domingo, 13 de janeiro de 2008

30 Days of Night / 30 Dias de Noite



Às primeiras cenas de "30 Dias de Noite" sente-se na solidão da gélida paisagem que algo terrível está para acontecer. Burrow, Alasca, segundo o filme a cidade mais a norte do território americano, vive o último dia de sol antes de um mês de invernia noite ártica.
Ainda nem se tinha posto o sol, estranhos actos de vandalismo já levavam o xerife a desconfiar que alguém estaria a tentar cortar as comunicações entre o resto do mundo e a povoação já de si isolada pelas estradas intransitáveis. Todos os cães de trenó aparecem mortos numa poça de sangue. Pouco mais tarde, um forasteiro é preso por causar desacatos. É um louco "renfield" que anuncia a chegada dos seus mestres que o vão tornar um deles. Na cidade em que não nasce o sol, os vampiros fazem um banquete.
O que distingue os grandes filmes de terror dos filmes para entreter é que os primeiros não precisam de grandes efeitos especiais nem sustos pindéricos. E este foi feito à moda antiga: poucos meios, quase a fazer lembrar a série B, sem querer fugir aos clássicos como John Carpenter ou Stephen King, mas com uma originalidade refrescante que nos faz ficar presos à cadeira até ao último minuto. Um excelente filme de vampiros que mete medo sem se esforçar muito, o que é uma agradável surpresa no panorama tantas vezes estéril e repetitivo da falta de ideias de Hollywood. Só por isso:

16 em 20

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Romance com a morte

Aqui começa a mais bela história sobre o tabaco jamais contada.
Havia nicotina nos espermatozóides que me conceberam. A minha mãe, felizmente para mim, não fumava. Não porque não tivesse tentado mas não conseguiu porque não gostava. Isto de fumar não é para quem quer, é para quem gosta. Ela só queria ter estilo e ser aceite. Ficou-se pelo caminho. E nunca foi aceite nem nunca teve estilo (mas essa história não merece ser contada por ser demasiado banal).
Nasci. Nasci numa casa de fumador, num tempo em que as crianças andavam sozinhas na rua e descalças, e nenhum mal lhes vinha por isso.
Tempo de liberdade.
Desde que conheci o meu pai, conheci-o com um cigarro na boca. Naquela altura não gostava do cheiro. Há odores e paladares subtis que escapam aos sentidos mal desenvolvidos de uma criança, como o sabor suave de uma cenoura cozida.
Aquele cheiro era agressivo mas cresci com ele e habituei-me a ele. Aquele era o cheiro de que o pai estava em casa, à mesa, a fumar SG Filtro. E quando o pai estava em casa, à mesa, a fumar SG Filtro, nada me podia fazer mal.
Mais tarde, o pai começou também a beber. Aguardente, era o que ele bebia. E começou a beber muito, e também o cheiro da aguardente se tornou repulsivo. Ainda hoje a aguardente me cheira a morte.
O meu pai chegava a casa, de um clube privado onde se jogava à sueca até altas horas da noite, sentava-se à mesa a ler livros científicos e tomava um Rophinol para dormir. Esses eram os bons tempos.
Quando tinha sono ia para a cama e dormia como um anjo.
Não foi o cigarro que o matou, mas a aguardente. Cancro no pâncreas. Bem, cientificamente, pode-se dizer que foram as duas coisas, mais o Rophinol. Mais uma vida de prazeres até ao fim dos seus dias.
O meu pai teve tuberculose e foi mandado para o Caramulo curar-se, uns vinte anos antes de eu nascer, e a tuberculose não o matou. Irmão de sete ou oito irmãos, fora os que morreram em crianças, nem mais tarde uma operação que lhe tirou parte do estômago lhe deu sumiço.
Aos 75 anos, finalmente, chegou-lhe o cancro. Demorou uns seis meses. Ninguém sabia quanto tempo tinha de vida. Não houve quimioterapia nem radiações nem hospitais. Mas nesse tempo havia tempo para cuidar dos moribundos. O meu pai morreu na cama dele, no mesmo quarto em que eu durmo agora, com um enfermeiro que lhe vinha dar cada vez mais injecções de morfina. Dois ou três dias antes de morrer, sem dores mas em plena posse das suas faculdades, o meu pai deixou de fumar. Foi também nessa altura que entrou no pré-coma em que passou as últimas horas de vida. Morreu na cama, na cama dele, junto dos familiares, como deve ser, depois de uma vida bem vivida.
Ò morte, qual é o teu triunfo?

