousadia da minha parte que teria de justificar por A mais B. É como se através de um movimento musical algumas pessoas aproveitassem para ir buscar o pensamento e o sentimento inerente a todas essas épocas da História e o ressuscitassem na actualidade. Mas porquê aqui e agora? Porque vivemos na era mais apocalíptica que o ser humano já viveu? Porque o século XX deu tanta margem de manobra ao ser humano para viver a sua vida individual de forma plena e satisfatória - o que é um facto novo da História porque até ao século XX a sociedade não permitia que o indivíduo se desmarcasse sequer da sua classe social - que de certo modo o Homem foi também forçado a ponderar a sua mortalidade? E que morto Deus, no século XX, a mortalidade inerente ao ser humano se tornasse subitamente mais assustadora do que alguma vez tinha sido?

Quanto às raízes do movimento musical gótico nos anos 60, claro que percebo o queres dizer, porque houve o misticismo hippie e houve os Doors, mas se começarmos a pensar para trás, muito mais para trás, o tema da tristeza e do amor e da morte está na música desde as cantigas de amigo e mais cedo ainda nas canções celtas, e sabe-se lá se nas cantigas egípcias... E se pensarmos que a arte esteve também ligada ao despertar da espiritualidade no homem pré-histórico, e que as primeiras “composições” foram celebrações rituais, podemos chegar ao cúmulo de afirmar que a primeira canção gótica foi “escrita” por um feiticeiro de uma tribo Neanderthal... :)
O que não deixa de ser extremamente interessante.


Ok, adivinha, tb sou fã da Ana Arroz. Só alguns reparos... "Tom Cruise é demasiado macho..." Ok- opiniões, lol. Mas concordo que Lestat não é um gótico mas um hedonista. Louis é a personagem mais gótica dos livros de Anne Rice. (E já li alguns...) Quanto a Armand é bom não esquecer que ele é um vampiro "demasiado novo para o ser", apesar de ser dos mais velhos que aparece em "Entrevista". Banderas nunca poderia ser Armand. Ah... hum... Meow? Enviado por BiTheWay em março 12, 2004 08:07 PM

É muito interessante o que dizes, porque agora ando a ler “O vampiro Lestat” - Lovecraft terá de esperar - e de facto o vampiro Armand tem uma aparência muito mais jovem do que dá a entender na “Entrevista”. Será que a malta que fez o filme não leu os livros anteriores? Por outro lado, sendo Armand um adolescente, e com as sugestões homossexuais implícitas em toda a obra de Anne Rice, ainda eram acusados de pedófilia. Portanto, deixemos lá estar o Banderas que está bem. :>

Publicado por _gotika_ em 03:44 AM | Comentários: (3)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Pequenina.

Julho 1998 - 12 de Fevereiro de 2013

Nunca ninguém me amou como tu me amaste.
Dantes eras só tu, eu e Deus. Agora que não estás aqui, Deus não chega para encher o teu espaço.
Pequenina.