quinta-feira, 25 de maio de 2006

O evangelho de Judas e os outros

Acreditando na autenticidade do chamado Evangelho de Judas, tanto a dos pergaminhos em si como a da tradução revelada pelo documentário da National Geographic, e tendo em conta que as passagens descritas são poucas e podem estar fora de contexto, as ideias em si não são novas nem são surpresa.
O livro leva a acreditar que Judas não é o traidor mas o apóstolo escolhido para ajudar Jesus a cumprir as escrituras. É mesmo sugerido que Judas tinha, do próprio Mestre, revelações acerca da mensagem de Cristo que não eram partilhadas com os outros apóstolos de Jesus.
Não é surpresa porque a teoria não é nova. Confesso, eu é que nunca pensei que fosse tão antiga quanto a data dos pergaminhos parece indicar.

A traição de Judas sempre colocou aos cristãos uma questão ética muito delicada. Os cristãos aceitam (e isso foi até claramente revelado pelo mestre aos apóstolos) que era preciso que se cumprissem as escrituras e que alguém traísse o Cristo. Logo, alguém estava predestinado a fazê-lo. A questão da predestinação é o tal problema delicado.

Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido.
E, respondendo Judas, o que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi? Ele disse: Tu o disseste.
(Mateus 26:24,25)
(Citações daqui.)

Ora, se alguém está destinado, condenado desde o nascimento, a fazer o Mal, onde está o livre arbítrio, a Escolha? E se há Escolha, Liberdade, enfim, livre arbítrio, a quem é que cabe a sorte ou o azar de fazer o Mal para cumprir as escrituras e fazer a vontade de Deus? E como é que Deus sabe previamente quem vai fazer o Mal? E se Deus conhece os corações dos homens e pode facilmente adivinhar quem fará o Mal (que é a explicação avançada pelos defensores do livre arbítrio cristão) então para que serve a vida? O jogo não está já todo lançado? E se o resultado está decidido à partida, para quê jogar?
A predestinação é chocante mas o livre arbítrio também. Se na predestinação o homem é um peão nas mãos do destino que apenas cumpre a sua parte, no livre arbítrio Deus escreve a peça que o homem leva à cena, mas em ambos os casos o homem não pode alterar uma vírgula nem acrescentar um ponto. Em ambos os casos, o homem não tem poder algum. No segundo caso, o mais simpático, o homem é um actor voluntário que representa infinitamente o seu papel.

O que nos leva de volta à questão de Judas e ao seu papel. Como é que os evangelhos explicam a traição?
Tal como foi explicado no documentário, à medida que passa tempo sobre a morte de Jesus, os evangelhos vão endurecendo a percepção que é escrita sobre Judas e a culpa dos próprios judeus na morte de Cristo. Convinha aos cristãos desculparem os Romanos e diferenciar a sua fé emergente da fé judaica. Nada disto é novo e nada disto é uma conspiração. Está até muito claro, na própria Bíblia:

Actos 13

45 Então os judeus, vendo a multidão, encheram-se de inveja e, blasfemando, contradiziam o que Paulo falava.
46 Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: Era mister que a vós se vos pregasse primeiro a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios;


À medida que os judeus são culpados e os gentios desculpabilizados, assim também se enegrece a imagem de Judas, desde Mateus (o evangelho mais antigo) a João (o mais recente).
Em Mateus, diz-se:


Mateus 26

47 E, estando ele ainda a falar, eis que chegou Judas, um dos doze, e com ele grande multidão com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo.
48 E o que o traía tinha-lhes dado um sinal, dizendo: O que eu beijar é esse; prendei-o.
49 E logo, aproximando-se de Jesus, disse: Eu te saúdo, Rabi; e beijou-o.
50 Jesus, porém, lhe disse: Amigo, a que vieste? Então, aproximando-se eles, lançaram mäo de Jesus, e o prenderam.



Mateus 27

3 Então Judas, o que o traíra, vendo que fora condenado, trouxe, arrependido, as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos,
4 Dizendo: Pequei, traindo o sangue inocente. Eles, porém, disseram: Que nos importa? Isso é contigo.
5 E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar.


