sexta-feira, 7 de março de 2008

Gótico: o que dizem de nós

Há muitos anos que leio a revista "Boa Estrela" por manter uma abordagem informativa mas essencial aos variados temas do sobrenatural e do oculto, abrindo assim a porta para o leitor interessado investigar à posteriori se assim o entender.
Em Maio de 2007, a edição da "Boa Estrela" trazia quatro páginas dedicadas à cultura gótica. Até aqui nada de mais. Também podiam falar da Guarda Republicana ou do lince da Malcata se o fizessem bem. Aliás, uma vez a "Boa Estrela" fê-lo como deve ser e eu até elogiei aqui. Na altura não tinha scanner mas suspeito que ainda guardo algures o artigo, em papel. (Se houver interesse também posso ir buscá-lo, mesmo desafiando o terrível exército de ácaros que o vigiam ferozmente.)
Em Maio do ano passado, contudo, a revista "Boa Estrela" produziu uma das maiores bostas já escritas sobre os góticos e a sua sub-cultura, não só copiando em estilo e prosa sites brasileiros encontrados por essa internet fora, como também, dentro do próprio artigo, o que é jornalisticamente gravíssimo, contradizendo numa caixa o que é dito na outra, o que só me leva a pensar que o/a editor/a estava a dormir e a precisar de encher chouriços.
Mas o pior, mesmo o pior!, que me faz voltar a isto tanto tempo depois porque só agora tive disponibilidade e paciência, é que apresenta uma imagem distorcida e chocante do movimento gótico. Imagino uma pessoa normal a ler estes disparates: um pai, uma mãe, alguém que nunca conheceu um gótico, e a ideia repulsiva que tira do artigo de que os góticos são uma seita religiosa de hábitos ritualísticos de pôr os cabelos em pé, como beber sangue e passear pelos cemitérios à noite.
É por isso que este artigo vai ser devidamente zurzido, como merece toda e qualquer peça que se apresente como jornalística e fale do que desconhece. Lamento que a qualidade da revista "Boa Estrela" tenha ido pela escada abaixo a rebolar nos últimos anos, nomeadamente começando artigos como: "Os centauros eram animais que viviam na Grécia Antiga" (e outras pérolas do género). Que os centauros não se manifestem é lá com eles, mas quem não se sente não é filho de boa gente.
Vamos então, primeiro, à parte séria, e passemos depois ao gozo, que no fim até se arranca daqui umas gargalhadas.

Favor ver as páginas scanadas em baixo, na íntegra. (Só foi retirada publicidade a uma vidente cá do sítio que será reposta assim que a senhora nos pagar o anúncio.)
O artigo começa mal do princípio, colocado como está na secção "CRENÇAS E RELIGIÕES".
E diz mesmo, logo a abrir: "A religião gótica constitui uma outra cultura, estilo e maneira de pensar." Religião quê?!... E continua mais à frente: "Os góticos normalmente têm discussões espirituosas sobre a evolução da religião e o seu lugar na sociedade moderna. Ser gótico é, afinal, uma outra forma de tribalismo (...) Como a maioria dos grupos religiosos, os góticos tentam sempre manter de fora quem não adere à sua forma de estar na vida."

Para descansar pais, avós, tios e até góticos confusos:

O MOVIMENTO GÓTICO NÃO É UMA RELIGIÃO!

Definição de religão, para quem não sabe, como se pode ler no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora:

religião, s.f. culto prestado à divindade; conjunto de preceitos e práticas pelas quais se comunica com um ser ou seres superiores; doutrina ou crença religiosa; reverência ou respeito às coisas sagradas; temor de Deus;...

Cultura gótica, sim. Religião gótica, nunca. Religião implica a existência de um deus, ou deuses, e, que eu saiba, a única coisa que todos os góticos adoram é a música. Góticos e outros melómanos como os malucos do jazz ou os eruditos da música clássica.
A sub-cultura gótica é tão tribalista como qualquer outra sub-cultura urbana.
E não, os góticos não andam por aí a cortar o pescoço a "quem não adere à sua forma de estar na vida". Era só o que faltava, além de religiosos também sermos fundamentalistas.

