quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Gotika: arquivos Janeiro 2004

janeiro 10, 2004

Lovecraft - quem?!

Aqui há dias recebi um mail de um escritor português que diz ter encontrado o este blog através de uma busca no Google sobre H. P. Lovecraft. Isso surpreendeu-me. Não apenas porque nunca aqui falei dele, mas mais ainda porque NUNCA li Lovecraft (os amigos não tinham para emprestar).
Fui repetir a pesquisa no Google para me encontrar no meio de Lovecraft. Até agora sem sucesso.
Vi a sua bibliografia. Nunca li nada, confirmo. Mas já tinha ouvido falar muito do homem, não sei exactamente em que contexto. Uma pesquisa pela sua obra e reparei que afinal os seus conceitos não me eram estranhos e chegaram até mim através da banda gótica - gótico mais gótico não há - "Fields of the Nephilim". Agora já sei quem é a Kathula. Finalmente! E ao que eles se referem quando falam do "reanimator". E os próprios Nefilins, que eu só conhecia da Bíblia. E aposto que isso está relacionado com a cultura Suméria...
"O bom da iliteracia é que há sempre coisas para descobrir" (esta não é minha). Torna-se complicado por vezes descobri-las porque as coisas que valem a pena (para mim, pelo menos), já não se encontram no mainstream, ao sol das FNACs e dos Colombos. Muito obrigado ao senhor que me despertou para o autor. Já vi que tenho muito que ler. E revisitar certos conceitos que conheço em segunda mão. Vai ser interessante. Respondo-lhe assim que puder.

Entretanto, descobri este testezinho. Se quiserem divertir-se...

You are Herbert West, Reanimator. How lucky for
you, you sick bastard. Making zombies out of
people, that is just sick (but cool in its own
way).

What Lovecraft Character Are You?
brought to you by Quizilla

Nota: Ainda não me encontrei a mim mas já vi "The Old Man" na listagem. Ele há coisas da breca!...

Publicado por _gotika_ em 06:24 AM | Comentários: (3)

~~§~~

Comentário:
O teste já não existe.
Lovecraft, entretanto, inundou o meu inconsciente.

~~§~~


Carta de uma menina especial

Ela escreveu, eu respondi. Aqui fica a parte que gostava que lessem.

Em relação ao texto "Eu, Gótica":
Estou na fase da adolescência, e o texto deixou-me mais alivíada. É que +/- há 3 meses, agora cada vez mais, tenho sentido uma atracção por tudo o que é gótico, tanto a nível estético (até já dizem que só visto preto), também tenho ouvido muita música gótica, mas é principalmente a minha mudança a nível espiritual que que me tem surpreendido e assustado. É como se sentisse alguma força a puxar-me para baixo. Dou comigo a escrever poemas tristes e obscuros, choro muito. Fico maravilhada (e sinto uma paz) quando vejo arte gótica: os monumentos, as fotografias artísticas, as roupas, a época
medieval, e até os cemitérios; e também pessoas, sinceramente, acho lindo!
Também gosto muito mais da noite que do dia, mas isso acontece. Não sei de onde poderá vir esta influência, pois nunca conheci ninguém gótico (muito pelo contrário) nem nunca falei disto com ninguém. Talvez também seja por isso que esteja a escrever, é que não tenho ninguém que fale comigo disto, e também tenho um pouco de medo do que possam pensar. É como se isto fosse um desabafo.


