Já era mais que tempo de actualizar os links para outros blogs. Adicionei alguns novos. Outros, aos que chamo "sob observação", ficaram apenas nos bookmarks do browser.
É sempre com tristeza que descubro que algumas pessoas desistiram, ou que fecharam o espaço ao público (nova secção Sociedades Secretas) e não me mandaram um convite!
Não gosto muito de fazer esta ronda bloguística. Custou-me eliminar links para blogs que em em tempos acompanhei assiduamente e que foram apagados e de que não resta sequer um vestígio, assim como aconteceu ao meu blog no Sapo.
Esta seria a altura de fazer o que outros fazem e dar um novo visual a este blog. Mas não quero. Gosto como está. Estranho como está. Com os links incoerentes que tem e os que devia ter e não tem porque não os conheço.
Devo dizer, por um lado foi uma maravilha que o Facebook tenha aparecido porque veio separar as águas. O Facebook, toda a gente sabe, é muito melhor para o engate e a cusquice, que era exactamente o que muita gente andava a fazer nos blogs. E na vida. É bom que fiquem e que apareçam só os que querem dizer e não mostrar. Há males que vêm por bem.
Por aqui, vamos estando. Republicando os artigos do blog apagado mais devagarinho conforme impõem as limitações do Blogger. Mas eu sou mais teimosa do que o Blogger.
Sei que não tenho aparecido muito por aqui e não desejo fazer promessas de maior actividade que não consiga cumprir mas posso assegurar que não tenho a mínima intenção de me ir embora.
Se Blogger quiser.
Ámen.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Gotika: arquivos Março 2004
março 06, 2004
Partilhas II
"(...) sabia que raramente estivera tão viva como o estava agora, que o vê-lo verdadeiramente, o ele estar ali, me devolvera à vida um fogo que eu não conhecera durante décadas. Há muito, muito tempo, antes de tantas derrotas, quando eu era jovem e estava apaixonada, talvez estivesse assim viva, quando eu tinha chorado sobre os meus falhanços e as minhas perdas naqueles anos energéticos iniciais, quando tudo era muito luminoso e quente para experimentar, talvez eu tivesse estado assim viva."
Anne Rice, "O Violino"
Bem me parecia que as pessoas morrer por dentro antes de morrerem por fora. Mas pensava que era só eu. Afinal, se calhar, é comum e recorrente. Mesmo assim, eu morri muito cedo. E vivi depressa.
Publicado por _gotika_ em 05:14 PM | Comentários: (5)
Partilhas
Não percam o post de 4-3, "A Igreja do Imaculado Blog - O Céu pode Esperar (ou então que vá andando…) – " no The Old Man. Parece que Blog já abriu o Céu, mas a entrada é condicionada. Aviai-vos, pois, ó crentes!
No mesmo sítio, o post sobre a Noite reza assim:
"É na noite que tudo se esgota.
A escuridão dilui todas as cores,
como um gigantesco sorvedouro cromático.
Á noite é difícil ser azul,
a não ser que escolhamos néon, e isso é falta de gosto.
Não faz muito sentido falar da noite.
Porque as trevas não se podem descrever,
excepto talvez a um cego…
ou a um gótico.
E esses já sabem como é.
Por isso esta noite,
não vou falar da noite!"
Eu diria que a melhor pessoa para descrever a noite é mesmo um gótico, ou, se arranjarem algum, um vampiro. Pessoas que vivem na e da noite.
Mas há pormenores que qualquer taxista ou homem do lixo vos pode contar. Por exemplo, que a noite é mais quente do que o dia mesmo que a temperatura desça. Que as pessoas da noite (e de noite) são completamente diferentes das pessoas do (de) dia. Que a noite é mais longa do que qualquer dia. Que de noite o tempo estende-se, de forma mágica, e fala-se de coisas que o dia nunca tem tempo para falar. De noite as pessoas vestem-se melhor antes de sair de casa. Tiram aquelas caras de obrigação que as arrasta durante o dia. E estão mais calmas, muito mais calmas. É um outro mundo.
Pelos olhos de um gótico, vai-se mais longe. A noite é também o palco de todos os desesperos. Se o dia entretem as pessoas com pensamentos mundanos, a noite revela as angústias, os vazios, as solidões. A própria noite embriaga as almas e fá-las dizer a verdade. O dia é mentira. Com a sua luz que faz doer os olhos, o dia finge que revela mas esconde tudo. A noite mostra. Os maiores dramas passam-se à noite. Porque a noite não deixa esconder nada. Tal como o mar, que devolve à costa todas as impurezas, a maré da noite expõe toda a substância da alma. O mesmo tempo longo que passa a correr para os amantes custa a passar para os desesperados. A noite pode ser um grande pesadelo de insónia. Por isso é preciso abraçar a noite, acolhê-la e desejá-la. Aprender a amá-la. Apreciar-lhe o silêncio e também o movimento das pessoas bonitas na rua. Navegar ao sabor da sua corrente desde o pôr ao nascer do sol.
Não há duas noites iguais. Cada noite é uma noite especial. Alguns povos antigos temiam a noite porque punham a hipótese de o sol ser devorado por um monstro e não chegar a nascer outra vez. O gótico teme o dia em que o sol não se ponha...
E há as noites de verão, quentes e convidativas. As noites de primavera, frescas e loucas. As noites de outono, já a prometer chuva e frio. E as noites de inverno, geladas, húmidas, cortadas pelo vento e cheias de nevoeiro. Neve, para alguns sortudos. Todas estas noites vibram e todas são misteriosas.
De noite as pessoas estão disponíveis. As diferenças sociais diluem-se e ficam apenas as almas. É uma espécie de limbo antes do céu.
E o sossego? Ah, o sosego de uma cidade à noite!
A noite é como o mar. Tanto mais perigoso quanto menos se conhece. Inspira o mesmo respeito. Quem vira as costas à noite nunca será parte dela.
Publicado por _gotika_ em 04:51 PM | Comentários: (3)
Comentários 06.02.04 +/- 16h00
O teu comentário é muito interessante. Só prova a desinformação que grassa por aí. Ouvem-se os analistas dizer a torto e a direito que são necessários licenciados em áreas científicas mas, na verdade, estes licenciados não têm onde trabalhar. Não se faz investigação a sério em Portugal. Já não há lugares para dar aulas. Começa a acontecer como nos países de leste, cujos licenciados preferem vir para cá trabalhar nas obras.
A minha prima mais velha tirou Biologia e já foi para o estrangeiro, para os Estados Unidos, de onde, se for esperta, não volta mais. Eu não tive essa possibilidade. A irmã mais nova, que está a tirar Relações Internacionais, também já foi estudar um ano para o estrangeiro. Tem uma bolsa mas se não fossem os pais a ajudar, a bolsa não chegava para ela sobreviver. País triste este, em que quem não pode sair dele não se safa.
O problema do país não é só não existir "um plano de inserção das pessoas no mercado de trabalho". O problema é que já quase não existe mercado de trabalho!... Não há onde trabalhar. Nestas condições, é natural que a faixa de população com escolaridade média (12º ano) seja a mais empregável. Abaixo e acima desta escolaridade, é-se preterido. Por isso também temos casos de operários de baixa escolaridade que trabalharam toda a vida em empresas que foram à falência ou se mudaram para países onde a mão-de-obra é mais barata e agora se vêem desempregados e sem expectativas. Demasiado novos para a reforma, demasiado velhos para serem contratados. Não é que não sejam ainda úteis e capazes, mas como a procura é muito superior à oferta de emprego, os empregadores tornaram-se muito mais exigentes. Têm muito por onde escolher, essa é que é a verdade.
Isto também ajuda ao estabelecimento de uma tirania onde os direitos dos trabalhadores não valem nada. E assim temos casos de exploração de bradar aos céus. É uma nova escravatura.
O que se passa no país é a completa atrofia da economia. A Europa prepara-se definitivamente para transformar Portugal na colónia de férias que sempre foi. Resta-nos a todos ser empregados de mesa.
O país é como uma família. Imaginem esta família, a quem foram dados subsídios para se desenvolver, e que em vez de investir desbaratou a ajuda e ainda guardou o resto no banco. Um dia perguntam-lhe pelo retorno do investimento. Qual investimento? Não houve investimento nenhum. Logo, não se vê nenhum resultado. Os bens adquiridos degradam-se e o dinheiro guardado é gasto a adquirir novos bens. A certa altura acaba-se o dinheiro. É neste ponto que está o país. Quando devia estar a colher os lucros do investimento, eis que não há investimento.
Então a nossa família repara que o pai está doente mas o sistema de saúde não funciona a tempo e horas e que a mãe vai ter de deixar de trabalhar para cuidar do pai. Os filhos não têm emprego porque não investiram o dinheiro numa empresa de sucesso mas em vez disso compraram jipes para ir para a faculdade fazer figura de novos ricos. Agora não há fontes de rendimento e a família estrangula. Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Ao agirem de forma egoísta, esqueceram-se que estavam a condenar o país todo à ruína. É por isso que os países africanos estão como estão. No sub-desenvolvimento. Não é nada de novo.
Não houve coragem dos sucessivos governos para mudar o que está mal. Porque ao mexerem em interesses económicos importantes (sistema de saúde, administração pública, educação, leis laborais) estavam a perder votos e não seriam re-eleitos. Como a única coisa que lhes interessa é ganhar as eleições, fingiram que faziam alguma coisa e deixaram andar tudo na mesma. Não tiveram, principalmente, coragem para enfrentar os grandes grupos económicos e agora quem manda no país é a SONAE e afins. Porque os governos deixaram que isso acontecesse.
O povo é ignorante e não se mexe. Limita-se a sofrer em silêncio. Em vez de se revoltar, prefere tentar a sua sorte num jogo em que está condenado à partida porque as regras estão viciadas. Quanto mais tempo demorará até que perceba que é preciso dizer "basta!"?
Publicado por _gotika_ em 03:59 PM | Comentários: (2)
Partilhas II
"(...) sabia que raramente estivera tão viva como o estava agora, que o vê-lo verdadeiramente, o ele estar ali, me devolvera à vida um fogo que eu não conhecera durante décadas. Há muito, muito tempo, antes de tantas derrotas, quando eu era jovem e estava apaixonada, talvez estivesse assim viva, quando eu tinha chorado sobre os meus falhanços e as minhas perdas naqueles anos energéticos iniciais, quando tudo era muito luminoso e quente para experimentar, talvez eu tivesse estado assim viva."
Anne Rice, "O Violino"
Bem me parecia que as pessoas morrer por dentro antes de morrerem por fora. Mas pensava que era só eu. Afinal, se calhar, é comum e recorrente. Mesmo assim, eu morri muito cedo. E vivi depressa.
Publicado por _gotika_ em 05:14 PM | Comentários: (5)
Partilhas
Não percam o post de 4-3, "A Igreja do Imaculado Blog - O Céu pode Esperar (ou então que vá andando…) – " no The Old Man. Parece que Blog já abriu o Céu, mas a entrada é condicionada. Aviai-vos, pois, ó crentes!
No mesmo sítio, o post sobre a Noite reza assim:
"É na noite que tudo se esgota.
A escuridão dilui todas as cores,
como um gigantesco sorvedouro cromático.