Agora que está feito o ponto sério, passemos ao gozo.

Cortar o pescoço só se for à besta que escreveu esta merda. Pelo contrário, em vez de esconder o movimento gótico em desígnios obscuros, faço questão de comentar e explicar melhor a pais, mães, tios e alguns góticozinhos muito (mas muito!) confusos, que escrevem estes tremendos disparates nos seus sites de língua portuguesa duvidosa, o que se passa nos bastidores dos nossos eventos tenebrosos (onde muitas vezes se sacrificam crianças no altar dos copos mas são elas que fazem questão de sair de lá em coma alcoólico). Analisemos, pois, os disparates ao pormenor, que vale bem a pena.

Os chamados Góticos têm tendência para um senso de humor considerado «perverso e negro»

Quem escreveu o artigo não conhece a blogosfera. Provavelmente nunca viu o Herman nem o Gato Fedorento. Tenho pena. Deve ter sido uma vida bem triste.

Tentar classificar os góticos num "tipo de pessoas" seria impossível.

Até porque somos uma cambada de animais, essa é que é essa.

Às vezes as roupas podem ser uma dica, mas nem sempre isso acontece.

Pois não. É preciso procurar-lhes, no couro cabeludo, o sinal da besta: 666.

A cultura gótica envolve frequentemente a cena musical

Ora aqui está o momento de verdade no artigo. De facto, envolve "frequentemente" a cena musical, mas muito boa gente só lá anda por causa da roupa.

Mas a música não é a única arte dos góticos.

Não. A tribo também sabe fazer potes de barro, colares de conchinhas e outros tipos rudimentares de artesanato.

Também existe uma grande parte desta cultura que é rica e pensadora. Os góticos lêem muito Dante, Byron, e Tolstoi - não porque eles "devem" ler, mas porque QUEREM ler.

Fantástico! Ler, nos dias que correm! Estes góticos devem ser mesmo apanhados da cabeça. Ora aqui fica o bom conselho para o autor do artigo: ler mais e escrever menos.

Também costumam assistir a filmes mudos de expressionistas alemães.

Eu é mais David Lynch, com som e a cores, mas não se pode ter tudo.

Atentem agora nesta maravilha da contradição:
No entanto, os góticos não são muito diferentes das outras pessoas, simplesmente apreciam e valorizam coisas que a maioria das pessoas acha questionáveis, desprezíveis ou até complicadas.

Exacto, tal como a maioria das pessoas, bebemos sangue, passeamos nos cemitérios ao luar e comemos cocó.

Não são obcecados pela morte e por matar.

Claro que não queremos matar ninguém (excepto o autor deste artigo).

Nem todos usam drogas.

Anedota do século.

Nem todos os góticos do sexo masculino são gays.
Nem todas as góticas do sexo feminino são lésbicas.


Está bem visto. De outro modo, como é que fazíamos góticozinhos?

Os góticos têm empregos, frequentam a escola, pagam impostos, criam famílias, possuem carros e casas, e são tão produtivos como qualquer outra pessoa, se não forem mais, em alguns casos.

Somos nós, os surdos mudos, os deficientes motores e os portadores de deficiência mental. E tudo sem subsídios do Estado! É obra!

Todos têm tendência a algum tipo de arte, mas nem todos são músicos, pintores pretenciosos ou artistas que inventam histórias assustadoras (...)

Pois não. Alguns têm blogs só de propósito para cascar na merda que se escreve por aí sobre os góticos.

Não estão interessados em aterrorizar pessoas, roubar dinheiro, corromper crianças (...)

Fala por ti. Eu corrompi um grupo de crianças que aterrorizam pessoas e lhes roubam a carteira para me dar o guito.

Aliás, existem góticos pagãos, cristãos, e outros ainda que não acreditam em nada.

Mau Maria! Então e a religião gótica de que fala este mesmo artigo? Foi com os porcos assim de repente?

