Parlamento da Catalunha decidiu proibir as touradas a partir de Janeiro de 2012. Por 68 votos a favor, 55 contra e nove abstenções os deputados catalães aboliram as corridas de touros, culminando um processo iniciado em 11 de Novembro de 2008 quando o hemiciclo regional autorizou a tramitação de uma Iniciativa Legislativa Popular sustentada num abaixo-assinado com 180 mil assinaturas.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Catalunha proíbe touradas
A maior notícia em prol da civilização que tenho ouvido em muitos meses:
domingo, 4 de julho de 2010
ChameleonsVox
ChameleonsVox
Santiago Alquimista, Lisboa, 3 de Julho
Actuação soberba a registar destes restantes Chameleons no Santiago Alquimista esta noite. Tudo cinco estrelas. Som, atitude, sentido de humor. Momentos altos com "Mad Jack" e "Monkeyland", mas na minha opinião o melhor estava para vir nos (dois!) encores, com "Swamp Thing" e "In Shreds". A mim, só faltou mesmo "Paper Tigers", que acabou por ser a tema que me fez interessar por Chameleons. Tirando esse pequeno lamento pessoal, acho que qualquer fan sairia do concerto satisfeito e com as medidas bem cheias. Eu até nem sou especialmente devota e saí de lá muito mais convencida.
Grande nota para o vocalista Mark Burgess, que vestido de umas discretas calças de ganga pretas e t-shirt também preta (e sem mais adereços senão um vulgaríssimo pendente) impôs logo todo o seu carisma no segundo em que entrou no palco. Eu não o conhecia sequer, nem de cara!, logo não sou suspeita: Grande senhor. Voz impecável após quase trinta anos de carreira: The Chameleons formaram-se em 1981 e actuaram entre nós em 1983, no Rock Rendez Vous, o que Burgess fez questão de recordar: "twenty-seven years!"
Ninguém diria. Parecia um puto.
Os ChameleonsVox são os Chameleons originais Mark Burgess (vocalista) e John Lever (baterista), mais três membros dos Bushart: os guitarristas Steve Foxcroft e Chris Oliver, e o baixista Ray Bowles. Mas não se deu pela diferença.
Agora o público
A nota mais bizarra da noite foi mesmo a estranha mistura de audiência que esteve presente no Santiago Alquimista. Além das caras habituais nas Graveyard Sessions e concertos relacionados, como os também habituais nostálgicos do costume que já não saem excepto para os concertos (e esses também de distinguem logo à distância), existiam igualmente entre o público umas boas dezenas de penetras, que pelo seu comportamento alienado da cena (e da banda, e do som) me fizeram questionar seriamente se aquela gente sabia o que estava a ver ou se pensaram que "Chameleons" era uma cover band de David Bowie. Porque só dessa maneira se pode explicar a presença de tanta gente absolutamente deslocada, ou então poderemos supor que os clientes regulares do Santiago Alquimista (e malta em geral que circula pelos bairros populares à procura de festas dos Santos) está disposta a dar 25 euros para entrar numa festa/concerto de algo que nem sabe o que é. Altamente intrigante, devo confessar. Haverá algum "passe social 30 dias Santiago Alquimista" e ninguém sabe?... Via verde?... Chip?... ;)
É que apanhei alguns dos senhores respeitáveis (e da minha idade) mais interessados em olhar para mim do que para a banda, o que não deixa de ser estranho na medida em que o concerto foi muito melhor do que eu alguma vez fui ou serei boazona, pelo que se deduz que há gente que não sabe o que fazer ao dinheiro.
After-party
Posto isto, havia uma graveyard a seguir, e agora vou ser dura mas vai ter de ser, o Santiago Alquimista parecia naquele fim de concerto já em fim de noite, com uma grande debandada, se calhar por falta de ambiente, ou por falta de cadeiras e mesas (desta vez retiraram-nas mesmo), ou por falta de escuridão (quando é que pensavam apagar as luzes amarelas, e já agora começar a passar música?), e o preço das bebidas também não é convidativo, e tornou-se tudo tão pouco acolhedor que pela primeira vez desde sempre nem sequer fiquei para a graveyard, o que diz muito estando eu já no local.
