Há tempos falei de "Memnoch" de Anne Rice, e da versão de Lúcifer, Melkor, na obra de J.R.R. Tolkien, especialmente o "Silmarillion". Mas nada como falar da versão original, e o original está aqui.
Começa tudo como uma anedota. Deus e o diabo encontram-se num bar...
1:6
Ora, chegado o dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles.
1:7
O Senhor perguntou a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao Senhor, dizendo: De rodear a terra, e de passear por ela.
1:8
Disse o Senhor a Satanás: Notaste porventura o meu servo Jó, que ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, que teme a Deus e se desvia do mal?
1:9
Então respondeu Satanás ao Senhor, e disse: Porventura Jó teme a Deus debalde?
1:10
Não o tens protegido de todo lado a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? Tens abençoado a obra de suas mãos, e os seus bens se multiplicam na terra.
1:11
Mas estende agora a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e ele blasfemará de ti na tua face!
Jó era um homem rico. Tinha bens materiais e uma grande e feliz família. Tinha tudo o que um homem da época podia querer. E tinha uma riqueza maior do que essa. Jó sabia que a sorte é fortuita e em vez de se vangloriar das sua fortuna dava graças a Deus, literalmente, por tudo o que tinha recebido.
É esta riqueza interior de Jó que leva Satanás (que significa "O Acusador") a propôr a Deus que lhe tire tudo e observe os resultados. Deus permite a experiência. Logo de seguida, a Jó acontecem desgraças atrás de desgraças. Todo o seu gado morre, todas as suas casas são destruídas por catástrofes, todos os seus filhos morrem. Jó fica na mais absoluta miséria.
Mesmo assim, não amaldiçoa o Criador. E, no tal bar, Deus e o Diabo discutem. E o Diabo acusa o Homem de egoísmo:
Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida. Porém estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se näo blasfema contra ti na tua face!
É assim que Job se vê acometido de uma terrível doença que lhe enche o corpo de chagas. A sua desgraça e queda é tão grande e tão avassaladora que a sua própria mulher lhe diz: "Amaldiçoa a Deus e morre!"
As pessoas daquela época e lugar acreditavam que as desgraças eram castigos de Deus. Temos de perdoar à pobre senhora que estava de cabeça perdida. Afinal, os filhos também eram dela, já para não falar nas riquezas que também lhe pertenciam. Não deixa de ser curioso que a mulher de Jó não tenha sido destruída também. Parece propositado que lhe caiba a parte da tortura psicológica. De todas as taças de sofrimento foi permitido que Jó bebesse. Mas em vida.
Jó senta-se no chão e lamenta-se, completamente sozinho. Depois chegam três amigos que lhe fazem companhia. "E assentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande."
Até que Jó finalmente se lamenta e deseja nunca ter nascido. O sofrimento finalmente quebrou-o.
Aqui começa a parte mais interessante do livro, em que Jó e os três amigos, e um quarto participante que entra no debate, discutem a justiça e a injustiça da existência. Os amigos, tal como a mulher de Jó, estão convencidos de que tudo o que lhe aconteceu foi castigo divino. Certamente Jó teria pecado no seu coração, e merecia o sofrimento, e devia assumir a sua culpa e arrepender-se. Jó insiste que não, e batalha com os seus amigos de que não tem culpa alguma e de que Deus o abandonou sem razão. Jó está revoltado e zanga-se com os amigos que o acusam, e os amigos zangam-se com ele.
Já li muito sobre estes três amigos de Jó. Diz-se que não eram verdadeiros amigos mas tentadores enviados pelo Diabo. Eu acho que quem diz isto não sabe o que são amigos. Se depois de perder tudo e ser alvo de uma doença tão nefasta Jó ainda tinha três amigos que lhe faziam companhia, eram verdadeiros amigos. Todos os outros, que não eram verdadeiros amigos, tinham-se afastado. Jó continuava a ser abençoado sem o saber. Ter amigos na abundância é fácil; ter amigos que se sentem no pó durante a calamidade e discutam filosoficamente a existência humana, isso é raro.
1 O homem, nascido da mulher, é de poucos dias e farto de inquietaçäo.
2 Sai como a flor, e murcha; foge também como a sombra, e não permanece.
É verdade que os amigos de Jó, tal como a sua mulher, reflectiam o pensamento da época. Se Jó tinha sofrido era necessariamente porque tinha pecado. Era forçosamente um castigo, ponto final. Só Jó sabia que era inocente e que tinha razão em lamentar-se. E irrita-se quando lhe dizem que Deus é justo, porque Jó não vê justiça nenhuma. Mas não pode provar que é inocente.
Discute-se então porque é que as coisas más acontecem a pessoas boas. Onde está a justiça divina? (E nem sabiam da missa metade, que estavam a viver uma experiência divina e a ser observados por seres divinos!) E Jó insiste que não, que os iníquos também são ricos e abençoados, e deitam-se de noite e dormem descansados e não pensam no mal que fazem. Se não há justiça, qual é, então, o benefício de ser justo? Qual é, então, o benefício de ser bom?
Depois de grande debate, Deus decide falar. E o que diz o Criador? Fala da sua Criação. Pergunta-lhes qual deles é capaz de fazer um universo. Qual deles tem poder para mandar nos rios, nos mares, na Terra, na natureza, que Ele criou. E faz-lhes ver que são pequenos e insignificantes.
E pergunta-lhes:
11 Quem primeiro me deu, para que eu haja de retribuir-lhe? Pois o que está debaixo de todos os céus é meu.
Aqui está o cerne da questão. O que é que Deus deve a alguém? Quem se atreve a responder? Deus é o Todo-Poderoso. Deus é o Criador. Se Deus não tivesse criado Jó, nem haveria Jó para se lamentar. Porque, pois, se lamenta? Devia estar feliz porque alguém o criou. O Criador não deve nada a ninguém.
Acaba assim a experiência. No fim, vão todos alegremente fazer sacrifícios pelos seus pecados, Jó volta a ser abençoado em dobro, rico em dobro, pai em dobro. E tudo volta a ser como dantes.
Mas volta mesmo? Não, não volta. Ficam muitas perguntas por responder. Algumas só respondidas no Novo Testamento. Outras, ainda sem resposta. E esta é a principal: quem tem o direito de fazer de Deus e trazer ao mundo criaturas que sofrem, só porque pode? Nesse caso, qual é a moralidade de Deus? Sem o amor divino, não é o mundo uma selva, um jardim selvagem?
E se Deus não ama a sua Criação, porque haveria a sua Criação de amar a Deus?
Porque haveria a Criação de estar grata por viver, se não ama a vida? Se, como Jó, amaldiçoa o dia em que nasceu?
Ingratos? Pois, talvez. Mas conhece Deus, no seu Poder Absoluto, o sofrimento da condição humana? Ou é preciso que Deus se faça homem e venha à terra e partilhe do sofrimento da sua Criação para perceber do que Jó se queixa?...
Pois.