Perguntar a um gótico porque usa uma cruz é o mesmo que perguntar a uma senhora religiosa, católica, ao sair da missa, porque usa uma cruz, se bem que a resposta do gótico possa ser bem mais interessante e convincente...

Sim. Na volta, o gótico até é o padre.

De facto, a cultura gótica nada tem a ver com o andar vestido de preto e ouvir música depressiva.

Apoiado. Tem tudo a ver com desfilar no Gay Pride e ouvir "In The Navy". Um bocadinho de Emanuel também vem sempre a calhar.

Os góticos são um grupo pacífico. Apesar do aspecto (...)

O pior não é o aspecto. O pior é o cheiro.

E depois vem este subtítulo espantoso:
A origem remota e o gosto pelo silêncio

O termo surgiu há muito tempo, com os Godos (...) Correcto. Pelo menos deste uma para a caixa, se bem que duvido que saibas como de Godo (Goth) se chegou ao Gótico medieval, e deste ao Gótico romântico, e muito menos o que disse o manager dos Joy Division. Mas silêncio?!... Pázinho, tás mesmo a precisar de levar com uma festa gótica nos cornos. Até tripas com o silêncio.

Diz-se que os góticos gostam da noite, da vida e também da morte, da literatura, da arte, da solidão, do ocultismo, do amor.

O amor é tão bonito! Também gostamos de passarinhos e abelhinhas. Esqueceu-se de acrescentar isso à lista.

Muitas pessoas, erroneamente, vêem os góticos como vampiros (...) Mas principalmente porque grande parte dos góticos ter fama de frequentar cemitérios, mesmo durante a noite (...) Nos cemitérios encontra-se paz. É um local tranquilo, onde podem escrever-se poemas, sem barulho, ou sem medo de ser assaltado.

Assaltado não sei, mas os zombies são um grave problema de criminalidade violenta. Isso, os vampiros, os lobisomens, e os inspectores da ASAE.

Não basta vestir uma roupa preta e afirmar-se como gótico (...) não é possível entender o gótico sem conhecimentos sobre História, Literatura, Cinema, Sociologia, Música, etc.

Eu gosto é do "etc". Parece uma redacção da quarta classe.
A parte triste é que ainda há bem pouco tempo assisti a uma discussão do género num fórum aqui do sítio. Quase me atrevo a sugerir uma petição online para abrir o curso de Estudos Góticos Superiores ou, para quem prefere as novas oportunidades, uma formação em Gótico Prático com equivalência ao 12º ano. Assim, finalmente, podíamos ter professores certificados e devidamente avaliados por góticos com menos anos de carreira de modo a assegurar a transmissão da Sabedoria às novas gerações que são o futuro do país.

São seres sociáveis

Sociáveis que nem tubarões.

que escolhem os seus amigos pelo que eles são e não por aquilo que eles possuem

Santa ingenuidade! Tanto lirismo até dá dó!

recebem bem todos os que se aproximam (...)

Com um desprezo extremamente carinhoso.

Se sofre de problemas com o seu grupo de referência, conheça uma tribo gótica e faça uma comparação. Não fique surpeendida/o se for muito bem recebida/o

Ou ignorada/o.
Mas afinal nós somos o quê, os Alcoólicos Anónimos, as irmãzinhas da caridade, o Exército de Salvação?

Os góticos não moram nos túmulos dos cemitérios ou nos porões das Igrejas da Cidade

Mas com a crise que aqui vai não faltará muito...

Não precisa ser iniciado num ritual de magia negra, transformar-se em vampiro ou beber sangue de animais para fazer amizade com estes religiosos.

Contudo, comer cocó é imprescindível.

E termino com a melhor de todas, o verdadeiro testemunho revelador do obscurantismo de quem escreveu esta merda:
Não veneram Satanás nem cultivam o mal, mas não se engane, não é uma boa política ter inimigos góticos. Especialmente se comprares um vestido igual, filha, tás feita ao bife. Há quem diga que conhecem segredos de magia e que, quando a pessoa menos espera, pode acabar por se sentir mal e nem sequer sabe porquê.