É uma grande responsabilidade escrever-te, quero que saibas isso, mas também não quero entrar num paternalismo excessivo. Até porque não te conheço, não sei o teu percurso, vou ficar pelas palavras mais simples que me ocorrem e que são estas:
Na adolescência é normal passarmos por uma fase de inadequação, de tristeza, de sentimentos extremos, até de depressão. A sério, é normal. Basta leres umas coisas sobre adolescência para veres que não és a única. Aliás, garanto-te que também lá estive. Mas também garanto que isso passa. A fase, isto é. A depressão nem sempre. A tendência para a melancolia também não passa. E também não é defeito, é feitio. Se as pessoas à tua volta não te entenderem, não percas tempo, procura outras. Há pessoas que não compreendem a melancolia, temos de aceitar que são mesmo assim, tal como pedimos para nos aceitarem como nós somos. É uma questão de tolerância.
Se estiveres deprimida, procura ajuda. Não é vergonha procurar ajuda. O que é na minha opinião uma vergonha é ter vergonha de procurar ajuda. E depois vê-se o resultado, gente recalcada, que nunca se analisou, que tem vergonha de olhar para dentro... Por fazermos terapia não quer dizer que sejamos loucos. Loucos são os que pensam que são perfeitos. E depois, como eu disse, vê-se o resultado...
E pronto, esta era a parte de facto preocupante do teu mail. Quanto a...


No entanto nunca disse a ninguém que era gótica ou nada parecido, porque não sou, nem nunca tive intenção de ser (Nunca se sabe... Mas deve ser só um estado de espírito), e também nunca dei isso a entender a ninguém, a ponto de alguém suspeitar de alguma coisa (acho eu). Apenas duas grandes amigas minhas mais chegadas me disseram que o estilo me fica bem e tem a ver comigo.


De facto, não vejo nada de preocupante aqui. :)
A adolescência é uma fase de experiências e de riscos e de rebeldia. Se os riscos e a rebeldia se ficarem pelas roupas que vestes e a música que ouves os teus pais podem ficar descansados (embora eles provavelmente achem que não).
Agora a conversa de gaja mais velha para gaja mais nova: não experimentes droga (podes lá ficar), o álcool não é água e a SIDA anda aí. De resto, conversa de gótica para menina: não te deixes usar por ninguém mas também não te feches no teu mundo sem deixar ninguém entrar por medo de sofrer, porque o sofrimento faz-nos mais fortes.


Com admiração:
(tenho 15 anos e estou no 10º ano)

Eu é que tenho de admirar uma menina de 15 anos, no 10º ano, que já escreve tão bem. Hoje em dia começa a ser raro.

Agora queria pedir-te que me deixes transcrever esta parte do teu mail e da minha resposta para o blog (sem o teu nome, claro!) porque pode ser que responda a mais alguém...
----------------------

Ela deixou, e aqui está.
Um dia vou contar como conheci o movimento gótico e como foi a minha primeira vez. A minha primeira vez no mundo gótico, claro! (lá tinha que vir a piadinha brejeira)
Nunca tive grandes dúvidas sobre a minha pessoa, nem inquietações do tipo "será que sou isto? será que sou aquilo?". O que sempre me perturbou foi o não conseguir fazer isto ou aquilo: as minhas realizações, não o meu ser. De modo que estas dúvidas nunca me assaltaram. Será por isso que tive uma adolescência espectacular? Bem, alguma vantagem há-de haver na precocidade.

Publicado por _gotika_ em 02:17 AM | Comentários: (8)

domingo, 11 de novembro de 2012

Rosa Crux ao vivo na Caixa Económica Operária 3.11.2012 [actualizado: foto]

[Foto de Nuno Consciência, gentilmente cedida via Abismo Humano.]

Publicado originalmente no Pórtico.

