quinta-feira, 29 de abril de 2010

Lost - This place is death



A princípio, provavelmente como toda a gente, pensei que esta era mais uma série sobre sobrevivência em ambiente selvagem e hostil, numa Babilónia explosiva de personagens de vários cantos do mundo que além das dissensões entre eles próprios se têm de haver também com um inimigo comum (os Outros). Julguei, na altura, que era uma metáfora para o planeta cada vez mais bélico e perigoso em que vivemos neste fim de século e princípio de milénio, um mundo que se tornou refém de um inimigo sem rosto que é o terrorismo. Escrevi sobre isso aqui.
Pela terceira temporada da série, comecei a perceber que na ilha se passava mais do parecia a princípio. Os elementos sobrenaturais (monstros, visões, visitas fantasmagóricas), que de início se diriam introduzidos eles próprios como metáfora ou manobra de distracção, começaram a assumir um papel tão preponderante que deixaram de ser secundários. Convenci-me de que a única explicação lógica era esta só: os supostos sobreviventes acreditam que continuam vivos mas afinal morreram e encontram-se numa espécie de limbo, ou purgatório, entre a vida e a morte, exactamente por se recusarem a acreditar que estão mortos. (É de salientar que as crianças do grupo desaparecem, supostamente levada pelos Outros -- quem são estes Outros, afinal? -- pois as crianças não sofrem o purgatório.) Deste modo, os intervenientes continuam a viver como se nada fosse, perplexos perante os fenómenos sobrenaturais com que são confrontados mas sem se esforçarem muito por encontrar explicação para estes (talvez temam demasiado descobrir a verdade). Encontros com gente já falecida, curas milagrosas, recordações do passado, tudo isto se torna compreensível se a percepção do corpo, e da vida deste, é apenas imaginária. Em suma, são as almas que continuam a viver, e a acreditar que ainda têm um corpo físico. Porque é que isto acontece com algumas personagens e outras não? Acontece especialmente com aquelas que têm assuntos pendentes que as atormentam. Nesse caso, pergunta-se, porque muitas personagens morrem ou são mortas durante a série? E eu pergunto: morrem ou acreditam que morrem? Não estavam já mortos? Veja-se a morte de Mr. Eco, em que este se deixa levar pelo monstro de fumo como se acreditasse que estava a ser arrastado para o inferno, até porque devido às suas convicções religiosas se julgava condenado a esse castigo no Além. Tenho a teoria, para a morte de certas personagens, que estas não morrem, simplesmente "avançam" para o nível seguinte quando para tal estão preparadas. Os Outros são os guardiões deste Limbo, anjos ou demónios, ou simplesmente o equivalente ao que chamamos seres celestiais, ou guias espirituais, o que explica o "rapto" das crianças -- os inocentes -- para o nível seguinte. Da mesma forma, na ilha não há nem pode haver nascimentos, e muito menos concepções. É na terra que se nasce, não no "Céu". No "Céu" não se nasce, nem se vive, simplesmente se espera.
Isto que estou a dizer não é só opinião minha, e muito menos teoria própria. Muitos outros espectadores, em todo o mundo, interpretaram assim. A tal não é alheio o facto de aparecer na série a palavra "dharma", que nos remete imediatamente para a espiritualidade oriental. Segundo esta, as almas morrem e reencarnam, mas antes deste eterno retorno passam algum tempo a purificar-se, no que a religião ocidental chama purgatório ou limbo, até estarem preparadas para regressar à existência terrestre. Na existência terrestre, enquanto encarnadas, realizam o Dharma, isto é, o caminho para a verdade superior, o destino. Mas sofrem também as consequências do karma, a lei de causa e efeito, a recompensa e o castigo pelo que fizeram em outras encarnações. O karma tornou-se muito conhecido, o Dharma nem por isso. A experiência Dharma (ou "Iniciativa Dharma") podia ser o nome de código que Deus deu à Criação. Dharma, o destino; Karma, a Justiça.
São as almas mais atormentadas, as que têm mais assuntos pendentes, as que maior urgência sentem em voltar a reencarnar, para saldar o seu karma e cumprir o seu dharma. Na série, personagens como Kate, Jack, Sawyer, Sahid. Outras, menos "carregadas" ou mais evoluídas, sentem-se impelidas a não regressar, a passar para o lado dos Outros, como é o caso de Jonh Locke.
Nesta dinâmica, muitas vezes não se percebe se os Outros são anjos ou demónios. Tenho para mim que o manipulador Ben Linus é o Diabo, ou um seu agente, ou algo que o valha. Repare-se que ele não obriga ninguém a fazer nada. Ele tenta, ele convence, mas as personagens agem segundo o seu livre-arbítrio.
Muito bem, esta é a teoria. Os produtores da série negam-na veementemente. Não estão nada mortos, não estão nada no Limbo, são personagens de carne e osso. Eu acho que mentem com todos os dentes, para não afastarem da série os espectadores de inclinação mais científica, mas mentem de facto, e vou explicar porque o afirmo.
Nas temporadas seguintes, algumas personagens conseguem sair da ilha e regressar "ao mundo dos vivos". É a tão aguardada "reencarnação". Depressa descobrem, porém, que todos os problemas voltaram com eles, se não os mesmos outros piores que os anteriores. Jack e Kate tentam ficar juntos, mas Jack já não encontra sentido para a sua existência e torna-se dependente de comprimidos. Hurley prefere refugiar-se num hospício. Sahid continua a viver o inferno que deixara para trás ao chegar à ilha, e vê-se novamente transformado num assassino: "trabalho para um genocida", confessa. Sun vive em desgosto e amargura, completamente dominada por desejos de vingança, e ainda e sempre separada do marido que tinha já perdido antes de chegar à ilha. John Locke, de novo remetido a uma cadeira de rodas (tudo muda e tudo se repete) tenta enforcar-se. Em suma, o karma continua a exigir o pagamento da dívida. As personagens continuam a não cumprir o seu dharma, o seu destino. Mais uma encarnação desperdiçada.
É por isso que regressam à ilha, sem necessidade de grandes justificações, nem a si próprios. O seu caminho foi interrompido, necessitam de enfrentar os factos e os erros e de uma profunda purificação. Jack chega a desejar a morte, como se depois da última experiência na ilha, ou no pós-morte, compreenda que o seu espírito está demasiado evoluído para a existência terrena que tem experimentado até aí. Jack está, na minha opinião, em vias de se tornar também um Outro.
Nas temporadas 5 e 6, os produtores tentam embrulhar todo este misticismo em ficção científica. Viagem no tempo, sobreposição de dimensões, física quântica. Não convencem. E duvido que queiram convencer. Tentarei não ser um spoiler para quem ainda não não viu o final da série 6, mas quem já pensava que o misterioso Jacob não é outro senão Deus, terá uma chocante surpresa ao ver as suas suspeitas confirmarem-se. Jacob é o Guardião, se não mesmo o Arquitecto da ilha. A surpresa é que tudo indica que não é o único. Outro Ser Antigo se lhe opõe e com ele rivaliza. Parecem Deus e o Diabo, a discutir o destino da humanidade. Deus e o diabo ou dois deuses, deuses gémeos, um que acredita na humanidade e na sua capacidade de evoluir para um nível superior, o outro que de tanto observar já condenou o ser humano à sua permanente natureza animal, e que o julga incapaz de ultrapassar a baixeza do conflito. Dir-se-ia que o primeiro é o criador e o segundo o crítico que escarnece do fracasso do primeiro. E esse fracasso somos nós, a humanidade, meros peões nesta aposta entre deuses caprichosos e voyeristas. (Leia-se o Livro de Jó.)
Sempre quero ver como é que os produtores tencionam descalçar esta bota com física quântica. Talvez seja uma questão de fé acreditar na ciência. Eu acredito que toda a série é uma simbologia do caminho das almas, e do eterno retorno, e se os produtores tentaram fazer algo diferente foi exactamente nisso que acabaram por cair. O que me agrada bastante mais do que a mal amanhada explicação científica.