Isso aconteceu uma vez comigo. A criatura não sabe porquê porque estava de costas quando levou a martelada na cabeça.

Não acreditam na violência

Só na magia negra.

e detestam os ignorantes e idiotas que vivem a destruir o património público.

E a escrever artigos de merda sobre os góticos.







quarta-feira, 5 de março de 2008

Musas



Para quê voltar atrás e organizar os velhos posts, os pensamentos, os irrepetíveis estados de alma? Não sei. Mas não é só para mim. Continuo a ter esta sensação de que um dia vai ser preciso contar a história a alguém que se interesse. Cheguei a pensar que seria a um amante. Mais tarde, percebi que estas coisas se passam a um filho. Actualmente estou convencida que todo este trabalho só vai servir para integrar o meu processo quando chegar a altura de apresentar a defesa da minha Alma perante Deus. "Só" é maneira de dizer. Nada como ter os dossiers organizados na audiência do Juízo Final. Deus perdoará a minha falta de confiança nos registos Divinos no momento em que souber que venho de Portugal... Estou mesmo desconfiada de que me valerá amnistia imediata.

Este blog, que releio sem desejar, não era assim no princípio. Fico pasmada como um pacto com a morte podia ser mais leve, bem humorado, até amigável. E depois houve um dia, algures em 2005, em que percebi que nunca mais iria sorrir. Nunca.Mais.Na.Vida. E nunca mais sorri. Riso há, que o riso é fácil. Mas a porta que se fechou fez estrondo e deixou um eco amargo. Menos intimista? Não diria isso. Nem o intimismo alguma vez me interessou, diga-se de verdade.
Foi algo de muito pior que se passou aqui, entre mim e quem abre a boca para comentar. Uma falta de confiança. Um horror pela estupidez de quem a manifestou. Uma espécie de lepra que me mete nojo e não tenho a mínima vontade de curar. A mesma indiferença com que encosto a cabeça à carruagem do metro e tento dormir. O absoluto desprezo pelo que os outros possam pensar. O estar sozinha no meio da multidão e o não esconder que me estou borrifando para a presença do outro.
E isto é bom. Foi isto que perdi e ganhei de volta. O que perdi sozinha, o que reconquistei sozinha.
Há quem não me perdoe por isso. Para esses, a maioria, a certeza absoluta de que também não perdoarei. Porque outra razão estimaria tanto os meus dossiers? Não me apanham de calças na mão.

E depois, no meio deste relacionamento perverso entre mim e o blogue, que afinal não interessa nada, cai-me o queixo quando leio coisas tão boas que me chego a perguntar, caramba, fui eu que escrevi isto?! É por isso que acredito em musas que segredam ao ouvido dos escolhidos, ou dos fracos de espírito, ou dos loucos, e nos ditam as palavras que acabam assim:

De como eu acabei a viver em Portugal:

O meu OC, que era preto, ou tinha sido preto e mantinha a cor, porque como se sabe os anjos no céu não se casam nem são dados em casamento e também não têm cor nem sexo, mas até que lhe ficava bem com a túnica de cetim e as plumas das asas brancas (dava ares de Pai de Santo sem turbante), começava a ficar preocupado com a minha esquisitice e quase disposto a dar-me também umas asinhas e a promover-me a um cargo vitalício no funcionalismo público espiritual sem direito a férias pagas no estrangeiro.
(...)
Foi então que os olhos do meu OC se arregalaram. "Talvez não. Se é só isto que desejas da grande civilização europeia, há alternativa. Bem, uma alternativa-zinha. Há um país-inho medíocre, entre o Atlântico e o Mediterrâneo, que agora vive em ditadura mas isso vai acabar assim que tu chegares, e é, enfim, um país-inho, bonitinho, simpático, sem o sangue na guelra dos espanhóis, sem a máfia organizada dos italianos, sem a língua lixada dos gregos..."
"E que país é esse que nunca ouvi falar dele?"
"Chama-se Portugal... Portugal-zinho."