Á noite é difícil ser azul,
a não ser que escolhamos néon, e isso é falta de gosto.
Não faz muito sentido falar da noite.
Porque as trevas não se podem descrever,
excepto talvez a um cego…
ou a um gótico.
E esses já sabem como é.
Por isso esta noite,
não vou falar da noite!"
Eu diria que a melhor pessoa para descrever a noite é mesmo um gótico, ou, se arranjarem algum, um vampiro. Pessoas que vivem na e da noite.
Mas há pormenores que qualquer taxista ou homem do lixo vos pode contar. Por exemplo, que a noite é mais quente do que o dia mesmo que a temperatura desça. Que as pessoas da noite (e de noite) são completamente diferentes das pessoas do (de) dia. Que a noite é mais longa do que qualquer dia. Que de noite o tempo estende-se, de forma mágica, e fala-se de coisas que o dia nunca tem tempo para falar. De noite as pessoas vestem-se melhor antes de sair de casa. Tiram aquelas caras de obrigação que as arrasta durante o dia. E estão mais calmas, muito mais calmas. É um outro mundo.
Pelos olhos de um gótico, vai-se mais longe. A noite é também o palco de todos os desesperos. Se o dia entretem as pessoas com pensamentos mundanos, a noite revela as angústias, os vazios, as solidões. A própria noite embriaga as almas e fá-las dizer a verdade. O dia é mentira. Com a sua luz que faz doer os olhos, o dia finge que revela mas esconde tudo. A noite mostra. Os maiores dramas passam-se à noite. Porque a noite não deixa esconder nada. Tal como o mar, que devolve à costa todas as impurezas, a maré da noite expõe toda a substância da alma. O mesmo tempo longo que passa a correr para os amantes custa a passar para os desesperados. A noite pode ser um grande pesadelo de insónia. Por isso é preciso abraçar a noite, acolhê-la e desejá-la. Aprender a amá-la. Apreciar-lhe o silêncio e também o movimento das pessoas bonitas na rua. Navegar ao sabor da sua corrente desde o pôr ao nascer do sol.
Não há duas noites iguais. Cada noite é uma noite especial. Alguns povos antigos temiam a noite porque punham a hipótese de o sol ser devorado por um monstro e não chegar a nascer outra vez. O gótico teme o dia em que o sol não se ponha...
E há as noites de verão, quentes e convidativas. As noites de primavera, frescas e loucas. As noites de outono, já a prometer chuva e frio. E as noites de inverno, geladas, húmidas, cortadas pelo vento e cheias de nevoeiro. Neve, para alguns sortudos. Todas estas noites vibram e todas são misteriosas.
De noite as pessoas estão disponíveis. As diferenças sociais diluem-se e ficam apenas as almas. É uma espécie de limbo antes do céu.
E o sossego? Ah, o sosego de uma cidade à noite!
A noite é como o mar. Tanto mais perigoso quanto menos se conhece. Inspira o mesmo respeito. Quem vira as costas à noite nunca será parte dela.
Publicado por _gotika_ em 04:51 PM | Comentários: (3)
Comentários 06.02.04 +/- 16h00
Sou licenciada em ciências e não é por isso que tenho emprego garantido, aliás, estou no desemprego. Muitos colegas e amigos que também tiraram ciências (biologia, geologia, bioquímica, química, física, etc.) também estão desempregados ou em trabalhos precários, vivendo na dúvida se, após terminar o semestre, voltam a ter trabalho. Neste país não se valoriza a "massa cinzenta" que anda por aí. Não se preparou o país para receber e encaixar os recursos humanos que tem. Noutros países existe uma política de ligação entre a universidade e as empresas, onde os licenciados são "escoados" para o mercado de trabalho (o sistema pode não ser perfeito, mas resulta na maior parte dos casos). Neste país não existe um plano de educação, não existe um plano de inserção das pessoas no mercado de trabalho. Apenas existe o plano de obter dinheiro rápido a todo o custo para o ir gastar em jipes, viagens às caraíbas, iates (o ano de 2003 foi o melhor ano de venda de iates em portugal, segundo um vendedor da área), etc. Apostar no potencial humano do país, isso é lirismo a mais para muitos dos empresários e políticos que por aqui andam. Enviado por Alya em março 5, 2004 12:55 PM
O teu comentário é muito interessante. Só prova a desinformação que grassa por aí. Ouvem-se os analistas dizer a torto e a direito que são necessários licenciados em áreas científicas mas, na verdade, estes licenciados não têm onde trabalhar. Não se faz investigação a sério em Portugal. Já não há lugares para dar aulas. Começa a acontecer como nos países de leste, cujos licenciados preferem vir para cá trabalhar nas obras.
A minha prima mais velha tirou Biologia e já foi para o estrangeiro, para os Estados Unidos, de onde, se for esperta, não volta mais. Eu não tive essa possibilidade. A irmã mais nova, que está a tirar Relações Internacionais, também já foi estudar um ano para o estrangeiro. Tem uma bolsa mas se não fossem os pais a ajudar, a bolsa não chegava para ela sobreviver. País triste este, em que quem não pode sair dele não se safa.
O problema do país não é só não existir "um plano de inserção das pessoas no mercado de trabalho". O problema é que já quase não existe mercado de trabalho!... Não há onde trabalhar. Nestas condições, é natural que a faixa de população com escolaridade média (12º ano) seja a mais empregável. Abaixo e acima desta escolaridade, é-se preterido. Por isso também temos casos de operários de baixa escolaridade que trabalharam toda a vida em empresas que foram à falência ou se mudaram para países onde a mão-de-obra é mais barata e agora se vêem desempregados e sem expectativas. Demasiado novos para a reforma, demasiado velhos para serem contratados. Não é que não sejam ainda úteis e capazes, mas como a procura é muito superior à oferta de emprego, os empregadores tornaram-se muito mais exigentes. Têm muito por onde escolher, essa é que é a verdade.
Isto também ajuda ao estabelecimento de uma tirania onde os direitos dos trabalhadores não valem nada. E assim temos casos de exploração de bradar aos céus. É uma nova escravatura.
O que se passa no país é a completa atrofia da economia. A Europa prepara-se definitivamente para transformar Portugal na colónia de férias que sempre foi. Resta-nos a todos ser empregados de mesa.
O país é como uma família. Imaginem esta família, a quem foram dados subsídios para se desenvolver, e que em vez de investir desbaratou a ajuda e ainda guardou o resto no banco. Um dia perguntam-lhe pelo retorno do investimento. Qual investimento? Não houve investimento nenhum. Logo, não se vê nenhum resultado. Os bens adquiridos degradam-se e o dinheiro guardado é gasto a adquirir novos bens. A certa altura acaba-se o dinheiro. É neste ponto que está o país. Quando devia estar a colher os lucros do investimento, eis que não há investimento.
Então a nossa família repara que o pai está doente mas o sistema de saúde não funciona a tempo e horas e que a mãe vai ter de deixar de trabalhar para cuidar do pai. Os filhos não têm emprego porque não investiram o dinheiro numa empresa de sucesso mas em vez disso compraram jipes para ir para a faculdade fazer figura de novos ricos. Agora não há fontes de rendimento e a família estrangula. Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Ao agirem de forma egoísta, esqueceram-se que estavam a condenar o país todo à ruína. É por isso que os países africanos estão como estão. No sub-desenvolvimento. Não é nada de novo.
Não houve coragem dos sucessivos governos para mudar o que está mal. Porque ao mexerem em interesses económicos importantes (sistema de saúde, administração pública, educação, leis laborais) estavam a perder votos e não seriam re-eleitos. Como a única coisa que lhes interessa é ganhar as eleições, fingiram que faziam alguma coisa e deixaram andar tudo na mesma. Não tiveram, principalmente, coragem para enfrentar os grandes grupos económicos e agora quem manda no país é a SONAE e afins. Porque os governos deixaram que isso acontecesse.
O povo é ignorante e não se mexe. Limita-se a sofrer em silêncio. Em vez de se revoltar, prefere tentar a sua sorte num jogo em que está condenado à partida porque as regras estão viciadas. Quanto mais tempo demorará até que perceba que é preciso dizer "basta!"?
Publicado por _gotika_ em 03:59 PM | Comentários: (2)
domingo, 27 de janeiro de 2013
Gotika: arquivos Março 2004
março 05, 2004
Comentários 05.02.04 +/- 10h30
O problema que tu ignoras é que nem toda a gente sabe isto. A maioria das pessoas não "sabe isto".
Parece-me a mim. Pelo menos os cursos públicos, para dar um sinal aos privados, porque se o Estado não regulamenta a actividade económica então quem é que a impede de cair no capitalismo selvagem, em que, aliás, já caiu? Ninguém.
E sim, andam a enganar as pessoas. Pega numa brochura de uma universidade privada e depois vem falar comigo.
Fecha-se o exército? Quase. Reduz-se, como se tem vindo a fazer desde a guerra colonial.
Ok, e prometes que votas em mim?
'Tás a brincar, não? Mas eu vou candidatar-me por alguém?... OK, propostas: fechem-se os cursos do público. JÁ! (Agora até vou perder leitores por tua causa, 'tás a ver?)
Nota posterior: Não fechava. Retringia a 10 alunos por curso. Só os melhores. E fazia com que fossem publicadas as médias de todas as escolas secundárias porque algumas fazem "inflacionar" as notas para os meninos entrarem na faculdade. E assim temos médias de 18 e 19, o que, no meu tempo e na minha área, era impensável há 10 anos atrás...
Se dizes que é assim, é assim. Eu nunca lá fui nem lá vou (enquanto eles não atinarem). Mas certo e sabido é que uma dessas bolsas em mil era para mim, sim, adoptava esse sistema.
Podia não ser re-eleita, mas uma aposta que o governo a seguir não mudava isso? O que é preciso é coragem para mexer no sistema instituído.
Calimero, acho muito bem que manifestes o teu protesto. Mas não basta dizer o que achas, tens que justificar. Agora dá-me aí um exemplo da grandeza de Portugal, se faz favor...
Comentários furiosos? Comentário furioso é o que a senhora me provoca, dona Stela. Aliás, olhe as horas, acho que já está atrasada para o cabeleireiro. Vá, vá depressa, mas não corra que ainda parte uma perna! Tadinha!
Publicado por _gotika_ em 10:31 AM | Comentários: (7)
Fazer figura de merda grande
O que me irrita mais neste país nem é o caso do menino azul, nem os licenciados no desemprego, nem a miséria que alastra pelas ruas na figura dos sem abrigo, nem nada disso. Pior que nós estão os países africanos, dilacerados pela guerra e pela fome e por cabecilhas mafiosos que se alimentam do povo ignorante.
O que me irrita neste país é a mania de fingir que é mais do que é. Desde Cavaco Silva (raios o partam!) que se gerou uma atmosfera de pseudo-optimismo cego que me repugna. Já não se pode dizer que o país está mal. Está mal, mas quem o diz é apedrejado na rua. O país pré-Cavaco era uma merda, mas uma pequena merda. Uma merda insignificante. Agora o país faz parte da Europa, logo, tornou-se numa grande merda. A merda continua a ser insignificante mas inchou de gases e agora faz-se grande.
