Olá a todos!
Quase todos vocês conhecem a história dos cães que viviam num barracão, em cima de um amontoado de várias toneladas de ossos, e que foram encaminhados para o canil municipal de Loures.
Graças aos esforços de várias associações de protecção animal e de perticulares, e graças também à ajuda preciosa da seguradora Groupama e da Rede Animadomus, que ofereceram a esterilização, desparasitação e um seguro de saúde gratuito válido por 3 meses a todos estes animais, foi possível já retirar do canil cerca de 60 cães.
No entanto, muitos outros continuam, passado todo este tempo, a viver em jaulas exíguas do canil, sem ver a luz do dia, sem passear, sem afecto e sem acesso a alimentação de qualidade e cuidados de saúde básicos. Muitos deles já morreram nas instalações do canil.
Vimos pedir a todas as pessoas que se sensibilizaram com este caso um último esforço na divulgação destes animais. Só com o esforço de todos será possível mostrar aos animais que restam alguma coisa do mundo para além de solidão, medo e dor, que é tudo o que eles conheceram desde o dia em que nasceram.
Podem ver a actualização da situação de cada um dos animais nesta página:
http://www.animaisderua.org/eventos/animais_loures
As associações e FATs que acolheram animais de Loures precisam também muito de ajuda na alimentação e divulgação para adopção destes cães, para que consigam acolher outros. Caso queira ajudá-las de alguma forma, por favor contacte-nos para o geral@animaisderua.org, ou clique nos nomes das associações, na página acima referida, para aceder aos respectivos sites.
Abaixo segue um filme, produzido pela Wiseguys, sobre os animais do canil de Loures. Seguem também imagens de alguns dos animais que precisam de sair do canil com a máxima urgência, e da Lora, no estado em que estava quando saiu do canil.
Muito obrigada a todos.
A equipa da Animais de Rua
Filme sobre os animais de Loures:
http://vimeo.com/10638946
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Actualização - Animais de Loures
Recebido por email:
Compreende-se a gravidade da doença quando se ouve um ruído na janela e se sorri de prazer, e se deseja que entre por ali algo de terrível, um monstro, um assassino, um animal selvagem... algo de perigoso e excitante... algo de letal. O prazer indescritível da adrenalina da luta final.
Devia ser o que os gladiadores sentiam ao entrar na arena.
Devia ser o que os gladiadores sentiam ao entrar na arena.
sábado, 22 de maio de 2010
Purga
É verdade, há muito tempo que este blog precisava de uma "purga" de links para outros blogs que já não estão activos ou foram apagados. Considero "não activos" todos os blogs sem actividade há mais de um ano. Os que não foram de facto apagados permanecem ainda linkados na secção R.I.P. (Rest In Peace).
De todos, os que me doeram mais mandar para lá, para o túmulo, foram os do meu "afilhado blogosférico" Goldmundo, mas ele continua a escrever por aí, logo não está tudo perdido. (Mesmo assim, a madrinha tem vontade de lhe aplicar duas nalgadas! E ele sabe...)
Tive pena de já não ter acesso ao Caccaocino, mas as coisas são como são.
Lamento também a paragem da Grande Loja do Queijo Limiano.
A minha lista de blogs colecciona efectivamente os que leio (ou por onde vou passando quando me dá na real gana, o que pode ser algo diferente). A grande verdade é que considero que a blogosfera começou com um grande "boom", e depois se desfez. Simplesmente desfez-se. Não tenho paciência para pôr os olhos em mais nenhum blog "foto+poema". Aliás, apareçam-me com mais um poema à frente e sou capaz de gritar. (Fiquei pior depois de ler "Só", de António Nobre, supostamente o livro mais triste de Portugal, que de facto é "triste" noutra acepção da palavra e sobre o qual nem me dei ao trabalho de escrever).
Se há pessoas que insistem em ter blogs pessoais, que os tornem realmente pessoais, que não se escondam atrás das palavras de outros. Isso não são blogs pessoais, são blogs de engate, e bastante maus, por sinal. (Já os houve bem bons, pois houve).