Invejo o meu pai por ter vivido num tempo em que se fumava, em que se tomava Rophinol, em que se bebia aguardente até cair, em que se morria fisicamente antes de se perder a razão, em que nos deixavam partir no tempo devido. Só queria da vida ter a sorte que ele teve e morrer suavemente na minha cama, com alguém que eu amo a segurar-me a mão e um enfermeiro a dar-me injecções de morfina. Morrer antes de me esquecer de quem sou, lúcida e consciente, uma jovem de 75 anos.

O meu pai nem sabe a sorte que teve. Mas eu sei. E não estou disposta a deixar de fumar senão dois ou três dias antes de morrer, na minha cama, com os meus amigos de volta. Nesse dia não me vai apetecer fumar, nem comer, nem beber, mas simplesmente partir, para Deus, onde pertenço. Assim seja.

Ser profeta é ser mais alto

Mais umas dentadas. Eu bem queria largar o osso, até porque os não fumadores fundamentalistas já começam a prejudicar a minha saúde (todos os fanáticos me fazem mal aos nervos) e depois só lá vai com a benza (enquanto não a proibirem também) mas o prato está cada vez mais suculento.
Queriam ir atrás de manias americanas? Pois tomem lá o extremismo e embrulhem:

Associação apela ao fim do tabaco em casas e carros

A União Humanitária dos Doentes com Cancro (UHDC) quer que seja proibido fumar em qualquer local, desde que estejam presentes menores ou não fumadores.


De acordo com Luís Filipe Soares, presidente da UHDC, «se está provado cientificamente que fumar prejudica gravemente a saúde de quem fuma e a dos que o rodeiam, não pode haver nenhum argumento para justificar que um fumador possa fumar junto de um não fumador».

Alargar a proibição de fumar

Congratulando-se com a «generalizada boa aceitação» da nova Lei do Tabaco, a UHDC diz acreditar que, depois de consolidada a actual Lei do Tabaco em toda a União Europeia, a referida lei irá mais longe.

A UHDC refere alguns exemplos que, segundo esta associação, serão abrangidos no futuro pela lei do Tabaco. Assim, a UHDC diz que «um dia» será proibido fumar em casa ou no carro, desde que o fumador esteja na presença de não fumador ou de menores. Mesmo ao ar livre, esta associação acredita que será proibido fumar na presença de menores ou a menos de cinco metros de outras pessoas.


Esta dos cinco metros é moda americana. Eu adicionaria uma tradição europeia e medieval aplicada aos leprosos: que fosse obrigatório que os fumadores de cigarro acesso circulassem pela rua com uma sineta ao pescoço para as pessoas saudáveis poderem fugir a tempo.

O que é que eu vos dizia?

ACORDEM!
ELES QUEREM ILEGALIZAR!


Depois não digam que não foram avisados. Não se calem! Lutem pelo direito à escolha!

E o que querem os fumadores? É muito simples.

No trabalho: Salas para fumadores. Fechadas. Com janelas.

Na diversão: Cafés, restaurantes e bares para fumadores.

É de louvar o exemplo cívico que os fumadores têm dado desde que a lei entrou em vigor, cumprindo-a escrupulosamente, às vezes a pensar mais na multa dos outros que a sua desobediência propositada acartaria. Ao contrário do que dizem os fundamentalistas, afinal os fumadores não são o bando de energúmenos egoístas que se pintavam.
Já os não fumadores, por outro lado, tenho-o lido em vários sítios e sentido na pele a discriminação, têm demonstrado, desde as mais elegantes prosas de jornal ao mais jocoso comentário de rua, que pouco se importam com o incómodo que estão a causar. Pelo contrário, até gozam. E como não sou só eu que vejo isto, começo a achar a tendência preocupante. Coisas de Terceiro Reich, já o disse, afectam-me os nervos.