Estive quase para não ir ver. Muitos factores. Cansaço sobretudo. Antes de anunciado o concerto o nome da banda era-me apenas familiar. Não conhecia a música. Nisto entram ainda mais factores que não vou enumerar, mas saliento acima de tudo a falta de tempo para procurar música nova que me interesse (era diferente nos anos da adolescência, e este tema dava pano para mangas, mas não me vou alongar).
Os concertos têm tido, pelo menos para mim, o efeito de motivar a pesquisa. Foi o que fiz e descobri os Rosa Crux. Quanto mais os ouvia e via (existem online suficientes vídeos de performance ao vivo) mais me convencia de que devia ir.
Que o devia a mim própria.
Que o devia aos Rosa Crux.
Que uma banda como os Rosa Crux merece um obrigado presencial. E o apoio necessário para continuar.
Foi tudo cinco estrelas. Só faltou o público. Várias razões podem explicar que a Caixa Económica Operária estivesse a um terço da sua capacidade. Festas de Halloween, primeiro concerto de Dead Can Dance em Portugal a 24 de Outubro na Casa da Música, fim-de-semana propício a ponte que pode ter levado muitos (dos que têm possibilidade de ir) para fora de Lisboa, e, last but not least, a fatídica falta de dinheiro (dos que não têm possibilidade, ponto final).
Os Rosa Crux não se incomodaram com a escassez de público. Um público, porém, talvez demasiado tímido, o que motivou a que o vocalista pedisse às pessoas para se aproximarem do palco. As pessoas aproximaram-se. Timidez talvez de parte a parte uma vez que exceptuando o "bon soir", o pedido que não se fumasse para não prejudicar a voz, e o anúncio da música final, a que se seguiu o encore com mais dois ou três temas instrumentais, Olivier Tarabo sorriu muitas vezes mas não falou. Se problemas havia, com a voz, esta foi bem poupada porque não se notou qualquer falha.
Não tenho uma lista de temas (aliás, temeria errar se me aventurasse por aí) mas ouviram-se certamente os mais conhecidos, e até os outros, de tão bons, não pareciam desconhecidos. Não faltou a performance "La danse de la terre". Melhor do que descrever o que existe amplamente em imagens na internet, convido os leitores que não conhecem e/ou nunca viram ao vivo a ver por si próprios. Ao vivo não faz a poeirada que parece. Diria mesmo mais, eu que não sou nada adepta de performances teatrais deste género, logo completamente insuspeita de favorecimento, achei que a performance se passou com uma naturalidade que não colocou pessoas menos "teatralmente interactivas" (como eu) pouco à vontade. Confesso que tinha receio que acontecesse qualquer cena propícia a fobia social como o público ser convidado a participar. [Alguns artistas não compreendem que algum público não quer participar. Felizmente, não foi o caso.]
O facto de existirem na internet tantos exemplos do que a audiência pode actualmente esperar dos Rosa Crux (inclusive da participação no Entremuralhas 2011) suscita-me a inutilidade de entrar em mais pormenores. Tudo o que virem em vídeo é melhor ao vivo. Está tudo dito. Foi um bom concerto. Um grande concerto. Um dos melhores que já vi. Faltou o público. A banda não se importou. Merecia mais.

Rock gótico
Muitas vezes me perguntam o que é o gótico. Não vou responder a isso agora.
Muitas vezes me perguntam o que é a música gótica. A resposta é tão complexa que costumo responder que a música gótica é a música que os góticos ouvem. Tecnicamente não é bem assim, mas serve. Hoje, ao falar dos Rosa Crux, posso afirmar: isto é música gótica. Mais especificamente, rock gótico. Guitarra, contrabaixo, piano, sinos, coros, temas épicos, ritualísticos, melancólicos, sempre cobertos de obscuridade (no caso dos Rosa Crux tamanha obscuridade que as próprias letras são em latim), e acompanhamento electrónico suficiente. Pode não parecer importante, para ouvidos mais jovens, mas o rock gótico dos anos 80 (isto é, quando o rock gótico hoje chamado "clássico" foi inventado) era descrito como "voz grave, guitarra, baixo, caixa de ritmos". Na altura, o uso da caixa de ritmos a substituir a bateria era algo de inovador e ousado! Lembro-me de uma discussão sobre se os Cult eram ou não góticos porque usavam bateria em vez de caixa de ritmos. Os Fields of the Nephilim idem. É difícil explicar isto a ouvintes mais recentes mas nos anos 80 os géneros musicais também eram catalogados consoante os instrumentos que usavam. Era tudo muito compartimentado. As bandas de rock não usavam sintetizadores, as bandas de rap não usavam riffs de heavy metal, as bandas de heavy metal não usavam vocalizações pop. Era a Lei. Tudo o que saía destas "caixas" era um bicho de sete cabeças. Eram tempos simples, em que os Depeche Mode faziam música electrónica, ponto final, Madonna fazia música pop, ponto final, os U2 faziam rock, ponto final. Imaginem a nossa surpresa quando aparecem, nos anos 90, umas bandas esquisitas como os Rammstein, a usar sintetizadores e guitarras! Seria electrónico, seria rock, seria industrial?
Tudo isto para explicar porque digo que os Rosa Crux, embora o primeiro álbum date de 1995, seguem a base clássica "voz grave, guitarra, baixo, bateria e/ou electrónico", logo, o rock gótico como o conhecíamos. Sem preconceitos ou receios. É curioso notar que os Rosa Crux existem desde 1984, mas talvez o público não estivesse pronto para os Rosa Crux. [Outras bandas, como os Alien Sex Fiend, sofreram devido ao mesmo génio.] Eu própria me imaginaria, na altura, a torcer o nariz a toda a imagética de sinos, velas, caveiras, rituais, e a remetê-los para a secção "demasiado religioso para o meu gosto".
Os gostos, na altura, e maioritariamente, eram outros, não preciso de os enumerar agora, mas talvez seja mais do que tempo de reconhecer aos Rosa Crux o estatuto que merecem.
Se me pedissem um exemplo de rock gótico, presente, alive and kicking, dificilmente encontraria melhor.