A verdade, a verdade, é que tenho andado um pouco arredia da blogosfera. Nos últimos tempos, antes de eu própria "quase desaparecer", só lia os blogs políticos (e esses continuam a existir). Neste tema, saliento o genial blog de escárnio e mal dizer que é, na minha opinião, o melhor da blogosfera portuguesa dentro do género: The Braganza Mothers. Se houvesse um Óscar provavelmente não lho/s dariam, mas era para ele/s que deveria ir.
Acontece que a certa altura fiquei doente, se calhar até fisicamente doente, de ler o passa neste país. Algures pela segunda eleição do Sócrates. E perdi o interesse.
E de que outra forma poderia ser, se tenho 38 anos e a minha vida já não vai a lado nenhum?
Para mim, acabou. É o fim da linha. A partir de agora nada muda, nada se transforma, tudo se perde. As merdas que se passam lá fora já não conseguem despertar em mim sequer um vestígio de emoção. (Bem, às vezes ainda os mando para o caralho, quando os vejo na televisão, mas nem vale a pena vir mandá-los para o caralho aqui. É demasiada perda de tempo. E para dizer novamente a verdade, os conselhos que teria a dar às gerações mais novas são tão sanguinários que ainda me metiam na prisão, e eu gosto do meu cantinho de escravidão aqui mesmo onde estou, obrigada.)
Passaram-se anos, anos!, desde Dezembro de 2003, e hoje em dia só me importam aqui as pessoas que são autênticas, as pessoas que se mostram, as pessoas que não têm medo de se revelar. Tudo o resto é merda igual à merda semelhante. Dou os meus parabéns àqueles (poucos) que continuam a ter coragem de ser autênticos, quer na política, quer no sarcasmo, quer no humor, quer na emoção, quer na escrita, quer na arte, aqueles que são "pessoas" aqui como são "pessoas" lá fora, aqueles que persistem apesar do passar dos anos, aqueles que fazem o que gostam e não se ralam do que pensam deles por isso.
A verdade, a verdade, é que por muitos meses deixei este blog quase abandonado devido a projectos pessoais menos transmissíveis. Se o tempo chegar, talvez esses projectos solitários venham a conhecer a audiência adequada.
Não penseis, por momentos, que estive sem fazer nada! Já devíeis saber, meus caros, que não é assim que funciono.
Resumindo e concluindo, fiquei com muito poucos blogs para ler. Queria conhecer mais. Os das pessoas autênticas, os das pessoas que escrevem com a alma. Eis uma excelente oportunidade de deixarem o link para blogs que escrevem ou que conhecem. A porta está aberta e o momento é agora.
De todos, os que me doeram mais mandar para lá, para o túmulo, foram os do meu "afilhado blogosférico" Goldmundo, mas ele continua a escrever por aí, logo não está tudo perdido. (Mesmo assim, a madrinha tem vontade de lhe aplicar duas nalgadas! E ele sabe...)
Tive pena de já não ter acesso ao Caccaocino, mas as coisas são como são.
Lamento também a paragem da Grande Loja do Queijo Limiano.
A minha lista de blogs colecciona efectivamente os que leio (ou por onde vou passando quando me dá na real gana, o que pode ser algo diferente). A grande verdade é que considero que a blogosfera começou com um grande "boom", e depois se desfez. Simplesmente desfez-se. Não tenho paciência para pôr os olhos em mais nenhum blog "foto+poema". Aliás, apareçam-me com mais um poema à frente e sou capaz de gritar. (Fiquei pior depois de ler "Só", de António Nobre, supostamente o livro mais triste de Portugal, que de facto é "triste" noutra acepção da palavra e sobre o qual nem me dei ao trabalho de escrever).
Se há pessoas que insistem em ter blogs pessoais, que os tornem realmente pessoais, que não se escondam atrás das palavras de outros. Isso não são blogs pessoais, são blogs de engate, e bastante maus, por sinal. (Já os houve bem bons, pois houve).