Mas não se iludam, não fumadores. Como muitos de vocês (os mais inteligentes) já perceberam, se eu fosse a vós punha as barbas de molho. Isto começa com o tabaco mas não pára por aí. Depressa chega à salsicha, ao sal, à gordura, ao exercício compulsivo. Se esta liga de doentes com cancro leva a melhor, não tarda que a associação de doentes de cancro do fígado nos queira salvar a todos de beber álcool. De seguida, a associação de hipertensos proíbe-nos de comer sal, gorduras e beber café. Se pensam que exagero, reparem de onde se importou a moda e pensem na América, o país mais hipócrita do mundo, que proíbe o fumo individual mas se recusa a admitir que as suas emissões de CO2 podem condenar a humanidade inteira. Quanto mais penso na América mais lamento o que vejo na Europa. É triste.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Os uns e os outros

Ainda não me cansei de morder o osso mas há muito tempo que não me davam um tão bom onde afiar os dentes.

Afinal, ele pode fumar no casino
2008/01/07 | 17:30 || Cláudia Lima da Costa
Inspector-geral da ASAE foi apanhado a fumar depois da entrada em vigor da nova lei, mas Casino explica que António Nunes estava numa zona de fumadores.

(...)

«Os conselheiros consideraram que é perfeitamente possível que nos casinos se possa fumar», disse Francisco George. Para o director-geral de Saúde, a lei é clara e não precisa de regulamentos nem de quaisquer outros procedimentos. Já Mário Assis Ferreira, considerou «equilibrada e não fundamentalista» a aplicação conjunta das leis do tabaco e jogo.


Claro que isto da lei da interdição total é só para os pobres. Logo um ou dois dias depois do Ano Novo ouvi um rico falar muito bem da sala de fumo do Gambrinus, restaurante fino de Lisboa, já totalmente equipado e preparado para receber a classe que pode pagar os seus vícios.
Alguém já viu os administradores das grandes empresas a fumar no passeio? E os deputados, acaso sentados nas escadarias de São Bento, fazendo a pausa? E no entanto, não é totalmente proibido fumar nos locais de trabalho? E na Assembleia da República?
Como há fumadores, põe-se a questão: onde é que eles fumam? Além do Casino, claro está. (Por acaso já li onde é que os deputados fumam, mas não é na rua.)
A quem esta lei afecta são os pequenos restaurantes e cafés onde só vai quem quer. Sobre restaurantes e cafés, acrescente-se, nos últimos quinze anos, mais coisa menos coisa, deixaram de ser o espaço de lazer e confraternização dos tempos do Bocage, passando pelos de Pessoa, e que deliciosamente ainda tive a sorte de saborear. Cafés onde se ia passar a tarde, onde não corriam connosco à hora do almoço, onde se podia ler, escrever e estudar, e até namorar. É curioso que foi mesmo a propósito desta lei que apanhei o peixe pela boca quando ouvi o dono de uma tasca comentar: "Se calhar até é bom. As pessoas já não fumam, vão-se embora mais depressa". Foi este clima pestilento de ganância que transformou os cafés e restaurantes em fábricas de chouriços que há muito tempo não frequento excepto por razões de força maior.
Mesmo assim, quando se pensava que esta lei vinha dar hipótese de finalmente separar as águas, fumadores para um lado, não fumadores para outro, como devia ser, com cafés e restaurantes diferenciados, vem apenas penalizar os pequenos espaços.

E se nos casinos se pode fumar, o que dizer de clubes privados? Em baixo, nos comentários, levantei a questão dos clubes de charutos e cachimbo. Um clube é um espaço privado só para sócios, não um espaço público. Em Portugal não existe (ou perdeu-se) esse tipo de associativismo, mas sinto cada vez mais falta dele por razões que nem têm a ver com esta lei. Entrada só para sócios. Fim de muitos problemas.
Continuo a não saber a resposta. Afinal, se eu decidir fazer da minha casa um clube de fumo é ilegal porque se junta muita gente a fumar?... O que é um espaço "público"? Um lugar onde entra toda a gente? E desde quando é que nos bares (uns mais do que outros) entra toda a gente? Se me proibirem de entrar na Kapital por não gostarem dos meus sapatos posso chamar a polícia e forçar o meu direito de entrada? Não, devido ao velho "direito de admissão". Logo, se eu decidir fazer um bar só para fumadores e proibir a entrada de não fumadores, ou vice versa, não estou a exercer o "direito de admissão"? A nova lei sobrepõe-se ao direito de admissão e ao direito dos clubes privados? Aceitam-se respostas.

