Os tempos são de escuridão quando uma pessoa receia perder o emprego ou a vida, ou ambos, quando tem que pensar duas vezes se é seguro dizer o que pensa contra os poderes verdadeiramente instituídos.
Nunca pensei ter que dizer isto. O tempo chegou.
sexta-feira, 2 de junho de 2006
quinta-feira, 1 de junho de 2006
Romance com a morte II
Salvo raras excepções...
O romance com a morte começa cedo. Estou convencida de que se nasce gótico ou a alma gótica se desenvolve tão cedo nos primeiros anos de vida que não se nota a sua ausência. A criança gótica sente um fascínio irrepremível pela morte assim que sabe que ela existe. É provável que queira saber mais, que fale do assunto às outras crianças, que tenha conversas mórbidas para a idade. É que a criança gótica ouve desde cedo uma voz, um chamamento, algo que as outras crianças não ouvem. Por isso se interessa por todos os temas que lhe expliquem a morte e, acima de tudo, o que há depois da morte. Como consequência, interessar-se-à por histórias de fantasmas, com um misto de desejo e temor, e pelo sobrenatural, e pela religião a que tiver mais acesso. Não é de estranhar que muitas vezes fique acordada de noite a imaginar a morte, e que lhe sobrevenham terrores, papões, medo do escuro. Alguns pais preocupam-se, outros não dão por nada. Mas, ao contrário das outras crianças, a criança gótica não reage à morte e ao medo dela evitando o assunto. Pelo contrário, torna-se curiosa, investiga, procura. Sente-se incompreendida quando percebe que as outras crianças não pensam nas mesmas coisas. É mais ou menos inevitável que seja do tipo de se isolar, de desprezar as brincadeiras das outras crianças, de se embrenhar na leitura ou na televisão, sempre à procura de explicações satisfatórias para a sua demanda do que acontece na morte e depois da morte.
A criança gótica não é mais inteligente do que as outras, mas é mais séria, definitivamente mais séria. Mesmo que não pareça. (Mas casos excepcionais são raros. A esmagadora maioria de pessoas que me falaram das suas infâncias sempre foram uns bichos do mato.)
A criança gótica segue o chamamento, não o recusa. Nem pode recusar. É por isso que a criança gótica é de facto diferente. Bastante, bastante diferente. E sabe-o, sente-o e sofre por isso.
- Nota: qualquer criança gótica terá gasto o lápis de cor preto antes dos outros todos. Estranhamente, os lápis de cores garridas ficam intactos. -
De todo este isolamento (se não exterior, pelo menos interior), sai um adolescente solitário, incompreendido, e muitas vezes deprimido. A adolescência é também o tempo da cruzada espiritual para encontrar respostas para as perguntas da infância, e o adolescente gótico vai procurá-las em todas as formas de religião e oculto antes de se decidir a enveredar pela doutrina do Bem (ao encontro de Deus) ou do Mal (ao encontro do Diabo), ou, completamente desiludido, se decida pelo ateísmo. Mas o próprio ateísmo é uma mentira que diz a si próprio e aos outros. Não conheço um gótico que não acredite em nada. É mentira e o próprio indivíduo sabe, lá bem no fundo, que é mentira. O misticismo ou a profunda recusa dele são as maneiras encontradas para lidar com a inevitabilidade da morte.
É por esta altura que o gótico moderno encontra o movimento gótico - se não tiver muito azar!
O adolescente gótico, como todos os adolescentes, também procura desenfreadamente a sua alma gémea. Ou talvez um pouco mais. Devido à solidão da sua infância, necessita desesperadamente de alguém semelhante. Quando encontra outros como ele está eufórico de alegria - mas ainda não sabe! Habituado a um caminho solitário e incompreendido, não lida bem com os seus pares. A isso se deve a animosidade permanente entre góticos em geral. Mas o facto é que delira entusiasmo e fará tudo o que os seus amigos estão a fazer. Nisto não é diferente dos outros adolescentes. Simplesmente não demonstra alegria, o que é crónico. O adolescente gótico continua a ser a criança séria que sempre foi.
- Há um risco mais sério de um jovem gótico se meter na droga, estou mesmo convencida disto. Às vezes as respostas não se encontram e há uma maior tendência para viver o dia como se fosse o último. Para muitos que se perderam, foi mesmo o último dia. É pena, porque fazem falta, mas não tiveram força, não tiveram fé no dia seguinte. É muito mais difícil para um gótico ter fé no dia seguinte. Por isso, perderam-se. Seguiram o chamamento até ao fim. Foram ao outro lado e não quiseram voltar. -
Mas apesar da depressão ser tão comum na adolescência, o gótico não é uma fase. E não passa. E não se pense que os góticos não se reconhecem uns aos outros como os ladrões e os assassinos. E os vampiros. (Não queria mencionar os homossexuais para isto não ser levado a mal por alguém, quando não é essa a intenção, mas é bastante semelhante.) Takes one to know one. Aqueles olhares de desconfiança que se deitam aos recém chegados são mesmo isso, a inspecção. "És mesmo diferente ou estás só vestido de preto?" A maioria, a grande maioria, está só vestida de preto.
Por volta dos 20 anos, as pessoas mudam e sentem necessidade de se afastar dos grupos da adolescência. Quando eu digo, meio a sério meio a brincar, que um gótico adolescente é um "projecto de gótico", é a isso que me refiro. Ficar no movimento é um teste que envolve tempo. Muitas pessoas não resistem ao casamento, ao trabalho, ao cansaço. Outros fecham-se na música que já conhecem e não procuram mais. A sua necessidade musical está satisfeita. Muitos outros continuam a procurar música nova, mas já não têm energia ou vontade de participar nos excessos da adolescência.
- São os que têm juízo. -
Mas se o movimento gótico é abandonado, ou se a criatura ouve em casa ou mesmos CDs até à exaustão (e conheço casos, ó se conheço!!!), isso não significa que a alma gótica desapareça. Pode não se vestir de preto mas é de preto que se sente bem, é de preto que se sente "o próprio". Muitos afastam-se e regressam.