Repare-se que aqui a palavra usada para Jesus se referir a Judas é "amigo", embora em Mateus Jesus já tivesse declarado que aquele é que o ia trair.
Em Lucas, a traição é explicada com a interferência de Satanás:

Lucas 22

1 Estava, pois, perto a festa dos ázimos, chamada a páscoa.
2 E os principais dos sacerdotes, e os escribas, andavam procurando como o matariam; porque temiam o povo.
3 Entrou, porém, Satanás em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, o qual era do número dos doze.
4 E foi, e falou com os principais dos sacerdotes, e com os capitäes, de como lho entregaria;
5 Os quais se alegraram, e convieram em lhe dar dinheiro.
6 E ele concordou; e buscava oportunidade para lho entregar sem alvoroço.

(...)

47 E, estando ele ainda a falar, surgiu uma multidão; e um dos doze, que se chamava Judas, ia adiante dela, e chegou-se a Jesus para o beijar.
48 E Jesus lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do homem?


Mas, em João, a palavra que Jesus emprega para se referir a Judas é já a palavra "diabo".

João 6

70 Respondeu-lhe Jesus: Näo vos escolhi a vós os doze? e um de vós é um diabo.
71 E isto dizia ele de Judas Iscariotes, filho de Simão; porque este o havia de entregar, sendo um dos doze.



Aliás, a imagem que João descreve do Judas de má índole começa ainda antes da traição:

João 12

3 Então Maria, tomando um arrátel de unguento de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-lhe os pés com os seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do unguento.
4 Então, um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, filho de Simão, o que havia de traí-lo, disse:
5 Por que não se vendeu este unguento por trezentos dinheiros e näo se deu aos pobres?
6 Ora, ele disse isto, não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava.
7 Disse, pois, Jesus: Deixai-a; para o dia da minha sepultura guardou isto;
8 Porque os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes.


Como se pode ver, Judas não é apenas um traidor. É ladrão, ganancioso, e, pecado dos pecados (como viria a dizer Paulo, "o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males"), era o tesoureiro dos apóstolos, o que guardava o dinheiro e, como descrito acima, o roubava. Logo, pode-se supôr que Judas acompanhava os apóstolos para guardar o saco. Judas é toda a personificação do Mal, e não apenas de um mal menor mas da raiz de todo o Mal.

O que põe uma questão ainda mais delicada. Se Jesus sabia que Judas era a personificação do Mal, e que essa era a inclinação do seu coração, não deveria tentar salvá-lo em vez de o deixar afundar-se na condenação eterna (se ela existe)? Não é o dever do cristão acudir aos doentes, não aos que têm saúde?
E aqui começam as contradições no próprio discurso e prática de Cristo. E aqui diz-se "mas alguém tinha que cumprir as escrituras", e começa também a pescadinha de rabo na boca do livre arbítrio e de a quem cabe a má sorte. E ainda não se perguntou se é possível que alguém tenha apenas inclinação para o Mal, se alguém pode personificar o Mal. A discussão já ia alta (e requentada) quando aparecem estes pergaminhos a colocá-la não nas cátedras das universidades modernas mas no século primeiro. Se há surpresa, é esta.

E se a teoria é tão discutida, é porque é plausível. Quando Pedro se apercebe que Jesus vai ter um fim trágico e o incita a fugir, é acusado de estar sob influência do mesmo diabo que teria influenciado o traidor que entrega Jesus à morte:

Mateus 16

21 Desde então começou Jesus a mostrar aos seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia.
22 E Pedro, tomando-o de parte, começou a repreendê-lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te acontecerá isso.
23 Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens.



O que não deixa de ser curioso, e logicamente indefensável. Não pode estar pelo Diabo aquele que diz a Jesus que se salve e, ao mesmo tempo, aquele que leva Jesus à morte. Ou está um, ou o outro. Como apresentam soluções opostas, não podem de modo algum estar ambos a fazer a vontade do Diabo, ou o Diabo está muito confuso e não sabe o que quer. Mas já dizia Jesus, "se eu expulso demónios pelo demónio, não está o diabo a dividir a sua própria casa"? Quem estará, pois, a dividir a casa?