A verdade, a verdade, é que tenho andado um pouco arredia da blogosfera. Nos últimos tempos, antes de eu própria "quase desaparecer", só lia os blogs políticos (e esses continuam a existir). Neste tema, saliento o genial blog de escárnio e mal dizer que é, na minha opinião, o melhor da blogosfera portuguesa dentro do género: The Braganza Mothers. Se houvesse um Óscar provavelmente não lho/s dariam, mas era para ele/s que deveria ir.
Acontece que a certa altura fiquei doente, se calhar até fisicamente doente, de ler o passa neste país. Algures pela segunda eleição do Sócrates. E perdi o interesse.
E de que outra forma poderia ser, se tenho 38 anos e a minha vida já não vai a lado nenhum?
Para mim, acabou. É o fim da linha. A partir de agora nada muda, nada se transforma, tudo se perde. As merdas que se passam lá fora já não conseguem despertar em mim sequer um vestígio de emoção. (Bem, às vezes ainda os mando para o caralho, quando os vejo na televisão, mas nem vale a pena vir mandá-los para o caralho aqui. É demasiada perda de tempo. E para dizer novamente a verdade, os conselhos que teria a dar às gerações mais novas são tão sanguinários que ainda me metiam na prisão, e eu gosto do meu cantinho de escravidão aqui mesmo onde estou, obrigada.)
Passaram-se anos, anos!, desde Dezembro de 2003, e hoje em dia só me importam aqui as pessoas que são autênticas, as pessoas que se mostram, as pessoas que não têm medo de se revelar. Tudo o resto é merda igual à merda semelhante. Dou os meus parabéns àqueles (poucos) que continuam a ter coragem de ser autênticos, quer na política, quer no sarcasmo, quer no humor, quer na emoção, quer na escrita, quer na arte, aqueles que são "pessoas" aqui como são "pessoas" lá fora, aqueles que persistem apesar do passar dos anos, aqueles que fazem o que gostam e não se ralam do que pensam deles por isso.
A verdade, a verdade, é que por muitos meses deixei este blog quase abandonado devido a projectos pessoais menos transmissíveis. Se o tempo chegar, talvez esses projectos solitários venham a conhecer a audiência adequada.
Não penseis, por momentos, que estive sem fazer nada! Já devíeis saber, meus caros, que não é assim que funciono.
Resumindo e concluindo, fiquei com muito poucos blogs para ler. Queria conhecer mais. Os das pessoas autênticas, os das pessoas que escrevem com a alma. Eis uma excelente oportunidade de deixarem o link para blogs que escrevem ou que conhecem. A porta está aberta e o momento é agora.
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quarta-feira, 12 de maio de 2010
O silêncio e merdas afins
A única vantagem de não ter afectos é que não se sente nada quando eles morrem.
*risos*
Quem estou eu a enganar? Sentiria eu mais por ti que tu por mim. Afinal, sou apenas "a disposable friend". Aposto que terias saudades minhas... ao sábado à noite. De resto, é como diz o outro: "I don't exist when you don't see me".
Está mesmo tudo mais que dito e redito.
*risos*
Quem estou eu a enganar? Sentiria eu mais por ti que tu por mim. Afinal, sou apenas "a disposable friend". Aposto que terias saudades minhas... ao sábado à noite. De resto, é como diz o outro: "I don't exist when you don't see me".
Está mesmo tudo mais que dito e redito.
terça-feira, 4 de maio de 2010
"O Castelo de Otranto", por Horace Walpole
Não sei se esta foi a primeira vez que li "O Castelo de Otranto". Lembro-me de ter estado várias vezes na Feira do Livro, com este nas mãos, folheando e questionando se deveria ou não comprar. Se comprei, e se li, não me lembrava absolutamente nada da história. Algo me diz que não cheguei a ler, por duas razões. A primeira, porque me parecia um conto demasiado pequeno em que gastar o meu dinheiro (sempre preferi histórias longas). A segunda, porque folheando não me pareceu suficientemente sobrenatural numa altura em que eu procurava sobretudo os clássicos mais marcantes.