Gostaria muito de trocar impressões com outros espectadores da série para partilha de teorias. Duas cabeças pensam sempre melhor do que uma só.

sábado, 17 de abril de 2010

Maio. 22.

 Sandro Boticelli, "Vénus e Marte", 1482-83
 

Sou daquelas pessoas que têm no seu tema natal a raríssima conjunção Marte/Vénus.
No dia 22 de Maio esta conjunção vai-se repetir. Vénus vai estar em conjunção com Vénus e Marte, Marte vai estar em conjunção com Marte e Vénus. A própria conjunção vai estar em conjunção com ela própria.

Conjunção
VÉNUS - VÉNUS
Excelente período para o amor. Se ainda não se cruzou com ele, saiba que vai, com certeza, encontrá-lo durante este período.

Conjunção
VÉNUS - MARTE
Sentir-se-à muito atraída pelo sexo oposto. Encontrará alguém que será exactamente o tipo de pessoa que procura, uma pessoa com uma personalidade muito forte.

No meu caso, o sexo até nem tem de forçosamente ser o "oposto". O tempo esgota-se. Não sei quando terei esta "janela de oportunidade" novamente.

Senhores e senhoras, se alguma vez pensaram no assunto, é agora.
Respostas para a morada do costume.

sábado, 3 de abril de 2010

The Prime Gig (2000)



Já tinha visto bocados deste filme, sem nunca me embrenhar nele, até ao dia em que tudo aquilo começou a fazer sentido. Uma cambada de intrujões a impingir vendas fraudulentas por telefone. Será motivo sequer para fazer um filme? O pior é que é. Não é sequer pela ganância, mas pela mentira, que este filme é chocante. E o que é chocante é que há de facto pessoas por aí fora, pessoas bem reais, capazes de mentir a este nível, sem escrúpulos nem remorsos, destruindo tudo o que se interpõe entre eles e a sua ambição. Alguns até o justificam: todos nós somos capazes de ser tudo o que desejarmos ser. Sim. Sem escrúpulos, sem moral, sem decência. Deviam acrescentar ao slogan: "Somos bem sucedidos e somos imorais e não queremos saber porque somos egoístas e só pensamos em nós." Claro que nunca o acrescentariam porque além de gananciosos e imorais, são também mentirosos, e negá-lo-ão até à morte. Até que ponto a mentira não é uma doença do foro mental, pergunto-me?
Este filme faz-nos pensar nisso, e por isso o recomendo vivamente.