Preferi mesmo ir para casa e ver a repetição do Argentina/Alemanha, porque pelo menos os alemães vestiram-se de preto. Se é que me percebem... e eu sei que percebem.
Talvez a festa tenha melhorado com o avançar da noite, mas eu não achei motivos para ficar e ver, e era esse pormenor que queria registar.
Ainda uma última nota negativa...
... para o horário dos concertos. Há que começar a ser rigoroso nestas coisas e cumprir os horários. E anunciá-los com exactidão. O começo da festa estava marcado para as 21h30, e só no local se anuncia que o concerto vai começar às 23h. Tendo em conta que muita gente vai aos concertos só por causa dos concertos (por estranho que isso possa parecer a alguns), é uma falta de respeito para com o público que chega à hora... para apanhar seca. Quem quer estar no concerto, e gosta da banda, estará presente à hora marcada. Quem não gosta, ou seja indiferente, que entre a meio, ou que entre depois. Mas cumpra-se o estipulado.
Santiago Alquimista, Lisboa, 3 de Julho
Actuação soberba a registar destes restantes Chameleons no Santiago Alquimista esta noite. Tudo cinco estrelas. Som, atitude, sentido de humor. Momentos altos com "Mad Jack" e "Monkeyland", mas na minha opinião o melhor estava para vir nos (dois!) encores, com "Swamp Thing" e "In Shreds". A mim, só faltou mesmo "Paper Tigers", que acabou por ser a tema que me fez interessar por Chameleons. Tirando esse pequeno lamento pessoal, acho que qualquer fan sairia do concerto satisfeito e com as medidas bem cheias. Eu até nem sou especialmente devota e saí de lá muito mais convencida.
Grande nota para o vocalista Mark Burgess, que vestido de umas discretas calças de ganga pretas e t-shirt também preta (e sem mais adereços senão um vulgaríssimo pendente) impôs logo todo o seu carisma no segundo em que entrou no palco. Eu não o conhecia sequer, nem de cara!, logo não sou suspeita: Grande senhor. Voz impecável após quase trinta anos de carreira: The Chameleons formaram-se em 1981 e actuaram entre nós em 1983, no Rock Rendez Vous, o que Burgess fez questão de recordar: "twenty-seven years!"
Ninguém diria. Parecia um puto.
Os ChameleonsVox são os Chameleons originais Mark Burgess (vocalista) e John Lever (baterista), mais três membros dos Bushart: os guitarristas Steve Foxcroft e Chris Oliver, e o baixista Ray Bowles. Mas não se deu pela diferença.
Agora o público
A nota mais bizarra da noite foi mesmo a estranha mistura de audiência que esteve presente no Santiago Alquimista. Além das caras habituais nas Graveyard Sessions e concertos relacionados, como os também habituais nostálgicos do costume que já não saem excepto para os concertos (e esses também de distinguem logo à distância), existiam igualmente entre o público umas boas dezenas de penetras, que pelo seu comportamento alienado da cena (e da banda, e do som) me fizeram questionar seriamente se aquela gente sabia o que estava a ver ou se pensaram que "Chameleons" era uma cover band de David Bowie. Porque só dessa maneira se pode explicar a presença de tanta gente absolutamente deslocada, ou então poderemos supor que os clientes regulares do Santiago Alquimista (e malta em geral que circula pelos bairros populares à procura de festas dos Santos) está disposta a dar 25 euros para entrar numa festa/concerto de algo que nem sabe o que é. Altamente intrigante, devo confessar. Haverá algum "passe social 30 dias Santiago Alquimista" e ninguém sabe?... Via verde?... Chip?... ;)
É que apanhei alguns dos senhores respeitáveis (e da minha idade) mais interessados em olhar para mim do que para a banda, o que não deixa de ser estranho na medida em que o concerto foi muito melhor do que eu alguma vez fui ou serei boazona, pelo que se deduz que há gente que não sabe o que fazer ao dinheiro.
After-party
Posto isto, havia uma graveyard a seguir, e agora vou ser dura mas vai ter de ser, o Santiago Alquimista parecia naquele fim de concerto já em fim de noite, com uma grande debandada, se calhar por falta de ambiente, ou por falta de cadeiras e mesas (desta vez retiraram-nas mesmo), ou por falta de escuridão (quando é que pensavam apagar as luzes amarelas, e já agora começar a passar música?), e o preço das bebidas também não é convidativo, e tornou-se tudo tão pouco acolhedor que pela primeira vez desde sempre nem sequer fiquei para a graveyard, o que diz muito estando eu já no local.