O país parece aqueles parolos que não têm onde cair mortos mas gostam de fingir que têm dinheiro. Deixam de comer para pagar as prestações do Mercedes. Vão almoçar fora mas em casa comem massa. Vão às feiras comprar imitações de roupas de marca e em casa estão às escuras para não gastar luz. Tomam banho de água fria para poupar no gás. Emprestam dinheiro a quem o pede e depois não têm para eles, só para não mostrar que precisam.
Há uma série inglesa “Keeping up the Appearances”, versão portuguesa “Cuidado com as Aparências”, que revela muito disto. A bimba que lê as revistas e faz tudo para aparecer nas festas, só para ser fotografada por acidente atrás do D. Duarte Pio.
Até me lembra a cena triste do Durão Barroso nas Lajes, junto aos grandes do mundo, Blair e Bush, e outro carapau de corrida, José Aznar, duas pequenas merdas a fazer figura de grande merda. Deus escreve, porém, direito em linhas tortas e o castigo não se fez esperar: “Burroso” escrito na web page da Casa Branca. O destino é eloquente.
Casos como o do menino azul mostram a pequena merda que o país sempre foi. Alguns iluminados acharam por bem vender o país ao estrangeiro. Entre eles Mário Sores, federalista convicto, e até com boas intenções, mas a raça é ruim. Veio dinheiro da Europa, meteu-se nos bolsos de alguns poucos. Não se guardou para o inverno. Não se criou desenvolvimento. Ainda há pouco tempo veio Bruxelas (como se não houvesse gente cá a dizer o mesmo há muito tempo), alertar que o Estado devia investir mais nas pessoas e menos nas estradas. Outros cá o disseram, e em tempo útil, mas o aviso de Bruxelas já vem tarde. E hoje, tal como ontem, ninguém lhe ligou.
Os que meteram o dinheiro ao bolso continuam a sugar até não poderem mais. Os outros estão entretidos a ver a bola. Quando é que começam a pensar na vida? Talvez quando lhes hipotecarem a televisão. Ora bem, esperemos. Cá estarei para me rir.
Afinal, o país anda a fazer figura porque o povo português é vaidoso. Somos uma merda, mas uma grande merda!
Parabéns, Portugal!
Publicado por _gotika_ em 05:04 AM | Comentários: (3)
Comentários 05.02.04 +/- 4h30
Então servem para quê? Para encher o cu de cultura e enfiar o diploma... na parede? Achas que alguém punha os pés na faculdade se não fosse para arranjar um emprego melhor? Talvez meia dúzia de carolas. E sabes o que é que acontecia aos professores universitários? Iam para o olho da rua. E era bem feito para não andarem a criar universidades e cursos da carochinha para enganar os miúdos. Os miúdos que não fazem ideia do que os espera! Os miúdos que acreditam no mérito. Os miúdos que acreditam que vão vencer. Se fossem meia dúzia no desemprego, podíamos até pensar que a culpa era deles. Mas 60 mil, dá que pensar. Não podem ser todos falhados! Alguma coisa aqui cheira muito mal neste reino...
Dizes que o mal não é existirem os cursos, e eu digo que o mal é não existirem empregos. E sim, vou adorar ver os professores inscreverem-se no centro de (des)emprego junto com os alunos, porque, como eu disse, os pimpolhos vão acabar. Já estão a acabar. Já se sente no ensino secundário. Mais ano menos ano, chega à universidade.
(continua no post seguinte)
Mas isso são as cunhas! Qualquer idiota que tenha um papá (ex: João Loureiro) faz uma banda, dirige um clube de futebol, vai para a política... Queres ver que eu não faço nada disso porque sou muito estúpida? (só se for por não arranjar um amante com dinheiro e posição, que também é uma solução muito viável...) Mas somos 60 mil estúpidos? Pá, muita gente estúpida em Portugal...
Quanto às capacidades individuais, ainda posso ir mais longe. Dizem que o país precisa de licenciados nas Ciências. Ok, mas eu não gosto dessa área. Sempre gostei de Humanidades. Entre ser médica e ir fritar hamburgueres no MacDonalds, prefiro o MacDonalds. Sangue por sangue, pelo menos a vaca já não grita.
Se dissessem de uma vez por todas: não precisamos de mais advogados, jornalistas, professores, a malta nem se dava ao trabalho. Ia logo para o MacDonalds.
E é isso que os PROFESSORES E OS LOBBIES DO GOVERNO NÃO QUEREM QUE SE SAIBA!!! Ficavam com a família no desemprego e tinham que sustentar filhos, irmãos, cunhados e outras cunhas.
Ainda sobre o Mac, quem te disse a ti que o Mac emprega licenciados? Pois, aí é que está! Ninguém quer empregar gente sobre-habilitada. Porque é que pensas que está tanta gente licenciada desempregada? Porque preferem gente com o 12º ano. Porque a licenciatura só serve para atrapalhar o currículo. Agora já não me dou ao trabalho de a esconder, mas já dei. Já esteve muito pior do que está agora. Há 10 anos atrás um licenciado não conseguia um emprego como recepcionista, nem temporário. Agora já se consegue. Temporário, mas já se consegue. Progresso, aleluia!
Não é preciso. A Manuela Moura Guedes comentou por mim. Aquilo é jornalista/comentadora 2 em 1. Lá está, a tirar um emprego a um comentador!...
Publicado por _gotika_ em 04:27 AM | Comentários: (3)
Comentários 05.02.04 +/- 10h30
Comentario ao SimplistaPrateado Enviado em março 5, 2004 09:34 AM
Toda a gente sabe já, que quem tira História não vai ter qualquer emprego, o mesmo com filosofia, direito, etc. Direito então, que era a vaca sagrada dos paizinhos, deu em dez faculdades em cada canto deste país e de cada vez que se chuta uma pedra, saltam de lá cinco advogados. Toda a gente sabe isto. Que fazer?
O problema que tu ignoras é que nem toda a gente sabe isto. A maioria das pessoas não "sabe isto".
Fecham-se os cursos? Não me parece! Ninguém anda a enganar ninguém! E fechar as universidades não é solução, seria como fechar o exército por não haver guerra. Realismo, pessoal, realismo.
Parece-me a mim. Pelo menos os cursos públicos, para dar um sinal aos privados, porque se o Estado não regulamenta a actividade económica então quem é que a impede de cair no capitalismo selvagem, em que, aliás, já caiu? Ninguém.
E sim, andam a enganar as pessoas. Pega numa brochura de uma universidade privada e depois vem falar comigo.
Fecha-se o exército? Quase. Reduz-se, como se tem vindo a fazer desde a guerra colonial.
Que a coisa custa e doi, disso não há dúvidas, mas o que eu queria ver aqui era uma análise ou proposta do género: ora eu se fosse governo era assim...
Ok, e prometes que votas em mim?
'Tás a brincar, não? Mas eu vou candidatar-me por alguém?... OK, propostas: fechem-se os cursos do público. JÁ! (Agora até vou perder leitores por tua causa, 'tás a ver?)
Nota posterior: Não fechava. Retringia a 10 alunos por curso. Só os melhores. E fazia com que fossem publicadas as médias de todas as escolas secundárias porque algumas fazem "inflacionar" as notas para os meninos entrarem na faculdade. E assim temos médias de 18 e 19, o que, no meu tempo e na minha área, era impensável há 10 anos atrás...
E deixo aqui uma proposta, a via americana, transformar todos as universidades em privadas, com propinas da ordem dos 2.000/3.000 contos ano, só para lá vão os endinheirados, ou os que recorrem aos financiamentos e ficam a pagar o curso o resto da vida, como nós cá pagamos a casa (eles arrendam), ou ainda os muito, muito bons alunos, que conseguem obter uma das milhares de bolsas de estudo dos mecenas privados. É óbvio que o sistema é de funil, de élite, mas conduz a que haja uma enorme carência de especialistas, e os que conseguem passar pelo funil, quando saem da universidade são em regra disputados, bem pagos e com emprego garantido.
Se dizes que é assim, é assim. Eu nunca lá fui nem lá vou (enquanto eles não atinarem). Mas certo e sabido é que uma dessas bolsas em mil era para mim, sim, adoptava esse sistema.
Podia não ser re-eleita, mas uma aposta que o governo a seguir não mudava isso? O que é preciso é coragem para mexer no sistema instituído.
Se há merda que me fode o juízo é o discurso optimista e dourado. Mas se há merda que me revolta os intestinos, é o inverso miserabilista em que é tudo merda, merdoso, merdunça, etc, etc. Bardamerda, são dois opostos idiotas, em que se acaba por não se discutir nada. Da bardoada à vaca sagrada do Mário Soares gostei. Enviado por Calimero em março 5, 2004 09:14 AM
Calimero, acho muito bem que manifestes o teu protesto. Mas não basta dizer o que achas, tens que justificar. Agora dá-me aí um exemplo da grandeza de Portugal, se faz favor...
Gosto de ler comentários furiosos. Porque foi numa fúria que escreveu isto. Infelizmente, não é no café gritando a altos berros que se resolvem os problemas. O povo faz isso costantemente. É procurando trabalhar para impor a nossa forma de estar. Ter um blog ajuda a mudar as coisas? Enviado por Stela em março 5, 2004 09:49 AM
Comentários furiosos? Comentário furioso é o que a senhora me provoca, dona Stela. Aliás, olhe as horas, acho que já está atrasada para o cabeleireiro. Vá, vá depressa, mas não corra que ainda parte uma perna! Tadinha!
Publicado por _gotika_ em 10:31 AM | Comentários: (7)
Fazer figura de merda grande
O que me irrita mais neste país nem é o caso do menino azul, nem os licenciados no desemprego, nem a miséria que alastra pelas ruas na figura dos sem abrigo, nem nada disso. Pior que nós estão os países africanos, dilacerados pela guerra e pela fome e por cabecilhas mafiosos que se alimentam do povo ignorante.
O que me irrita neste país é a mania de fingir que é mais do que é. Desde Cavaco Silva (raios o partam!) que se gerou uma atmosfera de pseudo-optimismo cego que me repugna. Já não se pode dizer que o país está mal. Está mal, mas quem o diz é apedrejado na rua. O país pré-Cavaco era uma merda, mas uma pequena merda. Uma merda insignificante. Agora o país faz parte da Europa, logo, tornou-se numa grande merda. A merda continua a ser insignificante mas inchou de gases e agora faz-se grande.
O país parece aqueles parolos que não têm onde cair mortos mas gostam de fingir que têm dinheiro. Deixam de comer para pagar as prestações do Mercedes. Vão almoçar fora mas em casa comem massa. Vão às feiras comprar imitações de roupas de marca e em casa estão às escuras para não gastar luz. Tomam banho de água fria para poupar no gás. Emprestam dinheiro a quem o pede e depois não têm para eles, só para não mostrar que precisam.
Há uma série inglesa “Keeping up the Appearances”, versão portuguesa “Cuidado com as Aparências”, que revela muito disto. A bimba que lê as revistas e faz tudo para aparecer nas festas, só para ser fotografada por acidente atrás do D. Duarte Pio.