- Como a vossa cara redactora. -
Muitos não regressam porque acham uma parvoíce. Mas garanto-vos que em qualquer lugar, passe o tempo que passar, bastam dois dedos de conversa para perceber se "é dos tais". Às vezes, basta a maneira como a criatura perde o olhar em redor e inspecciona, ele próprio, "és diferente ou estás só vestido de preto?".
Não sei o que se passa com os góticos depois dos 30. Terei que contar a história daqui por dez anos, se entretanto a voz não me levar e o chamamento não tenha de ser seguido para o outro lado. Pelo que me é dado a perceber, circulam, como fantasmas, e aparecem onde menos se espera. Às vezes sentem-se tolos por tentar voltar (a adolescência também pode deixar marcas dolorosas), mas acabam por voltar nem que seja no concerto da banda que ouvem em casa até à exaustão. Neste caso, não se vestem de preto para a ocasião, simplesmente permitem-se voltar a ser eles próprios.
Algures, em todos os tempos, eles deambulam e pensam no romance amargo que dançam com a morte, mais ou menos tentando escondê-lo, mais ou menos tentando parecer normais, mas ou menos voltando aos medos de infância e à primordial solidão dos seres que são diferentes dos outros. Mas eles andam por aí. They walk among you.
Muitos declaram-se "curados". Outros continuam a ostentar a dor. Com eu dizia no post abaixo, é um pouco como o sexo, cada um faz como quer. Talvez uma meia dúzia esteja mesmo curada, aqueles que verdadeiramente já abraçaram a morte ou se preparam para abraçar. Porque, afinal, mesmo que a morte seja o fim de tudo, é também o fim do sofrimento. Aceitá-la antes de ela vir é uma cura. E é um estado mental de libertação.
Nisto, os góticos também não são diferentes dos outros que lá chegam por outras vias. Simplesmente não demonstram alegria, o que, como eu já disse, é crónico, mas se não fosse assim, não eram góticos e não eram diferentes.
Outro dia dei comigo a pensar, ó por amor de Deus, admitam! Somos góticos, não somos felizes!!! Senti-me logo muito melhor.
O romance com a morte começa cedo. Estou convencida de que se nasce gótico ou a alma gótica se desenvolve tão cedo nos primeiros anos de vida que não se nota a sua ausência. A criança gótica sente um fascínio irrepremível pela morte assim que sabe que ela existe. É provável que queira saber mais, que fale do assunto às outras crianças, que tenha conversas mórbidas para a idade. É que a criança gótica ouve desde cedo uma voz, um chamamento, algo que as outras crianças não ouvem. Por isso se interessa por todos os temas que lhe expliquem a morte e, acima de tudo, o que há depois da morte. Como consequência, interessar-se-à por histórias de fantasmas, com um misto de desejo e temor, e pelo sobrenatural, e pela religião a que tiver mais acesso. Não é de estranhar que muitas vezes fique acordada de noite a imaginar a morte, e que lhe sobrevenham terrores, papões, medo do escuro. Alguns pais preocupam-se, outros não dão por nada. Mas, ao contrário das outras crianças, a criança gótica não reage à morte e ao medo dela evitando o assunto. Pelo contrário, torna-se curiosa, investiga, procura. Sente-se incompreendida quando percebe que as outras crianças não pensam nas mesmas coisas. É mais ou menos inevitável que seja do tipo de se isolar, de desprezar as brincadeiras das outras crianças, de se embrenhar na leitura ou na televisão, sempre à procura de explicações satisfatórias para a sua demanda do que acontece na morte e depois da morte.
A criança gótica não é mais inteligente do que as outras, mas é mais séria, definitivamente mais séria. Mesmo que não pareça. (Mas casos excepcionais são raros. A esmagadora maioria de pessoas que me falaram das suas infâncias sempre foram uns bichos do mato.)
A criança gótica segue o chamamento, não o recusa. Nem pode recusar. É por isso que a criança gótica é de facto diferente. Bastante, bastante diferente. E sabe-o, sente-o e sofre por isso.
- Nota: qualquer criança gótica terá gasto o lápis de cor preto antes dos outros todos. Estranhamente, os lápis de cores garridas ficam intactos. -
De todo este isolamento (se não exterior, pelo menos interior), sai um adolescente solitário, incompreendido, e muitas vezes deprimido. A adolescência é também o tempo da cruzada espiritual para encontrar respostas para as perguntas da infância, e o adolescente gótico vai procurá-las em todas as formas de religião e oculto antes de se decidir a enveredar pela doutrina do Bem (ao encontro de Deus) ou do Mal (ao encontro do Diabo), ou, completamente desiludido, se decida pelo ateísmo. Mas o próprio ateísmo é uma mentira que diz a si próprio e aos outros. Não conheço um gótico que não acredite em nada. É mentira e o próprio indivíduo sabe, lá bem no fundo, que é mentira. O misticismo ou a profunda recusa dele são as maneiras encontradas para lidar com a inevitabilidade da morte.
É por esta altura que o gótico moderno encontra o movimento gótico - se não tiver muito azar!
O adolescente gótico, como todos os adolescentes, também procura desenfreadamente a sua alma gémea. Ou talvez um pouco mais. Devido à solidão da sua infância, necessita desesperadamente de alguém semelhante. Quando encontra outros como ele está eufórico de alegria - mas ainda não sabe! Habituado a um caminho solitário e incompreendido, não lida bem com os seus pares. A isso se deve a animosidade permanente entre góticos em geral. Mas o facto é que delira entusiasmo e fará tudo o que os seus amigos estão a fazer. Nisto não é diferente dos outros adolescentes. Simplesmente não demonstra alegria, o que é crónico. O adolescente gótico continua a ser a criança séria que sempre foi.