sábado, 10 de novembro de 2012

Gotika: arquivos Janeiro 2004

janeiro 09, 2004

Ena! E eu estava online para ver isto! Que espectáculo!



Publicado por _gotika_ em 10:47 AM | Comentários: (2)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Gotika: arquivos Dezembro 2003

janeiro 02, 2004

Uma canção

How long will it take
Before you see
There is no room for you
Inside of me

Deep in our hearts
We are alone
Deep in our blind hearts
Skin and bone

In many ways
You've lost your dignity
Hey girl, give up
Your hopeless ecstasy

Deep in our hearts
We are alone
Deep in our blind hearts
Skin and bone

Kiss high heaven
Kiss one other
Kiss the earth
And kiss the sea
Everything instead of me
Everything instead of me

Kiss your precious destiny

Deep in our hearts
We are alone
Deep in our blind hearts
Skin and bone
Deep in our hearts
We only know
Deep in our blind hearts
Skin and bone

Bone of contention
Bone of contention
Bone of contention
We only know

Blind Hearts
Clan of Xymox

Publicado por _gotika_ em 12:00 PM | Comentários: (4)


Um filme e uma peça

“O Diário de Bridget Jones”. Ora aqui está um bom exemplo de tudo o que eu não sou, de tudo em que eu não acredito, de tudo o que eu acho estúpido, medíocre e fútil, de tudo o que eu não quero ser quando for grande, de tudo o que, em suma, eu abomino.
É por isso que é bom ver filmes destes. Põe tudo de novo na perspectiva adequada.
Bem, então quando é que repetem “O Senhor dos Anéis”? Desta vez à noite, si vous plais...
Por outro lado, outro dia apanhei por acaso, na SIC, uma peça de Shakespeare. O “Hamlet”. Embora estejamos todos fartos de ouvir pedacinhos da peça, nem que seja o célebre “ser ou não ser”, confesso que nunca tinha visto a peça toda do princípio ao fim por falta de interesse. Desta vez, talvez porque a adaptação fosse excepcional ou a qualidade dos actores fora de série ou outro factor qualquer, fiquei ali agarrada ao enredo, como se não o conhecesse. Shakespeare é complexo e digna-se a várias interpretações. Aqui fica a minha, e vou contar-vos a história à minha maneira.
Hamlet, um príncipe dinamarquês, é visitado pelo fantasma do seu pai, o rei, que lhe conta que foi envenenado pelo irmão e exige vingança. O irmão do rei cometeu o fratricídio por ambicionar o trono e desejar a rainha. O homicida conseguiu de facto tornar-se rei e casar com a mulher do irmão (mãe de Hamlet) que, tudo indica, não conhece a natureza sórdida do novo marido. Hamlet, perturbado, não quer agir sem ter provas de que aquilo que o fantasma lhe contou é verdade. Questiona-se sobre a sua lucidez e a veracidade das palavras do espectro. E se foi um demónio, e não o seu pai, que o visitou para o atormentar? Organiza, portanto, uma peça de teatro em que é representado um drama semelhante ao contado pelo fantasma e manda-o representar em frente à corte. Observa a reacção do tio, o rei. Este fica bastante nervoso. Para Hamlet, é prova suficiente de que é culpado. Contudo, sente ainda problemas de consciência em agir. E se os seus olhos lhe mostram o que ele quer ver? Entretanto, é melhor fingir-se de louco para que o tio não perceba as suas suspeitas. O destino prega-lhe uma partida quando, discutindo com a mãe, acaba por expor os seus pensamentos e matar um conselheiro da corte, pensando tratar-se do tio. Este homem é o pai da amada de Hamlet, Ofélia. Por esta razão, Ofélia enlouquece. Torturado pela culpa, Hamlet profere o célebre discurso “to be or not to be, that’s the question”. Agir, vingar-se, e sofrer as consequências dos seus actos, ou pura e simplesmente deixar tudo como está para não causar mais sofrimento aos outros? Eis a questão. A sua vingança já causou sofrimento à inocente Ofélia. Mais inocentes sofrerão. Por exemplo, a rainha, que parece ignorar que o marido foi assassinado e está feliz com o novo marido. E Hamlet questiona-se se o simples mortal suportaria a tirania, a injustiça, a crueldade deste mundo, sem se vingar, se não tivesse medo da vida que vem depois da morte, da simples hipótese que a morte não seja fim de tudo...?
Não vos conto o final. Digo-vos apenas que as suspeitas de Hamlet se confirmam quando descobre que o tio o deseja condenar à morte. Seja como for, a peça está toda aqui e neste simples pensamento: aceitamos o destino sem nos queixar para sermos recompensados na vida futura, ou fazemos justiça aqui na terra porque não existe Justiça Divina? E onde é que paramos na nossa demanda de justiça, uma demanda terrestre, humana, correndo o risco de ser parcial, imponderada e igualmente injusta?

Publicado por _gotika_ em 07:20 AM | Comentários: (0)


Que noite!

(Yupiiiii!, já tenho internet outra vez!!! Já nem sei como era a vida antes da internet!)