Preferi mesmo ir para casa e ver a repetição do Argentina/Alemanha, porque pelo menos os alemães vestiram-se de preto. Se é que me percebem... e eu sei que percebem.
Talvez a festa tenha melhorado com o avançar da noite, mas eu não achei motivos para ficar e ver, e era esse pormenor que queria registar.
Ainda uma última nota negativa...
... para o horário dos concertos. Há que começar a ser rigoroso nestas coisas e cumprir os horários. E anunciá-los com exactidão. O começo da festa estava marcado para as 21h30, e só no local se anuncia que o concerto vai começar às 23h. Tendo em conta que muita gente vai aos concertos só por causa dos concertos (por estranho que isso possa parecer a alguns), é uma falta de respeito para com o público que chega à hora... para apanhar seca. Quem quer estar no concerto, e gosta da banda, estará presente à hora marcada. Quem não gosta, ou seja indiferente, que entre a meio, ou que entre depois. Mas cumpra-se o estipulado.
sábado, 26 de junho de 2010
"A Filosofia Segundo Perdidos"
"A Filosofia Segundo Perdidos" é uma compilação organizada por Sharon M. Kaye que engloba uma série de pequenos ensaios de diversos autores que abordam a série "Perdidos" sob o ponto de vista da filosofia, da mais clássica à mais moderna.
Ler um livro destes fez-me sentir humilde, e perceber que não sou tão inteligente quanto imaginava e que sou muito mais ignorante do que pensava. É esta capacidade que têm sobretudo os autores de filosofia americanos de tocar o homem comum, sem pretensiosismo, e de o levar numa aventura intelectual que põe toda a "máquina" a trabalhar até... bem, na verdade, até onde esta conseguir dar. Mas esta humildade, com que o leitor médio se tem de confrontar, este vislumbre de que afinal há muito mais para descobrir do que pensámos a princípio, é no fundo o que nos faz sentir humildes e, ao mesmo tempo, empoleirados nas costas de gigantes, almejar um dia a sermos maiores e a ver também mais longe.
Só para o mais distraído é que "Perdidos" é apenas uma série de televisão igual às outras, para consumir e deitar fora. Perder "Perdidos" é simplesmente perder o melhor que se faz -- corrijo, o melhor que já se fez -- em séries de televisão até ao dia de hoje. Perder "Perdidos" é perder uma chave civilizacional.
Neste livro, inspirado pela série, variados autores dissertam sobre os temas filosóficos suscitados pelas primeiras três temporadas (tenho para mim que a partir da quarta era chamar os cientistas a comentar, em vez dos filósofos), abordando temas como o determinismo, o livre-arbítrio, a ética, a ciência, a fé, e os outros (em todos os sentidos, até no de Sartre, cujo existencialismo é também peça fundamental de "Perdidos"). Mas o meu artigo preferido é mesmo o último, e intitula-se "Perdidos e o problema da vida depois do nascimento", que é como quem diz "a vida antes da morte". E qual é o problema da vida antes da morte? O seu sentido, obviamente, ou a falta dele.
Jeremy Barris é de facto o autor que melhor resume uma certa atitude desatenta em relação a "Perdidos":
Desfrutar de Perdidos significa ter uma experiência profunda, existencial, que nos liga a temas básicos da nossa existência humana. "Perdidos" produz este tipo de experiência de uma forma especialmente clara e directa e, desse modo, pode ajudar-nos a compreender a razão pela qual outros programas exercem tanta atracção sobre nós, incluindo os de detectives e os de mistério, continuando a prender o nosso interesse.
Os críticos culturais comparam, por vezes desfavoravelmente, a cultura ocidental contemporânea com a antiga cultura grega, cuja arte de contar histórias não constituía sobretudo uma forma de escapar à vida, sendo em vez disso uma forma habitual de experimentar profundas questões a seu respeito. Eu sugiro, contudo, que a lição de Perdidos é que a forma habitual de diversão da nossa cultura constitui também por vezes esse tipo de arte profunda.