Até me lembra a cena triste do Durão Barroso nas Lajes, junto aos grandes do mundo, Blair e Bush, e outro carapau de corrida, José Aznar, duas pequenas merdas a fazer figura de grande merda. Deus escreve, porém, direito em linhas tortas e o castigo não se fez esperar: “Burroso” escrito na web page da Casa Branca. O destino é eloquente.
Casos como o do menino azul mostram a pequena merda que o país sempre foi. Alguns iluminados acharam por bem vender o país ao estrangeiro. Entre eles Mário Sores, federalista convicto, e até com boas intenções, mas a raça é ruim. Veio dinheiro da Europa, meteu-se nos bolsos de alguns poucos. Não se guardou para o inverno. Não se criou desenvolvimento. Ainda há pouco tempo veio Bruxelas (como se não houvesse gente cá a dizer o mesmo há muito tempo), alertar que o Estado devia investir mais nas pessoas e menos nas estradas. Outros cá o disseram, e em tempo útil, mas o aviso de Bruxelas já vem tarde. E hoje, tal como ontem, ninguém lhe ligou.
Os que meteram o dinheiro ao bolso continuam a sugar até não poderem mais. Os outros estão entretidos a ver a bola. Quando é que começam a pensar na vida? Talvez quando lhes hipotecarem a televisão. Ora bem, esperemos. Cá estarei para me rir.
Afinal, o país anda a fazer figura porque o povo português é vaidoso. Somos uma merda, mas uma grande merda!
Parabéns, Portugal!
Publicado por _gotika_ em 05:04 AM | Comentários: (3)
Comentários 05.02.04 +/- 4h30
Concordo com o simplista prateado, fónix! O que tá mal não é existirem os cursos. O que tá mal é a malta pensar que os cursos servem para arranjar emprego. Esta mentalidade é preciso mudar. Enviado por Yolaró! em março 3, 2004 11:01 PM
Então servem para quê? Para encher o cu de cultura e enfiar o diploma... na parede? Achas que alguém punha os pés na faculdade se não fosse para arranjar um emprego melhor? Talvez meia dúzia de carolas. E sabes o que é que acontecia aos professores universitários? Iam para o olho da rua. E era bem feito para não andarem a criar universidades e cursos da carochinha para enganar os miúdos. Os miúdos que não fazem ideia do que os espera! Os miúdos que acreditam no mérito. Os miúdos que acreditam que vão vencer. Se fossem meia dúzia no desemprego, podíamos até pensar que a culpa era deles. Mas 60 mil, dá que pensar. Não podem ser todos falhados! Alguma coisa aqui cheira muito mal neste reino...
Dizes que o mal não é existirem os cursos, e eu digo que o mal é não existirem empregos. E sim, vou adorar ver os professores inscreverem-se no centro de (des)emprego junto com os alunos, porque, como eu disse, os pimpolhos vão acabar. Já estão a acabar. Já se sente no ensino secundário. Mais ano menos ano, chega à universidade.
(continua no post seguinte)
O cenário é mau. Mas o simplista prateado não deixa de ter alguma razão: um curso não é uma garantia de emprego e as pessoas devem pensar bem antes de lhe dedicarem não sei quantos anos da sua vida. Mas o que é que se pode pedir para fazer a um puto que revela capacidade para estudar Direito, Filosofia, Psicologia, Biologia, ou outra coisa? Que se contente em vender hamburguers no mac? Há qualquer coisa que não bate certo.É bem verdade que algo vai mal num país que desperdiça desta forma a sua massa cinzenta. Entretanto, na política, os valentins, os sócrates, os abelinos, os santanas e quejandos, continuam e sobrevivem... Mefistófeles Enviado por em março 3, 2004 11:17 PM
Mas isso são as cunhas! Qualquer idiota que tenha um papá (ex: João Loureiro) faz uma banda, dirige um clube de futebol, vai para a política... Queres ver que eu não faço nada disso porque sou muito estúpida? (só se for por não arranjar um amante com dinheiro e posição, que também é uma solução muito viável...) Mas somos 60 mil estúpidos? Pá, muita gente estúpida em Portugal...
Quanto às capacidades individuais, ainda posso ir mais longe. Dizem que o país precisa de licenciados nas Ciências. Ok, mas eu não gosto dessa área. Sempre gostei de Humanidades. Entre ser médica e ir fritar hamburgueres no MacDonalds, prefiro o MacDonalds. Sangue por sangue, pelo menos a vaca já não grita.
Se dissessem de uma vez por todas: não precisamos de mais advogados, jornalistas, professores, a malta nem se dava ao trabalho. Ia logo para o MacDonalds.
E é isso que os PROFESSORES E OS LOBBIES DO GOVERNO NÃO QUEREM QUE SE SAIBA!!! Ficavam com a família no desemprego e tinham que sustentar filhos, irmãos, cunhados e outras cunhas.
Ainda sobre o Mac, quem te disse a ti que o Mac emprega licenciados? Pois, aí é que está! Ninguém quer empregar gente sobre-habilitada. Porque é que pensas que está tanta gente licenciada desempregada? Porque preferem gente com o 12º ano. Porque a licenciatura só serve para atrapalhar o currículo. Agora já não me dou ao trabalho de a esconder, mas já dei. Já esteve muito pior do que está agora. Há 10 anos atrás um licenciado não conseguia um emprego como recepcionista, nem temporário. Agora já se consegue. Temporário, mas já se consegue. Progresso, aleluia!
Olá! Está muito bem aquilo que disseste! Eu acho que tu devias ir para comentadora dos telejornais, ou então ter um programa teu para falar sobre estes e outros assuntos (...) Filipa em março 4, 2004 12:05 AM
Não é preciso. A Manuela Moura Guedes comentou por mim. Aquilo é jornalista/comentadora 2 em 1. Lá está, a tirar um emprego a um comentador!...
Publicado por _gotika_ em 04:27 AM | Comentários: (3)
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Gotika: arquivos Março 2004
março 02, 2004
Tragédias
Duas. Ontem, no telejornal da TVI, duas situações, duas tragédias, ambas comentadas com o rigor e a isenção de Manuela Moura Guedes*.
Mas eram de facto tragédias. A primeira, a do “menino azul”. Uma criança de 7 anos tem uma doença cardíaca rara e incurável. A insuficiência de oxigénio no sangue dá-lhe à pele uma cor azulada (assim como ficam as nossas mãos quando está frio). Alimenta-se por um tubo. Leva cerca de 50 injecções por dia. Precisa de mais de 20 medicamentos para se manter vivo. O Estado comparticipa metade dos medicamentos mas não dá um tostão para as pomadas para a pele. A mãe não trabalha, nem pode, com o filho a exigir tantos cuidados. Gasta 1000 euros por mês em medicação. Sem possibilidade de pagar tanto, escreveu a pedir que o Estado pague a totalidade dos medicamentos. Viu o pedido recusado.
Esta criança vai morrer. Disso não há dúvida. Para a mãe, cada dia é mais um dia. E o pior é que a criança, sorridente, alheia ao que se passa com ele, vive intensamente cada dia apesar da pobre qualidade da sua vida. Numa nota de humor negro, imagino dizerem àquela mãe o que o veterinário disse do meu gato: “Ò minha senhora, isto... Isto... Isto não tem cura... Podemos dar injecções mas não tem cura.”, que se pode interpretar como “anda a gastar dinheiro em vão”. Pois foi isso mesmo que o Estado disse àquela mãe.
Pensamentos:
Tirando o facto de que o Estado não devia ser paizinho nem mãezinha de ninguém, mas que a situação dos portugueses é de facto esta e que os pobres, com os seus ordenados e pensões de miséria, não sobrevivem sem o Estado...
- em Portugal, uma criança rica vive mais tempo do que uma criança pobre, em pleno século XXI, na União Europeia.
- a vida de uma criança devia ser mais importante do que a de um gato, mas isso depende do recheio da carteira dos pais.
- a situação vai resolver-se de uma de duas maneiras terceiro-mundistas: ou o Estado arranja à pressa um subsídio para o menino porque o caso apareceu na televisão ou, não sei o que é pior, algum rico vai pagar os medicamentos ao menino com caridade(zinha).
- num país onde se constróem 10 estádios de futebol para entreter os pobres, se calhar os pobres têm culpa e é bem feita.
- os pobres só percebem quando lhes toca a eles (preguiça, falta de pensamento, insensibilidade aos problemas alheios?)
- há administradores de empresas públicas a ganhar 9000 contos por mês e não há dinheiro para mais uns dias de vida de uma criança.
- isto está bonito.
- e não é caso único, vejam o post no Caccaocino sobre as crianças com trissomia 21 (síndrome de Down): “Recentemente, saiu uma lei que obriga a filha da Catarina se quiser receber benefícios fiscais a obter uma nova declaração que prove que a criança é portadora de deficiência de cinco em cinco anos como se a trissomia 21 se curasse!...”
- isto de ter filhos é só para os ricos.
Segunda tragédia. 60 mil licenciados desempregados em Portugal, com testemunhos, a viverem de biscates e trabalho temporário. Nesta estou eu incluída. Nos testemunhos revi-me eu. Por isso também sei do que falo.
Todos tinham tido um empregozinho durante uns tempos após a conclusão da licenciatura, na área para a qual estudaram. Depois ficaram sem ele e nunca mais conseguiram outro. Eu explico porquê. As empresas contratam jovens “estagiários”, não remunerados ou quase, e não querem gente com experiência. Quando o trabalhador começa a exigir um aumento porque já lá trabalha há uns tempos valentes, é posto na rua por dá cá aquela palha. E não volta a ser contratado por outras empresas da área porque todos os anos sai das universidades uma fornada nova de trabalho escravo. Se um estagiário não remunerado não consegue dar conta do recado, metem-se dois. O custo é igual. O resultado é o mesmo.
Enquanto isto estiver assim, a malta com alguma experiência fica na prateleira. A taxa de natalidade tem descido nos últimos anos, hão-de acabar-se os pimpolhos recém-licenciados às catadupas. Talvez aí se consiga arranjar um emprego decente...
Gostei do cinismo com que a reportagem foi conduzida, provavelmente por uma jornalista estagiária a ver a vida a andar para trás, quando uma licenciada em Ciências da Comunicação afirmou ter realizado um estágio não remunerado numa televisão durante três meses e, sublinhou, não na TVI. Como se na TVI não se passasse o mesmo! Aliás, a situação não é mais trazida a público porque os meios de comunicação social vivem da exploração do trabalho escravo e ingénuo. É por isso que ainda há gente a dizer: “Quando cheguei cá fora, ao mercado de trabalho, é que me apercebi da situação”. Antes, não. De outra forma não teriam ido encher o cú aos professores que sustentam a criação de cursos de lápis e caneta (não os de ciências, porque requerem investimento) sem a mínima hipótese de saídas profissionais, para se auto-financiarem antes que os pimpolhos escasseiem ou abram os olhos.
Resta a estes homens e mulheres de 20 e tal, 30 anos, viverem com os pais, sem vida privada, sem independência, sem autonomia, e assim se castra uma geração.
É por estas e outras que eu não tenho dinheiro para mandar o gato fazer quimioterapia. Talvez se curasse. Mas se neste país já é tão difícil salvar uma criança pobre, quanto mais um gato...