E depois vem o maior argumento para a admissão da maldade de Judas pelo próprio Judas, que é o seu arrependimento e suicídio. A versão tradicional suaviza a sua inclinação para a Maldade e abre a porta da redenção ao pior dos pecadores. Se não da redenção, pelo menos a do arrependimento. Ficamos a saber que ninguém é completamente mau ou que, pelo menos, Judas não o era. Se o fosse, teria pegado nos 30 dinheiros e gastado no que lhe apetecesse - isso sim, era do Judas do evangelho de João - sem o menor remorso. Sendo assim, e tendo-se arrependido, terá perdão?
Mas segundo o evangelho de Judas, como o conhecemos, também não há grande resposta para este mistério do arrependimento e do suicídio. Se Judas entrega Jesus convencido de que está a fazer a vontade de Deus, porque se suicida? Porque se arrepende?
O evangelho de Judas assenta como uma luva ao pensamento moderno porque dá a total liberdade de escolha ao indivíduo. Judas não parece ser um santo nem um diabo. Parece ser um homem que faz escolhas, mal ou bem influenciadas pelo que acredita, mas apenas um homem como os outros. O próprio suicídio, porque entretanto o mesmo homem mudou de ideias, é a prova dessa total liberdade de escolha, até a escolha absoluta entre a vida e a morte. O Judas do evangelho de Judas não parece ser o mártir nem o condenado; é apenas o indivíduo, na sua liberdade, na sua incoerência, nas suas convicções.
Vai ser difícil para a igreja, qualquer igreja, nos dias que correm, contrariar esta ideia, porque o tempo dos mártires e dos condenados acabou. (Pelo menos em certas partes do planeta.)

Como atalho de foice, é também por isso que "O Código de Da Vinci" tem a popularidade que tem. O ser humano atingiu a maior liberdade que alguma vez teve na sua história e já não aceita que o indivíduo se submeta a uma vontade maior do que a sua própria. O indivíduo divinizou-se. O homem já não aceita mais nada senão ser Todo-Poderoso em relação ao seu destino e acredita que já não precisa de se transcender para ser igual ao divino mas, pelo contrário, aceita que o divino se humanize sem por isso perder a sua divindade.

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Jesus... filho de Adão, filho de Deus


Lucas, 3

23 E o mesmo Jesus começava a ser de quase trinta anos, sendo (como se cuidava) filho de José, e José de Heli,
(...)
32 E Davi de Jessé, e Jessé de Obede, e Obede de Boaz, e Boaz de Salá, e Salá de Naassom,
(...)
34 E Judá de Jacó, e Jacó de Isaque, e Isaque de Abraão, e Abraão de Terá, e Terá de Nacor,
(...)
38 E Cainã de Enos, e Enos de Sete, e Sete de Adão, e Adão de Deus.



Adão, filho de Deus. Quer Adão seja o primeiro homem em sentido metafórico ou em sentido real, e todos somos filhos de Adão, então, como Jesus, somos todos também filhos de Deus. Em origem, divinos, como toda a Criação é, em origem, divina.

E se a concepção e encarnação de Jesus é em si um milagre, não é um milagre muito maior este?


Génesis, 2:7


E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.

terça-feira, 16 de maio de 2006

Acho que nunca mais vou sorrir na minha vida.

Nunca.Mais.

A vergonha

Este não era o post programado mas algo me ferve nas entranhas. Estive a ver o desfile de pavões e pavoas a entrarem em clima de festarola de província na Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa, onde vai haver um espectáculo de bárbarie, sofrimento, dor e sangue. Como nas antigas arenas romanas eles iam, sedentos, gordurosos, imorais, as tias e tios das festas do costume, os alpinistas sociais, a gregoriante Fátima Lopes (a quem já se conhece muito bem - que se fodam os bichos - as criações em pele genuína porque acha que sim, que é bem), e muitos outros, mais insuspeitos, que por lá apareceram a dar apoio. É bom vê-los. Assim não enganam ninguém.
Não percebo como é que estas pessoas não conseguem sentir compaixão, empatia, pôr-se no lugar de um animal em sofrimento. Tal como os outros, que esmagam um pombo de propósito como se fosse uma casca de banana. Não percebo. Foi-me retirada a capacidade de compreender a crueldade desnecessária, quanto mais a crueldade por divertimento.
Já o disse antes, raras vezes a inteligência anda de mãos dadas com a sensibilidade. Por alguma razão o cérebro não sente dor. Mas também sei que muita desta gente vai a uma tourada com o mesmo nada na cabeça com que pousa semi-nu(a) para uma revista que lhes pague. Mas confesso que não percebo. Está para além da minha compreensão.
É exactamente por amar os animais que os conheço tão bem. Sei que os animais são desprovidos de compaixão. É por isso que não percebo nem sei como classificar estas pessoas que aparentemente fazem parte da minha espécie, mas rejeito-os. Não podem fazer parte da minha espécie, nem eu posso fazer parte da deles. A minha compaixão pelos animais não se lhes estende porque, apesar de estúpidos, são mais inteligentes do que as pobres vítimas dos seus sacrifícios na arena. E quanto aos que são mesmo muito inteligentes mas não têm coração, de que lhes vale ser humano? Dava-lhes mais jeito pertencer ao reino dos dinossauros.