Pois:
Ao contrário da ciência, a filosofia não descobre coisas desconhecidas, nem fornece novas informações sobre coisas familiares. Em vez disso, o que é estranho à primeira vista, lida com coisas que todos, na verdade, já sabemos muito bem. Ajuda-nos a descobrir a natureza destas coisas familiares mais profundamente do que as conhecíamos antes. Este interesse num conhecimento mais aprofundado de coisas familiares expressa-se num sentimento de espanto acerca das coisas no mundo à nossa volta, uma sensação que todos por vezes experimentamos. Platão (428-347 a.C.) escreveu que "o espanto ( ... ) é característico do filósofo (...), é aí, e em nenhum outro sítio, que a filosofia começa".
"Perdidos" dá muita atenção à razão e à forma como cada pessoa chegou à ilha. Sob muitos aspectos, o modo como o programa apresenta e explora esta questão ecoa a forma como nós, nos nossos momentos de maior reflexão, somos perturbados pela questão: "Porque estamos aqui?".
(...)Como resultado, o programa é acerca do mistério. As histórias do passado de cada uma das personagens faz sobressair, de modo semelhante, as estranhas voltas que a suas vidas dão e as espantosas coincidências entre as suas vidas (...)
Este mistério da chegada dos náufragos à ilha está no âmago das nossas vidas, levando-nos à pergunta acerca da vida: "Porque estamos aqui?". Em termos heideggerianos, nós, tal como as personagens de "Perdidos", achamo-nos atirados para a situação da nossa vida, como partes de um meio ambiente e de uma história basicamente desconcertantes, nenhum dos quais feitos por nós, e ambos, sob muitos aspectos, indiferentes às nossas preocupações e à nossa própria existência.
Outro sentido da pergunta "Porque estamos aqui?" é se existe um propósito para estarmos aqui e, se tal for o caso, que propósito será esse. "Perdidos" presta uma especial atenção também a este sentido da questão. Estarão os náufragos ali para realizar uma tarefa importante, para servir um objectivo importante, embora desconhecido, como Locke acredita? Ou estarão talvez ali para serem moral ou espiritualmente redimidos?
A pergunta que a série e o autor nos põem é esta: E nós, porque estamos aqui? Para cumprir um destino pré-determinado por uma entidade exterior (Deus, a natureza, os nossos genes), ou teremos livre-arbítrio e a liberdade de escolher o nosso caminho?
É curioso também que antes de ler este livro nunca tinha reparado neste pormenor escandalosamente evidente:
Também é interessante que várias pessoas deste pequeno grupo tenham nomes de grandes filósofos do séc. XVIII: John Locke, (Desmond) Hume e (Danielle) Rousseau.Há mais exemplos pela série fora, mas o que eu gostaria de destacar é este comentário de Jeremy Barris, imperdível:
E, mais importante, a personagem Henry Gale é interpretada pelo actor Michael Emerson. Coincidência? Ou será que o campo electromagnético da ilha se libertou do controlo dos argumentistas e começou agora a absorver o nosso próprio mundo para a sua realidade?Penso que ele se refira a este Emerson, Ralph Waldo Emerson, de quem se diz:
Emerson's religious views were often considered radical at the time. He believed that all things are connected to God and, therefore, all things are divine. Critics believed that Emerson was removing the central God figure; as Henry Ware, Jr. said, Emerson was in danger of taking away "the Father of the Universe" and leaving "but a company of children in an orphan asylum". Emerson was partly influenced by German philosophy and Biblical criticism. His views, the basis of Transcendentalism, suggested that God does not have to reveal the truth but that the truth could be intuitively experienced directly from nature.Pode muito bem ser que o campo electromagnético da ilha se tenha escapado pelo écran da televisão... Depois de "Perdidos", isso é certo, não direi que tudo mudará, mas sem dúvida que muitas pessoas se irão questionar duas vezes se devem ou não carregar no botão.