E assim, tudo está interligado. É uma grande conspiração cósmica contra a minha pessoa. Imagino o que devo ter feito em vidas passadas para merecer este castigo. Devo ter feito caridade(zinha)...
* Temos de admitir que a senhora é rigorosa e isenta no que toca a fazer subir as audiências.
Publicado por _gotika_ em 08:35 PM | Comentários: (17)
Quem não gosta de um cão?
Gosto de ouvir as patas do cão da vizinha de cima, tec tec tec, tec tec tec, de um lado para o outro, e depois ladra “bú! bú! bú!”.
Faz-me sentir segura enquanto durmo. Faz-me sentir segura sempre.
Quem é que não gosta de um cão? Como diria o vampiro Lestat, um ser que é todo Bondade?
Não é humano não gostar de um cão.*
* Tirando certas fobias, que infelizmente também são humanas.
Publicado por _gotika_ em 08:34 PM | Comentários: (6)
A dor desde os primórdios
Não tenho dúvidas de que foi o facto da morte que deu origem à necessidade da religião. Deve ter acontecido em tempos remotos, pré-históricos, quando o homem se deu conta de que os mortos não voltavam. Por isso pergunto: o que veio primeiro, a expressão de dor ou a superstição? E mais uma vez não tenho dúvidas de que o luto, como dor, já existia antes. Bem antes de o homem ter desenvolvido qualquer tipo de criatividade abstracta. Bem antes de o homem ser ainda homem.
Mais tarde, talvez para afugentar essa dor, o homem apercebeu-se da necessidade de acreditar que o morto não morreu de facto, mas que vivia em espírito. Nesse dia deve ter sido investido o primeiro feiticeiro da tribo. O medo que os vivos têm da morte transferiu-se para o medo do espírito do morto. Era preciso, então, apaziguá-lo, aquietá-lo, espantá-lo, para que fizesse a travessia em sossego e não voltasse atrás pelos vivos.
O espírito do morto tornou-se mais temido do que a morte, mas no fundo o espírito do morto não representava mais do que a própria morte.
À medida que as civilizações se desenvolviam, o processo de espanta-espíritos tornou-se cada vez mais evoluído. Não bastava o feiticeiro da tribo. Toda a família do morto, toda a comunidade, devia chorá-lo. Usar roupas especiais, cobrir-se de cinzas, chorar alto, contratando se necessário carpideiras para o fazer. Era necessário fazer barulho para assustar o espírito do morto - tradição da qual ainda guardamos o sino da igreja a bater lúgubre a finados.
Muitas vezes o luto já não exprime dor, mas apenas superstição. Condicionalismo social. Porque fica mal não vestir preto, porque rir é uma falta de respeito a quem partiu. Definiram-se períodos de tempo para o luto a apresentar socialmente, consoante o grau de parentesco ou proximidade com o defunto. Aos pais, esposa e filhos cabendo os períodos de luto mais alargados. Para sossegar o morto. E para sossegar a comunidade de que o morto não voltaria devido a qualquer afronta da sua família. Chorado convenientemente, o espírito não teria razão para voltar. Era necessário ainda convocar o feiticeiro da tribo, o padre, para completar o ritual ao sétimo dia, não fosse o diabo tecê-las.
Este luto tornou-se obrigatório para todos os falecimentos, os dos mortos amados e não amados. Se não se sentia, era preciso fingi-lo.
A comunidade primitiva, penso eu, deve ter começado o luto pela dor, uma dor que muitas vezes não se sente no luto “institucionalizado”. Quando perder um membro da comunidade, ou uma “cria” em quem se investia muito, era de facto uma perda irreparável para a sobrevivência de toda a tribo.
Mas vai mais longe. Os animais sentem o luto. Por menos tempo, é verdade. Tirando os elefantes. Vi num documentário que nas comunidades de elefantes se passa uma coisa verdadeiramente espantosa. Os elefantes, como é largamente conhecido, vão morrer aos cemitérios de elefantes. Aqui ficam os ossos de gerações e gerações de membros da comunidade. E então, ao passarem por ali, os elefantes vivos param, detêm-se, e iniciam um ritual absolutamente incrível. Remexem, com as trombas, nas ossadas. Passam os ossos de membro em membro da comunidade, dos maiores aos mais pequenos, e ficam naquilo durante algum tempo, a provar aos mais cépticos que o ser humano não está assim tão longe dos seus primórdios quanto isso. Não há razão nenhuma de ordem natural que os leve àquele comportamento ritualístico. Não serve para se alimentarem nem para se reproduzirem. Servirá para reforçar a coesão da manada? Quase diria, da “tribo”, porque não estamos habituados a associar as palavras “ritual” com “manada”. E a coesão social faz parte da ordem civilizacional, e já não natural, das coisas. Os seres humanos necessitavam dessa mesma coesão, desde a pré-história, para resistirem aos predadores mais equipados. Actualmente ainda necessitamos dessa mesma coesão para manter a sociedade em funcionamento. Nós e as formigas. Não é, portanto, uma necessidade puramente humana, mas também já não é puramente natural porque muitos animais de hábitos solitários sobrevivem sem ser em comunidade.
Agora vou contar uma história que é verdadeira, e que se não visse não acreditava. A partir daí percebi que de facto a dor veio primeiro e só depois surgiu uma religião que a apaziguasse.
Fui sair à noite. Antes ainda de chegar à paragem de autocarro, vi uma gata branca morta, atropelada, no passeio. Ao lado dela, um gato preto, naquela posição entre o sentado e o deitado (de esfinge) em que se põem os gatos, como se esperasse que ela acordasse. Isso levou-me a pensar que a gata ainda não estava morta, porque se estivesse, pensava eu, o outro já teria desertado o cadáver.
Aproximei-me. O gato preto rosnou-me, ameaçador. Mas não se afastou da gata branca. Perplexa com o que estava a ver, tentei acalmar o gato e mostrei-lhe que vinha para ajudar. Baixei-me a apalpei o corpo da gata morta. Ainda estava morno. Tinha sido recente. Mas estava morto.
Ao perceber que eu viera ajudar, o gato desatou a miar à minha volta. A pedir. O que pedia ele? Que lhe desse a companheira. E pedia-o com mais aflição do que pediria um prato de comida. Eram sons estranhos e cortantes que o gato emitia.
Peguei na gata morta e fui colocá-la no outro lado do passeio que me pareceu mais seguro para o gato que ainda estava vivo e não fazia tenções de sair dali.
Vendo que não podia fazer nada, fui à minha vida. O gato ficou.
Quando voltei, seriam quase cinco da manhã, fiquei estarrecida por encontrar o gato preto deitado ao lado da gata branca. Ainda estava à espera.
Com pena do gato preto, resolvi tirar dali o cadáver. Peguei na gata branca e dirigi-me a casa para ir buscar um saco de plástico. O gato seguiu-me, e miava. Como se acreditasse que eu tinha o poder de restituir a vida à companheira. Afinal, nós fazemos aparecer comida não se sabe de onde... Somos divinos.
Testei. Coloquei a gata dentro de casa e fechei a porta. Agora é que o gato não se calava. Queria entrar também.
Depois meti o cadáver num saco plástico e fui pô-lo num contentor ao fundo da rua. O gato seguiu-me e ficou lá. Aquilo estava a tornar-se aflitivo.
Não costumo deitar-me logo. Umas horas depois voltei a espreitar, era quase manhã, já raiava o sol cor de rosa da aurora, e lá estava ele, o gato preto, a velar o contentor. Preocupei-me por causa dos carros, porque quando viesse a carrinha do lixo não tenho dúvidas de que o gato iria atrás também... Por isso pedi ajuda para uma manobra de diversão. Enquanto eu encaminhava o gato para o sítio onde o tinha encontrado, ali perto, transportando um saco semelhante mas sem o cadáver, outra pessoa se encarregou de ir pôr o verdadeiro cadáver num outro contentor, mais longe.
Evidentemente, o gato não me largou. Depois da voltinha de engodo, voltei ao caixote do lixo perto de casa, que estava num lugar onde não passavam carros, e deixei lá o falso embrulho. O gato caiu no equívoco. Pensava que era ali que estava o cadáver da “amiga”. E ali ficou. Mas já não em perigo.
Disseram-me que esteve ali o dia inteiro, a velar o caixote. Esperava. Depois, já ao pôr-do-sol, deve ter tido fome e lá se foi embora.
Mais uma vez, se eu não tivesse visto não acreditava.
Publicado por _gotika_ em 04:28 PM | Comentários: (4)
Comentário:
Saliento o post sobre Portugal, este e os que se seguem. Parecem completamente actuais mas na altura foram recebidos como delirantes. Quem só se indigna agora indigna-se tarde e não pode dizer que não foi avisado.
Mas não queriam acreditar.
Se tivessem acreditado talvez tivessem feito alguma coisa mais cedo. Mas a vida corria bem, não corria? Eram os outros que estavam malucos.
Tragédias
Duas. Ontem, no telejornal da TVI, duas situações, duas tragédias, ambas comentadas com o rigor e a isenção de Manuela Moura Guedes*.
Mas eram de facto tragédias. A primeira, a do “menino azul”. Uma criança de 7 anos tem uma doença cardíaca rara e incurável. A insuficiência de oxigénio no sangue dá-lhe à pele uma cor azulada (assim como ficam as nossas mãos quando está frio). Alimenta-se por um tubo. Leva cerca de 50 injecções por dia. Precisa de mais de 20 medicamentos para se manter vivo. O Estado comparticipa metade dos medicamentos mas não dá um tostão para as pomadas para a pele. A mãe não trabalha, nem pode, com o filho a exigir tantos cuidados. Gasta 1000 euros por mês em medicação. Sem possibilidade de pagar tanto, escreveu a pedir que o Estado pague a totalidade dos medicamentos. Viu o pedido recusado.
Esta criança vai morrer. Disso não há dúvida. Para a mãe, cada dia é mais um dia. E o pior é que a criança, sorridente, alheia ao que se passa com ele, vive intensamente cada dia apesar da pobre qualidade da sua vida. Numa nota de humor negro, imagino dizerem àquela mãe o que o veterinário disse do meu gato: “Ò minha senhora, isto... Isto... Isto não tem cura... Podemos dar injecções mas não tem cura.”, que se pode interpretar como “anda a gastar dinheiro em vão”. Pois foi isso mesmo que o Estado disse àquela mãe.
Pensamentos:
Tirando o facto de que o Estado não devia ser paizinho nem mãezinha de ninguém, mas que a situação dos portugueses é de facto esta e que os pobres, com os seus ordenados e pensões de miséria, não sobrevivem sem o Estado...
- em Portugal, uma criança rica vive mais tempo do que uma criança pobre, em pleno século XXI, na União Europeia.
- a vida de uma criança devia ser mais importante do que a de um gato, mas isso depende do recheio da carteira dos pais.
- a situação vai resolver-se de uma de duas maneiras terceiro-mundistas: ou o Estado arranja à pressa um subsídio para o menino porque o caso apareceu na televisão ou, não sei o que é pior, algum rico vai pagar os medicamentos ao menino com caridade(zinha).