17 em 20.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A (não) comunidade gótica em Portugal: mais algumas reflexões

Aqui há uns tempos perguntaram-me o que achava da recente explosão de fóruns e comunidades góticas na internet. Pensei muito sobre o assunto. (Já não pensavas que respondia, pois não?... Mas isto de ser uma "gurua" tem que se lhe diga, e se houve coisa que aprendi ao longo destes -- vergonha!!! -- vinte anos de cena gótica é que nunca é demais ser comedida nas palavras e cautelosa nos juízos.) Em especial, perguntaram-me o que pensava sobre o fórum Comunidade Gótica Portuguesa que, a bem ou a mal, conseguiu ultrapassar os primeiros e difíceis anos de vida -- geralmente, tenho observado, estas coisas aparecem e desaparecem em questão de meses.
Vamos então por partes.
A internet, já o disse aqui, nesta última década, veio trazer ao movimento gótico uma visibilidade que nunca tinha tido. Passámos dos fanzines clandestinos e dos cartazes (fotocópias) afixados nas paredes do Bairro Alto, e do antes crucial "boca em boca", para a era das redes sociais, dos blogs, dos fóruns, dos flyers cuidados e transmitidos por email, e, porque não dizê-lo, passe a publicidade, aos portais dedicados a promover os eventos relevantes à cena, como o nosso Pórtico. Tudo isto é muito mais eficaz do que os meios antigos, até porque a informação chega mais longe, até ao pobre e único gótico de Alguidares-de-Baixo, se porventura lá houver algum.
Vamos então ao fenómeno do fórum Gothik.PT, auto-intitulado "Comunidade Gótica Nacional". Para começar, e digo-o com uma certa tristeza após vinte anos disto (na verdade já são mais de vinte anos), não há comunidade gótica nenhuma, pelo menos em Portugal. Desconheço, infelizmente, a realidade dos outros países, mas aqui, definitivamente não existe tal coisa. O que existe, isso sim, é uma quantidade de gente que vai aos bares, e aos eventos, e às festas, e aos concertos, e que são sempre os mesmos, e cada vez mais novos, e cujas caras todas conhecemos de vista. O que aconteceu aos mais velhos? A verdade é esta, eles existem, e por esta altura já conhecem o que podem encontrar na internet, mas não andam por aí online. A partir de uma certa altura, a realidade da vida: emprego, filhos, supermercados, trânsito, não se compadece com horas em chats e fóruns. Muitos, também, são apenas os nostálgicos, que só saem de casa com o seu velhinho casaco de cabedal quando há um concerto de uma velha glória dos anos 80, e pararam por aí. (Digo cabedal porque esta gente deixou a cena nos anos 90 e nunca chegou a conhecer o PVC.) Tomem atenção, vê-los-ão nos concertos.
Ora, nunca houve e não me parece que vá existir nenhuma "comunidade". Talvez o futuro me venha a provar errada mas duvido. Pelo que tenho observado, e também não é a primeira vez que o digo, 95% das pessoas abandona o estilo aos vinte e poucos anos, quando dizem "já estou farto disto". Se eu tivesse um euro por cada vez que ouvi esta frase!!! É por isso também que não acredito em góticos "menores de 25 anos", e aqui também já o disse.
Mas não vou comentar a presunção de chamar a um fórum com meia dúzia de participantes regulares "comunidade nacional". Chamem-lhe o que quiserem. O verdadeiro teste é o do tempo. Veremos quanto dura.
Algumas pessoas criticaram a obsessão pelas fotografias, e pelos meetings, e -- como evitá-lo -- pelo objectivo de engate que se transpira em sites deste tipo. O que dizer? Quem o expôs preto no branco foi o Klatuu/Lord of Erehwon, quando respondeu (noutras palavras que não cito) que fazem muito bem em aproveitar a idade que têm porque esta não se repete e agora é que é. Avançando.
No movimento gótico, meus amigos, sempre houve o "grupinho dos populares". É mesmo assim, como nos liceus americanos. Não preciso de dizer quem são. Reconhecem-se à distância porque são sempre os mais exagerados nas roupas e na maquilhagem, para provarem que são realmente góticos. Na internet não podia ser diferente. "Nós é que somos, os outros são poseurs, blá, blá, blá". Ironicamente -- o que eu me tenho rido! -- acabam por ser estes os primeiros a dizer "estou farto disto". A maioria dos membros dos "grupinhos populares" que conheci ao longo dos anos pode ser encontrado hoje no Lux, ou quejandos, ou casou e assentou e já nem sequer sai de casa. Muitos ainda guardam nostalgia mas a grande maioria já nem se identifica com o movimento gótico e diz que foi uma fase da juventude.
Nada disto é novo e nada disto vai acabar. É como as marés, enchem e vazam. É como a lua, enche e mingua.
O que é de facto novo, e digno de reflexão, é um outro fenómeno bem mais recente e a necessitar de análise urgente. Nestes últimos dez anos, como dizia, tenho notado que graças à internet há gente cada vez mais nova a chegar ao movimento, e a ter acesso a temas, e conversas, que pelo seu teor adulto não são para a sua idade. Falo de pessoas com menos de 16 anos, até com menos de 13 e 14. São putos que têm um computador, cujos pais se calhar nem sabem ligar ou desligar, que não têm o menor controle parental. Nasceram por cerca de 1995, ou depois, e chegam à cultura do movimento gótico muito mais cedo do que alguns de nós poderia imaginar no nosso tempo. Têm acesso aos conteúdos, e sabem mais do que nós sabíamos, mas não têm capacidade de compreender certas questões que até para os adultos permanecem um mistério. Digo que é urgente pensar nisto porque é um fenómeno novo mas imprevisível, e cabe aos mais velhos -- não aos putos que mal chegaram à adolescência, mas a nós, os que andam nisto há muito tempo e temos idadezinha para sermos responsáveis -- cabe a nós "guiar" estas crianças (porque são crianças) não digo para fora do movimento, porque obviamente eles já cá estão (pelo menos no mundo virtual, sem dúvida que estão) e não se vão embora porque os mandam, mas no sentido de preveni-los dos perigos que correm e a desviá-los subtil e veementemente do que não é para a sua idade. Eis um desafio novo e carregado de responsabilidade de que nós, os mais velhos, não nos podemos furtar, até porque somos os únicos que lá estão. Muito carinho para com estas pessoas! Podem muito bem nunca vir a ser góticos (sabe-se lá o que vão ser), mas se aos 12, 13, 14 anos já pensam nas sombras e na morte, algo de errado se passa com eles, e necessitam de toda a compreensão que, muito provavelmente, e para não fugir à tradição, não é em casa que encontram.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Lançamento da revista "Abismo Humano" n.3