Este fim de ano não foi divertido. Mas foi uma noite para pensar, para pensar muito. Aqui estão algumas reflexões.
Primeiro que tudo, achei as pessoas tristes. Não falo dos góticos mas das pessoas em geral. Não notei verdadeira alegria nos rostos. Estive a ver o fogo de artifício na Praça do Comércio onde, segundo a televisão, estiveram 60 mil pessoas, e notei que a “alegria” era forçada, e alimentada a cerveja. Anda tudo deprimido. Eu, bem, como devem calcular, não tinha (tenho) grandes razões para exultar de alegria. Parece que muita gente está na mesma. Não vamos tapar o sol com a peneira. Há crise e é bem grande.
O fogo de artifício, coitadinho... Vi melhor no Algarve, quando tinha dinheiro para ir para lá, numa daquelas noites quentes na praia... Enfim, acho que já fiz vida de princesinha e aproveitei todos os momentos. (Isto de ir para o Algarve não é de todo gótico, muito menos gostar de praia como eu gosto, mas tecerei mais considerações sobre o assunto lá para o Verão, se ainda andar por cá.)
Deixemos a gente normal e voltemos aos góticos. Vi muita gente que já não via há muito tempo. Inclusive uma senhora muito gótica que, reparei eu, já deve andar nos seus trintas e muitos, quarentas, ali na pista de dança a curtir o som, sem perder a majestade.
O meu primeiro pensamento foi preconceituoso até dizer chega. “Coiso e tal, tão velha, coiso e tal...” Mas isto de sermos cultos obriga-nos, não só a sermos politicamente correctos, como também a sabermos porque o somos. Lembrei-me do que li n’”As Brumas de Avalon” e de repente tudo fez sentido. A Deusa pagã tem três faces: a Virgem, a Mãe, a Velha. As três faces da Mulher. Ou as três fases da vida. Cada fase tem o seu encanto e o seu encanto é diferente. A sociedade que nos rodeia concentra toda a importância na primeira fase, a da mulher jovem, adolescente, viçosa, bonita. Desde há alguns anos, começou-se a dar importância também à segunda fase, a da Mulher-Mãe. Eu ainda sou do tempo em que era uma vergonha uma mulher grávida exibir a barriga nua em público, como agora se vê na praia ou na capa das revistas. No tempo em que a minha mãe andava grávida de mim, por exemplo, as mulheres grávidas usavam uns fatos de banho com folhinho à volta da barriga, mesmo as que andavam de biquini antes da gravidez. Mostrar a barriga grávida era feio. Hoje não. Hoje achamos bonito, terno, respeitável. Vejam como muda a mentalidade e a noção do que é estético num espaço relativo de poucos anos.
Isto tudo a propósito da senhora gótica. Não vou pegar no cliché do que o que importa é ser jovem de espírito porque já todos sabemos isso (ou devíamos saber). Está na hora da sociedade redescobrir o valor dos mais velhos, dos anciãos, como aqueles que podem aconselhar e ajudar os mais novos. Também admito que os mais velhos, a certa altura, deixaram de ser respeitados porque ficaram agarrados a uma moral decrépita que já não fazia sentido, se é que alguma vez fez. Falo da grande década dos conflitos geracionais, os anos 60. Os jovens foram longe demais (e a prova disso é que acabaram por voltar atrás) e os velhos não cederam um milímetro. Espero que tenhamos aprendido alguma coisa dessa experiência e que saibamos aproveitá-la para nosso benefício. Que tentemos aprender com as gerações mais velhas e as gerações mais novas. Que nos esforcemos por tirar partido da sabedoria de uns e da rebeldia de outros.