- num país onde se constróem 10 estádios de futebol para entreter os pobres, se calhar os pobres têm culpa e é bem feita.
- os pobres só percebem quando lhes toca a eles (preguiça, falta de pensamento, insensibilidade aos problemas alheios?)
- há administradores de empresas públicas a ganhar 9000 contos por mês e não há dinheiro para mais uns dias de vida de uma criança.
- isto está bonito.
- e não é caso único, vejam o post no Caccaocino sobre as crianças com trissomia 21 (síndrome de Down): “Recentemente, saiu uma lei que obriga a filha da Catarina se quiser receber benefícios fiscais a obter uma nova declaração que prove que a criança é portadora de deficiência de cinco em cinco anos como se a trissomia 21 se curasse!...”
- isto de ter filhos é só para os ricos.
Segunda tragédia. 60 mil licenciados desempregados em Portugal, com testemunhos, a viverem de biscates e trabalho temporário. Nesta estou eu incluída. Nos testemunhos revi-me eu. Por isso também sei do que falo.
Todos tinham tido um empregozinho durante uns tempos após a conclusão da licenciatura, na área para a qual estudaram. Depois ficaram sem ele e nunca mais conseguiram outro. Eu explico porquê. As empresas contratam jovens “estagiários”, não remunerados ou quase, e não querem gente com experiência. Quando o trabalhador começa a exigir um aumento porque já lá trabalha há uns tempos valentes, é posto na rua por dá cá aquela palha. E não volta a ser contratado por outras empresas da área porque todos os anos sai das universidades uma fornada nova de trabalho escravo. Se um estagiário não remunerado não consegue dar conta do recado, metem-se dois. O custo é igual. O resultado é o mesmo.
Enquanto isto estiver assim, a malta com alguma experiência fica na prateleira. A taxa de natalidade tem descido nos últimos anos, hão-de acabar-se os pimpolhos recém-licenciados às catadupas. Talvez aí se consiga arranjar um emprego decente...
Gostei do cinismo com que a reportagem foi conduzida, provavelmente por uma jornalista estagiária a ver a vida a andar para trás, quando uma licenciada em Ciências da Comunicação afirmou ter realizado um estágio não remunerado numa televisão durante três meses e, sublinhou, não na TVI. Como se na TVI não se passasse o mesmo! Aliás, a situação não é mais trazida a público porque os meios de comunicação social vivem da exploração do trabalho escravo e ingénuo. É por isso que ainda há gente a dizer: “Quando cheguei cá fora, ao mercado de trabalho, é que me apercebi da situação”. Antes, não. De outra forma não teriam ido encher o cú aos professores que sustentam a criação de cursos de lápis e caneta (não os de ciências, porque requerem investimento) sem a mínima hipótese de saídas profissionais, para se auto-financiarem antes que os pimpolhos escasseiem ou abram os olhos.
Resta a estes homens e mulheres de 20 e tal, 30 anos, viverem com os pais, sem vida privada, sem independência, sem autonomia, e assim se castra uma geração.
É por estas e outras que eu não tenho dinheiro para mandar o gato fazer quimioterapia. Talvez se curasse. Mas se neste país já é tão difícil salvar uma criança pobre, quanto mais um gato...
E assim, tudo está interligado. É uma grande conspiração cósmica contra a minha pessoa. Imagino o que devo ter feito em vidas passadas para merecer este castigo. Devo ter feito caridade(zinha)...
* Temos de admitir que a senhora é rigorosa e isenta no que toca a fazer subir as audiências.
Publicado por _gotika_ em 08:35 PM | Comentários: (17)
Quem não gosta de um cão?
Gosto de ouvir as patas do cão da vizinha de cima, tec tec tec, tec tec tec, de um lado para o outro, e depois ladra “bú! bú! bú!”.
Faz-me sentir segura enquanto durmo. Faz-me sentir segura sempre.
Quem é que não gosta de um cão? Como diria o vampiro Lestat, um ser que é todo Bondade?
Não é humano não gostar de um cão.*
* Tirando certas fobias, que infelizmente também são humanas.
Publicado por _gotika_ em 08:34 PM | Comentários: (6)
A dor desde os primórdios
Não tenho dúvidas de que foi o facto da morte que deu origem à necessidade da religião. Deve ter acontecido em tempos remotos, pré-históricos, quando o homem se deu conta de que os mortos não voltavam. Por isso pergunto: o que veio primeiro, a expressão de dor ou a superstição? E mais uma vez não tenho dúvidas de que o luto, como dor, já existia antes. Bem antes de o homem ter desenvolvido qualquer tipo de criatividade abstracta. Bem antes de o homem ser ainda homem.
Mais tarde, talvez para afugentar essa dor, o homem apercebeu-se da necessidade de acreditar que o morto não morreu de facto, mas que vivia em espírito. Nesse dia deve ter sido investido o primeiro feiticeiro da tribo. O medo que os vivos têm da morte transferiu-se para o medo do espírito do morto. Era preciso, então, apaziguá-lo, aquietá-lo, espantá-lo, para que fizesse a travessia em sossego e não voltasse atrás pelos vivos.
O espírito do morto tornou-se mais temido do que a morte, mas no fundo o espírito do morto não representava mais do que a própria morte.
À medida que as civilizações se desenvolviam, o processo de espanta-espíritos tornou-se cada vez mais evoluído. Não bastava o feiticeiro da tribo. Toda a família do morto, toda a comunidade, devia chorá-lo. Usar roupas especiais, cobrir-se de cinzas, chorar alto, contratando se necessário carpideiras para o fazer. Era necessário fazer barulho para assustar o espírito do morto - tradição da qual ainda guardamos o sino da igreja a bater lúgubre a finados.
Muitas vezes o luto já não exprime dor, mas apenas superstição. Condicionalismo social. Porque fica mal não vestir preto, porque rir é uma falta de respeito a quem partiu. Definiram-se períodos de tempo para o luto a apresentar socialmente, consoante o grau de parentesco ou proximidade com o defunto. Aos pais, esposa e filhos cabendo os períodos de luto mais alargados. Para sossegar o morto. E para sossegar a comunidade de que o morto não voltaria devido a qualquer afronta da sua família. Chorado convenientemente, o espírito não teria razão para voltar. Era necessário ainda convocar o feiticeiro da tribo, o padre, para completar o ritual ao sétimo dia, não fosse o diabo tecê-las.
Este luto tornou-se obrigatório para todos os falecimentos, os dos mortos amados e não amados. Se não se sentia, era preciso fingi-lo.
A comunidade primitiva, penso eu, deve ter começado o luto pela dor, uma dor que muitas vezes não se sente no luto “institucionalizado”. Quando perder um membro da comunidade, ou uma “cria” em quem se investia muito, era de facto uma perda irreparável para a sobrevivência de toda a tribo.
Mas vai mais longe. Os animais sentem o luto. Por menos tempo, é verdade. Tirando os elefantes. Vi num documentário que nas comunidades de elefantes se passa uma coisa verdadeiramente espantosa. Os elefantes, como é largamente conhecido, vão morrer aos cemitérios de elefantes. Aqui ficam os ossos de gerações e gerações de membros da comunidade. E então, ao passarem por ali, os elefantes vivos param, detêm-se, e iniciam um ritual absolutamente incrível. Remexem, com as trombas, nas ossadas. Passam os ossos de membro em membro da comunidade, dos maiores aos mais pequenos, e ficam naquilo durante algum tempo, a provar aos mais cépticos que o ser humano não está assim tão longe dos seus primórdios quanto isso. Não há razão nenhuma de ordem natural que os leve àquele comportamento ritualístico. Não serve para se alimentarem nem para se reproduzirem. Servirá para reforçar a coesão da manada? Quase diria, da “tribo”, porque não estamos habituados a associar as palavras “ritual” com “manada”. E a coesão social faz parte da ordem civilizacional, e já não natural, das coisas. Os seres humanos necessitavam dessa mesma coesão, desde a pré-história, para resistirem aos predadores mais equipados. Actualmente ainda necessitamos dessa mesma coesão para manter a sociedade em funcionamento. Nós e as formigas. Não é, portanto, uma necessidade puramente humana, mas também já não é puramente natural porque muitos animais de hábitos solitários sobrevivem sem ser em comunidade.
Agora vou contar uma história que é verdadeira, e que se não visse não acreditava. A partir daí percebi que de facto a dor veio primeiro e só depois surgiu uma religião que a apaziguasse.
Fui sair à noite. Antes ainda de chegar à paragem de autocarro, vi uma gata branca morta, atropelada, no passeio. Ao lado dela, um gato preto, naquela posição entre o sentado e o deitado (de esfinge) em que se põem os gatos, como se esperasse que ela acordasse. Isso levou-me a pensar que a gata ainda não estava morta, porque se estivesse, pensava eu, o outro já teria desertado o cadáver.
Aproximei-me. O gato preto rosnou-me, ameaçador. Mas não se afastou da gata branca. Perplexa com o que estava a ver, tentei acalmar o gato e mostrei-lhe que vinha para ajudar. Baixei-me a apalpei o corpo da gata morta. Ainda estava morno. Tinha sido recente. Mas estava morto.
Ao perceber que eu viera ajudar, o gato desatou a miar à minha volta. A pedir. O que pedia ele? Que lhe desse a companheira. E pedia-o com mais aflição do que pediria um prato de comida. Eram sons estranhos e cortantes que o gato emitia.
Peguei na gata morta e fui colocá-la no outro lado do passeio que me pareceu mais seguro para o gato que ainda estava vivo e não fazia tenções de sair dali.
Vendo que não podia fazer nada, fui à minha vida. O gato ficou.
Quando voltei, seriam quase cinco da manhã, fiquei estarrecida por encontrar o gato preto deitado ao lado da gata branca. Ainda estava à espera.
Com pena do gato preto, resolvi tirar dali o cadáver. Peguei na gata branca e dirigi-me a casa para ir buscar um saco de plástico. O gato seguiu-me, e miava. Como se acreditasse que eu tinha o poder de restituir a vida à companheira. Afinal, nós fazemos aparecer comida não se sabe de onde... Somos divinos.
Testei. Coloquei a gata dentro de casa e fechei a porta. Agora é que o gato não se calava. Queria entrar também.
Depois meti o cadáver num saco plástico e fui pô-lo num contentor ao fundo da rua. O gato seguiu-me e ficou lá. Aquilo estava a tornar-se aflitivo.
Não costumo deitar-me logo. Umas horas depois voltei a espreitar, era quase manhã, já raiava o sol cor de rosa da aurora, e lá estava ele, o gato preto, a velar o contentor. Preocupei-me por causa dos carros, porque quando viesse a carrinha do lixo não tenho dúvidas de que o gato iria atrás também... Por isso pedi ajuda para uma manobra de diversão. Enquanto eu encaminhava o gato para o sítio onde o tinha encontrado, ali perto, transportando um saco semelhante mas sem o cadáver, outra pessoa se encarregou de ir pôr o verdadeiro cadáver num outro contentor, mais longe.
Evidentemente, o gato não me largou. Depois da voltinha de engodo, voltei ao caixote do lixo perto de casa, que estava num lugar onde não passavam carros, e deixei lá o falso embrulho. O gato caiu no equívoco. Pensava que era ali que estava o cadáver da “amiga”. E ali ficou. Mas já não em perigo.