Acedia
Outro autor que me fez pensar foi Daniel B. Gallagher, dissertando sobre São Tomás de Aquino:
Rose mantém-se afastada daquilo a que São Tomás chama, em Latim, acedia, o maior dos pecados contra a fé. Embora seja muitas vezes traduzida por "preguiça", acedia é um termo mais técnico. Designa um tipo de torpor que impede a pessoa de desfrutar das coisas que são genuinamente boas. É uma paralisia espiritual que bloqueia a capacidade de olhar para além do mal. É "olhar para um bem valioso como sendo impossível de alcançar, quer por si, quer com a ajuda dos outros" e pode "por vezes dominar os afectos de uma pessoa, ao ponto de ela pensar que não mais poderá acolher aspirações ao bem".
Nunca pensei sofrer desta coisa que tem nome de doença e que se chama acedia, o maior dos pecados contra a fé. Mas, obviamente, eu não concordo nada com Tomás de Aquino. Não deixa, no entanto, de ser divertido ler estas linhas. (Ò Freud, a falta que tu fazias, de facto! Curiosamente, Freud é, sente-se, uma persona non grata para alguns destes autores -- a maior parte ignora-o -- talvez porque Freud explica o irracional e os filósofos não gostam nada do irracional, convencidos como estão de que o ser humano é todo ele "santo intelecto". Não fosse isso, eu até gostaria mais de filosofia).
Não quero deixar este post sem participar na dança. Se há perguntas, é para que se respondam. Mas talvez não da forma que os filósofos mais gostariam.
Alguma vez estiveram perdidos?
É a pergunta como que Sharon M. Kaye abre o livro, descrevendo de seguida a primeira vez que se perdeu dos pais na infância e as emoções que tal lhe suscitou.
Fiquei a pensar nisto e, estranhamente, cheguei a esta conclusão: eu nunca me perdi. Sempre fui uma criança cuidadosa, ultra cuidadosa, daquelas que sabem a morada de cor, o número de telefone, o telefone da polícia, onde ficam os bombeiros, e a quem só faltava marcar o caminho com pedrinhas, como na história infantil, para saber voltar a casa. Mas atenção, pedrinhas, não miolo de pão, pois, tal como como na história infantil ("Hansel e Gretel") os passarinhos comeram-no.
Não houve momento nenhum da minha infância em que me tivesse perdido dos pais, guardiões, amigos e "tratadores" em geral. Sabia sempre onde eles estavam, sabia sempre como voltar. (Às vezes eles é que julgavam que eu me tinha perdido, mas na verdade andava era fugida.)
Este cuidado exagerado foi-me abandonando com a idade. Já na adolescência, perdi-me da Praça da Figueira para o Rossio. Ou seja, não consegui encontrar o Rossio. Bem, para dizer a verdade, embora tenha metido pela rua errada, não foi por isso que não encontrei o Rossio. Foi preguiça de voltar atrás. E, para ser completamente franca, mais uma vez não estava perdida. Acontece que optei pela rua que me pareceu mais familiar. Em vez de perdida estava, pelo contrário, a caminho de casa.
Pareceu-me durante muito tempo que "perder-me" era uma terrível impossibilidade. Tive de fazer muito por isso. Finalmente, lá consegui. Com uma ajudinha de substâncias químicas, e nem sequer ilegais, mas lá consegui viver uma furiosa loucura. Por uns tempos, consegui esquecer-me do caminho. Hoje esforço-me por não me tornar a lembrar. Tenho feito um bom trabalho em continuar "perdida".
(Ou será fugida? Sim, é novamente fugida.)
O que fariam se estivessem na ilha?
Esta foi a pergunta a que mais me custou responder. Tive de admitir a mim mesma que se me encontrasse naquela ilha, depois de um acidente de avião, na companhia daquelas personagens (americanos malucos, francesa maluca, iraquiano maluco, sul-coreana cabra, nigeriano traficante-de-droga-que-finge-ser-padre, e quejandos) choraria amarga e inconsolavelmente. Isto diz muito, aparentemente, de uma personalidade derrotista. Mas só aparentemente. Em segunda análise, teria muito boas razões para chorar. No meio daquela gente estaria, muito mais do que eles, completamente privada da minha cultura. E a perspectiva de nunca mais ouvir música gótica nova é motivo suficiente para qualquer gótico cortar os pulsos.
Mas depois pus-me a pensar a sério. O que faria eu se me encontrasse naquela ilha, quando me passasse a choradeira? Obviamente, tentaria fugir de lá a sete pés. Nem que fosse preciso recorrer aos Outros e trair os restantes. Afinal, nenhum deles são "os meus". Faria como Desmond, que fugiu assim que pôde.