Sábado 3 de Abril, Espaço Nimas, Lisboa



Desta vez, o lançamento da 3ª edição da revista Abismo Humano vai ser acompanhado do evento diversificado de se reproduzem os respectivos flyers.
Nas eloquentes palavras da associação:

Fraternos participantes da revista número 3,
No dia 03 de Abril faremos, no Espaço Nimas, Saldanha, um lançamento da revista número 3 em grande, para despedida antes de vir ai a 4.
O lugar leva 200 pessoas e até a televisão foi chamada. Apareçam. Quem não pode, passe a palavra. Esta é uma obra nossa. E serve para mostrar que existe de facto uma cultura entre nós, algo que nos une, uma voz singular com muitas cores e nuances. Existimos e não estamos assim tão dispersos, e muito menos é pouco aquilo que temos a dizer, sem precisar de o dizer em grito, sim com arte, seja desenho, pintura, filosofia, música, escultura, teatro ou literatura.

A apresentação do lançamento começa às 21 horas, com uma declamação/encenação de Ricardo Barbosa, um actor, a representar os contos "Túmulos" que podem encontrar na número 3 (autoria de Gotikraal), e som de fundo atmosférico da amiga Babalith. Nesse dia vai também estrear a exposição "Once Upon a Time in the XIX Century" de Ricardo dos Reis e, a seguir ao nosso lançamento gratuito, começa o espectáculo de Lobotomia Ilusória, "História do Mentalismo".

terça-feira, 23 de março de 2010

"Os Dez Mandamentos" (2006) mini-série



Nesta altura pré-pascal já é costume que as estações de televisão exibam filmes e séries de teor bíblico. Há pouco tempo assisti a uma mini-série intitulada "Os Dez Mandamentos" que relata vida de Moisés desde que é salvo pela princesa egípcia até à descida do Monte Sinai com as pedras da Lei. Devo confessar que o que me chamou mais à atenção, logo no genérico, foi o nome de Naveen Andrews, que conheço muito bem de outros "delírios". Naveen Andrews é o Sahid de "Lost". Aqui, interpreta o irmão adoptivo egípcio de Moisés, e é a ele que cabe uma das frases mais importantes, logo após a praga da morte dos primogénitos, e que de alguma forma estabelece a perspectiva pela qual é analisado todo enredo: "Que Deus cruel deve ser esse!". É o Deus vingativo do Velho Testamento, Yahvee, Senhor dos Exércitos, cujo anjo exterminador corre as ruas do Egipto e ceifa a vida de crianças e velhos, homens e animais. Moisés assemelha-se muitas vezes a Cristo, nos momentos de crise em que vê a sua vida individual sacrificada aos desígnios superiores do Divino e deseja que afastem dele essa "taça", em que deseja não ter sido ele "o Escolhido".
Desde o início, os hebreus combatem pelo seu direito de existir como povo livre... e matam. No fim, divididos quando ao Deus que devem seguir, hebreus chacinam-se uns aos outros, homens, mulheres, crianças. Matam-se uns aos outros por causa de Deus, esse Deus que não se vê.
É difícil assistir a esta mini-série e não ficar indisposto, e muito zangado com Deus e com a religião, seja ela qual for. Certamente não é o louvor edificante que estamos habituados a ver por esta altura. Mas já dizia o Mestre "conhece a verdade e a verdade libertar-te-à". Antes a verdade que as mentiras do costume.

sexta-feira, 19 de março de 2010

"O Conde de Monte Cristo", por Alexandre Dumas (pai)

"O Conde de Monte Cristo" é uma história que conheço desde infância, até porque uma das suas adaptações à televisão foi filmada em parte na minha rua, o que ainda me aguçou mais a curiosidade, mas a leitura da obra propriamente dita foi sendo constantemente adiada. Até ao dia, mais vale tarde do que nunca, em que saquei o livro do Projecto Gutenberg. É um tradução em inglês, e tão difícil de ler que só se pode concluir que o francês original é soberbo.
Por esta razão, as citações que porventura venha a fazer, supremo sacrilégio, serão em inglês.