Por último, os trabalhadores a quem esta lei afecta. Como sempre, os do costume. Os que têm pouco tempo para fazer pausas, os que não têm gabinetes, os que trabalham em grandes estruturas (prédios, centros comerciais, escolas, hospitais) de onde se demora muito tempo a sair para vir à rua. Isso é fundamentalismo, sim. Trabalhei num sítio que considero equilibrado. Havia uma cantina e espaço de convívio com uma sala à parte, totalmente isolada por vidro, onde se entrava, se fechava a porta e se fumava. Curiosamente, era também a única sala onde as janelas estavam abertas e se respirava o ar não viciado pelos ares condicionados. Nunca ninguém se queixou nem tinha de quê. Havia espaço para todos sem prejudicar ninguém nem o expulsar para a rua, de pé, de castigo, o que é altamente vexatório e toma contornos de perseguição porque é desnecessário.

Excepto, é claro, nos restaurantes finos e casinos, onde a saúde dos empregados já não parece ser tão importante porque servem a realeza. O fumoir foi sempre coisa de rico. As orgias de álcool e droga dos loucos anos 20 também. A criadagem fuma no estábulo e droga-se na sargeta. Agora percebe-se melhor quem é rico e quem não é. Uma lei, uma luz, um abismo.

Entretanto, neste mesmo Portugal de jantares de lagosta no Gambrinus e altas fumaradas no Casino do Estoril, Governo paga aumento das pensões (miseráveis) em 14 prestações, não vão os reformados perder a cabeça e gastar os cêntimos todos de uma vez, sei lá, num maço de cigarros.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Direito de escolha