- Há um risco mais sério de um jovem gótico se meter na droga, estou mesmo convencida disto. Às vezes as respostas não se encontram e há uma maior tendência para viver o dia como se fosse o último. Para muitos que se perderam, foi mesmo o último dia. É pena, porque fazem falta, mas não tiveram força, não tiveram fé no dia seguinte. É muito mais difícil para um gótico ter fé no dia seguinte. Por isso, perderam-se. Seguiram o chamamento até ao fim. Foram ao outro lado e não quiseram voltar. -
Mas apesar da depressão ser tão comum na adolescência, o gótico não é uma fase. E não passa. E não se pense que os góticos não se reconhecem uns aos outros como os ladrões e os assassinos. E os vampiros. (Não queria mencionar os homossexuais para isto não ser levado a mal por alguém, quando não é essa a intenção, mas é bastante semelhante.) Takes one to know one. Aqueles olhares de desconfiança que se deitam aos recém chegados são mesmo isso, a inspecção. "És mesmo diferente ou estás só vestido de preto?" A maioria, a grande maioria, está só vestida de preto.
Por volta dos 20 anos, as pessoas mudam e sentem necessidade de se afastar dos grupos da adolescência. Quando eu digo, meio a sério meio a brincar, que um gótico adolescente é um "projecto de gótico", é a isso que me refiro. Ficar no movimento é um teste que envolve tempo. Muitas pessoas não resistem ao casamento, ao trabalho, ao cansaço. Outros fecham-se na música que já conhecem e não procuram mais. A sua necessidade musical está satisfeita. Muitos outros continuam a procurar música nova, mas já não têm energia ou vontade de participar nos excessos da adolescência.
- São os que têm juízo. -
Mas se o movimento gótico é abandonado, ou se a criatura ouve em casa ou mesmos CDs até à exaustão (e conheço casos, ó se conheço!!!), isso não significa que a alma gótica desapareça. Pode não se vestir de preto mas é de preto que se sente bem, é de preto que se sente "o próprio". Muitos afastam-se e regressam.
- Como a vossa cara redactora. -
Muitos não regressam porque acham uma parvoíce. Mas garanto-vos que em qualquer lugar, passe o tempo que passar, bastam dois dedos de conversa para perceber se "é dos tais". Às vezes, basta a maneira como a criatura perde o olhar em redor e inspecciona, ele próprio, "és diferente ou estás só vestido de preto?".
Não sei o que se passa com os góticos depois dos 30. Terei que contar a história daqui por dez anos, se entretanto a voz não me levar e o chamamento não tenha de ser seguido para o outro lado. Pelo que me é dado a perceber, circulam, como fantasmas, e aparecem onde menos se espera. Às vezes sentem-se tolos por tentar voltar (a adolescência também pode deixar marcas dolorosas), mas acabam por voltar nem que seja no concerto da banda que ouvem em casa até à exaustão. Neste caso, não se vestem de preto para a ocasião, simplesmente permitem-se voltar a ser eles próprios.
Algures, em todos os tempos, eles deambulam e pensam no romance amargo que dançam com a morte, mais ou menos tentando escondê-lo, mais ou menos tentando parecer normais, mas ou menos voltando aos medos de infância e à primordial solidão dos seres que são diferentes dos outros. Mas eles andam por aí. They walk among you.
Muitos declaram-se "curados". Outros continuam a ostentar a dor. Com eu dizia no post abaixo, é um pouco como o sexo, cada um faz como quer. Talvez uma meia dúzia esteja mesmo curada, aqueles que verdadeiramente já abraçaram a morte ou se preparam para abraçar. Porque, afinal, mesmo que a morte seja o fim de tudo, é também o fim do sofrimento. Aceitá-la antes de ela vir é uma cura. E é um estado mental de libertação.
Nisto, os góticos também não são diferentes dos outros que lá chegam por outras vias. Simplesmente não demonstram alegria, o que, como eu já disse, é crónico, mas se não fosse assim, não eram góticos e não eram diferentes.
Outro dia dei comigo a pensar, ó por amor de Deus, admitam! Somos góticos, não somos felizes!!! Senti-me logo muito melhor.
quarta-feira, 31 de maio de 2006
Romance com a morte

Hoje em dia há muitas e completas definições do que é o movimento gótico. Uma das melhores está no Wikipedia.
Goth
Está tudo lá para quem quiser ler. Mas ser gótico não é apenas vestir de preto, gostar de filmes de terror e de um certo tipo de música. Há mais qualquer coisa. Algo de único que separa aqueles que ficam daqueles que mudam de pele. Esse valor imperceptível é abraçar a morte.
Abraçar a morte não é prestar-lhe culto, nem aderir a actos de violência e destruição, mas sim tê-la sempre presente na vida consciente, a cada minuto, a cada segundo, como a sombra que nos segue. De tanto fascínio que produz, uns acabam por amá-la, outros acabam por temê-la, mas todos a abraçam.
E quem não sabe o que significa abraçar a morte escusa de perguntar. (Escusa mesmo de perguntar porque é como perguntar o que é o amor sem nunca o ter sentido.)
Abraçar a morte vem primeiro. Possivelmente segue-se-lhe o vestir de preto. A música, os filmes, a maquilhagem, são a moda dos tempos. Não havia disto no tempo de Florbela Espanca, nem de Sylvia Plath, nem de Edgar Allan Poe. O que havia, e sempre haverá, é o abraço da morte. Entre rejeitá-lo e retribuí-lo, é como o sexo. Cada um faz como quer.
Não é por acaso que escolhi para ilustrar este post a imagem que aparece na capa de "closer", dos Joy Division. O fio condutor sempre foi o mesmo desde as páginas de Brahm Stoker ou dos poemas dos românticos do século XIX. Não há volta a dar-lhe.
Ser gótico é ter um romance com a morte.
Post Scriptum
Admitir que se é gótico é simplesmente admitir um amor proibido.
terça-feira, 30 de maio de 2006
A machadada final
E foi a machadada final no mérito. Pais a avaliar professores. Pais ignorantes, iliterados, quase analfabetos, sem educação e sem maneiras, que tudo o que precisam de fazer para ser pais é dar uma queca, a avaliar profissionais que no mínimo tiveram que tirar um curso para exercer a profissão.
É o fim, é mesmo o fim.
Ouvir a ministra da Educação dizer sem um pingo de vergonha uma barbaridades destas, que a "distribuição das melhores turmas aos melhores professores" é uma má medida, é cuspir na cara dos bons alunos e premiar os piores. Já agora, porque não realiza de uma vez por todas o sonho da burrocracia?