A história é sobejamente conhecida mas vale a pena fazer um resumo. Edmond Dantes é um jovem promissor acabado de ser promovido a capitão do navio mercante Faraó, onde era, até então, imediato. Ao desembarcar em Marselha, onde mora com o velho pai, a sua primeira preocupação é visitá-lo, para contar as boas notícias, e de seguida vai procurar a jovem catalã Mercedes, com quem pretende casar nos próximos dias. Tudo corre bem para Edmond Dantes e o futuro parece sorridente.
Senão pela inveja e pelo ciúme, que congeminaram a sua desgraça. Danglars, o contabilista do navio, odeia o jovem capitão. Caderousse, o seu vizinho, rói-se de inveja do seu sucesso. Fernand Mondego, talvez o que mais razão tem para odiar Edmond, é primo de Mercedes e tem por ela uma paixão avassaladora. Uma vez que Mercedes não o corresponde, tudo faria para afastar o seu rival. São estes três que conspiram uma denúncia anónima, implicando Edmond Dantes numa conspiração bonapartista (da qual é inocente). Em sequência da acusação, no próprio dia do feliz casamento, Edmond Dantes é preso, e levado perante o procurador Villefort. Este condena-o, embora saiba que é inocente, pois a carta em poder Edmond coloca em risco o pai do próprio Villefort, bonapartista ferrenho numa altura em que Napoleão está no exílio.
Por este motivo, Villefort "junta-se" ao trio de conspiradores, e prende Edmond Dantes numa masmorra do terrível Castelo d'If, destinado a presos políticos, onde este permanecerá 14 anos, sem direito a julgamento nem sentença, e ignorante dos motivos que o condenaram.
É no cárcere que conhece outro prisioneiro político, o fascinante e erudito abade Faria, que lhe ensina tudo o que Dantes jamais aprendera, e lhe fala do enorme tesouro escondido dos Spada, de que conhece a localização na insuspeita ilha de Monte Cristo, e a ensina a Edmond. O abade Faria nunca verá o seu mirabolante tesouro, porque entretanto morre na prisão, e acaba por ser essa morte a libertação de Dantes, pois, numa fuga espectacular, e em completo desespero, toma o lugar do morto dentro da sua mortalha e assim é lançado ao mar.
Edmond Dantes encontra o fabuloso tesouro dos Spada e torna-se o Conde de Monte Cristo. Quando regressa a Marselha, apercebe-se de que o seu pobre pai morreu de fome. A sua noiva, Mercedes, depois de anos à sua espera, tinha acabado por ceder à vontade do primo e com ele se casou, sendo agora a Condessa de Morcef. Danglars é barão e um rico banqueiro. Villefort foi promovido na sua carreira até se tornar procurador do Rei. De Edmond Dantes, o infeliz e inocente prisioneiro, já ninguém se lembra. A partir daí, ninguém escapará da sua implacável e maquiavélica vingança. Danglars, Caderousse, Fernand, e Villefort, todos terão o que merecem.
Esta é, sem dúvida, uma das histórias mais cativantes e poderosas de todos os tempos, e tão relevante que ainda hoje serve de inspiração, não fosse o seu tema tão universal e primitivo como a vingança. [Por exemplo, em "Prision Break", num dos episódios em que Michael Scofield se encontra na prisão sul-americana de Sona, este contempla a hipótese da evasão segundo o "método Dantes": fazer-se passar por morto. Mas os guardas, conhecendo ou não a obra de Dumas, certificam-se de dar uns tiros aos cadáveres antes de estes saírem da prisão. Scofield abandona o plano, mas a sombra de Dantes permanece.]

Comentarei as partes que achei mais curiosas nesta obra impregnada do Romantismo da época em que foi escrita. Para começar, esse mesmo Romantismo, tão agradável mas ao mesmo tempo tão irrealista, prova-nos que o leitor do século XX (e muito mais o do século XXI), já não se satisfaz sem uma análise psicológica das personagens. E depois há aqueles maneirismos que na altura eram altamente vanguardistas mas que hoje me fazem ranger os dentes. Diz o narrador, assim no meio da narrativa: "Deixemos Madame Fulana de Tal entregue ao seu boudoir e penetremos na sala de Monsieur de Sicrano, já antes apresentada ao leitor..." Ora, talvez seja de uma cultura demasiadamente formatada pela linguagem cinematográfica, mas a verdade é que para o leitor se acaba ali toda a ilusão em que tão confortavelmente estava instalado. Ou, como se diria noutras andanças, "I want to believe". Não quero narradores a lembrarem-me que estou a ler um livro. Para a realidade tenho o telejornal, obrigada.
Compreende-se, portanto, sob um prisma totalmente novo, este vanguardismo Romântico, a cruzar-se com uma certa linguagem teatral: não tinham telejornal a estragar tudo.
Como eram ingénuos esses tempos, em que Dumas afirma que a carruagem de Monte Cristo atinge a velocidade de "um estonteante meteoro"! Seria quanto, 20, 30km/hora? Era puxada por chitas? Nem por isso, apenas quatro cavalos. Isto de fazer metáforas com a tecnologia, principalmente nos tempos que correm, pode sair muito perigoso.
Mas este era o século XIX, e Dumas não fugiu ao seu século, nem o leitor deste clássico tal deve esperar. Não é o estilo, mas a obra, o que se tornou imortal. Estava lá, em Edmond Dantes, o que se revisita em "A Fuga de Alcatraz" e "Prison Break", e tudo o resto o que há-de vir.
Passarei, pois, às surpresas e reflexões que me inspiraram a sua leitura.