Mas há aqui uma armadilha, contudo. No momento em que me cheirasse a Jacob, ou à possível existência de Jacob, já não tenho tanta certeza se não faria antes tudo para o encontrar.
Isto, no entanto, digo eu agora que vi mais algumas temporadas e sei onde está a manivela "de saída". Não custa muito procurar Deus quando se lhe conhece escapatória... caso Deus não seja aquilo que se estava à espera.
E não, decididamente, não carregaria no botão. No dia em que o deixou de fazer, John Locke tornou-se o meu herói. Durou pouco; depressa o deixou de ser. Quanto mais os vejo mais me convenço que são todos doidos, alucinados e, sobretudo, perigosos. Pensando melhor... na dúvida, foge. Era mesmo de me pôr a milhas daquela maluquice toda.
Por incrível que possa parecer, ainda há uns quantos por aí que não viram "Lost". A esses, agora que a última temporada da série está prestes a passar na televisão portuguesa, recomendo encarecidamente: não vejam. Não só vão perceber muito pouco como não conseguirão desfrutar de toda a experiência "Perdidos". Voltem atrás, vejam o princípio, e depois, sim, podem vir agradecer-me pelo conselho.
É que há algumas coisas na vida que só interessam quando consumidas na sequência certa. Esta é uma delas.
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quinta-feira, 24 de junho de 2010
EU SOU (?) UMA PESSOA
Estava a fazer um back up de todas as páginas deste blog, coisa que já não fazia há 5 anos porque não me apercebi do tempo a passar!, quando encontrei este post de 2007:
Passado este tempo, idem idem, aspas aspas, blá blá blá e etc etc.
Quanto mais as coisas mudam mais ficam na mesma.
Às vezes apetece-me dizer, como "O Homem Elefante": EU SOU UMA PESSOA. Não sou um personagem da vossa imaginação de quem se lembram quando calha. EU SOU UMA PESSOA.
Mas a verdade mesmo é que não digo. Há muito que desisti dessa pretensão inútil. Serei então uma personagem.
Agradece e retribui.
Mind reading
Sinto que as pessoas pensam que não sei o que pensam de mim, mas estão muito enganadas. O que elas pensam é aquilo que eu sei que pensam. (Qualquer escritor de meia tigela consegue prever o que as personagens da história vão dizer.)
De vez em quando provam-me, sem querer, que leio os seus pensamentos, e por isso mesmo hoje partiu-se-me o coração mais um bocadinho.
Eh bien.
Passado este tempo, idem idem, aspas aspas, blá blá blá e etc etc.
Quanto mais as coisas mudam mais ficam na mesma.
Às vezes apetece-me dizer, como "O Homem Elefante": EU SOU UMA PESSOA. Não sou um personagem da vossa imaginação de quem se lembram quando calha. EU SOU UMA PESSOA.
Mas a verdade mesmo é que não digo. Há muito que desisti dessa pretensão inútil. Serei então uma personagem.
Agradece e retribui.
The day the Earth stood still (2008)
Nunca um título mais enganador. Eu a pensar que ia ver a Terra parar de girar nos seus eixos, fantásticos tsunamis e o fim do mundo... Parece que isso é o "2012" (mas ainda não vi porque tenho medo).
Este é, afinal, o dia em que os extraterrestres se chateiam da merda que o ser humano tem feito no planeta Terra e se decidem pela exterminação da praga. Numa última tentativa de "juízo final", é enviado à Terra o extraterrestre Klatuu, (na pele de Keanu Reeves, não deste), que se esforça ainda por um derradeiro contacto com os líderes do mundo no sentido de inverterem a "natureza destrutiva da espécie". Como é óbvio, e ainda por cima aterrando em Nova Iorque, os americanos tentam de imediato exterminar o mensageiro. Ainda se tivesse vindo cair no meio da praça do Rossio, no meio dos outros maluquinhos, ainda alguém parava para o ouvir...
Mas o extraterrestre, profundamente desconhecedor da realidade terrestre (ao contrário do que o filme insiste em sublinhar), vai aterrar no Central Park, ou algo do género, onde o tentam matar, torturar e afins, pois se é estrangeiro é terrorista quanto mais sendo extraterrestre!, e decide-se mesmo pela "solução final".