A minha raiva com esta Lei Anti-Tabaco não é a lei propriamente dita mas o espírito que a orienta. O meu post anterior sobre o assunto foi cómico mas este será sério. A coisa levantou questões tão graves que nem sei por onde começar.
Talvez por isto. O povo é ignorante, muito ignorante. A dona de um cafézinho aqui do bairro decidiu que o café dela (aí uns 20m2, se tanto) vai ser para fumadores. Foi daí, comprou o dístico azul e disse "aqui fuma-se". Totalmente ignorante da lei, não sabe que não lhe foi dado direito de escolha. Nem sabe que a qualquer momento lhe pode entrar um gajo pela loja adentro e multar à vontade. É assim a ignorância. É por isto também que o povo não se revolta quando é preciso. E a mim o que revolta é a ignorância.
Voltemos à lei do tabaco, sem esquecer o pormenor da ignorância. Esta lei lembra-me a proibição de dar milho aos pombos. Caso não saibam, caros leitores, é proibido e punido com coima, em Lisboa, o hábito inofensivo e milenar de alimentar os pombos no jardim. Desculpa: os excrementos estragam as estátuas. De modo que qualquer estátua é mais importante do que as criaturas vivas. É a mesma mentalidade que quase nos proíbe de deslocarmos os nossos animais nos transportes públicos. É a mentalidade paranóica do medo da morte e da higiene e da supremacia do ser humano que é veiculada a toda a hora como se pode ver pela histeria da gripe das aves. Nunca ninguém parou de dar comida aos pombos, mas às escondidas, porque aqui na rua há um bufo. Um bufo que ameaça vingar-se dos vizinhos chamando a polícia. Esta história caricata não é do tempo da PIDE e de Salazar, mas dos nossos dias, do nosso recém chegado 2008. A raça humana é o homem lobo do homem.
Esta lei, como as anteriores, é mais uma lei proibicionista e nazi (porque vexatória) que não dá hipótese de escolha aos donos dos estabelecimentos (ao contrário do que a minha ignorante vizinha pensa). Daqui até à proibição de fumar em nossa própria casa, o nosso espaço privado, vai um passinho. É isso mesmo que eu estou a dizer, meus amigos. Adivinha-se o caminho: a ilegalização do tabaco.
Se os meus amigos pensavam que me importa fumar na rua, mesmo em relação aos bares, tirem o cavalinho da chuva. Pelo contrário, não vejo a obrigatoriedade de ir fumar para a rua como um problema mas como uma oportunidade. Vou fazer amigos novos e inesperados.
A mim preocupa-me algo de mais perigoso. Cada vez que uma substância é ilegalizada nascem fortunas! Foi assim com o ópio, com a cocaína, com o haxixe, com o próprio álcool nos Estados Unidos durante a Lei Seca, e será assim com o tabaco. Países produtores e canais distribuidores têm todo o interesse em ver o tabaco ilegalizado. O tráfico compensa. A única razão porque hesitam é porque o tabaco não é, no fim de contas, tão viciante como as outras drogas. Estou a comparar a dependência da nicotina à dependência da heroína e mesmo do álcool. Qualquer fumador, com força de vontade, larga o tabaco de um dia para o outro. E mesmo que tenha recaídas, e compre um cigarro no mercado negro, esse cigarro não lhe incapacita os sentidos como as drogas alucinatórias e não aparece no emprego incapaz de trabalhar. Se existir dependência, depois do desmame, esta é psicológica, como a do jogo, a da internet, a do sexo, e outras mais graves como a auto-mutilação.
Se o mercado não percebesse isso, há muito que o tabaco estava proibido. Se a tendência for proibicionista, nada nos garante que o álcool não seja de venda proibida, como já é a pessoas "nitidamente embriagadas" ou que aparentem distúrbios "psicológicos". Leiam o cartaz quando estiverem no supermercado. Já nos dizem qual é o nível de embriaguez socialmente consentida. O que tem a ver o nível de embriaguez com a harmonia social e a saúde dos restantes cidadãos ainda estou para perceber. Estamos a falar de pessoas notoriamente embriagadas que já não se aguentam de pé e que não têm equilíbrio suficiente para entrar num carro sem ajuda quanto mais de o conduzir e que não oferecem perigo nenhum para a sociedade a não ser a ofensa inestética de um vómito. Mas que é proibido, é.
Em muitos países, também o suicídio foi proibido (e punido com pena de morte!) durante séculos e séculos de influência da igreja.
A tendência proibicionista também já começou com as benzodiazepinas ao volante. As benzodiazepinas, altamente viciantes, são outra substância que dava um grande jeito ilegalizar (e por sua vez substituir por pior). Actualmente estão ao preço da chuva e o número de viciados é aliciante.
No tempo da guerra, até o café e os chocolates forneceram uma excelente oportunidade de negócio para o mercado negro.
É tudo isto que a Lei do Tabaco traz ao de cimo, lembrando-nos de que nos Estados Unidos se chegou ao extremo de proibir o tabaco a uns tantos metros de qualquer casa habitada, e que temos de pensar se queremos uma sociedade em que o Estado se sobrepõe ao livre arbítrio ou se queremos uma sociedade equilibrada em que o direito de escolha é sagrado. Eu voto pela segunda.

Cortem!

Hoje tinha preparado ficar por casa e talvez trabalhar em mais um capítulo das minhas memórias sobre o movimento gótico mas a mente anda demasiado por outras bandas.
Vou antes salientar este excelente post do Henrique no Hora Absurda, sobre a nossa muito portuguesa miséria envergonhada:

O nosso Presidente da República mandou uma boca no sentido de se remendar a moralidade tiocrática que pulula por aí­. Deu a dica ao governo para se reduzir o salário dos gestores de empresas. Mas trata-se, efectivamente, de uma forma de tapar ainda mais os olhos das bestas que já não veem um boi à frente do nariz. Não veem, não senhor. Vamos supor que o governo fazia baixar aqueles salários. Mesmo que a redução fosse de 50%, esses tios gestores não davam por isso. Arranjariam forma de compensar essa redução com mais benesses das empresas que gerem. Em certas empresas são os tios gestores que determinam os seus salários e benesses. E como aquelas empresas prestam serviços em regime de monopólio ou em cartel com outras, elas podem sempre apresentar lucros fabulosos porque impõem o preço dos seus serviços. Nem o consumidor pode sequer boicotar-lhes a estratégia. Tomemos como exemplo a electricidade. De que adianta pouparmos na electricidade se o preço sobe e continuamos a pagar o mesmo porque os lucros não podem baixar, têm que subir sempre. Quanto mais pouparmos, mais lucros terão a EDP, a REN, a Iberdrola, etc.. Depois são os mais pobres que sofrem porque eles não poderão pagar a conta e a EDP manda cortar a luz sem dó nem piedade. Quantos lares já têm a luz cortada neste momento em Portugal? Pergunte-se aos Me®dia, talvez saibam (isso é que era bom!).
(...)
Muitas empresas que prestam serviços são apenas fachadas “financeiras”, nem prestam já serviços. Mandam outras empresas menores fazer o serviço que eles supostamente deviam prestar - é aquilo a que eles pomposamente chamam de outsourcing para que as bestas pensem que se trata de algo moderno e bom para as bestas. Mas é, tão somente, uma forma de explorar melhor as bestas. As pequenas empresas que prestam serviços às grandes financeiras (EDP, Telecom, Netcabo, SMAS), procuram sacar o máximo delas. Do género de fazerem mal uma instalação para, depois do cliente reclamar, enviarem de novo os seus técnicos ao cliente e facturarem pela resolução do problema “fabricado” - a história da carraça, conhecem? Mas quem paga tudo é o cliente, isto é, nós, as bestas.
(...)
Por isso, caros cidadãos (entenda-se bestas!), preparem-se para apertar ainda mais o cinto. Não dou conselhos a ninguém, mas vejo que a única forma de escaparmos à miséria total é deixarmos de necessitar dos serviços deles; procuremos alternativas, se houver. Ou habituemo-nos a viver sem luz, sem água, sem nada. Isto é que um verdadeiro PR devia dizer. Tudo o resto vem por acréscimo, porque saúde, educação, etc., tudo segue a mesma lógica tiocrática que consegue enganar as bestas com medidas que favorecem cada vez mais os tios, e mais ninguém.


Pois eu acho que ainda não cortaram o suficiente a água, a luz, o pão. Deviam cortar mais, para ver se as bestas acordam. Ainda há muita besta adormecida. Apenas um quinto das bestas abriu os olhos. O resto queixa-se que os gajos que cortam a água, a luz, o telefone, é que são maus, e esquecem-se que durante 30 anos andaram a votar no sítio errado, se votaram de todo, abstraindo-se de toda a responsabilidade sobre o futuro do país. E entretanto lá se vão entretendo com futebóis, "morangos" e créditos até vir o homem do corte. Aí, ai que d'el rey, que são maus! Chamam nomes aos operadores de call center, querem bater aos gajos que lhes vêm buscar o carro, vandalizam as casas que são forçados a abandonar quando não pagam as prestações. Parecem crianças a quem tiram um brinquedo.
Eu digo aos homens e mulheres deste país: deviam cortar-lhes os tomates, sem anestesia.
Corte-se!

De onde vem a minha implacável intolerância à cobardia? Já aqui o disse mais de uma vez, eu não devia estar na internet. Não venho da classe média. Venho de mais baixo, muito mais baixo. Em 2005, ano em que estive desempregada, passei muito frio porque não havia dinheiro para ter o aquecedor ligado. Cheguei a escrever este blog, à noite, de luvas e gorro. Agora já o posso dizer, porque já passou. Não sei se não se repetirá. A única razão porque mantive a internet foi a necessidade de procurar emprego. E muitas vezes pensava como seria se não houvesse dinheiro para a electricidade que sustenta o computador e o telefone que recebia as chamadas. Quando se é pobre, uma coisa arrasta a outra e a certa altura já nem há dinheiro para procurar emprego. Mas nunca, NUNCA!, pensaria em queixar-me dos homens maus que não dão o que não pago. Esta ideia que tudo é de graça porque o Estado tudo dá foi o maior erro em que caiu a geração que desgraçou a minha, a geração que fez o 25 de Abril. A geração que hoje vive dos altos ordenados ou da reforma que eu não terei. A mesma geração que só acorda quando não tem água, nem luz, nem comida, e lhes levam o carro, a casa, e acorda na rua. E ainda há quem passe pelos sem abrigo e ache que a culpa é deles.
Enquanto houver quem pense assim, corte-se! Aliás, vou corrigir: enquanto a maioria pensar assim, cortar-se-à. E cortar-se-à! E cortar-se-à! E é bem feita. Ainda devia doer mais.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Quem tem medo da morte não merece estar vivo