A história de Rita e Carlini
Antes ainda de comentar a história de Edmond Dantes propriamente dita, não consigo evitar referir esta "história dentro da história", que por lá aparece de modo algo surreal. Aqui, Dumas foi verdadeiramente genial, porque até o leitor moderno se questiona se a história de Rita e Carlini, que o mordomo de hotel conta a Albert de Morcef e Franz D'Epinay para os convencer da existência dos bandidos de Roma, é de facto "real", ou duplamente ficcional: uma ficção inventada pelo próprio Monte Cristo para melhor exercer a sua terrível vingança. Nunca se chega a descobrir. O que é inegável é que Dumas a queria contar, a esta pequena história, e o fez de modo bastante habilidoso.
Nem de propósito, ainda há bem pouco tempo comentava com alguém que a violação, como tema, não era coisa de que o Romantismo gostasse, e que a donzela nunca chegava a ser violada porque entretanto o herói aparecia para a salvar. Esqueci-me da história de Rita e Carlini. Rita era namorada do bandido Carlini, mas por azares desastrosos foi parar às garras do chefe deste, Cucumetto, que a raptou, violou, pediu ao pai dela resgate pela sua vida, e se preparava para a entregar, às sortes, ao resto do bando. O facto de Carlini ser um deles não bastou para intervir de outra forma. (Não há honra entre ladrões.) Carlini, vendo-se impotente para impedir os acontecimentos, aproveita o fato de a rapariga ter desmaiado para a matar. E, assim, a "salva". Ou, pelo menos, não conseguindo salvar a sua honra, consegue impedir que a desonrem mais. Quando chega o pai de Rita com o resgate, e encontra morta a sua filha, junto do homem que a chorava, e que a matara, justifica Carlini: "Cucumetto violou a vossa filha. Eu amava-a, e por isso a matei, para não servir de diversão ao bando inteiro. Agora, se fiz mal, vingai-a." E Carlini oferece ao velho pai o próprio punhal com que tinha morto a sua filha. O que é que este faz? Diz-lhe que fez bem, e ajuda-o a enterrar o corpo. De seguida, para isto tudo não parecer demasiado grotesco, o pai enforca-se numa árvore junto à sepultura da filha.
De alguma forma, eu acabo por ter razão. O Romantismo não sabe abordar o tema. Isso são contas para rosários do realismo do século XX, e se calhar só depois da chamada "libertação feminina". Repare-se que enquanto tudo isto acontecia, a vítima está desmaiada. Não tem vontade nem sequer uma palavra a dizer. É apenas uma criatura passiva, entregue aos desígnios dos homens que a protegem: o pai e o futuro marido. São eles que decidem, é a eles que parece importar a violação. A vítima é segunda vez violentada, nesta perfeita anulação do seu "ser".
Infelizmente, não é caso único nesta obra, espelho da mentalidade da época, e tratarei disso mais à frente.


In Vino Veritas
Algo para pensar:
"Drunk, if you like; so much the worse for those who fear wine, for it is because they have bad thoughts which they are afraid the liquor will extract from their hearts;" and Caderousse began to sing the two last lines of a song very popular at the time,--
'Tous les mechants sont beuveurs d'eau; C'est bien prouve par le deluge.' [*]

* "The wicked are great drinkers of water
As the flood proved once for all."

Os iníquos são grandes bebedores de água
Como o Dilúvio provou de uma vez por todas


Number 34 and Number 27
«A new governor arrived; it would have been too tedious to acquire the names of the prisoners; he learned their numbers instead. This horrible place contained fifty cells; their inhabitants were designated by the numbers of their cell, and the unhappy young man was no longer called Edmond Dantes--he was now number 34.»

Confesso não saber se Dumas foi o primeiro escritor a mencionar numa obra o horror da despersonalização do indivíduo e a sua transformação em mero número - mais tarde tão cara aos escritores de ficção científica do século XX, senão mesmo ainda mais cara aos inventores dos campos de concentração, que nada tinham de ficcional - mas não deixa de ser curioso encontrar aqui, já no Romantismo do século XIX, esta preocupação tão moderna.


É preciso ter sorte
Nas primeiras páginas de "O Conde de Monte Cristo" encontrei algumas das cenas mais comoventes que já li, mas esta em particular deu-me que pensar:

«"In two or three hours," thought Dantes, "the turnkey will enter my chamber, find the body of my poor friend, recognize it, seek for me in vain, and give the alarm. Then the tunnel will be discovered; the men who cast me into the sea and who must have heard the cry I uttered, will be questioned. Then boats filled with armed soldiers will pursue the wretched fugitive. The cannon will warn every one to refuse shelter to a man wandering about naked and famished. The police of Marseilles will be on the alert by land, whilst the governor pursues me by sea. I am cold, I am hungry. I have lost even the knife that saved me. O my God, I have suffered enough surely! Have pity on me, and do for me what I am unable to do for myself."»

Edmond Dantes tinha acabado de fugir de forma espectacular do seu cárcere, encontrava-se agora numa ilha deserta onde chegara a nado sob grande esforço, mas estava enfraquecido pela fome, e o seu aspecto de fugitivo seria suficiente para atrair sobre si fatais atenções. Nesse momento, volta-se para o Céu: "Ò meu Deus, eu já sofri certamente o suficiente. Tem pena de mim, e faz por mim o que não sou capaz de fazer por mim próprio." Dantes avista então no mar uma embarcação de contrabandistas que acaba por lhe fornecer um meio de escapar.
Esta singela ficção recordou-me de um facto que interessa muito a muita gente fazer por esquecer. O engenho não basta. Às vezes, é preciso mesmo ter sorte. Como Dantes, que avistou um barco.