Que se dêem as notas ao contrário. Que passem os burros. Que chumbem os bons alunos.
É imperativo, é urgente, é necessário!!! mandar óvulos para Espanha! Óvulos para Espanha já e em força! E não só para Espanha, para a Europa toda! Pela educação das nossas crianças, pô-las fora de Portugal já!
É o fim, é mesmo o fim.
Ouvir a ministra da Educação dizer sem um pingo de vergonha uma barbaridades destas, que a "distribuição das melhores turmas aos melhores professores" é uma má medida, é cuspir na cara dos bons alunos e premiar os piores. Já agora, porque não realiza de uma vez por todas o sonho da burrocracia?
Que se dêem as notas ao contrário. Que passem os burros. Que chumbem os bons alunos.
É imperativo, é urgente, é necessário!!! mandar óvulos para Espanha! Óvulos para Espanha já e em força! E não só para Espanha, para a Europa toda! Pela educação das nossas crianças, pô-las fora de Portugal já!
segunda-feira, 29 de maio de 2006
Falta de sorte
Sim, admito, também snifo do ópio futeboleiro há muitos anos. Gosto dos jogos entre selecções, e não só os da selecção portuguesa. Antes isso que o Eurofestival da Canção -- valha-me Deus!
E vi atentamente os três jogos dos sub-21, com alguma tristeza porque estavam a correr mal, mas jogo é jogo e aquilo é apenas um jogo de futebol e nada mais que isso, e qual não é o meu espanto quando por duas vezes os jogadores vieram queixar-se da sorte. "Foi falta de sorte", disse aquele que marcou o golo.
E fiquei a pensar: Chiça! É assim que pensam miúdos daquela idade, que os maus resultados se devem à falta de sorte? Onde está a auto-crítica, a responsabilização? Não há falta de sorte. O futebol não é um jogo de cartas. O que aconteceu é que a equipa não conseguiu tocar na bola em três jogos consecutivos. De modo que a meio do jogo comecei a torcer pelos alemães. Mas os alemães cometeram um erro crasso, o de julgar que o jogo já estava resolvido e afrouxar a defesa. Pagaram pelo erro. Quem teve sorte, quem teve mesmo muita sorte, foram os sérvios-montenegrinos, que àquela hora deviam estar sentados a lamentar a vida quando subitamente lhes caiu do céu o apuramento. Isso é que foi sorte. Os erros de uns são a sorte de outros.
Causa, consequência. Causa, consequência. Causa, consequência.
Outra vez: Causa, consequência.
Agora uma outra espécie de falta de sorte. Algúem me consegue explicar qual é a obsessão do nosso primeiro ministro com as farmácias?!... Confesso que me faz confusão. Já não há muita coisa que me faça cair o queixo, mas no discurso de tomada de posse, Sócrates abandeirou como uma das primeiras medidas (fulcral, ao que parece) a venda de xarope para a tosse nos hipermercados. Um observador estrangeiro que não soubesse nada do país pensaria "que rica vida eles têm que a maior preocupação do primeiro-ministro é o conforto dos cidadãos que compram aspirinas, pois que bela economia devem ter, e devem ser todos muitos ricos, muito felizes, que paraíso!"
Isto não é normal.
Poderá ser daquelas medidas excêntricas à americana, ou mesmo à brasileira. Quem não se lembra da telenovela "O Bem Amado", em que o prefeito foi eleito por prometer, como primeira medida, o "inauguramento" do cemitério para que a população não precisasse de ir ser enterrada à vila mais próxima?...
Pois Sócrates que explique o que lhe aconteceu de tão traumático numa farmácia que tenha de meter xarope para a tosse no discurso de tomada de posse. E a cruzada continua!!! Eu até posso compreender, mas explique, homem! Foi talvez a uma farmácia às três da manhã comprar um analgésico e deram-lhe uma descompustura por bater a horas tardias? Teve de pagar taxa moderadora? Ficou chateado? Fez birra? Tem família ligada às farmácias? Amigos? Conhecidos? É um favor pessoal? Foi promessa a Nossa Senhora de Fátima? Diga, a quem prometeu? Ou não há mesmo nada mais importante do que as farmácias? Como a corrupção, a ineficiência da justiça, a iliteracia, já para não falar das pensões de miséria e do aumento do número de sem abrigo, só por exemplo? Ora aí está uma medida boa para um discurso de tomada de posse: "nem mais um sem abrigo na rua!". Mas não. Calhou a sorte às farmácias.
Caramba, expliquem-me, que isto não é normal.
E vi atentamente os três jogos dos sub-21, com alguma tristeza porque estavam a correr mal, mas jogo é jogo e aquilo é apenas um jogo de futebol e nada mais que isso, e qual não é o meu espanto quando por duas vezes os jogadores vieram queixar-se da sorte. "Foi falta de sorte", disse aquele que marcou o golo.
E fiquei a pensar: Chiça! É assim que pensam miúdos daquela idade, que os maus resultados se devem à falta de sorte? Onde está a auto-crítica, a responsabilização? Não há falta de sorte. O futebol não é um jogo de cartas. O que aconteceu é que a equipa não conseguiu tocar na bola em três jogos consecutivos. De modo que a meio do jogo comecei a torcer pelos alemães. Mas os alemães cometeram um erro crasso, o de julgar que o jogo já estava resolvido e afrouxar a defesa. Pagaram pelo erro. Quem teve sorte, quem teve mesmo muita sorte, foram os sérvios-montenegrinos, que àquela hora deviam estar sentados a lamentar a vida quando subitamente lhes caiu do céu o apuramento. Isso é que foi sorte. Os erros de uns são a sorte de outros.
Causa, consequência. Causa, consequência. Causa, consequência.
Outra vez: Causa, consequência.
Agora uma outra espécie de falta de sorte. Algúem me consegue explicar qual é a obsessão do nosso primeiro ministro com as farmácias?!... Confesso que me faz confusão. Já não há muita coisa que me faça cair o queixo, mas no discurso de tomada de posse, Sócrates abandeirou como uma das primeiras medidas (fulcral, ao que parece) a venda de xarope para a tosse nos hipermercados. Um observador estrangeiro que não soubesse nada do país pensaria "que rica vida eles têm que a maior preocupação do primeiro-ministro é o conforto dos cidadãos que compram aspirinas, pois que bela economia devem ter, e devem ser todos muitos ricos, muito felizes, que paraíso!"