A minha guerra com as pessoas já acabou quando virei as costas à humanidade há muitos anos atrás. Nem sei porque falo nisto. Mas não consigo evitar a vergonha de pertencer, ainda que remotamente, a esta espécie.
Planeta infernal.

domingo, 14 de maio de 2006

18 de Maio - 20 Horas - MANIFESTAÇÃO EM FRENTRE AO CAMPO PEQUENO

Movimento Anti-Touradas

Caros (as) amigos(as),

Como é do conhecimento geral dia 18 do corrente mês reabre a praça de touros do campo pequeno, em Lisboa. Esta praça, que se encontrou encerrada durante 5 anos, volta agora a disponibilizar o habitual espectáculo de sofrimento e tortura de animais sensíveis a que as touradas já nos habituaram.



É lamentável que em pleno século XXI se opte por promover espaços comerciais associados a comportamentos anti-pedagógicos e de fraco valor cultural em detrimento do enriquecimento educacional e cultural. Porque convenhamos, num país com tanta fome cultural, encontraríamos facilmente outras formas de melhor entreter as nossas gentes.

Porquê a promoção de sofrimento animal como entretenimento e não a promoção de verdadeira arte, como pintura, escultura, teatro, etc..? Porquê insistir em rotular os portugueses como apoiantes de tradições bárbaras, como é o caso das touradas, quando cada vez é maior o número de pessoas que se opoêm a este espectáculo degradante?



Por muito que alguns tentem apresentar argumentos de tradição e cultura, podemos constatar pela evolução social que temos observado que este tipo de espectáculo tem o seu fim muito próximo. Não poderemos ambicionar por um ser humano evoluído e capaz de responder de forma responsável e consciente aos problemas do mundo enquanto nos mantivermos presos a comportamentos retrógados e pouco dignificantes para o Homem, enquanto espécie intelectualmente superior.



Sabemos que são muitos os que rejeitam esta realidade como um legado cultural e tradicional e desaprovam este novo espaço quem tem muito mais de sofrimento do que de entretenimento, nesse sentido promoveremos esta acção de protesto, que terá lugar no dia 18 de Maio, entre as 20H e as 23H, no campo pequeno, por forma a permitir que essas mesmas vozes se façam ouvir.



Porque acreditamos na união de esforços, esta acção acontecerá em parceria com as seguintes organizações: - LPDA - Liga portuguesa dos direitos do animal, MATP -Movimento Anti-Touradas de Portugal, Midas -Movimento internacional em defesa dos animais, GAIA - Grupo de acção e intervenção ambiental, GLA - Grupo de libertação Animal, Infonature.org, APAAC - Associação de protecção dos animais abandonados do Cartaxo, Instituto Zoófilo Quinta Carbonne e Acção Animal - Movimento pelo direito à vida Animal.



Esta coligação terá como slogan a frase " UNIDOS CONTRA AS TOURADAS".



Apelamos ao espírito de participação e união neste dia especialmente triste para os animais e para a luta que diariamente levamos a cabo em prol da defesa dos seus direitos. Ajude-nos a passar esta mensagem por Portugal inteiro e juntar o máximo número de pessoas em torno deste acontecimento. Urge mostrar realmente que os portugueses estão UNIDOS CONTRA AS TOURADAS.

Junte-se a nós! Participe activamente! Pelos animais, por si, por um mundo mais justo e harmonioso!