Os não-fumadores estão a começar a meter-me raiva.

Estão dois drogados a dar um chuto num casebre abandonado. Entra outro e acende um cigarro.
- Ò dá de frosques, não podes fumar aqui que é um espaço público! Queres-te matar mata-te lá fora, ò malcheiroso!

Já há muito tempo que os não-fumadores se estão a esticar. Não falo de espaços fechados. Falo das caras de enjoo nas filas para o autocarro, as velhas a tossir a fingir que têm bronquite, e outras que tais que um dia se me apanham do avesso ainda ficam sem dentes que a paciência tem limites e eu sou do signo Touro que vai enchendo até rebentar.

Já há muito tempo que é proibido fumar nos espaços onde trabalho. Restaurantes e cafés, cinemas e teatros, com a crise que está, todas as razões para não pôr lá os pés são boas razões. E sejamos francos. Malta dos cafés e dos restaurantes já não querem lá os clientes a fazer sala à volta da bica. Querem é servir sopas, sandes, pregos no prato ao balcão, fechar às 6 da tarde que ala que se faz tarde, e pôr a gente toda a andar depois de consumir.
Para ir conversar com amigos restam os bares. Esta é que é a razão da minha raiva. Ninguém deixa de sair à noite por causa do fumo. Quem quer saúde vai ao ginásio. Ò meus amigos, os bares são para a má vida! Não se ponham a pau e ainda nos proibem de beber álcool! O quê, riem? Foi assim que Al Capone fez fortuna. Lei Seca.
Quem vai a um bar e não fuma, e possivelmente não bebe, vai ao bar para quê? *bate na testa* Que burra que eu sou! Vai ao engate! E não se esquece de levar preservativo, por causa das doenças. Conheci um homem assim, daqueles que não andam nos transportes públicos por causa dos germes. Há de facto uma doença, uma doença mental que não tem cura. Como se não bastasse já a percentagem de tarados na noite lisboeta, só cá nos faltam os health freaks!

Até já estava a ficar muito zangada com as perspectivas desta invasão de gajos tarados, quando o presidente da ASAE, uma das entidades que irá fiscalizar a aplicação da lei que proibe o fumo em espaços fechados de utilização pública, foi fotografado pelo Diário de Notícias (DN) a fumar uma cigarrilha no Casino do Estoril às 02.30 da manhã do dia 01 de Janeiro.
A mim lembra-me aquela "mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo" ou ainda aquela "faz o que eu digo, não faças o que eu faço". Isto da leis é o para o Zé Povinho, até porque diz o figurão: "Em explicações ao DN, António Nunes considerou que a nova lei «não proíbe expressamente o tabaco nos casinos e nas salas de jogos», justificando com a existência de um conflito de interesses com a lei do jogo, que contudo, não faz qualquer referência ao consumo de tabaco."
E o charuto, pode meter-se na boca? Chupar no cachimbo, pode-se? Se calhar a lei é omissa. Agora já sei que posso fumar no Casino. É bem. Probir aqueles jogadores viciados de fumar ainda lhes curava o vício... de jogar. E isso não pode ser. Olha o dinheirinho que se perde. Isto há espaços públicos, para o Zé Enrabado, e espaços finos, para a elite!

Entretanto, estava um casal a foder a um canto de uma discoteca, no escurinho. Quando se vêm, ambos acendem um cigarro. O segurança, que estava a topar tudo, chega-se ao pé deles e diz:
- Amigos, aqui não se pode fo... fumar.