Isto não é normal.
Poderá ser daquelas medidas excêntricas à americana, ou mesmo à brasileira. Quem não se lembra da telenovela "O Bem Amado", em que o prefeito foi eleito por prometer, como primeira medida, o "inauguramento" do cemitério para que a população não precisasse de ir ser enterrada à vila mais próxima?...
Pois Sócrates que explique o que lhe aconteceu de tão traumático numa farmácia que tenha de meter xarope para a tosse no discurso de tomada de posse. E a cruzada continua!!! Eu até posso compreender, mas explique, homem! Foi talvez a uma farmácia às três da manhã comprar um analgésico e deram-lhe uma descompustura por bater a horas tardias? Teve de pagar taxa moderadora? Ficou chateado? Fez birra? Tem família ligada às farmácias? Amigos? Conhecidos? É um favor pessoal? Foi promessa a Nossa Senhora de Fátima? Diga, a quem prometeu? Ou não há mesmo nada mais importante do que as farmácias? Como a corrupção, a ineficiência da justiça, a iliteracia, já para não falar das pensões de miséria e do aumento do número de sem abrigo, só por exemplo? Ora aí está uma medida boa para um discurso de tomada de posse: "nem mais um sem abrigo na rua!". Mas não. Calhou a sorte às farmácias.
Caramba, expliquem-me, que isto não é normal.
quinta-feira, 25 de maio de 2006
A burrice
Hoje vou falar de coisas simples. E como já não é a primeira vez que explico o país às criancinhas, cá vou bater mais no ceguinho para ver se dou vista a mais um cego. Todos os dias acorda um. Serás tu?
Imaginem que os clubes de futebol contratavam os jogadores como as empresas em Portugal contratam os trabalhadores. Era assim: o Zé Maria era o melhor avançado da equipa de júniores. O treinador queria contratá-lo para os séniores mas chega-se ao pé do Zé Maria e diz assim: "Pá, tu és bom. Sou treinador há 20 anos e nunca vi um avançado como tu. Por mim, contratava-te. Mas, sabes, o ano passado já meti o filho da minha prima, e tenho lá um filho em casa que para o ano já tem idade para jogar e até dá uns toques na bola... Por isso não te posso contratar. Mas tu és bom, safas-te em qualquer lado. Eles é que não, coitadinhos, porque não são grande coisa e se eu não os safar não jogam em lado nenhum".
Ora, frustrado e a mandar o treinador para o caralho que o enrabe, o Zé Maria lá foi tentar mais clubes, porque afinal é um bom avançado e sabe que o é. Mas em todos ouviu a mesma cantiga. Só joga quem tem cunhas. Até que o Zé Maria se fartou e foi para pasteleiro. Não é um bom pasteleiro mas por causa dos coitadinhos o Zé Maria não se safou.
E foi assim que a mediocridade invadiu os postos de trabalho.
E as equipas lá da terra? Bem, entre elas, sempre havia entre os medianos (mas não os melhores porque os melhores marcadores iam, como se viu, para pasteleiros) quem marcasse um golo ou outro e lá se iam safando.
O pior foi quando fizeram uma selecção e foram jogar com equipas de outros países onde joga quem sabe e não quem tem cunhas. E, como eram uma selecção dos menos maus, e não dos melhores, levaram uma tareia que se consolaram.
É disto que se fala quando se fala da falta de competitividade do país. É disto e tão simplesmente disto. Foram décadas a mandar os craques fazer bolas de berlim no intuito de salvar os coitadinhos da família, amigos e conhecidos. Não se provou muito inteligente porque agora que precisam de um Zé Maria para marcar golos, este está a decorar bolos (e nem por isso muito bem porque onde ele era bom não o deixaram avançar) e a equipa não ganha nem nunca ganhará. Foi cilindrada pelo mérito estrangeiro.
E isto foi a falta de competitividade do país explicada às criancinhas. Quem não perceber que enfie umas orelhas de burro e se vire prá parede sefaxavor que eu vou ali cumer uns tremossos com uns minuins e buber umas inpriais. (fodasse, hoje não que é ainda é quinta, fica prámanhâ.)
Imaginem que os clubes de futebol contratavam os jogadores como as empresas em Portugal contratam os trabalhadores. Era assim: o Zé Maria era o melhor avançado da equipa de júniores. O treinador queria contratá-lo para os séniores mas chega-se ao pé do Zé Maria e diz assim: "Pá, tu és bom. Sou treinador há 20 anos e nunca vi um avançado como tu. Por mim, contratava-te. Mas, sabes, o ano passado já meti o filho da minha prima, e tenho lá um filho em casa que para o ano já tem idade para jogar e até dá uns toques na bola... Por isso não te posso contratar. Mas tu és bom, safas-te em qualquer lado. Eles é que não, coitadinhos, porque não são grande coisa e se eu não os safar não jogam em lado nenhum".
Ora, frustrado e a mandar o treinador para o caralho que o enrabe, o Zé Maria lá foi tentar mais clubes, porque afinal é um bom avançado e sabe que o é. Mas em todos ouviu a mesma cantiga. Só joga quem tem cunhas. Até que o Zé Maria se fartou e foi para pasteleiro. Não é um bom pasteleiro mas por causa dos coitadinhos o Zé Maria não se safou.
E foi assim que a mediocridade invadiu os postos de trabalho.
E as equipas lá da terra? Bem, entre elas, sempre havia entre os medianos (mas não os melhores porque os melhores marcadores iam, como se viu, para pasteleiros) quem marcasse um golo ou outro e lá se iam safando.
O pior foi quando fizeram uma selecção e foram jogar com equipas de outros países onde joga quem sabe e não quem tem cunhas. E, como eram uma selecção dos menos maus, e não dos melhores, levaram uma tareia que se consolaram.