Isto, de procurar o mais gritante, em si também é curioso, porque a um leitor é necessário conhecer os extremos antes de conseguir apreciar a subtileza do intermédio.
Só agora, finalmente, me debrucei sobre "O Castelo de Otranto", considerada a primeira novela gótica, e a li com outros olhos, e uma uma outra percepção tão vasta e profunda que milhentas ideias me surgiram de seguida. Não sei se conseguirei expor sequer algumas. Foi uma espécie de turbilhão que ainda tem de ser melhor estudado. (Quando digo "estudado", refiro-me à análise mais cuidada desta minha tese embrionária.)
"O Castelo de Otranto" conta uma história interessante sobre um tirano que tudo faz para manter a descendência masculina do seu principado de modo a que este não se extinga por falta de legítimos herdeiros. E é isto, não há nada mais. A maldição, os "efeitos sobrenaturais", são secundários. Por alguma razão lhes chamo "efeitos", como se aplica o termo nos filmes. O que é realmente interessante na história é a forma como Manfred tenta manipular todos os que entram em contacto com ele, e a profundidade psicológica desta personagem escrita no século XVIII (1764). Por isto, sim, fiquei maravilhada.
E decidi procurar mais sobre a "novela gótica". Diz a wikipedia: a novela gótica é um género literário que combina elementos de horror e romance.
Foi aqui que a minha mente se pôs a trabalhar a 1000 à hora. Não a respeito da novela gótica clássica, mas de tudo aquilo que actualmente caracteriza o movimento gótico como o conhecemos. Haverá, actualmente, uma literatura gótica, isto é, moderna? E terá já alguma coisa a ver com o clássico?
Afinal, quanta música gótica trata de fantasmas? Vejam-se os clássicos. As referências são muitas, mas os fantasmas já não estão no exterior. Os fantasmas, actualmente, são projecções dos medos inconscientes. (Freud fazia mesmo muita falta à literatura). E se é a profundidade psicológica de uma personagem como Manfred que me toca, não o é menos o drama existencial dos vampiros de Anne Rice, que já não são personagens de terror, são seres humanos que por acaso são vampiros e que por essa razão conseguem analisar a condição humana por uma lente privilegiada. Na minha opinião, há muito que a literatura que é lida pelo movimento gótico se afastou do "terror" clássico, mais ou menos da mesma maneira que alguém disse dos Joy Division que os seus temas eram góticos, e não consta que falassem de fantasmas. Pelo menos dos fantasmas de fora. E há muito tempo que o verdadeiro terror vem das profundidades da alma, sem sequer a necessidade de o projectar num monstro algures na noite lá fora. A banda que melhor conseguiu fazer esta ligação, escrevendo canções de amor que algumas pessoas interpretaram como a possessão por um íncubo, foram os Fields of the Nephilim. Quando alguém comentou isto, mais ou menos na brincadeira, eu lembro-me de ter perguntado: não é isso que é o sexo, qualquer e todo o sexo? Qual é a diferença? E se é assustador? E desde quando sentir que a felicidade depende de um ser que nos é alheio e incontrolável não é assustador? Para quê mais monstros, se já há tantos onde eles realmente existem e sempre existiram?
Eram muito ingénuos, estes primeiros escritores góticos, mas enfim... Freud fazia falta.
Isto, de procurar o mais gritante, em si também é curioso, porque a um leitor é necessário conhecer os extremos antes de conseguir apreciar a subtileza do intermédio.
Só agora, finalmente, me debrucei sobre "O Castelo de Otranto", considerada a primeira novela gótica, e a li com outros olhos, e uma uma outra percepção tão vasta e profunda que milhentas ideias me surgiram de seguida. Não sei se conseguirei expor sequer algumas. Foi uma espécie de turbilhão que ainda tem de ser melhor estudado. (Quando digo "estudado", refiro-me à análise mais cuidada desta minha tese embrionária.)