Disseram-me que esteve ali o dia inteiro, a velar o caixote. Esperava. Depois, já ao pôr-do-sol, deve ter tido fome e lá se foi embora.
Mais uma vez, se eu não tivesse visto não acreditava.
Publicado por _gotika_ em 04:28 PM | Comentários: (4)
~~§~~
Comentário:
Saliento o post sobre Portugal, este e os que se seguem. Parecem completamente actuais mas na altura foram recebidos como delirantes. Quem só se indigna agora indigna-se tarde e não pode dizer que não foi avisado.
Mas não queriam acreditar.
Se tivessem acreditado talvez tivessem feito alguma coisa mais cedo. Mas a vida corria bem, não corria? Eram os outros que estavam malucos.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Gotika: arquivos Fevereiro 2004
fevereiro 29, 2004
Um filme: “Inferno”, de Joaquim Leitão
É um filme de 1999 mas vi ontem pela primeira vez. Com aquele pé atrás que tenho sempre em relação aos filmes portugueses, foi com agrado que percebi, após a primeira meia hora, que de facto a coisa me estava a interessar.
A terapia dos traumatismos da guerra no Ultramar tem sido feita no cinema português, muito à semelhança do que se passa no cinema americano em relação à guerra do Vietname. (Também é verdade que os realizadores têm todos a mania de filmar uma guerra. É uma espécie de “escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho” na versão cinematográfica. Cada um aproveita as guerras que tem.)
O filme foca uma realidade absolutamente real, coisa rara no cinema português. É verdade que no final perde as estribeiras, mas lá iremos.
Alguns homens, ex-combatentes, reúnem-se ocasionalmente na casa de um deles, no Alentejo. A linguagem, as personalidades, as vidas, é que é mesmo assim. Real. Sem tirar nem pôr. Homens a beber, a conduzir à maluca nas estradas portuguesas, ainda por cima a falar ao telemóvel. Depois ainda se admiram...
Homens que sofrem, traumatizados com uma guerra de que ninguém fala, com um sofrimento que se cala neste país. Também é verdade que eles próprios são os primeiros a contribuir para esse silêncio, aliás, como se expressa no filme e muito bem. Todas as recordações dos momentos mais dramáticos são interrompidas com um “foda-se, não nos queremos lembrar disso!” São homens de barba rija, homens que não choram, homens que se metem nos copos e fumam charros e andam à porrada para purgarem a violência que os consome.
Confesso que me ri durante a parte da casa do Alentejo, com as piadas deles, e que aquilo me fez lembrar algumas das minhas noites mais malucas com malta da minha idade que não foi a guerra nenhuma mas que já está tão amarga e desejosa de esquecer como aqueles homens. Curioso, não? Alguma coisa neste país andou a matar os jovens nos últimos anos. Por dentro. E não tenho a certeza mas suspeito muito que somos a verdadeira geração “no future” de Portugal, com uns aninhos de atraso em relação à Inglaterra. Mas adiante, que isto são outras guerras.
A interpretação de Nicolau Breyner e outros actores que estamos habituados a ver nos “Malucos do Riso” é absolutamente brilhante. Marlon Brando não faria melhor, até porque Marlon Brando jamais saberia interpretar um português. Júlio César é um drogado maluco fantástico. Joaquim de Almeida teima em falar para dentro - mas a isso já estamos habituados.
Adorei a cena em que os dois bêbedos dançam “Smoke on the Water” dos Deep Purple, num bar de alterne espanhol, fazendo uma triste figura mas completamente nas tintas porque se estavam a divertir. Também já passei por isso. Mas aquilo era mesmo pessoal da pesada, e bem pesados os dois.
Adorei a Ana Bustorff com a maquilhagem borrada, à “Corvo”. Não esperava encontrar ali um toque gótico. Não numa feira de Verão do Alentejo. (Ele surge onde não se espera.)
Gostei da linguagem e do realismo. Por isso não gostei, quando por causa de um conflito com traficantes espanhóis, o filme se transforma numa cóboiada à americana, com metralhadoras e tudo, algures entre Beja e Badajoz. Pronto, delirámos! Tínhamos de estragar, não era?... Estava a ir tão bem... Quando é que se convencem que em Portugal não há Rambos nem Norris?... Ainda se fosse na Cova da Moura, seria convincente... Os despistes de automóvel, por exemplo, são completamente convincentes! E não é preciso explicar porquê, pois não? Aquilo é o pão nosso de cada dia. Agora o aparato militar, a negociação de reféns, um padrinho mafioso à espanhola... Mafioso à espanhola?! Isto diz tudo. Enganaram-se no país. A Sicília é mais ao lado, mais um bocadinho.
Conclusão final, os portugueses ainda não aprenderam a fazer um filme completo, com princípio, meio e fim. E é pena, porque estava a ir tão bem...
Publicado por _gotika_ em 08:03 PM | Comentários: (1)
Um filme: “Inferno”, de Joaquim Leitão
É um filme de 1999 mas vi ontem pela primeira vez. Com aquele pé atrás que tenho sempre em relação aos filmes portugueses, foi com agrado que percebi, após a primeira meia hora, que de facto a coisa me estava a interessar.
A terapia dos traumatismos da guerra no Ultramar tem sido feita no cinema português, muito à semelhança do que se passa no cinema americano em relação à guerra do Vietname. (Também é verdade que os realizadores têm todos a mania de filmar uma guerra. É uma espécie de “escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho” na versão cinematográfica. Cada um aproveita as guerras que tem.)
O filme foca uma realidade absolutamente real, coisa rara no cinema português. É verdade que no final perde as estribeiras, mas lá iremos.
Alguns homens, ex-combatentes, reúnem-se ocasionalmente na casa de um deles, no Alentejo. A linguagem, as personalidades, as vidas, é que é mesmo assim. Real. Sem tirar nem pôr. Homens a beber, a conduzir à maluca nas estradas portuguesas, ainda por cima a falar ao telemóvel. Depois ainda se admiram...
Homens que sofrem, traumatizados com uma guerra de que ninguém fala, com um sofrimento que se cala neste país. Também é verdade que eles próprios são os primeiros a contribuir para esse silêncio, aliás, como se expressa no filme e muito bem. Todas as recordações dos momentos mais dramáticos são interrompidas com um “foda-se, não nos queremos lembrar disso!” São homens de barba rija, homens que não choram, homens que se metem nos copos e fumam charros e andam à porrada para purgarem a violência que os consome.
Confesso que me ri durante a parte da casa do Alentejo, com as piadas deles, e que aquilo me fez lembrar algumas das minhas noites mais malucas com malta da minha idade que não foi a guerra nenhuma mas que já está tão amarga e desejosa de esquecer como aqueles homens. Curioso, não? Alguma coisa neste país andou a matar os jovens nos últimos anos. Por dentro. E não tenho a certeza mas suspeito muito que somos a verdadeira geração “no future” de Portugal, com uns aninhos de atraso em relação à Inglaterra. Mas adiante, que isto são outras guerras.
A interpretação de Nicolau Breyner e outros actores que estamos habituados a ver nos “Malucos do Riso” é absolutamente brilhante. Marlon Brando não faria melhor, até porque Marlon Brando jamais saberia interpretar um português. Júlio César é um drogado maluco fantástico. Joaquim de Almeida teima em falar para dentro - mas a isso já estamos habituados.
Adorei a cena em que os dois bêbedos dançam “Smoke on the Water” dos Deep Purple, num bar de alterne espanhol, fazendo uma triste figura mas completamente nas tintas porque se estavam a divertir. Também já passei por isso. Mas aquilo era mesmo pessoal da pesada, e bem pesados os dois.
Adorei a Ana Bustorff com a maquilhagem borrada, à “Corvo”. Não esperava encontrar ali um toque gótico. Não numa feira de Verão do Alentejo. (Ele surge onde não se espera.)
Gostei da linguagem e do realismo. Por isso não gostei, quando por causa de um conflito com traficantes espanhóis, o filme se transforma numa cóboiada à americana, com metralhadoras e tudo, algures entre Beja e Badajoz. Pronto, delirámos! Tínhamos de estragar, não era?... Estava a ir tão bem... Quando é que se convencem que em Portugal não há Rambos nem Norris?... Ainda se fosse na Cova da Moura, seria convincente... Os despistes de automóvel, por exemplo, são completamente convincentes! E não é preciso explicar porquê, pois não? Aquilo é o pão nosso de cada dia. Agora o aparato militar, a negociação de reféns, um padrinho mafioso à espanhola... Mafioso à espanhola?! Isto diz tudo. Enganaram-se no país. A Sicília é mais ao lado, mais um bocadinho.
Conclusão final, os portugueses ainda não aprenderam a fazer um filme completo, com princípio, meio e fim. E é pena, porque estava a ir tão bem...
Publicado por _gotika_ em 08:03 PM | Comentários: (1)
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Gotika: arquivos Fevereiro 2004
fevereiro 24, 2004
A minha última paixão
Procurei refúgio nas últimas páginas de “The Tale of the Body Thief”. Oh, que decepção, Lestat! Estou tão danada também contigo, agora que já te amava tanto! Se o soubesses, também me transformavas num dos teus, contra a minha vontade? É essa a tua gratidão? Saberás o significado da palavra respeito? Egoísta infantil! Sabes que vais arder no inferno do teu arrependimento, não sabes? Pobre estúpido! Não negues! Negas agora por orgulho. Ainda me vais dar razão.
Tu não és Mau! A tua “maldade demoníaca” não passa de capricho de menino mimado! “Old demon” my ass! Spoiled, idiot, stupid, poor little idiot you!
Ainda tens muito que aprender. Que os teus amigos tenham paciência para te aturar. É difícil não te amar, Lestat. Sim, eu sei que te custa a crer. Debaixo de um grande complexo de superioridade está sempre o reverso da medalha. Tens medo da solidão e da morte. Por essa ordem. Mas o que mais temes é o vazio que encontras dentro da tua alma egoísta quando te vês sozinho e a morte te tenta. A morte que não consegues aceitar e tanto temes, torna-se sedutora. Sem amor não vale a pena, pois não, Lestat?
Talvez Anne Rice ponha no teu caminho a pessoa certa no momento certo para perceberes que não deves temer a solidão. Talvez assim não temas tanto a morte. E já to disseram tantas vezes, Lestat, e tu não ouves!
Oh! Todos os outros me devem condenar pelo meu temperamento, pela minha impetuosidade, pela minha determinação! Eles gostam de ver. Mas quando eu mostro a minha própria fraqueza, eles afastam-me. É isso? Sou deveras forte?
Respondeu-te o Body Thief: Oh, sim, nunca te faltou a força! E é por isso que eles te invejam e desprezam e se zangam contigo.
Mas tu não acreditas. Quando viste o teu corpo passar, com alma de outro dentro dele, quais foram os teus pensamentos? Mesmo no meu medo, pensei subitamente que [a figura dele] era de partir o coração de tão trágico. E questionei-me se não teria parecido aos outros o mesmo fracasso maçador quando estava naquele corpo. Não teria parecido o mesmo triste?