É disto que se fala quando se fala da falta de competitividade do país. É disto e tão simplesmente disto. Foram décadas a mandar os craques fazer bolas de berlim no intuito de salvar os coitadinhos da família, amigos e conhecidos. Não se provou muito inteligente porque agora que precisam de um Zé Maria para marcar golos, este está a decorar bolos (e nem por isso muito bem porque onde ele era bom não o deixaram avançar) e a equipa não ganha nem nunca ganhará. Foi cilindrada pelo mérito estrangeiro.
E isto foi a falta de competitividade do país explicada às criancinhas. Quem não perceber que enfie umas orelhas de burro e se vire prá parede sefaxavor que eu vou ali cumer uns tremossos com uns minuins e buber umas inpriais. (fodasse, hoje não que é ainda é quinta, fica prámanhâ.)
O evangelho de Judas e os outros
Acreditando na autenticidade do chamado Evangelho de Judas, tanto a dos pergaminhos em si como a da tradução revelada pelo documentário da National Geographic, e tendo em conta que as passagens descritas são poucas e podem estar fora de contexto, as ideias em si não são novas nem são surpresa.
O livro leva a acreditar que Judas não é o traidor mas o apóstolo escolhido para ajudar Jesus a cumprir as escrituras. É mesmo sugerido que Judas tinha, do próprio Mestre, revelações acerca da mensagem de Cristo que não eram partilhadas com os outros apóstolos de Jesus.
Não é surpresa porque a teoria não é nova. Confesso, eu é que nunca pensei que fosse tão antiga quanto a data dos pergaminhos parece indicar.
A traição de Judas sempre colocou aos cristãos uma questão ética muito delicada. Os cristãos aceitam (e isso foi até claramente revelado pelo mestre aos apóstolos) que era preciso que se cumprissem as escrituras e que alguém traísse o Cristo. Logo, alguém estava predestinado a fazê-lo. A questão da predestinação é o tal problema delicado.
Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido.
E, respondendo Judas, o que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi? Ele disse: Tu o disseste. (Mateus 26:24,25)
(Citações daqui.)
Ora, se alguém está destinado, condenado desde o nascimento, a fazer o Mal, onde está o livre arbítrio, a Escolha? E se há Escolha, Liberdade, enfim, livre arbítrio, a quem é que cabe a sorte ou o azar de fazer o Mal para cumprir as escrituras e fazer a vontade de Deus? E como é que Deus sabe previamente quem vai fazer o Mal? E se Deus conhece os corações dos homens e pode facilmente adivinhar quem fará o Mal (que é a explicação avançada pelos defensores do livre arbítrio cristão) então para que serve a vida? O jogo não está já todo lançado? E se o resultado está decidido à partida, para quê jogar?
A predestinação é chocante mas o livre arbítrio também. Se na predestinação o homem é um peão nas mãos do destino que apenas cumpre a sua parte, no livre arbítrio Deus escreve a peça que o homem leva à cena, mas em ambos os casos o homem não pode alterar uma vírgula nem acrescentar um ponto. Em ambos os casos, o homem não tem poder algum. No segundo caso, o mais simpático, o homem é um actor voluntário que representa infinitamente o seu papel.
O que nos leva de volta à questão de Judas e ao seu papel. Como é que os evangelhos explicam a traição?
Tal como foi explicado no documentário, à medida que passa tempo sobre a morte de Jesus, os evangelhos vão endurecendo a percepção que é escrita sobre Judas e a culpa dos próprios judeus na morte de Cristo. Convinha aos cristãos desculparem os Romanos e diferenciar a sua fé emergente da fé judaica. Nada disto é novo e nada disto é uma conspiração. Está até muito claro, na própria Bíblia:
À medida que os judeus são culpados e os gentios desculpabilizados, assim também se enegrece a imagem de Judas, desde Mateus (o evangelho mais antigo) a João (o mais recente).
Em Mateus, diz-se:
Repare-se que aqui a palavra usada para Jesus se referir a Judas é "amigo", embora em Mateus Jesus já tivesse declarado que aquele é que o ia trair.
Em Lucas, a traição é explicada com a interferência de Satanás:
Mas, em João, a palavra que Jesus emprega para se referir a Judas é já a palavra "diabo".
Aliás, a imagem que João descreve do Judas de má índole começa ainda antes da traição:
Como se pode ver, Judas não é apenas um traidor. É ladrão, ganancioso, e, pecado dos pecados (como viria a dizer Paulo, "o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males"), era o tesoureiro dos apóstolos, o que guardava o dinheiro e, como descrito acima, o roubava. Logo, pode-se supôr que Judas acompanhava os apóstolos para guardar o saco. Judas é toda a personificação do Mal, e não apenas de um mal menor mas da raiz de todo o Mal.
O que põe uma questão ainda mais delicada. Se Jesus sabia que Judas era a personificação do Mal, e que essa era a inclinação do seu coração, não deveria tentar salvá-lo em vez de o deixar afundar-se na condenação eterna (se ela existe)? Não é o dever do cristão acudir aos doentes, não aos que têm saúde?
E aqui começam as contradições no próprio discurso e prática de Cristo. E aqui diz-se "mas alguém tinha que cumprir as escrituras", e começa também a pescadinha de rabo na boca do livre arbítrio e de a quem cabe a má sorte. E ainda não se perguntou se é possível que alguém tenha apenas inclinação para o Mal, se alguém pode personificar o Mal. A discussão já ia alta (e requentada) quando aparecem estes pergaminhos a colocá-la não nas cátedras das universidades modernas mas no século primeiro. Se há surpresa, é esta.
E se a teoria é tão discutida, é porque é plausível. Quando Pedro se apercebe que Jesus vai ter um fim trágico e o incita a fugir, é acusado de estar sob influência do mesmo diabo que teria influenciado o traidor que entrega Jesus à morte:
O que não deixa de ser curioso, e logicamente indefensável. Não pode estar pelo Diabo aquele que diz a Jesus que se salve e, ao mesmo tempo, aquele que leva Jesus à morte. Ou está um, ou o outro. Como apresentam soluções opostas, não podem de modo algum estar ambos a fazer a vontade do Diabo, ou o Diabo está muito confuso e não sabe o que quer. Mas já dizia Jesus, "se eu expulso demónios pelo demónio, não está o diabo a dividir a sua própria casa"? Quem estará, pois, a dividir a casa?