"O Castelo de Otranto" conta uma história interessante sobre um tirano que tudo faz para manter a descendência masculina do seu principado de modo a que este não se extinga por falta de legítimos herdeiros. E é isto, não há nada mais. A maldição, os "efeitos sobrenaturais", são secundários. Por alguma razão lhes chamo "efeitos", como se aplica o termo nos filmes. O que é realmente interessante na história é a forma como Manfred tenta manipular todos os que entram em contacto com ele, e a profundidade psicológica desta personagem escrita no século XVIII (1764). Por isto, sim, fiquei maravilhada.
E decidi procurar mais sobre a "novela gótica". Diz a wikipedia: a novela gótica é um género literário que combina elementos de horror e romance.
Foi aqui que a minha mente se pôs a trabalhar a 1000 à hora. Não a respeito da novela gótica clássica, mas de tudo aquilo que actualmente caracteriza o movimento gótico como o conhecemos. Haverá, actualmente, uma literatura gótica, isto é, moderna? E terá já alguma coisa a ver com o clássico?
Afinal, quanta música gótica trata de fantasmas? Vejam-se os clássicos. As referências são muitas, mas os fantasmas já não estão no exterior. Os fantasmas, actualmente, são projecções dos medos inconscientes. (Freud fazia mesmo muita falta à literatura). E se é a profundidade psicológica de uma personagem como Manfred que me toca, não o é menos o drama existencial dos vampiros de Anne Rice, que já não são personagens de terror, são seres humanos que por acaso são vampiros e que por essa razão conseguem analisar a condição humana por uma lente privilegiada. Na minha opinião, há muito que a literatura que é lida pelo movimento gótico se afastou do "terror" clássico, mais ou menos da mesma maneira que alguém disse dos Joy Division que os seus temas eram góticos, e não consta que falassem de fantasmas. Pelo menos dos fantasmas de fora. E há muito tempo que o verdadeiro terror vem das profundidades da alma, sem sequer a necessidade de o projectar num monstro algures na noite lá fora. A banda que melhor conseguiu fazer esta ligação, escrevendo canções de amor que algumas pessoas interpretaram como a possessão por um íncubo, foram os Fields of the Nephilim. Quando alguém comentou isto, mais ou menos na brincadeira, eu lembro-me de ter perguntado: não é isso que é o sexo, qualquer e todo o sexo? Qual é a diferença? E se é assustador? E desde quando sentir que a felicidade depende de um ser que nos é alheio e incontrolável não é assustador? Para quê mais monstros, se já há tantos onde eles realmente existem e sempre existiram?
Eram muito ingénuos, estes primeiros escritores góticos, mas enfim... Freud fazia falta.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Lost - This place is death

A princípio, provavelmente como toda a gente, pensei que esta era mais uma série sobre sobrevivência em ambiente selvagem e hostil, numa Babilónia explosiva de personagens de vários cantos do mundo que além das dissensões entre eles próprios se têm de haver também com um inimigo comum (os Outros). Julguei, na altura, que era uma metáfora para o planeta cada vez mais bélico e perigoso em que vivemos neste fim de século e princípio de milénio, um mundo que se tornou refém de um inimigo sem rosto que é o terrorismo. Escrevi sobre isso aqui.