Edmond Dantes apresentado como vampiro
Devo dizer que não esperava de todo esta descrição do Conde de Monte Cristo por Alexandre Dumas em que o autor, pelas palavras de uma personagem, o assemelha a um vampiro, nomeadamente Lord Ruthven, muito provavelmente o primeiro vampiro "romântico" precursor do mito do sedutor anti-herói bebedor de sangue como o conhecemos agora, por exemplo, através de Anne Rice. Ora vejam:

«"All I can say is," continued the countess, taking up the lorgnette, and directing it toward the box in question, "that the gentleman, whose history I am unable to furnish, seems to me as though he had just been dug up; he looks more like a corpse permitted by some friendly grave-digger to quit his tomb for a while, and revisit this earth of ours, than anything human. How ghastly pale he is!"
"Oh, he is always as colorless as you now see him," said Franz.
"Then you know him?" almost screamed the countess. "Oh, pray do, for heaven's sake, tell us all about--is he a vampire, or a resuscitated corpse, or what?"
"I fancy I have seen him before; and I even think he recognizes me."
"And I can well understand," said the countess, shrugging up her beautiful shoulders, as though an involuntary shudder passed through her veins, "that those who have once seen that man will never be likely to forget him." The sensation experienced by Franz was evidently not peculiar to himself; another, and wholly uninterested person, felt the same unaccountable awe and misgiving. "Well." inquired Franz, after the countess had a second time directed her lorgnette at the box, "what do you think of our opposite neighbor?"
"Why, that he is no other than Lord Ruthven himself in a living form."
This fresh allusion to Byron [*] drew a smile to Franz's countenance; although he could but allow that if anything was likely to induce belief in the existence of vampires, it would be the presence of such a man as the mysterious personage before him.
"I must positively find out who and what he is," said Franz, rising from his seat.
"No, no," cried the countess; "you must not leave me. I depend upon you to escort me home. Oh, indeed, I cannot permit you to go."
"Is it possible," whispered Franz, "that you entertain any fear?"
"I'll tell you," answered the countess. "Byron had the most perfect belief in the existence of vampires, and even assured me that he had seen them. The description he gave me perfectly corresponds with the features and character of the man before us. Oh, he is the exact personification of what I have been led to expect! The coal-black hair, large bright, glittering eyes, in which a wild, unearthly fire seems burning,--the same ghastly paleness. Then observe, too, that the woman with him is altogether unlike all others of her sex. She is a foreigner--a stranger. Nobody knows who she is, or where she comes from. No doubt she belongs to the same horrible race he does, and is, like himself, a dealer in magical arts."

Dumas, contudo, incorreu no erro da época de atribuir Lord Ruthven, isto é, a história "The Vampyre" (de que aqui já se falou), a Lord Byron, quando esta se veio a revelar de facto obra do amigo deste último, John Polidori, confusão que muita tinta fez correr nos meios literários.
Não deixa, no entanto, de ser curioso notar este facto, como a ficção se pode graciosamente cruzar de forma tão bem conseguida.


Valentine
Valentine é a típica heroína romântica: loira, pálida, inocente, apaixonadíssima pelo seu amado, obediente à família, pronta a tornar-se mais uma fada do lar, um anjinho para ser adorado, não uma mulher a sério e muito menos para levar a sério. É mais um exemplo de um "não-ser" em que um certo Romantismo era tão pródigo. Tal como todas as heroínas românticas, a esta não falta também a pincelada doentia (a bem da verdade, não estaria doente se a madrasta não lhe desse veneno todos os dias ao pequeno almoço). Quase morre, mas não morre, finge-se que morre, nem a sua morte é real. O que não é de estranhar, porque nenhuma Valentine é real. Nem nenhuma Valentine, nem nenhuma Rita, e certamente nenhuma Mercedes. A Mercedes, deixo-a para o fim.


Eugenie

«"Have you noticed the remarkable beauty of the young woman, M. Lucien?" inquired Eugenie.
"I really never met with one woman so ready to do justice to the charms of another as yourself," responded Lucien, raising his lorgnette to his eye. "A most lovely creature, upon my soul!" was his verdict.»

Depois de tudo isto, ninguém vai acreditar no que vou dizer a seguir, mas lede por vós mesmos. Ao contrário de tudo o que se podia esperar, Alexandre Dumas apresenta-nos uma lésbica! Uma lésbica, se bem que disfarçada, reconhecível apenas para os conhecedores (e especialmente "conhecedoras"), que contraria todas as outras personagens femininas.
A Eugenie, filha do barão Danglars, e grande "amiga" da sua jovem professora de música, Monte Cristo envolve no seu esquema preparando-lhe um casamento escandaloso com o seu meio-irmão. Mas sosseguem, o casamento nunca foi planeado para se concretizar de facto; era apenas um meio para atingir um fim. (Incesto é mais coisa do nosso Eça de Queirós.) Na verdade, Monte Cristo torna-se um protector de Eugenie e ajuda-a a realizar os seus maiores sonhos: fugir com a amiga e tornar-se uma artista.
Repare-se com que subtileza Dumas aborda o tema, tão explícito para nós, leitores modernos, e no entanto tão opaco (ou não?...) para os espíritos da época, nesta conversa entre Maximilian e Valentine. Diz ele:

"Ah, how good you are to say so, Valentine! You possess a quality which can never belong to Mademoiselle Danglars. It is that indefinable charm which is to a woman what perfume is to the flower and flavor to the fruit, for the beauty of either is not the only quality we seek."