E depois vem o maior argumento para a admissão da maldade de Judas pelo próprio Judas, que é o seu arrependimento e suicídio. A versão tradicional suaviza a sua inclinação para a Maldade e abre a porta da redenção ao pior dos pecadores. Se não da redenção, pelo menos a do arrependimento. Ficamos a saber que ninguém é completamente mau ou que, pelo menos, Judas não o era. Se o fosse, teria pegado nos 30 dinheiros e gastado no que lhe apetecesse - isso sim, era do Judas do evangelho de João - sem o menor remorso. Sendo assim, e tendo-se arrependido, terá perdão?
Mas segundo o evangelho de Judas, como o conhecemos, também não há grande resposta para este mistério do arrependimento e do suicídio. Se Judas entrega Jesus convencido de que está a fazer a vontade de Deus, porque se suicida? Porque se arrepende?
O evangelho de Judas assenta como uma luva ao pensamento moderno porque dá a total liberdade de escolha ao indivíduo. Judas não parece ser um santo nem um diabo. Parece ser um homem que faz escolhas, mal ou bem influenciadas pelo que acredita, mas apenas um homem como os outros. O próprio suicídio, porque entretanto o mesmo homem mudou de ideias, é a prova dessa total liberdade de escolha, até a escolha absoluta entre a vida e a morte. O Judas do evangelho de Judas não parece ser o mártir nem o condenado; é apenas o indivíduo, na sua liberdade, na sua incoerência, nas suas convicções.
Vai ser difícil para a igreja, qualquer igreja, nos dias que correm, contrariar esta ideia, porque o tempo dos mártires e dos condenados acabou. (Pelo menos em certas partes do planeta.)
Como atalho de foice, é também por isso que "O Código de Da Vinci" tem a popularidade que tem. O ser humano atingiu a maior liberdade que alguma vez teve na sua história e já não aceita que o indivíduo se submeta a uma vontade maior do que a sua própria. O indivíduo divinizou-se. O homem já não aceita mais nada senão ser Todo-Poderoso em relação ao seu destino e acredita que já não precisa de se transcender para ser igual ao divino mas, pelo contrário, aceita que o divino se humanize sem por isso perder a sua divindade.
O livro leva a acreditar que Judas não é o traidor mas o apóstolo escolhido para ajudar Jesus a cumprir as escrituras. É mesmo sugerido que Judas tinha, do próprio Mestre, revelações acerca da mensagem de Cristo que não eram partilhadas com os outros apóstolos de Jesus.
Não é surpresa porque a teoria não é nova. Confesso, eu é que nunca pensei que fosse tão antiga quanto a data dos pergaminhos parece indicar.
A traição de Judas sempre colocou aos cristãos uma questão ética muito delicada. Os cristãos aceitam (e isso foi até claramente revelado pelo mestre aos apóstolos) que era preciso que se cumprissem as escrituras e que alguém traísse o Cristo. Logo, alguém estava predestinado a fazê-lo. A questão da predestinação é o tal problema delicado.
Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido.
E, respondendo Judas, o que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi? Ele disse: Tu o disseste. (Mateus 26:24,25)
(Citações daqui.)
Ora, se alguém está destinado, condenado desde o nascimento, a fazer o Mal, onde está o livre arbítrio, a Escolha? E se há Escolha, Liberdade, enfim, livre arbítrio, a quem é que cabe a sorte ou o azar de fazer o Mal para cumprir as escrituras e fazer a vontade de Deus? E como é que Deus sabe previamente quem vai fazer o Mal? E se Deus conhece os corações dos homens e pode facilmente adivinhar quem fará o Mal (que é a explicação avançada pelos defensores do livre arbítrio cristão) então para que serve a vida? O jogo não está já todo lançado? E se o resultado está decidido à partida, para quê jogar?
A predestinação é chocante mas o livre arbítrio também. Se na predestinação o homem é um peão nas mãos do destino que apenas cumpre a sua parte, no livre arbítrio Deus escreve a peça que o homem leva à cena, mas em ambos os casos o homem não pode alterar uma vírgula nem acrescentar um ponto. Em ambos os casos, o homem não tem poder algum. No segundo caso, o mais simpático, o homem é um actor voluntário que representa infinitamente o seu papel.
O que nos leva de volta à questão de Judas e ao seu papel. Como é que os evangelhos explicam a traição?
Tal como foi explicado no documentário, à medida que passa tempo sobre a morte de Jesus, os evangelhos vão endurecendo a percepção que é escrita sobre Judas e a culpa dos próprios judeus na morte de Cristo. Convinha aos cristãos desculparem os Romanos e diferenciar a sua fé emergente da fé judaica. Nada disto é novo e nada disto é uma conspiração. Está até muito claro, na própria Bíblia:
Actos 13
45 Então os judeus, vendo a multidão, encheram-se de inveja e, blasfemando, contradiziam o que Paulo falava.
46 Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: Era mister que a vós se vos pregasse primeiro a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios;
À medida que os judeus são culpados e os gentios desculpabilizados, assim também se enegrece a imagem de Judas, desde Mateus (o evangelho mais antigo) a João (o mais recente).
Em Mateus, diz-se:
Mateus 26
47 E, estando ele ainda a falar, eis que chegou Judas, um dos doze, e com ele grande multidão com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo.
48 E o que o traía tinha-lhes dado um sinal, dizendo: O que eu beijar é esse; prendei-o.
49 E logo, aproximando-se de Jesus, disse: Eu te saúdo, Rabi; e beijou-o.
50 Jesus, porém, lhe disse: Amigo, a que vieste? Então, aproximando-se eles, lançaram mäo de Jesus, e o prenderam.
Mateus 27
3 Então Judas, o que o traíra, vendo que fora condenado, trouxe, arrependido, as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos,
4 Dizendo: Pequei, traindo o sangue inocente. Eles, porém, disseram: Que nos importa? Isso é contigo.
5 E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar.
Repare-se que aqui a palavra usada para Jesus se referir a Judas é "amigo", embora em Mateus Jesus já tivesse declarado que aquele é que o ia trair.