Pela terceira temporada da série, comecei a perceber que na ilha se passava mais do parecia a princípio. Os elementos sobrenaturais (monstros, visões, visitas fantasmagóricas), que de início se diriam introduzidos eles próprios como metáfora ou manobra de distracção, começaram a assumir um papel tão preponderante que deixaram de ser secundários. Convenci-me de que a única explicação lógica era esta só: os supostos sobreviventes acreditam que continuam vivos mas afinal morreram e encontram-se numa espécie de limbo, ou purgatório, entre a vida e a morte, exactamente por se recusarem a acreditar que estão mortos. (É de salientar que as crianças do grupo desaparecem, supostamente levada pelos Outros -- quem são estes Outros, afinal? -- pois as crianças não sofrem o purgatório.) Deste modo, os intervenientes continuam a viver como se nada fosse, perplexos perante os fenómenos sobrenaturais com que são confrontados mas sem se esforçarem muito por encontrar explicação para estes (talvez temam demasiado descobrir a verdade). Encontros com gente já falecida, curas milagrosas, recordações do passado, tudo isto se torna compreensível se a percepção do corpo, e da vida deste, é apenas imaginária. Em suma, são as almas que continuam a viver, e a acreditar que ainda têm um corpo físico. Porque é que isto acontece com algumas personagens e outras não? Acontece especialmente com aquelas que têm assuntos pendentes que as atormentam. Nesse caso, pergunta-se, porque muitas personagens morrem ou são mortas durante a série? E eu pergunto: morrem ou acreditam que morrem? Não estavam já mortos? Veja-se a morte de Mr. Eco, em que este se deixa levar pelo monstro de fumo como se acreditasse que estava a ser arrastado para o inferno, até porque devido às suas convicções religiosas se julgava condenado a esse castigo no Além. Tenho a teoria, para a morte de certas personagens, que estas não morrem, simplesmente "avançam" para o nível seguinte quando para tal estão preparadas. Os Outros são os guardiões deste Limbo, anjos ou demónios, ou simplesmente o equivalente ao que chamamos seres celestiais, ou guias espirituais, o que explica o "rapto" das crianças -- os inocentes -- para o nível seguinte. Da mesma forma, na ilha não há nem pode haver nascimentos, e muito menos concepções. É na terra que se nasce, não no "Céu". No "Céu" não se nasce, nem se vive, simplesmente se espera.
Isto que estou a dizer não é só opinião minha, e muito menos teoria própria. Muitos outros espectadores, em todo o mundo, interpretaram assim. A tal não é alheio o facto de aparecer na série a palavra "dharma", que nos remete imediatamente para a espiritualidade oriental. Segundo esta, as almas morrem e reencarnam, mas antes deste eterno retorno passam algum tempo a purificar-se, no que a religião ocidental chama purgatório ou limbo, até estarem preparadas para regressar à existência terrestre. Na existência terrestre, enquanto encarnadas, realizam o Dharma, isto é, o caminho para a verdade superior, o destino. Mas sofrem também as consequências do karma, a lei de causa e efeito, a recompensa e o castigo pelo que fizeram em outras encarnações. O karma tornou-se muito conhecido, o Dharma nem por isso. A experiência Dharma (ou "Iniciativa Dharma") podia ser o nome de código que Deus deu à Criação. Dharma, o destino; Karma, a Justiça.
São as almas mais atormentadas, as que têm mais assuntos pendentes, as que maior urgência sentem em voltar a reencarnar, para saldar o seu karma e cumprir o seu dharma. Na série, personagens como Kate, Jack, Sawyer, Sahid. Outras, menos "carregadas" ou mais evoluídas, sentem-se impelidas a não regressar, a passar para o lado dos Outros, como é o caso de Jonh Locke.
Nesta dinâmica, muitas vezes não se percebe se os Outros são anjos ou demónios. Tenho para mim que o manipulador Ben Linus é o Diabo, ou um seu agente, ou algo que o valha. Repare-se que ele não obriga ninguém a fazer nada. Ele tenta, ele convence, mas as personagens agem segundo o seu livre-arbítrio.
Muito bem, esta é a teoria. Os produtores da série negam-na veementemente. Não estão nada mortos, não estão nada no Limbo, são personagens de carne e osso. Eu acho que mentem com todos os dentes, para não afastarem da série os espectadores de inclinação mais científica, mas mentem de facto, e vou explicar porque o afirmo.