Os alhos e as cebolas e a invencível armada:

Assim que se apanharam com uma certificação profissional, os formandos foram contratados pelas armadas estrangeiras. E isto por várias razões. A primeira é que quando os portugueses são bons são mesmo muito bons. A segunda e determinante, porém, foi que tinham possibilidades de progredir numa carreira a sério, ao contrário dos teatrinhos de faz de conta da armada que teimava em não sair do porto. Por esta altura, a armada tomou a alcunha de “Armada Invencível”, não por ser muito boa mas por ser inamovível.
(...)
Entretanto, alguns espertalhões que viram ali a oportunidade, toca de abrir universidades privadas e cursos em universidades públicas para dar resposta às necessidades do mercado de trabalho, cursos esses de dois calibres. Um, de tendência mais profissional, “Curso de Alhos e Cebolas”, para explicar apenas e tão só o sistema de navegação nacional e mais umas cadeiras de Matemática Aplicada pelo meio. Outros, mais honestos, “Curso de Bombordo e Estibordo”, que incluía a cadeira “Alhos e Cebolas” para explcar a relação entre o bombordo e o estibordo e o sistema de navegação nacional e aproveitando à mistura para meter umas cadeiras de Relações Internacionais que havia muitos doutorados no desemprego.
(...)
A primeira coisa que o formador fez, porque era um chico esperto que também não sabia o que eram os alhos e as cebolas, foi abrir os sacos porque, pensou ele, bastava abrir os sacos para saber onde estava o quê! Esperto! Só que não resultou. Tinham-se passado tantos anos que quando o inteligente abriu os sacos só lá estava pó. Mas chico esperto como era, que nisto os portugueses são de facto imbatíveis, toca de arranjar uma solução provisória que era escrever num papel “alhos” e noutro papel “cebolas” para substituir os sacos e chamou ao procedimento “adaptação às novas realidades do mundo tecnológico da autoestrada da informação”.
Houve logo um formando (que podia ser eu) que simplesmente perguntou “mas se alhos e cebolas estão a substituir bombordo e estibordo e se se vai escrever num papel, porque não se escreve logo bombordo e estibordo e se esquece os alhos e as cebolas?”. Ideia genial. Erro fatal.


Eu não escrevi isto. São as malandras das Musas. Que as Musas nunca deixem de brincar comigo, é só o que peço.

The Creatures "Anima Animus" (1999)



Esta deve ser a crítica mais atrasada de sempre. Mas é apanágio das senhoras chegarem atrasadas. E podia ser pior, podia dar-me na bolha fazer uma crítica aos Doors. A beleza disto é que como a maior parte das pessoas já ouviram pelo menos os grandes êxitos do disco, "Exterminating Angel" e "2nd Floor", que se confundem com a sonoridade típica e inconfundível de Siouxsie & The Banshees, só me resta falar do resto do álbum como um todo. Álbum esse que só descobri hoje e ainda não consegui parar de ouvir, por isso a crítica destina-se curiosamente às pessoas mais velhas que não sabem que há vida em Siouxsie depois dos Banshees. Diria mesmo mais, contra os fundamentalistas, há mais vida em Siouxsie depois dos Banshees do que em muito do material inicial, mais punk do que outra coisa, mas obviamente isto é apenas a expressão de um gosto pessoal.
Então cá vai a crítica:

Que coisa tão boa!!!

Pronto. Era só isso. Não é preciso dizer mais nada.

terça-feira, 4 de março de 2008

A eloquência do silêncio

Começando pelos filmes, voltei a ler posts dos anos 2004 e 2005, neste blog, porque a certa altura começa a ser muita coisa a precisar de organização sob pena de ter sido tempo perdido.
Fico perplexa quando me leio, por exemplo, a escrever aqui, branco no preto, coisas sobre o estado e o caminho do país que agora toda a gente diz à boca cheia, inclusive uns engravatadinhos de uma coisa chamada SEDES, quando na altura me chamavam doida. Se dúvidas haja, os posts continuam lá. O que mais me custa é que foi apenas há 3 ou quatro anos atrás, já não contando com o que escrevi no blog ainda ele estava no SAPO.