A senhora muito gótica impõe respeito. Não vos dizia que há uma espécie de hierarquia à vampiro em que os mais velhos não se afrontam? Afinal, não esteve ela no princípio de tudo, não foi uma pioneira, talvez até punk? Não tem uma história muito mais intensa e preenchida que a minha?
Lembrei-me de Viviane, d’”As Brumas de Avalon”, a velha senhora do lago a quem Morgaine está destinada a suceder. Esta anónima é uma espécie de Viviane para mim. Não um modelo, porque gótico que é gótico é suficientemente arrogante para usar os modelos em vez de os seguir, para tirar deles o que acha aproveitável e desprezar o resto, mas uma figura de referência incontornável.

Gostei de a ver. Gostava de a ver mais vezes por lá. Gosto tanto de a ver como aos miúdos que lá aparecem pela primeira vez, demasiado pintados, inseguros, excessivos. Entre a Virgem e a Velha, acho que isso me torna a Mãe. Hmmmm... Acho que temos de readaptar a Deusa pagã para o século XXI. Até porque nos tempos de Viviane e Morgaine toda a gente morria aos 40, 50 anos. Actualmente, aos 30 somos uns jovens com 60 anos (no mínimo) pela frente. O que transtorna, e muito, a nossa velha noção do que é um “ancião”... Naquele tempo, eu já deveria ter uma dúzia de filhos e estar de pés para a cova. Olhem como as coisas mudam.

Há uma particularidade gótica que é não falarmos uns com os outros. Muito menos com estranhos. Por falar em estranhos, aqui fica um encarecido apelo: só porque gostam de me ler, só porque eu tenho ideias estranhas e uma perspectiva diferente, não apareçam por lá! A sério! Nós não gostamos de estranhos. Só porque não vos tratamos mal e vos toleramos não quer dizer que gostemos de vos ver no meio de nós. São um dó de alma! Eu gosto de sair para ver a minha “beautiful people”. Camisas às risquinhas e ténis, poupem-me! O que vão fazer para lá, gente de Deus? Há música muito melhor nas Docas, na 24 de Julho, na casa dos amigos. Olhem, já experimentaram bares de karaoke? Dizem-me que é muito giro. Mas não vão lá para nos ver. Não somos nós a atracção zoológica, é mais ao contrário... Também escusam de se vestir de preto. Não conseguem. A sério, não conseguem. Não é assim tão simples. Mas se tiverem que ir, não se queixem que os góticos são frios. São frios sim senhor, digo-vos eu. Nós nem falamos uns com os outros, porque havemos de falar convosco?
Mas, acima de tudo, não se ponham na pista de dança, parados, feitos semáforos de trânsito. Podem não perceber mas os góticos gostam de facto de música, vão ali por causa da música e gostam mesmo de dançar. Não se limitam a ir abanar a careca para o meio da pista para engatar a boazona da cruz invertida. A boazona da cruz invertida é um extra, a música é que é importante. Vejam se metem isso na cabeça por amor de Deus! Estão a empatar, não percebem? A malta quer dançar e vocês não deixam! A malta precisa de espaço. Vocês estragam o ambiente! Se a malta não dança deixa de ir lá, se deixa de ir lá começam a entrar mais estorvos e a malta ainda deixa de ir mais!... Enfim, perceberam.