Nas temporadas seguintes, algumas personagens conseguem sair da ilha e regressar "ao mundo dos vivos". É a tão aguardada "reencarnação". Depressa descobrem, porém, que todos os problemas voltaram com eles, se não os mesmos outros piores que os anteriores. Jack e Kate tentam ficar juntos, mas Jack já não encontra sentido para a sua existência e torna-se dependente de comprimidos. Hurley prefere refugiar-se num hospício. Sahid continua a viver o inferno que deixara para trás ao chegar à ilha, e vê-se novamente transformado num assassino: "trabalho para um genocida", confessa. Sun vive em desgosto e amargura, completamente dominada por desejos de vingança, e ainda e sempre separada do marido que tinha já perdido antes de chegar à ilha. John Locke, de novo remetido a uma cadeira de rodas (tudo muda e tudo se repete) tenta enforcar-se. Em suma, o karma continua a exigir o pagamento da dívida. As personagens continuam a não cumprir o seu dharma, o seu destino. Mais uma encarnação desperdiçada.
É por isso que regressam à ilha, sem necessidade de grandes justificações, nem a si próprios. O seu caminho foi interrompido, necessitam de enfrentar os factos e os erros e de uma profunda purificação. Jack chega a desejar a morte, como se depois da última experiência na ilha, ou no pós-morte, compreenda que o seu espírito está demasiado evoluído para a existência terrena que tem experimentado até aí. Jack está, na minha opinião, em vias de se tornar também um Outro.
Nas temporadas 5 e 6, os produtores tentam embrulhar todo este misticismo em ficção científica. Viagem no tempo, sobreposição de dimensões, física quântica. Não convencem. E duvido que queiram convencer. Tentarei não ser um spoiler para quem ainda não não viu o final da série 6, mas quem já pensava que o misterioso Jacob não é outro senão Deus, terá uma chocante surpresa ao ver as suas suspeitas confirmarem-se. Jacob é o Guardião, se não mesmo o Arquitecto da ilha. A surpresa é que tudo indica que não é o único. Outro Ser Antigo se lhe opõe e com ele rivaliza. Parecem Deus e o Diabo, a discutir o destino da humanidade. Deus e o diabo ou dois deuses, deuses gémeos, um que acredita na humanidade e na sua capacidade de evoluir para um nível superior, o outro que de tanto observar já condenou o ser humano à sua permanente natureza animal, e que o julga incapaz de ultrapassar a baixeza do conflito. Dir-se-ia que o primeiro é o criador e o segundo o crítico que escarnece do fracasso do primeiro. E esse fracasso somos nós, a humanidade, meros peões nesta aposta entre deuses caprichosos e voyeristas. (Leia-se o Livro de Jó.)
Sempre quero ver como é que os produtores tencionam descalçar esta bota com física quântica. Talvez seja uma questão de fé acreditar na ciência. Eu acredito que toda a série é uma simbologia do caminho das almas, e do eterno retorno, e se os produtores tentaram fazer algo diferente foi exactamente nisso que acabaram por cair. O que me agrada bastante mais do que a mal amanhada explicação científica.
Gostaria muito de trocar impressões com outros espectadores da série para partilha de teorias. Duas cabeças pensam sempre melhor do que uma só.
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sábado, 17 de abril de 2010
Maio. 22.
Sandro Boticelli, "Vénus e Marte", 1482-83
Sou daquelas pessoas que têm no seu tema natal a raríssima conjunção Marte/Vénus.
No dia 22 de Maio esta conjunção vai-se repetir. Vénus vai estar em conjunção com Vénus e Marte, Marte vai estar em conjunção com Marte e Vénus. A própria conjunção vai estar em conjunção com ela própria.
Conjunção
VÉNUS - VÉNUS
Excelente período para o amor. Se ainda não se cruzou com ele, saiba que vai, com certeza, encontrá-lo durante este período.
Conjunção
VÉNUS - MARTE
Sentir-se-à muito atraída pelo sexo oposto. Encontrará alguém que será exactamente o tipo de pessoa que procura, uma pessoa com uma personalidade muito forte.
No meu caso, o sexo até nem tem de forçosamente ser o "oposto". O tempo esgota-se. Não sei quando terei esta "janela de oportunidade" novamente.
Senhores e senhoras, se alguma vez pensaram no assunto, é agora.
Respostas para a morada do costume.
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