Mas não é essa a maior reflexão. A maior frustração, direi melhor. Essa foram mesmo as vezes que tentei pôr as pessoas a falar. Ele foi blog, ele foi comentários, ele foi fórum, ele foi IRC. Como muitos outros organizadores de fóruns sabem bem, pelo menos no que toca ao movimento gótico, missão impossível.

Em ambos os casos, quer as tiradas visionárias caídas na ingratidão, quer o silêncio oco e inseguro do outro lado, deixei de sentir o sucedido de forma pessoal. Sei que o mesmo não acontece noutras partes do mundo. Sei que é só daqui, neste sítio de desencanto e apatia, de estagnação pantanosa.

Quanto ao país, actualmente já não há nada a dizer excepto que morreu e cheira mal. Não há palavras (pelo menos minhas) para dizer aos pobres mentecaptos que ainda olham apenas para a gangrena na perna do cadáver e o julgam moribundo mas vivo. Cheira-lhes a morte mas julgam que é só podre.

Quanto à falta de capacidade discursiva das gentes em geral, especialmente aquelas que à falta de ideias respondem com estilo (muita parra, pouca uva), fecha-se a caixa de comentários para não se assistir a maiores embaraços de fraco intelecto.

Eh bien. Dizia Fernando Pessoa que não haveria maior prazer que ter um livro para ler e não o fazer. Isso porque nunca teve um blog, senão saberia que não há maior prazer do que escrever um post e fechar uma caixa de comentários. Assim.

Crítica de cinema

Apercebi-me que o sistema de tags/etiquetas do Blogger só permite repescar um determinado número de posts (os mais recentes) sobre um assunto. No caso da crítica de cinema, está a tornar-se limitador. Eu só tenho acesso à lista de filmes criticados através da administração do blog e o leitor não tem acesso nenhum. Não há nada como uma velha lista "à la pate", lista essa que se segue e cujo link permanente ficará ali do lado direito, debaixo de ARQUIVOS, para quem o quiser encontrar.


FILMES de que já falei

1408 (2007)
2012 (2009)
30 Days of Night / 30 Dias de Noite (2007)
Amália, o filme (2008)
An Inconvenient Truth / Uma Verdade Inconveniente (2006)
Apocalyptico (2006)
Aracnofobia (1990)
Black Death / Morte Negra (2010)
Cloverfield (2008)
Coisa Ruim (2006)
Control (2007)
Corpse Bride (2005)
Devil / O Demónio (2010) 
Dracula Untold / Drácula: A História Desconhecida (2014)
El Orfanato (2007)
Enid (2009)
Final Destination / O Último Destino (2000)
Final Destination 2 / O Último Destino 2 (2003)
Frozen / Pânico na Neve (2010) 
Gothica (2003)
Ice Age (2002)
Ice Age II The Meltdown (2006)
In the Mouth of Madness / A Bíblia de Satanás (1994)
Inferno (1999)
Inland Empire (2006)
Interview with the Vampire / Entrevista com o Vampiro (1994)
Jeepers Creepers (2001)
Ju-On (2000)
Lady in The Water (2006)
Land of the Dead / A Terra dos Mortos (2005)
Let the right one in / Deixa-me entrar / Låt den rätte komma in (2008)
Life of Pi / A Vida de Pi (2012)
Madagascar (2005)
New Moon / Lua Nova (2009)
O Estranho Caso de Angélica (2010)
Perfume: The Story of a Murderer (2006)
Pompeii / Pompeia (2014)
Poseidon / Aventura do Poseidon (2006)
Queen of the Damned (2002)
Risen / Ressureição (2016)
Sanctum (2011)
Shadow of the Vampire (2000)
Sleepy Hollow / A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999)
Stigmata / O Estigma (1999)
Syriana (2005)
The 9th Life of Louis Drax / O Misterioso Louis Drax (2016)
The Accidental Tourist / O Turista Acidental (1998)
The Amityville Horror (2005)
The Colony / A Colónia (2013)
The Covenant (2006)
The Day After Tomorrow / O Dia Depois de Amanhã (2004)
The Day The Earth Stood Still (2008)
The Descent (2005)
The End of Days / Os Dias do Fim (1999)
The Eye / Gin Gwai (2002)
The Exorcism of Emily Rose / O Exorcismo de Emily Rose (2005)
The Fog II (2005)
The Glow (2002)
The Grudge (2004)
The Happening (2008)
The Mist (2007)
The Others (2001)
The Passion of the Christ / A Paixão de Cristo (2004)
The Prophecy (saga)
The Reaping / A Praga (2007)
The Ring I (2002), II (2005) e Ringu (original japonês, 1998)
The Road / A Estrada (2009)
The Sin Eater / The Order (2003)
The Skeleton Key / A Chave (2005)
The Unborn / Espírito do Mal (2009)
The Village (2004)
The X Files: I Want to Believe (2008)
Twilight / Crepúsculo (2008)
Ugetsu / Contos da Lua Vaga (1953)
Van Helsing (2004)
Wolf Creek (2005)
World War Z / WWZ: Guerra Mundial (2013)
Zero Dark Thirty / 00:30 A Hora Negra (2012)