Há pessoas que conheço há quase vinte anos e com quem nunca troquei uma palavra. Sinto por eles e elas um carinho estranho, e sei que o sentem também por mim, mas nunca trocámos uma palavra. Acho que é de propósito. Para quê estragar uma bela amizade cúmplice com as palavras que nos podem magoar? Digam o que disserem, os góticos percebem de psicologia. Somos poucos, temos de saber viver uns com os outros e sabemos que as palavras podem magoar muito. (“Words are very unnecessary, they can only do harm”, Depeche Mode) O silêncio, os olhares, dizem tudo. Palavras para quê?
Lembro-me de situações em que encontrei algumas dessas pessoas fora do nosso ambiente natural. Fingimos que não nos conhecemos de lado nenhum. É interessante. Não sei explicar porquê. Procurem a resposta nos livros da Anne Rice. (Será que ela se inspirou nos góticos para criar os vampiros ou foram os góticos que se inspiraram nos vampiros?... Boa questão. Talvez nenhuma das respostas. Nem nenhuma das perguntas. Talvez seja coincidência.) Por outro lado, fora do nosso ambiente natural, e quando houve problema, aí sim nós falámos pela primeira vez, pessoas que se conheciam há anos sem trocar uma palavra, como se fôssemos amigos íntimos, talvez para nunca mais voltar a falar.
Digam lá que não têm inveja? Ah, pois, eu sei que têm. Mas, como eu disse, nós somos poucos e damos valor ao pouco que nos une. Às vezes é mesmo bem pouco, acreditem.

Publicado por _gotika_ em 07:19 AM | Comentários: (3)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

comentários a lápis na contracapa

Em 1994 deixei os seguintes comentários, escritos a lápis, nas contracapas de algumas histórias que tinha escrito antes. Foi curioso descobri-los porque já não me lembrava de tê-los apontado.

Li e gostei, mas: o fim "cai" subitamente. Falta qualquer espécie de moral, de explicação moralizadora: o sentido da vida é apenas viver (não importa em que condições).
10.9.94

Falta ainda mais “ambiente”: tem que ser mais sinistro e opressivo; aproveitar a velha mitologia do lobo com uma abordagem diferente. Será que T. deixou de ser pessoa para se tornar “mais animal”? Afinal, vivia numa sociedade de lobos. Começar os capítulos e os parágrafos ao estilo do 1º parágrafo da história. Subtileza e ironia em relação à crueldade têm que ser mais carregadas. 
1994

Pág. 26 -> Situação mal explicada, susceptível de não ser imediatamente e claramente compreendida.
Li e gostei. Chorei com a morte de M. Achei o fim feliz. Penso que as personalidades de D. e de N. deviam ser um pouco mais aprofundadas. Algumas frases precisam de ser aperfeiçoadas estruturalmente e algumas palavras substituídas.
2.11.1994

Falta maior síntese e mais intensidade. A escrita tem que ser mais atractiva. Uma história tão boa não pode ficar tão mal escrita.
10.9.94