Em Lucas, a traição é explicada com a interferência de Satanás:
Lucas 22
1 Estava, pois, perto a festa dos ázimos, chamada a páscoa.
2 E os principais dos sacerdotes, e os escribas, andavam procurando como o matariam; porque temiam o povo.
3 Entrou, porém, Satanás em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, o qual era do número dos doze.
4 E foi, e falou com os principais dos sacerdotes, e com os capitäes, de como lho entregaria;
5 Os quais se alegraram, e convieram em lhe dar dinheiro.
6 E ele concordou; e buscava oportunidade para lho entregar sem alvoroço.
(...)
47 E, estando ele ainda a falar, surgiu uma multidão; e um dos doze, que se chamava Judas, ia adiante dela, e chegou-se a Jesus para o beijar.
48 E Jesus lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do homem?
Mas, em João, a palavra que Jesus emprega para se referir a Judas é já a palavra "diabo".
João 6
70 Respondeu-lhe Jesus: Näo vos escolhi a vós os doze? e um de vós é um diabo.
71 E isto dizia ele de Judas Iscariotes, filho de Simão; porque este o havia de entregar, sendo um dos doze.
Aliás, a imagem que João descreve do Judas de má índole começa ainda antes da traição:
João 12
3 Então Maria, tomando um arrátel de unguento de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-lhe os pés com os seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do unguento.
4 Então, um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, filho de Simão, o que havia de traí-lo, disse:
5 Por que não se vendeu este unguento por trezentos dinheiros e näo se deu aos pobres?
6 Ora, ele disse isto, não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava.
7 Disse, pois, Jesus: Deixai-a; para o dia da minha sepultura guardou isto;
8 Porque os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes.
Como se pode ver, Judas não é apenas um traidor. É ladrão, ganancioso, e, pecado dos pecados (como viria a dizer Paulo, "o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males"), era o tesoureiro dos apóstolos, o que guardava o dinheiro e, como descrito acima, o roubava. Logo, pode-se supôr que Judas acompanhava os apóstolos para guardar o saco. Judas é toda a personificação do Mal, e não apenas de um mal menor mas da raiz de todo o Mal.
O que põe uma questão ainda mais delicada. Se Jesus sabia que Judas era a personificação do Mal, e que essa era a inclinação do seu coração, não deveria tentar salvá-lo em vez de o deixar afundar-se na condenação eterna (se ela existe)? Não é o dever do cristão acudir aos doentes, não aos que têm saúde?
E aqui começam as contradições no próprio discurso e prática de Cristo. E aqui diz-se "mas alguém tinha que cumprir as escrituras", e começa também a pescadinha de rabo na boca do livre arbítrio e de a quem cabe a má sorte. E ainda não se perguntou se é possível que alguém tenha apenas inclinação para o Mal, se alguém pode personificar o Mal. A discussão já ia alta (e requentada) quando aparecem estes pergaminhos a colocá-la não nas cátedras das universidades modernas mas no século primeiro. Se há surpresa, é esta.
E se a teoria é tão discutida, é porque é plausível. Quando Pedro se apercebe que Jesus vai ter um fim trágico e o incita a fugir, é acusado de estar sob influência do mesmo diabo que teria influenciado o traidor que entrega Jesus à morte:
Mateus 16
21 Desde então começou Jesus a mostrar aos seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia.
22 E Pedro, tomando-o de parte, começou a repreendê-lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te acontecerá isso.
23 Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens.
O que não deixa de ser curioso, e logicamente indefensável. Não pode estar pelo Diabo aquele que diz a Jesus que se salve e, ao mesmo tempo, aquele que leva Jesus à morte. Ou está um, ou o outro. Como apresentam soluções opostas, não podem de modo algum estar ambos a fazer a vontade do Diabo, ou o Diabo está muito confuso e não sabe o que quer. Mas já dizia Jesus, "se eu expulso demónios pelo demónio, não está o diabo a dividir a sua própria casa"? Quem estará, pois, a dividir a casa?
E depois vem o maior argumento para a admissão da maldade de Judas pelo próprio Judas, que é o seu arrependimento e suicídio. A versão tradicional suaviza a sua inclinação para a Maldade e abre a porta da redenção ao pior dos pecadores. Se não da redenção, pelo menos a do arrependimento. Ficamos a saber que ninguém é completamente mau ou que, pelo menos, Judas não o era. Se o fosse, teria pegado nos 30 dinheiros e gastado no que lhe apetecesse - isso sim, era do Judas do evangelho de João - sem o menor remorso. Sendo assim, e tendo-se arrependido, terá perdão?
Mas segundo o evangelho de Judas, como o conhecemos, também não há grande resposta para este mistério do arrependimento e do suicídio. Se Judas entrega Jesus convencido de que está a fazer a vontade de Deus, porque se suicida? Porque se arrepende?
O evangelho de Judas assenta como uma luva ao pensamento moderno porque dá a total liberdade de escolha ao indivíduo. Judas não parece ser um santo nem um diabo. Parece ser um homem que faz escolhas, mal ou bem influenciadas pelo que acredita, mas apenas um homem como os outros. O próprio suicídio, porque entretanto o mesmo homem mudou de ideias, é a prova dessa total liberdade de escolha, até a escolha absoluta entre a vida e a morte. O Judas do evangelho de Judas não parece ser o mártir nem o condenado; é apenas o indivíduo, na sua liberdade, na sua incoerência, nas suas convicções.
Vai ser difícil para a igreja, qualquer igreja, nos dias que correm, contrariar esta ideia, porque o tempo dos mártires e dos condenados acabou. (Pelo menos em certas partes do planeta.)
Como atalho de foice, é também por isso que "O Código de Da Vinci" tem a popularidade que tem. O ser humano atingiu a maior liberdade que alguma vez teve na sua história e já não aceita que o indivíduo se submeta a uma vontade maior do que a sua própria. O indivíduo divinizou-se. O homem já não aceita mais nada senão ser Todo-Poderoso em relação ao seu destino e acredita que já não precisa de se transcender para ser igual ao divino mas, pelo contrário, aceita que o divino se humanize sem por isso perder a sua divindade.
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