Achas mesmo que sim?
E quando dizes: Claro que os fiéis e zelosos leitores dos meus livros viram-me aqui de vez em quando. Os leitores das memórias de Louis, se tivessem encontrado o apartamento em que morávamos, seguramente reconheceriam a casa.
Não interessa. Eles acreditaram nisso, o que é diferente de acreditar. E não podia ser outro jovem de faces louras, a sorrir-lhes da alta varanda, com os braços apoiados no corrimão? Eu nunca me alimentaria destes ternos inocentes - mesmo quando eles mostram as suas gargantas e me dizem “Lestat, aqui!” (Isto aconteceu, leitor, em Jackson Square, e mais do que uma vez.)
Como podes dizer que não és amado? A tua sorte é que ainda tens muito, muito tempo para aprender. Ainda bem, porque precisas de aprender muito.
Por enquanto, tenta este pequeno passo: não descarregar nos teus amigos o mal que outros te fizeram. Não só estás a ser injusto como também os estás a perder.
Oh, Lestat, que lição tão básica, Lestat!
Publicado por _gotika_ em 10:22 AM | Comentários: (3)
A minha última paixão
Procurei refúgio nas últimas páginas de “The Tale of the Body Thief”. Oh, que decepção, Lestat! Estou tão danada também contigo, agora que já te amava tanto! Se o soubesses, também me transformavas num dos teus, contra a minha vontade? É essa a tua gratidão? Saberás o significado da palavra respeito? Egoísta infantil! Sabes que vais arder no inferno do teu arrependimento, não sabes? Pobre estúpido! Não negues! Negas agora por orgulho. Ainda me vais dar razão.
Tu não és Mau! A tua “maldade demoníaca” não passa de capricho de menino mimado! “Old demon” my ass! Spoiled, idiot, stupid, poor little idiot you!
Ainda tens muito que aprender. Que os teus amigos tenham paciência para te aturar. É difícil não te amar, Lestat. Sim, eu sei que te custa a crer. Debaixo de um grande complexo de superioridade está sempre o reverso da medalha. Tens medo da solidão e da morte. Por essa ordem. Mas o que mais temes é o vazio que encontras dentro da tua alma egoísta quando te vês sozinho e a morte te tenta. A morte que não consegues aceitar e tanto temes, torna-se sedutora. Sem amor não vale a pena, pois não, Lestat?
Talvez Anne Rice ponha no teu caminho a pessoa certa no momento certo para perceberes que não deves temer a solidão. Talvez assim não temas tanto a morte. E já to disseram tantas vezes, Lestat, e tu não ouves!
Oh! Todos os outros me devem condenar pelo meu temperamento, pela minha impetuosidade, pela minha determinação! Eles gostam de ver. Mas quando eu mostro a minha própria fraqueza, eles afastam-me. É isso? Sou deveras forte?
Respondeu-te o Body Thief: Oh, sim, nunca te faltou a força! E é por isso que eles te invejam e desprezam e se zangam contigo.
Mas tu não acreditas. Quando viste o teu corpo passar, com alma de outro dentro dele, quais foram os teus pensamentos? Mesmo no meu medo, pensei subitamente que [a figura dele] era de partir o coração de tão trágico. E questionei-me se não teria parecido aos outros o mesmo fracasso maçador quando estava naquele corpo. Não teria parecido o mesmo triste?
Achas mesmo que sim?
E quando dizes: Claro que os fiéis e zelosos leitores dos meus livros viram-me aqui de vez em quando. Os leitores das memórias de Louis, se tivessem encontrado o apartamento em que morávamos, seguramente reconheceriam a casa.
Não interessa. Eles acreditaram nisso, o que é diferente de acreditar. E não podia ser outro jovem de faces louras, a sorrir-lhes da alta varanda, com os braços apoiados no corrimão? Eu nunca me alimentaria destes ternos inocentes - mesmo quando eles mostram as suas gargantas e me dizem “Lestat, aqui!” (Isto aconteceu, leitor, em Jackson Square, e mais do que uma vez.)
Como podes dizer que não és amado? A tua sorte é que ainda tens muito, muito tempo para aprender. Ainda bem, porque precisas de aprender muito.
Por enquanto, tenta este pequeno passo: não descarregar nos teus amigos o mal que outros te fizeram. Não só estás a ser injusto como também os estás a perder.
Oh, Lestat, que lição tão básica, Lestat!
Publicado por _gotika_ em 10:22 AM | Comentários: (3)
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Gotika: arquivos Fevereiro 2004
fevereiro 18, 2004
No Top 25 do Blogómetro
Finalmente!
E sem falar de sexo!
Agora já posso começar a falar de política.
Publicado por _gotika_ em 06:53 AM | Comentários: (5)
Os vampiros também não prestam
Lestat é o vampiro protagonista dos livros de Anne Rice. Em “The Tale of The Body Thief”, Lestat entra no corpo de um jovem mortal falecido, perdendo os seus poderes vampíricos mas ganhando, em contrapartida, a possibilidade de se aproximar mais dos humanos que conhece ou já conhecia. E desenrola-se uma história verdadeiramente humana.
Volta a sentir na pele todas as nossas limitações, relata-nos o que sente, e como se arrepende amargamente da experiência. Nos seus dois séculos de vida, já não se lembrava da sua juventude na forma humana.
A forma como Lestat descreve as suas paixões por Gretchen, mulher, e David, homem, não implica nenhum problema de consciência. Simplesmente sente. Não há nada a explicar. Quando se tenta aproximar de David, este recusa a aproximação com muita mágoa. Diz Lestat:
I knew I was to blame for this. I knew it, and that it was useless to say apologetic words. I also sensed something else. I was an evil being, and even when I was in this body, David could sense that evil. He could sense the powerful vampiric greed. It was an old evil, brooding and terrible. Gretchen hadn’t sense it. I had deceived her with this warm and smiling body. But when David looked at me, he saw that blond blue-eyed devil demon whom he knew very well.
E depois um maravilhoso momento gótico que não resisto a transcrever:
I said nothing. I merely looked out over the sea. Give me back my body. Let me be that devil, I thought. Take me away from this paltry brand of desire and this weakness. Take me back into the dark heavens where I belong. And it seemed suddenly that my loneliness and my misery were as terrible as they had been before this experiment (…)
Em resposta a estes pensamentos, David responde que o ama, e que tem medo desse amor. É que David é um velho de 74 anos e sente-se esse velho. É-lhe inconcebível tocar num corpo mais jovem, mesmo habitado por um vampiro de 200 anos, porque o recorda da sua juventude perdida e nada poderá ser mais doloroso do que voltar a uma vida passada e recordar o vigor, a alegria desses dias. David prefere viver com dignidade os dias que lhe restam, assumindo completamente a sua condição de mortal no fim do seu tempo (David tem uma doença fatal).
Lestat, no fundo não passa de um ser infeliz que passa a vida a meter-se em confusões para se distrair do tédio da existência. Esta troca de corpo, por exemplo, é precedida por uma tentativa falhada de suicídio. Mas Lestat não quer de facto morrer. Simplesmente está farto da vida. Mal amado por Louis e Claudia, que dizem amá-lo mas mostram absolutamente o contrário, encontra no seu amigo mortal, David, a verdadeira amizade. Claudia já morreu mas ainda o atormenta. Louis (o mesmo de “Entrevista com o Vampiro”) não lhe perdoa as extravagâncias, condena-o por gostar demasiado de si próprio e não quer assumir que o ama e que precisa dele. Na hora de desespero, todos os outros vampiros lhe voltam as costas. Menos David. E o cão.
Do cão, diz Lestat:
After all, the old cliché was true. This great hunk of dog flesh was my only friend! Did Satan have a dog when they hurled him down into hell? Well, the dog would probably have gone with him, that much I knew.
Uma lição para Lestat?
Publicado por _gotika_ em 04:52 AM | Comentários: (0)
No Top 25 do Blogómetro
Finalmente!
E sem falar de sexo!
Agora já posso começar a falar de política.
Publicado por _gotika_ em 06:53 AM | Comentários: (5)
Os vampiros também não prestam
Lestat é o vampiro protagonista dos livros de Anne Rice. Em “The Tale of The Body Thief”, Lestat entra no corpo de um jovem mortal falecido, perdendo os seus poderes vampíricos mas ganhando, em contrapartida, a possibilidade de se aproximar mais dos humanos que conhece ou já conhecia. E desenrola-se uma história verdadeiramente humana.
Volta a sentir na pele todas as nossas limitações, relata-nos o que sente, e como se arrepende amargamente da experiência. Nos seus dois séculos de vida, já não se lembrava da sua juventude na forma humana.
A forma como Lestat descreve as suas paixões por Gretchen, mulher, e David, homem, não implica nenhum problema de consciência. Simplesmente sente. Não há nada a explicar. Quando se tenta aproximar de David, este recusa a aproximação com muita mágoa. Diz Lestat:
I knew I was to blame for this. I knew it, and that it was useless to say apologetic words. I also sensed something else. I was an evil being, and even when I was in this body, David could sense that evil. He could sense the powerful vampiric greed. It was an old evil, brooding and terrible. Gretchen hadn’t sense it. I had deceived her with this warm and smiling body. But when David looked at me, he saw that blond blue-eyed devil demon whom he knew very well.
E depois um maravilhoso momento gótico que não resisto a transcrever:
I said nothing. I merely looked out over the sea. Give me back my body. Let me be that devil, I thought. Take me away from this paltry brand of desire and this weakness. Take me back into the dark heavens where I belong. And it seemed suddenly that my loneliness and my misery were as terrible as they had been before this experiment (…)
Em resposta a estes pensamentos, David responde que o ama, e que tem medo desse amor. É que David é um velho de 74 anos e sente-se esse velho. É-lhe inconcebível tocar num corpo mais jovem, mesmo habitado por um vampiro de 200 anos, porque o recorda da sua juventude perdida e nada poderá ser mais doloroso do que voltar a uma vida passada e recordar o vigor, a alegria desses dias. David prefere viver com dignidade os dias que lhe restam, assumindo completamente a sua condição de mortal no fim do seu tempo (David tem uma doença fatal).
Lestat, no fundo não passa de um ser infeliz que passa a vida a meter-se em confusões para se distrair do tédio da existência. Esta troca de corpo, por exemplo, é precedida por uma tentativa falhada de suicídio. Mas Lestat não quer de facto morrer. Simplesmente está farto da vida. Mal amado por Louis e Claudia, que dizem amá-lo mas mostram absolutamente o contrário, encontra no seu amigo mortal, David, a verdadeira amizade. Claudia já morreu mas ainda o atormenta. Louis (o mesmo de “Entrevista com o Vampiro”) não lhe perdoa as extravagâncias, condena-o por gostar demasiado de si próprio e não quer assumir que o ama e que precisa dele. Na hora de desespero, todos os outros vampiros lhe voltam as costas. Menos David. E o cão.
Do cão, diz Lestat:
After all, the old cliché was true. This great hunk of dog flesh was my only friend! Did Satan have a dog when they hurled him down into hell? Well, the dog would probably have gone with him, that much I knew.
Uma lição para Lestat?
Publicado por _gotika_ em 04:52 AM | Comentários: (0)
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