Ficou. Porque entretanto foi "substituída".
As histórias eram boas, e fortes, mas tantos anos depois não as poderia escrever da mesma maneira. A técnica evoluiu, a abordagem deslocou-se. Em termos mais simples, tal como já não escrevo assim, também já não vejo as coisas como via. Não seria bastante corrigir mas escrever de novo. Entretanto, perdi o interesse nessas histórias iniciais, que eram comparativamente curtas em número de páginas, como se tivessem cumprido o seu papel como ensaio do que havia de vir.
Mas de vez em quando gosto de ler estas primeiras histórias, literariamente imperfeitas como estão, e recheá-las do que falta e senti-las como se estivessem perfeitas. Foram-me "mostradas" como um filme, um filme que falhei em transcrever em palavras, mas o filme continua o mesmo.
O hiato entre a última história e a seguinte durou dez anos. Por variados motivos, acabei uma tentativa de romance em 1996 e só consegui voltar a escrever (o mesmo romance, curiosamente) em 2006. Ao fazê-lo, foi quando compreendi que tinha de virar a história do avesso e contá-la de outra maneira. Mas, nesse momento, as Musas bisparam que os canais estavam abertos e inundaram-me. Como marioneta nas mãos delas fui compelida a não pegar naquilo mas a pegar noutra coisa. No que as Musas mandam. As Musas não se importam muito com o estilo.
Fiquei impressionada com as palavras destes comentários, não pela sua dureza, porque não há crítica mais dura do que eu própria (e isso eu já sabia), mas porque continuo, ainda e sempre, a lutar com estes mesmos conceitos: ambiente, abordagem, subtileza, intensidade, clareza, estrutura, frase, palavra, estética.
Ultimamente, passa-me mesmo pela cabeça a pretensão de tentar "escrever isto como nunca foi escrito antes". Mas não é para mim, ainda, e não sei se alguma vez será ou se a idade e a prática terão significativa influência. Contento-me em "escrever isto como eu nunca consegui antes" e já não é mau.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Gotika: arquivos Dezembro 2003

dezembro 28, 2003

Manifesto existencial

É engraçado como raramento falo deste poema. Penso que até o sei de cor, que versos dele me ocorrem ao pensamento todos os dias, que está gravado no meu ADN para lá de qualquer hipótese de escolha. É a base da minha pizza, se podemos brincar com coisas sérias. Não se pôe em questão. Não se liga àquela parte da sociedade que sempre verá heresia nestas palavras. É como é, sou como sou, somos como somos, e alguém o escreveu em poesia. Fica aqui, mais uma vez, até para o dar a conhecer às gerações mais novas que não o estudam na escola.


Cântico Negro
José Régio

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces,
estendendo-me os braços, e seguros
de que seria bom que eu os ouvisse
quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
e cruzo os braços,
e nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
-Que eu vivo com o mesmo sem vontade
com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
por que me repetis: "vem por aqui"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
redomoinhar aos ventos,
como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí...

Se vim ao mundo,
foi só para desflorar florestas virgens,
e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
e vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
tendes jardins, tendes canteiros,
tendes pátrias, tendes tectos.
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca princípio nem acabo,
nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí!

Publicado por _gotika_ em 11:32 PM | Comentários: (5)

domingo, 28 de outubro de 2012

A Däkar Monsalbant:

Cara Däkar Monsalbant,
se ainda me estiver a ler, este post é para você, porque mais vale tarde do que nunca.
Enviou-me um link para sua escrita e não respondi. Não ficou esquecido. Não ignorei. Dei uma passadela de olhos, o que aqui chamamos "ler na diagonal", e percebi que tinha de ler com mais atenção para poder exprimir uma opinião ou escrever sobre o que tinha lido. Não tive tempo antes de ontem. Ontem tentei visitar os links que me mandou mas estão fechados ao público em geral. Tentei responder ao seu email mas o endereço electrónico já está desactivado. Se ainda o desejar, e se estiver a ler isto, terei todo o gosto em fornecer-lhe uma opinião, em privado ou em público, como quiser, porque nestas coisas sou muito sensível à vontade das pessoas.
Para começar, posso dizer-lhe que achei que era preciso ler com atenção, o que é um bom começo.
Se o desejar, escreva-me novamente ou deixe o link aqui mesmo nos comentários.

Felicidades e continuação de bom trabalho.