Ao negar a Eugenie "o charme indefinível da mulher", Maximilian retira-lhe, assim, a feminilidade, e faz-nos questionar quais são as ideias de Dumas acerca da sua própria personagem.
E acrescenta Maximilian:

"No, Valentine, I assure you such is not the case. I was observing you both when you were walking in the garden, and, on my honor, without at all wishing to depreciate the beauty of Mademoiselle Danglars, I cannot understand how any man can really love her."

Nenhum homem a pode amar, diria Alexandre Dumas se pudesse exprimir o que pensava na altura, porque vê, nesta mulher, um homem. Interessante e curiosa análise do subconsciente da época.

«"She told me that she loved no one," said Valentine; "that she disliked the idea of being married; that she would infinitely prefer leading an independent and unfettered life; and that she almost wished her father might lose his fortune, that she might become an artist, like her friend, Mademoiselle Louise d'Armilly."
"Ah, you see"--
"Well, what does that prove?" asked Valentine.
"Nothing," replied Maximilian.
"Then why did you smile?"»

Maximilian sorri (mas não comenta com a inocente e pura e ingénua Valentine) porque se confirmam as suas suspeitas que Eugenie e Louise não são "apenas" amigas. Alexandre Dumas diz-nos isto neste sorriso de Maximilian, e depressa muda de assunto, para voltar a pôr os pombinhos a confessar mutuamente o seu amor conforme as normas morais da altura.
Mais tarde, quando Eugenie e Louise são apanhadas a meio da fuga, dormindo no mesmo quarto, na mesma cama, onde são surpreendidas pelo noivo da primeira, que se tornara também um fugitivo à justiça, é-nos dito que saem da estalagem envergonhadas sob os olhares de uma multidão. O que não se explica, jamais, é porque estão envergonhadas. A razão plausível para tal é que o noivo de Eugenie, um suposto príncipe italiano, não passa de um reles criminoso. Nada é revelado se a multidão também sabe que dormiam ambas na mesma cama. Tenho para mim que era por isso que as olhavam, mas Alexandre Dumas é inteligente e não o diz claramente. Afinal, não se quer chocar as Valentines desse tempo, que perante o escândalo não tocariam sequer no livro. Cabe aos Maximilians da época o sorriso esclarecido... e silencioso.


Mercedes
Mercedes, deixei-a para o fim porque nunca compreendi, e ainda hoje não compreendo, o que raio se passou naquele final. Mercedes não faz sentido. Julguei que ler o livro me esclareceria, mas fiquei na mesma.
Mercedes é descrita como uma mulher forte, corajosa e orgulhosa. Nada faz adivinhar que seja uma das tais criaturas passivas descritas acima, mais um "não-ser" igual às outras. E no entanto, quando Mercedes reconhece Edmond Dantes, o grande amor da sua vida, a quem julgava morto, na figura de Monte Cristo, porque é ela a única a reconhecê-lo de imediato, pela voz, é-nos dito, finge que de nada se apercebe.
Ora, estamos a falar de uma mulher tesa, espanhola, ainda por cima!, que acaba por casar com um homem que não ama porque foi também vítima da conspiração que destruiu o seu noivo, e de repente vê-o aparecer, ao fim de vinte anos, podre de rico, rodeado de todos os luxos, e ainda por cima acompanhado por uma rapariga com idade para ser sua filha, e não lhe faz uma cena?! Eu, que não sou espanhola, fazia-lhe uma peixeirada de que Edmond Dantes jamais se esqueceria: "Mas por onde andaste, desgraçado, que me abandonaste quase no altar?!" E se descobrisse todo o enredo, então, partia um vaso na cabeça do primo/marido, e de seguida enfeitava-lha com uma bela armação! Nem era preciso andarem Fernand e Edmond a desafiarem-se para duelos. Mercedes, se fosse mulher, tratava da saúde aos dois! E ainda por cima espanhola!
Em vez disto, que faz Mercedes? Resigna-se. Renuncia. Anula-se.
Na sua última conversa com Edmond, este ainda lhe pergunta se deseja algo dele. E o que responde? Que está velha. Que tem cabelos brancos. Que lhe pesam os anos. Claro que lhe pesam os anos. Uma mulher não pode esperar 14 anos que o homem que ama arranje maneira de fugir da prisão. Uma mulher, por imperativos biológicos, tem que se despachar. Porque é mesmo assim, não há volta a dar-lhe. Mas uma mulher não deixa de ser mulher, muito menos na presença de um amor tão mal resolvido. E era tão fácil para Dumas resolver isto de outra maneira. Bastava-lhe pôr Mercedes a dizer: "O tempo passou, e eu mudei, e se te amava dantes, agora já não te amo." Je ne t'aime plus. Isto sim, era o que uma mulher diria. Se fosse o caso. Não parece que fosse o caso, e Dumas não soube resolver.
Dumas é um autor viril, e curioso, e intelectual, mas as mulheres são para ele um mistério. Tenta adivinhá-las, e falha. Dá-lhes voz, mas não falam. E quando falam, dizem disparates, como Haideé (a suposta escrava de Monte Cristo) que lhe declara o seu amor afirmando que o ama como a "um marido, um irmão, um pai". Como se tal coisa fosse possível.
Frued, ò divino, que falta fazias tu à literatura!