MATP – Movimento Anti-Touradas de Portugal: www.geocities.com/RainForest/Andes/1084/

GAIA – Grupo de acção e intervenção ambiental: www.gaia.org

ACÇÃO ANIMAL – Movimento pelo direito à vida animal: www.accaoanimal.com

MIDAS – Movimento internacional defesa animais: www.associacaomidas.com

APAAC – Ass. Protecção animais abandonados Cartaxo: www.apaac.zapto.org

LPDA – Liga portuguesa dos direitos do animal: www.lpda.pt

INFONATURE.ORG – www.infonature.org

IZQC – Instituto zoófilo quinta carbone: www.izqc.com

GLA – Grupo de libertação Animal: www.glanimal.com


UNIDOS CONTRA AS TOURADAS


MATP- Movimento Anti-Touradas de Portugal

Apartado 55102, E.C. Galiza,

4051-401 Porto

E-mail: matp@netcabo.ptv


Não farei compras nem entrarei no Campo Pequeno nem assistirei a nenhum espectáculo enquanto a bárbarie se verificar. Qualquer artista que aceite fazer um espectáculo neste recinto é cúmplice também.
Poluir Lisboa com este espectáculo de pobreza de espírito que devia ser PROIBIDO em TODO O PAÍS é uma aberração regressiva do estado da mentalidade de uma civilização.

Mais do que manifestação: BOICOTE!

Não, às vezes não se pode fechar os olhos e dizer que está tudo bem quando não está. Nem há aqui lugar para dubiezas. NÃO É NÃO!

domingo, 7 de maio de 2006

O Livro de Jó

O Livro de Jó é provavelmente o mais filosófico de toda a Bíblia. Aqui se põe em questão a vulnerabilidade e injustiça inerentes à condição humana e o distanciamento de entre o Criador e a Criação. Parte do Velho Testamento, não se encontra aqui o Deus de Jesus, o Deus do amor e perdão, mas um outro, um Deus distante e científico que observa a sua criação num laboratório e sujeita os seres humanos a experiências e testes de modo a discutir os resultados com os colegas.
Há tempos falei de "Memnoch" de Anne Rice, e da versão de Lúcifer, Melkor, na obra de J.R.R. Tolkien, especialmente o "Silmarillion". Mas nada como falar da versão original, e o original está aqui.

Começa tudo como uma anedota. Deus e o diabo encontram-se num bar...

1:6
Ora, chegado o dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles.
1:7
O Senhor perguntou a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao Senhor, dizendo: De rodear a terra, e de passear por ela.
1:8
Disse o Senhor a Satanás: Notaste porventura o meu servo Jó, que ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, que teme a Deus e se desvia do mal?
1:9
Então respondeu Satanás ao Senhor, e disse: Porventura Jó teme a Deus debalde?
1:10
Não o tens protegido de todo lado a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? Tens abençoado a obra de suas mãos, e os seus bens se multiplicam na terra.
1:11
Mas estende agora a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e ele blasfemará de ti na tua face!


Jó era um homem rico. Tinha bens materiais e uma grande e feliz família. Tinha tudo o que um homem da época podia querer. E tinha uma riqueza maior do que essa. Jó sabia que a sorte é fortuita e em vez de se vangloriar das sua fortuna dava graças a Deus, literalmente, por tudo o que tinha recebido.
É esta riqueza interior de Jó que leva Satanás (que significa "O Acusador") a propôr a Deus que lhe tire tudo e observe os resultados. Deus permite a experiência. Logo de seguida, a Jó acontecem desgraças atrás de desgraças. Todo o seu gado morre, todas as suas casas são destruídas por catástrofes, todos os seus filhos morrem. Jó fica na mais absoluta miséria.
Mesmo assim, não amaldiçoa o Criador. E, no tal bar, Deus e o Diabo discutem. E o Diabo acusa o Homem de egoísmo:

Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida. Porém estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se näo blasfema contra ti na tua face!



É assim que Job se vê acometido de uma terrível doença que lhe enche o corpo de chagas. A sua desgraça e queda é tão grande e tão avassaladora que a sua própria mulher lhe diz: "Amaldiçoa a Deus e morre!"
As pessoas daquela época e lugar acreditavam que as desgraças eram castigos de Deus. Temos de perdoar à pobre senhora que estava de cabeça perdida. Afinal, os filhos também eram dela, já para não falar nas riquezas que também lhe pertenciam. Não deixa de ser curioso que a mulher de Jó não tenha sido destruída também. Parece propositado que lhe caiba a parte da tortura psicológica. De todas as taças de sofrimento foi permitido que Jó bebesse. Mas em vida.