Acaba por ser a ternura de uma mãe adoptiva pelo seu filho adoptado (e mais aquela cena comovente do menino a chorar pelo pai no cemitério) que leva o extraterrestre a convencer-se de que afinal há algo de bom na espécie humana. O quê, é que eu confesso que não percebi, e a mim não me convenceu minimamente. Que as fêmeas cuidem das crias e arrisquem até a vida para as defender não é exclusivo da espécie humana. Mas este extraterrestre, já se disse, era ignorante a ponto de não saber a diferença. (Põe-se até a pergunta, porque é que estavam interessados em recolher polvos e lulas, escorpiões e insectos, na sua Arca de Noé extraterrestre, se pouco percebiam do mais básico da vida animal?) O objectivo era crer que sim, que o extraterrestre estava bem informado, e que a chave para a salvação da espécie humana, segundo o prémio Nobel com quem este se cruza, é que esta "apenas evolve quando se vê à beira do precipício". Eu digo que nem assim, porque do princípio ao fim tudo o que os terráqueos tentaram fazer, mesmo à beira do tal precipício, foi bombardear a nave alienígena. Quer-me parecer que este Klatuu se comoveu por pouco. Era extermínio total e acabava-se a história.
Por falar em extermínio, o robô gigante que mais tarde se revela o exterminador implacável do ser humano e todos os seus vestígios sobre a Terra, lembra-me, curiosamente, e é engraçado como umas coisas se pegam nas outras, o mirabolante e ameaçador gigante de "O Castelo de Otranto", que ninguém chega a ver como deve ser porque a sua própria existência é muito questionável.
Extraterrestre, mas pouco
E por falar em extermínio e solução final, não deixa de ser irónico notar como o evoluído extraterrestre tem por missão aniquilar toda uma espécie, mas lá vai salvando este ou aquele indivíduo com quem se cruza. Aqui percebo porquê. É mais fácil massacrar um milhão de massa anónima do que uma extinguir uma vítima com rosto. Nada tão humano como a relutância em matar uma formiga só, se estiver sozinha. E assim o extraterrestre que condena a espécie cai no pior dos seus vícios: o genocídio. E aqui se enterra a moral filosófica do enredo, ou a vã tentativa de um argumentista (ou vários) de almejar perceber o que é ser um extraterrestre (inteligente), e falhar(em).
Posto isto, se o filme a princípio prometia algo de interessante e inovador, cai totalmente na esparrela do obrigatório fim feliz, mas forçado, sem a mesma base de justificação que o muito mais compreensível "destruir esta praga antes que eles destruam o resto". E perde-se. É pena. Talvez eles voltem, numa sequela, e desta vez nem os polvos se safem.
Venha "2012".
14 em 20
domingo, 20 de junho de 2010
Monitor cyber-goth
Não é que seja uma surpresa. Há muito tempo que o meu monitor andava a piscar sem razão aparente. Ontem, finalmente, saiu do armário e revelou-se. Ficou todo cor-de-rosa. Hoje está mais para o alaranjado. Parece um daqueles baby bats que não se decidem se querem ser góticos ou ir para as raves.
Uma vez li um haiku lindíssimo sobre a morte de um monitor que terminava em algo assim: "depois, branco, morreu".
Confesso que estava mais à espera desse branco-super-nova. Talvez ainda o veja.
Tudo isto para dizer que a qualquer momento posso ficar sem monitor, o que significa que sem monitor não há computador. A qualquer momento. Puf. Espero que tal não aconteça antes de ter paciência de ir comprar um novo. A paciência contudo, anda escassa, ainda mais escassa do que o dinheiro, o que já é dizer bastante.
Uma vez li um haiku lindíssimo sobre a morte de um monitor que terminava em algo assim: "depois, branco, morreu".
Confesso que estava mais à espera desse branco-super-nova. Talvez ainda o veja.
Tudo isto para dizer que a qualquer momento posso ficar sem monitor, o que significa que sem monitor não há computador. A qualquer momento. Puf. Espero que tal não aconteça antes de ter paciência de ir comprar um novo. A paciência contudo, anda escassa, ainda mais escassa do que o dinheiro, o que já é dizer bastante.
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