The Mist (2007)



Torna-se difícil falar na maior desilusão da temporada anterior quando elas são tantas, e ainda não vi "Alien vs Predator - Requiem". As surpresas têm vindo regularmente de onde menos se espera, ou seja, dos filmes menos publicitados (refiro-me especificamente a "30 Dias de Noite"). O que faz todo o sentido. Quanto pior é o filme mais precisa de ser vendido.
Para "The Mist" (adaptação do romance de Stephen King) já fui de pé atrás. Mais nevoeiro? Onde é que eu já vi isto? Ah, é verdade, n'"O Nevoeiro"! O que há de novo nesta neblina? Em vez de fantasmas vingadores, uma experiência científico-militar desperta uma outra dimensão de onde vêm gigantescos insectos, avespalhados, aranhosos, amorcegados (se bem que o morcego é um mamífero, mas isso agora não interessa nada) e maus como as cobras! Eu preferia os fantasmas.
Fora isto, nada de novo. O mais interessante do filme é a inclusão do fanatismo evangélico norte-americano que já começa a ser recorrente por ser sintoma dos tempos e da nação (como em "The Reaping", do mesmo ano). Levado ao extremo, torna-se um problema tão grave para os sobreviventes dentro do centro comercial como os bichos lá fora. Também o fim não é banal, nem feliz. Sem querer contar tudo, digo apenas que é cruel. Bem cruel. Vale por si só um ponto extra.
Já estou é farta de ouvir "The Host of Seraphim", dos Dead Can Dance, a "abrilhantar" estes filmes pimba que não merecem uma nota que seja da voz da Deusa.

13 em 20

The Eye / Gin Gwai (2002)



No original chinês, uma rapariga cega de nascença recupera a visão depois de uma operação cirúrgica. Mas a visão que ela recupera é tudo menos banal. Ainda os seus olhos estavam turvos depois da cirurgia e já se apercebia de sombras escuras junto aos moribundos.
Por não conhecer o mundo através dos olhos, demorou-lhe algum tempo tomar consciência que essas presenças invisíveis, a que os restantes mortais não tinham acesso, pertenciam a outra dimensão que só ela podia ver. Sombras da morte e fantasmas passam a tornar-lhe a vida num inferno para que não estava preparada e que a leva perguntar-se se ter nascido cega não fora uma espécie de misericórdia divina.

Mais uma boa ideia vinda do manancial oriental que, para não fugir à regra, peca por falta de desenvolvimento adequado. Não faz mal. O voraz Hollywood anda sempre à caça de presas fáceis. Ora venha de lá o remake.

12 em 20.