Jó senta-se no chão e lamenta-se, completamente sozinho. Depois chegam três amigos que lhe fazem companhia. "E assentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande."
Até que Jó finalmente se lamenta e deseja nunca ter nascido. O sofrimento finalmente quebrou-o.
Aqui começa a parte mais interessante do livro, em que Jó e os três amigos, e um quarto participante que entra no debate, discutem a justiça e a injustiça da existência. Os amigos, tal como a mulher de Jó, estão convencidos de que tudo o que lhe aconteceu foi castigo divino. Certamente Jó teria pecado no seu coração, e merecia o sofrimento, e devia assumir a sua culpa e arrepender-se. Jó insiste que não, e batalha com os seus amigos de que não tem culpa alguma e de que Deus o abandonou sem razão. Jó está revoltado e zanga-se com os amigos que o acusam, e os amigos zangam-se com ele.
Já li muito sobre estes três amigos de Jó. Diz-se que não eram verdadeiros amigos mas tentadores enviados pelo Diabo. Eu acho que quem diz isto não sabe o que são amigos. Se depois de perder tudo e ser alvo de uma doença tão nefasta Jó ainda tinha três amigos que lhe faziam companhia, eram verdadeiros amigos. Todos os outros, que não eram verdadeiros amigos, tinham-se afastado. Jó continuava a ser abençoado sem o saber. Ter amigos na abundância é fácil; ter amigos que se sentem no pó durante a calamidade e discutam filosoficamente a existência humana, isso é raro.

1 O homem, nascido da mulher, é de poucos dias e farto de inquietaçäo.
2 Sai como a flor, e murcha; foge também como a sombra, e não permanece.


É verdade que os amigos de Jó, tal como a sua mulher, reflectiam o pensamento da época. Se Jó tinha sofrido era necessariamente porque tinha pecado. Era forçosamente um castigo, ponto final. Só Jó sabia que era inocente e que tinha razão em lamentar-se. E irrita-se quando lhe dizem que Deus é justo, porque Jó não vê justiça nenhuma. Mas não pode provar que é inocente.
Discute-se então porque é que as coisas más acontecem a pessoas boas. Onde está a justiça divina? (E nem sabiam da missa metade, que estavam a viver uma experiência divina e a ser observados por seres divinos!) E Jó insiste que não, que os iníquos também são ricos e abençoados, e deitam-se de noite e dormem descansados e não pensam no mal que fazem. Se não há justiça, qual é, então, o benefício de ser justo? Qual é, então, o benefício de ser bom?

Depois de grande debate, Deus decide falar. E o que diz o Criador? Fala da sua Criação. Pergunta-lhes qual deles é capaz de fazer um universo. Qual deles tem poder para mandar nos rios, nos mares, na Terra, na natureza, que Ele criou. E faz-lhes ver que são pequenos e insignificantes.
E pergunta-lhes:

11 Quem primeiro me deu, para que eu haja de retribuir-lhe? Pois o que está debaixo de todos os céus é meu.


Aqui está o cerne da questão. O que é que Deus deve a alguém? Quem se atreve a responder? Deus é o Todo-Poderoso. Deus é o Criador. Se Deus não tivesse criado Jó, nem haveria Jó para se lamentar. Porque, pois, se lamenta? Devia estar feliz porque alguém o criou. O Criador não deve nada a ninguém.

Acaba assim a experiência. No fim, vão todos alegremente fazer sacrifícios pelos seus pecados, Jó volta a ser abençoado em dobro, rico em dobro, pai em dobro. E tudo volta a ser como dantes.
Mas volta mesmo? Não, não volta. Ficam muitas perguntas por responder. Algumas só respondidas no Novo Testamento. Outras, ainda sem resposta. E esta é a principal: quem tem o direito de fazer de Deus e trazer ao mundo criaturas que sofrem, só porque pode? Nesse caso, qual é a moralidade de Deus? Sem o amor divino, não é o mundo uma selva, um jardim selvagem?
E se Deus não ama a sua Criação, porque haveria a sua Criação de amar a Deus?
Porque haveria a Criação de estar grata por viver, se não ama a vida? Se, como Jó, amaldiçoa o dia em que nasceu?
Ingratos? Pois, talvez. Mas conhece Deus, no seu Poder Absoluto, o sofrimento da condição humana? Ou é preciso que Deus se faça homem e venha à terra e partilhe do sofrimento da sua Criação para perceber do que Jó se queixa?...

Pois.

sábado, 6 de maio de 2006

Totally goth

Roubado do Burden and Chaos:

Totally Goth

So if you're not totally goth
you better fuck off


Gosto do estilo do gajo que usa um vestido mais comprido do que o meu. É decente.